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Archive for junho \28\UTC 2012

TRADUZIDOS POR IVO BARROSO

 

No Meu Ofício ou Arte Amarga

No meu ofício ou arte amarga

Que à noite tarda é exercido

Quando alucina só a lua

E dormem lassos os amantes

Com as dores todas entre os braços,

É que trabalho à luz cantante

Não pela glória ou pelo pão,

Desfile ou feira de fascínios

Por sobre palcos de marfim,

Mas pela paga mais afim

De seus secretos corações!

Não para alguém altivo à parte

Da lua irada é que eu escrevo

Os respingados destas páginas

Nem pelos mortos presumidos

Cheios de salmo e rouxinóis.

Mas para amantes cujos braços

Têm os cansaços das idades

Que não me dão louvor nem paga

Nem prezam meu ofício ou arte.

Diálogo de Rosie e do Capitão

ROSIE PROBERT (Suave)

Que mares pudeste ver,

Tom Cat, meu capitão,

Nos teus dias de marujo

Em tempos que lá se vão?

Que monstros marinhos moram

No oscilar das verdes ondas

Onde foste meu patrão?

CAPITÃO CAT

Pois em verdade te digo:

Locas latindo qual focas,

Ondas verdes, mares índigo,

Águas prenhes de lampreias,

De tritões e de baleias.

ROSIE PROBERT

Por que mares amaraste,

Velho Baleeiro, as velas

Em onda inchada de males

Entre S. Francisco e Gales

Quando ainda eras meu mestre?

CAPITÃO CAT

Tão certo quanto estou cá,

Teu Tom Cat minha amada,

Minha Rosie porto certo,

Meu conforto meu afeto,

Minha fiel namorada,

Mares verdes como vagens

Deslizando como cisnes

ao luar de focas latindo.

ROSIE PROBERT

Que mares que te embalaram

Meu grumete de convés

Meu marido preferido

Com tuas botas nos pés

E ânsias na tua fome

Meu benzinho baleeiro

Meu pãozinho meu papai

Meu formoso marinheiro

Tendo meu nome na pança

Quando eras quase criança

Num tempo que lá se vai?

CAPITÃO CAT

Não direi palavras chochas:

O único mar que eu via bem

Era o que havia no vai-e-vem

Que vai via as tuas coxas.

Quero que deites devagar

Deixes-me nele naufragar.

Canção de Mr. Waldo

Quando era moço, em Pembroke City,

de Castle Keep morava ao pé.

Por seis vinténs eu ajudava

o limpador de chaminé.

Magros vinténs que ele me dava,

nem mais nem menos um tostão;

com aquele cobre eu só comprava

gim de cenoura e um agrião.

Não carecia faca ou garfo

nem guardanapo no pescoço

para comer meu agrião

e beber meu gim no almoço.

Você conhece algum rapaz

que andasse assim tão mal de vida,

sem carne ou osso na comida

e um gim de se chorar até?

Quem quer o limpa-chaminé,

velava eu pela cidade,

pobre e descalço em plena neve

que uma mulher teve piedade.

Pobre do limpa-chaminé,

mais sujo e negro do que o breu.

Ninguém me limpa a chaminé

des’ que o marido me morreu.

Venha limpar a chaminé,

Venha limpar a chaminé,

Disse corada de emoção,

Venha limpar-me a chaminé

E traga lá seu escovão.

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Fiquei em Lisboa até dezembro de 1982.

Em 1983 fui transferido para a Agência do Banco do Brasil em Londres e lá encontrei o José Guilherme Merquior no cargo de ministro conselheiro de nossa Embaixada. Eu conhecera  Merquior nos anos 50, em Teresópolis, onde morava sua família, quando ainda meninote de uns catorze anos, mas já frequentando aos saraus literários da Pensão do Celso, onde se ouviam declamações de versos de espécies heterogêneas. Minha então namorada, e logo noiva, passava uma temporada em casa do irmão que se tornara vereador daquela cidade e por isto eu subia a serra com frequência nos gostosos tempos do trenzinho a cremalheira. O poeta local, Gastão Neves, de voz altissonante, declamava habitualmente o seu “Maria cheia de graça”, e Celso,  o proprietário, sempre instado a dizer seus versos, acabava elaborando umas frases penumbristas e hesitantes, que arrancavam longos aplausos dos velhos hóspedes com mensalidades em atraso. Eu mesmo cheguei a dizer uns versos para agradar a namorada, e creio que até Merquior, uma vez, declamou a contragosto uma quadrinha que fizera para sua orgulhosa mamãe, também presente. Anos depois já estava ele no Rio dando conferências estudantis e escrevendo adoidado e, como eu colaborasse com o Suplemento Literário do Jornal do Brasil na época, apresentei-o ao Reynaldo Jardim, que deslumbrado com sua inteligência logo o incorporou à Redação. José Guilherme estreou com fogosos artigos de crítica literária, não poupando os medalhões da época e se envolvendo em acirradas polêmicas. Agora em Londres, no ápice de uma bem sucedida carreira diplomática, foi com prazer que reatamos uma velha amizade. Pudemos curtir juntos o Festival de Ópera de Glyndebourne (vendo o Intermezzo, de Richard Strauss),  fazer um belo passeio ao campo e almoçarmos no (famoso) The Compleat Angler, em Marlow, às margens do Tâmisa, e flanar pela Belgravia onde morávamos. Em certa ocasião fomos ver juntos o musical Cats, de Andrew Lloyd Weber, que lá andava em cartaz desde a estreia em 1981. Nossa preocupação era saber se o compositor havia respeitado os poemas de Eliot ou se havia feito alterações, cortes ou encaixes. Para nossa surpresa, vimos que os versos estavam intactos, enriquecidos então por uma música contagiante e emotiva. Foi José Guilherme que me desafiou a fazer a tradução desses poemas em português. Aceitei o desafio, dias depois mandei-lhe uma primeira amostra e, a partir daí, ele me telefonava perguntando pelos gatos, como ia a ninhada, se já havia nascido mais algum. Os bichanos levaram alguns anos para crescer e completar a família. De Londres fui dirigir o Escritório de Representação do Banco em Estocolmo, na Suécia, onde passei 5 anos até me aposentar em 1989, quando, já por conta própria, fui morar em Paris. Lá, por coincidência, chegou, no ano seguinte (1990), o José Guilherme para assumir o cargo de embaixador na Unesco. Embora papeássemos com frequência à mesa do nosso restaurante preferido para almoço, o Divellec (na Esplanade des Invalides) e nos víssemos nos eventos oficiais, infelizmente nosso convívio foi.muito curto, pois ele veio a falecer prematuramente, vítima de um câncer terminal, um ano depois,  Nesse mesmo ano, vim ao Brasil trazendo Os gatos e procurei a  Nórdica do editor português Jaime Bernardes, que eu sabia ser o detentor dos direitos de tradução dessa obra de Eliot. O livro saiu, ganhou o Jabuti de tradução do ano, trazendo na folha de rosto esta homenagem: Dedico esta tradução à memória de José Guilherme Merquior, que tanto me incentivou a fazê-la.

Além de Os Gatos eu trazia outro livro comigo: uma antologia de meus poemas traduzidos, O Torso e o Gato. Fui logo mostrá-lo a Houaiss, que, amigo entusiasta como sempre, achou que as traduções mereciam uma apresentação. O livro saiu com seu aval nesse mesmo ano pela Editora Record e teve em seguida uma edição especial em capa dura feita pelo Círculo do Livro Ltda.

***

Em 1992 regressei definitivamente ao Brasil e nosso relacionamento se intensificou com a minha volta. Falávamo-nos com frequência e tivemos um jantar como sempre memorável em seu belo apartamento na Lagoa Rodrigo de Freitas. Foi nessa ocasião que ele me falou en passant sobre o exemplar defeituoso dos Sonetos que lhe fora enviado pela Nova Fronteira, e ele agradeceu numa carta certamente elegante mas com uma pitada de  ironia… Em novembro desse ano, Houaiss foi nomeado Ministro da Cultura pelo Presidente Itamar Franco e teve que se mudar para Brasília, onde permaneceu por pouco mais de um ano, esforçando-se, com risco da própria saúde, para levar a termo o andamento de seus inúmeros projetos para a dinamização da Pasta, a trabalhar inutilmente sem poder, por falta de recursos governamentais, realizá-los. Debilitado, despachando incansável até no leito, mesmo quando esteve hospitalizado em Brasília, Houaiss viu-se forçado a deixar o Ministério. E recusou as embaixadas da Unesco em Paris e a de Lisboa, que a Presidência lhe queria atribuir como uma espécie de compensação

***

Em 1994, resolvi desovar os trabalhos produzidos na França, principalmente a obra de Rimbaud, que eu me determinara a traduzir inteira. Tinha o primeiro volume pronto – a Poesia Completa – e comecei a procurar editor. A primeira sondagem foi junto à Nova Fronteira, que já havia editado minhas traduções de Marguerite Yourcenar: Golpe de misericódia (1992) e O denário do sonho (1994) e ia lançar em 1996 O tempo, esse grande escultor. Mas não chegamos a  um acordo quanto aos direitos autorais. Fui a São Paulo, em busca da Companhia das Letras, para a qual eu traduzira A vida, modo de usar, de Georges Perec em 1991 e quatro livros de Ítalo Calvino: Seis propostas para o próximo milênio (1990), O castelo dos destinos cruzados (1991), As cosmicômicas (1992) e Palomar (1994). Numa entrevista com Luiz Schwarcz, o editor, tive que cortar curto quando ele me pediu para deixar os originais que seriam examinados por sua equipe de leitura. Achei isso um capitis diminutio e trouxe o livro de volta para o Rio. Aqui acabei encontrando o editor José Mário Pereira, que eu não conhecia, e que se mostrou exultante logo com as primeiras amostras do trabalho. E me ofereceu uma inesperada participação nas vendagens do livro. Em nossas conversas, ele demonstrou ser um editor no mais avançado sentido da palavra: conhecia tudo, lera tudo, lembrava-se de tudo e debruçou-se sobre Rimbaud com a mesma obstinação que eu tivera ao traduzi-lo. Escreveu para o livro uma “orelha” altamente profissional, demonstrando estar em dia com a mais avançada crítica rimbaldiana. E tive a satisfação de, no lançamento do livro, que ocorreu numa semana inteira de festejos no CCBB, do Rio, ver na folha de rosto a dedicatória com que eu tinha sonhado por tanto tempo:

                                                               A 

                                                               Antônio Houaiss

                                                               Mestre

                                                               Mago

                                                               Amigo

                                                                                          I.B.

Um pálido tributo a quem tanto fizera por mim.

Em 15 de outubro de 1995 ele fazia 80 anos. Seus amigos, encabeçados pelo diplomata e cantor lírico Vasco Mariz, organizaram um volume gratulatório para marcar a data,  com depoimentos sobre os vários aspectos de sua vida e de suas inúmeras atividades. Tive a honra de nele colaborar com um capítulo sobre o Houaiss tradutor. Ei-lo:

Houaiss, o tradutor
(Sob a invocação de Santo Antônio)

Antônio Houaiss é nosso Valéry Larbaud! — disse num ímpeto, para logo corrigir:

— É mais, é o nosso “Saint Jérome”.

Pois se em o compararmos ao tradutor exemplar da língua francesa lhe prestamos a homenagem certa, invo­car o seu nome ao lado e em pé de igualdade com o do santo padroeiro dos tradutores será um ato de inegável justiça. Isso porque em Houaiss não se poderia ver apenas aquele que superou o grande desafio de reescrever o Ulis­ses em português; seu mérito maior, que supera mesmo a montanha mítica dessa tradução, é o de ter servido de (e nos servir o) exemplo de que as tarefas impossíveis podem ser finalmente realizadas, se a elas nos atacamos com ta­lento e amor. Duas qualidades, dois atributos, duas sagra­ções, reconheçamos, não fáceis de coabitar em muitos com frequência, mas que nele coexistem em conúbio indisso­lúvel, permanentemente.

Convivi com Antônio Houaiss desde a segunda meta­de dos anos 60, quando ele dirigia a estiva literária que era a preparação da Grande Enciclopédia Delta-Larousse. E, a propósito desse labor magno, nunca um topos clássico seria mais apropriado que a metáfora de Sísifo para re­presentar aquele Houaiss-carregador-de-pedras-morro-acima, trabalhando dia e noite, atolado atrás de monta­nhas de fichas que a nossa equipe lhe colocava sobre a mesa e que ele ia triturando, emendando, sintetizando, enrique­cendo com o escalpelo de sua crítica, o diamante de sua cultura, a sensibilidade de seu saber. E nesse convívio, nesse assistir diário de tantas lições de como resolver (e não criar) problemas, foi aumentando por ele a nossa admiração. Ali estava um intelectual que era capaz de não só gerar idéias (brilhantes), mas de brilhantemente executá-las. De ter­minar uma obra já com outra, ainda mais ousada, a engatilhar-se no cérebro e a lhe coçar as mãos na vontade de levá-la a termo. e tudo isso em meio a mil e uma outras solicitações e interesses vários, porquanto Houaiss é um ser multifacetado que emite seus brilhos e reflexos por diversíssimas áreas do saber, que vão da culinária à lexicografia, da poesia às ciências sociais.

A admiração do discípulo logo se transformaria em afeto de amigo. E Houaiss, durante muito tempo, foi aquele porto seguro da cultura e da apreciação do quadro nacional onde ancorávamos a nau do viajante ausente, do expatriado voluntário que fomos por uma larga temporada, e que ao voltar anualmente ao país se agiornava social, política e culturalmente na fonte Houaiss, que não raro transbordava sabedoria e witticism. em frente a um badejo saboreado à vista do Albamar.

Devemos a ele nossa apresentação ao mundo literário: por duas vezes prefaciou livros nossos, que ele lia e anotava escrupulosamente, num atestado de que seu visto em nosso passaporte literário decorria de convicção crítica e não apenas se inspirava nos ditames da amizade. Ao dedicar nossa tradução da obra de Rimbaud, prestamos ao mestre, ao mago e ao amigo um tributo acanhado e muito diluído da grande, imensa admiração que por ele sem­pre tivemos. Por Antônio Houaiss, esse frágil Davi que acor­da todas as manhãs para abater o seu Golias, esse homem que não sabe dizer não às tarefas mais impossíveis e indi­gestas, a mão sempre estendida aos seus amigos e a todos os que buscam seu conselho e seu auxilio.

Nobre, como sempre, Houaiss agradeceu a todos os que lhe prestaram a homenagem:

Quatro anos depois, a 7 de março de 1999, já bastante debilitado por um enfisema pulmonar e sofrendo de pneumonia, nosso  Mestre faleceu, infelizmente sem ver realizado o seu grande sonho, que era a publicação do  Dicionário Antônio Houaiss da Língua Portuguesa.

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O convênio previa a permanência por um ano, eventualmente renovável por igual período, mas acabei ficando três na Holanda (1968-70), experiência  diplomática que pretendo registrar num capítulo à parte. Por agora, digo apenas que durante minha estadia na Haia fiz estudos, a pedido da minha Diretoria, para a eventual instalação de uma agência do Banco nos Países Baixos. De regresso ao Brasil, apresentei-me ao Diretor do Pessoal, a quem logo pleiteei minha volta ao Exterior, sob alegação de que me havia adaptado à vida no Estrangeiro e poderia ser de utilidade na efetivação do projeto de abertura da agência. O Diretor me disse friamente que eu já fora “premiado” no convênio e não teria a menor chance de voltar. Que me apresentasse na Cacex, para onde retornei em condições precárias, sem as regalias do passado.

Minha primeira preocupação foi procurar Antônio Houaiss. A Enciclopédia Delta Larousse, na qual eu trabalhara de “funil” e tivera meu nome inscrito como chefe da seção de tecnologia pela dura revisão que fizera de alguns verbetes específicos,  havia saído em fins de 1968, quando eu estava fora; publicada em 12 volumes, já se falava em sua ampliação para 15 (que sairiam em 1976). O incansável Antônio estava em vésperas de embarcar num novo e arrojado projeto editorial, a Enciclopédia Mirador, à espera das negociações que se desenvolviam no âmbito da Enciclopédia Britânica do Brasil, que iria patrocinar o empreendimento.

Graças ao clima frio e à monotonia da vida na Holanda, eu rascunhara por lá uma vintena de novas traduções dos sonetos de Shakespeare, as quais mostrei a Antônio. Sempre entusiasta, ele considerou “editáveis” muitos deles e indicou-me outros que careciam de um tratamento mais rigoroso para adquirirem o padrão de qualidade dos primeiros. Sem a necessidade de uma especial dedicação às minhas novas funções na Cacex, pude me debruçar sobre o trabalho com imediato afinco. Em pouco tempo achei que havia conseguido a unidade qualitativa preconizada por Houaiss e voltei a mostrar-lhe o caderno com os sonetos. Sua satisfação foi tão grande que se prontificou não só a prefaciá-los como em lhes arranjar um editor.

Enquanto isto, na Cacex, trabalhando na redação de um boletim de incentivo às exportações, não me cansava de pensar num meio de voltar ao Exterior. Candidatava-me a todas as bolsas de estudo que eram oferecidas à Carteira, principalmente pelo IRI italiano (Istituto per la Ricostruzione Industriale) e, embora fosse meu objetivo voltar de fato a morar na Europa, as bolsas de 3 ou 4 meses já podiam ser um meio de me aproximar desse ideal. Houve um momento em que achei estar a sorte do meu lado. Entre as condições impostas ao candidato à bolsa estava o primordial conhecimento da língua italiana. Nenhum dos colegas que se candidatavam podia afirmar isto em seu currículo. Corri a apresentar meus papeis ao Istituto Italiano di Cultura, em Laranjeiras, onde eu havia estudado, e vi que o secretário, sem examinar os documentos, os guardou numa gaveta. Semanas depois, chegou na Cacex a notícia de que outro colega tinha sido o escolhido. Não me conformei (intimamente) pois sabia de seu total desconhecimento da língua italiana. Voltei ao Istituto para reaver meus papeis, que estavam intactos na mesma gaveta em que tinham sido guardados semanas antes, e soube que o colega vencedor fora indicado pela própria gerência da Carteira. Desisti das bolsas. Minha volta não seria por ali…

[Entra aqui um intermezzo interessante cujos lances precisarei contar mais tarde e de maneira mais detalhada. Logo no primeiro ano de minha permanência na Holanda (1968), Maria Thereza, uma amiga e parente-afim, me escreveu dizendo que o ex-governador Carlos Lacerda, de quem era uma das secretárias, estaria de passagem por lá e que seria portador de uma encomenda que ela nos enviava.  A lembrancinha era pretexto para eu conhecer o político que acabara de ser cassado pelo AI-5 e iniciava uma longa viagem para refazer contatos políticos e comerciais.  Que eu fosse encontrá-lo no Hotel de l´Europe, em Amsterdam. Fui, eu era antilacerdista mas fui, talvez para conhecer em pessoa a figura que eu costumava ver com suspeita na televisão. Lacerda me deu uma acolhida impessoal, talvez por saber que eu trabalhava para o governo que o havia “neutralizado”, entregou-me o embrulhinho e convidou-me formalmente para almoçar em companhia de dois de seus assessores. Recusei por cerimônia, mas aceitei satisfeito a sobremesa.

Em 1970, quando voltei ao Brasil, a secretária Maria Thereza me disse que o Dr. Carlos estava dirigindo uma enciclopédia cujos trabalhos não avançavam por causa dos conflitos entre ele e os redatores. Ela própria havia sugerido a ele que me chamasse para uma conversa, dada a minha experiência no assunto. A história é bem mais longa e complexa, por isso fica para um outro capítulo. Mas posso adiantar que trabalhamos juntos por dois anos, com final feliz: também ele apreciou minha tradução dos sonetos shakesperianos e se propôs editá-los. Seu grande amigo, o advogado internacional Nehemias Gueiros, considerado o maior conhecedor da obra de Shakespeare entre nós, também se empolgara com a tradução e escreveria um erudito prefácio para ela.  Confessei ao editor que os sonetos só podiam sair com o prefácio de Antônio Houaiss, que já estava pronto e que eu tinha em mãos. Honestamente eu não sabia, na época, que havia um impasse entre Houaiss e Lacerda, e por alguns dias o assunto da edição esfriou.]

Meu compromisso funcional com Lacerda havia terminado em fins de 1972 quando o milagre aconteceu: vi no Jornal do Brasil o anúncio de que a revista Seleções do Reader´s Digest estava à procura de um editor para operar em… Portugal. Era a grande chance de voltar. E acabei voltando.

[A história completa está descrita aqui]. No ano seguinte, recebemos a visita do Dr. Carlos, que chegou trazendo em mãos um belíssimo coffee table book, de 30X40 cm, em papel Westprint 150g, com a minha tradução dos 24 Sonetos de Shakespeare, ilustrados por Isolda Hermes da Fonseca, com um definitivo estudo de Nehemias Gueiros sobre o mistério do soneto shakesperiano. E o sonhado prefácio de Antônio Houaiss, é claro.

De volta à Europa, passei cinco anos no Digest, onde enfrentei inclusive os problemas funcionais decorrentes da Revolução dos Cravos. Mas foi por tê-los enfrentando e resolvido satisfatoriamente que, em 1977, quando terminava a última prorrogação de minha licença no Banco do Brasil (e teria forçosamente de voltar para a Cacex),  recebi o convite do Gerente da Agência de Lisboa para retomar minha atividade bancária [Outra história que será contada mais à frente, devagar]. A agência estava enfrentando os mesmos problemas funcionais que eu havia equacionado no Digest, e ele achava que nesse ponto eu seria útil ao Banco que, afinal, era a minha Casa. E assim continuei em Lisboa, já então como Subgerente da agência local do Banco do Brasil.

Ao sair do Digest, recebi uma bela indenização com a qual consegui comprar um carro Mercedes Benz conversível, feito por encomenda e que fui buscar diretamente na fábrica em Stuttgart. Alémdisso, o salário do Banco me permitia alugar a ala de baixo do Palácio Fronteira, em Benfica, onde passamos a residir. Durante os anos que passei em Portugal, eu vinha periodicamente ao Brasil para rever os parentes e me pôr em dia com o que se passava no País, graças aos precisos relatos que me fazia Antônio Houaiss, em geral enquanto saboreávamos um robalo (ou uma cavaquinha) no restaurante Albamar, no antigo Mercado da Praça XV.  Em 1975, Ruy Castro, que viera comigo como Editor-assistente, resolveu regressar ao Brasil e à Manchete, onde trabalhava. O Digest me incumbiu, no ano seguinte, de vir ao Rio em busca de um substituto. Cheguei a sondar dois colegas do Banco, um da Cacex, outro do CCBB, mas vimos dificuldades no pedido de licença e na perda dos respectivos cargos, caso tivessem que regressar de improviso, o que não era improvável diante das reivindicações comunistas. Mas pude trazer para Lisboa o sobrinho de Antônio, Mauro Villar, cuja operosidade eu pudera comprovar quando trabalhamos juntos na Enciclopédia.

Nesse ano, encontrei Antônio Houaiss satisfeito com uma nova edição encadernada do Ulisses que tinha saído pelo Círculo do Livro, com a qual me presenteou apondo-lhe esta dedicatória que não podia ser mais encomiástica:

Minha felicidade se fez completa quando, meses depois, chegou a Lisboa o próprio Houaiss, acompanhado de seu inseparável amigo Abrão Koogan. Amizade surgida com a enciclopédia, os dois vinham todos os anos à Europa, mais precisamente a Paris, em outubro, para comemorar o aniversário de Antônio no restaurante Pharamond. Mauro Villar resolveu levá-los ao Palácio Fronteira onde os recebi para depois irmos jantar em Sintra. Sr. Abraão encantou-se com o Mercedes conversível, embora dissesse que não gostava da marca porque seus fabricantes ajudaram no extermínio de judeus durante a guerra. Tínhamos dois carros: o outro era um BMW que eu recebera como diretor do Digest. Antonio e Mauro seguiram nele, com Silvia, minha mulher, ao volante. E eu levei o Sr. Abraão que, sem maiores relutâncias, se aboletou na carona do conversível, que só dava para dois. Sorridente e descontraído, certamente nem se lembrava daqueles tempos do “Anote aí”.

CONTINUA (em breve, a 4ª e última destas Lembranças)

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O 2º andar estava vivendo aquela euforia que reinara na Editora quando foi invadida pela horda da Senhor. Mas, desta vez, longe da agitação nervosa das redações jornalísticas que vemos no cinema – com pessoas passando de um lado para o outro em frente às câmeras – o que se observava era um ordenado grupo de jovens à espera do momento de falar com Antônio Houaiss.

Graças à ação jurídica dos advogados Vítor Nunes Leal, Luiz Gonzaga Nascimento Silva e Evandro Lins e Silva as acusações contra ele (e três outros diplomatas) tinham sido julgadas improcedentes e o processo fora arquivado com a reintegração dos réus em seus respectivos cargos, embora tivessem que permanecer por algum tempo no Brasil (na condição de suspeitos), enquanto aguardavam novas designações para o Exterior. Houaiss acabou voltando como ministro de segunda classe à delegação permanente do Brasil junto à ONU em Nova York, onde ficaria de 1960 a 1964. Mas a ação que ali desenvolvera – até mesmo ao arrepio da posição oficial da diplomacia brasileira, em favor da descolonização dos países africanos e sua integração nas Nações Unidas – comprometeu seu nome na lista negra do movimento que em 1964 tomara à força o comando do País. Manu militari, sendo-lhe vedado desta vez o recurso jurídico, Antônio perdeu seu cargo diplomático, foi sumariamente cassado em seus direitos políticos e ficou reduzido a cidadão sem emprego.

De volta ao Brasil, encontrou apoio em vários amigos que não tiveram dificuldades em lhe arranjar meios de sustento compatíveis com sua alta inteligência e formação cultural. As portas do Correio da Manhã e da Revista da Civilização Brasileira estavam abertas à sua colaboração literária. O editor Ênio Silveira incumbiu-lhe a tradução do Ulisses, de Joyce, que ele faria no espaço de um ano (1966) sem querer prolongar o tempo remunerado que lhe era concedido. Já no ano seguinte apareceria com a também monumental obra Elementos de Bibliologia, em 2 volumes, considerada até hoje a mais completa referência do assunto. Agora, ali estava ele como redator-chefe do maior projeto gráfico jamais assumido por uma empresa brasileira, a feitura da Grande Enciclopédia Delta-Larousse, que iria abranger uma equipe de mais de 100 membros de editoração, entre datilógrafos, secretárias, controladores, padronizadores, tradutores, revisores, documentadores, indexadores, diagramadores, iconógrafos, redatores e co-editores, reunindo o que havia de mais atuante no mundo intelectual brasileiro da época. Aparentemente franzino, distinguindo-se pela proeminência do crânio, Houaiss entrevistava, escolhia e contratava aqueles cujos trabalhos e currículos lhe eram apresentados, enquanto trocava com os candidatos palavras de cordialidade e boas-vindas. Além de contar com um conselho consultivo de respeito, a obra fora dividida em seções (geografia, cinema, assuntos militares, belas-artes, assuntos domésticos, agricultura, medicina, química, história natural, heráldica, tecnologia, física, assuntos navais, direito, história, economia, música, literatura, teatro, antropologia, matemática), chefiadas por nomes da representatividade de um José Honório Rodrigues (história) e de um Otto Maria Carpeaux (literatura).

Todos os integrantes sabiam da seriedade e responsabilidade do empreendimento, pois antes do início dos trabalhos Houaiss havia redigido um robusto manual de instruções, especificando a função de cada um e os critérios que presidiam a tradução ou a redação dos verbetes. Segundo os mais íntimos, embora aquelas instruções já constituíssem, elas sós, uma obra de fôlego, sua execução não fora nada para Houaiss, que, quando no início de carreira no Itamaraty, conseguira coligir, classificar e uniformizar num Manual de Serviço os milhares de leis, portarias e ordens de serviços sobre o dia-a-dia daquela atividade, que se constituiria num verdadeiro vade-mécum para os diplomatas de todos os níveis.

Mauro de Salles Villar, sobrinho de Houaiss, era quem se incumbia de selecionar os tradutores e distribuir-lhes as matérias de acordo com a capacidade ou especialidade de cada um. Todo um contingente de jovens redatores, jornalistas, free-lancers estava no momento desempregado, pois as redações e empresas, temerosas com a Revolução, faziam verdadeiras limpezas em seus corpos funcionais para esvaziá-los de “esquerdistas”. Ocorrendo em massa ao saberem da Enciclopédia, esses profissionais sem funções logo inflacionaram o quadro de tradutores, e Mauro achava conveniente dispor de material em estoque para “alimentá-los” por um período razoável, enquanto arranjavam outros meios de subsistência. Não há vagas, parecia escrito em todas as paredes. Mas certamente Antônio teria algum trabalho para mim, reconsiderou Mauro, que iria se encarregar da trabalhosa seção de iconografia.

Generosamente, o Prof. Houaiss disse que já me conhecia do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil [Em 1957, enquanto aguardava o encerramento do processo que o afastara provisoriamente de suas funções diplomáticas, ele exercera a crítica literária exatamente quando da efervescência do movimento concreto, e participara do agitado debate com os concretistas em 10 de fevereiro daquele ano. O Jornal do Brasil era uma espécie de porta-voz carioca das atividades do grupo e é possível que Houaiss tenha visto minhas colaborações dessa época e até mesmo alguns de meus poemas concretos que saíam no jornal]. Paulo Francis (então incorporado à Enciclopédia como chefe da seção de Teatro) também fizera referências às minhas traduções para a revista Senhor e Ênio Silveira lhe falara do sucesso editorial de “Demian”, de Hermann Hesse, que saíra pela Civilização Brasileira, em 1965. e Houaiss conhecia inclusive os livros que eu fizera para a Coleção Nobel. Com tantas e tão abalizadas credenciais, senti que não me seria impossível um lugar na Enciclopédia.

A Larousse original fora retalhada em uma infinidade de verbetes, colados em fichas tamanho ofício para serem entregues aos tradutores. Sobre a mesa de trabalho, havia duas imensas pilhas de verbetes já traduzidos e passados por uma primeira revisão. Depois de ler, sem exceção, todos eles, Houaiss não raro tinha que reescrever uma boa parte, seja para lhes acrescentar um dado, corrigir um nome ou cortar alguma informação desnecessária ao leitor brasileiro. Um tipo de reescrita que ele já fazia necessariamente com os verbetes produzidos no Brasil, em geral bastante longos e que exigiam dele a chancela da padronização. No momento, estava pensando em criar um “funil de convergência”, que descarregasse em sua mesa os verbetes traduzidos e revistos, mas igualmente submetidos a uma última leitura crítica com autonomia de emendas. Isto poderia aliviá-lo um pouco para se dedicar mais demoradamente aos verbetes originais. Durante algum tempo – certamente mais de um ano – fui um desses “funis” e trabalhava na parte da manhã. À tarde, Zazi Corrêa da Costa se incumbia das mesmas funções. Zazi era altamente eficaz e, com satisfação, reconheço até hoje que o editor-chefe apreciava o nosso esforço conjunto.

Como Houaiss trabalhasse incansavelmente o dia inteiro, sempre estávamos em contato com ele, e ouvi-lo – sobre qualquer assunto – era um desfrute pelo qual tínhamos até vontade de pagar. Nosso convívio resultou numa proximidade que nos permitia falar ao Mestre também de nossos trabalhos pessoais. A tradução de um soneto de Shakespeare que lhe mostrei ensejou-lhe palavras de estímulo tão convictas e sinceras que me levaram a prometer-lhe, decidido, que continuaria a fazer outras mais. Éramos premiados com sua atenção especial e nos sentíamos enaltecidos quando alguns dos nossos “achados” eram transmitidos ao conhecimento do grupo.

 

Mas nosso Sternstunde aconteceu no dia em que ele convidou um pequeno grupo para almoçar em sua companhia. Na curta caminhada até o “Rio Minho”, na rua do Ouvidor, ouvíamos Houaiss discorrer sobre o preparo de comidas com o mesmo entusiasmo com que falava da origem e evolução das palavras. Minha sensação era a de estar na companhia de alguém que me levava para o Olimpo. Sentamos os quatro, e ele anunciou que iríamos comer um haddock – preparado por ele. Esclareceu que se tratava de um peixe defumado, que ele cozia na água de coco para amenizar os efeitos da fumigação. Já havia instruído o cozinheiro no preparo do petisco e iria à cozinha apenas para os retoques finais. À maneira do Mestre, eu diria que o ad hoc latino me era familiar mas pela primeira vez eu palatava o seu homófono. Saboreei-o, encantado com a souplesse com que Houaiss manejava o garfo com a mão esquerda. Meu deslumbramento era tal que penso ter bancado o idiota naquela ocasião com meu silêncio persistente…

Houve outros momentos estelares e talvez o maior deles, já beirando o milagre, vou relatar em seguida:

Apesar de minha devoção enciclopédica, eu não me descurara da carreira bancária, que – oportunamente – merece um capítulo à parte. De simples escriturário letra A em 1954, quando entrei no Banco, eu havia passado a assistente do administrador do Edifício da Agência Centro (hoje o CCBB) – cargo em comissão – e dali atingido o ideal de todos nós funcionários, que era o de trabalhar na Direção Geral (que reunia as Carteiras de Câmbio, de Redescontos, etc), usufruindo as regalias de um gabinete com direito a contínuo e cafezinho. Fui trabalhar na Cacex (Carteira de Comércio Exterior), onde acabei me especializando em café e cacau, e na qualidade de representante do Banco, participei de várias reuniões no Exterior (Londres, Gana, Costa do Marfim, Togo, etc.). Essa representatividade me punha em contato com diplomatas de vários níveis (embaixadores, ministros, secretários), com alguns dos quais fiz amizade. O Itamaraty e a Cacex trabalhavam em conjunto no incentivo de nossas exportações e acabaram por assinar um convênio em que o Banco cedia alguns funcionários para trabalhar diretamente junto às embaixadas no Exterior. Fui um dos escolhidos e passei a frequentar um curso de adequação no então Ministério (da Rua Larga), enquanto aguardava a designação oficial. Mas quando ela veio, afinal, foi um desastre. No ofício dirigindo ao Banco solicitando a cessão dos funcionários, o meu nome apareceu como Ivo Barroso (pois eu era assim conhecido) e não Ivo do Nascimento Barroso, como eu existia no civil. Resultado: o Banco cedeu os funcionários menos o Ivo Barroso (que alegaram não ser do quadro) e enviaram o ofício para o então criado Banco Central, onde havia, de fato, um Ivo Barroso, altamente comissionado na Inspetoria de Bancos. O xará ficou surpreso (mas altamente envaidecido) com a indicação, atribuindo-a ao fato de que em certa vez fornecera àquele Ministério informações sobre as atividades de seu departamento.

Que fazer? Contei o ocorrido a Houaiss, que conhecia os meandros da Casa. “Um caso complicado, meu dileto. O Itamaraty não vai admitir que errou, logo seu xará vai acabar indo em seu lugar”. Mas…

Por sorte, a outra “convergente”, Zazi Correa da Costa – disse-me Houaiss – era filha do Sérgio Correa da Costa, então Secretário Geral do Itamaraty.”Quem sabe ele poderá arranjar uma solução”. Zazi teve a gentileza de me levar um dia à sua casa e pude expor meu problema ao pai dela. Ele também via um nó górdio na situação, mas que eu procurasse seu chefe de gabinete, o então primeiro secretário Alberto da Costa e Silva, que ele talvez pudesse sugerir alguma coisa. Alegrei-me: Alberto era poeta, escrevia nos jornais como eu; além disso fora meu professor de literatura quando, numa segunda tentativa, andei frequentando outro cursinho (então acessível) para o Itamaraty. Alberto achou por fim a solução: de fato, o Itamaraty não iria admitir o erro mas o Ivo Barroso tout court “poderia” abdicar em favor do Nascimento.

Parece que o próprio xará se deu conta do engano e, numa entrevista no Gabinete do Ministro, disse que não estava em condições, no momento, de residir no Exterior. E foi assim que embarquei para a Holanda em 1968 para ficar um ano como Adido Comercial junto à Embaixada do Brasil na Haia (Den Haag). Minha alegria se ofuscava apenas pela tristeza de deixar a companhia de alguém que me erguera ad astra e ir-me embora sem ver a conclusão da obra.

TOT ZIENS                    CONTINUA

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