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Archive for the ‘Como você faria?’ Category

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Na página de rosto de um livro que comecei a traduzir havia a seguinte citação de Shakespeare:

 

Thou com’st in such a questionable shape

That I will speak to thee.

Hamlet, Act I Sc IV 43/44

 

que fui logo traduzindo por

 

Surges sob uma forma tão suspeita

Que irei falar contigo.

 

Mas logo embatuquei no questionable. Seria “supeita” a tradução exata, a mais adequada para o caso? Shakespeare é sempre preciso no uso das palavras, mormente no emprego de adjetivos, e logo me ocorreu que eu tinha na estante pelo menos umas 6 traduções brasileiras da peça e que seria interessante verificar como os colegas se saíram desta:

 

A mais antiga:

 

Vens em forma tão suspeitosa

Que te quero falar

(Tristão da Cunha- Schmidt Editor, 1933)

 

Surges sob uma forma tão apta a provocar a minha indagação

que quero te falar

(Péricles Eugênio da Silva Ramos – José Olympio, 1955)

 

Surges num costume tão questionável

que eu falarei contigo

(Geraldo de Carvalho Silos – Editora JB, 1984)

 

Tu te apresentas de forma tão estranha

Que eu vou te falar.

(Millor Fernandes -L&PM, 2003)

 

E as três  mais recentes:

 

Tu vens sob forma tão surpreendente

Que eu desejo falar contigo.

(Rodrigo Lacerda – Zahar, 2015)

 

Vens com forma tão cara e tão estranha

Que eu desejo falar contigo

(Bárbara Heliodora, Nova Fronteira, 2015)

 

Surges para nós numa forma tão ambígua

Que só quero é falar

(Lawrence Flores Pereira – Penguim, 2015)

[Prêmio Jabuti de Tradução de 2016]

 

De lambujem  uma ainda, em espanhol:

 

Te presetas em forma tan dudosa

Que quiero hablarte

(Luiz Astrana Marín – Espasa-Calpe, 1946)

 

Além dessas acepções, o “Dicionário Inglês-Português” , de Leonel Vallandro, consigna as seguintes possibilidades : duvidoso, incerto, discutível, contestável, suspeito, equívoco.

 

Qual delas, amigo leitor-tradutor, você usaria? Por favor, não deixem de responder.

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charles

Acabo de ganhar de presente uma edição maravilhosa de “Les Fleurs du Mal”, de Charles Baudelaire (Diane de Selliers – éditeur), generosamente ilustrada com reproduções de pintores simbolistas e decadentes, e corro para a página 210 onde está o Spleen-LXXVII: Je suis comme le roi d’ un pays pluvieux, desde sempre um dos meus poemas preferidos. De imediato, recordo-me que em 1993 eu fazia parte do conselho editorial da revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional, cujo primeiro número havia sido lançado em janeiro daquele ano. O Editor-chefe, de então, Antônio Carlos Secchin, solicitara em carta a todos os conselheiros uma apreciação por escrito sobre o que achavam da revista e a indicação de eventuais medidas que a pudessem aprimorar. Resolvi manifestar-me sobre a seção Verso e Versão, que apresentava várias traduções de um mesmo poema (no caso, precisamente o Spleen-LXXVII), sem qualquer análise crítica, mas apenas para proporcionar ao leitor “uma visão multifacetada quanto às possibilidades tradutórias de um só texto literário”.

As traduções escolhidas foram a de Guilherme de Almeida, de Jamil Almansur Haddad e a de Ivan Junqueira, publicadas em livro respectivamente em 1944, 1958 e 1985. Nessa altura, já havia pelo menos mais duas outras impressas, a de Ignacio de Souza Moitta (1971) e a de Cláudio Veiga (1991), mas ambas de qualidades “tradutórias” inferiores às citadas, já que se valiam com frequência do recurso à paráfrase ou à interpretação. Hoje poderíamos contar com bem mais de uma dezena delas, embora não nos conste alguma que possa alterar os valores de nossa avaliação.

baudelaire

 

Eis o original de Baudelaire:

LXXVII – SPLEEN

Je suis comme le roi d’un pays pluvieux,

Riche, mais impuissant, jeune et pourtant très-vieux,

Qui, de ses précepteurs méprisant les courbettes,

S’ ennuie avec ses chiens comme avec d’autres·bêtes. ·

Rien ne peut l’égayer, ni gibier,ni faucon,

Ni  son  peuple mourant en face du balcon.

Du bouffon favori la grotesque ballade

Ne distrait plus le front de ce cruel malade;

Son lit fleurdelisé se transforme en tombeau,

Et les dames d’atour, pour qui tout prince est beau,

Ne savent plus trouver d’impudique toilette

Pour tirer un souris de ce jeune squelette.

Le savant qui lui fait de l’or n’a jamais pu

De son être extirper l’élément corrompu,

Et dans ces bains de sang qui des Romains nous viennent,

Et dont sur leurs vieux jours les puissants se souviennent,

Il n’a su réchauffer ce cadavre hébété

Où coule au lieu de sang l’eau verte du Léthé.

 

Agora vamos às traduções:

 

Guilherme de Almeida (G)

Sou como o pobre rei de algum país chuvoso,

Rico, mas incapaz, moço, e no entanto idoso,

Que as lisonjas dos preceptores desprezando,

Vai com seus animais, com seus cães se enfadando.

Nada o pode alegrar, nem caça, nem falcão,

Nem seu povo morrendo em frente do balcão.

Do jogral favorito a grotesca balada

Não mais lhe desenruga a fronte acabrunhada;

Todo flores-de-lis, é um mausoléu seu leito,

E as aias, que acham todo príncipe perfeito,

Já não sabem que traje impudico vestir

Para fazer esse esqueleto moço rir.

O sábio, que fabrica o seu oiro, em vão luta

Por lhe extirpar do ser a matéria corrupta,

E nem nos tais banhos de sangue dos Romanos,

De que se lembram na velhice os soberanos,

Conseguiu aquecer essa carcaça insulsa

Onde, em lugar de sangue, a água do Letes pulsa.

 

Jamil Almansur Haddad (J)

Eu sou tal qual um rei de algum país chuvoso,

Rico, mas impotente, e moço, embora idoso,

Que do aio desprezando as mesuras rituais,

Se enfada com os cães e os outros animais.

Nada o diverte enfim nem caça nem falcão,

Nem o povo a morrer em frente do balcão.

A grosseira canção do jogral mais fiel

A fronte não distrai deste doente cruel;

Muda-se em tumba o seu leito flor-de-lisado,

E as damas para quem todo príncipe é amado,

Certo nunca irão pôr vestidos que comovem

Por seu sensual decote este esqueleto jovem.

O sábio que lhe faz ouro é desvalimento,

De vez que não lhe extirpa o corrupto elemento,

E estes banhos de sangue e que o romano ensina

E que ocorrem aos reis quando a idade declina,

Jamais aquecerão este cadáver langue

Que a água do Letes tem fluindo em vez de sangue.

 

Ivan Junqueira (I)

Sou como o rei sombrio de um país chuvoso,

Rico, mas incapaz, moço e no entanto idoso,

Que, desprezando do vassalo a cortesia,

Entre seus cães e os outros bichos se entedia.

Nada o pode alegrar, nem caça, nem falcão,

Nem seu povo a morrer defronte do balcão.

Do jogral favorito a estrofe irreverente

Não mais desfranze o cenho deste cruel doente.

Em tumba se transforma o seu florido leito,

E as aias, que acham todo príncipe perfeito,

Não sabem  mais que traje erótico vestir

Para  fazer este esqueleto enfim sorrir.

O sábio que ouro lhe fabrica desconhece

Como extirpar-lhe ao ser a parte que apodrece,

E nem nos tais banhos de sangue dos romanos,

De que se lembram na velhice os soberanos,

Pôde dar vida a esta carcaça, onde, em filetes,

Em vez de sangue flui a verde água do Letes.

 

Nossos comentários em atenção à carta-circular de Secchin:

 

O primeiro verso encontrou em J. a tradução mais próxima da letra original; os outros dois (G. e I.) usaram cavilhas (adjetivos) para acerto da métrica: o “pobre” de G. é de fato muito pobre; já I. usou “sombrio” que se encaixa melhor no sentido da frase e fatura um verso mais “poético”, embora com sacrifício da métrica original (aboliu a cesura em favor de um esquema 4-6-10-120).

O segundo verso empata em G. e I. e varia em J. no uso de “impotente”, que contém as duas acepções do original (mas o resultado “poético” em português não é tão bom quanto nos outros dois).

O terceiro verso tem métricas diversas do original em G. (3-7-120 e I. (4-8-12); courbettes (reverências, mesuras, salamaleques) foi traduzido por “lisonjas” em G. e por “cortesia” em I. As “mesuras” de J. continuam mais próximas do original, mas só G. conservou “preceptores” (embora com sacrifício do ritmo do verso), enquanto I. optou por “vassalo” e J. afastou-se ainda mais em “aio”.

O quarto verso não encontrou nos três tradutores nenhum que reproduzisse o duplo significado de bêtes (animais/imbecis): G. usa “animais/cães” e I. “cães/e outros bichos”.

O quinto verso é coincidente em G. e I., variando em J., que lhe enxerta uma cavilha (“enfim”); os dois primeiros estão mais próximos do original.

No sexto verso há o problema sério de que “balcão”, para nós, é mais o móvel do bar do que a varanda suspensa do palácio: G. e J. escorregam: em frente do balcão é termo de armazém; I. evita o pejorativo com um “defronte do balcão”, que enobrece o dito; mas há soluções melhores.

No sétimo verso, G. e I. traduziram bouffon por jogral, palavra mais consentânea para designar quem canta uma balada; Baudelaire certamente sabia disso, mas preferiu bouffon a jongleur para obter o efeito aliterativo bouffon favori – essa magnífica profusão de ffs quase reproduzindo a cara do histrião que vai cantar não uma balada medieval mas sua grotesca (palavra fundamental) paródia. I. percebe o jogo dos ffs e consegue um belo “jogral favorito a estrofe”, mas perde força com o “irreverente”, pois aqui não há como fugir a “grotesca balada”. J. embola o campo com uma “grosseira canção do jogral mais fiel”, desta vez se afastando mais do original que os outros tradutores.

O oitavo verso está magistralmente traduzido por I. A opção de G. no entanto produz um verso – digamos – mais “bonito”, ao passo que J. consegue apenas um verso meramente correto.

O novo verso tem a dificuldade do fleurdelisé (palavra específica para designar o ornamento heráldico em forma de lírio estilizado, distintivo da realeza na França): G. usa “todo flores-de-lis” e J. “flor-de-lisado”, de muito mau gosto; I. leva a palma (ou o lírio) com um “florido leito”, mais pobre que o original e nada heráldico — mais digno da Ofélia shakespeariana do que do esplínico Baudelaire — mas que nos dá, do ponto de vista “poético”, um verso capaz de empolgar mesmo aqueles que preferem a fidelidade à criatividade. Tombeau é “tumba” em I. e J., mas G. consegue um belo efeito aliterativo com o “mausoléu seu leito”.

No décimo verso há coincidência em G. e I. no desprezo à cesura; beau (belo, bonito, bom) é “perfeito” nos dois primeiros, e “amado” (mudança de sentido) em J.

O décimo primeiro verso tem um toillete (que pode ser traduzido por “traje ou vestido, ou mesmo toalete, no sentido mais moderno) que vem antecedido do adjetivo impudique: G. traduz por “ traje impudico”, I. por “traje erótico” e J. por um extenso “vestidos que comovem/por seu sensual decote” (ah! esses voyeurs!). Se o acento tônico fosse proparoxítono em português, teríamos com I. a tradução perfeita: “Não sabem mais que traje impúdico [sic] vestir”; não sendo, a melhor solução é mesmo carregar na tinta e partir para o “erótico” na obtenção de mais um belo verso;

No décimo segundo verso, “arrancar um sorriso a esse esqueleto jovem” seria uma solução pobre mas quase literal: G. prefere “Para fazer esse esqueleto moço rir”, I. “Para fazer esses esqueleto enfim sorrir” (menos acurado, pois foge ao adjetivo, necessário) e J. “Por seu sensual  decote esse esqueleto jovem”, que extravasou o verso por causa do decote (ainda que mantivesse o adjetivo). Fugindo ao alexandrino clássico, talvez tivéssemos uma solução aceitável com o esquema 4-8-10-12: Para fazer esse esqueleto jovem rir. Mas é mera especulação, já que temos insistido na manutenção do alexandrino clássico.

Daqui em diante a tarefa se torna mais difícil: já em prosa teríamos algumas dubiedades do tipo: “O sábio [ou o alquimista, que era também o médico na Idade média] que faz ouro para o príncipe, jamais conseguiu extirpar de seu ser o elemento corrupto [outra opção: o elemento espúrio, em oposição ao ouro, o elemento nobre], e nem com esses banhos de sangue que nos vêm dos romanos – e dos quais se lembram os poderosos na idade provecta — não soube (no sentido de conseguir) reaquecer (ou fazer pulsar) esse cadáver estupidificado, no qual em vez de sangue circula a água verde do Letes. Soluções dos tradutores: G. trocou o elemento por matéria, troca aparentemente sem importância, mas que altera o jogo de elemento nobre (ouro) e elemento espúrio (spleen); I. foi mais genérico: “a parte que apodrece”; J. mantém o adjetivo e o substantivo, mas, invertendo-lhes a ordem, obtém como resultado um verso duro.  “E nem nos tais banhos de sangue dos romanos / De que se lembram na velhice os soberanos” é coincidente em G. e I., que não fizeram qualquer esforço para evitar os tais “tais” que vulgariza o verso, nem deram ao leitor a acepção de déspota, de potentado cruel para os “tais” soberanos, que só assim se lembrariam dos “banhos de sangue” (expressão aqui usada, no primeiro verso, em sentido literal, e, no segundo, em sentido figurado); a solução de J. é ainda mais fraca, com muitos quês e uma diluição que não reproduz de modo algum o duplo sentido do original.

Reta de chegada: G. consegue o melhor dístico final se analisado em termos de verso em português; I., atento aos valores formais, sabe que a palavra-chave é Letes e finaliza com ela, como no original, recorrendo a um “filetes” (pena que a segunda vogal é fechada, lê), em que consegue manter o adjetivo verde (cromatismo expressivo por sua oposição à cor do sangue [azul] e encaixar a única rima opulenta que aparece nas três versões [há nove pares delas no original, como veremos]). Quanto a J., seu langue é langue, e o “tem fluindo” parece até erro de revisão, tanto esforço requer para ser entendido.

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Conclusão: a melhor tradução, a nosso ver (crítico) é a de Ivan Junqueira, motivo aliás de o termos escolhido para integrar o volume da obra completa (poesia e prosa) de Charles Baudelaire, que organizamos em 1995 para a Nova Aguilar.

Os poetas franceses, mormente os românticos e naturalistas como Baudelaire, adotavam a rígida observância de dois preceitos da métrica francesa: a alternância das rimas agudas (palavras oxítonas) com as graves (paroxítonas). [ No poema que estamos analisando essa alternância se observa aos pares: pluvieux/vieux (agudas), courbettes/bêtes (graves), etc. Por outro lado, e diversamente da métrica portuguesa, a alternância dos gêneros gramaticais nas rimas não é quase nunca observada pelos franceses]. O outro preceito: os bons poetas franceses em geral não abrem mão de empregar rimas com consoante de apoio, ou seja, rimam não apenas a sílaba tônica, mas incluem nesta a consoante que a antecede: ex. coubettes, bêtes. Além disso, os mais dogmáticos (e Baudelaire mais que todos) não dispensavam as rimas chamadas opulentas, ou seja, aquelas em que a totalidade de uma palavra se embebe inteiramente na outra, ex. pluvieux/vieux, tombeau/beau, corompu/pu/, souviennent /viennent. Tal virtuosismo é difícil de se manter em tradução e mesmo esse tipo de rima não goza de bom conceito entre nós, que consideramos pobres as rimas de palavras da mesma derivação. Quanto à consoante de apoio, houve tentativas nacionais (ex. Goulart de Andrade) de utilizá-la, mas que se frustraram por não ter nossa língua os mesmos recursos da francesa, em que são muito numerosas as palavras com terminação sonora semelhante.

 A versão que em seguida apresentamos – sem intenção de concorrer com as belas performances dos tradutores citados – leva em conta as considerações acima, conjugadas à tentativa de manutenção do esquema rímico original (opulentas), salvo em duas ocasiões: chuvoso /idoso; faceto/esqueleto, embora neste último caso conseguíssemos pelo menos manter o tom fechado do vocábulo: êto. Não se trata de uma tradução elogiável: falta-lhe a naturalidade do fraseio baudelairiano, embora procurássemos reter ao máximo o seu vocabulário. Será, quando muito, um exercício de estilo com o qual queremos quebrar a prática fácil da crítica sem a contrapartida da exemplificação.

Sou assim como o rei de algum país chuvoso

— Rico, mas incapaz; jovem, no entanto idoso —

Que de seu preceptor despreza as curvaturas

E enfara-se com os cães e as outras criaturas.

Nada o pode alegrar, nem caça, nem falcão,

Nem o povo que morre aos pés de seu balcão.

Do bufão favorito a grotesca balada

Já não distrai do enfermo essa expressão calada.

Seu leito em flor-de-lis transforma-se em sepulcro,

E as damas, para as quais todo príncipe é pulcro,

Não logram encontrar um traje mais faceto

Que arranque um frouxo riso ao jovem esqueleto.

O sábio, que faz ouro, esmoreceu no apuro

De lhe extirpar do ser esse elemento impuro;

Nem nos banhos de sangue, herdados dos romanos,

Que o poderoso invoca ao declinar dos anos,

Conseguiu lhe aquecer a carcaça que escorre

E, em vez de sangue, a verde água do Letes corre.

 

 

***

Adendo:

Apreciaremos quaisquer comentários e principalmente críticas dos leitores e os convocamos a tentar também suas versões.

                                                             ***

Quadro sinótico da classificação das rimas usadas no original e na tradução:

ca = consoante de apoio/ra= rima abundante/ rr=rima rica/rp=rima pobre

Pluvieux               chuvoso

très-vieux (ra)    idoso (rima pobre – adjetivo x adjetivo)

courbettes            curvaturas

bêttes   (ra)         Criaturas (ca)

faucon                   falcão

balcon  (ca)         balcão (ca dupla)

ballade                 balada

malade (ca dupla)      calada   (ca dupla)

tombeau                sepulcro

est beau (ra)       é pulcro (ra)

toilette                  faceto

esquelette (ca)    esqueleto (rima rica – adjetivo x substantivo)

/jamais pu            apuro

Corrompu (ra)    impuro (ca)

Viennent             romanos

Souviennent (ra)        anos (ra)

Hébété                   escorre

Léthé (ca)           Letes corre (ra) 

 

Ilustrações: La Femme au Chapeau Noir – Georges de Feure – capa do livro; portrait de Charles Baudelaire – Émile Deroy, pág. 36;  portrait de Charles Baudelaire,  Gustave Courbet,  pág. 192

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Por pura arte de Láquesis, fui parar na Holanda, onde atuei de 1968 a 1970 como Adido Comercial da Embaixada do Brasil na Haia (Den Haag, em neerlandês). Além do estimulante trabalho de divulgador de nossos produtos exportáveis, atividade que me levava a conhecer as várias regiões do país, tive a oportunidade de desfrutar de extenso leque cultural, abrangendo os famosos museus holandeses e suas magníficas orquestras sinfônicas. Foi quando ouvi pela primeira vez as sinfonias de Mahler, que o maestro Bernard Haitink estava revivendo no reconstruído (1966) teatro De Doelen, de Rotterdam, dotado da melhor acústica que havia na época. Em Amsterdam, além do Concertgebouw, havia o imperdível museu de Van Gogh, o Rijkmuseum e, ali perto em Otterlo, o Kröller-Müller, com a segunda maior coleção de obras desse gênio, tais os expressivos “Comedores de batatas” (Aardappeleters), de que adquiri algumas reproduções. Mas não precisava sair da Haia para me deparar com os grandes mestres da pintura holandesa. Lá estava o Gemeentemuseum (Museu municipal), onde se podiam ver os quadros de Piet Mondrian, e, enfileiradas em ordem cronológica, as várias transformações por que passou sua árvore impressionista até chegar à sua versão final, cubista, em quadradinhos. Mas o sumo do sumo era mesmo a Mauritshuis (Casa de Maurício de Nassau), onde, entre outras preciosidades, estava exposta a obra-prima de Jan Vermeer, “Vista de Delft” (Gesicht op Delft), que – obviamente como a todo mundo – me fascinou a ponto de ir visitá-la com frequência. Quando estava para voltar ao Brasil, adquiri uma bela reprodução (53X55cm) do quadro, que me acompanhou em todas as minhas deslocações e hoje adorna o hall de meu apartamento no Leblon.

Portanto, muito tempo antes de ler Proust – que li mal, fragmentariamente, e nunca ao todo, na verdade – eu já achava razão em sua célebre frase escrita numa carta a seu amigo Jean-Louis Vaudoyer (Correspondance, tome XX):“La vue de Delft est le plus beau tableau du monde”. E só voltei a me interessar por ele, Proust, quando surgiu, já em fins do século XX, o curioso debate sobre o que seria o “petit pan de mur jaune”, no quadro de Vermeer. O que deu origem a esse debate foi um trecho de “Em busca do tempo perdido”, encontrado no 5º tomo (La Prisonnière), que narra a morte do escritor Bergotte. Ei-lo no original e na tradução de Manuel Bandeira:

« … un critique ayant écrit que dans la Vue de Delft de Ver Meer (prêté par le musée de La Haye pour une exposition hollandaise), tableau qu’il adorait et croyait connaître très bien, un petit pan de mur jaune (qu’il ne se rappelait pas) était si bien peint, qu’il était, si on le regardait seul, comme une précieuse œuvre d’art chinoise, d’une beauté qui se suffirait à elle-même, Bergotte mangea quelques pommes de terre, sortit et entra à l’exposition. Dès les premières marches qu’il eut à gravir, il fut pris d’étourdissements. Il passa devant plusieurs tableaux et eut l’impression de la sécheresse et de l’inutilité d’un art si factice, et qui ne valait pas les courants d’air et de soleil d’un palazzo de Venise, ou d’une simple maison au bord de la mer. Enfin il fut devant le Ver Meer, qu’il se rappelait plus éclatant, plus différent de tout ce qu’il connaissait, mais où, grâce à l’article du critique, il remarqua pour la première fois des petits personnages en bleu, que le sable était rose, et enfin la précieuse matière du tout petit pan de mur jaune. Ses étourdissements augmentaient; il attachait son regard, comme un enfant à un papillon jaune qu’il veut saisir, au précieux petit pan de mur. « C’est ainsi que j’aurais dû écrire, disait-il. Mes derniers livres sont trop secs, il aurait fallu passer plusieurs couches de couleur, rendre ma phrase en elle-même précieuse, comme ce petit pan de mur jaune. » Cependant la gravité de ses étourdissements ne lui échappait pas. Dans une céleste balance lui apparaissait, chargeant l’un des plateaux, sa propre vie, tandis que l’autre contenait le petit pan de mur si bien peint en jaune. Il sentait qu’il avait imprudemment donné le premier pour le second. « Je ne voudrais pourtant pas, se disait-il, être pour les journaux du soir le fait divers de cette exposition. »
Il se répétait : « Petit pan de mur jaune avec un auvent, petit pan de mur jaune. » Cependant il s’abattit sur un canapé circulaire; aussi  brusquement il cessa de penser que sa vie était en jeu et, revenant à l’optimisme, se dit : « C’est une simple indigestion que m’ont donnée ces pommes de terre pas assez cuites, ce n’est rien. » Un nouveau coup l’abattit, il roula du canapé par terre, où accoururent tous les visiteurs et gardiens. Il était mort. »

Lendo, porém, num crítico, que na Vista de Delft de Ver Meer (emprestada pelo museu de Haia para uma exposição holandesa), quadro que ele apreciava muitíssimo e julgava conhecer em todos os por­menores, havia um panozinho de muro amarelo (de que não se lembrava) tão bem pintado que era como uma preciosa obra de arte chinesa, de uma beleza completa em si mesma, Bergotte comeu umas batatas, saiu de casa e entrou na expo­sição. Logo nos primeiros degraus que teve de subir sentiu umas tonteiras. Passou em frente de alguns quadros e teve a impressão da secura e da inutilidade de uma arte tão factícia, e que não valia as correntes de ar e de sol de um palazzo de Veneza, ou de uma simples casa à beira-mar. Enfim chegou diante do Ver Meer, de que se lembrava como sendo mais luminoso, mais diferente de tudo o que conhecia, mas onde, graças ao artigo do crítico, reparou pela primeira vez numas figurinhas vestidas de azul, na tonalidade cor-de-rosa da areia e finalmente na preciosa matéria do pequenino pano de muro amarelo. As tonteiras aumentavam; não tirava os olhos, como faz o menino com a borboleta amarela que quer pegar, do precioso panozinho de muro. “Assim é que eu de­veria ter escrito, dizia consigo. Meus últimos livros são de­masiado secos, teria sido preciso passar várias camadas de tinta, tornar a minha frase preciosa em si mesma, como este panozinho de muro”. Não lhe passava, porém, despercebida a gravidade das tonteiras. Em celestial balança lhe apare­cia, num prato a sua própria vida, no outro o panozinho de muro pintado de amarelo. Sentia Bergotte que im­prudentemente arriscara o primeiro pelo segundo. “Não gostaria nada, disse consigo, de vir a ser para os jornais da tarde a nota sensacional desta exposição”. Repetia para si mesmo: “Panozinho de muro amarelo com alpendre suspenso, panozinho de muro amarelo”. Nisso deixou-se cair subitamente, num canapé circular; subita­mente também, cessou de pensar que estava em jogo a sua vida e, recobrando o otimismo, disse consigo: “É uma sim­ples indigestão causada por aquelas batatas mal cozidas, não há de ser nada”. Nova crise prostrou-o, ele rolou do canapé ao chão, acorreram todos os visitantes e guardas. Estava morto.

Esta cena, atribuída por Proust a Bergotte, na verdade aconteceu com ele próprio, sem o final fatídico por sorte, mas provavelmente previsto por ele. Em fins de maio de 1921, de acordo com seu biógrafo George Painter, os jornais parisienses anunciaram a exposição no Jeu de Paume de uma coleção de quadros holandeses, cedidos pelo museu da Casa de Maurício, entre os quais estavam a “Vista de Delft” e “A moça com brincos de pérola”, de Vermeer (que Proust grafa Ver Meer). Seus amigos Leon Daudet e Jean-Louis Vaudoyer haviam escrito artigos laudatórios a respeito e, num deles, falava-se de um “pequeno lanço de parede amarelo” no quadro “Vista de Delft”, como sendo “um inestimável espécime de arte chinesa, de uma beleza completa em si mesma”. Proust ficara intrigado, pois julgava conhecer o quadro melhor do que ninguém e, angustioso, deu-se conta de nunca ter atentado para aquele “pedaço amarelo do muro”. Por isso, convocou seu amigo Vaudoyer a levá-lo à exposição e acordou naquele dia às 9 da manhã, hora em que habitualmente ia dormir. Logo à saída, no entanto, sentiu uma espécie de vertigem, mas logo se recuperou e, assistido por Vaudoyer, que lhe notou as mãos trêmulas, pôde ver toda a exposição e, mais ainda, almoçar fora com o amigo. Trabalhando na quinta parte de sua Recherche, Proust transpôs para seu personagem Bergotte não só a angústia da visita à exposição como a frustração de não ter localizado o dramático “pedaço de muro” (ou de parede, mur em francês).

Mas onde estaria localizado, no quadro, o misterioso fragmento amarelo ?

Ao longo do tempo, dezenas de críticos e comentaristas levantaram hipóteses ou preferências sobre sua localização. O quadro vai reproduzido aqui com algumas indicações para você escolher, em sua opinião, a mais provável.

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Há tempos, meu amigo Diógenes da Cunha Lima, grande figura de Natal-RN, campeão dos nobres gestos (adquiriu um terreno só para não deixar que derrubassem um imenso baobá que nele havia), mandou-me este instigante questionário, cujas perguntas, pela sua amplitude e sensibilidade, gostaria de propor também aos leitores deste blog. Como você faria?

1. Solidão é conquista ou derrota.

A solidão é uma das muitas luas da vida: sua face luminosa é a do ser consigo mesmo, necessária para o auto-conhecimento e a reflexão; a segunda é quase um desespero, o negror do abandono.

2.  O computador muda a sua vida.

O computador modifica fundamentalmente alguns de nossos hábitos. Traz benefícios já agora incorporados ao nosso dia-a-dia. Mas não creio que mude o nosso interior.

3.   A Internet é também extensão de sua vida.

A Internet contribui em muitos casos para facilitar a nossa vida: inesgotável fonte de consulta sobre praticamente todos os assuntos; maior velocidade em nossas comunicações. Pode ser comparada ao um lixão: toneladas de dejetos onde às vezes se encontra uma pepita.

4.   Escrever é ventura ou aventura.

Uma síntese de ambas. O escritor sofre durante o ato de criar e rejubila-se depois da criação.

5.  O que mais se salienta em um caráter humano.

A honestidade do comportamento.

6.  Melhor a fantasia ou a realidade.

Sem a fantasia a realidade seria muito pobre. Sem a realidade a fantasia não teria sentido.

7.   A poesia é útil.

Não, se tomarmos a palavra como utilidade prática, algo rentável ou passível de servir a determinadas situações da vida material. É útil subjetivamente – uma espécie de pão da alma.

8. Fronteira entre a poesia e a prosa.

Os limites se confundem e se interpenetram. Assim como há muita poesia prosaica há também muita prosa poética. Delimitar a fronteira é trabalho para especialistas hipersensíveis: às vezes num longo trecho meramente prosaico explode uma palavra, um verbo, um torneio da frase que nos faz ascender à beatitude lírica.

9. Livros que ajudaram à sua formação.

“Demian”, de Hermann Hesse, foi o livro que literalmente mudou minha vida, ajudando-me a vencer um complexo de timidez que me asfixiava. Foi tão definitivo na minha formação que me determinei a traduzi-lo, para que outros pudessem usufruir dos benefícios que ele me havia proporcionado.

10. Qualidade superior em um homem.

Altruísmo.

11. Qualidade superior em uma mulher.

Aura.

12. O que mais aprecia em um amigo.

Franqueza, lealdade.

13. O que mais lamenta em um amigo.

Inveja, sarcasmo.

14. Medo – a que serve.

O medo instiga o anseio de vida. Em demasia, o da morte.

15. Dúvida – a que serve.

No mínimo para gerar uma obra-prima como o Hamlet.

16. A morte é vírgula ou ponto final.

É ponto-e-vírgula.

17. Deus é patrimônio de cada ser humano.

Deus é o ser humano levado à perfeição.

18. Jesus é um amigo.

Um amigo distante, mas inspirador.

19. O diabo tem credibilidade.

Pelo menos literariamente: vide o Fausto, Papini, etc. Na vida real apresenta-se sob a forma dos mil aborrecimentos que sentimos cotidianamente.

20. Somos sós no universo.

No universo, na terra, no país, na cidade, em casa…

21. Que outro dom, Deus poderia ter dado a você.

Já dizia o Pessoa que os deuses tomam quando dão. Se considero a poesia um dom, lamento que      ela não me frequente amiúde.

22. Seu defeito principal.

Lordose.

23. Sua ocupação preferida.

Escrever.

24. Como você sonha a felicidade.

Uma conjugação perfeita de hedonismo e espiritualidade.

25. Você não consegue tolerar.

A desfaçatez da política atual.

26. Seu estado de ânimo atualmente.

Um pêndulo entre a depressão e a euforia.

27. O que mais importa a você como profissional.

O reconhecimento da qualidade de meu trabalho por parte de um pequeno grupo não necessariamente de amigos mas de conhecedores do ramo.

28 O que mais importa a você como amador.

A liberdade de escolha.

29. O que o tornaria infeliz.

Não poder ouvir música.

30. Quem você gostaria de ter sido.

Estou satisfeito com o que sou, mas gostaria de fazer algumas recauchutagens.

31.Três cidades encantadoras.

Paris, Taormina e Rio de Janeiro, do ponto de vista panorâmico. Há outras que me encantaram pelo clima interior, a afeição de seu povo, a aura benfazeja.

32. De que país o Brasil poderia auferir qualidades.

Faltam-nos algumas das qualidades dos povos mais cultos, como por exemplo a disciplina e a instrução. Mas acho que com todos os nossos defeitos e deficiências estamos fadados a ser uma grande nação algum dia.

33. Árvore admirável.

Tenho duas, prioritariamente, na memória visual: no Rio, um ipê-amarelo próximo à minha casa (escrevi uma crônica sobre ele) e um baobá, visto em Natal e que espero rever.

34. Flor preferida.

Rosa.

35. Pássaro admirado.

Beija-flor.

36. Cor favorita.

Azul.

37. Autores canônicos favoritos (prosa).

Brasileiros: Machado, Graciliano, Clarice Lispector.

38. Autores canônicos favoritos (poesia).

Drummond, Bandeira e João Cabral. Entre os antigos: Raul de Leôni.

39. Na ficção, personagens (masculinos) de sua estima.

Cyrano de Bergerac, Dom Quixote, Zeno (de Ítalo Svevo).

40. Na ficção, personagens (femininas) da sua estima.

Capitu, Madame Bovary, Olívia (de Érico Veríssimo).

41. Compositores favoritos (erudito e popular).

Mozart, Ravel, Debussy. Villa-Lobos.

42. Um filme.

Les Enfants du Paradis (Marcel Carné – Jacques Prevert)

43. Pintores preferidos.

Munch, Morandi, Portinari.

44. Um ditado popular.

Para bom entendedor, um pingo é letra.

45.Três palavras bonitas.

Alcândora, pituitária, epifania.

46. Um aforismo.

O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria (William Blake).

47. Prenomes favoritos (três).

Ney, Fábio, Raul.

48. Heróis (na vida real).

Zola e todos os que defendem a causa da justiça.

49. Heroínas (na vida real).

A mulher que morreu queimada tentando salvar as crianças de um carro incendiado. O heroísmo é ainda mais significativo quando o herói é anônimo.

50. Heróis históricos.

Não me ocorre ninguém expressivo, agora.

51. Detestáveis homens da história. 

Bush. Sadam.

52. Daria indulgência a que falhas humanas.

A todas as pequenas. O homem é falível por excelência, mas não perdoaria o crime.

53. Um verso. 

Um verso de harmonia gestáltica:

“Erguendo o dorso altivo sacudia

a branca espuma para o céu sereno”

(Casimiro de Abreu) .

54. Uma canção. 

“Rapunzel, Rapunzel, solta, solta as longas tranças” (*)

55. Personalidades bíblicas (masculinas). 

O Rei Davi, Lázaro, O Filho Pródigo.

56. Personalidades bíblicas (femininas). 

Madalena, Michol, Raquel.

57. O seu rio. 

Turvão (“o rio da minha aldeia”).

58. O seu mar, sua praia. 

O Mediterrâneo, a praia de Itacuruçá.

59. Quem tem um sol no coração. 

A maior parte de meus amigos.

60. Quem tem um deserto no coração. 

Os rancorosos, os desiludidos, os abandonados.

61. Ser criança é.

 Não se entregar à velhice.

62. Ser jovem é.

Um estado de espírito.

63. Ser maduro é. 

Saber julgar.

64. Ser velho é. 

Inevitável.

65. Bebida favorita. 

Antigamente, champanhe; hoje, leite de soja.

66. Comida favorita. 

Sou glutão, mas se tiver de escolher, prefiro peixe.

67. Exerce a sua fé. 

Muito intimamente e em total discrição.

68. Exerce a sua esperança. 

Religiosamente.

69. Exerce a sua caridade. 

Não tanto quanto o meu impulso o exigiria.

70. Epifanias.

A idealização do amor, o deslumbramento, a percepção do milagre, o toque da magia.

71. Seu lema. 

Ainda hei-de!

(*) Rapunzel é um nome que me ficou cauterizado na memória desde que li,  em criança, a história dos irmãos Grimm no Tesouro da Juventude:  Um jovem vê sua amada presa numa torre e pede-lhe que solte os longos cabelos a fim de poder  subir por eles e salvá-la. Ele chega embaixo e canta: “Rapunzel, Rapunzel, solta, solta as longas tranças”. Desde aquela época, atribuí a essas palavras uma música que, até hoje, sem querer,  me ouço trauteando.

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Uma preocupação vem me assaltando ultimamente: que será de meus livros?  quem ficará com eles? Serão vendidos a peso, doados a uma instituição de caridade, conservados por algum parente que goste de leitura?

Escrevo num quarto calafetado de livros: pelas quatro paredes, eles vão do rodapé ao teto e se espalham ainda pela cimeira da porta. Dispostos nas estantes sem nenhum critério, às vezes tenho dificuldade de encontrar algum, mas posso dizer que conheço a maioria pela lombada, sou capaz de “sentir” a presença de um deles mesmo quando espremido nas prateleiras mais altas. Já sonhei uma vez que as estantes se desmoronaram sobre mim, soterrando-me nos livros, por isto não ouso “pescar” nenhum do alto, puxando-o pela lombada. Há alguns que estão comigo há mais de cinco décadas, tenho certamente outros ainda mais antigos. Quantas lembranças me trazem quando reencontro um desses velhos companheiros e o tomo nas mãos para abri-lo ao acaso: este foi Fulano que me deu, aquele outro ganhei num concurso, o Casimiro tem uma dedicatória de meu pai, simples, direta, “Ao Ivo Salve  25-12-44 Oferenda s/ pae, Ormindo”, presente de aniversário dos meus 15 anos! Amo-os, é claro, como se fossem filhos de papel, os filhos de sangue que não tive. Recentemente um jornal de São Paulo me pediu um poema de Natal e escrevi:

PAPAI, NOEL

Pelo Natal eu só ganhava livros

Eu pedia carrinhos de brinquedo

e ele me dava livros no Natal

Durante o ano eu lhe pedia livros

que ele me dava mesmo sem pedir

Anos sem que eu pudesse reverter

o sentido do dar e receber

Eu sonhava lhe dar uma alegria

algo de mim que o fosse contentar

Ele sonhava que eu gerasse um filho

e nem meus livros eu lhe pude dar.

Eu quis dizer, neste verso final, que não cheguei a dar a meu pai a alegria de ver publicados os meus próprios livros, pois ele morreu antes que  a Caça Virtual e meus outros opúsculos viessem a lume. Mas sabia das minhas traduções e ficava feliz quando via meu nome nos jornais.

Outra dedicatória, ainda mais sucinta, e dessa mesma data, dizia: “Do Pedro, ao Ivo. Rio, 25/12/44”. O ofertante, no caso, era meu tio materno, Pedro Pimentel, que morou por uns tempos em nossa casa na rua Pontes Correa. Autodidata, escrevia num português correto, estribado em duas ou três gramáticas e dicionários que integravam sua pequena biblioteca pessoal. Era funcionário graduado do Lloyd Brasileiro e redigia longos relatórios sobre as viagens de inspeção que fazia pelos portos do país. Numa delas, a mais demorada, voltou noivo de uma cearense, e como devia em seguida fazer outra viagem, dessa vez para o Sul do Brasil, pediu à minha mãe que fosse a Fortaleza “resgatar” a noiva. Acompanhei minha mãe nessa viagem e acabamos nos casando (por procuração) com a moça que trouxemos conosco, depois de uma cerimônia privada, certamente para satisfação da família cearense que não podia vir ao Rio. Nos tempos de solteiro que passou conosco, foi meu grande inspirador e roommate (adoro esta palavra), sabatinando-me com frequência sobre questões de português, ortografia, colocação de pronomes, significado de palavras, etc. Era poeta, compunha sonetos bem rimados e metrificados, e foi com ele que aprendi métrica, a escandir versos e a gostar realmente de poesia. Tínhamos um caderno-álbum em que transcrevíamos os poemas que julgávamos “de primeira classe”, e certa vez me censurou por eu haver acolhido uns versos que ele considerava “inferiores”. Agastado com a restrição ao meu gosto literário, arranquei num rompante a folha do álbum, entreguei-o a ele e nunca mais falamos no assunto. Eu o admirava profundamente pela aura de suas viagens, pelas histórias que contava de sua experiência marítima; tinha sido oficial da marinha mercante e conhecera vários portos estrangeiros. Em Nova York visitou a Coney Island e almoçou no famoso restaurante do Jack Dempsey. Garantia, para mim incrédulo em meu incipiente inglês, que os americanos diziam “uóra” em vez de “water”. Vestia ternos de linho Taylor 120 e tinha sapatos feitos sob medida, que guardava em alvas sacolas de flanela; havia um par que me fascinava, de duas cores, marrom e branco,  cuja imponência era acentuada pela robustez do solado. Aos sábados entregava-se a uma longa rotina dedicada aos cuidados corporais: cortava as unhas, passava-lhes talco e as friccionava com uma escova própria, de camurça, que ele guardava num estojo certamente adquirido no exterior, no qual havia ainda uma tesourinha pontuda que servia para aparar as cerdas nasais e um minúsculo pincel com que enegrecia o bigode. Engraxava os sapatos e se preparava para sair à noite, quando ia “furar cartão” (dançar) nas boates da avenida Rio Branco. Era a única ocasião em que não o acompanhávamos, pois costumávamos passear juntos na baratinha descapotável que ele havia adquirido e na qual só carregava duas pessoas de cada vez, para não afetar as molas de suspensão. Nós, mais novos, ficávamos siderados quando ele e minha mãe se punham a lembrar fatos de sua juventude no Herval. “Cedinha, você lembra quando o Ti´Tatão, etc” e ela retrucava com outro caso desse tempo, e ambos diziam: “Lá se vão uns trinta anos!” Meus irmãos se entreolhavam, impossível alguém se lembrar do que havia acontecido a trinta anos passados. Ele e eu trocávamos impressões de leitura e costumávamos declamar juntos algum longo poema, o livro revezando em nossas mãos. De tanto lermos os “Poemas” de Menotti del Picchia, já sabíamos de cor quase todo o “Juca Mulato” e “O beijo de Arlequim”. Um dia, fizemos um desafio mútuo: ver quem escrevia o melhor soneto sobre “Vida”. Passados uns dias, depois do jantar, ele tirou do bolso um papel e leu sua composição que falava de nascimento, infância, juventude, maturidade e morte. Dei um sorriso sardônico, com ares de quem já estava saboreando as batatas da vitória. E declamei o meu bestialógico, onde as presenças de Augusto dos Anjos e de Raul de Leoni eram mais que flagrantes, atropeladas por imprecisas noções de biologia:

A vida é o resultante grau da orgânica

Evolução da célula. É energia

Que mais se apura, dia para dia,

Desde os tempos remotos da Era Oceânica.

É movimento, é força que se cria;

De potencial transforma-se em dinâmica.

Evolveu-se da Micro à Pterodâmica

Espécie em fecunda embriogenia.

(etc)

Meu tio conseguiu disfarçar sua perplexidade diante daquele despautério. Pegou o papel, leu-o com atenção, elogiou o emprego de “evolver” em lugar de “evoluir”, que o Cândido de Figueiredo (em quem costumava estribar-se para a elucidação de dúvidas gramaticais) considerava um galicismo. Sem dizer o que achava, falou que tinha uma dúvida: Não seria pterodáctila em vez de pterodâmica? Finquei pé no pterodâmica, sem o que lá se iria embora a minha rima rica (achava eu, rara e riquíssima).  O Lello Universal Ilustrado de sua estante particular não me abonava o termo, nem sequer trazia o pterodáctilo proposto. Meu professor de biologia é quem resolveria o caso. No dia seguinte, fui à aula (noturna, que eu costumava matar) e submeti meu mostrengo ao professor, a quem já havia mostrado outros escritos meus. “Do ponto de vista científico, não faz sentido; é confuso e incongruente. Mas os versos são bons e você deve insistir. Na sua idade, seria melhor escrever poemas de amor”.  Confessei ao tio o meu fracasso científico e minha vitória poética. Ele me incentivou dizendo que de fato eu seria um grande poeta. Ele, o meu guia, acreditava em mim, achava que eu podia caminhar sozinho. Fiquei determinado a não decepcioná-lo no futuro. Quando nos deixou para montar a própria casa, praticamente na mesma rua, senti um vazio indescritível: lá se foram as gramáticas, os sapatos ensacados, as tesourinhas de unha, além do encantamento mútuo com a leitura de nossas produções. Lá se fora o amigo, o companheiro, o roommate,  meu ídolo,  meu mestre. Ali tão perto e já tão distante, como se entre nós o tempo tivesse colocado uma barreira intransponível.

Vejam: abre-se um livro e de sua dedicatória, amarelecida e quase desfeita pela idade, surgem tantas lembranças, flashes-back de uma vida, viagem de regresso ao tempo nunca perdido da juventude. Então, digam-me lá: o que fazer dos meus livros já que me pesa tanto ter que deixá-los  sem destino,  sem definição? Estive pensando em várias soluções. Durante mais de trinta anos andei colecionando livros relativos a Rimbaud e à sua obra: edições integrais, biografias, ensaios, dicionários, revistas especializadas, etc. No fim do ano passado, quando editei o terceiro e último volume de minha tradução de sua obra completa, percebi que estava diante de um acervo bastante expressivo, não só quanto ao valor artístico mas igualmente quanto ao material, pois nele se incluem algumas obras raras, primeiras edições, livros fac-similados, etc. Depois de considerar cumprida a incumbência a que me autodeterminei de colocar ao alcance do leitor brasileiro tudo o que o gênio de Charleville havia escrito, a visão diária desses 120 volumes à minha frente na estante acaba sendo um pequeno suplício, pois me faz lembrar cada um dos momentos em que estive em combate ferrado com o Anjo. Resolvi, pois, doá-los a Biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil, onde eles poderiam continuar formando uma coleção especializada, e também ao alcance de minha vista em caso de me bater uma (inexplicável) saudade repentina.

Excelente ideia. Mas, e os outros? Que destino darei, por exemplo, àquele magnífico “Les Fleurs du Mal” da coleção Pastels, ilustrado por Jacques Roubille, Éditions du Panthéon, do qual só foram impressos 500 exemplares “sur pur fil Johannot” (o meu é o nº 318), em MCMXLVI, hoje considerado obra rara e fora do comércio? Comprei-o com o meu primeiro salário, na livraria francesa que havia no térreo da Faculdade de Filosofia, onde eu cursava Línguas Neolatinas, ali onde é hoje a Maison de France. Preciosidade que eu guardava numa caixa de charutos e em cujas páginas comecei a acumular algumas notas graúdas, talvez para novas e temerárias aquisições.

Assim como ocorreu em relação a Rimbaud, também quando organizei em 1995 para a Nova Aguilar o volume ”Poesia e Prosa”, de Charles Baudelaire, acabei formando uma coleção com as dezenas de livros que tive de ler para selecionar o material existente em português, além de várias edições francesas que eu já tinha ou que vim a adquirir. Lá estão eles ocupando toda uma prateleira da estante. Também os livros de e sobre Rilke, arrecadados para uma edição quase completa de sua obra, que a Nova Aguilar pretendia fazer logo depois do Baudelaire; são ainda 34 volumes, mesmo depois da devolução de cerca de mais 20, emprestados pelo Dr. Rischbieter. Mais em cima, a minha paixão da juventude, o romantíssimo Edmond Rostand, com todas as belas edições do “Cyrano de Bergerac” e do “L´Aiglon”, inclusive a famosa edição da Impremerie Nationale de 1983, sem falar na raríssima biografia escrita por sua mulher, Rosemonde Gérard, em 1935, e com uma dedicatória da própria “pour Jacques Chabanne, très sympathiquement” (peça de colecionador, de 1935). Falar de Rostand seria falar de todos os sonhos, vitórias e decepções de amor que sagraram os meus anos juvenis, arroubos, versos ardentes, lágrimas contidas, coração convulso…

Da parte superior da estante, ocupando mais de duas prateleiras, Shakespeare me observa através de ricas edições de suas obras completas e uma porção de traduções em várias línguas. Não, não o esqueci, foi meu primeiro cometimento, minha “glória” maior de quando o vi (em minha tradução) sob o formato de imponente coffee-table book, ilustrado por Isolda Hermes da Fonseca e editado por Carlos Lacerda, a quem eu assessorava na redação da Enciclopédia Século XX. Que será destes tesouros sentimentais, desses pedaços líricos de mim? Talvez o melhor será deixá-los também para o Banco do Brasil, onde trabalhei por 37 anos, para o seu CCBB cuja biblioteca saberá guardá-los com cuidado, ainda que não lhes possa dispensar o mesmo carinho que lhes dediquei. Mas, você, o que faria em meu lugar?

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RECESSO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A GAVETA ESTARÁ EM RECESSO DURANTE

O MÊS DE DEZEMBRO, MAS VOCÊ PODE

APROVEITAR PARA GARIMPAR NAS POSTAGENS

ANTIGAS, POISMUITA COISA INTERESSANTE.

APROVEITO PARA DESEJAR AOS VISITANTES

UM FELIZ NATAL!

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[A recente discussão em torno do conceito de feio em arte, que surgiu
a propósito da retirada de três urubus que compunham a obra
“Bandeira Branca”, do artista plástico Nuno Ramos, exposta na
29ª Bienal de São Paulo, fez-me lembrar que, há tempos, um
suplemento literário convidou-me, numa enquete, a responder sobre
O que Narciso acha feio (ele que vive apenas de contemplar
a própria beleza). Eis minha resposta]:

De início, nada;  na clara superfície, a face refletida é a sua — perfeição, imagem-arquétipo do belo. Mas além dessa que vê, há outra, que a fonte não reflete, nem muito menos pode ver neste momento de verdade. Sobre ela, agora é Narciso quem reflete: o belo em que sói gratificar-se é apenas o que vê na face da fonte, ou antes a imagem vista por ela, unidimensional, daguerreótipo das águas. Só ele tem acesso às múltiplas feições, aos heterônimos íntimos, às cambiantes  prismáticas, estroboscópicas, que estão além, por trás da própria face. Se pudesse, debruçado sobre a fonte, tocando-a com a mão, fender em mil estilhaços líquidos esse retrato estático, e dentro dele ver o que só vê na mente, o belo começaria a desfazer-se: o tempo, a solidão, o aquém do sonho, a pequenez de tudo, essa ânsia insopitada – enfim o feio. O que ele acha feio é a outra face do belo.

(Esta foi a pergunta que me fizeram numa enquete jornalística. Qual seria a sua resposta?)

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