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Archive for the ‘Poema traduzido’ Category


 Os leitores talvez estejam lembrados, quando tracei aqui dois retratos de Mário Faustino, do modo como fui parar na redação do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil em 1956: eu lhe mandara uma tradução do III Soneto a Orfeu, de Rainer Maria Rilke, para sair na seção “Poema Traduzido”, e ele o publicou em “O Poeta Novo”, com um grande elogio; passei a considerar-me um realizado tradutor de poesia. Embora esteja em meu livro de traduções “O Torso e o Gato”, nunca divulguei aqui esse extraordinário poema, síntese de toda a filosofia poética de Rilke. Faço-o agora: 

Ein Gott vermags. Wie aber, sag mir, soll
ein Mann ihm folgen durch die schmale Leier?
Sein Sinn ist Zwiespalt. An der Kreuzung zweier
Herzwege steht kein Tempel für Apoll.

Gesang, wie du ihn lehrst, ist nicht Begehr,
nicht Werbung um ein endlich noch Erreichtes;
Gesang ist Dasein. Für den Gott ein Leichtes.
Wann aber sind wir? Und wann wendet er

an unser Sein die Erde und die Sterne?
Dies ists nicht, Jüngling, Daß du liebst, wenn auch
die Stimme dann den Mund dir aufstößt, – lerne

vergessen, daß du aufsangst. Das verrinnt.
In Wahrheit singen, ist ein andrer Hauch.
Ein Hauch um nichts. Ein Wehn im Gott. Ein Wind.

Aus: Die Sonette an Orpheus, Erster Teil (1922)

Eis a minha tradução, apreciada por Faustino: 

Um Deus o pode. Mas, da lira ao solo,
há-de o homem consegui-lo? À dissensão
tendemos, e não há Templo de Apolo
no enredar dos ramais do coração.

O canto, como o queres, não são teus
desejos, nem a busca do atingível.
Cantar é ser. Tão fácil para o Deus!
Mas, quando o somos?  E Ele, quando ao nível 

de nosso  olhar  o céu e a terra estende?
Jovem no amor ainda não és, conquanto 
a palavra te suba ao lábio. Aprende

A esquecer que cantaste. E sem alento.
Uma outra coisa é o verdadeiro canto.
Um sopro ao nada. Um voo em Deus. Um vento.

 

A Gaveta está repleta de posts referentes a Rilke: 

Senhores, é tempo de Rilke aqui 19.04.11 

Um poema de Rilke traduzido por Ivo Barroso aqui 01.09.10 

E principalmente – não deixe de ler – 

RMR: o poeta ofendido e humilhado aqui 16.07.11 

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No dia 25.03.2016, ou seja, na Semana Santa de há três anos passados, publiquei aqui na Gaveta  um trecho do belo poema de Miguel de Unamuno sobre o impressionante Cristo, de Velásquez.

Era só uma primeira parte que me apressei em mostrar aos leitores em comemoração daquela data.

Fiz acompanhar aqueles versos de uma apreciação sobre o quadro do mestre espanhol (Diego Velásquez) e também de uma nota sobre o autor do poema (Miguel de Unamuno), que podem (e devem) ser relidas AQUI.

Na Semana Santa de agora, passados três anos e num momento de profunda depressão, animo-me a apresentar aos leitores o texto final do poema, numa tradução dedicada ao meu prestimoso amigo José Carlos Teixeira.

 

ALVA

Branco estás como o céu que, no nascente,

Está a branca alvorada antes que o sol

Surja do limbo da terra que é a noite:

Que alvor de aurora deste à nossa vida

Que retorna da morte em alva, pórtico

Do dia eterno; branco qual a nuvem

Que em coluna guiava no deserto

O povo do Senhor, enquanto o dia

Durava.  Tal como a neve dos cumes

Qual ermitãs, seguras pelo céu,

Donde reverberava sem estorvo o sol;

De teu corpo, cimeira desta vida,

Resvalam cristalinas águas puras,

Espelho claro dessa luz celeste,

Para regar cavernas subterrâneas

Envoltas pelas trevas nos abismos.

Como o pico altíssimo, de noite,

Qual lua que anuncia a alva aos que vivem

Perdidos em barrancos, fossas fundas,

Assim teu corpo níveo, que é o cimo

Da humanidade e é manancial de Deus,

Proclama em nossa noite o eterno alvor!

ORAÇÃO FINAL

Tu que emudeces, Cristo, para ouvir-nos,

ouve de nossos peitos os soluços;

acolhe as nossas queixas, os gemidos

deste vale de lágrimas. A Ti,

Cristo Jesus, clamamos desde o fundo

De nosso abismo de miséria humana,

E Tu, do alto da branca humanidade

Dá-nos a água de tua neve. Águia

Branca que ao voar o céu abarcas,

O teu sangue pedimos; tua vinha,

O vinho que consola ao embriagar-nos;

A Ti, Lua de Deus, o doce lume

Que na noite nos diz que o Sol persiste

E nos espera; a Ti, coluna forte,

Arrimo em que pousar; oh Hóstia Santa,

Te pedimos o pão desta jornada

Para Deus, como esmola; e te pedimos

A Ti, ó Cordeiro de Deus que lavas

Os pecados do mundo, o velocino

De ouro de teu sangue; te pedimos

A Ti, a rosa do sarçal bravio,

A luz que não se extingue, a luz que ensina

Como Deus é quem é; a Ti que és a ânfora

Do divino licor, que o néctar deites

De eternidade em nossos corações.

Traz-nos o reino de teu Pai, ó Cristo,

Que é o reino de Deus, reino do Homem!

Dá-nos vida, Jesus, que é labareda

Que aquece e que alumia e que em pábulo

Encerrado em vasilha se mantém;

Vida que é chama, que no tempo vive

E em ondas, como o rio, se sucede.

***

Avançamos, Senhor, nós, indigentes.

As almas em andrajos, em farrapos

Qual palha que nas eiras revolteia

Quando sobre ela sopra uma rajada,

Envoltos pela tromba tempestuosa

De aguerridas negruras; faz brilhar

Tua brancura, ó caiação da abóbada

Dessa infinita casa de teu Pai

— o lar da eternidade — no caminho

De nossa marcha e da esperança sólida

E sobre nós enquanto exista Deus!

De pé e com os braços bem abertos

E estendida a direita sem descanso.

Faz-nos cruzar a vida pedregosa

– encosta de Calvário – sustentados

Pelo dever dos cravos, e morramos

De pé, qual tu e braços bem abertos

Como Tu, subamos para a glória

De pé, para que Deus de pé nos fale

E com os braços estendidos. Dá-me,

Senhor, que quando ao fim erre eu perdido

Possa da noite tenebrosa

Em que sonhando o coração se ateia,

E me entre no dia que não finda,

Meus olhos fixos no teu claro corpo.

Filho do Homem, completa Humanidade,

Na não-criada luz que nunca morre

Meus olhos fixos em teus olhos, Cristo,

Meu olhar afogado em Ti, Senhor!

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ASH-WEDNESDAY – QUARTA-FEIRA DE CINZAS

UM POEMA DE T. S. ELIOT TRADUZIDO EM 06.03.2019

POR IVO BARROSO

Porque não espero retornar jamais
porque já não espero
porque já não espero retornar
desejando deste os dons, daquele o intento
já não me empenho em empenhar-me em tais empresas
(por que abriria a velha águia as asas presas?)
Por que então haveria de chorar
A força consumida de meus dons habituais?

Porque já não espero conhecer
A glória infirme da hora derradeira
Porque não creio
Porque sei que nunca saberei
A única transitória força verdadeira
Porque não posso beber dessa
água onde as árvores florescem e as fontes fluem, pois nada recomeça.

Porque sei que o tempo é sempre o tempo
E que o espaço é apenas o espaço
E que o agora só é o agora por um tempo
E apenas num lugar
Exalto-me por serem as coisas o que são
E renuncio à face abençoada
E renuncio a essa voz do alto
Porque já não espero retornar
E por isso me exalto, tendo de construir algo
De que me possa exaltar.

E rogo a Deus que de nós tenha piedade
E rogo para que eu possa esquecer
Os temas que comigo sem cessar discuto
Tentando me explicar

Porque já não espero retornar
Que estas palavras respondam por si sós
Pelo que foi feito, e não pelo que de novo se faria
E que a sentença não pese tanto sobre nós.

Porque estas asas que voaram agora já não voam
Mas simplesmente adejam pelo ar
No ar agora inteiramente exíguo e seco
Mais exíguo e seco ainda que a vontade
Que nos ensina a cuidar e não cuidar
Nos ensina a calados nos sentar.

Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte
Rogai por nós agora e na hora de nossa morte.

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Meu dileto amigo, o editor-tradutor Cláudio Giordano, presenteou-me com este magnífico volume, em que o assunto “vinho” é considerado praticamente sob todos os aspectos, com relevância para o concernente à arte do livro e a literatura. Nele o leitor ficará sabendo tudo sobre incunábulos, fac-similes, agricultura e botânica vinícolas, o vinho na religião e na medicina, obras de arte relativas ao vinho, o vinho do porto e finalmente a poesia do vinho. Nesta última seção, há um (para mim até então) desconhecido soneto de JORGE LUIS BORGES sobre o vinho, no texto espanhol original, cuja tradução transcrevo aqui em homenagem ao incansável editor Giordano, responsável pela beleza do livrinho Meu Rubaiyat, que editamos em 2017.

 

SONETO DO VINHO

Em que reino, em que século, sob que silenciosa

Conjugação dos astros, em que secreto dia

Que o mármor não salvou, surgiu a valiosa

E singular ideia de inventar a alegria.

Com outonos dourados o criaram. O vinho

Refluiu rubro ao longo de muitas gerações;

Como o rio do tempo em seu árduo caminho

Prodigou-nos a música, seu fogo e seus leões.

Na noite jubilosa ou na jornada adversa,

Ele exalta a alegria ou nos mitiga o espanto,

E o ditirambo novo que este dia lhe canto

Lhe foi cantado outrora pelo árabe e o persa.

Vinho, ensina-me a arte de ver a minha história

Como se esta já fosse a cinza da memória.

JORGE LUIS BORGES

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NOTA: NOSSA ANTOLOGIA POÉTICA VOLTARÁ À GAVETA COM TODO VAPOR E EM
DOSES TRIPLAS NA PRÓXIMA SEMANA

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traduzido por Ivo Barroso

James Tate nasceu em 1943 em Kansas City, no Missouri. Diplomado pelo “The Writers’ Workshop”da Universidade de Iowa, lecionou ultimamente na Universidade de Massachusetts (MA). Prêmio Pulitzer de poesia do ano de 1992.

Peggy in the Twilight

Peggy spent half of each day trying to wake up, and
the other half preparing for sleep. Around five, she
would mix herself something preposterous and ’40s-ish
like a Grasshopper or a Brass Monkey, adding a note
of gaiety to her defeat. This shadowlife became her.
She always had a glow on; that is, she carried an aura
of innocence as well as death with her.

I first met her at a party almost thirty years ago.
Even then it was too late for tragic women, tragic
anything. Still, when she was curled up and fell asleep
in the corner, I was overwhelmed with feelings of love.
Petite black and gold angels sat on her slumped shoulders
and sang lullabies to her.

I walked into another room and asked our host for
a blanket for Peggy.

“Peggy?” he said. “There’s no one here by that name.”
And so my lovelife began.

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PEGGY  AO CREPÚSCULO

Peggy passava a metade do dia tentando acordar e a outra
metade preparando-se para dormir. Lá pelas 5, fazia
para si mesma um desses  coquetéis extravagantes dos anos 40,
como um Grasshopper ou um Brass Monkey, acrescentando uma nota
de alegria ao seu fracasso. Tornou-se uma sombra de vida,
ela que sempre havia luzido, ou seja, que carregava uma aura
de inocência e bem assim de morte por onde fosse.

Conheci-a há quase trinta anos numa festa.
Então já havia passado a moda das mulheres trágicas, das coisas
trágicas. Mesmo assim, quando a vi encolher-se e adormecer
a um canto,  senti-me esmagado por sensações de amor.

Anjinhos negros e dourados sentavam-se em seus ombros caídos
e lhe cantavam canções de ninar.

Fui até a outra sala e pedi ao dono da casa um cobertor
para Peggy.

“Peggy?” estranhou. “Não há ninguém aqui com este nome”.

E assim minha vida amorosa começou.

 

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      UM SONETO DE FRAY LUIS DE LEÓN TRADUZIDO
por Ivo Barroso

 

PÃO E DEUS – Fray Luis de León

 

Se pão é o que vemos, como dura

Sem que ao comê-lo todo não se acabe?

Se Deus, por que o gosto a pão nos sabe

Como se só de pão tem a figura?

 

Se pão, por que adorá-lo a criatura?

Se Deus, porque em tão pouco espaço cabe?

Se pão, porque a ciência assim não sabe?

Se Deus, como comer sua feitura?

 

Se pão, porque nos farta com tão pouco?

Se Deus, como é que pode ser partido?

Se pão, por que em noss’alma mexe tanto?

 

Se Deus, como é que o vejo e nele toco?

Se pão, como dos céus ei-lo descido?

Se Deus, como não morro então de espanto?

 

******

O significado de Corpus Christi

“Eucaristia” é uma palavra grega que significa “dar graças” ou “agradecer”. Esta palavra ganhou um significado novo e profundo quando os cristãos passaram a chamar de “Eucaristia” a Última Ceia celebrada por Jesus. Isto aconteceu porque nesta ceia Jesus “deu graças a Deus” e se entregou total e gratuitamente por amor à humanidade.

Na Ceia Eucarística Jesus transformou o pão e o vinho em seu corpo e seu sangue dizendo: “Isto é o meu corpo… Isto é o meu sangue.” Além disso, ele deu aos apóstolos o poder de perpetuarem este milagre dizendo: “Fazei isto em memória de mim.” Por isso, a Eucaristia tornou-se “sacramento”, isto é, um meio pelo qual Deus se faz real e eficazmente presente entre nós.

 

                                                                                                   ***

  • FRAY LUIS DE LEÓN (Belmonte, Espanha, 1527 – Madrigal de las Altas Torres, id, 1591), escritor espanhol em castelhano e línguas latinas. De ascendência judaica, desde a sua juventude, professou  na ordem agostiniana. Foi um grande humanista de espírito cristão e grande conhecedor dos clássicos latinos. Ressaltou, acima de tudo sua consciência estilística, tão rigorosa quanto em sua prosa; na poesia demonstra domínio do ritmo e do tom. Seguiu as inovações métricas introduzidas por  Boscán  e Garcilaso , mas decidiu-se  exclusivamente pela lírica, com uma expressão poética de grande perfeição formal e força expressiva, simplicidade exemplar. (Google)

 

***

 

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DOIS POEMAS DE PABLO NERUDA TRADUZIDOS POR IVO BARROSO

 

        (De “20 Poemas de Amor y una Canción Desesperada” – poemas XVIII e XX)

 

XVIII

 

Aqui te amo.

Nos pinheiros escuros desenreda-se o vento.

A lua fosforesce sobre as águas errantes.

Andam dias iguais se perseguindo.

 

A névoa se desdobra em dançantes figuras.

Uma gaivota de prata se desprega do ocaso.

Às vezes uma vela. Altas, altas estrelas.

 

Ou a cruz negra de um barco.

Solitário.

Às vezes amanheço, e até minha alma está úmida.

Soa, ressoa o mar longínquo.

Este é um porto.

E aqui te amo.

 

Amo-te aqui e em vão o horizonte te oculta.

Estou te amando mesmo entre estas coisas frias.

Vão meus beijos às vezes por estes barcos graves

Que correm pelo mar até onde não chegam.

 

Já me sinto esquecido como estas velhas âncoras.

Os cais são bem mais tristes quando a tarde atraca.

Sedenta a minha vida se cansa inutilmente.

Pois amo o que não tenho. Contigo tão distante.

 

Meu tédio mede forças com os tardios crepúsculos.

Mas sempre a noite vem e começa a cantar-me.

A lua faz girar sua engrenagem de sonhos.

 

Com teus olhos me olham as estrelas maiores.

E sabendo que te amo, os pinheiros no vento

Querem cantar teu nome em suas cordas de arame.

 

 

                                                                                                           

                                                                         XX

 

 

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

 

Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada

E tiritam, no azul, os astros à distância”.

 

Gira o vento da noite pelos céus e canta.

 

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Eu a quis, e por vezes, ela também me quis.

 

Em noites como esta eu a tive em meus braços.

Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

 

Ela me quis e às vezes eu também a queria.

Como não ter amado seus grandes olhos fixos.

 

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho. Sentir tê-la perdido.

 

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.

E cai o verso na alma qual no campo o rocio.

 

Que mal se meu amor não pudesse retê-la.

É uma noite estrelada, sem ela aqui comigo.

 

Isto é tudo. À distância alguém canta. À distância.

A alma não se conforma com havê-la perdido.

 

Querendo aproximá-la, o meu olhar a busca.

Meu coração a busca. Mas não está comigo.

 

Esta noite que faz branquear as mesmas árvores

É a mesma de outrora, mas nós somos distintos.

 

Já não a quero, é certo, mas tanto que a queria.

Minha voz pelo vento ia tocar-lhe o ouvido.

 

De outro. Será de um outro. Como antes de meus beijos.

A voz, o corpo claro. Seus olhos infinitos.

 

Já não a quero, é certo, mas talvez a quisesse.

Como é tão curto o amor e como é longo o olvido.

 

Porque em noites iguais eu a tive em meus braços

A alma não se conforma com havê-la perdido.

 

Seja esta a última dor que embora ela me cause

E estes os últimos versos que ainda lhe dedico.

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