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Archive for the ‘Poema traduzido’ Category

Já contei esta história algumas vezes: eu morava em Londres nos anos ’80 e, em companhia do douto José Guilherme Merquior, fomos assistir à estreia do musical “Cats”, de Andrew Lloyd Weber, mais para ver como o compositor se havia comportado diante daqueles versos de    Eliot, que tanto admirávamos. Ficamos surpresos por ver que ele havia conseguido levar à cena os principais lances do livro sem alterar em nada os versos. Merquior argumentou comigo que seria, portanto, possível fazer uma tradução sem deturpar seus elementos constitutivos (métrica, rima, jogos de palavras, etc), desde que se encontrassem, evidentemente, equivalências de linguagem e situações que correspondessem às glosadas pelo autor. Da hipótese à intimação foi só um momento, que passou a se materializar em cobranças quase diárias sobre o andamento dos trabalhos.

Os leitores conhecem meu ideário tradutório: fidelidade absoluta ao texto, nada de inversões, substituições, cortes, suplementações e, menos que nunca, de recriações, que é como chamo a esses trabalhos em que o tradutor substitui o texto traduzido por outro, de sua autoria, servindo-nos dessa forma gato por lebre. Mas há casos em que a tradução dita ao pé da letra resulta num texto incongruente para o leitor, em especial quando estão implícitas referências alheias ao conhecimento deste. Como deve o tradutor proceder em tal caso? Vou lhes mostrar o que fiz na tradução de “Old Possum’s Book of Practical Cats”, de Eliot, tomando como exemplo uma das figuras de que mais gosto, “Gus: the Theatre Cat”. Vejamos o original:

O ator Stephen Tate no papel de Gus (Gogó) na estreia da peça em Londres em 1981

Gus is the Cat at the Theatre Door.
His name, as I ought to have told you before,
Is really Asparagus. That’s such a fuss
To pronounce, that we usually call him just Gus.

Em tradução literal seria mais ou menos isto: Gus é o Gato da Porta de Teatro. Seu nome, como lhes devia ter dito antes, é de fato Aspargo. Era tal a confusão para pronunciar que em geral o chamávamos apenas de Gus. Muito bem: o texto é perfeitamente compreensível para o leitor brasileiro, mas perderam-se aqui o ritmo e as rimas. Além disso, Gus e Aspargo não são nomes comuns de gatos para nós. Primeiro, teremos de “nacionalizar” os nomes e ambientes. Examinemos o personagem: trata-se de um ex-ator decrépito, desempregado, esquecido do público, mas que continua um faroleiro (termo do meu tempo), um exibicionista, e vai para a porta dos teatros a fim de ver se algum antigo fã se lembra dele ou se algum ex-colega tem a piedade de lhe pagar um trago. Lembrei-me logo do termo “gogó”, que significa “garganta, indivíduo alardeador, exibicionista” (Houaiss). Gogó serve para nome de gato, mas como encontrar sua relação com “aspargo”? No primeiro verso há uma expressão inarredável: porta de teatro, temos de mantê-la. Logo: Gogó é o gato-ator de porta de teatro. Para rimar com ela, temos poucas opções: atro, quatro e outras a bem dizer inaplicáveis. Lembrei-me então da expressão “diabo a quatro”, que significa “desordem, confusão”; logo tradução ideal para o “fus” do texto inglês.  E avançamos: Gogó é o gato-ator de porta de teatro. Seu verdadeiro nome era um diabo-a-quatro /de se dizer. Bom, e qual sua relação com aspargo? Ocorreu-me usar sua forma vernácula (aspárago) e escandir a palavra de modo a ressaltar a última sílaba: AS-PA-RA-GÓ. Chegando ao seguinte resultado para  primeira quadra:

Gogó é o gato-ator de porta de teatro.
Seu verdadeiro nome era um diabo-a-quatro
De se dizer: AS-PA-RA-GÓ.  De dó,
Passamos a chamá-lo apenas de Gogó.

Valeu. Mas vamos ter complicações em seguida:

His coat’s very shabby, he’s thin like a rake,
And he suffers from palsy that makes his paw shake.
Yet he was, in his youth, quite the samartest of Cats —
But no longer a terror to mice and rats.

O tradutor ainda se sai bem desta: Seu casaco é surrado, é magro como um ancinho (palito ficaria melhor), e sofre de paralisia (Parkinson) que faz sua pata tremer. Contudo, ele foi, na juventude, o mais esperto dos gatos – mas agora já não é o terror dos camundongos e ratos.

Uma rima de graça: gatos/ratos. Mas vamos examinar de perto a figura do ex-galã: são elementos característicos, insubstituíveis coat’s shabby=casaco surrado e his paw shakes=sua pata treme, principalmente a última expressão, que caracteriza a precária saúde de Gogó.   Vamos ter de sacrificar a menção à magreza do personagem, sem descaracterizar a sua condição de quase indigente; daí usei boêmio. De casacão surrado, ares de pobre boêmio, palavra que vai me ensejar a possibilidade de rima com a pata que treme. Veremos adiante:

De casaco surrado, ares de pobre boêmio,
Já teve uma trombose e a pata ainda lhe treme. E o
Certo é que se foi, em moço, um songamongas,
Hoje não pega mais nem mesmo as camundongas.

Tivemos que fazer uma pequena ginástica poética para rimar com “boêmio”; trata-se da chamada rima partida, pois a frase extravasa para o verso subsequente, e recorremos a uma palavra antiga, mas apropriada — songamongas — para significar “pessoa esperta, dissimulada” (Houaiss), evitando com isto a rima fácil gatos/ratos do original.

Sigamos:

For he isn’t the Cat that he was in his prime:
Though his name was quite famous, he says, in its time.

Tradutor principiante de inglês: Pois ele não é (mais) o Gato que foi na plenitude [bingo! pela tradução de “prime”]: embora seu nome tenha sido muito famoso, diz ele, no seu tempo.

Aqui nos permitimos uma pequena modificação, sem alterar de todo o sentido da frase, para aproveitar um trocadilho inevitável:

Sombra do que ele (diz que) foi tempos atrás,
Quando — nome famoso — andava no cartaz.

(O “andava” é usado aqui com o duplo sentido de caminhar e permanecer).

Em seguida vamos ter uma série de “nacionalizações” de nomes e ambientes:

And whenever he joins his friends at their club
(Which takes place at the back of the neighbouring pub)
He loves to regale them, if someone else pays,
With anecdotes drawn from his palmiest days.
For he once was a Star of the highest degree —
He acted with Irvin, he acted with Tree.
And he likes to relate his succes on the Halls,
Where the Gallery once gave him several cat-calls.
But his grand creation, as he loves to tell,
Was Firefrorefiddle, the Fiend of the Fell.

O tradutor esforçado, querendo estar por dentro:

E sempre que  reúne seus amigos no clube deles/ (que se situa nos fundos do bar das vizinhanças) /adora regalá-los, se é um outro quem paga, /com os casos extraídos de seus dias de sucesso. / Pois já foi um astro do mais alto grau/ E atuou com Irvin, atuou com Tree [ou seja, dois famosos atores teatrais ingleses: Jeremy Irvin (1838-1905) e Herbert Beerbohm Tree [1852-1917)]. E gosta de relatar seu sucesso nos teatros / quando a Galeria uma vez lhe deu vários aplausos/vaias. [A palavra “call” em inglês significa aplauso, chamada à cena, mas “cat-call” é o contrário, tem o sentido de vaia. Aqui o trocadilho tem maior sentido por implicar a palavra cat, gato]. Mas sua grande criação, como adora dizer, foi Fogogeladorabeca, o Demônio da Matança.

Claro que Eliot quis aqui criar apenas, com uso de aliterações, um nome que desse a impressão de um herói destemido. (Atenção estudiosos de inglês: a palavra “frore”, que acompanha “fire”, é um arcaísmo; vocês não vão encontrá-la nos dicionários comuns, mas está no Webster’s New Twentieth Centutry = frozen, frosty). Daí a necessidade de se criar em português um título bombástico, igualmente aliterativo, que desse aquela mesma (ou semelhante) impressão. Também procurei usar aliterações em “f”, como no original, e cheguei a Zaragatafanho, a Fúria do Mafuá, aproveitando para incluir aí o termo zaragata, que significa confusão e tem implícita a palavra gato. Nunca me satisfiz muito com o Mafuá, que não me parece muito beligerante, mas deu uma sonora onomatopeia. Vejamos toda a estrofe traduzida:

Agora, se acompanha amigos para uns tragos
(Antes que alguém lhe fale em gotas e lumbagos),
Costuma lhes brindar — outro pagando a história —
Com seus casos do tempo em que viveu na Glória.

Notem que desapareceu a referência ao “pub das vizinhanças”, mas em compensação houve a insistência no estado doentio do personagem, fato que ele não quereria ver mencionado pelos amigos (gotas e lumbagos). E no fim, a “nacionalização” da cena graças ao trocadilho entre glória, sucesso, fama e Glória, logradouro conhecido do Rio de Janeiro. Esperem que liberdades maiores (e necessárias) vêm por aí em seguida:

Pois época já houve em que foi Astro e atuou
No colo de Ziembinski e aos pés da Marineau.

Houve a substituição dos artistas teatrais ingleses Irvin e Tree pelos dois maiores e mais conhecidos vultos do moderno teatro brasileiro de pós-guerra (anos 40-50): o polonês Zbigniew Marian Ziembinski (1908-1978) e a francesa Henriette Morineau (1908-1990). [Não sei quem citaria no lugar deles, se tivesse hoje de “modernizar” o texto; certamente haveria lugar para a Fernanda Montenegro, mas deixo ao leitor essas especulações…] Agora a tentativa de conseguir algo equivalente ao “cat-call”:

Adora relatar o sucesso de certa
Noite em que foi pre-miado (assim!) em cena aberta…
Mas seu papel genial, que lhe rendeu crachá,
Foi “Zaragatafanho, a Fúria do Mafuá”!

Pre-miado, assim com um hífen de separação, deixa exposta a “voz” do gato ao mesmo tempo em que alude ao seu sucesso (prêmio), pretendendo embora que a palavra sugira mais vaia que aplauso.  O assim! é um evidente decalque do sic latino e crachá está aí no lugar de condecoração, já que ele foi premiado em cena aberta.

Mas, prossigamos:

“I have played”, so he says, “every possible part.
And I used to know seventy speeches by heart.
I’d extemporize back-chat, I knew how to gag,
And I knew how to let the cat out of the bag.
I knew how to act with my back and my tail,
With an hour of rehearsal, I never could fail.
I’d a voice that would soften the hardest of hearts,
Whether I took the lead, or in character parts.
I have sat by the bedside of poor Little Nell;
When the Curfew was rung, then I swung on the bell.
In the Pantomime season I never fell flat,
And  I once understudied Dick Whittington’s Cat.
But my grandest creation, as history will tell,
Was Firefrorefiddle, the Fiend of the Fell.”

Agora o trabalho vai ser duro para o tradutor: “Representei”, diz ele então, “todos os papeis possíveis. E costumava saber uns setenta textos de cor. Imitava a voz em surdina, sabia fazer cacos, e sabia como tirar o gato do saco [gozação para “tirar o coelho da cartola”]. Sabia como atuar com as costas e com o rabo; com uma hora de ensaio, eu nunca podia falhar. Tinha uma voz que amolecia os corações mais duros, fosse interpretando o galã principal ou um personagem qualquer. Já me sentei ao lado da Pequena Nell [nome de uma peça teatral infantil]; quando tocavam o cobre-fogo [antigo alarme para apagarem as lareiras], eu me pendurava na corda do sino. Nas sessões de pantomima eu nunca falhava. E uma vez fiquei de ator-substituto para o gato de Dick Whittington [personagem célebre, cuja fortuna foi atribuída às peripécias de seu gato]. Mas minha criação mais grandiosa, como a história dirá, foi o Fogogeladorabeca, o demônio da matança.”

Estão vendo? Se vocês não são ingleses não teriam entendido nenhuma das alusões. A partir daí, então, tomei coragem (ou perdi a inibição) e resolvi entrar de corpo inteiro na história, a fim de poder corresponder à enxurrada de trocadilhos, segundos-sentidos e jogos de palavras, para os quais era necessário encontrar equivalências brasileiras. Recorri a todas as frases que conhecia capazes de encerrar referências a gatos:

“Representei”, diz ele, “o que houve de melhor,
E uns setenta papéis pude guardar de cor.
Fiz de tudo: Romiau, Gato-de-Botas…  Célebre
Ficou sendo a expressão com que passei por lebre.
Sabia erguer o rabo, olhava de soslaio;
Não podia falhar com uma hora de ensaio.
Minha voz comovia o coração mais duro,
Fizesse eu o galã ou um lacaio obscuro.
Fiz peças infantis — é claro, baboseira —
Em que contracenei com a Gata Borralheira.
Mas lembro, numa peça americana, o afinco
Que quase me levava a me torrar no zinco.
Mas meu melhor papel, como a história dirá,
Foi “Zaragatafanho, a Fúria do Mafuá”!

Umas pequenas ousadias: transformei o Romeu em Romiau, acrescentando-lhe uma voz de gato, e me lembrei até da “Gata em teto de zinco quente”, a famosa peça americana de Tennessee Williams. Notem a rima imperfeita (célebre/lebre) usada aqui para não perder a citação do conhecido gato por lebre.

O final, então, exigiu um número maior de “intervenções” para reproduzir as tiradas (gogó=garganta=faroleiro) exibicionistas do gato:

Then, if someone will give him a toothful of gin,
He will tell how he once played a part in East Lynn.
At a Shakespeare performance he once walked on pat,
When some actor suggested the need for a cat.
He once played a Tiger — could do it again —
Which an Indian Colonel pursued down a drain.
And he thinks that he still can, much better than most,
Produce blood-curdling noises to bring on the Ghost.
And he once crossed the stage on a telegraph wire,
To rescue a child when the house was on fire.

Tradução direta: Então, se alguém lhe der uma golada de gim, vai contar como certa vez desempenhou um papel em East Lynn [um dramalhão]. Numa representação shakespeariana ele saiu de fininho (na ponta dos pés) quando um ator mencionou necessitar de um gato. Certa vez fez um Tigre – faria até de novo – que um coronel indiano persegue num esgoto. E pensa que ainda pode, melhor que os demais, produzir ruídos de gelar o sangue ao invocar fantasmas. E uma vez cruzou o palco num fio telegráfico para resgatar uma criança quando o teatro estava em chamas.

Nossas equivalências:

Se então mais outro gim, de graça, ele derruba,
Vai contar que atuou de dentro de uma tuba.
Numa peça do Bardo, empolgou-se no treino
Porque Ricardo quis trocá-lo por seu reino.
Já fez papel de Tigre (ainda tem este plano!)
Que foge de Bengala, entrando por um cano.
Dava um grito de dor que emocionava a Casa
Na cena de tirar as castanhas da brasa.
Certa vez, sobre o palco, agarrado ao pendente
Da luz, salvou do incêndio uma fãzinha ardente.

(Aproveitamos muitas frases populares: tem gato na tuba, tigre de Bengala, entrar pelo cano. Utilizamos a mesma referência de Eliot ao famoso “My kingdom for a horse”, da peça Ricardo III, de Shakespeare, só que, é claro, mudando também o cavalo pelo gato. Quanto às castanhas na brasa, trata-se de alusão à fábula de La Fontaine em que o símio convence o gato a tirar, com suas garras, umas castanhas que estavam na brasa e que o macaco não conseguia alcançar por lhe arder a pata. Gus banca o herói pendurando-se num fio telegráfico para salvar uma criança do teatro em chamas; Gogó faz o mesmo, dando uma de Tarzan num frágil pendente de luz,  e consegue resgatar do incêndio uma fãzinha ardente (jogo aqui com os dois sentidos).

Última estrofe:

And he says: “Now, these kittens, they do not get trained
As we did in the days when Victoria reigned.
They never get drilled in a regular troupe.
And they think they are smart, just to jump through a hoop.”
And he’ll say, as he scratches himself with his claws,
“Well, the Theatre’s certainly not what it was.
These modern productions are all very well,
But there’s nothing to equal, from what I hear tell,
That moment of mystery
When I made history

As Firefrorefiddle, the Fiend of the Fell.”

Tradução final: E ele diz: “Bem, esses gatinhos (de hoje) não são treinados como éramos nos dias em que (a Rainha) Vitória reinava; nunca se exercitam numa trupe regular. E pensam que são sagazes só por saberem pular por dentro de um arco”. E dirá, enquanto se coça com as garras, “Bom, o Teatro certamente não é o que era antes. Essas produções modernas são boazinhas, mas não há nada que iguale, segundo ouvi dizer, ao momento de mistério em que fiz história como o Fogogeladorabeca, o demônio da matança”.

Pedimos desculpas a Eliot se, neste final, nos mostramos um tanto mais explícitos do que lhe permitia sua tradicional fleugma britânica:

E prossegue: “Hoje o Palco, o que tem de bichanos!
O inverso dos gatões que fomos tantos anos.
E as gatinhas a achar que cena é erguer a saia,
A posarem de atriz, mas só levando… vaia.”
E acaba por dizer, usando a garra em pente,
“O Teatro não é mais o que era antigamente.
As novas produções são boas, são, vá lá!
Mas nada se compara, um dia se verá,
Ao momento de glória
Em que fazia história
No “Zarragatafanho, a Fúria do Mafuá!”

P.S. A primeira edição de “Os Gatos” saiu em 1991 pela Nórdica e obteve o prêmio Jabuti de tradução daquele ano. Trazia a seguinte nota: “Dedico esta tradução à memória de José Guilherme Merquior, que tanto me incentivou a fazê-la. I.B.”. Ele havia falecido  naquele mesmo ano sem ter visto o livro publicado.

 

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A CANÇÃO A CRISTO CRUCIFICADO

Na Páscoa de 2014, trouxemos aos nossos leitores a tradução da primeira estrofe desse sentido poema de Miguel Sanchez, sobre quem muito pouco se sabe. O The Oxford Book of Spanish Verse, reedição de 1969, que traz os versos no original nas páginas 169/172, consigna apenas que o autor teria provavelmente nascido em Valladoli e falecido em Placencia, sem contudo precisar as datas, e que tudo o que se sabe sobre ele é que era chamado de El Divino.

Havíamos prometido dar o poema todo, em espanhol, já que sua tradução não nos pareceu corresponder à emotividade contida no original, e  por isso aqui o transcrevemos na íntegra, juntamente com nossa canhestra tentativa de transladar-lhe as estrofes finais:

 

MIGUEL SANCHEZ

Canción a Cristo crucificado

 

Inocente Cordero,

En tu sangre bañado,

con que del mundo los pecados quitas,

del robusto madero

por los brazos colgado,

abiertos, que abrazaste a mi me incitas;

ya que humilde marchitas

en color y hermosura

dese rostro divino

a la muerte vecino

antes que el alma soberana y pura

parta para salvarme,

vuelve los mansos ojos a mirarme.

 

Ya que el amor inmenso,

con último regalo,

rompe de tu grandeza las cortinas,

y con dolor intenso,

arrimado a ese palo,

la cabeza clavada con espinas

hacia la Madre inclinas;

ya que la voz despides,

bien de entrafias reales,

y las culpas y males

a la grandeza de tu Padre pides

que sean perdonados,

acuérdate, Senior, de mis pecados.

 

Aquí,  donde  das muestras,

de maniroto y largo,

con las manos abiertas con los clavos,

y que las culpas nuestras

has tomado a tu cargo;

 

aqui, donde redimes los esclavos:

donde por todos cabos

misericordia brotas,

y el generoso pecho

no queda satisfecho

hasta que ef cuerpo de la sangre agotas;

aquí, Redentor, quiero

llegar a tu  juicio  yo el  primero.

 

Aqui quiero qÚe mires

a un pecador  metido

en la ciega prision de sus errores;

que no temo te aíres

en mirarte ofendido,

pues abogando  estás por pecadores,

y las culpas mayores

son las que mas declaran

tu noble pecho santo,

de que te precias tanto;

pues cuando las mas graves se reparan,

en mas tu  sangre empleas

y mas con tu clemencia te recreas.

 

Por mas que el peso grave

de mi culpa presente

cargue sobre mi flaco y corvo cuello,

que tu  yugo suave

aacude inobediente,

quedando en dura sujecion  por ello

y aunque la  tierra huello

con pasos tan cansados,

alcanzarte confio;

que, pues por el bien mio

tienes los soberanos pies clavados

en un madero firme,

seguro voy  que no podras  huirme

 

Seguro voy, Dios mio,

que, pues yo lo deseo,

he de llegar de tu clemencia al puerto;

que tu corazon frio,

a quien ya claro veo

por las ventanas dese cuerpo abierto,

está tan descubierto,

que un ladrou maniatado,

que lo ha contigo a solas,

con dos palabras solas

te lo tiene, piadoso Dios, robado ;

y si aguardamos, luego,

porque te acierta, das la vida a un ciego.

 

A buen tiempo he llegado,

pues es cuando tus bienes

repartes en el Nuevo Testamento;

si a todos has mandado

cuantos presentes tienes,

tambien yo ante tus ojos me presento;

aquí, en solo un momento,

a la Madre hijo mandas,

al discípulo Madre,

el espíritu al Padre,

gloria al ladron.   Pues entre tantas  mandas

ser  mi  desgracia  puede

tanta,  que solo yo vacío  quede!

 

Mirame, que soy hijo,

aunque mi inobediencia

justamente podrá desheredarme

pues tu palabra dijo

que hallara clemencia

siempre que a Ti viniese a presentarme.

 

Aquí quiero abrazarme

a los pies desta cama,

donde morir te veo ;

que si, como deseo,

oyes la voz piadosa que te llama,

en tu clemencia espero

que,  siendo  hijo,  quedaré heredero.

 

Por  testimonio pido

a cuantos te estan viendo

como a este punto hajas la cabeza:

señal que has concedido

lo que te  estoy pidiendo,

como siempre esperé de tu grandeza.

Oh inefable  largueza !

caridad verdadera!

pues como sea cierto

que, el testador no muerto,

no tiene el testamento fuerza entera,

tan magnánimo eres,

que porque todo se confirme mueres.

 

Cancion, de aquí no paso;

las lágrimas sucedan

en vez de las palabras que me quedan

cual lo requiere el lastimoso caso :

no canta mas agora

pues  que la  tierra,  mar  y cielo llora.

 

Tentativa de tradução das últimas estrofes:

 

Olha-me, teu filho sou;

Embora a minha desobediência

Possa justamente deserdar-me,

Eis que teu verbo anunciou

Que eu acharia clemência

Sempre que a Ti viesse a apresentar-me.

 

Aqui quero, pois, abraçar-me

Aos pés dessa cama

Em que morrer te vejo;

Que se, como desejo,

Ouves a voz piedosa que Te chama

Tua clemência requeiro

Pois, sendo filho, ficarei herdeiro.

…….

Canção, daqui não passo

Que as lágrimas me venham

Em vez das palavras que ainda tenha

Como requer o lastimoso caso;

Não cantes mais agora

Pois é a terra – o mar e o céu –  que chora.

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ney-cesar

A MI HERMANO MIGUEL

In memoriam

Hermano, hoy estoy en el poyo de la casa,
donde nos haces una falta sin fondo.
Me acuerdo que jugábamos esta hora, y que mamá
nos acariciaba: “Pero hijos…”

Ahora yo me escondo,
como antes, todas estas oraciones
vespertinas, y espero que tú no des conmigo
Por la sala, el zaguán, los corredores.
Después, te ocultas tú, y yo no doy contigo.
Me acuerdo que nos hacíamos llorar,
hermano, en aquel juego.

Miguel, tú te escondiste
una noche de agosto, al alborear;
pero, en vez de ocultarte riendo, estabas triste.
Y tu gemelo corazón de esas tardes
extintas se ha aburrido de no encontrarte. Y ya
cae sombra en el alma.

Oye hermano, no tardes
en salir. ¿Bueno? Puede inquietarse mamá.

 

A MEU IRMÃO MIGUEL

In memoriam

Mano, hoje estou junto ao poço da casa (*)
onde você nos faz uma falta sem fundo!
Lembro que nesta hora nós brincávamos, e mamãe
nos vinha acariciar: “Ouçam, meninos…

Então me escondo ,
como antes, todas aquelas orações
vespertinas, à espera de que você não me encontre.
Lá na sala, no saguão, nos corredores.
Depois, é você que se esconde, e não te encontro.
Lembro-me que acabávamos chorando
Irmão, naquela brincadeira.

Miguel, você, numa noite,
De agosto se escondeu, de madrugada;
Mas, em vez de esconder-se rindo, estava triste
E seu gêmeo coração daquelas tardes
Extintas se amargurou de não o achar. Já
Cai a sombra sobre a alma.
Ouça, irmão, não demore
Em se mostrar.  Pois mamãe pode se afligir.

***

Este sentido poema foi escrito por César Vallejo em memória de seu irmão mais velho, Miguel Ambrósio, que morreu de pneumonia fulminante aos 26 anos em agosto de 1915. A minha tradução, na qual tomei excepcionalmente algumas liberdades, como se o poema fosse meu, faço-a em homenagem ao meu falecido irmão Ney Julião Barroso, que também morreu em circunstâncias deploráveis (operação malsucedida em 15.06.2014) e me deixou igualmente “o gêmeo coração amargurado”. À noite, quando me deito, olho para o teto na esperança de encontrar o seu esconderijo que sei estar a milhões de anos-luz, lá nas alturas. Mas nada vejo além do teto. Chamo por ele em silêncio. Queria tanto que aparecesse, que me falasse. Ney, você não sabe a falta que me faz, de ouvir a sua voz ao telefone comentando assuntos de política, preocupado com os destinos de nosso país, chamando minha atenção para a sua última crônica em seu blog ‘falandogrossodoherval’. Há quanto tempo não tenho mais você para comentar sobre a Lava-Jato, o impeachment da Dilma, as olimpíadas, as eleições no Rio e nos Estados Unidos, o Enem, a reforma do ensino, nem ouvir reclamações sobre as derrotas de seu time…  Vamos parar com essa brincadeira de esconder. Já somos adultos. Nossa mãe já se afligiu bastante conosco, com as nossas estrepulias de criança e as nossas incertezas de homens feitos. Agora que somos adultos, podemos francamente trocar ideias e pedir conselhos. Mas não te acho… não te encontro… porque você se escondeu dessa maneira? INB

(*) A melhor tradução de poyo seria poial, mas não resisti diante da ilação poço sem fundo=fossa..

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Uma das minhas maiores frustrações como tradutor é a de não ter me empenhado em transladar à nossa língua a nervosa e personalíssima arte poética de César Vallejo, vate peruano cuja influência dominou toda a literatura latino-americana do século XX e se propaga ainda hoje pelo nosso.  Dele traduzi apenas três poemas (Los passos lejanos, La araña e Oh las quatro paredes de la celda), que publiquei em minha antologia de poemas traduzidos, O Torso e o Gato (Record, 1991), mas minha intenção foi sempre fazer todo o Trilce, de 1924, e bem assim Los Heraldos  Negros, seu primeiro livro, de 1918.

Vallejo é importante, é mesmo o poeta de língua espanhola mais importante da América Latina, ombreando-se na força expressiva com Neruda. Foi o primeiro a subverter os padrões linguísticos da poesia em língua espanhola, a introduzir a linguagem do modernismo nas Américas, a criar um vocabulário próprio em que usa indiscriminadamente letras como o h – enfim, numerar suas qualidades seria o mesmo que traçar o retrato de corpo inteiro de um Rimbaud dos Andes. E sua poesia é profunda, toca no âmago da angústia humana, revolve feridas da alma. Seu tema principal é o homem universal, mesmo quando está falando de si mesmo. O grande escritor e poeta católico Thomas Merton considerou-o “o mais importante poeta universal depois de Dante”.

Vallejo teve uma vida miserável em sua terra natal, vivendo de pequenos biscates literários e de aulas esparsas de latim. Não chegou a se formar em Direito, quando jovem, na Universidade de Trujillo, por falta de dinheiro, só o conseguindo bem mais tarde. Tenta a vida como professor, mas acaba sendo preso num caso equívoco de atentado a um político local, passando a viver perseguido pela justiça. Nessa altura conhece o grande poeta Manuel González Prada (1848-1919), ativista político que o conduz ao socialismo. Graças a um amigo, que partilha com ele uma passagem de navio na terceira classe, parte em 1928 para a Europa e vai viver em Paris, onde conhece vultos importantes como Antonin Artaud, Jean Cocteau e Pablo Picasso, tendo este último feito um retrato seu, sobre estêncil, que se tornou icônico [vide acima].  Esses conhecimentos intelectuais, no entanto, em nada facilitam sua subsistência, e seu dia-a-dia é de penúria, morando em cômodos inóspitos com a fiel amante Georgette Philipart, que compartilha de sua miséria. Um pequeno emprego numa gráfica permite a subvida ínfima do casal. Sua inclinação política leva-o a visitar, a convite, duas ou três vezes a Rússia, sem que isto lhe traga qualquer proveito material, continuando a levar, até o fim de sua vida, em 1938, aos 46 anos, uma existência de desterrado, em cômodos sem luz nem calefação. Vallejo nunca mais voltou ao Peru.

Aqui vão mais três poemas dele: Idílio Muerto, o que leva apenas o número XIII (ambos de Trilce) e o estranho Piedra Negra Sobre una Piedra Blanca (de Gleba, 2ª parte de Nómina de Huesos [1923-1936], póstumo); porém o que eu mais gostaria (já tentei) traduzir seria o primeiro (homônimo) de Los Heraldos Negros, que começa “Hay golpes en la vida tan fuertes… Yo no sé!” em que há, aquele verso aparentemente intraduzível em português: “de algún pan que en la puerta del horno se nos quema“ . Não consegui encontrar uma saída (métrica) para o “se nos quema” (seria: que na porta do forno deixamos queimar, que deixamos queimar na porta do forno, que se queima à porta do forno, etc.), construção com verbo pronominal que também existe em português: que se nos queima, mas que soa demasiadamente acadêmico, traindo o coloquialismo de Vallejo. Os leitores mais afoitos que se empenhem…

vallejo-livros

IDILIO MUERTO

 

Qué estará haciendo esta hora mi andina y dulce Rita
de junco y capulí;
ahora que me asfixia Bizancio, y que dormita
la sangre, como flojo cognac, dentro de mí.

Dónde estarán sus manos que en actitud contrita
planchaban en las tardes blancuras por venir;
ahora, en esta lluvia que me quita
las ganas de vivir.

Qué será de su falda de franela; de sus
afanes; de su andar;
de su sabor a cañas de mayo del lugar.

Ha de estarse a la puerta mirando algún celaje,
y al fin dirá temblando: «Qué frío hay… Jesús!»
y llorará en las tejas un pájaro salvaje.

César Vallejo, 1918

 

IDÍLIO MORTO   

Que estará fazendo agora minha andina e doce Rita
de junco e capulim,
agora que Bizâncio me sufoca e que dormita
o sangue como frouxo conhaque dentro de mim.

Onde estarão as mãos na atitude contrita
de engomar todas tardes brancuras do porvir;
agora, que esta chuva me interdita
o anseio de existir.

Que será de sua saia de flanela, de seus
afãs, de seu andar,
daquele seu sabor de canas do lugar.

Há de estar bem à porta contemplando a paisagem;
dirá por fim tremendo: “Que frio faz… Meu Deus!”
e chorará nas telhas um pássaro selvagem.

 

XIII

Pienso en tu sexo.
Simplificado el corazón, pienso en tu sexo,
ante el hijar maduro del día.
Palpo el botón de dicha, está en sazón.
y muere un sentimiento antiguo
degenerado en seso.
Pienso en tu sexo, surco más prolífico
y harmonioso que el vientre de la Sombra,
aunque la Muerte concibe y pare
de Dios mismo.

Oh Conciencia,
pienso, sí, en el bruto libre
que goza donde quiere, donde puede.

Oh, escándalo de miel de los crepúsculos.
Oh estruendo mudo.
¡Odumodneurtse!

XIII

Penso em teu sexo.
Simplificado o coração, penso em teu sexo,
ante o filhar maduro do dia.
Palpo o botão de dita, está maduro,
e morre um sentimento antigo
degenerado em siso.

Penso em teu sexo, sulco mais prolífico
e harmonioso do que o ventre da Sombra,
embora a Morte conceba e paira
do próprio Deus.

Oh, Consciência,
penso, sim, no bruto livre
que goza aonde quer, aonde pode.

Oh, escândalo de mel desses crepúsculos.
Oh, estrondo mudo.
!Odumodnortse!

 

PIEDRA NEGRA SOBRE UNA PIEDRA BLANCA

Me moriré em Paris con aguacero,
un día del cual tengo ya el recuerdo.
Me moriré en Paris – y no me corro –
talvez un jueves, como hoy, de otoño.

Jueves será, porque hoy, que proso
estos versos, los húmeros me he puesto
a la mala y, jamás como hoy, me he vuelto,
con todo mi caminho, a verme solo.

César Vallejo há muerto, le pegaban
todos sin que él les haga nada;
le daban duro con un palo y duro

tambien con una soga; son testigos
los días jueves y los huesos húmeros,
la soledad, la lluvia, los caminhos…

 

PEDRA NEGRA SOBRE UMA PEDRA BRANCA

Morrerei em Paris com aguaceiro,
num dia de que até já bem me lembro.
Morrerei em Paris – e não me movo –
numa quinta, como a de hoje, no outono.

Será quinta, porque hoje, quinta, pro-
so estes versos, os úmeros me causam
mal, e jamais como hoje me levaram,
com todo o meu caminho, a ver-me só.

Morreu Cesar Vallejo, que espancavam
todos sem que ele lhes fizesse nada;
lhe davam duro com porrete e rijo

também com uma corda,  testemunhas
são os dias de quinta  e os ossos úmeros,
a solidão, a chuva, e os caminhos.

 

Nota: este poema, como a maioria dos versos espanhóis, é feito com rimas soantes, ou seja, só as vogais finais coincidem; assim, aguacErO/recuErdO // cOrrO/otOñO. O problema surgiu na 2ª quadra, com prOsO e sOlO, pois em português “só” tem apenas uma sílaba. Para obter a rima, tive que partir a palavra prO-so (do verbo prosar, escrever), no que se denomina rima quebrada.

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TRADUZIDO POR IVO BARROSO

POETS TO COME! POETAS DE AMANHÃ!

waltman

Poets to come! orators, singers, musicians to come!
Not to-day is to justify me and answer what I am for,
But you, a new brood, native, athletic, continental, greater than
before known,
Arouse! for you must justify me.

I myself but write one or two indicative words for the future,
I but advance a moment only to wheel and hurry back in the darkness.

I am a man who, sauntering along without fully stopping, turns a
casual look upon you and then averts his face,
Leaving it to you to prove and define it,
Expecting the main things from you.

  

Poetas de amanhã! oradores, cantores, músicos que virão!

Hoje não estou aqui para justificar-me e nem dizer a que vim,

Mas vocês, uma nova estirpe, nativa, atlética, continental, maior de todas

as que vieram antes,

Devem se erguer para me justificar.

Apenas escrevi uma ou duas palavras indicativas do futuro,

Apenas avancei por um momento ao leme e voltei correndo para a sombra.

Sou um homem que, perambulando por aí sem me deter, dirige

um olhar casual para vocês e vira o rosto,

Deixando para vocês a prova e a definição,

À espera dos grandes feitos de vocês.

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TRADUZIDOS POR IVO BARROSO

i-hear

EU OUÇO A AMÉRICA CANTANDO

WALT WHITMAN (1819-1892)

Ouço a América cantando, os variados cânticos que eu ouço,

O dos mecânicos, cada qual cantando o seu como devia ser alegre e forte

O carpinteiro cantando enquanto mede a prancha ou a viga

O pedreiro cantando o seu quando vai ao trabalho ou volta dele,

O barqueiro cantando o que é seu em seu barco, o grumete cantando no convés dos vapores,

O sapateiro cantando ao sentar-se na banqueta, o chapeleiro ao levantar-se

A canção do lenhador, a do camponês saindo de manhã, ou na pausa da tarde ou quando o sol se põe,

O adorável cantar da mãe, ou da jovem esposa no trabalho, ou da moça lavando roupa ou na costura,

Cada qual cantando o que lhe diz respeito e nada mais.

Ao dia o que pertence ao dia – à noite a algazarra dos jovens, vigorosa e afável

Cantando a viva voz suas fortes canções melodiosas.

 

EU TAMBÉM CANTO A AMÉRICA

LANGSTON HUGUES (1902-1967)

langston

Eu, também, canto a América

Sou aquele irmão de cor

Que mandam comer na cozinha

Quando chegam visitas

Mas eu rio

E como bem

E cresço forte

Amanhã

Estarei à mesa

Quando as visitas chegarem.

E ninguém ousará

Me dizer

“Vá comer na cozinha,”

Então.

Além disso

Verão o quanto eu sou bonito

E ficarão envergonhados –

Eu, também, sou América.

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greguerias“Greguerias são textos breves, semelhantes a aforismos, que constam em geral de uma frase, expressa em uma única linha, de forma aguda e original. São pensamentos filosóficos, humorísticos, líricos ou de qualquer outra índole, constituindo um gênero que se considera criado pelo poeta espanhol Ramón Gómez de la Serna” (1888-1963). A imagem em que se baseia a gregueria pode surgir de forma espontânea , mas a sua formulação linguística é muito elaborada , a fim de conter sintética, engenhosa e humoristicamente a ideia que se deseja transmitir. O principal promotor da gregueria foi o próprio Gómez de la Serna, que ao longo de sua vida dedicou numerosos livros a esse novo gênero, cultivado assiduamente em seções fixas dos jornais, consagrando-o como um dos escritores mais conhecidos das letras espanholas.

(definição enciclopédica).

100100 GREGUERIAS traduzidas por Ivo Barroso

 

Excesso de fama: difamação.

Pensamento consolador: o verme também morrerá.

As cadeiras aproveitam a escuridão para passar rasteiras em seus proprietários.

No fundo dos espelhos há sempre um fotógrafo escondido.

A alface é toda anágua.

Sobre o túmulo do grande vaidoso cresce a árvore genealógica.

Os vermes andam de sapatilhas.

Observo que se dão conselhos como se presenteiam calendários que sobraram: para acabar com eles.

Para alguém saber se está sozinho é preciso que esteja acompanhado.

O T é o martelo do abecedário.

Ralador:  aparelho para torturar o queijo.

O artista arranca de si coisas que se guardam só para dizer a Deus.

Os que usam relógio de corrente acham que têm mais amarrado o tempo.

A madrugada é silenciosa, mas desperta a tosse dos asmáticos. Por pudor, sempre quis escrever umbigo com agá.

O gato presencia o bate-papo familiar como se lhe desse sono a conversação alheia.

Não nos lembrarmos de que não sabemos donde e que iremos sem saber quando: isto é a vida.

O crocodilo é uma maleta que viaja por conta própria.

Em cada dia é todo o tempo que amanhece.

Lua nova: mudança dos lençóis da paisagem.

O fogo não morre, o fogo vai para outra parte.

Não há nada mais comovente que o riso de uma mulher bela que acaba de chorar.

Os que desembarcam do avião parecem que estão saindo da Arca de Noé.

Bocejar: o encanto das viagens.

O relógio não existe nas horas felizes.

O bom do passado é que tudo estava então pela metade do preço.

Os camelos passam: o horizonte muda de lugar.

A aranha é a tecedora do ar.

O homem que mantém o palito na boca é um ruminante.

Os miúdos são os detalhes do frango.

A lua é um banco de metáforas arruinado.

Os socialistas são os que sabem que são somente socialistas.

A casa de pianos tem algo de funerária da música.

A joalheria toda se enrubesceu: foi olhada por um comunista!

O etc., etc., etc. é a trança do escrito.

Duas pessoas mudando uma mesa de lugar dão a impressão de um féretro.

Um tinteiro que se derrama põe de molho todas as nossas ideias.

Dicionário quer dizer milionário de palavras.

O pavão real é um mito aposentado.

Camões e Cervantes são como dois companheiros de asilo, um é zarolho e o outro manco.

O olhar do cordeiro torna caritativo o homem.

Umedecia o envelope como se estivesse saboreando uma empadinha.

O tempo se alimenta tragando relógios mortos.

Era tão polido que às vezes cumprimentava as árvores.

Ainda que o mar esteja distante, há um momento do entardecer em que podemos afirmar que nos rodeia o mar da tarde.

Voz do Juízo Final: “O chefe está chamando”.

Cada quilo de café trem três quilos de cheiro de café.

Quando ficamos sozinhos numa sala de museu ficamos sem saber se somos quadro, múmia ou ser humano.

Todas as vírgulas de seus decretos reais, o rei as leva penduradas

em seu manto de arminho.

Há um lacaio que põe aspas em tudo quanto diz o seu proprietário, e, às vezes, põe até travessão e acento circunflexo nas palavras.

O que não deixa dívidas deixa dúvidas.

Era tímido como um cão embaixo de um carro.

A mão velha se agarra à vida como a pata do pássaro se agarra à rama.

O mal do helicóptero é que sempre parece um brinquedo.

O relógio é uma bomba de tempo, de mais ou menos tempo.

Frente ao microfone – e isto é que nos emociona diante dele – está ao mesmo tempo nossa presença e nossa ausência.

A língua é como o canto fluente da conversação.

Don Juan pede amor como quem pede trabalho.

A acelga tem gosto de conselho médico.

No rosário estão as reticências da oração.

A lógica é o pulverizador da razão.

O bom escritor não sabe nunca se sabe escrever.

Fala-se da Queda da Bastilha como se esta fosse o maior escorregão da história.

O que está em Veneza é o iludido que pensa estar em Veneza. O que sonha com Veneza é o que de fato está em Veneza.

Era um desses dias em que o vento quer falar.

O pior da ambição é que não sabe bem o que quer.

A navalha do tempo corta até as amarras mais grossas.

O leão na jaula parece viver de rendas.

A andorinha chega de tão longe porque é flecha e arco ao mesmo tempo.

As ruas são mais largas de noite que de dia.

Às vezes o cortador de páginas não funciona porque tropeça com o nó da novela do livro.

Tácito entre nas pontas dos pés nas bibliotecas.

A timidez é como um traje mal feito.

Debaixo das grandes pedras se oculta a lacraia do passado.

O escritor sabe que o livro que escreve é para todos, mas há sempre um leitor que se acha único e enche o livro de notas.

O sapo sabe que é tão feio que só sai de noite.

O cúmulo do artifício humano é ter enfiado uma anchova numa azeitona.

“Artigo de primeira necessidade”: aquele que alguém envia aos jornais.

Quem põe notas nos livros é o mesmo que enche as cartas de pós-escritos.

O segredo profissional do ladrão o obriga a não contar nada à Polícia.

Tocava piano solo a quatro mãos. Com isto diz-se tudo.

Não há nada que se assemelhe à independência da primeira fila no cinema.

A tartaruga vive muito porque é um relógio atrasado.

Quando alguém diz paralelepípedo parece gago.

O melhor do sonho são as cambalhotas que damos em seu aquário.

Nunca é tarde se a sopa é boa.

A idiossincrasia é uma enfermidade sem especialista.

Prefiro as máquinas de escrever usadas porque têm experiência e ortografia.

O Q de Quevedo se parece com ele e tem até seu bigode velhaco.

Um tumulto é um inchaço que dá nas multidões.

A maneira de curar o coração é evitar pressentimentos.

Domingo: cão correndo atrás de uma pedra atirada.

A alvorada nos passa a folha.

Só cola bem nos envelope a saliva pegajosa do caluniador.

A dúvida é como a água a ferver: está rindo ou chorando?

A pulga faz o cachorro virar guitarrista.

O leitor – como a mulher – gosta mais de quem o engana mais.

O urso branco está sempre envolto em seu roupão de banho.

O chicote traça no ar a rubrica do tirano.

O carrasco é igual ao antropófago: ambos matam para comer.

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