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Archive for julho \25\UTC 2013

ANIVERSÁRIO

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A Gaveta está completando três anos hoje. Sujeita a ausências intempestivas, a férias sabáticas e a retiros sparituais é curioso que tenha sobrevivido ao desencanto, ao tédio ou à sensação de inutilidade de seu autor. De outras vezes a volta foi salva pela conclusão de que este é o local perfeito para depositar o lixo que guardo nas minhas estantes. Satisfaz-me a idéia de que posso mandar tudo que escrevo para a estratosfera ou para um espaço indefinido de nosso mundo cibernético. A Internet é a eternidade do presente, o lixão da história contemporânea em que tudo, absolutamente tudo pode ser jogado ali sem que haja montanhas de detritos aparentes ou malcheirosos.

Faremos a parada habitual por tempo indeterminado. Das outras vezes, os leitores continuaram consultando o blog, vasculhando a gaveta e encontrando, conforme o gosto, algum poema antigo ou uma borbulhante taça de champagne — autônomos, despreocupados, sem dar por nossa falta pessoal. Estamos certos de que a gaveta tem vida própria, não necessita de nossos aportes periódicos. Vez por outra um amigo ou mesmo um leitor desconhecido deixa um comentário num dos artigos e vibramos com a ilusão de que esteja havendo uma comunicação nossa com o público, a sensação de não estarmos falando sozinhos. Mas há momentos em que o silêncio dos leitores (amigos ou desconhecidos) em relação a assuntos que nos tocam mais de perto nos deixa sem ânimo, mergulhados numa desolação de auditório vazio. O comentário do leitor, inclusive e principalmente o supletivo, é a razão de termos ido até aqui, aos 3 anos, e a esperança de que ele se manifeste, até mesmo em nossa ausência, será sem dúvida uma razão para voltarmos.

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T S Eliot_biography

Momento estelar da conjunção de homem certo no lugar exato, Thomas Stearns Eliot tornou-se o poeta maior de entre guerras ao encarnar uma transição do passado para o futuro. De formação clássica, universitária, com incursão pelos domínios da filosofia, andou de início quebrando os ídolos do Romantismo e da poesia discursiva, e entronizou no altar da novidade, um ex-deus que andava postergado: John Donne. Trocando a linguagem descritiva e passional por um discurso isento de sentimentalismo e voltado para a exposição de ideias, valeu-se grandemente da técnica da montagem, do fragmento, da intertextualidade para “eliotizar” os morceaux choisis de sua vasta erudição, que compreendia o domínio de várias línguas, inclusive o sânscrito. Seu contato com a vida literária francesa revelou-lhe o verso fluente de Laforgue, o que lhe permitiu contaminar sua expressão metafísica com um coloquialismo que lhe garantiu um tom estilístico peculiar, até então desconhecido nas letras inglesas.

Mas foi graças à confiança e pertinácia de seu conterrâneo Ezra Pound que Eliot teve seu primeiro livro publicado (The Waste Land), contornando a barreira de várias recusas e desconfianças editoriais. Sua técnica do patchwork, da colcha de retalhos, o tratamento leitmotiv dos temas, as disjunções temáticas acabaram acentuando o caráter de hermetismo dos versos, de tal forma que ao sair a lume em 1922, muitos críticos acreditaram tratar-se de uma piada ou brincadeira de mau gosto.

Desde essa época, no entanto, Eliot passou a ocupar uma posição de proeminência, para não dizer ditatorial, no cenário da literatura inglesa, tal como antes dele pontificaram Ben Johnson, Dryden, Pope, Samuel Johnson, Coleridge e Matthew Arnold, todos eles doublês de críticos e poetas. Considerava-se sua poesia como o ponto mais elevado da criatividade humana, só antes alcançado por um Rilke (outro poeta do espírito), e seus conceitos críticos, sua escala de valores artísticos, passaram a ser tidos como julgamentos magisteriais, apesar dos alguns “furos” que lhe foram apontados por sua visão estrábica em relação, por exemplo, à grandiosidade de Blake. E acentuam alguns críticos que sua implicância com Milton tem raízes antes teológicas que literárias.

Embora tenha dito que o “poeta deve adotar como material sua própria linguagem tal como é realmente falada ao seu redor”, a poesia de Eliot é em geral “difícil” e exige formação intelectual, a ponto de ele próprio ter acrescentado uma série de notas no final de “The Waste Land” para orientar a compreensão dos leitores. Mas sua técnica do verso, seu poder de transformar conceitos em palpitações poéticas isentam a compreensão imediata do conteúdo discursivo em proveito de uma fruição indistinta da beleza plástica do verso. Em “Four Quartets”, seu momentum definitivo de 1943, as linhas iniciais transportam o leitor a um dos mais elevados patamares da arte de dizer e de sentir. Neles Eliot atingiu a condição de “suma”, tornou-se o Dante da modernidade.

A apreciação da obra poética de Eliot se tornou ao longo do século XX em verdadeira devoção. Nos meios universitários de todo o mundo perdeu-se a conta das teses, estudos, críticas e papers que lhe foram dedicados, ainda que surgissem vozes discordantes como um estertoroso Harold Bloom a trombetear que sempre odiou a poesia e a nova-crítica de Eliot. A palavra final pode ficar com Northrop Frey, quando afirma: “Um conhecimento generalizado da obra de Eliot é impositivo para quem quer que se interesse pela literatura contemporânea. Gostar ou não dela não tem a menor importância, mas é preciso lê-la”.

 A influência de Eliot na poesia, não só de língua inglesa como de resto em todo o mundo, se fez sentir durante toda a sua fase produtiva (1922-1943), e só começou a arrefecer quando ele se volta para a criação teatral. O sucesso do drama em versos “Crime na Catedral” tem sido hoje creditado de certa forma à dedicação de Martin Brown, que o encenou em função de comprometimentos com sua convicção religiosa. Fartamente revisto, sabe-se que grandes trechos do drama (principalmente os corais) foram então submetidos a hábeis “-ctomias” que os transformaram em poemas fragmentários, posteriormente incorporados a “Burnt Norton” (dos “Quartetos”). Sua tentativa de atingir, no teatro, um público mais amplo, escrevendo comédias “leves” em versos, sem preocupações devocionais, como “O Secretário Particular” e “O Velho Estadista”, trouxe a Eliot apenas algum sucesso de estima, de curta duração. Ele só conheceria a glória do palco depois que Lloyd Weber transformou seus practical cats num espetáculo musical, que o poeta não chegou a assistir.

Pound

 No Brasil, como não podia deixar de ser, abundaram os Eliots, doutrinários ou simplesmente hermético-fragmentários. Mas a ambição do poema longo pelo menos frutificou num dos pontos mais altos da lírica nacional, na “Invenção de Orfeu”, de Jorge de Lima. É curioso notar que a influência de Pound foi muito mais pronunciada e visível entre nós que a de Eliot. Embora os “Quatro Quartetos” tenham conhecido pelo menos três traduções completas, os “Cantos”, de Pound, eram permanentemente citados, traduzidos e plagiados em nossos suplementos literários dos anos 50-60. Mário Faustino, o mais atuante crítico literário daquela geração, nas suas excelentes análises “Fontes e correntes da poesia contemporânea”, dedica 68 páginas (Poesia Experiência – ed. Perspectiva, 1977) a Ezra Pound e nem uma única a T.S, Eliot.” #

Publicado no suplemento literário MAIS! da Folha de S. Paulo em 28.06.2009

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Alguns leitores amigos (e também dois ou três desconhecidos) insistem para que eu republique aqui mais alguns dos artigos políticos que em 1995 escrevi para o Jornal do Brasil. Confesso que a leitura deles me deixa nostálgico, descorçoado mesmo, ao ver que os descalabros contra os quais investíamos naquela época continuam os mesmos ou se agravaram nos dias atuais. Por eles vemos o quanto nós, que nos achávamos argutos e observadores, estávamos enganados, iludidos,  ao julgar que havia alguém imune e acima da lama corrupta em que nos afogávamos (e ainda nos afogamos). E, mais, constatar que estamos incorrendo no mesmo equívoco anterior, sendo enganados pela mesma lábia governamental. Em vez de ação imediata, nos oferecem um plebiscito que todos sabem impossível ou extemporâneo. Se o governo tivesse a mínima decência e honestidade, em vez de proteger a indústria automobilista, teria logo votado uma verba para atender à deficiência de nossos hospitais, fornecendo-lhes imediatamente material e gente habilitada. O mesmo para nossas escolas, nossas estradas, etc. etc ou, ainda, reduzido ontem mesmo o número absurdo de ministérios, impedido os pagamento milionários a servidores públicos e algumas das outras medidas urgentes que o povo vem exigindo quase que diariamente nas ruas. Se a palavra final, se as decisões ficarem a cargo do Parlamento é certo que nada se fará como nada se tem feito. Serão promessas, ofertas improváveis e irrealizáveis. Simples estratagemas enquanto esperam a poeira baixar. E tiveram sorte com a próxima visita do Papa, que polarizará as atenções do povo enquanto eles (políticos) se reorganizam para que tudo permaneça na mesma.  É triste pensar que só com a força e a violência as coisas podem mudar neste mundo. Mas vamos tentar com a persistência. As passeatas não podem fracassar nem esmorecer. Se, ao republicar esses artigos aqui no blog, nossa intenção foi a de despertar os atuais manifestantes para a necessidade de se pôr um paradeiro definitivo a essas mazelas, cumpre-nos igualmente  advertir-lhes das manobras dos políticos em engambelar-nos com algumas promessas inócuas ou enganosas enquanto esperam a “volta ao normal” para permanecerem aferrados às tetas do poder.

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Cientistas políticos, chegados ao Planalto, vêm procurando mostrar ultimamente que os escândalos a que estamos presenciando têm sido uma constante na vida do pais, donde se infere que não devemos falar em descalabros do governo Lula, pois tais ocorrências também e verificaram em administrações anteriores. Mas grande parte da população não pensa assim: acha que valeu a pena sair às ruas para exigir o impeachment de Collor — havia não só evidências, mas provas cabais de que a roubalheira andava à solta e a seu comando, logo, era imperativo que o apeassem do posto a que fora levado exatamente para coibir e acabar com as bandalheiras anteriores. Se houve compra de votos na reeleição de Fernando Henrique, foi uma falha dos representantes da nação não denunciá-la ao país e conclamar o povo para dar a ele o mesmo destino que se deu a Collor.

A verdade é que um erro não justifica outro. Não se trata de fazer um teste comparativo de podridões; o importante é acabar com elas. De experiências passadas o Brasil está farto. Não creio que ninguém esteja esperando a volta de Fernando Henrique ” como um novo D. Sebastião”. Ele pertence ao Terceiro Reinado principesco de nossa evolução política. Mas já passou, estamos lá na frente, com um governo socialista e populista, que tem por finalidade resolver os problemas básicos da população, negligenciados por seus antecessores. Foi para isto que o elegemos.

E se esse governo passa a cada dia o atestado de sua incompetência, isto não quer dizer que a ideologia esteja errada, mas sim que foi traída por seus arautos mal se aboletaram no poder. E se os componentes desse governo popular insistem em permanecer nas tocaias do oportunismo, à feição dos grupos anteriores, o negócio é botar essa gente pra correr. Atrás do que lá se foi, há muitos outros indiciados que merecem o mesmo tratamento. O presidente poderia acordar de seu letargo administrativo e dizer a que veio. Em vez de afirmar que ë a maior “autoridade moral e ética para combater a inflação”, devia era pôr na rua todos os seus áulicos que não se acanham em atirar lama sobre o seu governo; pedir, exigir da justiça a shylockiana libra de carne, processar e punir os culpados flagrados em delito; enfim, mudar todos nos ministérios sobre os quais paire alguma pecha comprovada.

O ideal mesmo seria uma limpeza radical, uma varredura para a lata de lixo e não para baixo do tapete: alijar do cenário político as velhas raposas dos conluios, os ratões dos conchavos, as baratas cascudas das falcatruas, os marimbondos das articulações, e até mesmo os pernilongos sanguinários que chegaram ao poder à custa do crime, da violência, do tráfico, do contrabando, da lavagem de dinheiro. Sabemos, no entanto, que a camarilha se autoprotege; numa democracia — que queremos a todo custo preservar — tal limpeza só seria possível por meio de uma reforma institucional: Constituinte neles! Impõe-se um enxugamento dos partidos, uma seleção rigorosa de candidatos, com seus currículos devidamente investigados antes da homologação de suas candidaturas. E, mais que tudo, os olhos agora bem abertos do eleitor.

Tolice falar em “golpe branco” (ou vermelho); ninguém está — graças a um generoso crédito de confiança — querendo “desestabilizar” o presidente. Queremos vê-lo é assumir de fato. Queremos exatamente aquilo que foi conquistado com a sua vitória e agora desvirtuado pela ambição de seu partido. Queremos moralidade na aplicação dos dinheiros públicos, queremos educação, saúde, estradas… Tudo isso nos prometia o PT para chegar ao poder. Agora que lá está, é justo que se venha exigir dele o cumprimento das promessas.

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A OUTRA MARGEM DO RIO

LULA no SfcIlula94_16 Foto publicada na Folha de S. Paulo do dia 13.07.1994

 

No dia 13 de junho de 1994, o fotógrafo¬cineasta Hélcio Nagamine fez um flagrante histórico que pode se transformar num símbolo nacional. Em plena campanha para a Presidência da República, Lula da Silva acena para a população de uma vila à beira do rio São Francisco, na Bahia. Em primeiro plano, meio de viés, o candidato está de camisa branca sem mangas, calça cáqui, enquadrado a partir da altura da coxa. O braço esquerdo pende ao longo do corpo, deixando ver nitidamente a falha do dedo mínimo, que se tornaria uma espécie de talismã carismático, sinal identificador de origem, unção do destino. O braço direito está erguido um pouco acima da cabeça; a mão esboça um aceno discreto; há uma fita votiva em torno do pulso levantado. À sua frente, as águas lamacentas do rio São Francisco e,  do outro lado, ao longe, na outra margem do rio, uma população ribeirinha, de umas 200 ou 300 pessoas, aglomera-se na faixa assoreada e acena esperançosa para o candidato. A foto lembra vagamente a chegada de Cabral à terra de Pindorama… Foi nessa, ou em ocasião semelhante, que o candidato idealista assim falou ao povo: “Visitando o Nordeste brasileiro, eu comecei a matutar: se foi possível o presidente Roosevelt fazer o Vale do Tennessee ser o que ele é hoje, por que a gente não pode fazer o Nordeste brasileiro deixar de ser a parte pobre e começar a produzir alguma coisa? Ah, tudo bem! Não dá petróleo, não dá gás, mas dá mamona. Então, vamos produzir o biodiesel da mamona.”

O candidato foi derrotado em 94 e novamente em 98, mas há dois anos e meio enverga a faixa presidencial em cima de roupas menos populares. Alcançou o poder, fez novas promessas para esquecê-las em seguida, por utópicas ou inconvenientes, aprimorou-se na arte da oratória, entregou-se ao fascínio da imagem transmitida, virou de repente Luiz Inácio, o presidente do Brasil de exportação, que desfila pelo Arco do Triunfo e se banqueteia com Chirac no Palais de l’Élysée. Pois o símbolo em questão é este: Lula da Silva, você deixou toda aquela gente abanando a mão na outra margem do rio. Você nos deixou, a todos nós, na mão. Não só o projeto do São Francisco foi esquecido; muitos outros, surgidos de seu antigo ideal, logo se estiolaram diante do pragmatismo daqueles que você chama fidelmente de “companheiros”, os mesmos que o puseram num avião e o mandaram para longe, a fim de poderem “governar” o país a seu jeito. O resultado foi este (lamentável): a reincidência no descalabro, os conchavos, os aproveitamentos ilícitos, os apadrinhamentos, as trocas despudoradas, a corrupção, e o grande escândalo final, que promete enlamear ainda mais o país.

Esperava-se que, como aquele outro líder carismático, o sangue do pudor lhe subisse agora às faces e você saísse azorragando os vendilhões. Mas você voltou com a mesma indecisão de sempre, às apalpadelas, ouvindo uns e outros, esperando a opinião daqueles que nos seus ouvidos só poderiam soprar palavras de cautela e de acomodação, deixando-se peitar, tutelar, amedrontar pelos ogres que hoje parecem mandar no país. Todos nós sabemos quanto é difícil criar um líder, um depositário da confiança do povo, alguém que se sonha capaz de medidas realmente de alcance social — enfim, alguém como pensávamos que você fosse. Por isso, é possível que em toda essa escória, nesse mar de dejetos flutuantes, você ainda se salve.

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DOIS GRANDES POETAS

SOLHAWJ SOLHA é um grande poeta, autor de um grande poema. Mas chamá-lo de grande poeta, apenas, seria omitir muitas de suas outras (múltiplas) qualidades: grande romancista, grande contista, grande ensaísta, grande pintor e grande ator e por isso consumado artista da tela (nos dois sentidos), grande roteirista, grande libretista, grande crítico de cinema, artes e livros – além de muitos outros grandes grande Falando apenas do Poeta, seu mais recente livro, Esse é o Homem (2013), completa uma trilogia de poemas longos iniciada com Trigal com Corvos (2004) e seguida de Marco do Mundo (2012). Em todos esses livros e marcantemente neste último a poesia flui em catadupas (desculpem o gongorismo mas é o único termo que se aplica devidamente ao fluxo turbilhonário de suas frases) que trazem em si os detritos (ou os diamantes) de sua erudição cósmica e os épaves de rimas flutuantes que ajudam o leitor a se manter à tona no avassalador redemoinho das idéias, conceitos, invenções, descobertas, ilações, comparações, parâmetros e mais mil e uma palavras que facilmente brotariam do vocabulário enciclopédico de Solha.

O leitor acostumado a poemas sentimentais, ou mesmo aquele que já tenha trafegado pelos poetas metafísicos, sentirá sem dúvida um impacto ao navegar nesta poesia feita ao mesmo tempo de sentimentos e idéias, teses e gritos de alerta, loas e paradoxos, hipotenusas e colcheias, semifusas e quiálteras, e todo tipo de aportes líricos ou científicos ou filosóficos ou histórico-geográficos ou mitológico-litúrgicos.. Claro que há um fio de Ariadne, uma lógica discursiva que se desenvolve à procura da conclusão, mas em sua viagem (diria na voragem) esse tsunami literário vai arrancando e agregando e desenvolvendo pensamentos em série, palavras que puxam palavras, mudanças bruscas de sentido e de tonalidade, registros familiares ou hermeticistas, teses que são suas próprias antíteses – enfim um caos, um mundo, uma utopia, uma babel que não raro arranha aquele céu contra o qual se volta.

E não bastasse tudo isto, o autor é um ser afável e bem-portante, de sorriso lhano, que se dispõe a lhes mandar gratuitamente seu livro por sabê-los interessados em poesia. Pedidos pelo e-mail wjsolha@superig.com.br.

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Quando saiu, em 1999, a 1ª edição de Muitas Vozes pela José Olympio, Ferreira Gullar pediu à editora que encomendasse a mim a orelha do livro.

Sai agora pela mesma editora sua 11ª edição, passando o texto inicial a Apresentação do livro. Aqui vai:

Nova ImagemApresentação

MUITAS VOZES

Ferreira Gullar começou por onde a maioria dos poetas acaba: pelo impasse linguístico. O poema “Roçzeiral”, constante de seu livro de estreia, A lutacorporal, é uma espécie de aviso de “trânsito impedido” num final de estrada em construção. O poeta, depois de passar por todos os processos poéticos formais – do soneto camoniano ao poema em prosa, do verso livre ao poema pré-concreto – verifica, de repente, que esgotou suas possibilidades de compor e que dali por diante só seria possível repetir-se, o que estava definitivamente contrário à sua índole criativa. Pareceu-lhe então que o concretismo seria a lateral de escape do impasse, mas logo, verificando um sinal de stop na boca de um túnel sem saída, resolve dar a volta por dentro, cria o neoconcretismo, o livro-poema, o poema-espacial e o poema-enterrado, todos na vã tentativa de reencontrar a linguagem perdida.

Julgando esgotada sua atividade poética, fica algum tempo sem escrever poesia, até que a busca de uma linguagem não conceitual o leva a encontrar nas raízes populares do verso repentino e cantado, na chamada poesia de cordel, a possibilidade de exprimir o seu ideário que, no contexto político dos anos 1960, sinalizava uma participação integrada no desenvolvimento da cultura popular. O movimento militar de 1964 veio pôr fim a este comprometimento espontâneo de Gullar e ao sonho de que uma linguagem popular – a antítese de sua arte poética adquirida ao longo de uma estratificação cultural – pudesse efetivamente mudar o mundo, corrigir os desníveis sociais pelo simples fato de denunciá-los. O poeta conhece então os caminhos constrangedores do degredo, e longe da pátria se sente cada vez mais ligado a ela, cada vez mais empenhado na busca de sua identidade.

E quando brota de seu interior esse urro de brasilidade que é o Poemasujo, esse homólogo poético de O grito, do pintor norueguês Edvard Munch, que bem poderia lhe servir de capa. Nele, o poeta extravasou toda sua angústia, o desespero do só, do perseguido, do expatriado, do terceiro-mundista humilhado e ofendido, mas que bota para fora as vísceras em forma de poesia. Ao despejar uma linguagem que era a sedimentação de um aprendizado cultural, contaminada pelo prosaísmo rude da arte popular, o poeta conseguiu como que o milagre da ressurreição poética. Apesar de sujo, de conter todos os detritos, as enxúndias e os dejetos de sua experiência vital, o poema se torna, ao mesmo tempo, a água lustral de uma nova linguagem, aquela que o poeta buscava desde o princípio e da qual o afastavam os descaminhos da arte.

Gullar readquiriu uma linguagem viva como quem chega de novo ao mundo, linguagem destituída de artifícios, mas tensa de emoção. É a descoberta de que a poesia está nas palavras simples e diuturnas, aquelas que constituem nosso vocabulário de troca e comunicação, o código da espécie. Agora sabe que elas são todas prosaicas em seu estado de palavra e que depende da alquimia do poeta, de sua conjugação, de sua dosagem, de sua articulação para que se transformem num poema capaz de comover. Pois não há poema sem emoção, não há poema sem que uma corda íntima e insuspeitada do leitor vibre de repente percutida pela colocação estratégica de um verso, uma parada súbita que tanto pode ser uma dúvida quanto um abismo de significâncias. Esses momentos de milagre alquímico, no entanto, transcendem o poeta. Ele daria tudo para ser receptivo o tempo todo, mas esse estado larval da criação – seja lá que nome tenha – é imprevisível e só acontece nos momentos de grande espanto e perplexidade.

Em seus últimos trabalhos, Gullar começou a demonstrar uma preocupação com a morte, com os amigos que se foram, mas ao mesmo tempo conseguiu equacionar-lhe o sentido profundo sem fazer dela uma angústia existencial. Com este Muitas vozes, depois de um silêncio de doze anos, Gullar volta a nos oferecer a melhor poesia do Brasil, num estilo transparente e despido de qualquer pedantismo universitário, fruto da cristalização de suas experiências e linguagens.

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