Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘BlockNotes’ Category

UM ANDARILHO DENTRO DE CASA

 

Meu conterrâneo de Ervália-MG, MILTON REZENDE, grande poeta com nove livros publicados, acaba de lançar este Um Andarilho Dentro de Casa, em que registra sua extraordinária capacidade de fazer “poesia factual”, nascida de sua própria experiência. Milton acaba de passar por uma grande provação, ficando entre a vida e a morte em decorrência de uma operação que se agravou. A cabeça sempre lúcida, os sentidos cada vez mais aguçados, regressa ele agora ao mundo da poesia trazendo o substrato de sua vivência, a sua descida ao inferno existencial. Mas o faz serenamente, sem estardalhaço, com a mestria de quem realmente atravessou a vida como um andarilho do sonho.

Ao receber o livro, escrevi para ele:

Que beleza este seu livrão!!! Um Andarilho dentro de casa – poesia forte, pessoal, cheia de fúria e som como em Shakespeare. Você atingiu o máximo de sua capacidade de expressão poética, pois conseguiu fazer poemas extremamente fortes sem um mínimo de sentimentalismo nem autopiedade.  Pura experiência pessoal transposta para a Poesia.

Coisa rara, meu caro. Você merece o prêmio do reconhecimento de seus leitores e o abraço apertado aqui do seu conterrâneo Jubiloso.

Ivo

P.S. Os 3 poemas finais de o Ultimo Poema são simplesmente antológicos.

 

Caro leitor de meu blog, se você gosta de poesia (poesia séria e não babaquice melosa) adquira este livro, encomende-o pelo e-mail: milton.rezende@yahoo.com.br

Read Full Post »

Leitor cativo da Gaveta, já correspondente contumaz e amigo, me escreve entre pressuroso e inquieto para perguntar o motivo de eu ter traduzido o verso “Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido”, por “Pensar que não a tenho. Sentir tê-la perdido”, do famoso poema de Neruda, Posso escrever os versos mais tristes esta noite, se qualquer pessoa, com um mínimo conhecimento do espanhol, poderia ler facilmente – Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi?

A explicação é simples: neste caso, por causa da métrica e da rima. Desculpem se, com a série de minudências técnicas que se seguem, possa eu cansar o leitor que não esteja diretamente interessado nisto. Mas vejamos: Este sentido poema de amor de Pablo Neruda – Posso escrever os versos mais tristes esta noite — já foi mil vezes traduzido e circula adoidado na Internet. É que, nele, as palavras do original são tão parecidas com as nossas que se tem a impressão de que basta trocar umas pelas outras para se ter uma perfeita tradução do poema.

Mas, do ponto de vista formal, não é bem assim, pois um poema obedece a alguns critérios que às vezes fogem ao leitor comum, como por exemplo a métrica. Um poema, em geral, obedece a um determinado número de sílabas métricas, o que determina seu ritmo, o compasso do verso. No caso deste, e de outros poemas semelhantes de Neruda, ele utilizou o alexandrino espanhol, que equivale a um verso composto por dois hemistíquios (metade de um verso) de 6 sílabas cada um, como veremos:

Pue/ do es/cri/bir/ los/ ver/ sos/ mas/ tris/tes/ es/ta/no/(che)

1       2    3     4    5     6      //       1      2   3    4    5    6

[O alexandrino espanhol difere do nosso que considera como tal apenas o verso composto de 12 sílabas métricas, com ou sem cesura. Cesura é o corte do verso na sexta sílaba. Quando essa sexta sílaba termina por palavra oxítona, o sétimo tanto pode começar por vogal quanto por consoante.  Mas se termina em vogal, para que se conservem as 12 sílabas, é necessário que a palavra seguinte (7ª. sílaba) também comece por vogal ensejando a elisão (junção de 2 vogais). Como se sabe, a contagem das sílabas métricas se dá somente até a última sílaba tônica].

 

Se a tradução pretende, como fiz, manter a mesma métrica espanhola (6 + 6), o primeiro verso vai corresponder exatamente:

Po/sso  es/cre/ver/ os/ ver/sos/ mais/ tris/tes/ es/ta/ noi/(te)

1       2      3     4     5    6             1      2   3    4   5      6

 

Mas nem sempre isto acontece. Temos, logo em seguida: El/ vien/to/ de/ la/ no/(che)/ gi/ra/ en/el/ cie/ lo  y/ can/(ta), com o primeiro hemistíquio que teria em português apenas 5 sílabas métricas: O/ ven/to /da/ noi/(te) etc. Quando isto ocorre, o tradutor ortodoxo procurará uma forma de alongar o verso em mais uma sílaba: Gira o vento da noite pelos céus e canta, recomposição obtida aqui com uma simples transposição de termos sem alterar em quase nada a frase. Mas, em outros momentos, essa recomposição se torna um tanto difícil. (Abstenhamo-nos de exemplos, que o leitor já terá entendido).

O outro aspecto a considerar é a rima. Os versos deste poema obedecem a rimas toantes (habituais em espanhol, em que apenas as vogais da palavra se igualam. Assim: quiso (i-o) e infinito (i-o) rimam entre si, bem como as outras: fijos, perdido, rocío, conmigo, mismos, oído, infinitos, olvido, perdido e escribo). Por este motivo foi que tive de alterar o verso citado pelo nosso caro missivista: Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi, porquanto a palavra perdi não rima (rima espanhola, é claro) com rocio, palavra aliás que tive de manter para efeito de rima, mas que, em outras circunstâncias, eu teria mudado para esquecimento. O mesmo aconteceu com o verso final em que tive de sacrificar o “lhe escrevo” (que não tem “i” em português), trocado por “lhe dedico” para obter a rima i/o.

Entendo perfeitamente a objeção do meu contumaz e sensível leitor: estas imposições técnicas podem alterar às vezes a naturalidade e a concisão dos versos e, por isso, para satisfazer-lhe a vontade, faço em seguida a tradução do mesmo poema como se estivesse escrito em prosa e, portanto, isento dos ditames da métrica e da rima:

 

Poema XX

 

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,

E tiritam, azuis, os astros à distância”.

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Em noites como esta, a tive entre meus braços.

Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela me quis, às vezes eu também a queria.

Como não haver amado seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.

E o verso cai na alma como no campo o rocio.

Que importa se meu amor não pudesse guardá-la.

A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.

Minha alma não se contenta em havê-la perdido.

A fim de aproximá-la, meu olhar a busca.

Meu coração a busca, e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.

Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a quero, é certo, mas quanto que a queria.

Minha voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes era de meus beijos.

Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Já não a quero, é certo, mas talvez a queira.

É tão curto o amor e tão longo o esquecimento.

Porque em noites assim eu a tive em meus braços,

Minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Embora esta seja a última dor que ela me cause

E estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Read Full Post »

reis

Já é Natal porque a gente ouve uns sinos que tocavam longe na nossa infância, na noite que estava sempre enevoada, as pessoas indo para a missa do galo que procurávamos em nosso quintal onde nunca tinha havido um galo. E um certo corre-corre dos lados da cozinha, a preparação da ceia, as velas que estavam escondidas no étager, a presença indefectível de Geralda, pronta para se vestir de Papai Noel.  Sim, tudo já eram prenúncios, mas temíamos pelo dia 25, o do aniversário pois todo ano chovia, chovia forte e as mães não deixavam os meninos vir à festa. Ficávamos sozinhos, eu e meus irmãos, olhando o tempo através da vidraça, imaginando a possibilidade de aparecer alguém vindo embaixo daquele guarda-chuva que passava no entanto sem entrar no prédio.

Já é Natal porque muitos natais já se passaram, os da infância se arrastando, ah meu Deus agora só no ano que vem, os da juventude tão depressa, as férias voaram num minuto, e os da velhice, esse sopro que passa veloz, mas deixa sempre a ameaça de parar um dia.

Sim, já é Natal pois vultos de anjos que adejam, magos que seguem o rastro de uma estrela, e o presepe, o burro, a manjedoura, os indícios materiais do evento. Não há como fugir desse menino-símbolo, desse deus que criamos e sacrificamos, desse apelo ao invisível, desse desesperado aceno ao inalcançável.

Já é Natal porque em meio a tanta incerteza, decepção, angústia, desse grito agudo da miséria humana, dessa incapacidade de um gesto, de uma ação, só nos resta a esperança de um milagre, e tudo nos projeta em direção do divino transcendente. Uma luz há de nascer. Natal é luz.

FELIZ NATAL! E ANO NOVO MAIS AINDA!

Como sempre no Natal, a Gaveta entrará em recesso por uns tempos, devendo regressar depois do Carnaval. Mas sem fechar as portas, que continuarão abertas de par em par aos nossos leitores que poderão escarafunchar à vontade e aproveitar para ler os artigos mais longos. Também este ano ilustramos o post com uma pintura a óleo de um dos componentes da associação “Pintores com a Boca e os Pés”, que todos os anos editam uma série de belíssimos cartões postais executados por eles. Merecem o seu apoio pelo esforço e a qualidade de seus trabalhos (tel. (11) 5053-5100 ou www.apbp.com.br).

image003

HOMENAGEM PÓSTUMA

Querido irmão, Ney Julião: mais um Natal sem tua voz, mais um Natal sem teu abraço. Éramos dois, éramos nós; hoje sou eu, um só que faço esta oração saudosa e triste para que a ouças lá no espaço onde tu’alma inda persiste.

A Câmara Municipal de Ervália-MG, na pessoa de seu presidente, o vereador Helder Souza Mattos, prestou uma bela e justa homenagem ao Prof. Ney Julião Barroso, dando seu nome à Sala de Estudos da Biblioteca Municipal daquele município, para a qual o homenageado colaborou com  a doação de cerca de 5.000 volumes de caráter didático.

Read Full Post »

bolo

Inaugurada em 25 de julho de 2010, a Gaveta estaria completando hoje o 6º aniversário, mas – para efeitos de aposentadoria – ela só tem, na verdade, menos de cinco anos de funcionamento efetivo. Uma decisão in extremis levou-nos a interromper sua publicação entre 23 de junho de 2014 e 10 de fevereiro de 2016, ou seja, um lapso de cerca de um ano e meio. Para minha íntima satisfação, verifiquei, pelas estatísticas, que a Gaveta não deixou de ser visitada um só dia durante aquele longo período. Isto me convenceu de que tenho alguns seguidores fieis e de que, se sempre escrevi estas notas para o “meu secreto prazer” (como diria Gide), elas também despertam o interesse ou a benevolência de um singelo número de leitores. Vez por outra (confesso que gostaria fossem muito mais frequentes!), esses leitores-amigos deixam pequenas notas e comentários que servem de estímulo e inspiração para o prosseguimento deste trabalho, sobre a utilidade do qual sempre levantei dúvidas. E aproveito este papo informal para dizer que às vezes me surpreendo com a reação dos leitores.  Ainda pelas estatísticas, o post mais visitado até hoje (alguns milhares de consultas, cerca de uma dezena cotidianamente) é a minha tradução de “Eu canto o corpo elétrico”, de Walt Whitman. Tenho grande admiração pela poesia desse gigante americano e, por isso mesmo e pensando nos leitores, publiquei recentemente a tradução de outro de seus célebres poemas, “Eu ouço a América cantando ”, devidamente acompanhado de seu epígono negro, o “Eu também canto a América”, de Langston Hugues. Mas, para minha surpresa, esse novo post foi escassamente consultado pelos leitores e nele jamais deixaram um simples “gostei!”. Que pena! Seria tão bom se eu pudesse saber o que os leitores procuram ou gostariam de encontrar nesta Gaveta…

Como das outras vezes, faremos um pequeno recesso após o aniversário, mas o de agora será realmente curto, de no máximo três semanas. Como sempre, a Gaveta continuará aqui aberta à visitação e desde já lhes deixo um grande e extenso artigo de consolação, que irá requerer várias consultas: “As Quatro Meninas”, peça teatral surrealista de Picasso, com seis longos atos, cuja leitura levará certamente algum tempo para ser feita. Até breve.

Read Full Post »

(mais uma historinha só para divertir)

confessa

Seu Carlino era viúvo, não tinha filhos e criava galinhas no pequeno quintal, onde havia um casebre que a mãe, ao morrer, lhe deixara. Religioso de coração e alma, não saía da igreja, e confessava pelo menos uma vez por dia. Monsenhor, o vigário, não cansava de dizer: “Ó Carlino, isto não é pecado.Vai cuidar de suas galinhas!” Elas eram sua fonte de renda, pois, com a venda de ovos e, de quando em quando, de uns frangos da ninhada, é que o pobre ia levando a vida.

Num domingo, resolveu abrir-se no confessionário: “Seu Padre, vou me suicidar!” e, ante o espanto do vigário, se justificava: “Estou velho e só penso em morrer para entrar no paraíso e estar à direita de Deus Padre!  Sou um homem de bem, não tenho pecados e decerto irei para o céu”.

Seu Padre advertia: “Não seja louco, homem. A religião é contrária ao suicídio. Se você se matar, vai é para o inferno. Tira isso da cabeça e reze vinte ave-marias por penitência deste grave pecado”.

Carlino se resignava, mas a ideia não lhe saía da cabeça: trocar a existência inútil que levava para usufruir a bem-aventurança da vida eterna. Tudo se resolveria com um acidente, uma facada no peito ou um trago de veneno. Deus não podia ser injusto com ele, estava cansado da vida, queria o descanso dos céus. Certamente a religião estava errada em não admitir o suicídio.

Um dia, decidiu-se: “Seu Padre, vai ser hoje. Olha aqui: até já comprei a lata de formicida: uma boa dose e logo estarei na presença de Deus”!

Monsenhor tentou arrancar-lhe da mão a lata do veneno. Como Carlino resistisse, o padre teve um arroubo de fúria e lhe gritou:

“Seu Carlino, não seja idiota. Não vê que essa história de céu não existe, que a gente morre e acabou?! Que tudo não passa de uma invenção da Igreja para manter a fé? Reino de Deus, vida eterna, recompensa dos céus, tudo isto é bobagem, patranha para iludir os crentes. Depois da formicida o que virá é a cova rasa e a podridão. Larga essa lata!”

Carlino estava estarrecido. Nunca ouvira tal imprecação da boca de Monsenhor, que em suas prédicas dominicais, sempre exaltava a glória do Senhor, a ressurreição da carne, a vida eterna, amém. Diante da expressão firme e dura do padre, ainda titubeou: “O senhor está falando sério? É tudo mentira?” “Tudo, tudo. Se vivo dizendo o contrário é que sei que não existe o Inferno para onde eu iria por ter jurando em falso”.

Carlino entregou a lata ao padre, olhando para ele profundamente consternado: o homem devia estar fora de si, que Deus o perdoe!  E saiu da igreja cabisbaixo, atarantado.  Na dúvida, foi tratar de suas galinhas.

Monsenhor, refeito da convulsão, olhou para o altar: “Perdão, Senhor! Mas foi a única maneira de salvar a vida desse miserável”!

Read Full Post »

JÁ É NATAL

DIGITALIZAR0001-(3a)

A GAVETA DESEJA AOS SEUS AMIGOS E VISITANTES UM NATAL
TRANQUILO E UM ANO NOVO CHEIO DE ESPERANÇAS E BELAS
REALIZAÇÕES. ESTAREMOS, COMO DAS OUTRAS VEZES , EM RECESSO TEMPORÁRIO, MAS A GAVETA CONTINUARÁ SEMPRE ABERTA AOS VISITANTES,
VOLTAREMOS NO DIA 13 DE FEVEREIRO, APÓS O CARNAVAL.

(Este belo cartão de Natal acima foi pintado com a boca por Carlos Fernando Ayala Moreno, membro da associação Pintores com a Boca e os Pés, que congrega artistas deficientes dos membros superiores.
Eles editam todos os anos belos calendários e cartões de Natal.
Ajude-os adquirindo seus produtos:
Rua Tuim, 426 – CEP 04514-101 – São Paulo-SP)
(11) 5053-5100 e fax 5051-0797

***

PRECE AO NEY

 ney 001

Querido irmão, seja onde quer que estejas, no céu, numa galáxia além no espaço, ouve meu pranto, sente meu abraço; quero que me vejas e sintas o vazio em que às vezes me encontro na procura de um sentido para as glórias da vida e seus revezes. Que pena teres desaparecido: é natal e não tenho o teu amparo, os teus votos de feliz aniversário, o teu sorriso claro mesmo ao telefone (algo que me foi sempre necessário). Falta-me a tua voz, o timbre amigo, algo que acione em mim uma esperança, algum empenho que já não trago mais comigo. Mais um natal sem tua voz, mais um natal que não te tenho. Éramos dois, éramos nós. Hoje sou eu, um só que espera, um só que insiste em que ouças minha voz numa outra esfera onde o teu claro espírito resiste.

Read Full Post »

Convite


 

Read Full Post »

Older Posts »

%d blogueiros gostam disto: