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Archive for the ‘Poema traduzido’ Category

No dia 25.03.2016, ou seja, na Semana Santa de há três anos passados, publiquei aqui na Gaveta  um trecho do belo poema de Miguel de Unamuno sobre o impressionante Cristo, de Velásquez.

Era só uma primeira parte que me apressei em mostrar aos leitores em comemoração daquela data.

Fiz acompanhar aqueles versos de uma apreciação sobre o quadro do mestre espanhol (Diego Velásquez) e também de uma nota sobre o autor do poema (Miguel de Unamuno), que podem (e devem) ser relidas AQUI.

Na Semana Santa de agora, passados três anos e num momento de profunda depressão, animo-me a apresentar aos leitores o texto final do poema, numa tradução dedicada ao meu prestimoso amigo José Carlos Teixeira.

 

ALVA

Branco estás como o céu que, no nascente,

Está a branca alvorada antes que o sol

Surja do limbo da terra que é a noite:

Que alvor de aurora deste à nossa vida

Que retorna da morte em alva, pórtico

Do dia eterno; branco qual a nuvem

Que em coluna guiava no deserto

O povo do Senhor, enquanto o dia

Durava.  Tal como a neve dos cumes

Qual ermitãs, seguras pelo céu,

Donde reverberava sem estorvo o sol;

De teu corpo, cimeira desta vida,

Resvalam cristalinas águas puras,

Espelho claro dessa luz celeste,

Para regar cavernas subterrâneas

Envoltas pelas trevas nos abismos.

Como o pico altíssimo, de noite,

Qual lua que anuncia a alva aos que vivem

Perdidos em barrancos, fossas fundas,

Assim teu corpo níveo, que é o cimo

Da humanidade e é manancial de Deus,

Proclama em nossa noite o eterno alvor!

ORAÇÃO FINAL

Tu que emudeces, Cristo, para ouvir-nos,

ouve de nossos peitos os soluços;

acolhe as nossas queixas, os gemidos

deste vale de lágrimas. A Ti,

Cristo Jesus, clamamos desde o fundo

De nosso abismo de miséria humana,

E Tu, do alto da branca humanidade

Dá-nos a água de tua neve. Águia

Branca que ao voar o céu abarcas,

O teu sangue pedimos; tua vinha,

O vinho que consola ao embriagar-nos;

A Ti, Lua de Deus, o doce lume

Que na noite nos diz que o Sol persiste

E nos espera; a Ti, coluna forte,

Arrimo em que pousar; oh Hóstia Santa,

Te pedimos o pão desta jornada

Para Deus, como esmola; e te pedimos

A Ti, ó Cordeiro de Deus que lavas

Os pecados do mundo, o velocino

De ouro de teu sangue; te pedimos

A Ti, a rosa do sarçal bravio,

A luz que não se extingue, a luz que ensina

Como Deus é quem é; a Ti que és a ânfora

Do divino licor, que o néctar deites

De eternidade em nossos corações.

Traz-nos o reino de teu Pai, ó Cristo,

Que é o reino de Deus, reino do Homem!

Dá-nos vida, Jesus, que é labareda

Que aquece e que alumia e que em pábulo

Encerrado em vasilha se mantém;

Vida que é chama, que no tempo vive

E em ondas, como o rio, se sucede.

***

Avançamos, Senhor, nós, indigentes.

As almas em andrajos, em farrapos

Qual palha que nas eiras revolteia

Quando sobre ela sopra uma rajada,

Envoltos pela tromba tempestuosa

De aguerridas negruras; faz brilhar

Tua brancura, ó caiação da abóbada

Dessa infinita casa de teu Pai

— o lar da eternidade — no caminho

De nossa marcha e da esperança sólida

E sobre nós enquanto exista Deus!

De pé e com os braços bem abertos

E estendida a direita sem descanso.

Faz-nos cruzar a vida pedregosa

– encosta de Calvário – sustentados

Pelo dever dos cravos, e morramos

De pé, qual tu e braços bem abertos

Como Tu, subamos para a glória

De pé, para que Deus de pé nos fale

E com os braços estendidos. Dá-me,

Senhor, que quando ao fim erre eu perdido

Possa da noite tenebrosa

Em que sonhando o coração se ateia,

E me entre no dia que não finda,

Meus olhos fixos no teu claro corpo.

Filho do Homem, completa Humanidade,

Na não-criada luz que nunca morre

Meus olhos fixos em teus olhos, Cristo,

Meu olhar afogado em Ti, Senhor!

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ASH-WEDNESDAY – QUARTA-FEIRA DE CINZAS

UM POEMA DE T. S. ELIOT TRADUZIDO EM 06.03.2019

POR IVO BARROSO

Porque não espero retornar jamais
porque já não espero
porque já não espero retornar
desejando deste os dons, daquele o intento
já não me empenho em empenhar-me em tais empresas
(por que abriria a velha águia as asas presas?)
Por que então haveria de chorar
A força consumida de meus dons habituais?

Porque já não espero conhecer
A glória infirme da hora derradeira
Porque não creio
Porque sei que nunca saberei
A única transitória força verdadeira
Porque não posso beber dessa
água onde as árvores florescem e as fontes fluem, pois nada recomeça.

Porque sei que o tempo é sempre o tempo
E que o espaço é apenas o espaço
E que o agora só é o agora por um tempo
E apenas num lugar
Exalto-me por serem as coisas o que são
E renuncio à face abençoada
E renuncio a essa voz do alto
Porque já não espero retornar
E por isso me exalto, tendo de construir algo
De que me possa exaltar.

E rogo a Deus que de nós tenha piedade
E rogo para que eu possa esquecer
Os temas que comigo sem cessar discuto
Tentando me explicar

Porque já não espero retornar
Que estas palavras respondam por si sós
Pelo que foi feito, e não pelo que de novo se faria
E que a sentença não pese tanto sobre nós.

Porque estas asas que voaram agora já não voam
Mas simplesmente adejam pelo ar
No ar agora inteiramente exíguo e seco
Mais exíguo e seco ainda que a vontade
Que nos ensina a cuidar e não cuidar
Nos ensina a calados nos sentar.

Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte
Rogai por nós agora e na hora de nossa morte.

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Meu dileto amigo, o editor-tradutor Cláudio Giordano, presenteou-me com este magnífico volume, em que o assunto “vinho” é considerado praticamente sob todos os aspectos, com relevância para o concernente à arte do livro e a literatura. Nele o leitor ficará sabendo tudo sobre incunábulos, fac-similes, agricultura e botânica vinícolas, o vinho na religião e na medicina, obras de arte relativas ao vinho, o vinho do porto e finalmente a poesia do vinho. Nesta última seção, há um (para mim até então) desconhecido soneto de JORGE LUIS BORGES sobre o vinho, no texto espanhol original, cuja tradução transcrevo aqui em homenagem ao incansável editor Giordano, responsável pela beleza do livrinho Meu Rubaiyat, que editamos em 2017.

 

SONETO DO VINHO

Em que reino, em que século, sob que silenciosa

Conjugação dos astros, em que secreto dia

Que o mármor não salvou, surgiu a valiosa

E singular ideia de inventar a alegria.

Com outonos dourados o criaram. O vinho

Refluiu rubro ao longo de muitas gerações;

Como o rio do tempo em seu árduo caminho

Prodigou-nos a música, seu fogo e seus leões.

Na noite jubilosa ou na jornada adversa,

Ele exalta a alegria ou nos mitiga o espanto,

E o ditirambo novo que este dia lhe canto

Lhe foi cantado outrora pelo árabe e o persa.

Vinho, ensina-me a arte de ver a minha história

Como se esta já fosse a cinza da memória.

JORGE LUIS BORGES

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NOTA: NOSSA ANTOLOGIA POÉTICA VOLTARÁ À GAVETA COM TODO VAPOR E EM
DOSES TRIPLAS NA PRÓXIMA SEMANA

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traduzido por Ivo Barroso

James Tate nasceu em 1943 em Kansas City, no Missouri. Diplomado pelo “The Writers’ Workshop”da Universidade de Iowa, lecionou ultimamente na Universidade de Massachusetts (MA). Prêmio Pulitzer de poesia do ano de 1992.

Peggy in the Twilight

Peggy spent half of each day trying to wake up, and
the other half preparing for sleep. Around five, she
would mix herself something preposterous and ’40s-ish
like a Grasshopper or a Brass Monkey, adding a note
of gaiety to her defeat. This shadowlife became her.
She always had a glow on; that is, she carried an aura
of innocence as well as death with her.

I first met her at a party almost thirty years ago.
Even then it was too late for tragic women, tragic
anything. Still, when she was curled up and fell asleep
in the corner, I was overwhelmed with feelings of love.
Petite black and gold angels sat on her slumped shoulders
and sang lullabies to her.

I walked into another room and asked our host for
a blanket for Peggy.

“Peggy?” he said. “There’s no one here by that name.”
And so my lovelife began.

Resultado de imagem para james tate

PEGGY  AO CREPÚSCULO

Peggy passava a metade do dia tentando acordar e a outra
metade preparando-se para dormir. Lá pelas 5, fazia
para si mesma um desses  coquetéis extravagantes dos anos 40,
como um Grasshopper ou um Brass Monkey, acrescentando uma nota
de alegria ao seu fracasso. Tornou-se uma sombra de vida,
ela que sempre havia luzido, ou seja, que carregava uma aura
de inocência e bem assim de morte por onde fosse.

Conheci-a há quase trinta anos numa festa.
Então já havia passado a moda das mulheres trágicas, das coisas
trágicas. Mesmo assim, quando a vi encolher-se e adormecer
a um canto,  senti-me esmagado por sensações de amor.

Anjinhos negros e dourados sentavam-se em seus ombros caídos
e lhe cantavam canções de ninar.

Fui até a outra sala e pedi ao dono da casa um cobertor
para Peggy.

“Peggy?” estranhou. “Não há ninguém aqui com este nome”.

E assim minha vida amorosa começou.

 

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      UM SONETO DE FRAY LUIS DE LEÓN TRADUZIDO
por Ivo Barroso

 

PÃO E DEUS – Fray Luis de León

 

Se pão é o que vemos, como dura

Sem que ao comê-lo todo não se acabe?

Se Deus, por que o gosto a pão nos sabe

Como se só de pão tem a figura?

 

Se pão, por que adorá-lo a criatura?

Se Deus, porque em tão pouco espaço cabe?

Se pão, porque a ciência assim não sabe?

Se Deus, como comer sua feitura?

 

Se pão, porque nos farta com tão pouco?

Se Deus, como é que pode ser partido?

Se pão, por que em noss’alma mexe tanto?

 

Se Deus, como é que o vejo e nele toco?

Se pão, como dos céus ei-lo descido?

Se Deus, como não morro então de espanto?

 

******

O significado de Corpus Christi

“Eucaristia” é uma palavra grega que significa “dar graças” ou “agradecer”. Esta palavra ganhou um significado novo e profundo quando os cristãos passaram a chamar de “Eucaristia” a Última Ceia celebrada por Jesus. Isto aconteceu porque nesta ceia Jesus “deu graças a Deus” e se entregou total e gratuitamente por amor à humanidade.

Na Ceia Eucarística Jesus transformou o pão e o vinho em seu corpo e seu sangue dizendo: “Isto é o meu corpo… Isto é o meu sangue.” Além disso, ele deu aos apóstolos o poder de perpetuarem este milagre dizendo: “Fazei isto em memória de mim.” Por isso, a Eucaristia tornou-se “sacramento”, isto é, um meio pelo qual Deus se faz real e eficazmente presente entre nós.

 

                                                                                                   ***

  • FRAY LUIS DE LEÓN (Belmonte, Espanha, 1527 – Madrigal de las Altas Torres, id, 1591), escritor espanhol em castelhano e línguas latinas. De ascendência judaica, desde a sua juventude, professou  na ordem agostiniana. Foi um grande humanista de espírito cristão e grande conhecedor dos clássicos latinos. Ressaltou, acima de tudo sua consciência estilística, tão rigorosa quanto em sua prosa; na poesia demonstra domínio do ritmo e do tom. Seguiu as inovações métricas introduzidas por  Boscán  e Garcilaso , mas decidiu-se  exclusivamente pela lírica, com uma expressão poética de grande perfeição formal e força expressiva, simplicidade exemplar. (Google)

 

***

 

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DOIS POEMAS DE PABLO NERUDA TRADUZIDOS POR IVO BARROSO

 

        (De “20 Poemas de Amor y una Canción Desesperada” – poemas XVIII e XX)

 

XVIII

 

Aqui te amo.

Nos pinheiros escuros desenreda-se o vento.

A lua fosforesce sobre as águas errantes.

Andam dias iguais se perseguindo.

 

A névoa se desdobra em dançantes figuras.

Uma gaivota de prata se desprega do ocaso.

Às vezes uma vela. Altas, altas estrelas.

 

Ou a cruz negra de um barco.

Solitário.

Às vezes amanheço, e até minha alma está úmida.

Soa, ressoa o mar longínquo.

Este é um porto.

E aqui te amo.

 

Amo-te aqui e em vão o horizonte te oculta.

Estou te amando mesmo entre estas coisas frias.

Vão meus beijos às vezes por estes barcos graves

Que correm pelo mar até onde não chegam.

 

Já me sinto esquecido como estas velhas âncoras.

Os cais são bem mais tristes quando a tarde atraca.

Sedenta a minha vida se cansa inutilmente.

Pois amo o que não tenho. Contigo tão distante.

 

Meu tédio mede forças com os tardios crepúsculos.

Mas sempre a noite vem e começa a cantar-me.

A lua faz girar sua engrenagem de sonhos.

 

Com teus olhos me olham as estrelas maiores.

E sabendo que te amo, os pinheiros no vento

Querem cantar teu nome em suas cordas de arame.

 

 

                                                                                                           

                                                                         XX

 

 

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

 

Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada

E tiritam, no azul, os astros à distância”.

 

Gira o vento da noite pelos céus e canta.

 

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Eu a quis, e por vezes, ela também me quis.

 

Em noites como esta eu a tive em meus braços.

Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

 

Ela me quis e às vezes eu também a queria.

Como não ter amado seus grandes olhos fixos.

 

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho. Sentir tê-la perdido.

 

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.

E cai o verso na alma qual no campo o rocio.

 

Que mal se meu amor não pudesse retê-la.

É uma noite estrelada, sem ela aqui comigo.

 

Isto é tudo. À distância alguém canta. À distância.

A alma não se conforma com havê-la perdido.

 

Querendo aproximá-la, o meu olhar a busca.

Meu coração a busca. Mas não está comigo.

 

Esta noite que faz branquear as mesmas árvores

É a mesma de outrora, mas nós somos distintos.

 

Já não a quero, é certo, mas tanto que a queria.

Minha voz pelo vento ia tocar-lhe o ouvido.

 

De outro. Será de um outro. Como antes de meus beijos.

A voz, o corpo claro. Seus olhos infinitos.

 

Já não a quero, é certo, mas talvez a quisesse.

Como é tão curto o amor e como é longo o olvido.

 

Porque em noites iguais eu a tive em meus braços

A alma não se conforma com havê-la perdido.

 

Seja esta a última dor que embora ela me cause

E estes os últimos versos que ainda lhe dedico.

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Já contei esta história algumas vezes: eu morava em Londres nos anos ’80 e, em companhia do douto José Guilherme Merquior, fomos assistir à estreia do musical “Cats”, de Andrew Lloyd Weber, mais para ver como o compositor se havia comportado diante daqueles versos de    Eliot, que tanto admirávamos. Ficamos surpresos por ver que ele havia conseguido levar à cena os principais lances do livro sem alterar em nada os versos. Merquior argumentou comigo que seria, portanto, possível fazer uma tradução sem deturpar seus elementos constitutivos (métrica, rima, jogos de palavras, etc), desde que se encontrassem, evidentemente, equivalências de linguagem e situações que correspondessem às glosadas pelo autor. Da hipótese à intimação foi só um momento, que passou a se materializar em cobranças quase diárias sobre o andamento dos trabalhos.

Os leitores conhecem meu ideário tradutório: fidelidade absoluta ao texto, nada de inversões, substituições, cortes, suplementações e, menos que nunca, de recriações, que é como chamo a esses trabalhos em que o tradutor substitui o texto traduzido por outro, de sua autoria, servindo-nos dessa forma gato por lebre. Mas há casos em que a tradução dita ao pé da letra resulta num texto incongruente para o leitor, em especial quando estão implícitas referências alheias ao conhecimento deste. Como deve o tradutor proceder em tal caso? Vou lhes mostrar o que fiz na tradução de “Old Possum’s Book of Practical Cats”, de Eliot, tomando como exemplo uma das figuras de que mais gosto, “Gus: the Theatre Cat”. Vejamos o original:

O ator Stephen Tate no papel de Gus (Gogó) na estreia da peça em Londres em 1981

Gus is the Cat at the Theatre Door.
His name, as I ought to have told you before,
Is really Asparagus. That’s such a fuss
To pronounce, that we usually call him just Gus.

Em tradução literal seria mais ou menos isto: Gus é o Gato da Porta de Teatro. Seu nome, como lhes devia ter dito antes, é de fato Aspargo. Era tal a confusão para pronunciar que em geral o chamávamos apenas de Gus. Muito bem: o texto é perfeitamente compreensível para o leitor brasileiro, mas perderam-se aqui o ritmo e as rimas. Além disso, Gus e Aspargo não são nomes comuns de gatos para nós. Primeiro, teremos de “nacionalizar” os nomes e ambientes. Examinemos o personagem: trata-se de um ex-ator decrépito, desempregado, esquecido do público, mas que continua um faroleiro (termo do meu tempo), um exibicionista, e vai para a porta dos teatros a fim de ver se algum antigo fã se lembra dele ou se algum ex-colega tem a piedade de lhe pagar um trago. Lembrei-me logo do termo “gogó”, que significa “garganta, indivíduo alardeador, exibicionista” (Houaiss). Gogó serve para nome de gato, mas como encontrar sua relação com “aspargo”? No primeiro verso há uma expressão inarredável: porta de teatro, temos de mantê-la. Logo: Gogó é o gato-ator de porta de teatro. Para rimar com ela, temos poucas opções: atro, quatro e outras a bem dizer inaplicáveis. Lembrei-me então da expressão “diabo a quatro”, que significa “desordem, confusão”; logo tradução ideal para o “fus” do texto inglês.  E avançamos: Gogó é o gato-ator de porta de teatro. Seu verdadeiro nome era um diabo-a-quatro /de se dizer. Bom, e qual sua relação com aspargo? Ocorreu-me usar sua forma vernácula (aspárago) e escandir a palavra de modo a ressaltar a última sílaba: AS-PA-RA-GÓ. Chegando ao seguinte resultado para  primeira quadra:

Gogó é o gato-ator de porta de teatro.
Seu verdadeiro nome era um diabo-a-quatro
De se dizer: AS-PA-RA-GÓ.  De dó,
Passamos a chamá-lo apenas de Gogó.

Valeu. Mas vamos ter complicações em seguida:

His coat’s very shabby, he’s thin like a rake,
And he suffers from palsy that makes his paw shake.
Yet he was, in his youth, quite the samartest of Cats —
But no longer a terror to mice and rats.

O tradutor ainda se sai bem desta: Seu casaco é surrado, é magro como um ancinho (palito ficaria melhor), e sofre de paralisia (Parkinson) que faz sua pata tremer. Contudo, ele foi, na juventude, o mais esperto dos gatos – mas agora já não é o terror dos camundongos e ratos.

Uma rima de graça: gatos/ratos. Mas vamos examinar de perto a figura do ex-galã: são elementos característicos, insubstituíveis coat’s shabby=casaco surrado e his paw shakes=sua pata treme, principalmente a última expressão, que caracteriza a precária saúde de Gogó.   Vamos ter de sacrificar a menção à magreza do personagem, sem descaracterizar a sua condição de quase indigente; daí usei boêmio. De casacão surrado, ares de pobre boêmio, palavra que vai me ensejar a possibilidade de rima com a pata que treme. Veremos adiante:

De casaco surrado, ares de pobre boêmio,
Já teve uma trombose e a pata ainda lhe treme. E o
Certo é que se foi, em moço, um songamongas,
Hoje não pega mais nem mesmo as camundongas.

Tivemos que fazer uma pequena ginástica poética para rimar com “boêmio”; trata-se da chamada rima partida, pois a frase extravasa para o verso subsequente, e recorremos a uma palavra antiga, mas apropriada — songamongas — para significar “pessoa esperta, dissimulada” (Houaiss), evitando com isto a rima fácil gatos/ratos do original.

Sigamos:

For he isn’t the Cat that he was in his prime:
Though his name was quite famous, he says, in its time.

Tradutor principiante de inglês: Pois ele não é (mais) o Gato que foi na plenitude [bingo! pela tradução de “prime”]: embora seu nome tenha sido muito famoso, diz ele, no seu tempo.

Aqui nos permitimos uma pequena modificação, sem alterar de todo o sentido da frase, para aproveitar um trocadilho inevitável:

Sombra do que ele (diz que) foi tempos atrás,
Quando — nome famoso — andava no cartaz.

(O “andava” é usado aqui com o duplo sentido de caminhar e permanecer).

Em seguida vamos ter uma série de “nacionalizações” de nomes e ambientes:

And whenever he joins his friends at their club
(Which takes place at the back of the neighbouring pub)
He loves to regale them, if someone else pays,
With anecdotes drawn from his palmiest days.
For he once was a Star of the highest degree —
He acted with Irvin, he acted with Tree.
And he likes to relate his succes on the Halls,
Where the Gallery once gave him several cat-calls.
But his grand creation, as he loves to tell,
Was Firefrorefiddle, the Fiend of the Fell.

O tradutor esforçado, querendo estar por dentro:

E sempre que  reúne seus amigos no clube deles/ (que se situa nos fundos do bar das vizinhanças) /adora regalá-los, se é um outro quem paga, /com os casos extraídos de seus dias de sucesso. / Pois já foi um astro do mais alto grau/ E atuou com Irvin, atuou com Tree [ou seja, dois famosos atores teatrais ingleses: Jeremy Irvin (1838-1905) e Herbert Beerbohm Tree [1852-1917)]. E gosta de relatar seu sucesso nos teatros / quando a Galeria uma vez lhe deu vários aplausos/vaias. [A palavra “call” em inglês significa aplauso, chamada à cena, mas “cat-call” é o contrário, tem o sentido de vaia. Aqui o trocadilho tem maior sentido por implicar a palavra cat, gato]. Mas sua grande criação, como adora dizer, foi Fogogeladorabeca, o Demônio da Matança.

Claro que Eliot quis aqui criar apenas, com uso de aliterações, um nome que desse a impressão de um herói destemido. (Atenção estudiosos de inglês: a palavra “frore”, que acompanha “fire”, é um arcaísmo; vocês não vão encontrá-la nos dicionários comuns, mas está no Webster’s New Twentieth Centutry = frozen, frosty). Daí a necessidade de se criar em português um título bombástico, igualmente aliterativo, que desse aquela mesma (ou semelhante) impressão. Também procurei usar aliterações em “f”, como no original, e cheguei a Zaragatafanho, a Fúria do Mafuá, aproveitando para incluir aí o termo zaragata, que significa confusão e tem implícita a palavra gato. Nunca me satisfiz muito com o Mafuá, que não me parece muito beligerante, mas deu uma sonora onomatopeia. Vejamos toda a estrofe traduzida:

Agora, se acompanha amigos para uns tragos
(Antes que alguém lhe fale em gotas e lumbagos),
Costuma lhes brindar — outro pagando a história —
Com seus casos do tempo em que viveu na Glória.

Notem que desapareceu a referência ao “pub das vizinhanças”, mas em compensação houve a insistência no estado doentio do personagem, fato que ele não quereria ver mencionado pelos amigos (gotas e lumbagos). E no fim, a “nacionalização” da cena graças ao trocadilho entre glória, sucesso, fama e Glória, logradouro conhecido do Rio de Janeiro. Esperem que liberdades maiores (e necessárias) vêm por aí em seguida:

Pois época já houve em que foi Astro e atuou
No colo de Ziembinski e aos pés da Marineau.

Houve a substituição dos artistas teatrais ingleses Irvin e Tree pelos dois maiores e mais conhecidos vultos do moderno teatro brasileiro de pós-guerra (anos 40-50): o polonês Zbigniew Marian Ziembinski (1908-1978) e a francesa Henriette Morineau (1908-1990). [Não sei quem citaria no lugar deles, se tivesse hoje de “modernizar” o texto; certamente haveria lugar para a Fernanda Montenegro, mas deixo ao leitor essas especulações…] Agora a tentativa de conseguir algo equivalente ao “cat-call”:

Adora relatar o sucesso de certa
Noite em que foi pre-miado (assim!) em cena aberta…
Mas seu papel genial, que lhe rendeu crachá,
Foi “Zaragatafanho, a Fúria do Mafuá”!

Pre-miado, assim com um hífen de separação, deixa exposta a “voz” do gato ao mesmo tempo em que alude ao seu sucesso (prêmio), pretendendo embora que a palavra sugira mais vaia que aplauso.  O assim! é um evidente decalque do sic latino e crachá está aí no lugar de condecoração, já que ele foi premiado em cena aberta.

Mas, prossigamos:

“I have played”, so he says, “every possible part.
And I used to know seventy speeches by heart.
I’d extemporize back-chat, I knew how to gag,
And I knew how to let the cat out of the bag.
I knew how to act with my back and my tail,
With an hour of rehearsal, I never could fail.
I’d a voice that would soften the hardest of hearts,
Whether I took the lead, or in character parts.
I have sat by the bedside of poor Little Nell;
When the Curfew was rung, then I swung on the bell.
In the Pantomime season I never fell flat,
And  I once understudied Dick Whittington’s Cat.
But my grandest creation, as history will tell,
Was Firefrorefiddle, the Fiend of the Fell.”

Agora o trabalho vai ser duro para o tradutor: “Representei”, diz ele então, “todos os papeis possíveis. E costumava saber uns setenta textos de cor. Imitava a voz em surdina, sabia fazer cacos, e sabia como tirar o gato do saco [gozação para “tirar o coelho da cartola”]. Sabia como atuar com as costas e com o rabo; com uma hora de ensaio, eu nunca podia falhar. Tinha uma voz que amolecia os corações mais duros, fosse interpretando o galã principal ou um personagem qualquer. Já me sentei ao lado da Pequena Nell [nome de uma peça teatral infantil]; quando tocavam o cobre-fogo [antigo alarme para apagarem as lareiras], eu me pendurava na corda do sino. Nas sessões de pantomima eu nunca falhava. E uma vez fiquei de ator-substituto para o gato de Dick Whittington [personagem célebre, cuja fortuna foi atribuída às peripécias de seu gato]. Mas minha criação mais grandiosa, como a história dirá, foi o Fogogeladorabeca, o demônio da matança.”

Estão vendo? Se vocês não são ingleses não teriam entendido nenhuma das alusões. A partir daí, então, tomei coragem (ou perdi a inibição) e resolvi entrar de corpo inteiro na história, a fim de poder corresponder à enxurrada de trocadilhos, segundos-sentidos e jogos de palavras, para os quais era necessário encontrar equivalências brasileiras. Recorri a todas as frases que conhecia capazes de encerrar referências a gatos:

“Representei”, diz ele, “o que houve de melhor,
E uns setenta papéis pude guardar de cor.
Fiz de tudo: Romiau, Gato-de-Botas…  Célebre
Ficou sendo a expressão com que passei por lebre.
Sabia erguer o rabo, olhava de soslaio;
Não podia falhar com uma hora de ensaio.
Minha voz comovia o coração mais duro,
Fizesse eu o galã ou um lacaio obscuro.
Fiz peças infantis — é claro, baboseira —
Em que contracenei com a Gata Borralheira.
Mas lembro, numa peça americana, o afinco
Que quase me levava a me torrar no zinco.
Mas meu melhor papel, como a história dirá,
Foi “Zaragatafanho, a Fúria do Mafuá”!

Umas pequenas ousadias: transformei o Romeu em Romiau, acrescentando-lhe uma voz de gato, e me lembrei até da “Gata em teto de zinco quente”, a famosa peça americana de Tennessee Williams. Notem a rima imperfeita (célebre/lebre) usada aqui para não perder a citação do conhecido gato por lebre.

O final, então, exigiu um número maior de “intervenções” para reproduzir as tiradas (gogó=garganta=faroleiro) exibicionistas do gato:

Then, if someone will give him a toothful of gin,
He will tell how he once played a part in East Lynn.
At a Shakespeare performance he once walked on pat,
When some actor suggested the need for a cat.
He once played a Tiger — could do it again —
Which an Indian Colonel pursued down a drain.
And he thinks that he still can, much better than most,
Produce blood-curdling noises to bring on the Ghost.
And he once crossed the stage on a telegraph wire,
To rescue a child when the house was on fire.

Tradução direta: Então, se alguém lhe der uma golada de gim, vai contar como certa vez desempenhou um papel em East Lynn [um dramalhão]. Numa representação shakespeariana ele saiu de fininho (na ponta dos pés) quando um ator mencionou necessitar de um gato. Certa vez fez um Tigre – faria até de novo – que um coronel indiano persegue num esgoto. E pensa que ainda pode, melhor que os demais, produzir ruídos de gelar o sangue ao invocar fantasmas. E uma vez cruzou o palco num fio telegráfico para resgatar uma criança quando o teatro estava em chamas.

Nossas equivalências:

Se então mais outro gim, de graça, ele derruba,
Vai contar que atuou de dentro de uma tuba.
Numa peça do Bardo, empolgou-se no treino
Porque Ricardo quis trocá-lo por seu reino.
Já fez papel de Tigre (ainda tem este plano!)
Que foge de Bengala, entrando por um cano.
Dava um grito de dor que emocionava a Casa
Na cena de tirar as castanhas da brasa.
Certa vez, sobre o palco, agarrado ao pendente
Da luz, salvou do incêndio uma fãzinha ardente.

(Aproveitamos muitas frases populares: tem gato na tuba, tigre de Bengala, entrar pelo cano. Utilizamos a mesma referência de Eliot ao famoso “My kingdom for a horse”, da peça Ricardo III, de Shakespeare, só que, é claro, mudando também o cavalo pelo gato. Quanto às castanhas na brasa, trata-se de alusão à fábula de La Fontaine em que o símio convence o gato a tirar, com suas garras, umas castanhas que estavam na brasa e que o macaco não conseguia alcançar por lhe arder a pata. Gus banca o herói pendurando-se num fio telegráfico para salvar uma criança do teatro em chamas; Gogó faz o mesmo, dando uma de Tarzan num frágil pendente de luz,  e consegue resgatar do incêndio uma fãzinha ardente (jogo aqui com os dois sentidos).

Última estrofe:

And he says: “Now, these kittens, they do not get trained
As we did in the days when Victoria reigned.
They never get drilled in a regular troupe.
And they think they are smart, just to jump through a hoop.”
And he’ll say, as he scratches himself with his claws,
“Well, the Theatre’s certainly not what it was.
These modern productions are all very well,
But there’s nothing to equal, from what I hear tell,
That moment of mystery
When I made history

As Firefrorefiddle, the Fiend of the Fell.”

Tradução final: E ele diz: “Bem, esses gatinhos (de hoje) não são treinados como éramos nos dias em que (a Rainha) Vitória reinava; nunca se exercitam numa trupe regular. E pensam que são sagazes só por saberem pular por dentro de um arco”. E dirá, enquanto se coça com as garras, “Bom, o Teatro certamente não é o que era antes. Essas produções modernas são boazinhas, mas não há nada que iguale, segundo ouvi dizer, ao momento de mistério em que fiz história como o Fogogeladorabeca, o demônio da matança”.

Pedimos desculpas a Eliot se, neste final, nos mostramos um tanto mais explícitos do que lhe permitia sua tradicional fleugma britânica:

E prossegue: “Hoje o Palco, o que tem de bichanos!
O inverso dos gatões que fomos tantos anos.
E as gatinhas a achar que cena é erguer a saia,
A posarem de atriz, mas só levando… vaia.”
E acaba por dizer, usando a garra em pente,
“O Teatro não é mais o que era antigamente.
As novas produções são boas, são, vá lá!
Mas nada se compara, um dia se verá,
Ao momento de glória
Em que fazia história
No “Zarragatafanho, a Fúria do Mafuá!”

P.S. A primeira edição de “Os Gatos” saiu em 1991 pela Nórdica e obteve o prêmio Jabuti de tradução daquele ano. Trazia a seguinte nota: “Dedico esta tradução à memória de José Guilherme Merquior, que tanto me incentivou a fazê-la. I.B.”. Ele havia falecido  naquele mesmo ano sem ter visto o livro publicado.

 

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