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Archive for the ‘Poemas’ Category

A FÁBULA DO GALO

Acontece, entretanto, que o meu galo
não fazia a manhã nascer do canto.
Sabia muito bem que
se cantasse
ou se deixasse de cantar
— o dia
rompendo as cercas do quintal
viria empoçar-se em seus olhos de suspeita. 

 

(Cantava apenas para ser concorde.:.)

 

Em  meio à noite, vinha-lhe de dentro
a sensação do amanhecer:
a crista
ensandecia de rumor do sangue;
as penas eriçavam-se no cio da soberba
e os olhos acompanhavam no frêmito da espera
o dia romper a casca da manhã,
finíssima.

Era quando lhe vinha da garganta
aquele anseio de ajudar o dia
e, na sofreguidão que o exasperava

— sabendo embora que cantasse
ou que deixasse de cantar —
cantava,
cantava todo trêmulo, intranquilo,
lançando o canto nos quintais da véspera
e ficava esperando pressuroso
o sol nascer das notas de seu canto.

 

O POÇO

Da borda ao bojo
do poço o balde
num baque oco
salta em
————
drado.
Baixa em balouço
busca a profunda
fonte fechada.
Grito de cacos
gotas de espelho
raios de escama
golpes de gelo.
Garganta larga
no escuro gole.
Peso nos olhos
tombo no peito.
Tão satisfeito
grave de encanto
tonto de espanto
pende pesado
lento rotundo
deita no fundo
a
fogado.

Rija
a corda acorda
arde dardo dura dança
iça
e começa
a lida de erguê-lo
a ele odre
a ele bambo
a ele bêbedo.
Bate nas
bor —–das
brotam
bor bu lhas.
Ao peso pende
arreda a roda
retorna a ronda.

Chega (cego) à clara
borda à clara
bóia
onde bóia claro.
E cai de cara
contra o jarro
e jorra a água
de um só jato.
E já de borco
debruçado à borda
vago vazio
va ga ro so
——v
o
l
t
a

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ÚLTIMA PÁGINA

Alguns leitores reclamaram não ter eu incluído na Antologia Poética da Gaveta o poeta X ou o poema Y. Esclareço que essa coletânea de poemas aqui transcrita não obedeceu a nenhum critério seletivo nem muito menos didático. Quis dar apenas aos leitores a imagem do que era uma das distrações culturais de meu tempo e copiei os poemas de um álbum em que se pretendia registrar somente versos “de primeira linha”. O conjunto está longe de representar uma mostra do que seja o panorama ou qualquer fase da poesia brasileira, e as omissões e lacunas são tantas que tornam sem efeito qualquer possível reclamação. Estão ausentes nomes importantes como os de Álvares de Azevedo, Gonçalves Dias, Castro Alves; há um silêncio total sobre os nossos simbolistas geniais, como Alphonsus de Guimarães; omitiu-se o gigante Augusto dos Anjos e não se chegou aos poetas modernos, de grande, de enorme importância. Cito estes nomes ao acaso para que o leitor procure, de per si, conhecê-los, sem o que este seu passeio pela literatura brasileira seria a mera passagem por um túnel. Temos um projeto em progresso, que é a Antologia de Poetas Regionais, que pretendemos lançar logo após a volta das férias. Mas prometo a mim mesmo que farei, vez por outra, pequenos ensaios sobre grandes poetas brasileiros, sempre no intuito e esperança de incentivar nossos leitores a conhecê-los melhor.

Encerramos esta nota com um achado: na última página do álbum, com letra bem diferente da nossa, encontramos um soneto, Saudade, e logo nos lembramos de como ele foi aparecer ali. Um tio nosso, que partilhava de nossas leituras e anseios poéticos, tinha especial predileção por esse soneto e nos pediu algumas vezes para incluí-lo no álbum. Argumentávamos sempre que os nossos poemas eram todos de amor, de ternura, de felicidade ou desengano e que o seu pretendido falava apenas da lembrança de sua terra natal; sobre o tema já tínhamos o Berço, de B. Lopes, incluído, aliás, após certa relutância. Agora, ao reler este Saudade, reconheço as qualidades poéticas do trabalho, uma joia de realização singela, na métrica sonora, nas rimas inocentes, na naturalidade das frases, e, de repente, aquela invocação insólita que se tornou proverbial: um must! E ele aí vai:

SAUDADE – Da Costa e Silva (1885-1950) – poeta piauiense (25)

Resultado de imagem para Da Costa e Silva

Saudade! Olhar de minha mãe rezando,
E o pranto lento deslizando em fio…
Saudade! Amor da minha terra… O rio
Cantigas de águas claras soluçando.

Noites de junho… O caburé com frio,
Ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando…
E, ao vento, as folhas lívidas cantando
A saudade imortal de um sol de estio.

Saudade! Asa de dor do Pensamento!
Gemidos vãos de canaviais ao vento…
As mortalhas de névoa sobre a serra…

Saudade! O Parnaíba – velho monge
As barbas brancas alongando… E, ao longe,
O mugido dos bois da minha terra…

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CORPUS CHRISTI

 

Ó divino banquete onde foi dada
Toda a glória do Céu por iguaria,
Nunca aparteis desta alma o santo dia
Da morte de meu Deus por mim causada.

Pagando em Cruz o amor, sem dever nada,
Tudo lhe pareceu que nos devia,
No tempo em que de nós se despedia,
Ir-se e ficar numa hóstia consagrada.

Finos toques de amor, raros extremos,
Se os anjos não vos podem entender,
Os que somos humanos que faremos?

Contento-me, Senhor, basta-me crer
Que nessa hóstia sagrada, onde vos vemos,
Mais nem menos no Céu não podeis ser.

 

Fr. MARTIM DE CASTRO DO RIO — (c. 1548-1613)

Poeta dito “minor”, português, do século XVI, sem dados  biográficos


LEIA MAIS SOBRE CORPUS CHRISTI E EUCARISTIA (aqui)


ANTOLOGIA POÉTICA DA GAVETA – A série voltará em junho com os nomes finais (mais oito) na série “de primeira linha” e outros tantos dos chamados “esdrúxulos”. Depois disso, pretendemos fazer uma outra denominada “Grandes Poetas do Brasil”, com informações mais extensas sobre os biografados e uma seleção mais ampla de seus poemas comentados.

Como já ocorrido, a Gaveta completará aniversário (o 8º) em 25 de julho, entrando em seguida em recesso até setembro, isto quer dizer que vamos ter ainda sete postagens semanais até lá.

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Chaminé

NESTES NOSSOS TEMPOS DE PROTESTO,
PROTESTEMOS CONTRA TODOS OS MUROS
OS MUROS DO PASSADO:
– A MURALHA DA CHINA
– O MURO DE BERLIM
E OS DO PRESENTE/FUTURO
– O MURO DE TRUMP
– O MURO DE CALAIS

E TAMBÉM CONTRA ESSE MURO METAFÍSICO
– O ISOLACIONISMO –
QUE ESTAMOS CONSTRUINDO EM TORNO DE NÓS MESMOS.

O MURO
Este muro começa
de cima para baixo;
a prumada mais alta
é o seu encaixe.

seu limite na altura
é o seu alicerce;
é ali que a sua
argamassa enrijece.

é ali que mais densa
sua base se apoia
e não nesse outro extremo
que na terra sobra.

seus tijolos vão
à medida que sobem
se tornando pedra
paredão mais sólido.

de modo que o muro
a quem assim o toma
parece visto ao revés
num óculo de câmara.

e esse mato adusto
que nas frestas cresce
tende para o sol oculto
que se adentra na terra.

nele o tempo cessa
seu ciclo de estragos
e reveste de cal
sua escama de pátina.

e se mais de perto
o muro observamos
veremos que se enverga
qual se arredondasse,

como se a defesa
fosse mais de torre
e não esse anteparo
contra o que é de fora.

de tal modo inverte-se
sua força autônoma
que em vez de proteger-nos
aprisiona.

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