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Archive for setembro \26\UTC 2016

TRADUZIDO POR IVO BARROSO

POETS TO COME! POETAS DE AMANHÃ!

waltman

Poets to come! orators, singers, musicians to come!
Not to-day is to justify me and answer what I am for,
But you, a new brood, native, athletic, continental, greater than
before known,
Arouse! for you must justify me.

I myself but write one or two indicative words for the future,
I but advance a moment only to wheel and hurry back in the darkness.

I am a man who, sauntering along without fully stopping, turns a
casual look upon you and then averts his face,
Leaving it to you to prove and define it,
Expecting the main things from you.

  

Poetas de amanhã! oradores, cantores, músicos que virão!

Hoje não estou aqui para justificar-me e nem dizer a que vim,

Mas vocês, uma nova estirpe, nativa, atlética, continental, maior de todas

as que vieram antes,

Devem se erguer para me justificar.

Apenas escrevi uma ou duas palavras indicativas do futuro,

Apenas avancei por um momento ao leme e voltei correndo para a sombra.

Sou um homem que, perambulando por aí sem me deter, dirige

um olhar casual para vocês e vira o rosto,

Deixando para vocês a prova e a definição,

À espera dos grandes feitos de vocês.

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01

quinze-poemas

Apresentação

Quando, em 2003, saiu pela Nova Fronteira a Correspondência de João Guimarães Rosa com seu tradutor alemão Curt Meyer-Clason, minha admiração pelo trabalho desse gênio de Munique adquiriu o status de deferência máxima. Acostumado, havia muito, a lidar com a exaustiva arte de transpor um texto estrangeiro para a nossa língua, ficava imaginando o quanto de sabedoria e esforço eram necessários para enfrentar o cipoal da escritura roseana, tão árduo de se ler e entender mesmo no idioma original. Eu, que nem sequer conseguira encarar todo o Grande Sertão pelas dificuldades do estilo de Rosa, de uma novidade gritante — em que abusava de neologismos, palavras inventadas, coloquialismos tirados da manga do colete — assumia por instantes a posição do mago teutônico tentando decifrar aquele lio para finalmente encontrar os vocábulos e frases correspondentes em sua língua, mantendo as peculiaridades do estilo original…

 Como gostaria de manifestar ao Mestre a minha insignificante mas sincera admiração! A oportunidade surgiu com a leitura da correspondência, onde, na epígrafe das cartas de Clason aparecia de maneira clara seu endereço postal. Rompi a timidez e escrevi ao Mestre, juntando meu livro de poemas A Caça Virtual como tributo de minha admiração. Minha alegria não teve limites quando, algum tempo depois, recebi uma carta-resposta de CM-C e, pouco mais tarde, a “glória” de ter alguns de meus poemas traduzidos por ele. Mais tarde, chegou ele mesmo a traduzir um longo conto meu “Roteiro Turístico” e publicá-lo numa revista alemã. Guardei os poemas e as cartas com veneração numa caixinha especial e, agora que o Mestre já se foi, vi-me na obrigação de preservar os tesouros que tão benignamente me concedeu.

[Ivo Barroso]

      2016

Este seria mais um post da série VIENT DE PARAÎTRE se se tratasse de livro prestes a ser lançado nas livrarias. Mas, na verdade, vem a ser uma edição fora do comércio, produzida pelo prestimoso e prestigiado editor paulista, Cláudio Giordano, que transformou em belo volume o que se pretendia apenas mais uma das plaquetes feitas para presentear os amigos. A preciosidade do material aqui reunido justifica plenamente a edição mesmo particular.

Sobre a genialidade do tradutor alemão Kurt-Meyer Clason, falecido em 2012 aos 101 anos, o leitor desta Gaveta poderá encontrar aqui uma notícia e duas de suas versões de meus poemas aqui e aqui, além do conto “Roteiro Turístico”, que ele também traduziu aqui. Vertendo para o alemão  vários livros de autores brasileiros e portugueses, inclusive as obras de Guimarães Rosa, Kurt Clason tornou-se a verdadeira ponte linguística capaz de  transportar  nossa literatura para o reino precioso de Goethe e de Rilke.

Como se trata de uma edição particular, fora do comércio, não encontrável nas livrarias, se o leitor estiver realmente interessado (principalmente na correspondência trocada), pode deixar aqui seu endereço postal que terei o prazer de lhe mandar um exemplar.

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POKÉMON X BEDENGÓ

bedengo

 

MEUS EVENTUAIS LEITORES certamente estariam esperando alguma novidade nesta volta das “férias”; algo assim como a caça ao Pokémon, mas vão acabar se deparando aqui – pasmem! –  com uma pesquisa literária arqueológica, equivalente a uma visita extemporânea ao Bedengó.  [ Há de ser mesmo possível que nunca tenham ouvido falar nesse tal de Bedengó. Esclareço: trata-se do meteorito brasileiro encontrado em 1784 nas margens do riacho Bedengó, em pleno sertão baiano, pelo menino Bernardino da Mota Monteiro. A retirada do pedregulho (que pesa 5.360 quilos) de seu sítio original e seu translado para o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, onde se encontra hoje, é uma história que vale a pena ser conhecida tendo em vista seus lances aventureiros. Não vou contá-la aqui, pois temos velharias demais pela frente, mas aconselho os leitores a pesquisá-la no Google, pois é muito interessante].

Mas voltemos à volta.  Encontrei ao acaso na estante um pálido exemplar de “A Ceia dos Cardeais” (48ª edição, 239 a 242 milhares, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1962), velharia digna de museu, merecidamente esquecida pelos leitores atuais.  Trata-se da peça teatral em versos, em apenas um ato, escrita para três atores e encenada em Portugal em 1902, cuja cena se passa em Roma, durante o pontificado de Bento XIV (séc. XVIII): numa sala de jantar do Vaticano, três cardeais (um português, um espanhol e um francês) conversam enquanto ceiam, as falas se transformando em longos monólogos, interrompidos aqui e ali por alguma frase de apoio ou de louvor.  O autor da peça era o então famosíssimo poligrafo português Júlio Dantas (1876-1962), que além de poeta, escritor, crítico literário e médico de renome circulava também como diplomata, tendo sido inclusive embaixador no Brasil em 1949. A fama de Dantas era tal que uma palavra sua consagrava definitivamente um autor, como foi aliás o caso do nosso Menotti del Picchia, cujo poema “Juca Mulato”, uma vez prefaciado por Dantas, tornou-se de imediato uma inquestionável obra-prima da poesia brasileira. (O tempo altera em muito nossa visão das coisas, mas confesso que, em  jovem, sempre  achei o  livro admirável, e sabia de cor muitos de seus belos poemas). Como sempre acontece, a auréola do sucesso de Dantas desencadeou contra ele uma onda de protestos vinda dos intelectuais da revista Orfeu (Pessoa & Cia.), culminando no chamado “Manifesto Anti-Dantas”, assinado pelo poeta José de Almada Negreiros. A reação deveu-se ao sucesso de uma peça teatral de Dantas, “Sóror Maria Alcoforado”, que havia estreado com enorme sucesso em 1915. O manifesto acusava Dantas de representante-mor da mediocridade portuguesa, um balão vazio para quem tudo eram aplausos e favores, enquanto os “verdadeiros intelectuais” da revista Orfeu, símbolo do que havia de mais avançado no país, sofriam as maiores dificuldades para publicar seus escritos e defender suas ideias.

clero

Mas deixemos a tertúlia de lado e vamos ao jantar dos cardeais. Depois de algumas frases sobre suas respectivas funções (em belos versos alexandrinos), talvez alvorotados pelo vinho do Reno e o xerez servidos com o faisão, os três resolvem se entregar a confidências sobre o momento sentimental de suas vidas. O primeiro a falar é Rufo (o cardeal espanhol), meio quixotesco e loquaz, que conta as aventuras do tempo em que era espadachim galante:

 

 

Nem pode calcular sequer, Vossa Eminência,

Como o meu buço loiro irradiava insolência!

Não matei em duelo o Sol, pelas alturas,

Só para não deixar Salamanca às escuras!

 

Apaixonando-se por uma artista ambulante, ouve um grupo de rapazes dizer que pretendem raptá-la após o espetáculo. Rufo toma as dores da atriz e duela contra trinta ou quarenta estudantes, enquanto a cômica escapa em sua “cadeirinha”.

 

Não. Nunca mais a vi.

Foi por isso que a amei – porque não a possuí.

 

O cardeal francês, de Montmorency, atalha dizendo que, em seu caso, teria seguido a cadeirinha e

 

E ao atingi-la, então, curvaria o joelho,

Tiraria o chapéu em grande estilo velho,

E prostrando-me junto à portinha doirada,

De corpo ajoelhado e de alma ajoelhada,

Diria. num olhar cheio de sonhos loucos:

“Senhora, perdoai bater-me…com tão poucos!”

 

Os dois passam a disputar sobre a excelência do amor considerado entre a ação imediata e o longo processo verbal da conquista, quando de repente reparam o ar pensativo de Gonzaga, o cardeal português, e lhe perguntam:

Em que pensa, Cardeal?

E Gonzaga:

Em como é diferente o amor em Portugal!

Nem a frase sutil, nem o duelo sangrento…

É o amor coração, é o amor sentimento.

 

E conta que, em seus dias de rapazito, amou uma priminha com quem pretendia casar-se:

 

Era feia, talvez, mas Deus achou-a linda…

E, numa noite, a minha alma, a minha luz morreu!

Deus, se ma quis tirar, por que foi que ma deu?

………………………………………………………………………….

Afinal,

Foi esse anjo, ao morrer, que me fez cardeal.

 

E os dois concluem em uníssono:

Foi ele, de nós três, o único que amou.

(CAI O PANO, LENTAMENTE)

Piegas, simplório, sentimentalóide, não? dirá o leitor de hoje, a quem estou revelando essas arqueologias literárias. Mas o público da época não só consagrou a peça editada mas igualmente sua representação, traduzida e encenada em toda a Europa e no Brasil. Recordo-me de ter assistido aqui a uma performance, lá pelos anos ’50, com Procópio Ferreira, Paulo Gracindo e Sérgio Cardoso nos papéis, sucesso de imediato levado à televisão.

ceia 

Mas há quem se divertiu ainda mais com ela. Manuel Bastos Tigre (1882-1957) era uma espécie de êmulo de Júlio Dantas no Brasil: jornalista, poeta, compositor, teatrólogo, publicitário, humorista, além de engenheiro e bibliotecário, assinava suas críticas mordazes com o pseudônimo de D. Xiquote, com o qual escreveu uma paródia da peça, em versos, denominando-a muito brasileiramente de “A Ceia dos Coronéis”. [As paródias são feitas em geral “em cima” de obra literária, conhecida, e imitando, com intenção burlesca ou satírica, a estrutura e o estilo do original]. Bastos Tigre põe em cena três coronéis, ou seja, no linguajar da época (anos ’20), três grandes chefes políticos de currais eleitorais (Rio, São Paulo e Nordeste). Esses figurões autoritários costumavam ter “casas montadas” (amantes) no Rio de Janeiro, que era então o centro do poder executivo. Conhecidos pela fartura com que tratavam seus eleitores, deram azo à expressão “bancar o coronel”, que servia para designar o figurão escandalosamente explorado pelos seus apaniguados (principalmente as amantes), sem com isso reclamar. Os “coronéis” de Bastos Tigre chamam-se Gonzaga, Rufino e Moreira, e foram interpretados na prèmiere de 1925 pelos atores Átila de Morais, Jaime Costa e Procópio Ferreira. Os três estão encarando, à moda da casa, um suculento leitão regado a pinga, falam sobre política, mas acabam sucumbindo às confidências sentimentais. Moreira conta seus amores com uma falsa francesa que dele exige cascatas de champanhe e caviar, sem nada dar em troca. Rufino refuta que, com ele, a coisa seria diferente e conta a sua história que acaba sendo igualmente uma exploração da pretendida “vítima”. Eis que notam a perplexidade de Gonzaga e lhe perguntam em que está pensando. E ele

 

Em como é diferente o amor em Cascadura!

Nem gigolô de luxo e nem briga, ou distúrbios…

Ai, como sabe amar a gente dos subúrbios!

 

Gonzaga, ao contar sua história, revela ter conhecido um casal e, cobiçando apossar-se da mulher, arranja para o marido dela um emprego… na Bahia. Monta-lhe uma casa no subúrbio, mas de repente o chalé fica atulhado com a parentela da moça, culminando com o retorno do marido, que “não se dera bem com o clima da Bahia”. Perguntado em como terminou a história, Gonzaga confessa que até hoje aquela gente toda vive à sua custa. No que os amigos concordam:

De certo! O “coronel” completo e comm’ il faut,

Ele foi, de nós três, o que melhor bancou!

 

(PANO)

 

Aí está, leitor,  a velharia que lhe quis trazer, um meteorito literário duramente arrastado para estas páginas. Você sabe agora de que se trata. Fica dispensado da leitura, mas garanto-lhe que nada perderá se a fizer: os versos de Dantas são bonitos, os de Bastos Tigre, engraçados. Será como uma visita ao museu da Quinta para ver o Bedengó.

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Chaminé

NESTES NOSSOS TEMPOS DE PROTESTO,
PROTESTEMOS CONTRA TODOS OS MUROS
OS MUROS DO PASSADO:
– A MURALHA DA CHINA
– O MURO DE BERLIM
E OS DO PRESENTE/FUTURO
– O MURO DE TRUMP
– O MURO DE CALAIS

E TAMBÉM CONTRA ESSE MURO METAFÍSICO
– O ISOLACIONISMO –
QUE ESTAMOS CONSTRUINDO EM TORNO DE NÓS MESMOS.

O MURO
Este muro começa
de cima para baixo;
a prumada mais alta
é o seu encaixe.

seu limite na altura
é o seu alicerce;
é ali que a sua
argamassa enrijece.

é ali que mais densa
sua base se apoia
e não nesse outro extremo
que na terra sobra.

seus tijolos vão
à medida que sobem
se tornando pedra
paredão mais sólido.

de modo que o muro
a quem assim o toma
parece visto ao revés
num óculo de câmara.

e esse mato adusto
que nas frestas cresce
tende para o sol oculto
que se adentra na terra.

nele o tempo cessa
seu ciclo de estragos
e reveste de cal
sua escama de pátina.

e se mais de perto
o muro observamos
veremos que se enverga
qual se arredondasse,

como se a defesa
fosse mais de torre
e não esse anteparo
contra o que é de fora.

de tal modo inverte-se
sua força autônoma
que em vez de proteger-nos
aprisiona.

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