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OS POETAS ‘ESDRÚXULOS’

Em 15.03.2014 prometi aos leitores da Gaveta criar uma antologia poética para a divulgação de versos que, no meu tempo, eram considerados de “primeira linha”, e já na semana passada comecei a cumprir o prometido. Mas queria também divulgar o trabalho daqueles que poderíamos denominar “poetas esdrúxulos”, não pelo teor de suas composições, mas por causa dos nomes estranhos ou pseudônimos com que assinavam seus versos. Entre estes, arrolamos logo de saída, Judas Isgorogota, Sosígenes Costa, Euríclides Formiga, Cleômenes Campos, Junquilho Lourival, Emiliano Perneta, Otoniel Beleza, Pethion de Villar, Petrarca Maranhão, Pretextato da Silveira, Segundo Wanderley… Se Judas Isgorogota e Pethion de Villar eram evidentes pseudônimos, respectivamente de Agnelo Rodrigues de Melo, alagoano, e de Egas Muniz Barreto de Aragão, baiano, todos os outros – pasmem! — são nomes verdadeiros, Aliás, o Egas Moniz nem precisava daquele Pethion de Villar, pois seu próprio nome já soa como pseudônimo. Todos esses estranhos/esquecidos compuseram versos considerados “de primeira linha” em seu tempo e figuram em várias antologias e florilégios até hoje. Quanto aos temas, eram em geral versos de amor, de conquista ou de saudade, vez por outra apelando para uma filosofia ingênua. Mas há o caso daquele Segundo Wanderley (1860-1909), poeta abolicionista norte-rio-grandense, que escreveu um incrível soneto intitulado “Amor de Filha”, dedicado a Pedro Avelino (?), personagem que deu nome a uma cidade do Rio Grande do Norte, mas sobre o qual ainda não consegui nenhum dado. Voltaremos a ele no futuro.

Vamos começar nossa antologia dos poetas “esquisitos” com

 

JUDAS ISGOROGOTA (1901-1979) – poeta alagoano

Chamava-se Agnelo Rodrigues de Melo e adotou o pseudônimo nas seguintes circunstâncias, conforme consta de uma entrevista: Autor de versos humorísticos numa revista em que desancava todo mundo, principalmente seus desafetos, resolveu adotar um nome literário para se livrar das represálias. “Judas”, na tragédia bíblica, simboliza o “homem possível”, da mesma maneira que Jesus representa o “homem perfeito”. Judas bem poderia servir de nome de guerra para um poeta que queria “judiar” com as pessoas. Assinei, por isso, Judas Isgorogota. O Isgorogota nada mais é do que simples corruptela de “Iscariotes”.

(Judas Iscariotes, como se sabe, era o nome do discípulo que traiu Jesus Cristo; Cariotes o de sua cidade natal). Conceituadíssimo como poeta e escritor no meio literário da capital paulista onde vivia, Agnelo Rodrigues teve vários livros publicados e seus versos traduzidos para mais de oito línguas.

 

 

DIVINA MENTIRA

 

Pobrezinha da mãe que teve um filho poeta

E o viu cedo partir para as bandas do mar…

Nunca mais que ele volte à mansão predileta,

Nunca mais que ela deixe, um dia, de chorar…

 

É como a água de um lago, inteiramente quieta,

A alma de toda mãe que vive a meditar:

O mais leve sussurro é-lhe um toque de seta,

A mais leve impressão basta para a assustar…

 

Eu, por sabê-la assim, quando lhe escrevo, digo:

“– Minha querida mãe, não se aflija comigo.

Eu vou passando bem… Jesus vela por mim…”

 

É que assim, ela – a humana expressão da bondade –

Contente por saber que vou sem novidade

Jamais há de pensar que eu vá mentir-lhe assim…


CAROS LEITORES

Esta antologia é um velho projeto meu e gostaria que vocês participassem dele. Mas posso estar enganado quanto ao interesse que ela possa despertar em vocês, meus leitores, principalmente entre os jovens, se é que os tenho.

Preciso  saber claramente se esta seção (que seria permanente) lhes despertou interesse, se devo continuar publicando aqui os versos que me entusiasmaram no passado, ou se o que era “primeira linha” para mim já não faz sentido para vocês.

Por favor, deixem uma nota, curta que seja, um sim ou não já basta, mas não posso ficar na dúvida.

 

IVO BARROSO

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O ROMANCE DE MILTON

Meu conterrâneo de Ervália-MG, Milton Rezende, já produziu cerca de dez livros de poesia, dois ou três de ensaios e pesquisas, enfrentou a morte que o ameaçava com cirurgias malogradas e dela ressurgiu já pronto para enfrentar novos desafios, como este de escrever um romance. E não um romance comum, desses que contam uma história do começo ao fim, com personagens e diálogos definidos. Milton escolheu a mais sofisticada forma de narrativa que é o romance minimalista. Que vem a ser isto? Em miúdos, um texto em que nada acontece no sentido habitual de descrever um fato existente ou imaginado, leitura em que não se fica sabendo com clareza onde está o narrador nem o que está ocorrendo em seu redor, ou o que ocorrera antes ou poderá vir a ocorrer depois. Sabe-se, vagamente, que o autor da narrativa é um escritor que se considera fracassado, às voltas com um livro que não chega a terminar nem muito menos imprimir; que vive na dependência de um telefonema que não consegue dar nem receber e por isso se embebeda de inúmeras doses de cachaça que toma prosaicamente em xícaras de café. Mas aí é que está a grandeza do texto: esse solilóquio de um homem em busca de amor, a perseguir duas ou três (nomes de) mulheres, que não são descritas nem se sabe bem que papel representam na vida do narrador: esposa? ex-esposa? namorada? idealização? meros fantasmas?

É preciso ser um exímio prosador, ter-se um extenso domínio da língua para manter o leitor preso a esse desdobrar de um acontecimento que não acontece, ouvindo o monólogo de alguém que parece fora da realidade e cuja existência se resume num permanente estado de espírito de espera de não se sabe o quê. O leitor fica na expectativa permanente de que de súbito o telefone toque, que o poeta atenda, que identifique a interlocutora, que se saiba o que ela representa (ou representou) na vida do autor – enfim, aquele happy end que se espera dos livros, das novelas televisivas e mesmo da vida real. Mas Milton segura o pião na unha: nada de aberturas, de intimidades; tome divagação, tédio, indecisão, voltas e mais voltas sobre si mesmo.

O leitor chegado à literatura vai pensar logo em Camus ou num outro mestre da narrativa desintegrada; mas posso dizer que Milton foi além disso: conseguiu escrever todo um romance, numa excelente linguagem, sem recorrer aos acidentes e incidentes peculiares das narrativas. A “história” está toda, inteira, na elaboração da frase, no anti-fato, na negação do acontecimento. Um caminhar permanente no fim da navalha. Você não pode deixar de ler esse livro. É claro, acompanhado de inúmeras xícaras de… café!

Ivo Barroso

 

 

 

LITERATURA

BREVIÁRIO DE AFETOS

Conhecido como poeta e crítico literário, Ivo Barroso é essencialmente tradutor. Sua tradução da Poesia completa e da Prosa poética de Rimbaud está, sem favor algum, entre as realizações mais perfeitas de um autor francês para o português, e contam com a vantagem – que para outros seria descrédito – de figurarem numa edição bilíngue, extremamente vantajosa para o leitor comum. Não há dúvida que esse trabalho de tradutor teve diversos desdobramentos, a tal ponto que seu nome, além dos prêmios recebidos, é geralmente apreciado pelos teóricos da tradução, como Paulo Rónai. Aqui, porém, cuidaremos de outra faceta de Ivo Barroso. Breviário de afetos (São Paulo: SESI-SP editora 2107) compreende crônicas, entrevistas e postagens escritas com simplicidade e que, em alguns casos, surpreendem pelas “revelações” que contêm. O livro fala dos conhecimentos do autor, sobretudo os escritores brasileiros mais ilustres ou destacados, como Alceu Amoroso Lima, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, Ferreira Gullar, etc., mas também do tradutor francês Didier Lamaison (que publicou, em dois volumes, traduções de poemas de Drummond) e se refere a outros tradutores, como o alemão Curt Meyer-Clason, e os brasileiros, Onestaldo de Pennafort e Milton Amado, que traduziu “ O corvo” de Edgar Poe.

Todos os textos de Ivo Barroso são redigidos sem a preocupação de exibir conhecimentos, o que aumenta o interesse que despertam. Seja nas recordações sobre escritores já falecidos, como Antônio Houaiss, Otto Maria Charpeaux, João Cabral de Melo Neto, (uma entrevista), Paulo Rónai, Melo Nóbrega, Antônio Carlos Villaça, Mário Faustino, Anísio Teixeira, seja quando aborda amigos e parentes fora da literatura, Ivo Barroso alcança um nível de empatia extraordinário, quase como se o leitor estivesse sentindo, ou até “vendo” a figura retratada. Em todos os tipos desenhados e/ou revividos, distinguem-se o perfil de Edgard de Vasconcellos Barros, incentivador do adolescente Ivo e o de seu tio Pedro, outro que também incentivava o jovem Ivo. E, acima de tudo, o belo texto sobre a namorada – e depois esposa – Sílvia, verdadeiro exemplo de prosa poética, no qual comemora o fato de já estarem casados há 60 anos! Ademais, convém igualmente referir os textos sobre Karlos Rischbieter, cuja devoção ao poeta Rilke o levou a traduzi-lo. A propósito, notem-se reproduções de textos seus ou alheios, sejam traduções de poesia, seja o prefácio redigido para um livro de Gullar. De todo modo, um volume de leitura imprescindível.

FERNANDO PY (Tribuna de Petrópolis, 19.01.2018)

***

                 ANTOLOGIA POÉTICA DA GAVETA

Quando eu era jovem (isto é coisa dos anos ’50), tínhamos a mania das coleções: grandes álbuns com marcas de cigarro, artistas de cinema, selos estrangeiros, etc. Os mais sensíveis, no entanto, costumavam carregar também um “Caderno de Poesias”, onde colecionavam os versos (românticos!) que mais apreciavam. Lembro-me que na folha de rosto do nosso havia a frase: Só poemas de primeira linha”. Lá estavam, seguramente, o Alceu Wamosy, com o seu “Ó tu que vens de longe, ó tu que vens cansada”; o Aníbal Teófilo, autor de um único soneto, “A Cegonha”, que terminava em “Ver a dúvida humana debruçada/ Sobre a angústia infinita de si mesma!”; o indefectível Júlio Salusse com os seus cisnes, “A vida manso lago azul algumas/ vezes, algumas vezes mar fremente”; sem faltar o Padre Antônio Tomaz, filosofando : “Quando partimos no vigor dos anos/ Da vida pela estrada florescente” e o sempre declamado Nilo Bruzzi a lamentar “Pobre de quem, como eu, vê que, infeliz,/ Teve todas aquelas que o quiseram,/ Mas nunca teve aquela que ele quis!…” Eram os nossos poetas exemplares, só mais tarde desbancados pelo Guilherme de Almeida e o Menotti Del Picchia, e finalmente esquecidos quando Manoel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade se impuseram. Quem hoje, com menos de 50 anos, ainda se lembra daquele (imortal?) “Nascemos um para o outro, dessa argila/ de que são feitas as criaturas raras?” Ah, fugit irreparabile tempus!

De primeira linha… Que vinha a ser isto? O senso estético já nos permitia, à época, afirmar que Menotti del Picchia era melhor que J. G. de Araújo Jorge e que Raul de Leoni e Olavo Bilac eram os grandes nomes da poesia sentimental. Mas, o que será, para a gente de hoje, um poeta de primeira linha? Com o advento da Internet bagunçou-se o conceito de poesia e qualquer semianalfabeto enche hoje as redes sociais com seus versos de pé quebrado ou mesmo versos sem pé nem cabeça alguns. Com isso os mais jovens vão perdendo a noção clássica do belo e do estético, ignorando os grandes poetas brasileiros do passado, mesmo os de um passado recente representado pelas correntes modernistas.

Nosso intuito aqui é o de trazer aos leitores da Gaveta aqueles versos que no passado nos encantaram e considerávamos  “de primeira linha”. Serão apenas amostras, sem grandes comentários, meras transcrições dos poemas em si. No máximo acrescentaremos, após o nome do poeta, as suas datas extremas, nascimento e morte, para que o leitor tenha uma noção de época. Sem biografia ou crítica literária, o poema valerá por si só e o gosto do leitor será o juízo final.

 

RAUL DE LEONI (1895-1926)

EUGENIA

 

Nascemos um para o outro, dessa argila

De que são feitas as criaturas raras;

Tens legendas pagãs nas carnes claras

E eu trago a alma dos faunos na pupila…

 

Às belezas antigas te comparas

E em mim a luz olímpica cintila.

Gritam em nós todas as nobres taras

Daquela Grécia esplêndida e tranquila…

 

É tanta a glória que nos encaminha

Em nosso amor de seleção, profundo,

Que (ouço ao longe o oráculo de Elêusis).

 

Se um dia eu fosse teu e fosses minha,

O nosso amor conceberia um mundo,

E de teu ventre nasceriam deuses…

 

Nota: O título do poema é paroxítono (nía) e diz respeito à ciência que trata das condições mais propícias à reprodução e melhoramento genético da espécie humana. (Aurélio). Se você já conhecia o poema, ótimo; se não, sai correndo e vá comprar a obra completa de Leoni (um único volume denominado “Luz Mediterrânea”). Não é possível falar de poesia brasileira sem conhecer essa obra, inteira. Há duas edições confiáveis: a 4ª. edição da Livraria Martins Editora (1946), belíssima em papel encorpado, azul, raridade bibliográfica, e a edição da Topbook, de 2000, criteriosamente organizada por Pedro Lyra).

Devo dizer que a influência de Raul de Leoni, sobre mim, era tamanha que lhe imitava, além do vocabulário e ambientação (Grécia, Roma), até mesmo o vezo de deixar a sexta sílaba sem icto, como se fosse um verso de pé quebrado. Eis um dos meus sonetos da época:

 

EGRESSO

Venho de longe… Sou daqueles dias

Em que se ergueu a Acrópole de Atenas.

Fui discípulo amado nas serenas

Peripateses das Academias.

 

Com Epicuro provei das alegrias

E do prazer das bacanais helenas

E Platão me ensinou, nas horas plenas,

A mais sublime das filosofias.

 

Formei entre os estetas das ideias,

Talhei com Fídias as panatenéias,

Fui sacerdote oracular de Elêusis…

 

Mas, seguindo da Sorte os maus caprichos,

Hoje vivo entre uns homens que são bichos,

Eu, que nasci no tempo em que eram deuses!

 

(Por favor, desculpem)

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SAIU NOS JORNAIS

A POESIA CAPSULAR DE RAYMOND CARVER

Quem conhece a obra ficcional de Raymond Carver (1938-1988), um dos mais peculiares contistas norte-americanos dos anos ’80, referenciado por sua concisão estilística, aversão ao “literário” e diretividade vocabular, dificilmente poderia imaginar que ele fosse capaz de aplicar, com êxito, tais características na composição de seus poemas.  E obtivesse com eles os mesmos resultados consagratórios que lhe granjearam a produção de contos. O curioso é que, conforme revelou o próprio autor numa entrevista à Paris Review, com ele se passou precisamente o contrário: o caminho foi da poesia para a prosa, ou nas palavras de sua segunda esposa e antologista, Tess Gallagher, “da corrente espiritual da poesia é que ele partia para escrever seus contos”.

Se destes o leitor brasileiro já conhecia duas recolhas (Iniciantes (2009) e 68 contos (2010), ambas editadas pela Companhia das Letras em tradução de Rubens Figueiredo, o que temos agora, na antologia poética, Esta Vida, lançada pela Editora 34, é uma primeira amostra de seus poemas individualíssimos, na tradução mais que consentânea de Cide Piquet. A garantia da fidelidade de transposição fraseológica e vocabular se evidencia no cotejo com os originais ao fim do livro e a leitura desta série de poemas permitirá observar que a  viagem de ida e volta entre a prosa e a poesia se desenvolveu pelo mais determinado dos caminhos.

Desde logo, tal encontro fortuito com a poesia de Raymond Carver poderá despertar no leitor habitual uma série de hesitações: o que está lendo será de fato poesia, ou seja, será o que ele até então considerava como pertencente a um padrão poético? Não lhe parecerá, antes, que se trata de uma série de minicontos, alguns extremamente condensados, outros mais explícitos, guardando da estrutura poética apenas o fato de estarem escritos em versos irregulares?

A continuidade da leitura irá evidenciar, no entanto, a descoberta de uma personalidade poética inteiramente fora dos padrões habituais, explorando temas raramente considerados poéticos, numa voz que soa tão clara quanto estranha, exigindo às vezes uma reelaboração mental para abranger-lhe o sentimento mais íntimo. E não há como passar de liso sobre a manutenção, agora no verso, daquele vocabulário preciso, quase vulgar e de uma diretividade realística, utilizado nos contos, que poderia soar aqui até mesmo antipoética. Carver consegue, mesmo assim, o milagre de acender uma fagulha emotiva na aridez de um relato banal, fazendo ali brotar a chispa que caracteriza a essência de um poema. Veja-se o que ocorre, por exemplo, em um de meus preferidos: A cabine telefônica. O poeta está em seu carro parado diante de uma cabine telefônica; lá dentro, um jovem casal chora ao receber uma notícia má; o casal volta para o próprio carro, enquanto o poeta prepara as moedas para fazer sua chamada (“Detesto usar um telefone / que acabou de dar notícias de morte. “) E é a sua vez de tentar, por essa via, a sempre negada reconciliação com a esposa, que agora o manda definitivamente para o inferno. A poesia, até então contida, restrita à descrição da cena, encontra a seguir seu momento de eclosão: “O casal no sedan abaixa os vidros / das janelas e observa, suas lágrimas pausadas / por um momento em face daquela distração. / Depois sobem os vidros de novo e se recolhem no carro. Por algum tempo / não vamos a parte alguma. / Depois vamos embora. ” Essa pausa, entre a espera e a partida, é que resume toda – digamos – a emotividade do poema. Ao lermos composições como O padeiro, Para Tess e Esperança, nos quais a realidade mais abrupta adquire status de substância emotiva, nos admiramos de um poeta da qualidade de Carver, com seu estilo inigualável, só agora ter sido apresentado ao público brasileiro.  

Sua origem rústica e humilde – o pai, de quem herdou o estilo de vida desprendido e o uso de bebidas, era empregado numa serraria e costumava levar o poeta para intermináveis pescarias e caçadas; Carver acostumou-se a esse tipo de “vida menor” a ponto de fazer dele sua forma habitual de ver o mundo. Teve de passar por dezenas de empregos secundários e mal pagos (entregador de encomendas, zelador de edifícios, ajudante de porteiro e faxineiro num hospital), até conseguir terminar um curso superior que lhe permitiu afinal lecionar e conviver com pessoas de outro nível cultural.

O próprio Carver revela que até os 19 anos não tinha a menor noção do que fosse um poema; em 1957, ao fazer uma entrega de remédios, deparou na casa do cliente com um exemplar da revista Poetry. Ele, que andava obcecado com a ideia de escrever alguma coisa, descobre ao folheá-la que seu objetivo é a poesia, mas só 28 anos mais tarde enviou à revista seus trabalhos e teve seu primeiro livro de versos (Near Klamat) publicado apenas em 1968.  Alcançando um nível de convivência intelectual bastante acima de suas atividades anteriores, começa a frequentar escritores e jornalistas, a participar de importantes workshops e de editorias de revistas literárias nas quais publica seus contos que, desde cedo, lhe trazem notoriedade e prêmios.

A presente antologia, Esta Vida contempla uma seleção dos quatro principais livros do autor:  Fogos (1983), Onde a água se junta a outra água (1985), Ultramar (1986) e Um novo caminho para a queda d’água (1989), organizada por pelo excelente tradutor Cid Piquet a partir de All of Us: The Collected Poems – Vintage, 2000) .

(Publicado no suplemento Prosa & Verso, de O Globo, em 28.10.2017)

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Quando da publicação da obra completa de Rimbaud, editada pela Topbooks e traduzida por mim, várias apreciações críticas apareceram nos suplementos literários. Eis algumas dessas manifestações:

O INDOMÁVEL RIMBAUD

Edição organizada por Ivo Barroso é referência para estudos sobre o poeta

Marcelo Jacques

“Eu quis dizer o que isso diz, literalmente e em todos os sentidos”, teria dito Arthur Rimbaud à mãe em resposta a uma pergunta sobre a significação das “pequenas histórias em prosa” que constituem “Uma estadia no inferno”. Se considerarmos que esse texto é, ao lado das “Iluminações”, o grande legado em prosa do jovem poeta das Ardenas, podemos ver na afirmação, mais do que uma frase de efeito, a síntese de uma poética que não cessou de reclamar “invenções de desconhecido”, e que, como disse Mallarmé, “nenhuma circunstância literária realmente preparou”.

“Uma estadia no inferno” e “Iluminações” fazem parte da Prosa poética de Rimbaud, organizada por Ivo Barroso, cuja segunda edição revista foi recentemente lançada pela Topbooks. Se a primeira tradução de “Uma estadia no inferno”, de 1972, já era a melhor versão brasileira da obra, as sucessivas e cuidadosas revisões realizadas, ao lado da tradução de “Iluminações” e de outras prosas inéditas, acrescidas de um trabalho minucioso de notas e comentários, fazem definitivamente desta Prosa poética uma edição de referência para os estudos rimbaudianos em língua portuguesa.

Promessa da poesia do futuro

Rimbaud invoca, de fato, desde as famosas “Cartas do vidente”, essa virtualidade indomável da língua como a promessa própria da poesia do futuro, que a “hora nova” exigiria. Não se trata, porém, de criar uma poesia pura, apartada do todo da língua e da banalidade prosaica do mundo, como quererão muitos “modernos”. Trata-se, antes, como escreverá o adolescente de 15 anos, de “encontrar uma língua” que seja “da alma para a alma, resumindo tudo, perfumes, sons, cores, pensamento agarrando pensamento e puxando”, uma língua que permita “ (definir) a quantidade de desconhecido que desperta em seu tempo na alma universal”.

E, para tornar-se esse “vidente”, Rimbaud define desde então seu método: “um longo, imenso e estudado desregramento de todos os sentidos”, que implique a “eclosão” deste outro que nele pensa – “Pois EU é um outro” – para que ele possa então, a seu turno, alterar-se e, assim, abrir outras perspectivas para o seu tempo: “Que exploda em seu salto por entre as coisas inauditas e inomináveis: outros horríveis trabalhadores virão, e começarão pelos horizontes em que o outro se perdeu! ”. Com Rimbaud, portanto, o vigor e a autenticidade da poesia deixam definitivamente de confundir-se com qualquer forma de espontaneidade expressiva do eu, que, ao contrário, deve, por meio do “estudo” e do “cultivo” de si, deformar: “trata-se de tornar a alma monstruosa”.

É justamente esse “combate espiritual”, “tão rude quanto a batalha dos homens”, que é encenado em “Uma estadia no inferno”, único livro efetivamente publicado por Rimbaud, e que não pode deixar de ser lido ao mesmo tempo como uma narrativa autobiográfica e como uma espécie de auto-reflexão sobre a gênese da obra do próprio poeta e suas ambições futuras. Composta logo após o incidente dos dois tiros disparados por Verlaine, em 1873, que marcaria a ruptura definitiva entre os dois, essa “descida aos infernos” foi frequentemente considerada como uma espécie de “Adeus” – título da última seção do texto – à poesia: “Criei todas as festas, todos os triunfos, todos os dramas. Tentei inventar novas flores, novos astros, novas carnes, novas línguas. Acreditei-me possuído de poderes sobrenaturais. Pois bem! Devo enterrar minha imaginação e minhas lembranças! Bela glória de artista e prosador que lá se vai! ”

Essa leitura foi facilitada pela fascinante história do adolescente genial que abandonou a poesia aos 20 anos para viver como um “trabalhador” na África durante 17 anos, até a morte, em 1891. Mas os estudos em torno da datação das peças que vieram a constituir as “Iluminações”, escritas em parte depois da redação da “Estadia”, permitiram reler esse “Adeus”, re-ensejando a perspectiva de renovação da poesia nele também de certa forma reivindicado.

Leitor confrontado com o enigma da língua

Não por acaso, desde a primeira edição, organizada por Verlaine em 1886, as “Iluminações” se iniciam com o poema “Depois do dilúvio”. Mas aqui, ao contrário do que ocorre na “Estadia”, o eu pouco se enuncia. Prevalecem imagens caracterizadas pela justaposição de frases nominais, entremeadas de enumerações feitas a partir de associações sonoras e deslizamentos semânticos, realização plena daquilo que o jovem aspirante à vidência chamara de “visão”. Diante dessa obra, confrontado ao enigma da língua e de si, o leitor não sai imune: “Este veneno permanecerá em nossas veias mesmo quando acabar a fanfarra e voltarmos à nossa antiga inarmonia”.

Marcelo Jacques é professor de literatura francesa da Faculdade de Letras da UFRJ                 

Caderno Prosa & Verso O GLOBO 23/02/2008

 

CORDIALMENTE, ARTHUR RIMBAUD

Primeira edição brasileira com as cartas do poeta mostra uma vida partida em duas, entre o gênio precoce e a existência errante na África

Miguel Conde

Num dia de julho de 1873, o poeta Paul Verlaine andava pelas ruas de Londres levando uma rara provisão de comida e a dose costumeira de bebida para a casa onde vivia com Arthur Rimbaud, o jovem talentoso por quem há pouco mais de um ano abandonara a mulher, o filho, o emprego, e de modo geral todos os compromissos que até então faziam dele um integrante respeitável da sociedade parisiense. Ao se aproximar do número 8 da Great College Street, porém, ouviu o grito sarcástico do amante: “Que ar de babaca, com esse arenque e a garrafa na mão!”. Seria apenas uma provocação infantil, não fossem as incontáveis punhaladas (metafóricas e literais) já trocadas pelos dois escritores em sua rotina de brigas, bebedeiras e penúria. Decidido a encerrar o relacionamento que descreveu como “um amor de tigres”, Verlaine embarcou para a Antuérpia. Abandonado, Rimbaud escreveu ao amante uma carta derramada: “Volte, volte, querido amigo, único amigo, volte. Juro que serei bom. Se fui mordaz com você, foi só por besteira e teimosia, arrependo-me mais do que se possa dizer”. Verlaine tinha motivos para duvidar. Longe de ser uma besteira ocasional, a mordacidade era um hábito cultivado com prazer pelo remetente, como se pode ver no recém-lançado Arthur Rimbaud: Correspondência (Topbooks, Rio, 2009). Primeira edição brasileira a reunir todas as cartas conhecidas de Rimbaud, o livro traz escritos que vão da adolescência aos últimos dias do poeta, expondo uma vida intensa e atribulada, partida em duas metades: a do jovem brilhante, talentoso e impertinente que entremeava maledicências e trocadilhos escatológicos com poemas hoje contados entre os maiores da literatura moderna; e a do comerciante objetivo que relatava em tom sóbrio suas expedições pela África, onde tentava juntar dinheiro para um dia viver de renda, sem trabalhar.

Cartas queimadas pela mulher de Verlaine                                                                                                  

Tradução, notas e comentários são do poeta Ivo Barroso, um rimbaudiano devotado que conclui assim o trabalho de verter para o português as obras completas de Rimbaud, formadas ainda pelos volumes “Poesia completa” e “Prosa poética” lançados também pela Topbooks. Encerrado o trabalho, iniciado em 1972 com a tradução de “Uma estadia no inferno”, Barroso vai doar sua biblioteca de e sobre o poeta para o Centro Cultural Banco do Brasil.

– As cartas mostram que Rimbaud era de uma ironia terrível. Era um cara insuportável, mas um gênio indiscutível. Considero as “Iluminações” o maior momento da poesia de todos os tempos. Minha tese é que depois delas Rimbaud sentiu que não havia nada mais a fazer. Ele era incapaz de se repetir, evoluía a cada poema – diz.

As notas contextualizam as cartas e acabam compondo um breve perfil biográfico do escritor. Algumas poucas cartas escritas por Verlaine, pela mãe e pela irmã de Rimbaud também foram incluídas, assim como os depoimentos de Rimbaud e Verlaine à polícia sobre o episódio em que o primeiro foi baleado pelo segundo.

No conjunto da correspondência, o relacionamento dos dois aparece de forma breve, já que a mulher de Verlaine, Mathilde, destruiu todas as cartas enviadas a seu marido pelo amante. Quando a irmã de Rimbaud as solicitou, Mathilde respondeu: “As cartas dirigidas a Verlaine por seu irmão Rimbaud em nada poderiam servir à glória desse último. Se sua família e seus amigos as tivessem lido, como eu e meu pai, decerto me seriam gratos por havê-las destruído”.

Um fragmento de uma carta enviada por Rimbaud queixando-se da modorra em Charle-ville, sua provinciana cidade natal, da qual fugia sempre que possível, dá uma ideia do tom da correspondência: “O trabalho está mais longe de mim do que minha unha está de meu olho. Merda para mim! Merda para mim! Merda para mim! Merda para mim? Merda para mim! Merda para mim! Merda para mim! Merda para mim!”.

Teoria do poeta vidente, que cria sua linguagem                                                                                          

É em suas primeiras cartas, enviadas a poetas menores com cuja ajuda Rimbaud contava para ter suas obras publicadas, que o jovem escritor discorre sobre sua busca por uma poesia nova. A mais famosa é a enviada a Paul Demeny em maio de 1871, que começa com o aviso imperativo “Resolvi proporcionar-lhe uma hora de literatura nova”, e prossegue com a famosa teoria de Rimbaud do poeta como vidente, que por meio do “desregramento de todos os sentidos” “alcança o insabido” e deve inventar uma linguagem para dizê-lo: “A Poesia não marcará mais o ritmo da ação; ela estará na frente”.

Apenas quatro anos depois, aos 21 de idade, Rimbaud deixaria de lado essas ambições para iniciar uma segunda vida e uma série de viagens que o levariam finalmente à África. A vida errante e o trabalho em condições “miseráveis”, como diria mais de uma vez, lhe pareciam melhores do que a permanência na França: “É evidente que não vim aqui para ser feliz. E, todavia, não posso abandonar essas regiões, agora que já sou conhecido e posso encontrar meios de viver — ao passo que em outra parte eu apenas morreria de fome”.

Os pedidos por livros são frequentes, mas tudo que o comerciante procura agora são manuais práticos de construção, geologia, mapas. O talento descritivo e o humor negro no entanto aparecem ainda em várias cartas, como aquela em que Rimbaud descreve à mãe e à irmã sua adaptação às muletas, após ter a perna amputada devido ao câncer nos ossos que terminaria por matá-lo. A doença o levaria afinal de volta à França, de onde saíra para ganhar a vida, e para onde retornou em busca de cura.

Publicado na capa do Segundo Caderno de O Globo em 7.12.2009.

O TRANSGRESSOR MAIS ADORADO

 

A obra completa do poeta francês Arthur Rimbaud, que parou de escrever aos 20 anos, recebe primorosa tradução pelo poeta mineiro Ivo Barroso

Luís Antônio Giron

O poeta francês Arthur Rimbaud (1854-1891) ganhou admiradores entre seus colegas brasileiros. Vinicius de Moraes e outros se inspiraram nos poemas ”As Iluminações” e ”Oração da Tarde”, nos quais convivem visões proféticas e palavrões. Apesar disso, ainda não se completou a tradução brasileira de toda a obra de Rimbaud. A lacuna deverá ser preenchida quando o escritor Ivo Barroso lançar a Correspondência de Rimbaud. O volume [já em fase final de produção] encerrará a edição da integral do bardo visionário [pela editora Topbooks].

”Depois de uma vida devotada a ele, vou encerrar a missão”, promete Barroso, que já traduziu 220 das 250 cartas do poeta – algumas delirantes. Barroso acaba de lançar o volume Poesia Completa de Rimbaud, em edição revista. Em janeiro, é a vez da nova edição da Prosa Poética. O tradutor mineiro reviu a primeira versão que fez do poema ”Uma Estadia no Inferno”, elogiada em 1971 por Alceu Amoroso Lima – que atribuía sua conversão ao catolicismo à leitura de Rimbaud. Barroso apresenta textos como ”Um Coração sob a Sotaina” e ”Os Destinos do Amor”. Tudo repleto de anotações que contextualizam vocabulário e circunstâncias de cada título.

O tradutor reconhece que a devoção ao autor é trabalho insano em qualquer língua. ”Rimbaud nunca tem fim”, diz. No volume que acaba de sair, ele refez a fantasia ”Minha Boêmia”, que conta a história de um caminhante de bolsos descosidos e calças com furos que lembram ”Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso (”Lá ia eu, de mãos nos bolsos descosidos;/Meu paletó também tornava-se ideal;/Sob o céu, Musa, eu fui teu súdito leal/Puxa vida! a sonhar amores destemidos!”). O parentesco com o tropicalista não se deu por acaso: Rimbaud é um dos patronos do movimento hippie dos anos 60, quando Caetano compôs sua canção-programa. A versão de Barroso dá o tom coloquial que está nos versos em francês.

Muitas gerações têm cultuado Rimbaud por sua dupla face. Uma é a do gênio precoce que parou de escrever aos 20 anos. Esse ”deus da adolescência” – como o apelidou o surrealista Paul Claudel – desmontou o verso alexandrino, abrindo a picada para o Modernismo. A outra face exibe o homem bruto que rompeu com as convenções, assumiu o homossexualismo (manteve um caso turbulento com o colega Paul Verlaine, com direito a tapas e tiros) e aventurou-se no tráfico de armas na África. Morreu em Marselha, aos 37 anos, de complicações decorrentes da amputação de uma perna. Sua irmã, Isabelle, não sabia que ele havia sido escritor. O coquetel de atrevimento em vida e versos tem encantado artistas desde 1898, quando Paterne Berrichon, marido de Isabelle, divulgou a produção rimbaldiana. Primeiro santo, depois demônio e hoje guindado a fundador, Rimbaud influenciou beatniks e outros poetas do rock, como Bob Dylan. Vencida a rebeldia dos anos 60, ele segue em alta, mesmo que seja mais pela vida turbulenta que por sua alquimia verbal.

O que sucedeu a Rimbaud acontece a muita gente. Há quem se destaque na juventude como escritor para adotar, na idade adulta, ofícios mais prosaicos. ”As pessoas viram a página da literatura e tocam a vida”, diz Ivo Barroso – que, curiosamente, aposentou-se como funcionário do Banco do Brasil, sem abdicar dos versos. Mas o ”passante considerável”, como Mallarmé definiu Rimbaud, detonou uma fissão nuclear nas letras, evento que só pode ser saboreado na alta intensidade de seus poemas, conservada na tradução de Barroso.

Chanson de la Plus Haute Tour            

Oisive jeunesse
À tout asservie;
Par délicatesse
J’ ai perdu ma vie.
Ah! Que le temps vienne
Où les coeurs s’ éprennent.

Je me suis dit: laisse,
Et qu’ on ne te voi:
Et sans la promesse
De plus hautes joies.
Que rien ne t’ arrête
Auguste retraite.

J’ ai tant fait patience
Qu’ a jamais j’ oublie;
Craintes et souffrances
Aux cieux sont parties.
Et la soif malsaine

Obscurcit mes veines.

Ainsi la Prairie
À l’ oubli livrée,
Grandie, et fleurie
D’ encens et d’ ivraies
Au bourdon farouche
De cent sales mouches.

Canção da Torre Mais Alta

Mocidade presa
A tudo oprimida
Por delicadeza
Eu perdi a vida.
Ah! Que o tempo venha
Em que a alma se empenha.

Eu me disse: cessa,
Que ninguém te veja:
E sem a promessa
De algum bem que seja.
A ti só aspiro
Augusto retiro.

Tamanha paciência
Não me hei de esquecer.
Temor e dolência,
Aos céus fiz erguer.
E esta sede estranha
A ofuscar-me a entranha.

Qual o Prado imenso
Condenado a olvido,
Que cresce florido
De joio e de incenso
Ao feroz zunzum das
Moscas imundas.

Au Cabaret-Vert
cinq heures du soirDepuis huit jours j’ avais déchiré mes bottines
Aux cailloux des chemins. J’ entrais à Charleroi.
– Au Cabaret-Vert: je demandai des tartines
De beurre et du jambon qui fût à moitié froid.

Bienhereux, j’ allongeai les jambes sous la table
Verte: je contemplai les sujets très naifs
De la tapisserie. – Et ce fut adorable
Quand la fille aux tétons énormes, aux yeux vifs,

– Celle-là! ce n’ est pas un baiser qui l’ épeure!
Rieuse, m’ apporta des tartines de beurre,
Du jambon tiède, dans un plat colorié,

Du jambon rose et blanc parfumé d’ une gousse
D’ ail – et m’ emplit la chope immense, avec sa mousse
Que dorait un rayon de soleil arriéré.

Octobre 1870

No Cabaré-Verde
às cinco horas da tardeOito dias a pé, as botinas rasgadas
Nas pedras do caminho: em Charleroi arrio.
– No Cabaré-Verde: pedi umas torradas
Na manteiga e presunto, embora meio frio.

Reconfortado, estendo as pernas sob a mesa
Verde e me ponho a olhar os ingênuos motivos
De uma tapeçaria. – E, adorável surpresa,
Quando a moça de peito enorme e de olhos vivos

– Essa, não há de ser um beijo que a amedronte! –
Sorridente me traz as torradas e um monte
De presunto bem morno, em prato colorido;

Um presunto rosado e branco, a que perfuma
Um dente de alho, e um chope enorme, cuja espuma
Um raio vem doirar do sol amortecido.

Outubro de 1870

 

Ma Bohème (Fantasie)

Je m’ en allais, les poings dans mes poches crevées;
Mon paletot aussi devenait idéal;
J’ allais sous le ciel, Muse! et j’ étais ton féal;
Oh! là là! que d’ amours splendides j’ ai rêvées!

Mon unique culotte avait un large trou.
– Petit-Poucet rêveur, j’ égrenais dans ma course
Des rimes. Mon auberge était à la Grande-Ourse.
– Mes étoilles au ciel avaient un doux frou-frou.

Et je les écoutais, assis au bord des routes,
Ces bons soirs de septembre où je sentais des gouttes
De rosée à mon front, comme un vin de vigueur;

Où, rimant au millieu des ombres fantastiques,
Comme des lyres, je tirais des élastiques
De mes souliers blessés, un pied près de mon coeur!

Minha Boêmia (Fantasia)

Lá ia eu, de mãos nos bolsos descosidos;
Meu paletó também tornava-se ideal;
Sob o céu, Musa! Eu fui teu súdito leal;
Puxa vida! A sonhar amores destemidos!

O meu único par de calças tinha furos.
– Pequeno Polegar do sonho ao meu redor
Rimas espalho. Albergo-me à Ursa Maior.
– Os meus astros nos céus rangem frêmitos puros.

Sentado, eu os ouvia, à beira do caminho,
Nas noites de setembro, onde senti tal vinho
O orvalho a rorejar-me a fronte em comoção;

Onde, rimando em meio a imensidões fantásticas,
Eu tomava, qual lira, as botinas elásticas
E tangia um dos pés junto ao meu coração!

Revista ÉPOCA Rio de Janeiro 12/12/2004

A ERA DO CACAREJO

“Num momento como o nosso, em que somos atazanados por um bando
de palpiteiros ensandecidos, que manifestam permanentemente os
próprios pensamentos, Rimbaud recorda as infinitas virtudes do silêncio.
Ele é um modelo para todos nós”.

Diogo Mainardi

Rimbaud espancava Verlaine. Eu invejo Rimbaud. Eu gostaria de ter espancado Verlaine. Eu gostaria de ter espancado qualquer poeta simbolista. Verlaine vingou-se alguns anos mais tarde, num quarto de hotel, dando dois tiros em Rimbaud. Eu também invejo Verlaine. Ele tinha apenas má pontaria.

A editora Topbooks, depois de publicar os poemas de Rimbaud, agora publicou suas cartas, otimamente traduzidas e comentadas por Ivo Barroso. O primeiro lote de cartas mostra Rimbaud e Verlaine espancando um ao outro e atirando um no outro. Qual é o interesse disso? Para mim, nenhum. Eu poria os dois na cadeia. De fato, os dois foram parar na cadeia. O que realmente interessa é o segundo lote de cartas, escritas a partir de 1875, quando Rimbaud abandonou a poesia e passou a perambular de um lado para o outro. Num intervalo de apenas dezesseis anos – ele morreu em 1891 –, Rimbaud fez tudo o que uma pessoa dotada de um pingo de senso de dignidade quereria fazer: foi embora de Paris, que é uma cidade de maricotes; entranhou-se no deserto etíope, contraindo uma série de enfermidades; comercializou camelos; ganhou dinheiro e perdeu dinheiro; negociou armas dos mais variados calibres, permitindo o massacre de um monte de gente inocente; pegou um tumor no joelho e teve a perna amputada; morreu em Marselha, com muitas dores e pedindo ajuda a Deus, que caprichosamente se recusou a ajudá-lo.

Os poetas simbolistas, no tempo de Rimbaud, faziam uma grita danada. Eles se reuniam nos bares e bradavam seus versos. Nem quando eram espancados eles se calavam. Hoje é muito pior. A grita aumentou descomunalmente. Há gente demais papagaiando ao mesmo tempo. Estamos cercados de poetas simbolistas. Eles se espalharam por todos os cantos e se acotovelam brutalmente para conseguir recitar uns decassílabos. O presidente da República é um poeta simbolista. O chefe de cozinha é um poeta simbolista. Até o poeta simbolista é um poeta simbolista. Em 1875, depois de levar dois tiros de Verlaine, Rimbaud afastou-se disso tudo. Ele simplesmente resolveu parar de cacarejar e de ouvir o cacarejo alheio. Numa de suas cartas, de Aden, ele aparece encomendando alguns livros. De poesia simbolista? Ao contrário. Ele encomenda o Livro de Bolso do Carpinteiro, o Manual do Vidraceiro e o Álbum das Serrarias Agrícolas e Florestais Num momento como o nosso, em que somos atazanados por um bando de palpiteiros ensandecidos, que manifestam permanentemente os próprios pensamentos, Rimbaud recorda as infinitas virtudes do silêncio. Ele é um modelo para todos nós. Ele é um modelo para o presente. Em suas cartas, Rimbaud mostra que temos poetas simbolistas demais e carpinteiros de menos. Ele mostra que temos poetas simbolistas demais e vidraceiros de menos. Eu pergunto: já encomendou seu Livro de Bolso do Carpinteiro?

revista VEJA
06/02/2010

 

O MÍSTICO SELVAGEM

Em tradução primorosa, a Correspondência de Rimbaud
revela a gênese do poeta maldito e do explorador colonial

Silviano Santiago*

Em 1924, o jovem Carlos Drummond escreve a Mário de Andrade: “Nasci em Minas, quando devera nascer (não veja cabotinismo nesta confissão, peço-lhe!) em Paris. O meio em que vivo me é estranho: sou um exilado”. Em 1879, o jovem Arthur Rimbaud (1854-91) escrevia de Charleville a seu mentor: “Minha cidade natal é supremamente idiota entre todas as cidades pequenas da província. Estamos exilados em nossa própria pátria!!!”.

A sensação de exílio no torrão natal tem repercussões por personagens como Emma Bovary, de Gustave Flaubert, ou Luísa, de Eça de Queirós, e pelos poemas de Cesário Verde e reafirma a posição de Paris como centro do projeto cultural e artístico ocidental.

Marca de nascença

O exílio é marca de nascença e, no caso de Flaubert e de Eça, serve para reforçar o drama da frustração sentimental da mulher burguesa, conhecido por bovarismo. Em Drummond e Rimbaud, a província é o berço onde a revolta artística do poeta se amamenta de maneira voraz e contraditória. Lá é que nasce o “albatroz”, para retomar a metáfora de Charles Baudelaire para o poeta gauche. Em carta ao poeta Theodore de Banville, Rimbaud proclama o futuro sucesso em Paris, resgatando expressão do Renascimento italiano: “Anch’io, senhores jornalistas, serei parnasiano!”. E complementa: “Não sei o que tenho dentro de mim… que quer subir à tona…”.

Ao substituir parnasiano por modernista, Drummond subscreve a ambição desmedida e a angústia cega de Rimbaud. Se a grafia de vida de Carlos Drummond acaba por encerrá-lo nos meandros da burocracia federal (leia-se a crônica “A rotina e a quimera”, em Passeios na ilha), a de Rimbaud extrapola a rebeldia bronca para ambientá-lo na loucura da boemia parisiense.

Ao dar adeus à província, ele se lança como poeta maldito, sedutor de corações e mentes. Em suas garras, cai Paul Verlaine (1844-96), com quem mantém um caso amoroso, vulgarizado pelo filme Eclipse de uma paixão, com Leonardo DiCaprio.

Dois mitos

No Rio de Janeiro, o provinciano Drummond se transforma no mito poético da competência premiada e, em Paris, Rimbaud inaugura o mito da juventude desregrada e suicida, de que James Dean e Jim Morrison (The Doors) serão exemplos mais próximos. O périplo desvairado de Rimbaud pela província francesa, por Paris e a Europa e pelo verdadeiro exílio em países coloniais pode ser agora acompanhado nas próprias palavras do poeta. Primorosamente traduzida, anotada e comentada por Ivo Barroso, sua notável correspondência foi publicada pela Topbooks, que já nos tinha oferecido a poesia completa.

O resultado final é uma mistura de escritas. A biografia erudita de Barroso complementa a autobiografia em conta-gotas de Rimbaud. O leitor fica diante dos plenos e dos vazios de um reality show sem trapaças.

Não há por que destacar essa ou aquela carta. A razão do volume está no todo. No entanto a tradição dos estudos rimbaudianos nos obriga a salientar a carta a Paul Demeny (15/5/1871), tida como leitura pessoal da evolução da poesia francesa e manifesto da sua poesia.

Nela se lê: “O poeta se faz vidente, por meio de um longo, imenso e racional desregramento de todos os sentidos”. As cartas africanas encantarão os leitores familiarizados com a obra de Joseph Conrad (O coração das trevas) e de Louis-Ferdinand Céline (Viagem ao fim da noite). Escritas no hospital em Marselha, as cartas à mãe e à irmã historiam a hecatombe final.

Gangrena, perna amputada, dores mortais, o caminhar de muletas, a perna de pau… Isabelle socorre o irmão e, entre o tom provinciano e o carola, mantém um pungente e polêmico diário, que Ivo Barroso judiciosamente acrescenta à edição.

Catolicismo

As palavras da irmã transfiguram o poeta maldito e o explorador colonial em homem “justo, santo, mártir e eleito”. Depois da santa missa, anota Isabelle, um capelão se aproxima de Rimbaud e lhe propõe que se confesse, e ele aquiesce. Ao sair, o capelão lhe diz: “Seu irmão tem fé”.

Outro jovem provinciano, agora de nome Paul Claudel, se extasia diante da sua descoberta. À hora da morte, o maldito Arthur Rimbaud se convertera ao catolicismo. Segundo as palavras do futuro dramaturgo, Rimbaud fora “um místico em estado selvagem”. O mito agradecia a egrégia contribuição.

*SILVIANO SANTIAGO é crítico literário e escritor, autor de “Heranças” (ed. Rocco).

Autor viveu entre Europa e África

DA REDAÇÃO

Arthur Rimbaud foi um dos mais influentes autores da literatura moderna, marcando o surrealismo e os beats norte-americanos. Sua produção poética – cujo ápice é Uma temporada no inferno” (1873) – foi concebida entre os 16 e os 20 anos de idade, quando viveu em Paris. Lá manteve relacionamento amoroso com Paul Verlaine. Após o fim da relação, Rimbaud partiu para a África, onde se tornou um misto de aventureiro e comerciante.

caderno Mais!
FOLHA DE S.PAULO
21/02/2010

  

RIMBAUD SEM FIM

                                

Com a publicação da correspondência do poeta francês, Brasil tem acesso à obra completa de uma figura sem equivalentes nos dias atuais; biografia feita por Edmund White também é editada no país

Irinêo Baptista Netto

Rimbaud (1854-1891) é o tipo de figura que a indústria cultural de hoje adoraria explorar. É até inexplicável que não o façam. Jovem e rebelde, escreveu toda a poesia pela qual é lembrado entre os 16 e os 19 anos. Com 19 (uma criança para os padrões atuais, mas definitivamente um adulto na segunda metade do século XIX), abandonou a literatura para virar mercador de armas na África e nunca mais escreveu outro verso. Nunca mais. A vida era pouco para Rimbaud.

Há questão de semanas, o Brasil entrou para o grupo de países que podem ler, na língua pátria, tudo o que produziu o “poeta das sensações”. Foi quando a Topbooks publicou Correspondência, terceiro e último volume das obras completas, com tradução de Ivo Barroso, que já havia vertido ao português a poesia e a prosa poética de Rimbaud (leia abaixo entrevista com Barroso). Nesta semana, a Companhia das Letras publica Rimbaud – A vida dupla de um rebelde, ensaio biográfico de Edmund White. O livro é curioso porque o autor não tem pudores de se incluir na história e começa a narrativa lembrando como descobriu o poeta num internato de Michigan, em 1956.

Jean-Nicolas Arthur Rimbaud tem um magnetismo raro de se encontrar em escritores. Com uma personalidade explosiva e uma disposição incomum para aventuras – sexuais e literárias entre outras –, o poeta seria o rockstar oitocentista, o sujeito que, se vivesse no presente, estaria quebrando quartos de hotel e levando a vida como se o mundo fosse acabar num barranco. Seria talvez uma mistura de Mick Jagger (apesar da idade avançada) com J. D. Salinger (já morto, mas uma referência de artista recluso). O nonsense da comparação é revelador: não existem equivalentes para Rimbaud. Nenhum personagem atual consegue ombrear com o autor que atordoa leitores com O barco bêbado e oferece epifanias com Iluminações. No primeiro, o adjetivo “bêbado” aparece na tradução de Augusto de Campos. A versão de Ivo Barroso prefere “ébrio”.

Sobre o poema, Campos afirmou que é “um texto-ícone que funde o visionário e o visualista, sobrepondo à precisão imagística o ‘desregramento de todos os sentidos’ preconizado pelo poeta”. As aspas foram tiradas da introdução de Rimbaud livre (Perspectiva), livro raro que compila 11 poemas e se encontra somente em sebos. O poeta Fabrício Corsaletti (Esquimó), que adora Rimbaud, gosta da radicalidade do artista. “Ele nunca dá um passo atrás nem faz concessões”, diz. As atitudes do simbolista francês, com frequência, são mais exploradas do que seu legado literário. Essa discrepância é evidente no filme Eclipse de uma paixão (1995), de Agnieszka Holland. Mais preocupada em falar da relação homossexual e destrutiva de Rimbaud (Leonardo DiCaprio) com o poeta Paul Verlaine (David Thewlis), a cineasta polonesa deu pouca atenção à poesia.

Sincronia, a Hedra acaba de publicar A voz dos botequins e outros poemas, uma amostra dos talentos de Verlaine, na tradução clássica de Guilherme de Almeida (1890-1969). Como qualquer outra situação, o interesse na imagem de Rimbaud também tem pelo menos dois lados. Esse culto à personalidade, uma característica das últimas décadas, pode atrapalhar a apreensão da obra. Porém, há quem se aproxime da poesia porque teve contato com o mito. A atenção dada à vida de Rimbaud seria então uma porta de entrada para os seus versos. Pense que só a biografia tida como a mais importante em língua francesa, publicada em 2001 e citada por Edmund White, foi escrita por Jean-Jacques Lefrère e soma 1.242 páginas. É sensato supor que já se publicou dezenas de milhares de páginas sobre ele. Se considerarmos os trabalhos acadêmicos, pode pôr centenas de milhares sem medo de errar.

A importância para as letras universais do homem que morreu com 37 anos, destruído pelo câncer e depois de ter uma perna amputada por causa de um tumor, pode ser explicada numa frase simples: ele mudou a história da literatura. E cometeu o suicídio poético mais atordoante de que se tem notícia, ao abandonar as letras sem pestanejar. “Seu gesto de virar as costas para a Europa é muito significativo”, diz Rodrigo Garcia Lopes, que traduziu Rimbaud com Maurício Arruda Mendonça em Iluminuras. Entre os feitos do francês, Garcia Lopes lista o ataque ao romantismo, a ruptura com a forma e o conteúdo da poesia, a necessidade de ser “absolutamente moderno” e imerso por completo em seu tempo.

Pense em Marcel Proust, Jack Kerouac, Mario Vargas Llosa, Pablo Neruda, Roland Barthes, Jean-Paul Sartre. Todos já pararam para pensar em Rimbaud e, a certa altura, falaram dele. Bob Dylan fez “rambô” rimar com “go” nas letras de “You’re gonna make me lonesome when you go”. Jim Morrison (The Doors) venerava o francês. Para Augusto de Campos, “Rimbaud é, sem dúvida, um dos grandes inovadores da linguagem poética, na raiz da modernidade. Se não elude ou desestrutura a sintaxe tão fundamente como Mallarmé, se não conflita, no mesmo grau, palavra e significado, desestabiliza a semântica poética com as associações insólitas de sua imaginação e a violência do seu vocabulário, corrói os limites entre prosa e poesia, consciente e inconsciente”.

Começar a ler poesia – e a de Rimbaud, para ser específico – é entrar para um mundo com valores próprios. Se duas boas traduções de um mesmo romance têm diferenças sutis e elas dificilmente vão alterar a compreensão do livro, na poesia, as escolhas do tradutor pesam mais. O compromisso das palavras com os versos, rimas e imagens cria situações difíceis para a tradução. Em alguns casos, impossíveis.

Edmund White, o ensaísta-biógrafo, falando sobre O barco bêbado, diz que o poema “é amplamente reconhecido como uma obra-prima de rimas sutis, mas rimas tão descontraídas que são quase indetectáveis, sobretudo em meio ao assalto de imagens tão surpreendentes e de uma sintaxe intrincada e sinuosa entrelaçadas por uma complexidade de particípios presentes e passados e frases colocadas em aposição a nomes – uma gramática que, de fato, está sempre propondo cenas hipotéticas que se misturam como uma realidade palpável e, em seguida, voltam a se dissolver em alguma coisa pretérita, apenas relembrada”.

A descrição de White e toda a bajulação para Rimbaud só fazem sentido quando você lê a obra do menino terrível, o enfant terrible da poesia. “Para mim, a imagem de Rimbaud é meio como aquela miragem, aquela onda de calor que se vê nos desertos”, diz Garcia Lopes. “Ela sempre vai nos fugir”.

* * *

 

ENTREVISTA COM IVO BARROSO

O desígnio final da arte

Irinêo Baptista Netto

* Ivo Barroso é o responsável pela tradução da obra completa de Rimbaud no Brasil, publicada em três volumes pela Topbooks – Poesia CompletaProsa Poética e Correspondência. Na entrevista a seguir, Barroso fala sobre Correspondência, lançado há pouco pela Topbooks, e comenta sua relação com a obra de Rimbaud, que já dura mais de três décadas.

Há quem identifique em Rimbaud a atitude de um astro do rock, um ícone a ser cultuado por adolescentes – algo que a cineasta polonesa Agnieszka Holland tentou explorar em Eclipse de uma Paixão (1995), colocando o ator Leonardo DiCaprio para interpretar o poeta. O que pensa dessa imagem que se faz de Rimbaud?

R – Acho uma capitis diminutio, já que Rimbaud é seguramente um dos maiores poetas da França e do mundo. Aliás, a exploração da vida de Rimbaud tem sido danosa ao conhecimento de sua obra, que é o que de fato interessa a quem esteja à procura de Poesia.

É possível que o mito em torno de Rimbaud atrapalhe a percepção que se tem hoje de sua obra?

R – É exatamente o que esbocei dizer na resposta anterior. Temos presenciado o aparecimento de inúmeras obras sobre a vida de Rimbaud e pouquíssimas sobre a sua poesia. É verdade que sobre esta já foi dito tudo ou quase tudo no passado; os estudos críticos vasculharam os poemas, os versos, as frases, a pontuação (há uma discussão sobre uma vírgula num dos poemas) – isto em outros domínios linguísticos. No Brasil só agora aparece uma edição da obra completa, ao passo que em inglês e italiano, por exemplo, cada editora famosa tem a “sua” edição integral.

Mallarmé teria dito que Rimbaud era uma espécie de hooligan que poderia causar danos à literatura francesa – e, de fato, causou. Na sua opinião, quais foram esses “danos”? O que a poesia dele fez para literatura francesa (e para a universal)?

R – Rimbaud tinha a perfeita noção de que a literatura francesa estava num impasse e que era necessário criar uma linguagem nova. Deve-se a ele a liberdade de ousar a imposição do novo como sendo o desígnio final da arte. Foi ele quem desconstruiu o alexandrino, iniciou o verso livre, elevou o poema em prosa à condição de grande poesia.

O biógrafo britânico Graham Robb defende que Rimbaud, ao abandonar a literatura e viajar pela África, transpôs sua obra para sua vida. Esse seria um dos valores da correspondência do poeta porque ela, de certa forma, dá sequência aos escritos poéticos. O senhor concorda com essa ideia?

R – Tenho sustentado que o abandono da poesia por ele se deveu ao fato de ter consciência de que havia chegado ao ponto máximo, ao páramo a que a poesia poderia alcançar. Continuar seria se repetir, o que não era seu intento. Fechou as malas e foi ganhar dinheiro, mas nessa nova vida continuou se distinguindo pelo seu anseio de sempre fazer melhor, de ir mais além, de buscar o desconhecido. A correspondência dita “africana” do poeta é condizente com essa transformação, com essa assunção de uma nova vida; nela não há o menor vestígio literário, embora não seja despida de sentimentos humanos.

O mesmo Robb diz que as cartas de Rimbaud eram mais acuradas na análise dos países que visitou na África do que inúmeros relatórios diplomáticos e que as cartas teriam influenciado a visão da França sobre o mundo estrangeiro. Como o senhor acha que deve ser lida a correspondência de Rimbaud? Qual é a conexão mais evidente dela com sua obra poética?

R – Sob certo aspecto, a correspondência “africana” é a negação da obra poética de Rimbaud. Seu espírito observador, a sua capacidade de expressão certamente fazem de seus relatórios documentos preciosos da historiografia de viagens; há passagens bem mais explícitas e detalhadas do que os estudos geográficos da época; mas nada encerram do que chamamos de literatura, algo que era a nota dominante de sua correspondência nos chamados “anos literários” (vide, por exemplo, a “Carta do Vidente”).

Nas suas palavras, o que a correspondência publicada agora pela Topbooks revela sobre Rimbaud?

R – Tudo, principalmente tudo sobre o “outro” Rimbaud, o que deixou a literatura no auge quando a maioria ficaria colhendo os louros de suas conquistas, aparecendo nos jornais e nas livrarias, possivelmente até ganhando algum com a venda de seus livros, além de se tornar uma “figura notória”. O que a correspondência revela, principalmente, é a outra face de sua personalidade, a determinação de ganhar dinheiro, voltar para viver de rendas, casar-se, ter um filho e fazer dele um engenheiro (ou seja, o oposto de um literato).

Robb escreveu sobre Rimbaud dizendo que “poucos poetas lucraram tanto com má poesia”. Em meio à produção de Rimbaud, existem versos ruins? (É uma pergunta estranha, mas ninguém costuma falar sobre a parte da obra que não é genial.)

R – É preciso interpretar de maneira correta as palavras de Graham Robb, que aliás não é autoridade reconhecida da obra de Rimbaud; você não vê essa afirmativa em nenhum dos grandes especialistas do assunto, como Alain Borer, Yves Bonnefoi, Jean-Jacques Lefrère, Pierre Briunel, André Guyaux, etc. A produção poética de Rimbaud, da primeira fase, a partir de “Sensação”, é uma espécie de escada de excelência, ou seja, cada um dos poemas é mais “conseguido”, mais avançado, tecnicamente mais perfeito que o outro, até atingir os zênites de “Memória” e “O barco ébrio”. A segunda fase, os chamados Novos versos e canções, encerra alguns dos mais importantes poemas da literatura francesa, e, finalmente, as Iluminações, que até hoje são consideradas ponto de referência de toda a poesia moderna. Talvez o que Robb quisesse equivocamente dizer é que, na edição da obra de Rimbaud, ela própria muito reduzida, os organizadores transcrevem poemas-brincadeira, como o chamado Album Zutique e outros fragmentos que, na verdade, não são poesia, mas divertimentos rimados. Pode-se também arguir que alguns dos versos da quase-infância, quando Rimbaud ainda imitava Hugo e Banville, sejam medíocres, e são; sua presença na coletânea serve talvez para mostrar o “salto qualitativo” que um menino é capaz de dar ao passar dos 14 para os 15 anos.

Como se deu seu primeiro contato com a obra de Rimbaud? Ao longo das décadas, o que o manteve interessado no poeta de Charleville?

R – A história é longa e não vale a pena repeti-la aqui. Sintetizo: o primeiro poema de Rimbaud que li foi o “Soneto das vogais”; traduzi-o e levei-o ao Suplemento Dominical do Jornal do Brasil (aí por 1955) que me acolhera em sua redação. Fiquei sabendo que o poema já havia sido traduzido diversas vezes e me aconselharam a traduzir os versos rimados que aparecem na Estadia… (que eu não conhecia.) Comprei o Arthur Rimbaud – Poètes d’Aujourd’hui, de Claude Edmonde Magny, edição Seghers. Era uma antologia, mas a leitura da Estadia me transtornou e me prometi que, mais tarde, haveria de traduzi-la. O que me manteve interessado na obra ao longo de décadas foi a decisão de traduzir a obra completa e a leitura das duas centenas de livros que tenho sobre o assunto.

A primeira tradução de Uma estadia no inferno foi publicada em 1970. Desde então, o senhor verteu ao português toda a obra de Rimbaud – missão concluída agora, com a edição da Correspondência pela Topbooks. Depois de tanto tempo dedicado à obra de Rimbaud, eu poderia perguntar que marcas esse trabalho deixou no senhor?

R – A minha foi em 1977. Antes de mim, Xavier Placer em 1952 traduziu-a como Uma estação no inferno e Lêdo Ivo, em 1957, como Uma temporada no inferno; homenageei esses dois pioneiros (e mais o português Mário Cesariny de Vasconcelos) dedicando-lhes o segundo volume, Prosa Poética. Deixou-me o conhecimento de um grande poeta, a satisfação de ter conseguido, ao traduzi-lo, produzir alguns belos versos que eu adoraria fossem só meus. Deu-me, é certo, muito trabalho traduzir, rever minuciosamente cada reimpressão, falar a respeito, manter-me em dia com o que ia aparecendo sobre ele.

Para o senhor, quem é Arthur Rimbaud?

R – Um jovem poeta genial.

 

AS CONTRADIÇÕES EM QUE RIMBAUD SE METEU

Sandra M. Stroparo*, especial para a Gazeta do Povo

No período que passou em Paris, em torno dos 17 anos, Rimbaud conseguiu algum respeito literário, mas não deixou boas lembranças entre muitos dos intelectuais da época; mais por conta de sua excessiva juventude e atitude rebelde e impudente nas reuniões de que participou do que necessariamente por sua obra, pequena e praticamente desconhecida da maioria. Mas enquanto passava seus últimos anos de vida na África e já tinha, havia muito, parado de escrever, seu nome se fazia na Europa, em grande parte graças a Paul Verlaine – embora eles não mais se falassem – que, de posse de muitos de seus textos, fez todo o possível para vê-los publicados. Naquele momento, no vácuo criado pela morte de Victor Hugo e Baudelaire, a poesia francesa definiu muito do que seria a literatura do século seguinte. Os novos autores já estavam por ali, procurando ocupar os espaços recém-abertos com obras novas, inúmeras revistas e meetings poéticos.

Em 1883, Verlaine publicou Les poètes maudits, um texto crítico e de apresentação de pequenas antologias, que não apenas definiria nomes importantes da época como acabaria também por fundar essa quase instituição moderna que é o “poeta maldito”. Rimbaud é posto entre Corbière, Mallarmé, Villiers de l’Isle Adam e o próprio Verlaine (sob o pseudônimo de Pauvre Lelian), e os comentários do autor somados à pequena amostra de poemas são suficientes para que sua fama se consolide e que seu nome suporte a passagem do século.

O início da formação de sua fortuna crítica foi tumultuoso e contraditório. Isabelle Rimbaud, irmã do poeta e católica convicta, fez esforços consideráveis, incluindo mutilação, destruição e ocultação de partes da obra, para que seu irmão entrasse para a história, sim, mas segundo suas convicções religiosas. Essa atitude, obviamente não respeitada por Verlaine, criou uma oposição que chegará alguns anos depois a um duplo Rimbaud: um católico, da leitura de um Paul Claudel e de outros estudiosos, que enxergavam em Uma temporada no inferno a mais substancial afirmação moderna do cristianismo; e um outro que permaneceu, o herético que será escolhido, por exemplo, pelos surrealistas.

E esse é só um dos exemplos das contradições em que Rimbaud se meteu. Vivo, não mediu meios para viver todos os opostos possíveis. Morto, sua biografia e sua obra alimentaram vários caminhos opostos. Mallarmé, que definiu o poeta como alguém com rosto de anjo e mãos de lavadeira, foi secundado por Leyla Perrone-Moisés, em Inútil poesia: “O ‘anjo’ era porco e mal-educado; o ‘rebelde’ era o primeiro da classe; o ‘marginal’ pedia a aprovação do establishment literário, que o reconheceu e homenageou de imediato; o ‘comunista’ teria apenas usado essa máscara para fins interesseiros; o ‘aventureiro’ posterior era um empregado exemplar, obediente, poupador e bastante aborrecido com a vida que levava; o ‘inimigo da família’ compactuava com a mãe-megera para sabotar o casamento do irmão com uma mulher inconveniente…”. Longe de atrapalhar, essas incongruências só o ajudaram, talvez porque ao mesmo tempo em que ele revelava o aborrecido e uniforme mundo burguês, se prestava para ser o rebelde radical que nem todos queriam ou podiam ser. E isso foi, em alguma medida, poeticamente romântico.

Ao lado de Lautréamont, poeta ainda mais desconhecido que ele durante o século XIX, Rimbaud é citado como referência no primeiro Manifesto Surrealista, de 1924. Sua biografia e bibliografia são igualmente responsáveis por isso: “Rimbaud é surrealista na prática da vida e no resto”, afirma André Breton. Daí para frente, sua obra será aos poucos estudada e integrada completamente ao cânone modernista.

Em 1931, em O castelo de Axel, Edmund Wilson tenta entender a poesia moderna e vê-se compelido a buscar em Rimbaud e Villiers de l’Isle Adam algumas das origens da explosão poética que “explicaria”, ou teria possibilitado, obras como as de Gertrude Stein, Eliot e Joyce. Para um leitor de língua inglesa como ele, essa pesquisa possuía um sentido maior, pois não era apenas uma tentativa de compreender influências, antepassados e sucessores literários, mas de tentar explicar o que havia na literatura francesa do final do século XIX que foi descoberto por esses que seriam os primeiros grandes autores do século XX. E é claro que ele não chega a uma conclusão única (na verdade afirma que tudo estava lá, na poesia inglesa, mas com menos estrondo…), mas, ainda uma vez, a vida de Rimbaud é relevante, por representar uma opção diferente da que fez a maioria dos outros autores — e Wilson também o compara especialmente ao personagem recluso de Villiers, Axel —, cloróticos que renunciaram ao mundo exterior.

Se a vida o catapultou para o panteão dos mitos durante o século XX do guitarrista Jimi Hendrix, sua obra se garantiu entre os autores que forjaram a liberdade poética desse tempo. Mesmo Mallarmé já tinha falado da força — entre o perverso e o exótico — do seu verso. De modo geral o enquadraram entre os simbolistas, principalmente por violentar o ritmo e a métrica da poesia francesa indo até o poema em prosa: Iluminações e Uma estadia no inferno são seus textos mais violentamente modernos. Nessas obras, no entanto, a clareza e a lógica sintática é que seriam abandonadas, atendendo ao chamado da época: “dar um sentido mais puro às palavras da tribo”.

Nesse processo de corrupção da linguagem aparecem a despersonalização moderna: o “eu” que é um outro, a defesa do feio como motivo de arte, o tratamento imoderado entre imaginação e realidade, a cidade como espaço preferencial, a ridicularização das tradições. A caracterização de simbolista não é unânime: apesar do poema em que dá cores às vogais, seguindo um pouco a ideia das correspondências de Baudelaire, a poesia de Rimbaud não cabe facilmente em nenhuma categoria. A coerência que ele talvez tenha para oferecer seja o violento e idêntico vigor com que regeu ora a vida, ora a obra.

*Sandra M. Stroparo é professora de Literatura na Universidade Federal do Paraná.

GAZETA DO POVO
Curitiba
30/03/2010

Ivo Barroso é poeta e tradutor, entre outros, de “Arthur Rimbaud – Poesia Completa”.

 

CARTAS DE UM VISIONÁRIO

 

Chega às livrarias Correspondência, o terceiro e último volume da obra completa de Arthur Rimbaud. O tradutor Ivo Barroso comenta a evolução do poeta até atingir o ponto mais alto: Iluminações, com os primeiros versos livres.

Desde o começo do século 20, quando os teóricos russos alcunhados de formalistas deram plena autonomia à literatura — instituindo assim os preceitos da crítica literária moderna — evita-se estabelecer a relação de causa e efeito entre a vida do autor e sua obra. Entrementes, o antigo modelo persiste de modo didático nos mais variados métodos de ensino. Como se pudesse abalizar a obra, a leitura de certos autores inicia-se pela sua biografia; cada linha escrita seria forçosamente fruto de algum fato peculiar na existência do escritor.

No caso de uma vida revolta e múltipla como a de Arthur Rimbaud, a análise da obra dificilmente escapa à associação com sua biografia. Um dos grandes expoentes da poesia francesa, Rimbaud realizou o sumo de sua produção literária entre os 15 e 21 anos, para logo depois dar-lhe as costas e ir à África negociar café, marfim e o que pudesse torná-lo rico (“não tenho a intenção de passar minha vida inteira na escravidão”). As muitas histórias criadas em torno dos excessos que cometeu em sua vida literária, suas andanças, sua problemática relação com o poeta Paul Verlaine e principalmente as muitas e contraditórias interpretações sobre seu rompimento com a poesia, tornam o mito em torno do enfant terrible (o menino terrível, como foi alcunhado) cada vez maior e mais vivo.

Em Arthur Rimbaud: Correspondência, lançado pela editora Topbooks — e traduzido pelo sempre competente Ivo Barroso —, contempla-se pela primeira vez no país a totalidade da correspondência do poeta. A importância do livro reside, entre outros fatos, em observar as profundas mudanças acontecidas em Rimbaud por meio de suas próprias palavras e percepções. As cartas desfazem, assim, boa parte de toda a mística frouxa que acompanha seu nome.

Além das cartas escritas por Rimbaud, é possível conferir toda a troca de correspondência entre ele e Verlaine (no capítulo “Intermezzo verlainiano”), mais os chamados “Depoimentos de Bruxelas”, relativos ao processo criminal decorrente do célebre episódio ocorrido em julho de 1873: Verlaine atirou contra Rimbaud, que foi atingido no pulso. O relacionamento tempestuoso dos dois foi adaptado para o cinema pela diretora Agnieska Holland no filme Eclipse de uma paixão, estrelado por Leonardo DiCaprio.

Identificada como a primeira obra literária de Rimbaud, uma composição em versos latinos – hoje perdida – foi enviada aos 14 anos ao príncipe Louis (12 anos à época) por conta de sua primeira comunhão. A largada da Correspondência realiza-se justamente com o relato de Édouard Jolly, estudante de filosofia contemporâneo do escritor; “… acaba de enviar uma carta de 60 versos latinos ao jovem Infante príncipe imperial a propósito de sua primeira comunhão. Ele mantinha isso dentro do maior segredo e não mostrou esses versos nem mesmo ao professor; daí ter cometido alguns barbarismos condimentados com alguns versos mancos”.

Aos 15 anos, Rimbaud conhece Georges Izambard. O novo professor de retórica de sua provinciana cidade, Charleville, reconhece nele uma invulgar vocação poética, tornando-se seu amigo, confidente e fonte de empréstimo de um considerável número de livros. Em agosto de 1870, Izambard viaja, deixando sua biblioteca à disposição do jovem poeta. Em carta do dia 25 deste mês, Arthur reporta-lhe o tédio que tem sentido, e diz ter-se valido de grande parte dos livros do amigo, inclusive do Quixote de Cervantes; “ontem, passei em revista por duas horas as gravuras de Doré: agora não tenho mais nada!”.

Carta do vidente

Menos de um ano depois, em maio de 1871, Rimbaud (com 16 anos) envia a um amigo de Izambard, Paul Demeny, sua carta mais conhecida, a Lettre du Voyant: Carta do vidente. Um dos elementos fundamentais do esclarecimento de seu gênio e de suas teorias poéticas, esta carta insinua-se como um ensaio sobre a evolução da poesia francesa, sobre os novos pensamentos e atitudes do poeta (“o racional desregramento de todos os sentidos”) e estampa quase uma coletânea de máximas do escritor (é daqui que surge a famosa “Eu é um outro”).

Em setembro do mesmo ano, ele deixará Charleville rumo a Paris para conhecer Paul Verlaine, àquela época o poeta mais importante da França. Às vésperas da partida, escreve Le Bateau Ivre (O barco ébrio), uma de suas obras-primas. As mudanças ocorridas na vida de Rimbaud se sucedem em ritmo brusco e em curtos espaços de tempo. Por meio de suas cartas, acompanhamos, em menos de uma década, o iniciante poeta que pede conselhos tornar-se um grande inovador da poesia — cônscio de seus métodos e de seu ofício — para, logo em seguida, tornar-se outro.

Como lembra o poeta e tradutor Dirceu Villa: “Há ainda muitas coisas a mudar na leitura mais superficial de Rimbaud. As cartas mostram, também, a via crúcis de um poeta genial, na capital da poesia à época (Paris), para receber alguma atenção. Isso não mudou. Os grandes poetas vivem a mesmíssima coisa ainda hoje, embora nossa época goste de pensar que essas injustiças são todas do ‘passado’ ”.

 

Entrevista com Ivo Barroso

“Rimbaud abriu as portas do futuro”.
“O encontro de Rimbaud e Verlaine foi um acidente desagradável para ambos”.

Como conheceu Rimbaud e decidiu dedicar-se à tradução de sua obra completa? 
Foi curioso. A história é longa e, se você não se importar, vou contá-la toda…

Pode contar, é claro. 
Por volta de 1954, nós tínhamos o suplemento literário do Jornal do Brasil. Ele era dirigido pelo Reynaldo Jardim e lá trabalhavam o Mário Faustino e o Ferreira Gullar. Eu acabei entrando para equipe por conta de um soneto do Rilke que traduzi. Um dia, vi numa antologia aquele soneto das vogais do Rimbaud. Eu não conhecia nada dele a não ser aquilo (tinha lá os meus 20 anos). Então levei para eles uma tradução minha do soneto das vogais. Mas, como muita gente já o havia traduzido, pediram-me para eu arrumar outra coisa. Eu, nessa altura, estudava letras, e fui a uma livraria de livros em francês, próxima à faculdade, e encontrei um livrinho do Rimbaud. Era uma espécie de antologia com biografia, e abri aquilo e fui dar em Une saison en enfer (Uma estadia no inferno, na tradução de Ivo). Eu fiquei absolutamente alucinado. Que coisa espantosa!

E depois? 
Reynaldo Jardim me disse que o Ênio Silveira queria que ele traduzisse a Saison, mas ele não tinha disposição nem tempo para isso. Propôs que eu a fizesse e eu disse: “Você está doido, aquilo é muito difícil”. (risos) Mas o Ênio me telefonou, insistiu, e eu topei fazer a tradução. Ele publicou uma edição feiíssima com uma cobra na capa (risos). A coisa formidável é que acabei conhecendo Alceu Amoroso Lima (o Tristão de Athayde), que era quem mais entendia de Rimbaud no país. Levei para o Ênio e ele ficou de editar, isso foi no fim de 1972, só saiu em 1977, o livro então ficou cozinhando na gaveta da censura. Aí, depois desse primeiro impacto – eu quase morri para traduzir a Saison – eu quis ler tudo do Rimbaud e fui me empolgando cada vez mais. Daí, botei na cabeça que queria traduzir a poesia completa: era uma missão, eu tinha que traduzir tudo que esse cara escreveu.

Todos consideram um dos maiores mistérios da literatura o fato de Rimbaud ter abandonado a escrita. Isso não seria apenas coerente com a personalidade dele? Uma vida cheia de mudanças bruscas… 
Ele foi o maior poeta. Tinha noção, certeza, consciência de que havia atingido o máximo. Tanto assim que, ao estudar a poesia dele, percebe-se que ele vai evoluindo de poema para poema, até chegar nas Iluminações. E mesmo nas Iluminações, em patamar altíssimo, tem umas que são ainda mais altas do que as outras. E, com o senso crítico que tinha, ele escreveu entre os 16 e 17 anos aquela carta do vidente, que é uma análise de toda a literatura francesa; com o senso crítico que tinha, ele deve ter pensado: “Além disso eu não vou, nem eu, nem a poesia; não tem mais aonde ir”.

Então você acha que o abandono foi muito mais pela consciência de já ter dado o máximo? 
O abandono da poesia dele foi consciente. Ele tinha certeza de que não podia ir além. Tinha chegado ao topo. Se ele continuasse, iria se repetir e não abriria mais nenhuma porta. Ele abriu a porta da poesia moderna: nas Iluminações há os primeiros poemas em versos livres. Então, ele já abriu as portas do futuro.

Falando em verso livre, na Carta do vidente Rimbaud diz que Baudelaire é “um verdadeiro deus”. Podemos dizer que os Pequenos poemas em prosa de Baudelaire pariram  Uma estadia no inferno?
Rimbaud foi muito mais além. Ele achava o Baudelaire um verdadeiro deus dentro da literatura francesa, só que ele usava uma linguagem que não era moderna. Rimbaud achava que a ideia do Baudelaire era extraordinária, mas estava sendo expressa por uma língua que ainda não era a língua poética com que Rimbaud sonhava. Então ele deu o grande salto. E fez coisas absolutamente modernas e altamente poéticas com as Iluminações. Ali, para mim, é o máximo dos máximos.

E quanto ao encontro entre Rimbaud e Verlaine, como foi a influência poética? 
Rimbaud tentou, como ele várias vezes fala, transformar o Verlaine num filho do sol. Isso quer dizer: iluminá-lo no sentido de torná-lo capaz de fazer uma poesia tão de vanguarda e tão avançada quanto a dele. Não conseguiu, de jeito nenhum. Os livros posteriores, até a velhice, são livros que não têm nenhum valor comparados com a primeira parte da poesia dele. E o Rimbaud não pegou nada da melodia da poesia do Verlaine porque já tinha a sua melodia própria. As canções finais, que alguns acham até que são canções religiosas, são melódicas, mas é de uma melodia extremamente moderna, não tem nada a ver com aquele pieguismo sonoro do Verlaine. Não há nenhuma influência de um sobre o outro. O encontro foi um acidente desagradável na vida dos dois. Porque o Verlaine poderia ter tido uma carreira muito mais realizada do ponto de vista da poética, e o Rimbaud poderia hoje ser muito mais lido na sua obra do que essa coisa boba das novas gerações de ficarem preocupadas com a biografia dele.

Você já traduziu Blake, Malraux, Breton, Hesse, Strindberg, Svevo, Calvino e tudo de Rimbaud… E agora?
Agora, acabou. Igual ao Rimbaud, que chegou aos 21 anos e falou: “Não tenho mais nada para fazer”. Eu cheguei à idade dos 80. Também não tenho mais nada para fazer.

A missão de tradutor está completa?
Eu espero que sim. Mas sabe como é… a gente é sensível a seduções. Se o editor miserável chegar e disser: “mas você não traduziu fulano de tal…”, eu sou capaz de quebrar o compromisso comigo mesmo de encerrar (risos).

FOTOS E DESENHOS

A edição bilíngue da Poesia completa de Rimbaud (Topbooks) foi lançada no Brasil pela primeira vez em 1994. Dez anos depois, por ocasião dos 150 anos de nascimento do poeta, ganhou nova edição. A Prosa poética de Rimbaud, por sua vez, foi lançada pela mesma Topbooks em 1998, e rendeu a Ivo Barroso o Prêmio Jabuti de melhor tradução do ano. Agora, em Correspondência, estão incluídas 28 ilustrações, entre elas fotografias feitas pelo próprio Rimbaud na África, além de desenhos feitos por ele, por sua irmã Isabelle e por Paul Verlaine.

  

As duas vidas de Rimbaud

Ivo Barroso 
especial para a Folha

Muitos leitores poderiam esperar deste “Rimbaud, o Filho”, do escritor francês Pierre Michon, uma análise do relacionamento entre o poeta de Charleville e seus pais; o “desertor” capitão Rimbaud e sua mulher, a amarga e forreta Vitalie Cuif. Entre os livros “convencionais” de estudos rimbaldianos -pitorescamente denominados “Vulgata” por Michon-, há pelo menos três que tratam diretamente do assunto: “Madame Rimbaud”, de Françoise Lalande; “Rimbaud et Son Père”, de Charles Henry L. Dodenham; e “L’Adolescent Rimbaud”, de Robert Montal. Mas em todos eles o que se pretende é levantar feitos e ações, ao passo que Pierre Michon está mais voltado para efeitos e emoções.
Por isso, o “filho” do título tem para ele um sentido mais amplo e quase antitético: Rimbaud não é apenas o filho do casal Frédéric/Vitalie, mas o filho espiritual de Hugo, de Banville, de Izambard -enfim, o filho da literatura- e é, ao mesmo tempo, o pai da poesia por ter conseguido superá-los, ultrapassá-los e de fato expressar aquele “frisson nouveau” que Victor Hugo atribuía a Baudelaire.
Daí ter escrito um livro sumamente singular, cheio de tensão, como se fosse o depoimento de alguém que estivesse observando Rimbaud ao vivo ou, mais que isso, penetrando e decodificado seus sentimentos íntimos e suas reações aparentemente ilógicas.
E o faz num estilo que é ao mesmo tempo surreal e realístico, que prima pela originalidade, representante da nova literatura francesa, ainda que o relato venha repassado de referências extraídas da obra do poeta ou hauridas nas páginas incontáveis da vulgata.
A maior ousadia que conhecemos neste campo até agora é a “autobiografia” de Rimbaud, uma vida de Rimbaud escrita na primeira pessoa, de autoria do escritor alemão Henning Boëtius, “Ich ist ein anderer” (“Je est un autre”), em que o autor se esmera por assumir a “personna” de Rimbaud e soar por meio dela com a força do “gamin”, embora não raro faça sobressair a posada vulgaridade deste em detrimento de sua autêntica genialidade.
Pierre Michon quis um pouco mais que isso: descobrir a razão que faz de Rimbaud a própria imagem da poesia. Desse Rimbaud misterioso e enigmático, em torno do qual há pelo menos dois momentos que intrigam todos os seus leitores e estudiosos: 1) Por que deixou de escrever?; 2) Por que uma mulher tão sovina e beata quanto Vitalie Cuif teria emprestado ao filho dinheiro para publicar um livro tão estranho quanto “Une Saison en Enfer”. Michon dá seu parecer, no livro, sobre a primeira questão.
Acha que Rimbaud descobriu não muito a tempo que a verdadeira vida não estava na poesia, mas sim no dinheiro (“que o verbo não era esse passaporte universal com o qual sonhara” e “percebeu um pouco tarde que só o ouro tinha alguma chance de ser essa senha”), e por isso tratou de amealhá-lo no famoso cinturão, à custa de mil sacrifícios.
A hipótese aproxima-se bastante daquela que admite ter o poeta vivido duas vidas consecutivas: uma dedicada à poesia e outra aos negócios, à semelhança desses jovens que são anarquistas aos 18 e “zangões” da Bolsa aos 20. Acha, ainda, que “ele parou de escrever porque não pôde tornar-se o filho de suas obras, ou seja, aceitar a paternidade delas”. Hipótese que revela o terreno imponderável por onde não raro caminha a narrativa.
Contudo, o autor elabora em torno desse e de outros pontos-chave da biografia rimbaldiana com um impulso jubilatório que consegue provocar no leitor uma cumplicidade de pensamento e de visão, fazendo deste uma espécie de comparsa ou testemunha de suas fantasias. Um livro de impressões, é certo, mas escrito com aquela “devoção” que é quase impossível de ser reprimida por todos os que mergulham nesse assunto.
Se ainda não é o livro que o leitor mais exigente espera, capaz de superar toda a vulgata e soar com a força daquela “linguagem universal” com que sonhava o poeta, é pelo menos um livro que se coloca à margem dos estudos universitários ou mesmo das análises pseudopsicológicas, no qual podemos distinguir um Rimbaud realmente dotado de neurônios.
Rimbaud, o Filho
112 págs., R$ 18,00 de Pierre Michon. Tradução de Juremir Machado da Silva. Ed. Sulina (r. Cel. Genuíno, 290, CEP 90010-350, Porto Alegre, RS, tel. 0/xx/51/228-1966).

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Podemos dizer que este é um livro ímpar na pletórica bibliografia de Rimbaud: é, ao mesmo tempo, uma biografia, uma coleção de cartas e um compêndio de notas e observações – tudo num único volume. Ao traduzir a correspondência de Rimbaud, não nos restringimos às cartas (aliás importantes) de sua juventude; mas preservamos, de maneira especial, aquelas menos famosas, que ele escreveu aos seus familiares (no caso, a mãe e a irmã, às quais chamava de Caros Amigos) nos onze anos em que se auto-exilou na África (1880-1891). Nelas, Rimbaud evidencia seu abandono definitivo da literatura: não há nenhum vestígio do fabuloso estilista das obras primas de Charleville. O je era aqui un autre, a bem dizer o seu antípoda.  Rimbaud pensa em viver uma outra (nova) vida: trabalhar muito para ficar fico e poder viver de rendas; casar-se; ter um filho ao qual transmitiria os verdadeiros princípios de uma existência real. Chega mesmo a cumular fortuna e traz suas moedas de ouro e prata num amarrado que não tira da cintura nem mesmo para dormir. As primeiras remessas de dinheiro para casa seguem com a orientação de que devem ser aplicadas a juros, mas a mãe – camponesa – acaba comprando mais um alqueire de terra para futuro desespero de Rimbaud.

Eis o que escreveu sobre este livro o editor da Topbooks:

 

AS CARTAS DE RIMBAUD

 

Com este volume – Correspondência – A TOPBOOKS encerra a publicação da Obra Completa de Rimbaud , depois de proceder à reedição dos tomos anteriores, Poesia Completa e Prosa Poética. Fica assim o leitor brasileiro, a partir de agora, na posse de tudo o que foi escrito pelo gênio de Jean-Nicolas-Arthur Rirnbaud, desde seus primeiros trabalhos escolares de 1864 até a última carta, ditada à sua irmã Isabelle, já em seu leito de morte no hospital de Marselha, em 1891.

Tendo rompido com a poesia quando tinha apenas 21 anos, depois de vaticinar em Uma Estadia no Inferno: “Força é que um dia eu me vá para bem longe, pois tenho que ajudar os outros, é meu dever” – o poeta de Charleville empreende, a partir de 1880, uma série de viagens pelo Oriente, numa errância que iria durar 11 anos, durante os quais buscou desesperadamente acumular riqueza para se tornar independente e ajudar os seus. Com esse gesto, assume uma personalidade irreconhecível para aqueles que só o apreciavam literariamente. Com ela pareceu adquirir – ainda conforme suas palavras premonitórias em Une Saison – o segredo de “mudar a vida”, ou, neste caso, mudar devida (Du musst dein Leben andem; diria Rilke bem mais tarde), pois essa “existência africana” pode ser considerada a antítese daquela anterior, em que buscava uma realização meramente literária, entregue tão só às aventuras do espírito. Estas duas vidas, estas existências opostas podem ser aqui observadas na leitura integral de sua correspondência: as chamadas “cartas da vida literária” (período que vai de 1870 a 1875) contrapostas às cartas africanas” (que abrangem de 1880 a 1891).

O abandono da literatura, no caso de Rimbaud, foi realmente total. Depois das culminâncias poéticas das Iluminações – as últimas das quais são datadas por alguns estudiosos como sendo de 1875 – nada escrito por ele foi encontrado que se possa classificar de “poético”. O que deixou de seu punho após essa data são apenas estas cartas dirigidas aos familiares, a uns poucos amigos e a seus associados comerciais, escritas sem preocupação estilística, meramente noticiosas, informativas. Mesmo em duas ocasiões, ao publicar no jornal Le Bospboie Égyptien, do Cairo, em agosto de 1887, o relato de sua viagem do Choa ao Harar, a linguagem usada é antes a de um explorador, a de um observador geográfico, do que a de um ex-poeta. E quando escreve, com o intuito de ser editado em Paris, uma “reportagem” para ser enviada à Sociedade de Geografia, nem mesmo assim o tom sobressai do convencional- científico para adquirir uma fulgurância qualquer de sua antiga “prosa de diamante”.

Face a esse quadro, poderia o leitor imaginar que a leitura     dessas últimas cartas não encerra qualquer valor a acrescentar à obra do poeta. Mas pode se dizer, ao contrário, que elas são a reafirmação de sua obra, sua transposição para a própria vida. São a outra face da moeda, o complemento de um todo, pois nos permitem conhecer (e admirar) um outro Rimbaud (Je est un autre!), que procede na vida real com a mesma obstinação que teve em sua vida literária: lutando pela auto-superação, para ir sempre mais longe c mais além, para fazer o que o homem ainda fizera. É a continuação de seu velho sonho de adolescente, a sua transformação em realidade, a conquista de sua independência, daquela “liberdade livre”, que vem então a admitir como possível apenas pelo acúmulo de riqueza.

Apesar dessa mudança literal, pode-se perceber nesta leitura que o novo Rimbaud, o aventureiro, o explorador, o comerciante de produtos primários, e até mesmo o vendedor de armas, continua a manter um vínculo afetivo (disfarçado em distante formalismo) com os seus íntimos, a mãe e a irmã, às quais se dirige como “caros amigos”. A elas conta suas andanças, suas atividades, seus negócios, seus desejos e frustrações. E lhes pede livros com a mesma fome do leitor de outrora, só que então com o objetivo único de se preparar para o exercício de suas múltiplas ocupações. Com o passar do tempo, contudo, Roche, a casa materna – o porto para o qual velejava depois de todas as suas tempestades – já não atende ao seu desejo de pouso permanente, embora pense uma ou outra vez em voltar, casar-se, gerar um filho. O clima tropical já se apossava de seu corpo, a solidão lhe conquistara a alma. 
E a volta final se dá nas circunstâncias e condições mais terríveis pelas quais pode um ser humano passar, descritas, ainda desta vez, sem o menor rebique literário, num relato factual e quase impiedoso. Em suma, pode-se dizer que estas cartas são a réplica viva da Saison, a segunda passagem – agora real, inquestionável- por um inferno em vida.

A Topbooks tem o privilégio de apresentar pela primeira vez ao público brasileiro a edição integral dessa correspondência de Rimbaud, acrescida de comentários e notas que visam a dar ao leitor o conjunto das circunstâncias em que tais cartas foram escritas e esclarecê-lo sobre termos ou passagens que lhe poderiam parecer obscuras. Quis ainda o organizador deste volume – seu tradutor e comentarista – que a linguagem destas cartas acompanhasse fielmente a maneira direta e coloquial em que foram vazadas, sem melhorá-las, nem corrigi-las, mantendo a espontaneidade do original.

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PARABÉNS SILENCIOSOS

 

Todos os anos nesta data eu corria para o telefone a fim de dar os parabéns ao meu irmão Ney pelo seu aniversário. Ele não gostava de receber parabéns e era lacônico nos agradecimentos. Talvez tivesse demasiada consciência de que não estava fazendo mais um ano de vida e sim que a vida lhe estava tirando mais um ano de existência. Mesmo assim esperávamos que a cena fosse repetir-se uma imensidão de vezes, gostasse ele ou não dos cumprimentos. Hoje estaria completando 86 anos. Infelizmente a sequência se quebrou no dia 25 de junho de 2014, quando ele faleceu em consequência de uma operação de safena mal sucedida.  Agora, quando chega esta data o telefone permanece como um símbolo de silêncio, aquela eterna pergunta que nós os humanos fazemos em frente do mistério: Onde estará? Que é feito dele? Será que está ouvindo a nossa voz?…

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Este segundo volume das Obras Completas contém as duas maiores obras poéticas de Rimbaud: Uma estadia no inferno e Iluminações. Considerados os textos seminais de toda a poesia moderna, ei-los aqui em sua forma integral, fruto de anos de estudo e persistentes tentativas de aprimoramento.  Os poemas são acompanhados de uma infinidade de notas e comentários esclarecedores não só do significado dos versos, como das circunstâncias em que foram compostos e da interpretação de suas intenções, segundo o parecer e análise de vários e importantes comentaristas internacionais. Eis o que a respeito deste volume escreveu o crítico-poeta  Bruno Tolentino:


Ao recomendar este Volume II do Rimbaud de Ivo Barroso, meticuloso e monumental labor de toda uma vida, afugento certa sombra de tristeza: o quanto se tornou raro entre nós empresa deste porte e seriedade! Aos estertores finais de um de seus períodos mais acabrunhantes, a vida do espírito no Brasil continua repleta de homúnculos que não sabem que não sabem javanês. Como é notório, depois da “morte do verso”, a arte da tradução de poesia – essa lição de Mestres da estatura de um Machado, um Bandeira, um Abgar – tem sido arrastada na sarjeta mental dos mais ralos exibicionismos, confundida à mais apressada inépcia retórico-linguística.

Consequentemente, esta é uma obra de poucos pares em nosso atual circo tradutório. Na primorosa edição da Topbooks, o leitor encontrará todo o contrário de certa endêmica modalidade nossa da febre “traduziológica” Não há falhas de leitura, muito menos gaffes “transcriativas” nesta exemplar conjunção de duas nobres artes: a de escrever e a de re-escrever poesia. Aqui, Ivo Barroso, passé maître na arte de passar décadas a entender primeiro para traduzir depois, simplesmente (e magistralmente) apelle un chat un chat. Logo, por mero contraste, implicitamente chama a cada um de nossos Rollet un fripon ... *

Étiemble observa que até mesmo o mais dedicado leitor tem sempre algo a descobrir sobre um original com a leitura de suas grandes traduções. Posso testemunhar disso: minha redescoberta de Rimbaud deve muitíssimo às repetidas leituras que tenho feito das recriações de Ivo Barroso. Nisso estou em ótima companhia; com Didier Lamaison, por exemplo, que há pouco nos dizia haver voltado em profundidade ao seu Rimbaud da juventude precisamente ao compará-lo com o que dele Ivo faz em vernáculo. Dito isso, temo que estas paralelas (e não raro unidas) “alquimias do verbo” arrisquem valer, a autor e a coautor, o mesmo ressentimento conspiratório que cerca outro de nossos raros grandes recriadores de poesia, aquele Jorge Wanderley quase linchado por ter posto Dante Alighieri onde Ivo Barroso vem há décadas pondo o voyant de Charleville: na simbiose da mais elegante arte de nosso verso.

Mas não é tudo! Ao saudar a ressurreição em nosso idioma desta obra capital da poesia maior do Ocidente, no momento em que estabelecem definitiva residência em nossas letras, pergunto-me quem se  irá  reconhecer  nestas  páginas.  Em nosso  morno  purgatoriozinho poético, já não pergunto quelle ãme est sans défault, mas sim quem tem alma para ter defeitos … Onde andam nossos Rimbaud de hoje? Que é feito do espírito de poesia ao qual devemos um Cruz e Sousa, um José Albano, um Augusto dos Anjos e tantos mais? Haverá ainda quem se inspire na devoção de um Ivo Barroso e se importe em emulá-lo – e aos Leopardi, aos Baudelaire, aos Hõlderlin, aos Celan, às Dickinson, aos Mandelstam, aos Radiguet, aos Artaud?

Porque – Ô saisons, Ô châteaux! – quem não sabe, hoje, que nosso jovem poeta aspira mesmo é à mais velha profissão do mundo? Assistimos a um fenômeno que faria explodir de engulho o autor das Illuminations: perambula entre nós a mais estranha das aberrações, o jovem poeta-cortesão. Com tantas ávidas bolsinhas rodando em torno de tantas polpudas Bolsas, dir-se-ia que nosso gênio poético atual não pertence mais aos maudits, mas aos garotos de programa literário … E qual deles faria o que Ivo fez: passaria uma temporada no inferno, ou se daria conta de que “a verdadeira vida está ausente, e livre seja esse infortúnio?”

O adolescente francês cuja prose de diamant revive em português sua inexaurível juvência, sob os longos cuidados apaixonados de um verdadeiro poeta-tradutor, morreria de tédio em nossa atual Etiópia poética. Pois este livro, que uma alma atormentada arrancou das vísceras e um intelecto privilegiado pôs ao alcance de todos os que sabem que não sabem francês, dificilmente irá queimar as pestanas de nossos poetas-candidatos a isso e aquilo. Et pourtant … Se a Providência for condescendente conosco, fará com que alguém, em alguma parte do país, leia este formidável trabalho com a mesma agônica atenção que autor (há 125 anos) e coautor (durante várias décadas) puseram em sua fatura. Então, quem sabe, talvez venham a acontecer “cousas futuras” …

Como andam as “cousas”, tanto vale o que dizem as lousas: aqui faz, requiescat, cigit. Até que se impregnem das artes combinadas de Arthur Rimbaud ‘e Ivo Barroso, nossos vates seguirão trocando o Verbo pelas verbas, e fazendo de boy-behindthe-door um boi-berrando-de-dor. E haja boi-tempo, porque o ôba-ôba anda alegre, e Ia nave va. Mas creia-me, leitor: os autores jumelados desta renovada obra-prima da poesia culta, profunda, metafísica e universal não têm absolutamente nada a ver com isso.

 

                                                                                                                                                                          BRUNO TOLENTINO

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Alguns amigos, sabedores da minha tradução da obra completa de Rimbaud em 3 volumes (Poesia completa, Prosa poética e Correspondência), me escrevem perguntando onde encontrá-los.   Alegam que, ao procurarem a obra de Rimbaud numa livraria, recebem sempre como oferta um livreco da infame e suspeita editora Martin Claret, sob a alegação de que esta é a única obra do poeta que existe no mercado. Não é verdade: acho possível que se encontre algum volume avulso da minha tradução numa boa livraria, mas o certo mesmo é encomendá-la na Topbooks, editora da obra completa (telefax 21-2233-8718 e 2283-1039 – e-mail: topbooks@topbooks.com.br). No site da editora: www.topbooks.com.br há uma boa quantidade de informações sobre as obras, o autor e as críticas recolhidas a propósito dessas edições. Não estou aqui fazendo publicidade para a Topbooks, mas indicando o caminho das pedras aos leitores interessados. Segundo me informaram os editores, as vendas em livraria estão cada vez mais difíceis para eles, daí intensificarem o sistema da mala direta, garantindo-me que o livro adquirido diretamente na editora sai até mais barato que na livraria, pois concedem um desconto de 20% para cobrir as despesas com o frete.

Quando saiu o primeiro volume, em 1994, com uma festa no Centro Cultural Banco do Brasil, a qual durou toda uma semana, pronunciei uma longa conferência sobre Rimbaud, incluindo uma biografia do poeta, com o título de Flashes Cronológicos (1854-1891), que, por ser muito longa não poderei transcrever aqui. Mas reproduzo as palavras de apresentação do volume, escritas pelo editor José Mário Pereira, para que o leitor tenha uma informação sobre a importância da obra.

Arthur Rimbaud é um mistério humano e um enigma literário ainda não inteiramente decifrado, muito embora a indústria Rimbaud continue em grande atividade. Situar sua figura e sua obra no contexto da literatura francesa moderna tem sido a profissão da vida inteira de estudiosos de alta envergadura. Do mesmo modo, Rimbaud – encarnação da poesia e do próprio pathos do homem moderno – propõe um desafio permanente a todos aqueles que tentaram vertê-lo para outras línguas. 

Essa obra estranha e fundamental, que desde sua publicação fermenta a imaginação e a criatividade de outros poetas (Claudel, Paul Valéry, Auden etc.), compositores (Benjamin Britten, que musicou Les Illuminations, é um deles), e mesmo cantores populares (Léo Ferrê; por exemplo, canta “La Maline”), ainda não ganhou entre nós uma edição integral, muito embora poemas esparsos já se encontrem em português. Um estudo a ser feito é o da recepção de Rimbaud no Brasil e de sua influência em nossa poesia. Em princípio no entanto, percebe-se que Verlaine (este ganhou em 1945, o ano do seu centenário, uma bem cuidada edição das Poesias escolhidas, pela Globo, com tradução de Onestaldo de Pennafort) e Baudelaire (“roi des poètes, un vrai Dieu”, na expressão de Rimbaud, com três traduções brasileiras completas de suas Flores do mal) tiveram melhor sorte que ele. Eis aí uma questão sobre a qual a crítica brasileira não disse até hoje quase nada.  

A anemia nacional em relação a Rimbaud começou a findar quando, em 1973, o mineiro Ivo Barroso, poeta de fina sensibilidade, tradutor de raça e responsável pela execução de tarefas de extrema singularidade (traduziu Svevo, G. Perec, Italo Calvino e os sonetos de Shakespeare, entre outros), entregou ao público a sua versão de Une saison en enfer (Uma estadia no inferno), saudada por mestre Alceu Amoroso Lima como marco na história da tradução no Brasil. A certa altura de sua apresentação, escreve: “A tradução do poema, por Ivo Barroso, foi feita ao mesmo tempo com o maior respeito pelo pensamento do autor, na fidelidade aos mais sutis reflexos de sua expressão verbal, e com a constante preocupação de uma correspondência integral na linguagem vernácula mais depurada”.  

Dentro do mesmo espírito que sempre orientou o seu sacerdócio como tradutor, Ivo trabalhou nesta Poesia completa. Foram anos de dedicação absoluta, melhor dizendo, de obsessão integral, garimpando mundo afora livros, variantes, curiosidades sobre o poeta que, na expressão de George Steiner, “deixou sua impressão digital na linguagem, no nome e no temperamento do poeta moderno, como Cézanne o fez com as maçãs”.  

Referindo-se a Arthur Rimbaud, René Char identificou em sua obra uma qualidade fundamental: a invulnerabilidade. Para o poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz, a revolução perpetrada por este “drop-out da burguesia provinciana” francesa é a de que “seus poemas são crítica da experiência poética, crítica da linguagem e do significado, crítica do poema mesmo”.  Toda a poesia de Rimbaud, devido à habilidade e ao talento de Barroso, está aqui neste livro, sem dúvida ponto alto em nossa prática de tradução, e é mais um tento marcado por ele em seu projeto de pôr em português a obra completa do adolescente de Charleville, que espantou Paris com sua insolência e genialidade, viveu com Verlaine peripécias várias – que quase o mataram – e depois abandonou tudo por uma vida de aventura nos confins da África. Morto aos 37 anos, em 1891 – o ano em que veio à luz o Quinteto, op. 115 de Brahms, e em que Valéry publicou o seu Narcisse parle – foi adotado seguidamente por católicos, intelectuais de variadas facções, e mesmo pelo surrealismo.

Nem o cinema ficou indiferente a ele: em 1971, Terence Stamp, que antes protagonizara Teorema, de Pasolini, interpretou Rimbaud no filme Une saison en enier, de Nelo Risi. Já se falou da influência de Dante em sua obra, já se escreveu sobre a maneira como a leitura de Poe foi decisiva para a construção de Le Bateau Ivre (O barco ébrio, na elegante e precisa transposição de Ivo), e mesmo da presença de temas oriundos da tradição ocultista em sua obra. Agora mesmo Wallace Fowlie, seu tradutor em inglês, acaba de publicar um livro curiosíssimo, no qual identifica na personalidade e nas letras de Jim Morrison, o ousado vocalista do The Ooors, a presença de Rimbaud.

Quem ler o Rimbaud de Ivo não vai ter dúvidas: o poeta que um dia decretou a necessidade de se “reinventar o amor” encontrou, 140 anos depois de morto, o seu outro eu. É assim que os leitores ganham agora esta tradução exemplar, onde todos os ritmos, trocadilhos, assonâncias, elipses, e demais singularidades da poesia de Rimbaud foram respeitadas.

Voltaire, numa passagem das Cartas inglesas, comentando uma tradução sua de Pope, confessa não se sentir atraído pela tradução fiel, palavra a palavra. Essa observação, precursora das idéias de Pound, e a que nossos concretistas se referem como transcriação, não é receita cara a Ivo Barroso. Sua fidelidade ao texto levou Antônio Houaiss, o tradutor do Ulisses de Joyce, a falar em “reencarnação”. O testemunho geral de quem acompanhou o lento nascimento de Rimbaud em português depõe que o tradutor, nestes anos todos, em meio a compromissos e conferências, não parou de trabalhar, sempre em busca do vocábulo ou do verso preciso, e é sabido também que não foram poucas as vezes em que acordou aos saltos porque havia encontrado, em sonho, a solução que em vigília lhe tinha sido ingrata.

A TOPBOOKs e este seu envaidecido editor sentem-se honrados em entregar ao público leitor urna tradução dessa envergadura, sinônimo de profissionalismo, sensibilidade poética e rara disciplina intelectual.

José Mario Pereira (1994)

 

Capa: Adriana Moreno, sobre foto de
Rimbaud aos 17 anos, por Etienne Carjat.

 

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