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Archive for abril \25\UTC 2011

Uma preocupação vem me assaltando ultimamente: que será de meus livros?  quem ficará com eles? Serão vendidos a peso, doados a uma instituição de caridade, conservados por algum parente que goste de leitura?

Escrevo num quarto calafetado de livros: pelas quatro paredes, eles vão do rodapé ao teto e se espalham ainda pela cimeira da porta. Dispostos nas estantes sem nenhum critério, às vezes tenho dificuldade de encontrar algum, mas posso dizer que conheço a maioria pela lombada, sou capaz de “sentir” a presença de um deles mesmo quando espremido nas prateleiras mais altas. Já sonhei uma vez que as estantes se desmoronaram sobre mim, soterrando-me nos livros, por isto não ouso “pescar” nenhum do alto, puxando-o pela lombada. Há alguns que estão comigo há mais de cinco décadas, tenho certamente outros ainda mais antigos. Quantas lembranças me trazem quando reencontro um desses velhos companheiros e o tomo nas mãos para abri-lo ao acaso: este foi Fulano que me deu, aquele outro ganhei num concurso, o Casimiro tem uma dedicatória de meu pai, simples, direta, “Ao Ivo Salve  25-12-44 Oferenda s/ pae, Ormindo”, presente de aniversário dos meus 15 anos! Amo-os, é claro, como se fossem filhos de papel, os filhos de sangue que não tive. Recentemente um jornal de São Paulo me pediu um poema de Natal e escrevi:

PAPAI, NOEL

Pelo Natal eu só ganhava livros

Eu pedia carrinhos de brinquedo

e ele me dava livros no Natal

Durante o ano eu lhe pedia livros

que ele me dava mesmo sem pedir

Anos sem que eu pudesse reverter

o sentido do dar e receber

Eu sonhava lhe dar uma alegria

algo de mim que o fosse contentar

Ele sonhava que eu gerasse um filho

e nem meus livros eu lhe pude dar.

Eu quis dizer, neste verso final, que não cheguei a dar a meu pai a alegria de ver publicados os meus próprios livros, pois ele morreu antes que  a Caça Virtual e meus outros opúsculos viessem a lume. Mas sabia das minhas traduções e ficava feliz quando via meu nome nos jornais.

Outra dedicatória, ainda mais sucinta, e dessa mesma data, dizia: “Do Pedro, ao Ivo. Rio, 25/12/44”. O ofertante, no caso, era meu tio materno, Pedro Pimentel, que morou por uns tempos em nossa casa na rua Pontes Correa. Autodidata, escrevia num português correto, estribado em duas ou três gramáticas e dicionários que integravam sua pequena biblioteca pessoal. Era funcionário graduado do Lloyd Brasileiro e redigia longos relatórios sobre as viagens de inspeção que fazia pelos portos do país. Numa delas, a mais demorada, voltou noivo de uma cearense, e como devia em seguida fazer outra viagem, dessa vez para o Sul do Brasil, pediu à minha mãe que fosse a Fortaleza “resgatar” a noiva. Acompanhei minha mãe nessa viagem e acabamos nos casando (por procuração) com a moça que trouxemos conosco, depois de uma cerimônia privada, certamente para satisfação da família cearense que não podia vir ao Rio. Nos tempos de solteiro que passou conosco, foi meu grande inspirador e roommate (adoro esta palavra), sabatinando-me com frequência sobre questões de português, ortografia, colocação de pronomes, significado de palavras, etc. Era poeta, compunha sonetos bem rimados e metrificados, e foi com ele que aprendi métrica, a escandir versos e a gostar realmente de poesia. Tínhamos um caderno-álbum em que transcrevíamos os poemas que julgávamos “de primeira classe”, e certa vez me censurou por eu haver acolhido uns versos que ele considerava “inferiores”. Agastado com a restrição ao meu gosto literário, arranquei num rompante a folha do álbum, entreguei-o a ele e nunca mais falamos no assunto. Eu o admirava profundamente pela aura de suas viagens, pelas histórias que contava de sua experiência marítima; tinha sido oficial da marinha mercante e conhecera vários portos estrangeiros. Em Nova York visitou a Coney Island e almoçou no famoso restaurante do Jack Dempsey. Garantia, para mim incrédulo em meu incipiente inglês, que os americanos diziam “uóra” em vez de “water”. Vestia ternos de linho Taylor 120 e tinha sapatos feitos sob medida, que guardava em alvas sacolas de flanela; havia um par que me fascinava, de duas cores, marrom e branco,  cuja imponência era acentuada pela robustez do solado. Aos sábados entregava-se a uma longa rotina dedicada aos cuidados corporais: cortava as unhas, passava-lhes talco e as friccionava com uma escova própria, de camurça, que ele guardava num estojo certamente adquirido no exterior, no qual havia ainda uma tesourinha pontuda que servia para aparar as cerdas nasais e um minúsculo pincel com que enegrecia o bigode. Engraxava os sapatos e se preparava para sair à noite, quando ia “furar cartão” (dançar) nas boates da avenida Rio Branco. Era a única ocasião em que não o acompanhávamos, pois costumávamos passear juntos na baratinha descapotável que ele havia adquirido e na qual só carregava duas pessoas de cada vez, para não afetar as molas de suspensão. Nós, mais novos, ficávamos siderados quando ele e minha mãe se punham a lembrar fatos de sua juventude no Herval. “Cedinha, você lembra quando o Ti´Tatão, etc” e ela retrucava com outro caso desse tempo, e ambos diziam: “Lá se vão uns trinta anos!” Meus irmãos se entreolhavam, impossível alguém se lembrar do que havia acontecido a trinta anos passados. Ele e eu trocávamos impressões de leitura e costumávamos declamar juntos algum longo poema, o livro revezando em nossas mãos. De tanto lermos os “Poemas” de Menotti del Picchia, já sabíamos de cor quase todo o “Juca Mulato” e “O beijo de Arlequim”. Um dia, fizemos um desafio mútuo: ver quem escrevia o melhor soneto sobre “Vida”. Passados uns dias, depois do jantar, ele tirou do bolso um papel e leu sua composição que falava de nascimento, infância, juventude, maturidade e morte. Dei um sorriso sardônico, com ares de quem já estava saboreando as batatas da vitória. E declamei o meu bestialógico, onde as presenças de Augusto dos Anjos e de Raul de Leoni eram mais que flagrantes, atropeladas por imprecisas noções de biologia:

A vida é o resultante grau da orgânica

Evolução da célula. É energia

Que mais se apura, dia para dia,

Desde os tempos remotos da Era Oceânica.

É movimento, é força que se cria;

De potencial transforma-se em dinâmica.

Evolveu-se da Micro à Pterodâmica

Espécie em fecunda embriogenia.

(etc)

Meu tio conseguiu disfarçar sua perplexidade diante daquele despautério. Pegou o papel, leu-o com atenção, elogiou o emprego de “evolver” em lugar de “evoluir”, que o Cândido de Figueiredo (em quem costumava estribar-se para a elucidação de dúvidas gramaticais) considerava um galicismo. Sem dizer o que achava, falou que tinha uma dúvida: Não seria pterodáctila em vez de pterodâmica? Finquei pé no pterodâmica, sem o que lá se iria embora a minha rima rica (achava eu, rara e riquíssima).  O Lello Universal Ilustrado de sua estante particular não me abonava o termo, nem sequer trazia o pterodáctilo proposto. Meu professor de biologia é quem resolveria o caso. No dia seguinte, fui à aula (noturna, que eu costumava matar) e submeti meu mostrengo ao professor, a quem já havia mostrado outros escritos meus. “Do ponto de vista científico, não faz sentido; é confuso e incongruente. Mas os versos são bons e você deve insistir. Na sua idade, seria melhor escrever poemas de amor”.  Confessei ao tio o meu fracasso científico e minha vitória poética. Ele me incentivou dizendo que de fato eu seria um grande poeta. Ele, o meu guia, acreditava em mim, achava que eu podia caminhar sozinho. Fiquei determinado a não decepcioná-lo no futuro. Quando nos deixou para montar a própria casa, praticamente na mesma rua, senti um vazio indescritível: lá se foram as gramáticas, os sapatos ensacados, as tesourinhas de unha, além do encantamento mútuo com a leitura de nossas produções. Lá se fora o amigo, o companheiro, o roommate,  meu ídolo,  meu mestre. Ali tão perto e já tão distante, como se entre nós o tempo tivesse colocado uma barreira intransponível.

Vejam: abre-se um livro e de sua dedicatória, amarelecida e quase desfeita pela idade, surgem tantas lembranças, flashes-back de uma vida, viagem de regresso ao tempo nunca perdido da juventude. Então, digam-me lá: o que fazer dos meus livros já que me pesa tanto ter que deixá-los  sem destino,  sem definição? Estive pensando em várias soluções. Durante mais de trinta anos andei colecionando livros relativos a Rimbaud e à sua obra: edições integrais, biografias, ensaios, dicionários, revistas especializadas, etc. No fim do ano passado, quando editei o terceiro e último volume de minha tradução de sua obra completa, percebi que estava diante de um acervo bastante expressivo, não só quanto ao valor artístico mas igualmente quanto ao material, pois nele se incluem algumas obras raras, primeiras edições, livros fac-similados, etc. Depois de considerar cumprida a incumbência a que me autodeterminei de colocar ao alcance do leitor brasileiro tudo o que o gênio de Charleville havia escrito, a visão diária desses 120 volumes à minha frente na estante acaba sendo um pequeno suplício, pois me faz lembrar cada um dos momentos em que estive em combate ferrado com o Anjo. Resolvi, pois, doá-los a Biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil, onde eles poderiam continuar formando uma coleção especializada, e também ao alcance de minha vista em caso de me bater uma (inexplicável) saudade repentina.

Excelente ideia. Mas, e os outros? Que destino darei, por exemplo, àquele magnífico “Les Fleurs du Mal” da coleção Pastels, ilustrado por Jacques Roubille, Éditions du Panthéon, do qual só foram impressos 500 exemplares “sur pur fil Johannot” (o meu é o nº 318), em MCMXLVI, hoje considerado obra rara e fora do comércio? Comprei-o com o meu primeiro salário, na livraria francesa que havia no térreo da Faculdade de Filosofia, onde eu cursava Línguas Neolatinas, ali onde é hoje a Maison de France. Preciosidade que eu guardava numa caixa de charutos e em cujas páginas comecei a acumular algumas notas graúdas, talvez para novas e temerárias aquisições.

Assim como ocorreu em relação a Rimbaud, também quando organizei em 1995 para a Nova Aguilar o volume ”Poesia e Prosa”, de Charles Baudelaire, acabei formando uma coleção com as dezenas de livros que tive de ler para selecionar o material existente em português, além de várias edições francesas que eu já tinha ou que vim a adquirir. Lá estão eles ocupando toda uma prateleira da estante. Também os livros de e sobre Rilke, arrecadados para uma edição quase completa de sua obra, que a Nova Aguilar pretendia fazer logo depois do Baudelaire; são ainda 34 volumes, mesmo depois da devolução de cerca de mais 20, emprestados pelo Dr. Rischbieter. Mais em cima, a minha paixão da juventude, o romantíssimo Edmond Rostand, com todas as belas edições do “Cyrano de Bergerac” e do “L´Aiglon”, inclusive a famosa edição da Impremerie Nationale de 1983, sem falar na raríssima biografia escrita por sua mulher, Rosemonde Gérard, em 1935, e com uma dedicatória da própria “pour Jacques Chabanne, très sympathiquement” (peça de colecionador, de 1935). Falar de Rostand seria falar de todos os sonhos, vitórias e decepções de amor que sagraram os meus anos juvenis, arroubos, versos ardentes, lágrimas contidas, coração convulso…

Da parte superior da estante, ocupando mais de duas prateleiras, Shakespeare me observa através de ricas edições de suas obras completas e uma porção de traduções em várias línguas. Não, não o esqueci, foi meu primeiro cometimento, minha “glória” maior de quando o vi (em minha tradução) sob o formato de imponente coffee-table book, ilustrado por Isolda Hermes da Fonseca e editado por Carlos Lacerda, a quem eu assessorava na redação da Enciclopédia Século XX. Que será destes tesouros sentimentais, desses pedaços líricos de mim? Talvez o melhor será deixá-los também para o Banco do Brasil, onde trabalhei por 37 anos, para o seu CCBB cuja biblioteca saberá guardá-los com cuidado, ainda que não lhes possa dispensar o mesmo carinho que lhes dediquei. Mas, você, o que faria em meu lugar?

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Se tivesse de sintetizar numa única frase a personalidade de Rilke, diria que ele foi alguém que brincava de boneca com os anjos.

Ainda que a frase possa parecer a princípio extravagante, ela encerra, no entanto, dois pólos da maior significação para o entendimento da obra do Poeta:

uma educação juvenil inculcada, dirigida e opressora,

e o voo desabrido e transcendental de sua maturidade poética.

Não pretendo entrar nos pormenores biográficos desse Autor, já sobejamente conhecidos do público; mas, para justificar a frase inicial, é necessário pelo menos que se tenha presente o fato de que Rilke foi o segundo filho de um casal estranho:

o pai era um militar aposentado, que se separa da família quando o menino tinha oito anos;

a mãe, uma espécie de Madame Bovary tcheca,

dominante, verdadeira cabeça do casal, que, para compensar a perda de sua primeira filha, muito cedo falecida, dá ao garoto o nome de René MARIA e vai criá-lo durante muito tempo vestido de menina e comportando-se como tal.

Esse inculcado comportamento feminino vai marcar profundamente a alma de Rilke e justifica, de certo modo, a aversão que desenvolveu pela mãe durante toda sua vida. Basta saber que, de 1915 a 1926, ano de sua morte, Rilke não teve o menor contato com ela, a qual, tendo sobrevivido ao filho por mais cinco anos, nunca se manifestou publicamente a seu respeito.

Conseguindo vencer o mimo excessivo que lhe votava a Srª Rilke, o Poeta teve em seguida de enfrentar o extremo oposto: a imposição do pai para que seguisse a carreira militar e se transformasse num verdadeiro homem.

Para o bem da Poesia, Rilke fracassou também no setor beligerante…

Mas dessa incongruente mistura nasceu uma personalidade rebelde em todos os sentidos, muito semelhante à de Rimbaud, que o antecede na recusa formal do trabalho como obrigação, a fim de se manter inteiramente a serviço da Poesia.

Como o menino-poeta francês, Rilke é também um errante; viaja sem cessar, deixando-nos — em nosso grosseiro pragmatismo atual — a pensar como conseguia dinheiro para tamanhas andanças.

Em companhia de Lou-Andreas Salomé, russa de nascimento, e mulher avançadíssima para o seu tempo, visitou duas vezes a Rússia e entrevistou-se com Toistói.  Em seu arroubo, passou a considerar a Rússia sua pátria espiritual, e só deve ter perdido esse elã fantasioso, na segunda viagem, quando volta a encontrar-se com Tolstoi e este lhe resolve dar, horas a fio, umas lições de … poesia.

Sua verdadeira pátria espiritual seria, mais tarde, a França, para onde ocorriam todos aqueles artistas que aspiravam a uma escala internacional. Em 1902 o poeta aceitara convite para permanecer uma temporada em Worpswede, colônia de pintores estabelecida nas imediações de Bremen, e onde Rilke vem a conhecer Clara Westhoff, ex-aluna de Rodin, com a qual se casaum tanto precipitadamente, segundo a indiscreta discrição dos levantadores de cronologias; tanto assim que, informam tais senhores, o casamento, realizado na primavera de 1901, vai dar ao casal uma filha, Ruth, já no mês de dezembro daquele mesmo ano…

Com a mesma precipitação com que se casam, os jovens se separam em maio do ano seguinte, e embora permanecessem amigos, o poeta e a mulher, a partir de então, só teriam encontros ocasionais. Mas foi Clara Westhoff quem mudou a vida do poeta, sugerindo — a ele, que se tornara à época um crítico de arte — a ida a Paris com o fito de escrever um ensaio sobre Rodin, então no auge de sua notoriedade. Desse contacto inicial entre o poeta e o escultor vai nascer um relacionamento irregular, gerado por uma admiração mútua, que levará Radin a, mais tarde, contratar Rilke como seu secretário particular, e, pouco tempo depois, a despedi-lo de maneira imperdoavelmente humilhante.

Paris, no entanto, exercerá sobre Rilke um fascínio mesmérico, e é lá que o poeta inicia sua fase de aprendizagens, principalmente seu aprendizado de ver. “Estou aprendendo a verescreverá ele em seus “Cadernos de Malte Laurids Brigge”,  sua primeira obra em prosa, de difícil gestação, na qual levou seis anos trabalhando,  de 1903 a 1909. Essas anotações meio-romanceadas meio-autobiográficas, e frutos de uma fantasia (Rilke se supunha descendente de um nobre dinamarquês que visitara Paris) — são um permanente desdobrar de folhas, um constante abrir de gavetas, em que vemos a obra escrever-se a si mesma à medida em que está sendo escrita. É uma luta obsediante e cotidiana do poeta consigo mesmo ou com seu duplo, o Anjo, como uma espécie de Jacob diante do espelho ou a fusão da imagem do lutador com a de seu antagonista.

Rilke passa horas e mais horas no Jardin des Plantes vendo tudo: plantas, bichos, pessoas. A visão torna-se seu sentido mais aguçado e penetrante e ele vê não só a superfície exterior das coisas, mas igualmente o interior delas e, mais além, um superinterior, recriado em sua imaginação, que lhes atribui — às plantas, aos bichos e às pessoas — uma outra vida, uma outra forma, uma outra substância. Vai além e se incorpora ao objeto de sua visão e vê-se na coisa vista, e nela atua nesses vários planos existenciais, crescendo-planta, andando-pantera, falando-fonte, queimando-se-fósforo.

Esse “aprender a ver” irá tornar-se uma trade mark de Rilke, uma característica que resistirá, ao longo já de nove décadas, a toda espécie de diluições na literatura dos principais países europeus, agravada sintomaticamente por uns tantos outros do lado de cá do Atlântico.

Ao ser traduzida a obra para o francês em 1927 por seu amigo Maurice Betz, que lhe abre de vez as portas do livre trânsito internacional, Rilke já havia conquistado seu lugar no procênio da Poesia. Aprendera muitas línguas, o russo e o dinamarquês especialmente; traduzira muito, principalmente os franceses, como Proust, Gide e Valéry, dos quais era amigo; escreve seus próprios poemas em francês; convive com as grandes figuras artísticas da época e tem amigos influentes que o protegem, o adotam, o preservam das rasteiras dificuldades da vida para que ele possa empreender o grande voo da criação artística. Rilke aprendera a lição que empresta ao Torso Arcaico de Apolo, transformado por ele num dos momentos epigônicos da poética universal. “Tens que mudar tua vida ! » e essa mudança, essa luta, que transforma o pobre e humilde poeta despaisado e sem raízes num altíssimo expoente pretendido por várias pátrias e famílias, e que agora fala de igual para igual ao seu antigo mestre e patrão, Auguste Rodin.

Rilke sai vencedor desse combate, mas está só. Literalmente só. Não tem família, e embora desfrute da amizade e do amor de muitas mulheres que se maravilharam com sua presença e o fascínio de sua poesia, a solidão monasticamente buscada em ásperos refúgios, será doravante o objetivo de sua vida, a sua ascese, a aprendizagem mais alta. Essa solidão irá gerar sua obra máxima, talvez a obra máxima da poesia ocidental do século XX, “As Elegias de Duíno ” e  “Os Sonetos a Orfeu”. E ei-lo finalmente, no polo oposto da timidez e do acanhamento da infância, agora no caminho da transcendência, a ouvir os Anjos, a dialogar com Deus …

Dotada de características especiais, tendo criado uma dicção personalíssima, que ele impõe à poesia universal, o primeiro contacto com a poesia de Rilke, seja em que língua feito, é sempre fascinante e revelador.  No Brasil e em Portugal, inúmeros foram os tradutores que se propuseram a colocar a obra de Rilke ao alcance do público, e essas traduções, a par das francesas, inglesas e castelhanas que também nos chegavam, influenciaram grandemente os nossos poetas, dando ensejo ao aparecimento de coletâneas de elegias e a profusos livros de sonetos.

Se Rilke nos influenciou a todos, velhos poetas da Geração de 45, jovens poetas dos anos 50, vanguardistas e concretistas das décadas seguintes, houve um tempo, contudo, em que esteve na estante, ofuscado pelos Pounds e Eliots que o pós-guerra nos trazia e impunha. Mas, eis que, de novo, como esse Torso que assume outra forma de vida em si mesmo, o nome de Rilke volta às vitrines do mundo, e novas edições de sua obra e estudos sobre ela aparecem na Alemanha e na França, nos Estados Unidos e no Brasil. Sentimos estar perto o dia em que teremos uma edição da obra completa de Rilke em nosso país.

Correndo por fora de modismos ou conveniências, ditado apenas pelo seu amor ao Poeta, um homem de empresa, um banqueiro, um bissexto do mundo das letras, está sendo, segundo minha opinião, um dos responsáveis pela efervescência de Rilke no Brasil. Desde os anos 50 que Karlos Rischbieter  tinha o Poeta na mira de sua devoção e acalentava o capricho de um dia traduzi-lo; o capricho se tornou paixão e passou a ocupar todas as folgas de seu pensamento, a preencher as lacunas que uma temporada de  isolamento em Brasilia lhe proporcionava. Traduzir Rilke passou a ser um derivativo, uma cachaça, um segundo motivo de vida, dessa vida que temos de mudar para irmos além. E ele próprio se admirava quando, em seu quarto de hotel no exterior, enquanto descansava entre um meeting e outro, sentia a presença de Rilke se insinuar em sua mente, e complexas projeções econométricas iam dando lugar às inflexões filosóficas do Poeta, que ele procurava de qualquer forma fixar.

Quando eu soube dessa singular experiência e tive acesso à leitura dessas traduções surpreendeu-me grandemente que alguém, não integrado no métier poético, que não fosse poeta em tempo integral, pudesse captar de maneira tão adequada e sutil certas peculiaridades desse texto. Também eu tivera meus embates com o Monstro, ou melhor com o terrível Anjo, e sabia o amargor, a frustração que derivava de cada tentativa inútil de lhe captar as nuances e entretons. Lendo os longos poemas de Rilke, como os dois Réquiens, o Alceste, o Orfeu-Euridice-Hermes, o Nascimento de Vênus, nas versões de Rischbiter, fiquei contentemente surpreso de encontrar momentos de perfeita adequação tonal e fraseológica, certas transposições de genuína beleza, que muito tradutor e poeta diplomado gostaria de assinar. Por isso não tive hesitações em incentivá-lo não só a prosseguir nos trabalhos, como lhe   sugeri — desta vez para surpresa dele, seguida de uma cautelosa indecisão — que publicasse as traduções. Enquanto se decidia, logo alguns editores farejaram no domínio público da obra do Poeta uma excelente oportunidade, e surgiram do dia para a noite algumas edições ou reedições de Rilke, antecipando o lançamento que a cautela editorial do Dr. Karlos lhes ensejara. Mas o livro finalmente veio à luz.  Como todo trabalho de amor — não feito com intuitos pecuniários nem por motivos profissionais –, representa muito para o seu autor: ele é a paga dos momentos insones, de busca exaustiva de soluções que teimam em fugir, de termos que se desvanecem diante de nós antes que os possamos apreender de todo e cujo sentido era exatamente aquele que buscávamos com sofreguidão, cansaço, desatino. Se a frase está cheia de “nós”, assim dita no plural, é que estou certo de que o Dr. Rischbieter passou pelas mesmas angústias por que todos nós, tradutores de poesia, passamos. E estou certo de que, como nós, ele também terá tido as suas alegrias nos momentos de inspiração, quando o termo nos chega de leve ou quando quase o encontramos à mão ou dentro da gaveta; nos momentos de puro júbilo, quando a frase bate certa e ouvimos como um eco que nos viesse do outro lado da montanha; terá tido, finalmente, aquela sensação de haver chegado ao fim de alguma coisa, nem que seja a um fim provisório que incentiva um recomeço, quando viu que seus trabalhos iam adquirindo o formato de um livro, o formato de um ser, de um filho temporão.

Mas representa igualmente muito para nós, simples leitores ou amigos do tradutor, que nos deliciaremos com a sua realização e nos enriqueceremos com o seu exemplo. Pois este livro encerra um grande exemplo: a certeza de que podemos ir sempre um pouco além de nós mesmos, de podermos encontrar em nosso interior uma outra fonte de vida, um outro motivo de realização. Dr. Karlos — homem feliz — encontrou-os na poesia. Que grande contribuição será a sua e a deste livro se puder despertar com ele em alguns de nós o gosto pela poesia, ela tão escondida e esmagada pelos meios de comunicação mais fáceis e imediatos. Que grande trabalho será então o seu se conseguir fazer — nem que seja episodicamente, bissextamente, anualmente como o sentimento de Natal — com que nos debrucemos alguns minutos sobre estas páginas e reencontremos a vibração do sopro poético de que há tanto andávamos esquecidos.

Tenho certeza que esta será a maior realização a que poderá aspirar o autor desta tradução e o maior beneficio que nós, seus leitores, dela poderemos tirar.

[Palavras de apresentação pronunciadas quando do lançamento do livro]

A IMBATÍVEL TRADUÇÃO DE BANDEIRA

 

Creio que foi nos anos 50, quando sonhávamos colaborar no avançadíssímo Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, que tomei meu primeiro contato com a obra de Rilke. O Suplemento vinha publicando, ao longo de semanas, as “Elegias de Duíno”, em tradução de Dora Ferreira da Silva, que considero, até hoje, a melhor realização que conheço desses poemas em língua portuguesa. E certamente já havíamos lido algum artigo sobre a obra do Poeta, assinado por Carpeaux no antigo suplemento “Letras & Artes”, pois era ele sempre quem nos dizia as primeiras palavras sobre os velhos fenômenos literários europeus, que chegavam com tremendo atraso ao nosso terceiro mundo. Mas só então a estávamos conhecendo, em português, embora pouco depois, em 1953, Geir Campos, igualmente jovem poeta à época, fosse nos revelar um primeiro estoque dos “Novos Poemas”, na bela e saudosa coleção Rubayat, da Editora José Olympío. Embora a crítica posterior viesse a julgar as traduções de Geir um tanto “light”, em que a linguagem rilkeana é docemente simplificada pelas necessidades da rima e da métrica, a ele cabe, sem dúvida, o titulo de primeiro divulgador do poeta entre nós, divulgador no sentido literal do termo, ou seja, aquele que põe ao alcance do vulgo uma obra de arte, sem trancá-la na torre de marfim das elucubrações universitárias ou dos pequenos grupos diletantes.

No rastro de Geir surgiria em seguida “A Canção de Amor e de Morte do Porta-Estandante Cristóvão Rilke”, em tradução de Cecília Meireles, e “As Cartas a um Jovem Poeta”, transpostas por Paulo Rónai, que saíram em edição conjunta em 1953. A tradução de Rónai, escritor de origem húngara, radicado no Brasil durante a Guerra, e profundo conhecedor do alemão, fora feita diretamente do original rilkiano, e a de Cecília, embora usando como base a versão francesa de Suzanne Kra, de 1927, teve a leitura de Rónai, e continua sendo, até hoje, o representante oficial desse texto em nossa língua.

Nós, poetas novos de então, invejávamos Geir Campos e Mário Faustino por terem acesso direto aos textos rilkianos, enquanto nos contentávamos em comparar o que surgia em português com as edições francesas que, a essa altura, já nos eram acessíveis. É bem verdade que, do outro lado do Atlântico, o professor Paulo Quintela, da Universidade de Coimbra, já havia posto ao alcance do público português a quase totalidade da obra rilkiana, cabendo-lhe a incontestável primazia no campo das antecedências. No entanto, suas traduçôes nos pareciam graníticas, pesadas valquírias operátícas tentando inutilmente a esgarçante fragilidade de balé das composições de Rilke, e por isso preferíamos às portuguesas as já clássicas traduções de Maurice Betz e Angelloz, quando não nos valíamos de edicões espanholas ou latinoamericanas, como a “Antologia Poética”, de Hurtado Giol, e as “Gedichte – Poesias”, de Pino Saavedra, que nos permitiam uma diversidade ínterpretativa em relação à prata da casa em cujas baixelas de esmalte estávamos já fartos de comer. Outros, mais familiarizados com a língua inglesa, recorriam igualmente às corretas traduções de Herter Norton, J. B. Leishman e Selden Rodman. Mas o grande momento da poesia de Rilke em língua portuguesa apresentou-se diante de nós com a tradução do “Torso Arcaico de Apolo”, feita por Manuel Bandeira em 1948, mas que só iríamos conhecer na terceira edição de seus “Poemas Traduzidos”, publicada em 1956. Ali estava a verdadeira linguagem rilkiana!  Bandeira, grande poeta, excelso conhecedor da arte de fazer versos, o maior de nossos tradutores de poesia que, além do mais sabia alemão, nos havia brindado com uma joia rara, o exemplo da perfeição a que poderia aspirar um tradutor de poesia. Parecia tão definitiva que nem mesmo os  maiores divulgadores da poesia de Rilke em língua portuguesa (Augusto de Campos, José Paulo Paes e o granítico Quintela) haviam incluído o Torso em suas traduções. Com o tempo, alguns analistas mais exigentes, observaram que, apesar de ter mantido os belos enjambements do original, numa permanente recorrência do fluxo do poema, Bandeira, do ponto de vista meramente formal, não havia mantido a frase imperativa, “Du musst dein Leben ändern” (literalmente “Precisas mudar tua vida”) parecendo-lhes algo edulcorado aquele “mudares de vida”, em vez de “mudar a vida”, pois que diminuía a força imperativa da expressão, podendo aplicar-se até mesmo a processos vulgares de regeneração, como no caso de um boêmio que retornasse á vida familiar, em vez de exprimir apenas e somente a imperiosa imposição do Torso, que exige uma radical mudança do destino, como que a dizer ao Poeta:  Se eu pude ser outro, também tens que fazer o mesmo. E Rilke aprendeu a lição: um dia, o jovem tímido e pobre que se humilhara diante de Rodin viria a tratá-lo em pé de igualdade, já amigo de Gide, de Proust e Valéry, de quem traduziria as obras, disputado pelos salões sociais e literários da gloriosa Paris!

Inúmeras são as traduções deste poema em inglês, disponíveis na Internet. Conseguimos examinar as seguintes: H. Landman, C. F. MacIntyre, Douglas Ryan Van Benthuysen, Stephen Mitchell, Winslow Shea, Don Paterson, Cliff Crego, a maioria sem métrica e sem rimas ou semi-rimadas (como a de MacIntyre). De início, o adjetivo “unerhörtes” (literalmente, inaudito, nunca ouvido falar, nunca visto) apresenta muitas variantes: fantastic, fabulous, awesome, legendary, incredible, terrific, outrageous (head), e “unheard” apenas em Cliff Crego e Douglas Ryan VanBenthuysen.  A solução para  “Aber”, solto no fim do verso e precedido por ponto, é quase sempre o “Yet” na mesma posição, salvo em alguns casos em que aparece “But” (variantes: “And yet his torso”, em Stephen Mitchell, “Yet here” em Winslow Shea e apenas ponto em Don Paterson). A frase final “Du musst dein Leben ändern” é traduzida sempre por “You must change your life”. A única rimada e metrificada é a de Winslow Shea, que incrivelmente transforma a definitiva frase final num simples “Reform!” A que nos pareceu mais expressiva foi a H. Landman, que chegou a traduzir o “Raubtierfelle” por “predator´s  coat”, o que, embora literal, não nos parece nada rilkiano. A tradução francesa de que dispomos, de Jacques Legrad, não observa métrica e rima, embora mantenha o fecho “Tu dois changer ta vie”. Em português, além da consagrada tradução de Bandeira, apareceram posteriormente outras duas, que apresentamos abaixo, juntamente com aquela:

Archaïscher Torso Apollos

RAINER MARIA RILKE

Wir kannten nicht sein unerhörtes Haupt,
darin die Augenäpfel reiften. Aber
sein Torso glüht noch wie ein Kandelaber,
in dem sein Schauen, nur zurückgeschraubt,

sich hilt and glänzt. Sonst könnte nicht der Bug
der Brust dich blenden, and im leisen Drehen
der Lenden könnte nicht ein Lächeln gehen
zu jener Mitte, die die Zeugung trug.

Sonst stünde dieser Stein entstellt and kurz
unter der Schultern durchsichtigem Sturz
and flimmerte nicht so wie Raubtierfelle;

und bräche nicht aus alien seinen Rändern
aus wie ein Stern: denn da ist keine Stelle,
die dich nicht sieht. Du musst dein Leben ändern.

Torso arcaico de Apollo

Não sabemos como era a cabeça, que falta,
De pupilas amadurecidas, porém
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

E brilha. Se não fosse assim, a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
Como uma estrela; pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.

Tradução de Manuel Bandeira

Torso arcaico de Apolo

Não conhecemos sua cabeça legendária
na qual as pupilas maturavam. Porém
seu torso ainda arde como uma luminária,
em que seu olhar, mais tênue, se detém,

fica e brilha. Senão o leve reflexo
da curva do seu peito não te cegaria,
nem o sorrir, no giro dos quadris, iria
correr para esse centro que portava o sexo.

Seria apenas uma pedra deformada
sob os ombros de diáfana derrocada
e como pêlos de fera não brilharia

e nem teria toda sua forma rompida
como uma estrela: lugar não haveria
que não ti veja. Precisas mudar tua vida.

Traduçâo de Karlos Rischbieter

Torso arcaico de Apolo

Não sabemos como era a cabeça inaudita,
onde as pupilas amadureciam. Glabro
no entanto o torso aclara como um candelabro,
onde apenas mais tênue, o seu olhar nos fita

e brilha. Senão como poderia o plexo
do peito assim cegar-te, e iria, no impreciso
arquear de parte da cintura, um leve riso
correr para esse centro, onde existia o sexo?

Seria um simples bloco mutilado e falto
e de seus ombros nunca o translucente salto
reluziria assim como um lombo de fera

nem romperia as órbitas qual explodida
estrela: pois ali ponto nenhum se espera
que não te veja. Tens que mudar tua vida.

Tradução de Ivo Barroso


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Fundada em 1948 por Saldanha Coelho, a Revista Branca desempenhou um papel de alta relevância cultural em sua época, embora destinada a um pequeno grupo de leitores que tinham Marcel Proust como a expressão máxima da literatura universal. Consciente de sua restrita divulgação em território nacional, a revista se pretendia destinada a divulgar nossos escritores no exterior, tanto que se anunciava na contracapa como um órgão trimestral em cinco línguas. Na verdade o que ocorria era aparecer um artigo em português acompanhado de tradução em uma das línguas mencionadas (espanhol, francês, inglês ou italiano) ou artigos originalmente escritos em língua estrangeira com sua respectiva tradução em português. Creio que foi em suas páginas, em 1955, que publiquei minha primeira colaboração na imprensa da capital e surpreende-me agora ver que se tratava nada menos que de Eliot! Não me lembro como cheguei até lá nem se fui levado por alguém, mas certamente que por indicação de meu velho amigo Bráulio do Nascimento (na época um dos diretores da revista), pois trabalhávamos juntos na Editora Delta. A ele fico muito grato por ter conseguido exumar de seus arquivos esta tradução que eu julgava definitivamente perdida.

 

The Eagle soars in the summit of Heaven

 

T. S. Eliot

The Eagle soars in the summit of Heaven.

The Hunter with his dogs pursues his circuit.

O perpetual revolution of configured stars,

O perpetual recurrence of determined seasons,

O world of spring and autumn, birth and dying!

The endless cycle of idea and action,

Endless invention, endless experiment,

Brings knowledge of motion, but not of stillness;

Knowledge of speech, but not of silence;

Knowledge of words, but not of the Word.

All our knowledge brings us nearer to our ignorance,

All our ignorance brings us nearer to death,

But nearness to death no nearer to God.

Where is the Life we have lost in living ?

Where is the wisdom we have lost in knowledge?

Where is the knowledge we have lost in information?

The cycles of Heaven in twenty centuries

Bring us farther from God and nearer to the Dust.

(From “The Rock”- Corus part)

 

A ÁGUIA SE ERGUE NOS CONFINS DO CÉU

A Águia se ergue nos confins do Céu.

O Caçador com seus cães persegue-lhe o circuito.

Ó perpétua revolução de estrelas configuradas,

Ó perpétua recorrência de determinadas estações.

Ó mundo de outono e primavera, nascimento e morte!

O ciclo interminável da ideia e da ação,

Invenção perene, perpétua experiência,

Traz a noção do movimento, mas não a do repouso;

A ciência da fala, mas não a do silêncio;

A ciência das palavras, e a ignorância da Palavra.

Todo o nosso saber nos aproxima de nossa ignorância,

Toda a nossa ignorância nos acerca da morte,

Mais próximos da morte, e não mais perto de Deus.

Onde a Vida que perdemos no viver?

Onde a sabedoria que perdemos no saber?

Onde o saber que perdemos na informação?

Os ciclos do Céu em vinte séculos

Nos afastam de Deus e nos acercam do Pó.

Tradução de Ivo Barroso


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Publicado em 1922, “The Waste Land”, de T. S, Eliot, é considerado por alguns críticos o mais importante poema do século XX. Às vezes tido como difícil, em parte por causa das múltiplas referências de que se utiliza, o texto costuma ser interpretado como uma exploração poética da esterilidade da vida moderna e da destruição da Europa após a Primeira Guerra Mundial. O primeiro verso da obra, “April is the cruelest month”, alude à chegada da primavera ao hemisfério norte. Prosa & Verso encomendou ao poeta Ivo Barroso uma nova tradução da primeira seção do poema, “The Burial of the Dead”. No Brasil, “The Waste Land” foi “A Terra Inútil” para Paulo Mendes Campos, “A Terra Gasta” para Idelma Ribeiro de Lima, “A Terra Desolada” para Ivan Junqueira e Thiago de Mello. Ivo Barroso preferiu “A Terra Devastada”.

[Chamada do suplemento “Prosa & Verso”, 19.09.2009, apresentando a nova tradução do poema]


THE WASTE LAND

The Burial o f the Dead


April is the cruellest month, breeding

Lilacs out of the dead land, mixing

Memory and desire, stirring

Dull roots with spring rain.

Winter kept us warm, covering

Earth in forgetful snow, feeding

A little life with dried tubers.

Summer surprised us, coming over the Starnbergersee

With a shower of rain; we stopped in the colonnade,

And went on in sunlight, into the Hofgarten,

And drank coffee, and talked for an hour.

Bin gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.

And when we were children, staying at the arch-duke’s,

My cousin’s, he took me out on a sled,

And I was frightened. He said, Marie,

Marie, hold on tight. And down we went.

In the mountains, there you feel free.

I read, much of the night, and go south in the winter.

What are the roots that clutch, what branches grow

Out of this stony rubbish? Son of man

You cannot say, or guess, for you know only

A heap of broken images, where the sun beats,

And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief,

And the dry stone no sound of water. Only

There is shadow under this red rock,

(Come in under the shadow of this red rock),

And I will show you something different from either

Your shadow at morning striding behind you

Or your shadow at evening rising to meet you;

I will show you fear in a handful of dust.

Frisch weht der Wind

Der Heimat zu

Mein Irisch Kind,

Wo weilest du?

`You gave me hyacinths first a year ago;

‘They called me the hyacinth girl.’

-Yet when we came back, late, from the hyacinth garden,

Your arms full, and your hair wet, I could not

Speak, and my eyes failed, I was neither

Living nor dead, and I knew nothing,

Looking into the heart of light, the silence.

Oed’ und leer das Meer.


Madame Sosostris, famous clairvoyante,

Had a bad cold, nevertheless

Is known to be the wisest woman in Europe,

With a wicked pack of cards. Here, said she,

Is your card, the drowned Phoenician Sailor,

(Those are pearls that were his eyes. Look!)

Here is Belladonna, the Lady of the Rocks,

The lady of situations.

Here is the man with three staves, and here the Wheel,

And here is the one-eyed merchant, and this card,

Which is blank, is something he carries on his back,

Which I am forbidden to see. I do not find

The Hanged Man. Fear death by water.

I see crowds of people, walking round in a ring.

Thank you. If you see dear Mrs. Equitone,

Tell her I bring the horoscope myself:

One must be so careful these days.

Unreal City,

Under the brown fog of a winter dawn,

A crowd flowed over London Bridge, so many,

I had not thought death had undone so many.

Sighs, short and infrequent, were exhaled,

And each man fixed his eyes before his feet.

Flowed up the hill and down King William Street,

To where Saint Mary Woolnoth kept the hours

With a dead sound on the final stroke of nine.

There I saw one I knew, and stopped him, crying: `Stetson!

`You who were with me in the ships at Mylae!

`That corpse you planted last year in your garden,

`Has it begun to sprout? Will it bloom this year?

`Or has the sudden frost disturbed its bed?

`O keep the Dog far hence, that’s friend to men,

`Or with his nails he’ll dig it up again!

`You! hypocrite lecteur!-mon semblable,-mon frère!’

[Primeira das cinco partes do poema The Waste Land (1922). Fonte: T. S. Eliot

– Collected Poems 1909-1962 – Harcourt, Brace & World, Inc. – NY – 1936]

A TERRA DEVASTADA

O Enterro dos Mortos

Abril é o mais cruel dos meses, concebendo

Lilases da terra entorpecida, confundindo

Memória com desejo, despertando

Lerdas raízes com as primeiras chuvas.

O inverno aqueceu-nos, recobrindo

A terra na esquecida neve, alimentando

Um resto de vida na secura dos tubérculos.

O verão surpreendeu-nos, caindo sobre o Starnbergersee

Com pancadas de chuva; esperamos sob a colunata,

Depois seguimos, à luz do sol, para o Hofgarten,

Lá tomamos café, e conversamos um tempo.

Bin gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.

E quando éramos crianças, em casa do arquiduque,

Meu primo, ele saiu comigo num trenó,

Eu estava apavorada. E ele me disse: Marie,

Marie, segura firme. E lá fomos ao fundo.

Nas montanhas, é onde nos sentimos livres.

Leio, até tarde da noite, e vou para o sul no inverno.

Que raízes são estas que se agarram, galhos que brotam

De um entulho rochoso? Filho do homem,

Tu não podes dizer, ou supor, pois só conheces

Um monte de imagens partidas, onde o sol reflete,

E a árvore morta não provê abrigo, o grilo não conforta

E não há na pedra seca som algum de água. Apenas

Existe sombra sob a rubra rocha.

(Vem sob a sombra desta rubra rocha),

E vou mostrar-te uma coisa bem diversa

De tua sombra de manhã a correr atrás de ti

Ou de tua sombra à tarde a se erguer ao teu encontro;

Vou mostrar-te o medo num punhado de pó.

Frisch weht der Wind

Der Heimat zu

Mein Irisch Kind,

Wo weilest du?

Tu me deste os primeiros jacintos faz um ano;

‘Chamavam-me a moça dos jacintos.’

— No entanto, ao voltarmos, tarde, do jardim dos jacintos,

Teus braços repletos, teus cabelos úmidos, eu não podia

Falar, e meus olhos se turvaram, não me sentia

Nem vivo nem morto, e não sabia nada,

Olhando no âmago da luz, só o silêncio.

Oed’ und leer das Meer.

Madame Sosóstris, famosa clarividente,

Teve um grave resfriado; passa, no entanto,

Por ser a mulher mais sabida da Europa

Com seu baralho maroto. Esta aqui, disse ela,

É a sua carta, o Marinheiro Fenício afogado

(Eis as pérolas que foram seus olhos. Veja!)

E esta é Beladona, a Dama dos Rochedos,

Senhora das situações.

Aqui o homem com as três cruzes, e a Roda da Fortuna,

Este é o mercador caolho, e esta carta,

Em branco, é algo que ele trás às costas,

Mas que estou proibida de espiar. Não encontro

O Enforcado.Tenha medo da morte pelas águas.

Vejo massas humanas girando em torno a um círculo.

Obrigada. Se encontrar a querida Sra. Equitone,

Diga-lhe que eu mesma vou trazer o horóscopo:

Temos que ser bem cuidadosos hoje em dia.

Cidade irreal,

Sob a névoa parda da manhã de inverno

Fluía a turba sobre a London Bridge, tantos,

Nunca pensei que a morte aniquilasse tantos.

Soluços, breves e infrequentes, se exalavam

E cada homem fixava os olhos à frente de seus pés.

Fluíam para a colina e desciam a King William Street,

Até onde a Saint Mary Woolnoth marca as horas

Com um surdo som no toque terminal das nove.

Lá vi um conhecido, a quem parei, gritando: ‘Stetson!

Você que esteve comigo nas galés de Milas!

O cadáver que plantou ano passado em seu jardim

Já começou a brotar? Vai florir este ano?

Ou a geada imprevista perturbou-lhe a cova?

Oh, mantenha o Cão afastado, esse amigo do homem,

Antes que com as unhas ele de novo o desenterre!

Você! hypocrite lecteur! – mon semblable, — mon frère!’

Tradução de Ivo Barroso


A LINGUAGEM DA ARIDEZ – Nota do Tradutor

Assim como T. S. Eliot acrescentou notas explicativas a seu poema, talvez coubesse aqui um breve comentário sobre a tradução. Teve-se a intenção determinante de despir o texto em português de quaisquer atavios léxicos, “embelezamentos” fraseológicos ou rebuscamentos românticos, de vez que Eliot neste poema aplicou-se em apresentar uma linguagem aparentemente prosaica, valendo-se de um vocabulário trivial, condizente com a aridez descrita (a devastação decorrente da Primeira Guerra Mundial). Ademais, a utilização, logo de início, de uma série de gerúndios demonstra a não-submissão aos rígidos padrões da vernaculidade, ao que correspondemos recorrendo, no entanto, à alternância das nossas conjugações (ar, er, ir), já que não há propriamente rimas no texto inglês. A subversão inicial de considerar abril o mais cruel dos meses, quando na poesia de até então era este o mês do encanto (“o arauto da festiva primavera”), determina uma espécie de visão contrária ao convencional e um face-a-face com a realidade grosseira, bem acentuados na 2ª estrofe. Alguns comentaristas vêem nesta passagem, no “escorregar” do trenó de Marie (“And down we went”), uma conotação de entrega sexual, o que tentamos insinuar com “E lá fomos ao fundo”. O “cricket” tem sido um problema interpretativo, mas intui-se uma alusão ao “The Cricket of the Hearth” (“O grilo da lareira”), de Dickens, em que o inseto miraculoso traz conforto ao dono da casa, assegurando-lhe que a esposa não o trai. (Tenha-se em mente o “caso” de Vivienne, então esposa de Eliot, com seu padrinho de casamento, Bertrand Russel). No fim da estrofe, no expressivo verso “Looking into the heart of the night, the silence” introduzimos um “só” para tentar preservar o belo jogo das sonoridades.

Madame Sosóstris pode ser facilmente rastreada nos inúmeros estudos (alguns meramente especulativos) do poema; é possível, no entanto, que Eliot tivesse em mente a figura de Madame Blavatsky, a famosa “teóloga”, autora de “Isis Devoilée” (“Ísis sem véu”). Freamos a tendência de traduzir “wisest” por “mais sábia”, já que há uma evidente ironia no tratamento eliotiano; acreditamos que, em lugar disso, “sabida” corresponderia melhor. Eliot declara nas notas não ser muito versado em tarô, mas a carta por ele descrita como “the man with three staves” pode ser facilmente identificada como sendo O Papa, que traz nas mãos o báculo com as três cruzes. “Staves” está aí certamente como plural de “stiff” (com vários significados inclusive o de cajado) e não de “stave” (aduela), o que permite ao tradutor determinar o objeto e identificar em “the three staves” as três cruzes do báculo de São Pedro. A forma inglesa (ou latina) “Mylae” tem correspondente em português, já que as batalhas de Milas, entre romanos e cartagineses, são mencionadas nos livros de história e nas enciclopédias. Os “ships” nelas envolvidos eram quadrirremes e trirremes, que generalizamos (com Elliot) em galés. O poema termina com um dístico rimado, como nos sonetos ingleses: “friend to men” / “dig it up again”, ao que se segue a coda com o verso de Baudelaire. Tentamos recuperar o efeito, rimando o penúltimo verso com a coda em francês (“desenterre” / “mon frère”).

[Tradução e nota publicadas em “Prosa & Verso”, suplemento literário de ”O Globo”, em 19.09.2009.

A gravura que ilustrou aquela publicação, e aqui reproduzida, é um detalhe de “Eyes in the heat”,

de Jackson Pollock-1946]


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