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Archive for maio \24\UTC 2011

HINO A DELOS (fragmentos)

Quisera estes leões voltados para o mar.

Mas os Naxos puseram-nos de frente para o Kyntos:

olhos fitos nas fáculas de Apolo.

Cidade aberta ao estrangeiro.

Na praia

poderiam parecer sentinelas hostis

com o radar de seus urros sem ruído

a varrer águas ásperas de velas.

Feras jacentes,

nelas não há o pressuposto salto à espera da presa;

antes seres votivos

que ambulassem prosaicos pelas ruas

despertando respeito em vez de pânico.

O vento que das Cíclades

sopra por sobre a espraiada extensão desta ilha

e x s u r g e n t e,

gastou o dorso hirsuto destes grifos

e o cansaço das eras se reflete nas ancas derreadas,

nesse olhar cujas pupilas foscas

ficaram para sempre abertas para a morte.

II

De há muito que os deuses desertaram.

Lá na enseada onde se ouviam vozes

antes mesmo que o Sol se houvesse erguido

há vagas de silêncio

e as águas gastas pelas quilhas

que sem cessar entravam pelo porto

hoje se adensam em quase lodo e lembram

apenas o ferir de cascos que se foram.

Mas eles

presos pelos pés

na pedra

que lhes serve de jaula, permanecem

reverentes a Phoibos que penteia

com o garfo de seus raios as jubas aljofradas.

Ai que da orla do secluso bosque

Artêmis já não surge como outrora,

quando de suas mãos alçava as alpercatas

e os precedia à fímbria da água

onde sedentos os leões sorviam

em mil fragmentos sua própria imagem!

III

O artista que os criou decerto nunca

defrontara uma fera; talvez nem mesmo

de uma distância precatada os visse

pascendo na savana.

Pois do contrário

a massa estuaria em perfeições estéticas:

ordenada ossatura do volume / tensão elétrica dos

músculos / juba hierática / fundo olhar hiante —

a fauce, a força, a FORMA enfim da fera.

É que esta fera, mais do que uma fera

reproduzida em pedra para os pósteros,

é uma fera feita para ser

a imagem da fera, mais que a fera;

como se em vez d’après nature ,

fosse um projeto contra-a-natureza,

além dessa harmonia inquestionada

que aceitamos como sendo a fera,

a vera fera feita realidade.

Por que leões? Não sei. Mas hic sunt

nos portulanos desta ágora,

gráficos mais que grifos,

signos, indícios mais que goelas,

mais que carne e garra

outra verdade em verbo.

IV

Aqui diante destes

leais

leões, aqui de

joelhos,

a que deus orar

se é que há

deuses?

Se não houver,

ora,

por que orar?

Orar só porque não há.

Aqui diante deles

Delos

aprender a esperar

na pedra

ou seja

na parada

posição de quem

espera

por esperar,

aprender

a pensar

a pedra,

a pura perda

de pensar.

Aprender

preso o pé

que apesar

de preso podes

pensar.

(1978)

(In A Caça Virtual e outros poemas  – Ed. Record – 2001 – pp. 89-92)

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Nestes tempos de patrulhamento antitabagista e de euforia lacaniana, A Consciência de Zeno poderia ser tachado de romance politicamente incorreto. O personagem principal, além de fazer a apologia do fumo, desanca com feroz ironia o tratamento psicanalítico a que se submete para deixar de fumar. A narrativa conta a história de um fumante vocacional, que empreende sua tentativa de cura talvez mais para desacreditá-la do que para se beneficiar com ela. É um retrato irônico do próprio autor que, pouco antes de falecer em consequência de um estúpido acidente de automóvel, ainda pediu aos parentes, em seu leito de morte, uma “ultima sigaretta”, assegurando-lhes que, daquela vez, realmente seria o seu último cigarro. Mas onde entra ai sua desconfiança em relação à psicanálise, que já se firmava na época da feitura do romance, e pela qual o autor de fato se interessou a ponto de traduzir uma boa parte do compêndio simplificado da monumen­tal A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud?

Svevo era um homem moderno, ansioso de saber, esforçando-se por estar em dia com os avanços de sua época. O romance Senilidade apresenta análises do personagem Emilio Brentani em seu relacionamento com a amante Angiolina, que são algo mais profundas que as simples digressões naturalistas, prenunciando um avanço em direção dos enfoques psicanalíticos. Porém, Svevo nega a existência desse psiquismo avant la lettre no romance: “Publiquei ‘Senilidade’ em 1898, quando Freud ainda não existia, ou se existia chamava-se Charcot” (referência ao grande neurologista francês, o revelador da histeria, de quem Freud foi discípulo). Mas já em A Consciência de Zeno, admite ter aí “duas ou três ideias que foram tomadas diretamente de Freud”. Se havia urna admiração pela obra do “xamã de Viena” a ponto de se apropriar de algumas ideias ou teorias dele para embasar seu romance, o que teria levado Svevo a desacreditar da psicanálise ao longo do livro e a começar o último capítulo dizendo: “Acabei com a psicoanálise. Depois de havê-ia praticado assiduamente durante três meses inteiros, sinto-me pior do que a principio”?

Mas houve também um fato pessoal que contribuiu para essa leitura, envolvendo um escândalo mantido em segredo na família de Svevo, ou melhor, na de sua muIher, Livia Veneziani. Seu cunhado Bruno, o mais novo dos irmãos desta, desde cedo apresentava sinais de “exaltação sensorial”, expressando-se com abundância de gestos e trejeitos, que !he valeram o apelido de ”scimmiotto” (o macaquinho). Considerado esquizofrênico pela família, foi levado aos 18 anos para Viena e entregue aos cuidados de Freud, que o submeteu a um tratamento que levou anos, acabando por dispensá-lo como incurável. Freud despachou-o dizendo: “Posso curar quem deseja a cura, mas não quem a rejeita”. Sabe-se hoje, pelas anotações do dr. Edoardo Weiss – o único médico psicanalista de Trieste –, que o caso de Bruno era “homossexualismo irreversível”, agravado mais tarde pelo uso de drogas.

O impacto da fracassada cura do cunhado, cercada pela tendência de abafamento da época, provocou certamente em Svevo um desencanto pela eficácia da psicanálise, e ele próprio praticou-a ao longo da vida, a sós, em desacordo com os ditames da ciência. Contudo, seria muito acanhado pensar que o livro esteja balizado apenas entre o vício do fumo e a falência da psicanálise. O que mais conta nele será talvez o humor cáustico usado pelo autor-personagem para se auto-analisar e penetrar com intuição quase científica nas motivações alheias. Além de uma fabulaçâo múltipla e quase sempre inesperada, culminando com uma hecatombe que nos faz pensar no caráter premonitório de narrativa. Um humor perpassa todo o livro e lembra os melhores wittcisms machadianos (“Quanto mais se arregalam os olhos, menos nitidamente se vêem as coisas”. “Uma coisa definitiva é sempre clara, de vez que dissocia­da do tempo.” “A liberdade completa consiste em poder fazer aquilo que se quer desde que se possa fazer também alguma coisa de que se goste menos.”) — comparação que não se deve estranhar, já que ambos beberam na fonte comum do velho Sterne.

[Publicado na revista Bravo! de abril 2002]

Nota : Há dois outros artigos sobre Svevo aqui no blog : « Ettore Schmitz, aliás Italo Svevo – um resumo cronológico » (28.09.2010) e « Ainda Svevo – A Consciência de Zeno » (08.10.2010)

[Ainda não li: a reprodução deste artigo, escrito em 2002, vem a propósito do lançamento de “O livro negro da psicanálise”, de Catherine Meyer, que, segundo a publicidade, “incendiou a França quando foi publicado em 2005” (edição Civilização Brasileira; tradução de Maria Beatriz de Medina e Simone Perelson). Continuamos fieis ao grande Sigmund — o homem que tirou uma ciência do nada — mas não custa arriscar uma olhadela sveviana no livro só para conferir. INB]

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Quando em 1980 o olheiro literário Mário da Silva Brito apresentava Jair Ferreira dos Santos como “um novo contista” (em vez de apenas “mais um”), não estava simplesmente fazendo prognósticos bem intencionados, mas confirmando seu espírito crítico de farejador de talentos: Kafka na Cama era um livro realmente inovador. Numa época em que o conto primava pela linearidade da narrativa e tinha o objetivo editorial de “entreter” o leitor com histórias banais (“sans ortographe”, como diria Rimbaud), aquelas sete narrativas surgiam como uma brusca mudança de tática, um drible no leitor passivo, que se via obrigado a encarar um texto que surpreendia pelos seus requintes invulgares, tais como o wittcism, o punch, a frase de impacto, que alcançavam não raro a condição de pedras de toque. Em Sextuor: o Pai — esse ponto zenital do livro — , salvo uma incauta escorregada no campo resvaladiço das fintas joyceanas (Cy: o sonho, a bandeira), o leitor se descobria diante de um lance de absoluta realização estilística (adequação vocabular, ironia, sarcasmo, até mesmo um travo de sádico acerto de contas), dificilmente encontrável nos plantéis anódinos e previsíveis da contística brasileira. Era forçoso admitir que até mesmo as reminiscências autobiográficas, quando bem elaboradas, podiam resultar em alta literatura.

Mas Jair, como concluía Mário da Silva, não acabava nesse livro. Três anos depois da estréia, resolve mudar de time com um volume de versos, A Faca Serena, que refletia leituras bem digeridas de Lorca, Montale, Hart Crane e René Char. Não que fosse apenas um hiato lírico, um treino de seleção ou uma afinação de instrumentos; os poemas estavam muito além e o livro arrebatou um prêmio de revelação da APCA [Associação Paulista de Críticos de Arte], nesse ano em que o Jabuti de poesia era outorgado a Orides Fontela.

Chamado outra vez a integrar novos escretes, em 1986 o contista se exercitava no campo da ensaística com O que é pós-moderno, livro de divulgação sociológica sem pretensões a tratado filosófico, que em 1994 estava na 10ª edição e hoje já deve ter vendido uns 100 mil exemplares. O jogo de corpo de Jair trocava em espertos passes curtos e diretos todo um aranhol que um Terry Eagleton, por exemplo, tentava teorizar para o público de língua inglesa em linguagem arrevesada e pseudocientífica. Demonstrando grande habilidade em transformar observações imediatas em projeções pessoais de longo alcance, esse gosto pelo ensaio traria a Jair novos troféus duas décadas depois, com o arremate definitivo de seu Breve, o pós-humano, um livro “hiper-ligado nas questões do contemporâneo”.

O retorno à sua praia particular se deu em 1996 com A Inexistente Arte da Decepção, título kunderiano que não faz jus ao conteúdo ainda mais compacto e ao mesmo tempo articulado dessa segunda incursão pelo gênero conto. Esses seis novos relatos expandem o campo de pesquisa da realidade em redor e se aprofundam por outras esferas, até chegar a esse cão-narrador que “adota o niilismo como filosofia de vida” (no dizer do analista Muniz Sodré, que faz a orelha (cabelo e bigode) do livro. O conto do título “revive” para o leitor a manhã-tarde-noite de uma criatura velha e solitária, uma vida perdida na mesmidão, com aquela amargura (a um passo da piedade) que perpassa não raro pelos escritos de Virginia Woolf.

O espaço de uma década nos dá agora um Jair Ferreira dos Santos ainda mais cirúrgico e preciso. Cybersenzala — esse título emblemático – nasceu da visita a uma firma de televendas, com suas baias minúsculas, dentro das quais criaturas-autômatos passam o dia telefonando para perspectivos clientes a oferecer planos de saúde, cartões de crédito ou assinaturas de jornais e revistas. Essa senzala cibernética é a nossa realidade imediata, povoada de consumistas escravizados pela propaganda da televisão, vivendo de sonhos irrealizáveis e bracejando para vencer o dia-a-dia tirânico. De novo, a prosa de Jair é erudita, sem ser chata; informativa, sem ser vulgar; profunda, sem ser obsessiva. Sua capacidade de retratar certos segmentos da sociedade (por exemplo, essa reunião melancólica de bancários e “zangões), não só dispara um flash momentâneo, mas leva o leitor a elaborar sobre a continuidade do flagrante. Ou, dessacralizando a morte, Jair, em http://www.joy&peacefuneraldesign.com, imagina um site de agência funerária (memento Em breve, o pós-humano) que oferece aos seus clientes a glamorização do “falecido”: a precisão da linguagem-prospecto-bula-manual do usuário só é excedida pelo arrojo da fabulação que se envereda pelos aspectos mais imprevisíveis do cerimonial.

Numa época de platitudes escrachantes, repetitividade tatibitate e erotismo grosseiro de sex-shop, o texto de Jair é um apelo à inteligência do leitor, oferecendo-lhe a ajuda da erudição, da informação precisa e preciosa, numa linguagem compassada com a modernidade, as novas formas de expressão, as conquistas diuturnas e avançadas do idioma, sem nunca resvalar para o vazio e a vulgaridade dominantes em nossa atual literatura.

(Fonte: Cultura – O Estado de São Paulo – 28.01.2007 – Jair Ferreira e a senzala cibernética)


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Carlos Trigueiro começou a ser notado como um dos nossos melhores contistas quando publicou, em 1994, 0 Clube dos Feios e Outras Histórias Extraordinárias, surpreendendo a crítica tupiniquim. Dominada até hoje por equívocos minimalistas, pornográficos ou ambivalentes, a contística nacional dava de frente com esse estreante “castiço” que sabia contar uma história em linguagem legível e com toda a maleabilidade histriônica que o gênero requer. E os contos – desse e de seus livros posteriores -, além do sabor natural da narrativa fluente, das frases de efeito (e até mesmo de algumas pedras de toque), comprometiam­-se com um ideário e reflexões conjugados a uma fina ironia, os grandes trunfos da escola imune ao tempo de que Machado de Assis é o guru inconteste.

O livro conseguiu atrair a atenção de alguns editores versáteis e de olho clínico para os talentos emergentes, e já o seguinte, 0 Livro dos Ciúmes, de 1999, encontrava excelente receptìvidade junto à crítica e, em especial, ao público leitor. Nele, o autor aliava às suas qualidades de escritor maduro uma variegada fabulação, denotativa de sua intimidade com a literatura universal e de sua experiência de muitos anos com a cultura de outros povos. Se no primeiro livro os contos giravam em torno da temática da feiúra, nesse era a vez de o ciúme ser analisado em seus vários aspectos e manifestações. Mas, no fundo, o problema era sempre o do corte visceral das misérias humanas, conforme sacou seu autor: uma feiúra estética no primeiro caso, uma feiúra sentimental no segundo. Faltava o tripé da trilogia; impunha-se escalpelar a feiúra social e política – e foi isto o que o autor fez neste O Livro dos Desmandamentos, que é uma mescla de ensaio, teatro mambembe, romance de cordel. Vazado num estilo que não faz concessões ao vulgar, esta frenética fabulação se desdobra em crítica pungente à nossa história política atual, a seus antecedentes e desdobramentos futuros. Trigueiro lança mão de uma espécie de flash forward em que antecipa ações que vão acontecer para os personagens, mas que para o leitor são eventos já vividos, observados a posteriori; só que o autor os analisa como objetos de crítica social e política, expondo-os à galhofa e ao sarcasmo, já que não pode impedir que aconteçam nem sequer modificá-los, passando a vida a limpo. Enfim, um livro dentro do livro, em que, graças a uma engenhosa arquitetura, o autor sobrepõe à narrativa picaresca todo um aparato socioanalítico que esmiúça as nossas esperanças do passado que se foram transformando em desilusões do presente.

É curioso saber que Trigueiro estreou com um livro de memórias, escrito na década de `80, quando integrava a agência do Banco do Brasil em Madrid e presenciou a euforia dos espanhois recém libertados da ditadura franquista. No entanto, suas “Memórias da Liberdade”, que ele viria, em boa hora, rever e reeditar em 2008, não se prendem a esse fato histórico, nem à análise de seus antecedentes ou consequências; o momento serviu provavelmente como deflagrador de lembranças de um “tempo de liberdade”, ou seja, dos tempos soltos de sua infância amazonense. Como diz Victor Giudice nas orelhas do livro: “Outra característica não menos importante em que se firmam estas Memórias é a visão paradoxal do autor com referência a certas verdades tradicionais, entre elas a propalada falta de liberdade ocorrida na infância. Para Trigueiro, a liberdade, tal como a desejamos, só existe no período em que o pensamento ainda não sofreu as deformações provocadas pela repressão institucional, centralizadas principalmente no sentido da posse material”. Mas, saiba o leitor, essas memórias não são simples lembranças, meras evocações do tempo de menino. A realidade surge aqui filtrada (ou amplificada) pela artesania literária do autor, sua técnica de condução novelística dos acontecimentos, a riqueza e exuberância de um vocabulário onde palavras regionais e recendentes de seiva passam boiando ao longo das frases como “os ariacós, biquaras e sargaços na corrente do rio”. Para além do território da infância, acompanhamos o autor em sua migração para o Nordeste, quando viveu boa parte de sua juventude em Fortaleza, por ele considerada sua segunda terra natal. Uma das engenhosidades literárias deste livro é que Trigueiro não apenas narra as ocorrências, mas consegue transmitir ao leitor a sensação do deslocamento, o som, o cheiro, as cores, a vida enfim de sua nova ambiência. O mesmo ocorre em relação à terceira etapa, sua vinda para o Rio, a vida estudantil, as incertezas do amor e a aventura do primeiro emprego. Um grande livro, sem dúvida, mas um livro que não é bem o “romance de formação” dos termos tradicionais, em que os relatos assinalam as etapas vividas pelo autor em seu desenvolvimento literário. Segundo o vejo, está mais para um “romance de transformação”, pela revisão, o aproveitamento das experiências passadas no aprimoramento das vivências presentes, como se lhe fosse dado o privilégio de passar a vida a limpo.

Seu próximo livro, “Libido aos pedaços”, sairá em breve pela Record e é o segundo volume de sua trilogia iniciada com “Confissões de um anjo da guarda”.


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POEMA TESTAMENTO

[Em homenagem ao Dia das Mães]

Mamãe:

se eu morrer de avião ou de males do fígado

(eu, que, em menino, pensei morrer, liricamente, de tuberculose),

quero que a senhora avie estas coisas para mim:

primeiro —

Queimar todos os meus versos, os meus papeis,

as minhas eternas escrevinhações

que lhe causavam aquela gozada papel-fobia

de que eu me ria, sem dizer nada.

Era preciso que eu tirasse uma tarde inteira,

uma tarde igual àquela em que lhe falei

das minhas tristezas, da minha inconformidade

para com um mundo que me era hostil;

ou uma tarde dessas em que, a família toda reunida,

nos pomos a falar coisas do Herval;

pois é, uma tarde assim, para dizer de minha vida

em relação à poesia… mas não convém.

Sempre tive um egoísmo tolo

em me passar por incompreendido,

que até, agora, me sinto bem.

segundo —

Venda os meus livros e a estante.

não deixe o Ney e a Lia tocar neles.

Nos livros aprendi tanta desilusão,

tanto aniquilamento

(Meus autores prediletos pareciam escrever

para nos ensinar que não devemos escrever)

… tanto aniquilamento,

que não quisera ver os manos

presas do mesmo sentimento.

Há um, no entanto, que desejo

que alguém conserve com carinho:

é uma edição maravilhosa

do “Fleurs du Mal” de Baudelaire;

está na caixa de charutos…

e, dentro dele, entre os poemas do “Spleen”,

tenho dois contos e quinhentos

(mas não rezem missa com eles, pelo amor de Deus!)

terceiro –

Guarde os meus óculos como lembrança

de meu olhar resignado;

embora sempre me aborrecessem,

tornassem velho o meu semblante,

habituei-me a eles:

aclararam e aproximaram as coisas belas

que eu quis ver

(Quanto desejei também que vissem

a Place de la Concorde, a Via Appia e Biskra!).

Dê o “ray-ban” para o Papai;

ele sempre achou que eu ficava alinhado com eles…

Coitado do velho! sempre quis ter um filho alinhado,

peito pra frente, olhar na torre da igreja,

um filho “pinta” militar…

E eu, meu Deus, no que fui dar?! …

Talvez nem chegue a ser doutor…

Mas a senhora sabe que isso não me importa;

que o que preocupou verdadeiramente a minha vida

foi um desejo de viagens e aventuras,

e embora tudo me faltasse para empreendê-las,

vislumbrei todas as loucuras

e fui, no sonho, às últimas estrelas!

A senhora sabe que no ser frágil e literato

que viam em mim

morava também um esquisitão meio áspero

que procurava fugir ao doce sentimentalismo caseiro.

Ainda bem que todos me compreendiam nesse ponto

e não faziam de mim nenhum “caso especial”.

Sempre vivi a meu gosto,

embora sonhasse demais para viver assim.

Não vá pensar, no entanto, que lhe deixo

o travo de algum ressentimento inconformado;

pelo contrário, mãe; quisera deixar a grande paz

que tenho aqui comigo, bem guardada,

uma paz alveolar, meridiana e clara,

que me faz acreditar que triunfei.

(1948)


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Num dos primeiros comentários sobre livros deste blog (Estou lendo, em 28.08.2010), recomendei a leitura de “O Relato de Prócula”, nos termos que abaixo transcrevo:

Já li e recomendo O RELATO DE PRÓCULA, desse homem dos sete (só?) instrumentos: poeta, romancista, jornalista, ator de teatro e cinema, pintor impressionista, expressionista e outros istas, autor de libretos de ópera, conhecedor profundo de cinema, seus astros diretores etc. – enfim, o factótum literário mais realizado que conheço: W. J. Solha. O livro é um conflito entre o sentimento religioso do padre Martinho e sua vocação carnal desenfreada. E a tese do porquê da defesa de Jesus por Pilatos, uma revelação até agora insuspeitada. Solha, paulista de Sorocaba, radicou-se em João Pessoa-PB, aumentando a valorização daquele território onde se pode encontrar o maior número de intelectuais por metro quadrado no Brasil. O livro tem profundidade ideológica, além de ser uma conquista estilística entre o sinfônico e o cordel, ganhador de uma bolsa da Funarte e finalista do prêmio Jabuti. Mas Solha é muito mais que isto: sua História Universal da Angústia escarafuncha as profundidades anímicas de Saul e Parsifal, de Édipo e de Hamlet, etc. fazendo deles personagens dialogáveis entre nós. Seu Trigal com corvos (prêmio João Cabral de 2005) é uma palheta transbordante de cores e de sons poéticos. O blog em que escreve, http://www.eltheatro.com, é um espetáculo de erudição pictórica. E vai por aí. Confiram.

***

Recentes notícias das multiatividades solhísticas me levam a esboçar este apêndice: estou conhecendo, pelo relato de suas memórias (“Pequena Arqueologia de Minha Vida Pregressa” no blog acima citado), alguns detalhes de suas exaustivas atuações como artista principal ou coadjuvante em inúmeras “curtas” produzidas no Nordeste. Numa delas, o nosso herói é assassinado e tem que permanecer imóvel no solo por algum tempo, para compor a cena. Solha conta que, após cair “morto”, prendia a respiração até o momento em que o diretor gritava “Corta”. E a cena devia repetir-se outras vezes, com novas tomadas em ângulos diferentes, para só depois se proceder à montagem final. Mas em cada uma delas, ele, o assassinado, caía sempre no chão e lá permanecia imóvel, durinho, sem piscar, absolutamente rígido até que o “corta” do diretor o restituísse à vida. Imagino que a morte verdadeira andou por ali bem perto, pois Solha, detalhista e perfeccionista como é, teria preferido morrer sufocado em silenciosa apneia a empanar a veracidade da cena. Por várias vezes desmaiou, de emoção, de exaustão, de pressão alta, até descobrir-se hipertenso, mas nem por isto está disposto a renunciar ao hobby. Tudo o que faz tem aquela grandeza e a determinação de um escultor. Como dificilmente qualquer desses filmes chegará aos cinemas do Rio, ficamos imaginando o que seria a vida (?) de Solha se fosse chamado a figurar numa Tropa de Elite junto ao Wagner Moura. O coração iria embora, sem dúvida. Se fosse então numa pontinha lá no Exterior¸ contracenando mesmo à sombra do Rodrigo Santoro, a morte seria anunciada no ato mesmo do convite. Para o Solha não há pequenos papeis, pois ele os engrandece a todos com o seu talento. É impressionante como uma pessoa pode ser tão completa em tantas atividades artísticas. Aquelas memórias do blog nos dão exemplos do que ele fez em matéria de pintura, as suas realizações no terreno da música, sem falar em sua carreira profissional. Sei que, não satisfeito em ter escrito o grande romance dos últimos vinte anos (meu voto), ele está agora empenhado num longo poema, depois de nos dar o Trigal com Corvos. A cada dia nos surpreende, nos achincalha, nos humilha, a nós, seus amigos mais chegados, com artigos de espantosa erudição seja poética, econômica ou filosófica. E nos manda, de bonificação, como piparote final, essas suas memórias ilustres e ilustradíssimas, cheias de humor e aventura, de música e poesia, nunca de mero som e fúria.

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Há tempos, meu amigo Diógenes da Cunha Lima, grande figura de Natal-RN, campeão dos nobres gestos (adquiriu um terreno só para não deixar que derrubassem um imenso baobá que nele havia), mandou-me este instigante questionário, cujas perguntas, pela sua amplitude e sensibilidade, gostaria de propor também aos leitores deste blog. Como você faria?

1. Solidão é conquista ou derrota.

A solidão é uma das muitas luas da vida: sua face luminosa é a do ser consigo mesmo, necessária para o auto-conhecimento e a reflexão; a segunda é quase um desespero, o negror do abandono.

2.  O computador muda a sua vida.

O computador modifica fundamentalmente alguns de nossos hábitos. Traz benefícios já agora incorporados ao nosso dia-a-dia. Mas não creio que mude o nosso interior.

3.   A Internet é também extensão de sua vida.

A Internet contribui em muitos casos para facilitar a nossa vida: inesgotável fonte de consulta sobre praticamente todos os assuntos; maior velocidade em nossas comunicações. Pode ser comparada ao um lixão: toneladas de dejetos onde às vezes se encontra uma pepita.

4.   Escrever é ventura ou aventura.

Uma síntese de ambas. O escritor sofre durante o ato de criar e rejubila-se depois da criação.

5.  O que mais se salienta em um caráter humano.

A honestidade do comportamento.

6.  Melhor a fantasia ou a realidade.

Sem a fantasia a realidade seria muito pobre. Sem a realidade a fantasia não teria sentido.

7.   A poesia é útil.

Não, se tomarmos a palavra como utilidade prática, algo rentável ou passível de servir a determinadas situações da vida material. É útil subjetivamente – uma espécie de pão da alma.

8. Fronteira entre a poesia e a prosa.

Os limites se confundem e se interpenetram. Assim como há muita poesia prosaica há também muita prosa poética. Delimitar a fronteira é trabalho para especialistas hipersensíveis: às vezes num longo trecho meramente prosaico explode uma palavra, um verbo, um torneio da frase que nos faz ascender à beatitude lírica.

9. Livros que ajudaram à sua formação.

“Demian”, de Hermann Hesse, foi o livro que literalmente mudou minha vida, ajudando-me a vencer um complexo de timidez que me asfixiava. Foi tão definitivo na minha formação que me determinei a traduzi-lo, para que outros pudessem usufruir dos benefícios que ele me havia proporcionado.

10. Qualidade superior em um homem.

Altruísmo.

11. Qualidade superior em uma mulher.

Aura.

12. O que mais aprecia em um amigo.

Franqueza, lealdade.

13. O que mais lamenta em um amigo.

Inveja, sarcasmo.

14. Medo – a que serve.

O medo instiga o anseio de vida. Em demasia, o da morte.

15. Dúvida – a que serve.

No mínimo para gerar uma obra-prima como o Hamlet.

16. A morte é vírgula ou ponto final.

É ponto-e-vírgula.

17. Deus é patrimônio de cada ser humano.

Deus é o ser humano levado à perfeição.

18. Jesus é um amigo.

Um amigo distante, mas inspirador.

19. O diabo tem credibilidade.

Pelo menos literariamente: vide o Fausto, Papini, etc. Na vida real apresenta-se sob a forma dos mil aborrecimentos que sentimos cotidianamente.

20. Somos sós no universo.

No universo, na terra, no país, na cidade, em casa…

21. Que outro dom, Deus poderia ter dado a você.

Já dizia o Pessoa que os deuses tomam quando dão. Se considero a poesia um dom, lamento que      ela não me frequente amiúde.

22. Seu defeito principal.

Lordose.

23. Sua ocupação preferida.

Escrever.

24. Como você sonha a felicidade.

Uma conjugação perfeita de hedonismo e espiritualidade.

25. Você não consegue tolerar.

A desfaçatez da política atual.

26. Seu estado de ânimo atualmente.

Um pêndulo entre a depressão e a euforia.

27. O que mais importa a você como profissional.

O reconhecimento da qualidade de meu trabalho por parte de um pequeno grupo não necessariamente de amigos mas de conhecedores do ramo.

28 O que mais importa a você como amador.

A liberdade de escolha.

29. O que o tornaria infeliz.

Não poder ouvir música.

30. Quem você gostaria de ter sido.

Estou satisfeito com o que sou, mas gostaria de fazer algumas recauchutagens.

31.Três cidades encantadoras.

Paris, Taormina e Rio de Janeiro, do ponto de vista panorâmico. Há outras que me encantaram pelo clima interior, a afeição de seu povo, a aura benfazeja.

32. De que país o Brasil poderia auferir qualidades.

Faltam-nos algumas das qualidades dos povos mais cultos, como por exemplo a disciplina e a instrução. Mas acho que com todos os nossos defeitos e deficiências estamos fadados a ser uma grande nação algum dia.

33. Árvore admirável.

Tenho duas, prioritariamente, na memória visual: no Rio, um ipê-amarelo próximo à minha casa (escrevi uma crônica sobre ele) e um baobá, visto em Natal e que espero rever.

34. Flor preferida.

Rosa.

35. Pássaro admirado.

Beija-flor.

36. Cor favorita.

Azul.

37. Autores canônicos favoritos (prosa).

Brasileiros: Machado, Graciliano, Clarice Lispector.

38. Autores canônicos favoritos (poesia).

Drummond, Bandeira e João Cabral. Entre os antigos: Raul de Leôni.

39. Na ficção, personagens (masculinos) de sua estima.

Cyrano de Bergerac, Dom Quixote, Zeno (de Ítalo Svevo).

40. Na ficção, personagens (femininas) da sua estima.

Capitu, Madame Bovary, Olívia (de Érico Veríssimo).

41. Compositores favoritos (erudito e popular).

Mozart, Ravel, Debussy. Villa-Lobos.

42. Um filme.

Les Enfants du Paradis (Marcel Carné – Jacques Prevert)

43. Pintores preferidos.

Munch, Morandi, Portinari.

44. Um ditado popular.

Para bom entendedor, um pingo é letra.

45.Três palavras bonitas.

Alcândora, pituitária, epifania.

46. Um aforismo.

O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria (William Blake).

47. Prenomes favoritos (três).

Ney, Fábio, Raul.

48. Heróis (na vida real).

Zola e todos os que defendem a causa da justiça.

49. Heroínas (na vida real).

A mulher que morreu queimada tentando salvar as crianças de um carro incendiado. O heroísmo é ainda mais significativo quando o herói é anônimo.

50. Heróis históricos.

Não me ocorre ninguém expressivo, agora.

51. Detestáveis homens da história. 

Bush. Sadam.

52. Daria indulgência a que falhas humanas.

A todas as pequenas. O homem é falível por excelência, mas não perdoaria o crime.

53. Um verso. 

Um verso de harmonia gestáltica:

“Erguendo o dorso altivo sacudia

a branca espuma para o céu sereno”

(Casimiro de Abreu) .

54. Uma canção. 

“Rapunzel, Rapunzel, solta, solta as longas tranças” (*)

55. Personalidades bíblicas (masculinas). 

O Rei Davi, Lázaro, O Filho Pródigo.

56. Personalidades bíblicas (femininas). 

Madalena, Michol, Raquel.

57. O seu rio. 

Turvão (“o rio da minha aldeia”).

58. O seu mar, sua praia. 

O Mediterrâneo, a praia de Itacuruçá.

59. Quem tem um sol no coração. 

A maior parte de meus amigos.

60. Quem tem um deserto no coração. 

Os rancorosos, os desiludidos, os abandonados.

61. Ser criança é.

 Não se entregar à velhice.

62. Ser jovem é.

Um estado de espírito.

63. Ser maduro é. 

Saber julgar.

64. Ser velho é. 

Inevitável.

65. Bebida favorita. 

Antigamente, champanhe; hoje, leite de soja.

66. Comida favorita. 

Sou glutão, mas se tiver de escolher, prefiro peixe.

67. Exerce a sua fé. 

Muito intimamente e em total discrição.

68. Exerce a sua esperança. 

Religiosamente.

69. Exerce a sua caridade. 

Não tanto quanto o meu impulso o exigiria.

70. Epifanias.

A idealização do amor, o deslumbramento, a percepção do milagre, o toque da magia.

71. Seu lema. 

Ainda hei-de!

(*) Rapunzel é um nome que me ficou cauterizado na memória desde que li,  em criança, a história dos irmãos Grimm no Tesouro da Juventude:  Um jovem vê sua amada presa numa torre e pede-lhe que solte os longos cabelos a fim de poder  subir por eles e salvá-la. Ele chega embaixo e canta: “Rapunzel, Rapunzel, solta, solta as longas tranças”. Desde aquela época, atribuí a essas palavras uma música que, até hoje, sem querer,  me ouço trauteando.

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