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Archive for the ‘Como você faria?’ Category

 Perrengue, manquitolando, emperrada ao abrir, eis que a Gaveta chega hoje ao seu nono aniversário. Cheia de frustrações e de anseios, tudo junto. Houve momentos em que vibrou com mais de uma centena de consultas num só dia. Entrou em parafuso noutro em que as visitas não chegaram a cinquenta. Mas seja como for, está à espera de que a parada atual lhe propicie forças para mais uma jornada, pois anda cheia de planos futuros: whishful thinkings, idealizações auspiciosas: há o antigo projeto do Machado de Assis, poeta – com uma seleção daqueles poemas que Manuel Bandeira considera de qualidade igual à da prosa; a sonhada apresentação do poeta mineiro Djalma Andrade, a alma boa de Congonhas do Campo e a sempre protelada antologia dos poetas regionais. Esperemos, oxalá, que Deus nos ajude. E até breve. 

Em tempo: Para lerem nas férias, mando-lhes um trecho da Ascese, de Nikos Kazantzakis, na versão francesa de Aziz Izzet, que traduzi em 1973 e hoje imagino perdida conforme relatei no post Ombro Amigo-I. 

 


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TEMPO DE QUALIDADE

Jair Ferreira dos Santos

Breviário de Afetos é um paradigma de memorialismo afetivo.  O livro homenageia nada menos que 27 personalidades entre mestres também amigos e conhecidos alinhavados pela concorrência ou pela admiração mútua, sem omitir Guimarães Rosa, objeto de uma entrevista jamais realizada porque, à frente do escritor, Ivo acabou emudecido pela timidez e os dois nunca mais se viram. Já os trabalhos de anos em enciclopédias com Antônio Houaiss geraram uma amizade calorosa, profícua, mesmo se as funções que Ivo desempenhou no Banco do Brasil e no Itamaraty o levassem do Rio de Janeiro para Haia, para Londres ou a Costa do Marfim, embora semestres depois o trouxessem de volta.

Esse elenco de figuras totêmicas se estende a Drummond e sua carta, escrita no limiar dos anos 1950, para aconselhar o jovem poeta a ignorar ferozmente a opinião alheia, em favor “do próprio trabalho interior”, e integra, em 1998, um João Cabral já quase cego, concedendo-lhe uma entrevista em que parte considerável da mitologia de reclusão e aspereza, construída em torno do poeta pernambucano, desaba por absoluta falta de provas: ele fala abertamente sobre autores, pintores, a sua querida Espanha, o almoço com Eliot, a admiração por Baudelaire e Valéry e, de quebra, revela uma percepção arredia do que seja o Nobel. Claro, no campo imantado pela inteligentsia que era o Rio não faltavam talentos extraclasse: estava ali, com seu despojamento, ninguém menos que o crítico Otto Maria Carpeaux, intelectual austríaco autor de uma impressionante História da Literatura Ocidental, entre outros trabalhos de porte. A ele recorre com frequência o tradutor iniciante, e quando se separam é para mais tarde, precisamente em 1977, se reencontrarem na casa de Ivo em Lisboa, Carpeaux já doente. Eles se despedem sem nenhum clima pré-elegíaco, porque parecem agir como se a amizade desautorizasse a morte, a qual no entanto sobrevém ao mestre um ano depois.

Ao percorrer Breviário de Afetos, não estamos propriamente numa passarela de amenidades. Há toda uma discussão eivada de complexidades quando se analisam as traduções do poema O Torso de Apolo, de Rainer Maria Rilke, por exemplo. É constante, ainda, a alusão à história literária como o contexto mais denso onde se movem os protagonistas. Atenção especial merece o texto de Ivo. Para além da clareza, da fluência, seu domínio da língua tem um teor expressivo que se manifesta na propriedade verbal, no ritmo lógico das frases ou ainda no recurso eventual a um vocabulário um tom acima do estilo mesclado – a fusão entre o erudito e o oral – cultivado pelo modernismo.  Certamente, em sua prosa, o impulso original para o lírico se faz sentir aqui e ali, como quando descreve Silvia, a mulher com a qual se casaria, com o verso “um grito verde no olhar vazio da paisagem”, ao evocar determinado cenário marinho.

Mas a rigor, enfim, que papel teria este breviário, com sua gama de tributos e sentimentos, no prodigioso mundo digital à nossa volta? Não muitos, provavelmente. Estamos confinados num presente contínuo, o agora da próxima informação, com o consequente esvaziamento da História e das visões antecipativas. Bom para nos remeter a alguma origem, o livro de Ivo Barroso desafia o presenteísmo renitente da nossa época para redespertar o interesse pelo passado, onde estão as fontes silenciosas do presente.

(Trecho de uma resenha ainda inédita, enviada à Gaveta por e-mail. O livro pode ser adquirido no Rio na Livraria da Travessa e em São Pulo na Acadêmica)

 


ANTOLOGIA DOS POETAS ESDRÚXULOS (4)


SOSÍGENES COSTA (1900-1968) – poeta baiano 

Sosígenes (pronuncia-se sozígenes) Marinho Costa, poeta de cunho modernista, deve o arrevesado de seu nome à homenagem que seu pai, versado nos clássicos, quis prestar provavelmente ao astrônomo Sosígenes de Alexandria, citado por Plínio, o Velho, como sendo o astrônomo consultado por Júlio César quando da concepção do calendário Juliano. Dono de estilo personalíssimo e de temática inusual, conquistou com sua “Obra poética” o prêmio Jabuti de 1960. Seu poema, que transcrevemos a seguir, segundo o crítico Massaud Moysés, não pode ficar de fora de nenhuma antologia da poesia brasileira que se queira representativa.

 

O pavão vermelho

Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.

Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.

É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.

Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.

 

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ÚLTIMO AVISO: SEXTA FEIRA, DIA 1º DE DEZEMBRO ÀS 19 HORAS NA

LIVRARIA DA TRAVESSA DO SHOPPING CENTER DO LEBLON

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imagem1

Na página de rosto de um livro que comecei a traduzir havia a seguinte citação de Shakespeare:

 

Thou com’st in such a questionable shape

That I will speak to thee.

Hamlet, Act I Sc IV 43/44

 

que fui logo traduzindo por

 

Surges sob uma forma tão suspeita

Que irei falar contigo.

 

Mas logo embatuquei no questionable. Seria “supeita” a tradução exata, a mais adequada para o caso? Shakespeare é sempre preciso no uso das palavras, mormente no emprego de adjetivos, e logo me ocorreu que eu tinha na estante pelo menos umas 6 traduções brasileiras da peça e que seria interessante verificar como os colegas se saíram desta:

 

A mais antiga:

 

Vens em forma tão suspeitosa

Que te quero falar

(Tristão da Cunha- Schmidt Editor, 1933)

 

Surges sob uma forma tão apta a provocar a minha indagação

que quero te falar

(Péricles Eugênio da Silva Ramos – José Olympio, 1955)

 

Surges num costume tão questionável

que eu falarei contigo

(Geraldo de Carvalho Silos – Editora JB, 1984)

 

Tu te apresentas de forma tão estranha

Que eu vou te falar.

(Millor Fernandes -L&PM, 2003)

 

E as três  mais recentes:

 

Tu vens sob forma tão surpreendente

Que eu desejo falar contigo.

(Rodrigo Lacerda – Zahar, 2015)

 

Vens com forma tão cara e tão estranha

Que eu desejo falar contigo

(Bárbara Heliodora, Nova Fronteira, 2015)

 

Surges para nós numa forma tão ambígua

Que só quero é falar

(Lawrence Flores Pereira – Penguim, 2015)

[Prêmio Jabuti de Tradução de 2016]

 

De lambujem  uma ainda, em espanhol:

 

Te presetas em forma tan dudosa

Que quiero hablarte

(Luiz Astrana Marín – Espasa-Calpe, 1946)

 

Além dessas acepções, o “Dicionário Inglês-Português” , de Leonel Vallandro, consigna as seguintes possibilidades : duvidoso, incerto, discutível, contestável, suspeito, equívoco.

 

Qual delas, amigo leitor-tradutor, você usaria? Por favor, não deixem de responder.

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charles

Acabo de ganhar de presente uma edição maravilhosa de “Les Fleurs du Mal”, de Charles Baudelaire (Diane de Selliers – éditeur), generosamente ilustrada com reproduções de pintores simbolistas e decadentes, e corro para a página 210 onde está o Spleen-LXXVII: Je suis comme le roi d’ un pays pluvieux, desde sempre um dos meus poemas preferidos. De imediato, recordo-me que em 1993 eu fazia parte do conselho editorial da revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional, cujo primeiro número havia sido lançado em janeiro daquele ano. O Editor-chefe, de então, Antônio Carlos Secchin, solicitara em carta a todos os conselheiros uma apreciação por escrito sobre o que achavam da revista e a indicação de eventuais medidas que a pudessem aprimorar. Resolvi manifestar-me sobre a seção Verso e Versão, que apresentava várias traduções de um mesmo poema (no caso, precisamente o Spleen-LXXVII), sem qualquer análise crítica, mas apenas para proporcionar ao leitor “uma visão multifacetada quanto às possibilidades tradutórias de um só texto literário”.

As traduções escolhidas foram a de Guilherme de Almeida, de Jamil Almansur Haddad e a de Ivan Junqueira, publicadas em livro respectivamente em 1944, 1958 e 1985. Nessa altura, já havia pelo menos mais duas outras impressas, a de Ignacio de Souza Moitta (1971) e a de Cláudio Veiga (1991), mas ambas de qualidades “tradutórias” inferiores às citadas, já que se valiam com frequência do recurso à paráfrase ou à interpretação. Hoje poderíamos contar com bem mais de uma dezena delas, embora não nos conste alguma que possa alterar os valores de nossa avaliação.

baudelaire

 

Eis o original de Baudelaire:

LXXVII – SPLEEN

Je suis comme le roi d’un pays pluvieux,

Riche, mais impuissant, jeune et pourtant très-vieux,

Qui, de ses précepteurs méprisant les courbettes,

S’ ennuie avec ses chiens comme avec d’autres·bêtes. ·

Rien ne peut l’égayer, ni gibier,ni faucon,

Ni  son  peuple mourant en face du balcon.

Du bouffon favori la grotesque ballade

Ne distrait plus le front de ce cruel malade;

Son lit fleurdelisé se transforme en tombeau,

Et les dames d’atour, pour qui tout prince est beau,

Ne savent plus trouver d’impudique toilette

Pour tirer un souris de ce jeune squelette.

Le savant qui lui fait de l’or n’a jamais pu

De son être extirper l’élément corrompu,

Et dans ces bains de sang qui des Romains nous viennent,

Et dont sur leurs vieux jours les puissants se souviennent,

Il n’a su réchauffer ce cadavre hébété

Où coule au lieu de sang l’eau verte du Léthé.

 

Agora vamos às traduções:

 

Guilherme de Almeida (G)

Sou como o pobre rei de algum país chuvoso,

Rico, mas incapaz, moço, e no entanto idoso,

Que as lisonjas dos preceptores desprezando,

Vai com seus animais, com seus cães se enfadando.

Nada o pode alegrar, nem caça, nem falcão,

Nem seu povo morrendo em frente do balcão.

Do jogral favorito a grotesca balada

Não mais lhe desenruga a fronte acabrunhada;

Todo flores-de-lis, é um mausoléu seu leito,

E as aias, que acham todo príncipe perfeito,

Já não sabem que traje impudico vestir

Para fazer esse esqueleto moço rir.

O sábio, que fabrica o seu oiro, em vão luta

Por lhe extirpar do ser a matéria corrupta,

E nem nos tais banhos de sangue dos Romanos,

De que se lembram na velhice os soberanos,

Conseguiu aquecer essa carcaça insulsa

Onde, em lugar de sangue, a água do Letes pulsa.

 

Jamil Almansur Haddad (J)

Eu sou tal qual um rei de algum país chuvoso,

Rico, mas impotente, e moço, embora idoso,

Que do aio desprezando as mesuras rituais,

Se enfada com os cães e os outros animais.

Nada o diverte enfim nem caça nem falcão,

Nem o povo a morrer em frente do balcão.

A grosseira canção do jogral mais fiel

A fronte não distrai deste doente cruel;

Muda-se em tumba o seu leito flor-de-lisado,

E as damas para quem todo príncipe é amado,

Certo nunca irão pôr vestidos que comovem

Por seu sensual decote este esqueleto jovem.

O sábio que lhe faz ouro é desvalimento,

De vez que não lhe extirpa o corrupto elemento,

E estes banhos de sangue e que o romano ensina

E que ocorrem aos reis quando a idade declina,

Jamais aquecerão este cadáver langue

Que a água do Letes tem fluindo em vez de sangue.

 

Ivan Junqueira (I)

Sou como o rei sombrio de um país chuvoso,

Rico, mas incapaz, moço e no entanto idoso,

Que, desprezando do vassalo a cortesia,

Entre seus cães e os outros bichos se entedia.

Nada o pode alegrar, nem caça, nem falcão,

Nem seu povo a morrer defronte do balcão.

Do jogral favorito a estrofe irreverente

Não mais desfranze o cenho deste cruel doente.

Em tumba se transforma o seu florido leito,

E as aias, que acham todo príncipe perfeito,

Não sabem  mais que traje erótico vestir

Para  fazer este esqueleto enfim sorrir.

O sábio que ouro lhe fabrica desconhece

Como extirpar-lhe ao ser a parte que apodrece,

E nem nos tais banhos de sangue dos romanos,

De que se lembram na velhice os soberanos,

Pôde dar vida a esta carcaça, onde, em filetes,

Em vez de sangue flui a verde água do Letes.

 

Nossos comentários em atenção à carta-circular de Secchin:

 

O primeiro verso encontrou em J. a tradução mais próxima da letra original; os outros dois (G. e I.) usaram cavilhas (adjetivos) para acerto da métrica: o “pobre” de G. é de fato muito pobre; já I. usou “sombrio” que se encaixa melhor no sentido da frase e fatura um verso mais “poético”, embora com sacrifício da métrica original (aboliu a cesura em favor de um esquema 4-6-10-12).

O segundo verso empata em G. e I. e varia em J. no uso de “impotente”, que contém as duas acepções do original (mas o resultado “poético” em português não é tão bom quanto nos outros dois).

O terceiro verso tem métricas diversas do original em G. (3-7-120 e I. (4-8-12); courbettes (reverências, mesuras, salamaleques) foi traduzido por “lisonjas” em G. e por “cortesia” em I. As “mesuras” de J. continuam mais próximas do original, mas só G. conservou “preceptores” (embora com sacrifício do ritmo do verso), enquanto I. optou por “vassalo” e J. afastou-se ainda mais em “aio”.

O quarto verso não encontrou nos três tradutores nenhum que reproduzisse o duplo significado de bêtes (animais/imbecis): G. usa “animais/cães” e I. “cães/e outros bichos”.

O quinto verso é coincidente em G. e I., variando em J., que lhe enxerta uma cavilha (“enfim”); os dois primeiros estão mais próximos do original.

No sexto verso há o problema sério de que “balcão”, para nós, é mais o móvel do bar do que a varanda suspensa do palácio: G. e J. escorregam: em frente do balcão é termo de armazém; I. evita o pejorativo com um “defronte do balcão”, que enobrece o dito; mas há soluções melhores.

No sétimo verso, G. e I. traduziram bouffon por jogral, palavra mais consentânea para designar quem canta uma balada; Baudelaire certamente sabia disso, mas preferiu bouffon a jongleur para obter o efeito aliterativo bouffon favori – essa magnífica profusão de ffs quase reproduzindo a cara do histrião que vai cantar não uma balada medieval mas sua grotesca (palavra fundamental) paródia. I. percebe o jogo dos ffs e consegue um belo “jogral favorito a estrofe”, mas perde força com o “irreverente”, pois aqui não há como fugir a “grotesca balada”. J. embola o campo com uma “grosseira canção do jogral mais fiel”, desta vez se afastando mais do original que os outros tradutores.

O oitavo verso está magistralmente traduzido por I. A opção de G. no entanto produz um verso – digamos – mais “bonito”, ao passo que J. consegue apenas um verso meramente correto.

O novo verso tem a dificuldade do fleurdelisé (palavra específica para designar o ornamento heráldico em forma de lírio estilizado, distintivo da realeza na França): G. usa “todo flores-de-lis” e J. “flor-de-lisado”, de muito mau gosto; I. leva a palma (ou o lírio) com um “florido leito”, mais pobre que o original e nada heráldico — mais digno da Ofélia shakespeariana do que do esplínico Baudelaire — mas que nos dá, do ponto de vista “poético”, um verso capaz de empolgar mesmo aqueles que preferem a fidelidade à criatividade. Tombeau é “tumba” em I. e J., mas G. consegue um belo efeito aliterativo com o “mausoléu seu leito”.

No décimo verso há coincidência em G. e I. no desprezo à cesura; beau (belo, bonito, bom) é “perfeito” nos dois primeiros, e “amado” (mudança de sentido) em J.

O décimo primeiro verso tem um toillete (que pode ser traduzido por “traje ou vestido, ou mesmo toalete, no sentido mais moderno) que vem antecedido do adjetivo impudique: G. traduz por “ traje impudico”, I. por “traje erótico” e J. por um extenso “vestidos que comovem/por seu sensual decote” (ah! esses voyeurs!). Se o acento tônico fosse proparoxítono em português, teríamos com I. a tradução perfeita: “Não sabem mais que traje impúdico [sic] vestir”; não sendo, a melhor solução é mesmo carregar na tinta e partir para o “erótico” na obtenção de mais um belo verso;

No décimo segundo verso, “arrancar um sorriso a esse esqueleto jovem” seria uma solução pobre mas quase literal: G. prefere “Para fazer esse esqueleto moço rir”, I. “Para fazer esses esqueleto enfim sorrir” (menos acurado, pois foge ao adjetivo, necessário) e J. “Por seu sensual  decote esse esqueleto jovem”, que extravasou o verso por causa do decote (ainda que mantivesse o adjetivo). Fugindo ao alexandrino clássico, talvez tivéssemos uma solução aceitável com o esquema 4-8-10-12: Para fazer esse esqueleto jovem rir. Mas é mera especulação, já que temos insistido na manutenção do alexandrino clássico.

Daqui em diante a tarefa se torna mais difícil: já em prosa teríamos algumas dubiedades do tipo: “O sábio [ou o alquimista, que era também o médico na Idade média] que faz ouro para o príncipe, jamais conseguiu extirpar de seu ser o elemento corrupto [outra opção: o elemento espúrio, em oposição ao ouro, o elemento nobre], e nem com esses banhos de sangue que nos vêm dos romanos – e dos quais se lembram os poderosos na idade provecta — não soube (no sentido de conseguir) reaquecer (ou fazer pulsar) esse cadáver estupidificado, no qual em vez de sangue circula a água verde do Letes. Soluções dos tradutores: G. trocou o elemento por matéria, troca aparentemente sem importância, mas que altera o jogo de elemento nobre (ouro) e elemento espúrio (spleen); I. foi mais genérico: “a parte que apodrece”; J. mantém o adjetivo e o substantivo, mas, invertendo-lhes a ordem, obtém como resultado um verso duro.  “E nem nos tais banhos de sangue dos romanos / De que se lembram na velhice os soberanos” é coincidente em G. e I., que não fizeram qualquer esforço para evitar os tais “tais” que vulgariza o verso, nem deram ao leitor a acepção de déspota, de potentado cruel para os “tais” soberanos, que só assim se lembrariam dos “banhos de sangue” (expressão aqui usada, no primeiro verso, em sentido literal, e, no segundo, em sentido figurado); a solução de J. é ainda mais fraca, com muitos quês e uma diluição que não reproduz de modo algum o duplo sentido do original.

Reta de chegada: G. consegue o melhor dístico final se analisado em termos de verso em português; I., atento aos valores formais, sabe que a palavra-chave é Letes e finaliza com ela, como no original, recorrendo a um “filetes” (pena que a segunda vogal é fechada, lê), em que consegue manter o adjetivo verde (cromatismo expressivo por sua oposição à cor do sangue [azul] e encaixar a única rima opulenta que aparece nas três versões [há nove pares delas no original, como veremos]). Quanto a J., seu langue é langue, e o “tem fluindo” parece até erro de revisão, tanto esforço requer para ser entendido.

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Conclusão: a melhor tradução, a nosso ver (crítico) é a de Ivan Junqueira, motivo aliás de o termos escolhido para integrar o volume da obra completa (poesia e prosa) de Charles Baudelaire, que organizamos em 1995 para a Nova Aguilar.

Os poetas franceses, mormente os românticos e naturalistas como Baudelaire, adotavam a rígida observância de dois preceitos da métrica francesa: a alternância das rimas agudas (palavras oxítonas) com as graves (paroxítonas). [ No poema que estamos analisando essa alternância se observa aos pares: pluvieux/vieux (agudas), courbettes/bêtes (graves), etc. Por outro lado, e diversamente da métrica portuguesa, a alternância dos gêneros gramaticais nas rimas não é quase nunca observada pelos franceses]. O outro preceito: os bons poetas franceses em geral não abrem mão de empregar rimas com consoante de apoio, ou seja, rimam não apenas a sílaba tônica, mas incluem nesta a consoante que a antecede: ex. coubettes, bêtes. Além disso, os mais dogmáticos (e Baudelaire mais que todos) não dispensavam as rimas chamadas opulentas, ou seja, aquelas em que a totalidade de uma palavra se embebe inteiramente na outra, ex. pluvieux/vieux, tombeau/beau, corompu/pu/, souviennent /viennent. Tal virtuosismo é difícil de se manter em tradução e mesmo esse tipo de rima não goza de bom conceito entre nós, que consideramos pobres as rimas de palavras da mesma derivação. Quanto à consoante de apoio, houve tentativas nacionais (ex. Goulart de Andrade) de utilizá-la, mas que se frustraram por não ter nossa língua os mesmos recursos da francesa, em que são muito numerosas as palavras com terminação sonora semelhante.

 A versão que em seguida apresentamos – sem intenção de concorrer com as belas performances dos tradutores citados – leva em conta as considerações acima, conjugadas à tentativa de manutenção do esquema rímico original (opulentas), salvo em duas ocasiões: chuvoso /idoso; faceto/esqueleto, embora neste último caso conseguíssemos pelo menos manter o tom fechado do vocábulo: êto. Não se trata de uma tradução elogiável: falta-lhe a naturalidade do fraseio baudelairiano, embora procurássemos reter ao máximo o seu vocabulário. Será, quando muito, um exercício de estilo com o qual queremos quebrar a prática fácil da crítica sem a contrapartida da exemplificação.

Sou assim como o rei de algum país chuvoso

— Rico, mas incapaz; jovem, no entanto idoso —

Que de seu preceptor despreza as curvaturas

E enfara-se com os cães e as outras criaturas.

Nada o pode alegrar, nem caça, nem falcão,

Nem o povo que morre aos pés de seu balcão.

Do bufão favorito a grotesca balada

Já não distrai do enfermo essa expressão calada.

Seu leito em flor-de-lis transforma-se em sepulcro,

E as damas, para as quais todo príncipe é pulcro,

Não logram encontrar um traje mais faceto

Que arranque um frouxo riso ao jovem esqueleto.

O sábio, que faz ouro, esmoreceu no apuro

De lhe extirpar do ser esse elemento impuro;

Nem nos banhos de sangue, herdados dos romanos,

Que o poderoso invoca ao declinar dos anos,

Conseguiu lhe aquecer a carcaça que escorre

E, em vez de sangue, a verde água do Letes corre.

 

 

***

Adendo:

Apreciaremos quaisquer comentários e principalmente críticas dos leitores e os convocamos a tentar também suas versões.

                                                             ***

Quadro sinótico da classificação das rimas usadas no original e na tradução:

ca = consoante de apoio/ra= rima abundante/ rr=rima rica/rp=rima pobre

Pluvieux               chuvoso

très-vieux (ra)    idoso (rima pobre – adjetivo x adjetivo)

courbettes            curvaturas

bêttes   (ra)         Criaturas (ca)

faucon                   falcão

balcon  (ca)         balcão (ca dupla)

ballade                 balada

malade (ca dupla)      calada   (ca dupla)

tombeau                sepulcro

est beau (ra)       é pulcro (ra)

toilette                  faceto

esquelette (ca)    esqueleto (rima rica – adjetivo x substantivo)

/jamais pu            apuro

Corrompu (ra)    impuro (ca)

Viennent             romanos

Souviennent (ra)        anos (ra)

Hébété                   escorre

Léthé (ca)           Letes corre (ra) 

 

Ilustrações: La Femme au Chapeau Noir – Georges de Feure – capa do livro; portrait de Charles Baudelaire – Émile Deroy, pág. 36;  portrait de Charles Baudelaire,  Gustave Courbet,  pág. 192

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Por pura arte de Láquesis, fui parar na Holanda, onde atuei de 1968 a 1970 como Adido Comercial da Embaixada do Brasil na Haia (Den Haag, em neerlandês). Além do estimulante trabalho de divulgador de nossos produtos exportáveis, atividade que me levava a conhecer as várias regiões do país, tive a oportunidade de desfrutar de extenso leque cultural, abrangendo os famosos museus holandeses e suas magníficas orquestras sinfônicas. Foi quando ouvi pela primeira vez as sinfonias de Mahler, que o maestro Bernard Haitink estava revivendo no reconstruído (1966) teatro De Doelen, de Rotterdam, dotado da melhor acústica que havia na época. Em Amsterdam, além do Concertgebouw, havia o imperdível museu de Van Gogh, o Rijkmuseum e, ali perto em Otterlo, o Kröller-Müller, com a segunda maior coleção de obras desse gênio, tais os expressivos “Comedores de batatas” (Aardappeleters), de que adquiri algumas reproduções. Mas não precisava sair da Haia para me deparar com os grandes mestres da pintura holandesa. Lá estava o Gemeentemuseum (Museu municipal), onde se podiam ver os quadros de Piet Mondrian, e, enfileiradas em ordem cronológica, as várias transformações por que passou sua árvore impressionista até chegar à sua versão final, cubista, em quadradinhos. Mas o sumo do sumo era mesmo a Mauritshuis (Casa de Maurício de Nassau), onde, entre outras preciosidades, estava exposta a obra-prima de Jan Vermeer, “Vista de Delft” (Gesicht op Delft), que – obviamente como a todo mundo – me fascinou a ponto de ir visitá-la com frequência. Quando estava para voltar ao Brasil, adquiri uma bela reprodução (53X55cm) do quadro, que me acompanhou em todas as minhas deslocações e hoje adorna o hall de meu apartamento no Leblon.

Portanto, muito tempo antes de ler Proust – que li mal, fragmentariamente, e nunca ao todo, na verdade – eu já achava razão em sua célebre frase escrita numa carta a seu amigo Jean-Louis Vaudoyer (Correspondance, tome XX):“La vue de Delft est le plus beau tableau du monde”. E só voltei a me interessar por ele, Proust, quando surgiu, já em fins do século XX, o curioso debate sobre o que seria o “petit pan de mur jaune”, no quadro de Vermeer. O que deu origem a esse debate foi um trecho de “Em busca do tempo perdido”, encontrado no 5º tomo (La Prisonnière), que narra a morte do escritor Bergotte. Ei-lo no original e na tradução de Manuel Bandeira:

« … un critique ayant écrit que dans la Vue de Delft de Ver Meer (prêté par le musée de La Haye pour une exposition hollandaise), tableau qu’il adorait et croyait connaître très bien, un petit pan de mur jaune (qu’il ne se rappelait pas) était si bien peint, qu’il était, si on le regardait seul, comme une précieuse œuvre d’art chinoise, d’une beauté qui se suffirait à elle-même, Bergotte mangea quelques pommes de terre, sortit et entra à l’exposition. Dès les premières marches qu’il eut à gravir, il fut pris d’étourdissements. Il passa devant plusieurs tableaux et eut l’impression de la sécheresse et de l’inutilité d’un art si factice, et qui ne valait pas les courants d’air et de soleil d’un palazzo de Venise, ou d’une simple maison au bord de la mer. Enfin il fut devant le Ver Meer, qu’il se rappelait plus éclatant, plus différent de tout ce qu’il connaissait, mais où, grâce à l’article du critique, il remarqua pour la première fois des petits personnages en bleu, que le sable était rose, et enfin la précieuse matière du tout petit pan de mur jaune. Ses étourdissements augmentaient; il attachait son regard, comme un enfant à un papillon jaune qu’il veut saisir, au précieux petit pan de mur. « C’est ainsi que j’aurais dû écrire, disait-il. Mes derniers livres sont trop secs, il aurait fallu passer plusieurs couches de couleur, rendre ma phrase en elle-même précieuse, comme ce petit pan de mur jaune. » Cependant la gravité de ses étourdissements ne lui échappait pas. Dans une céleste balance lui apparaissait, chargeant l’un des plateaux, sa propre vie, tandis que l’autre contenait le petit pan de mur si bien peint en jaune. Il sentait qu’il avait imprudemment donné le premier pour le second. « Je ne voudrais pourtant pas, se disait-il, être pour les journaux du soir le fait divers de cette exposition. »
Il se répétait : « Petit pan de mur jaune avec un auvent, petit pan de mur jaune. » Cependant il s’abattit sur un canapé circulaire; aussi  brusquement il cessa de penser que sa vie était en jeu et, revenant à l’optimisme, se dit : « C’est une simple indigestion que m’ont donnée ces pommes de terre pas assez cuites, ce n’est rien. » Un nouveau coup l’abattit, il roula du canapé par terre, où accoururent tous les visiteurs et gardiens. Il était mort. »

Lendo, porém, num crítico, que na Vista de Delft de Ver Meer (emprestada pelo museu de Haia para uma exposição holandesa), quadro que ele apreciava muitíssimo e julgava conhecer em todos os por­menores, havia um panozinho de muro amarelo (de que não se lembrava) tão bem pintado que era como uma preciosa obra de arte chinesa, de uma beleza completa em si mesma, Bergotte comeu umas batatas, saiu de casa e entrou na expo­sição. Logo nos primeiros degraus que teve de subir sentiu umas tonteiras. Passou em frente de alguns quadros e teve a impressão da secura e da inutilidade de uma arte tão factícia, e que não valia as correntes de ar e de sol de um palazzo de Veneza, ou de uma simples casa à beira-mar. Enfim chegou diante do Ver Meer, de que se lembrava como sendo mais luminoso, mais diferente de tudo o que conhecia, mas onde, graças ao artigo do crítico, reparou pela primeira vez numas figurinhas vestidas de azul, na tonalidade cor-de-rosa da areia e finalmente na preciosa matéria do pequenino pano de muro amarelo. As tonteiras aumentavam; não tirava os olhos, como faz o menino com a borboleta amarela que quer pegar, do precioso panozinho de muro. “Assim é que eu de­veria ter escrito, dizia consigo. Meus últimos livros são de­masiado secos, teria sido preciso passar várias camadas de tinta, tornar a minha frase preciosa em si mesma, como este panozinho de muro”. Não lhe passava, porém, despercebida a gravidade das tonteiras. Em celestial balança lhe apare­cia, num prato a sua própria vida, no outro o panozinho de muro pintado de amarelo. Sentia Bergotte que im­prudentemente arriscara o primeiro pelo segundo. “Não gostaria nada, disse consigo, de vir a ser para os jornais da tarde a nota sensacional desta exposição”. Repetia para si mesmo: “Panozinho de muro amarelo com alpendre suspenso, panozinho de muro amarelo”. Nisso deixou-se cair subitamente, num canapé circular; subita­mente também, cessou de pensar que estava em jogo a sua vida e, recobrando o otimismo, disse consigo: “É uma sim­ples indigestão causada por aquelas batatas mal cozidas, não há de ser nada”. Nova crise prostrou-o, ele rolou do canapé ao chão, acorreram todos os visitantes e guardas. Estava morto.

Esta cena, atribuída por Proust a Bergotte, na verdade aconteceu com ele próprio, sem o final fatídico por sorte, mas provavelmente previsto por ele. Em fins de maio de 1921, de acordo com seu biógrafo George Painter, os jornais parisienses anunciaram a exposição no Jeu de Paume de uma coleção de quadros holandeses, cedidos pelo museu da Casa de Maurício, entre os quais estavam a “Vista de Delft” e “A moça com brincos de pérola”, de Vermeer (que Proust grafa Ver Meer). Seus amigos Leon Daudet e Jean-Louis Vaudoyer haviam escrito artigos laudatórios a respeito e, num deles, falava-se de um “pequeno lanço de parede amarelo” no quadro “Vista de Delft”, como sendo “um inestimável espécime de arte chinesa, de uma beleza completa em si mesma”. Proust ficara intrigado, pois julgava conhecer o quadro melhor do que ninguém e, angustioso, deu-se conta de nunca ter atentado para aquele “pedaço amarelo do muro”. Por isso, convocou seu amigo Vaudoyer a levá-lo à exposição e acordou naquele dia às 9 da manhã, hora em que habitualmente ia dormir. Logo à saída, no entanto, sentiu uma espécie de vertigem, mas logo se recuperou e, assistido por Vaudoyer, que lhe notou as mãos trêmulas, pôde ver toda a exposição e, mais ainda, almoçar fora com o amigo. Trabalhando na quinta parte de sua Recherche, Proust transpôs para seu personagem Bergotte não só a angústia da visita à exposição como a frustração de não ter localizado o dramático “pedaço de muro” (ou de parede, mur em francês).

Mas onde estaria localizado, no quadro, o misterioso fragmento amarelo ?

Ao longo do tempo, dezenas de críticos e comentaristas levantaram hipóteses ou preferências sobre sua localização. O quadro vai reproduzido aqui com algumas indicações para você escolher, em sua opinião, a mais provável.

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Há tempos, meu amigo Diógenes da Cunha Lima, grande figura de Natal-RN, campeão dos nobres gestos (adquiriu um terreno só para não deixar que derrubassem um imenso baobá que nele havia), mandou-me este instigante questionário, cujas perguntas, pela sua amplitude e sensibilidade, gostaria de propor também aos leitores deste blog. Como você faria?

1. Solidão é conquista ou derrota.

A solidão é uma das muitas luas da vida: sua face luminosa é a do ser consigo mesmo, necessária para o auto-conhecimento e a reflexão; a segunda é quase um desespero, o negror do abandono.

2.  O computador muda a sua vida.

O computador modifica fundamentalmente alguns de nossos hábitos. Traz benefícios já agora incorporados ao nosso dia-a-dia. Mas não creio que mude o nosso interior.

3.   A Internet é também extensão de sua vida.

A Internet contribui em muitos casos para facilitar a nossa vida: inesgotável fonte de consulta sobre praticamente todos os assuntos; maior velocidade em nossas comunicações. Pode ser comparada ao um lixão: toneladas de dejetos onde às vezes se encontra uma pepita.

4.   Escrever é ventura ou aventura.

Uma síntese de ambas. O escritor sofre durante o ato de criar e rejubila-se depois da criação.

5.  O que mais se salienta em um caráter humano.

A honestidade do comportamento.

6.  Melhor a fantasia ou a realidade.

Sem a fantasia a realidade seria muito pobre. Sem a realidade a fantasia não teria sentido.

7.   A poesia é útil.

Não, se tomarmos a palavra como utilidade prática, algo rentável ou passível de servir a determinadas situações da vida material. É útil subjetivamente – uma espécie de pão da alma.

8. Fronteira entre a poesia e a prosa.

Os limites se confundem e se interpenetram. Assim como há muita poesia prosaica há também muita prosa poética. Delimitar a fronteira é trabalho para especialistas hipersensíveis: às vezes num longo trecho meramente prosaico explode uma palavra, um verbo, um torneio da frase que nos faz ascender à beatitude lírica.

9. Livros que ajudaram à sua formação.

“Demian”, de Hermann Hesse, foi o livro que literalmente mudou minha vida, ajudando-me a vencer um complexo de timidez que me asfixiava. Foi tão definitivo na minha formação que me determinei a traduzi-lo, para que outros pudessem usufruir dos benefícios que ele me havia proporcionado.

10. Qualidade superior em um homem.

Altruísmo.

11. Qualidade superior em uma mulher.

Aura.

12. O que mais aprecia em um amigo.

Franqueza, lealdade.

13. O que mais lamenta em um amigo.

Inveja, sarcasmo.

14. Medo – a que serve.

O medo instiga o anseio de vida. Em demasia, o da morte.

15. Dúvida – a que serve.

No mínimo para gerar uma obra-prima como o Hamlet.

16. A morte é vírgula ou ponto final.

É ponto-e-vírgula.

17. Deus é patrimônio de cada ser humano.

Deus é o ser humano levado à perfeição.

18. Jesus é um amigo.

Um amigo distante, mas inspirador.

19. O diabo tem credibilidade.

Pelo menos literariamente: vide o Fausto, Papini, etc. Na vida real apresenta-se sob a forma dos mil aborrecimentos que sentimos cotidianamente.

20. Somos sós no universo.

No universo, na terra, no país, na cidade, em casa…

21. Que outro dom, Deus poderia ter dado a você.

Já dizia o Pessoa que os deuses tomam quando dão. Se considero a poesia um dom, lamento que      ela não me frequente amiúde.

22. Seu defeito principal.

Lordose.

23. Sua ocupação preferida.

Escrever.

24. Como você sonha a felicidade.

Uma conjugação perfeita de hedonismo e espiritualidade.

25. Você não consegue tolerar.

A desfaçatez da política atual.

26. Seu estado de ânimo atualmente.

Um pêndulo entre a depressão e a euforia.

27. O que mais importa a você como profissional.

O reconhecimento da qualidade de meu trabalho por parte de um pequeno grupo não necessariamente de amigos mas de conhecedores do ramo.

28 O que mais importa a você como amador.

A liberdade de escolha.

29. O que o tornaria infeliz.

Não poder ouvir música.

30. Quem você gostaria de ter sido.

Estou satisfeito com o que sou, mas gostaria de fazer algumas recauchutagens.

31.Três cidades encantadoras.

Paris, Taormina e Rio de Janeiro, do ponto de vista panorâmico. Há outras que me encantaram pelo clima interior, a afeição de seu povo, a aura benfazeja.

32. De que país o Brasil poderia auferir qualidades.

Faltam-nos algumas das qualidades dos povos mais cultos, como por exemplo a disciplina e a instrução. Mas acho que com todos os nossos defeitos e deficiências estamos fadados a ser uma grande nação algum dia.

33. Árvore admirável.

Tenho duas, prioritariamente, na memória visual: no Rio, um ipê-amarelo próximo à minha casa (escrevi uma crônica sobre ele) e um baobá, visto em Natal e que espero rever.

34. Flor preferida.

Rosa.

35. Pássaro admirado.

Beija-flor.

36. Cor favorita.

Azul.

37. Autores canônicos favoritos (prosa).

Brasileiros: Machado, Graciliano, Clarice Lispector.

38. Autores canônicos favoritos (poesia).

Drummond, Bandeira e João Cabral. Entre os antigos: Raul de Leôni.

39. Na ficção, personagens (masculinos) de sua estima.

Cyrano de Bergerac, Dom Quixote, Zeno (de Ítalo Svevo).

40. Na ficção, personagens (femininas) da sua estima.

Capitu, Madame Bovary, Olívia (de Érico Veríssimo).

41. Compositores favoritos (erudito e popular).

Mozart, Ravel, Debussy. Villa-Lobos.

42. Um filme.

Les Enfants du Paradis (Marcel Carné – Jacques Prevert)

43. Pintores preferidos.

Munch, Morandi, Portinari.

44. Um ditado popular.

Para bom entendedor, um pingo é letra.

45.Três palavras bonitas.

Alcândora, pituitária, epifania.

46. Um aforismo.

O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria (William Blake).

47. Prenomes favoritos (três).

Ney, Fábio, Raul.

48. Heróis (na vida real).

Zola e todos os que defendem a causa da justiça.

49. Heroínas (na vida real).

A mulher que morreu queimada tentando salvar as crianças de um carro incendiado. O heroísmo é ainda mais significativo quando o herói é anônimo.

50. Heróis históricos.

Não me ocorre ninguém expressivo, agora.

51. Detestáveis homens da história. 

Bush. Sadam.

52. Daria indulgência a que falhas humanas.

A todas as pequenas. O homem é falível por excelência, mas não perdoaria o crime.

53. Um verso. 

Um verso de harmonia gestáltica:

“Erguendo o dorso altivo sacudia

a branca espuma para o céu sereno”

(Casimiro de Abreu) .

54. Uma canção. 

“Rapunzel, Rapunzel, solta, solta as longas tranças” (*)

55. Personalidades bíblicas (masculinas). 

O Rei Davi, Lázaro, O Filho Pródigo.

56. Personalidades bíblicas (femininas). 

Madalena, Michol, Raquel.

57. O seu rio. 

Turvão (“o rio da minha aldeia”).

58. O seu mar, sua praia. 

O Mediterrâneo, a praia de Itacuruçá.

59. Quem tem um sol no coração. 

A maior parte de meus amigos.

60. Quem tem um deserto no coração. 

Os rancorosos, os desiludidos, os abandonados.

61. Ser criança é.

 Não se entregar à velhice.

62. Ser jovem é.

Um estado de espírito.

63. Ser maduro é. 

Saber julgar.

64. Ser velho é. 

Inevitável.

65. Bebida favorita. 

Antigamente, champanhe; hoje, leite de soja.

66. Comida favorita. 

Sou glutão, mas se tiver de escolher, prefiro peixe.

67. Exerce a sua fé. 

Muito intimamente e em total discrição.

68. Exerce a sua esperança. 

Religiosamente.

69. Exerce a sua caridade. 

Não tanto quanto o meu impulso o exigiria.

70. Epifanias.

A idealização do amor, o deslumbramento, a percepção do milagre, o toque da magia.

71. Seu lema. 

Ainda hei-de!

(*) Rapunzel é um nome que me ficou cauterizado na memória desde que li,  em criança, a história dos irmãos Grimm no Tesouro da Juventude:  Um jovem vê sua amada presa numa torre e pede-lhe que solte os longos cabelos a fim de poder  subir por eles e salvá-la. Ele chega embaixo e canta: “Rapunzel, Rapunzel, solta, solta as longas tranças”. Desde aquela época, atribuí a essas palavras uma música que, até hoje, sem querer,  me ouço trauteando.

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