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Archive for novembro \30\UTC 2013

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LEMBRANÇA DE MÁRIO FAUSTINO

 Os jovens leitores de hoje, que vêem emagrecer de dia para dia o espaço dos jornais destinado aos assuntos literários, estão longe de imaginar o que era o “Suplemento Dominical” do “Jornal do Brasil” nos últimos anos da década de 50: um caderno especial de 12 páginas, formato grande (60 cm x 40 cm), com paginação sofisticada, onde poemas inteiros eram transcritos com ilustrações e espaços em branco largamente utilizados em benefício da composição estética. Seu diretor, Reynaldo Jardim, inovador da feitura gráfica, paginador de vanguarda, estava aos poucos transformando um compósito de artigos sobre “artes” num conjunto homogêneo de assuntos literários.

Pouco a pouco foram sendo devidamente “aposentadas” decrépitas seções de balé e crítica teatral, conselhos domésticos e notícias literárias, cujos velhos colaboradores iam se queixar furiosos à condessa Pereira Carneiro da intromissão “desses jovens” nas searas em que vinham respigando (e ruminando) havia décadas. Mas o genro da condessa, Nascimento Brito, desejoso da remodelação do jornal, deu respaldo à turma do “Suplemento”, que conseguiu ultrapassar a crise.

Foi nesse espaço que apareceu, a 23/09/56, a página inteira denominada “Poesia-Experiência”, sob a assinatura de Mário Faustino, jovem poeta piauiense radicado em Belém, que logo em seguida se transformaria num dos maiores críticos literários do país. Se o “Suplemento Dominical” já era para os jovens poetas de minha geração leitura semanal obrigatória (para torná-lo ainda mais sui generis, o dominical saía aos sábados), com o aparecimento de Mário Faustino, a folha transformou-se em motivo de cult. Isso porque ele representava para nós tudo aquilo por que vínhamos ansiando: o mestre capaz de nos fornecer, da maneira mais dinâmica e atraente possível, as teorias de que necessitávamos e que não poderíamos adquirir fosse por falta de recursos financeiros, fosse por desconhecimento de suas fontes originais. Faustino ensinava Poesia, matéria que não estava nos tratados legíveis, e dela nos dava exemplos (exhibits em sua linguagem) que abrangiam desde os tempos clássicos greco-romanos ou mesmo de literaturas mais remotas como a chinesa, até as grandes vozes do presente (Rilke, Pound, Eliot) sobre as quais ouvíamos falar nas sem haver ainda ouvido (ou visto) o que diziam. Seus “Diálogos de Oficina” eram conversas imaginárias entre mestre e discípulo, ou entre dois interlocutores cultos, sobre a conceituação do ser e do fazer poéticos, expressos numa linguagem acessível, mas sempre elevada.

A seção “O Melhor em Português” antologiava e comentava os clássicos portugueses, e o “É Preciso Conhecer”, os grandes poetas estrangeiros em tradução. Havia ainda os “Subsídios de Crítica”, com trechos selecionados de mestres do gênero, principalmente os de língua inglesa, e a seção “0 Poeta Novo”, a que mais interesse despertava entre nós, pois Faustino convocava democraticamente os inéditos a colaborar, submetendo-os no entanto a uma seleção impiedosa.

Vítima de timidez aguda, estive várias vezes para lhe mandar minha colaboração, mas só me arrisquei quando Faustino passou a publicar e analisar alguns poemas traduzidos. Enviei-lhe o soneto 3 da primeira parte dos “Sonetos a Orfeu”, de Rainer Maria Rilke (Ein Gott vermags), e fiquei abismado e confuso quando, na semana seguinte, abrindo o suplemento, dei com o original e a tradução em “0 Poeta Novo”, tendo embaixo a seguinte nota: “0 poeta novo da semana apresenta-se com uma tradução. Alguns leitores poderão estranhá-lo. Nós, porém, somos dos que pensam poder haver tanta criação poética – ou mais – em uma tradução quanto num poema original. Algumas das obras mais importantes das maiores literaturas do mundo têm sido traduções…” Diante de tal acolhimento, ganhei coragem e fui visitar a redação do “Jornal do Brasil”, àquela época na avenida Rio Branco. Lá encontrei Reynaldo Jardim, Ferreira Gullar, Oliveira Bastos e Assis Brasil, mas Faustino não estava presente, só ia ao jornal uma vez por semana levar a página de “Poesia-Experiência”.

Poucos leitores o conheciam; na entrevista que deu a Ruth Silver para o mesmo “Suplemento”, em vez de se deixar fotografar, preferiu copiar a mão uns versos de Camões e de Pessoa.

Devia ser um velho sistemático, mas eu queria de qualquer forma agradecer-lhe a “promoção”. Reynaldo aconselhou-me a procurá-lo na Fundação Getúlio Vargas, onde trabalhava num departamento da ONU, e aconteceu que um dia resolvi aparecer por lá. Recebeu-me um colega dele, fiquei à espera junto à mesa em que havia um paletó e um bilhete escrito em francês: “Voltarei dentro de alguns minutos. Mário.” Logo chegou, muito jovem (eu esperava um senhor quarentão, Mário tinha apenas 26 anos, um ano mais novo do que eu), nada alto, rosto redondo, perfeitamente escanhoado, cabelo à West Point, fisionomia rosada de esportista, olhar vivo e brilhante, gestos um tanto nervosos -enfim, o inverso do que se convencionou ser o “tipo intelectual”. A conversa começou meio amarrada da minha parte, não conseguindo repetir o ensaiado discurso de agradecimento. Mário cortou curto. Não lhe devia agradecer. Não havia nenhuma concessão em sua escolha.

Perguntou-me se conhecia um verso de Pound: “A piedade matou minhas Ninfas” e falou-me algo sobre a honestidade na crítica de arte. Percebendo minha atitude de acólito, tratou de anular a impressão de que gostava de ser mestre. Estava procurando aguçar em todos nós o senso crítico através do conhecimento. Mas o gosto artístico, ou saber distinguir em arte, deveria ser a conquista de cada um com os recursos de que dispusesse. Pediu para ver outros trabalhos meus. Mostrei-lhe a tradução que tentava fazer da “Ode a uma Urna Grega”, de Keats, e Mário tomou o papel onde escrevera o bilhete em francês, e nele anotou um remanejamento do verso “Beauty is truth and truth is beauty”, dizendo que a frase se tornara proverbial em inglês e era portanto necessário conseguir uma forma de traduzi-la com o mesmo pique em português. Saí levando comigo o papel, que ainda guardo.

No ano seguinte, encontrei Mário novamente, desta vez na redação do jornal. Sabendo da importância que dava às traduções, queria mostrar-lhe algumas dos sonetos de Shakespeare, que ele imediatamente publicou (27/10/57), também com uma nota: “Ivo Barroso é, a nosso ver, um dos maiores tradutores para a língua portuguesa em ação atualmente: os leitores desta página hão de estar lembrados de seu comparecimento à seção ‘O Poeta Novo’ , traduzindo um dos ‘Sonetos a Orfeu’ de Rilkje. Volta agora Barroso com três sonetos de Shakespeare, todos surpreendentemente traduzidos, a ponto de superarem, em nossa opinião, as traduções (em alexandrinos), já por nós elogiadas, de Jerônimo de Aguiar (Editora Melhoramentos). Ivo Barroso estará dentro de algumas semanas em ‘Poesia em Dia’, com página de traduções do inglês, do italiano, do alemão, etc.” Mas sem esperar pelas semanas vindouras, pediu a Reynaldo que me acolhesse entre os colaboradores do “Suplemento” e me vi, de um momento para outro, fazendo parte da equipe.

Nesse mesmo ano de 1957, o “Suplemento” passaria por um momento histórico com sua adesão ao concretismo, teorizado pelos irmãos Campos e Décio Pignatari, de S. Paulo, e encampado, no Rio, por Jardim e Gullar, que lhes abriram as portas para a publicação de manifestos e poemas. O “Suplemento” passou a estampar versos “espaciais” que causavam exasperação entre os conservadores e pedidos veementes à condessa “para que pusesse um paradeiro ao descalabro”. Nós, poetas novos, prontamente aderimos. Eu próprio tive alguns poemas concretos publicados, entre eles o SAPO PULA/ PAUL PULULA, e o ÉPOCA/ÉPICO, reproduzidos com grande destaque. Mário não aderiu de primeira hora nem de corpo inteiro ao movimento, embora respeitasse a cultura e probidade de seus mentores. Mas escreveu um artigo de página inteira, “A Poesia Concreta e o Momento Poético Brasileiro”, que situava o movimento vis-à-vis da atuação dos grandes poetas da época, e que, pela sua coragem e agudeza de análise, permanece, até hoje, significativamente como um dos mais avançados patamares de crítica literária objetiva. Como Manuel Bandeira, não deixou também de fazer, em seus poemas subsequentes, algumas incursões pelos “recursos espaciais” concretistas, mas, entre nós, confessava não acreditar na “morte do verso”.

Muitas outras vezes estive e falei com Mário, e dele recebi conselhos e orientações, sempre dados de maneira informal e sugestiva. Lembro-me de quando achou estranho que eu tivesse traduzido para o Suplemento uma série de artigos do crítico literário norte-americano R. P Blackmur, contrários a Ezra Pound, um de seus ídolos intocáveis. Como houvesse o permanente endeusamento de Pound nas páginas do Suplemento, Reynaldo achou que era oportuno mostrar também “a outra face”, e eu concordei em traduzir os artigos. “Blackmur é sério, mas eu prefiro Pound, que é espiroqueta”, ainda ouço Faustino dizendo. “Os críticos teorizam, mas só os gênios criam.”

Em dezembro de 1959, Mário ausentou-se do Brasil para exercer um cargo na ONU em Nova York, só regressando em 62, como editorialista do “Jornal do Brasil” e da “Tribuna da Imprensa”, que estava sendo adquirida pelo primeiro. A “Tribuna” passava por grandes transformações e entre seus redatores estava Paulo Francis, com quem eu já trabalhara na revista “Senhor”, e que me convidou para traduzir um folhetim, “Os Ladrões de Corpos”, para aquele jornal. Lá encontrei um dia Mário Faustino, que passara a dirigir o órgão e se mostrava naquele dia extremamente agitado. O jornal publicara ou ia publicar uma entrevista com Luís Carlos Prestes, e havia reações de toda espécie. Mário disse-me que a vida política brasileira estava muito conturbada e ficava muito difícil exercer o papel de orientador da opinião pública. Preferira aceitar a oferta do jornal para fazer uma série de artigos e reportagens sobre Cuba, México e Estados Unidos. Perguntou, como sempre atencioso, pelos meus trabalhos e mostrei-lhe alguns “Sonetos de Abraxas”, em que eu vinha trabalhando. “Merece um prefácio”, disse-me com afeição que não pude esquecer. No dia 27 de novembro daquele ano, Mário embarcou para Nova York para não mais voltar.

Os jovens poetas de minha geração tudo devem a Mário Faustino. foi ele quem nos ensinou a encarar a poesia como algo sério, algo comprometedor; a considerar como uma das necessidades do poeta o conhecimento de línguas e literaturas estrangeiras; a desenvolver uma avaliação crítica sem a qual iríamos sempre passar de diluidores. Não consegui nunca, em vida, agradecer-lhe por isso. Mas em 1991, quando publiquei a antologia de traduções “0 Torso e o Gato”, nela inscrevi seu nome, in memoriam, como um singelo tributo.

(Publicado na revista PALAVRA de abril de 2000 com uma caricatura de Chico Marinho e a reprodução da página inteira ‘Poesia-Experiência’ do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, de 23/9/1956

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A HORA DO POETA MÁRIO FAUSTINO

 Quando chegou ao Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, em 1956, Mário Faustino já era autor de um livro de poemas, “O Homem e sua Hora”, publicado pela editora Livros de Portugal, no ano anterior. Mas ao se fazer crítico literário, orientador de jovens poetas e divulgador dos grandes nomes da literatura mundial, viu relegada a segundo plano sua própria produção poética em face de seu empenho em propagar a poesia alheia. Esse “objetivo maior” do crítico-poeta ocorreu num momento-chave, em que os “estreantes” andavam à procura de novos rumos, no suposto “marasmo” (expressão de Faustino) em que recaíra a literatura brasileira, após um período pletórico de atividade criadora (Claro Enigma, de Drummond, em 1951; Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, em 1952; Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, em 1953, e A Luta Corporal, de Ferreira Gullar, em 1954). Durante três anos (1956-1959), ele assumiu, com a página Poesia-Experiência, o lugar do condottiere literário, que indicava os pressupostos rumos e objetivos da grande poesia, e talvez por isso dele se esperassem mais os ensinamentos teóricos do que o resultado concreto de sua própria experiência poética. Os poucos poemas que veio a publicar depois do livro, a maior parte no próprio Suplemento, fora de sua página habitual, eram tão diversos da poesia então vigente, que mais pareciam os de “outro” dos ícones de seu repertório antológico, revelados semanalmente pela sua cultura multilingue e o inesperado de suas opiniões. Isto não quer dizer, no entanto, que a poesia pessoal de Mário Faustino não tivesse então seu valor no confronto com a de seus contemporâneos, ou que viesse a cair no ostracismo com o decorrer do tempo. Bastante considerado pela crítica como um “poeta de maturidade técnica”, dele se esperavam grandes realizações.

Em 1966, quatro anos depois de sua morte precoce, já uma segunda edição do livro era lançada, dessa vez pela Civilização Brasileira, permitindo com que se pudesse enfim dissociar o crítico-poeta do poeta-crítico. Prefaciada por seu amigo de infância e maior exegeta literário, Benedito Nunes, a poesia de Faustino era finalmente mostrada e analisada como um corpus autônomo, desvinculada da aura do magister teórico. Benedito indicava até que ponto Mário havia transfundido em versos os ensinamentos de seus “mestres” Ezra Pound e T. S. Eliot, orientado pela divisa do culto do antigo perene conjugado com o moderno inovador. E chamava a atenção para o fato de o poeta, que teorizava sobre as excelências do poema longo, ter mostrado, na prática, o que se podia fazer a respeito, nos versos que lhe davam título à obra. Embora não lhe faltasse em muitos e altíssimos momentos, uma dicção própria e experiente, era evidente que Faustino praticava, não raro, uma obsessiva subserviência poundiana: a exaustiva evocação de personagens mitológicos ou literários, a marchetaria das frases em línguas vivas ou mortas, a cômoda intertextualidade de que os jovens poetas não conseguiram se afastar até hoje — tudo servia de instrumentos para as manifestações conflituosas de um espírito sensível que sabia exprimir-se através de um requintado conhecimento da arte poética. .

Em 1976, a ênfase sobre o crítico-poeta volta à tona pela Editora Perspectiva com “Mário Faustino, Poesia-Experiência”, em que seu fiel prefaciador Benedito Nunes reproduz os tópicos principais daquela página jornalística (já famosa): “Diálogo de Oficina, Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea e Poesia Brasileira”. Em 1985, nova chance para a poesia de Faustino, agora acompanhada de seus últimos poemas e de suas traduções, a mais realizada das quais, no entanto, ficara em “Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea”: “Alba”, de Ezra Pound — um emblema ao que chamavam de “fanopeia” – o momento em que Faustino atinge plenamente o status de recriador. Tornava-se indiscutível que ambos os componentes da personalidade literária de Mário Faustino (poeta e crítico) mereciam uma leitura extensiva por parte das novas gerações de poetas e leitores de poesia.

Coube à profª Maria Eugênia Boaventura promover a revivescência da “obra completa” de Faustino: em 2002, ela publicou pela Companhia das Letras o primeiro de cinco volumes (“O Homem e sua Hora e outros poemas”), seguido, em 2003 por “De Anchieta aos Concretos”, abarcando tudo o que ele escreveu sobre poesia brasileira e seus poetas, e em 2004 pelos “Artesanatos de Poesia” (Fontes e Correntes da Poesia Ocidental), estando ainda por sair o volume correspondente às antologias (“O poeta novo”, “Pedras de Toque”, “Bibliografia”) e o dedicado às traduções (completo). O primeiro volume, com a obra pessoal de Faustino, sai agora em edição de bolso pela mesma Companhia das Letras, antecedido por abrangente estudo da organizadora, em que situa a influência de Mário Faustino no panorama da poesia brasileira de então e seu papel renovador. Mostra como se deveu a ele o empenho no conhecimento da poesia de outras línguas, a valorização do poema traduzido, o estudo das técnicas empregadas e desenvolvidas pelos grandes “poetas-faróis” de nosso tempo. E, mais que tudo, o exemplo de como sua formação clássica, sua cultura abrangente, seu domínio perfeito do verso (seus admiráveis decassílabos brancos) concorreram para a realização de sua obra. Um dos poetas mais significativos da chamada geração pós-45, a leitura de “O Homem e sua hora” trará aos novos leitores momentos de uma arte culta e elevada, como nos admiráveis “Sonetos de Amor e Morte”, na “Balada” (a um poeta suicida) e no soneto que começa por “Necessito de um ser”, em que entremeia decassílabos com hexassílabos, bem como nos habilidosos cortes de seus vários sonetos fragmentados.#

(Publicado no suplemento Prosa & Verso, do Jornal do Brasil, em xxx)

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OBLIVION

Chega a sombria nave em terra estranha

 

A âncora estira a língua em sede e bebe

a úmida areia transbordada em peixes

 

Baixa o velame os suplicantes braços

anquilosados pelas calmarias

 

O mar secou dormiu a nave e o casco

na praia arqueja o pútrido arcabouço

 

Donde vem o quebrar de ondas monótono

se o mar secou se a nave empederniu

 

E que terras que flores serão estas

curvando os grandes halos multifólios

 

Ah lótus que chamais ao doce oblívion

me enredo neste ardil do esquecimento

 

Deixo no olvido a face o gesto e tudo

quanto a quilha cortou nas idas águas

 

Sugar o látex das rosáceas púrpuras

sem lar e sem destino concebido

 

sem pais sem língua mortas na lembrança

todas as coisas para as quais vivia

 

na paisagem humana das vivências

de novo construir da forma ansiada

 

e no mundo sem árvores sem pássaros

deixar os grãos e os átomos que trago

 

Donde vem donde vem a nau sombria

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Já cheguei a declarar numa entrevista que sonhava traduzir um livro de Colette chamado “L´envers du music-hall”. A verdade é que, de um modo geral, nunca apreciei muito a literatura dessa Sidonie, controversa, embora tenha ajudado muitos judeus a fugir quando da ocupação da França pelos nazistas.  Sempre achei que a biografia de um autor não devia interferir com sua obra e que, afinal, o que conta mesmo é esta última. Mas o conjunto da obra de Colette também não me atraía muito, mesmo depois de sua divulgação pelo cinema. No fundo, o que esse livro tinha para mim era um apelo sentimental.

Cheguei a traduzir alguns capítulos depois das inúmeras tentativas de encontrar o título. O equivalente português à expressão inglesa music hall, usada em francês, seria algo como “musical”, esse espetáculo da Broadway que hoje tem seu equivalente no Brasil. Mas sei que Colette não se referia a esse tipo de diversão; o que ela de fato praticava era o que chamamos vulgarmente de “mambembe”, esse teatro popular, sem pouso fixo, que excursiona por todo o país. Outro problema era o “l´envers”: o avesso, a outra face, o reverso, o outro lado, a parte oculta? Ou ainda: as coxias, os bastidores, o atrás-do-pano, que mais? Acabei, um dia me decidindo por “O avesso da ribalta”, depois de encontrar essa última palavra que me parecia, além de sonora e rara, se ajustar perfeitamente ao sentido do livro. Os poucos capítulos que cheguei a traduzir foram publicados no suplemento “Ilustríssima”, da Folha de São Paulo, em xxxxx, na esperança de que algum editor se interessasse pelo livro e me encomendasse a tradução. Mas fiquei satisfeito por não receber nenhuma oferta: o estilo de Colette, sobrecarregado de adjetivos, já estava fora de moda havia muito e suas histórias de mambembes tinham um interesse restrito e localizado.

E voltei a me indagar o motivo de ter querido tanto traduzir esse livro. Pois foi assim: no princípio dos anos ´50, eu fazia o curso de línguas e literaturas neolatinas na Faculdade Nacional de Filosofia (FNF), na Avenida Antônio Carlos com a Beira Mar, no antigo prédio da embaixada italiana, ao lado da atual Maison de France. Os professores eram todos geniais. Tínhamos em espanhol José Carlos Lisboa e Hélcio Martins, em italiano a Luce Ciancio (que traduziu dois poemas meus, aqui), o sonolento Padre Lucas (que não saía da fíbula prenestina) e a professora Marcella Mortara, que embora de origem italiana era a nossa catedrática de francês. Em geral os professores traziam folhas mimeografadas com trechos para serem lidos e traduzidos em aula, aproveitando-os para mostrar não só os aspectos linguísticos mas igualmente as belezas de estilo. Marcella um dia trouxe uma página de Colette intitulada “Amour”, que era um capítulo do livro “L´Envers du music-hall”. A leitura e tradução sequencial era feita por todos os alunos, cada qual acrescentando um novo sentido, um outro sinônimo, um terceiro ajuste naquele trabalho de equipe. Ela queria muito saber como traduziríamos as palavras “parigote” e “angliche”, que apareciam no seguinte trecho: “Avec une copine, une “parigote” de music-hall, il serait déjà fixé… mais cette angliche, il ne sait comment la prendre…” Explicou-nos que “parigote” era uma gíria para “parisiense” e o “angliche” uma forma popular equivalente a “inglesa”. Era a história de um jovem casal de atores mambembes, ela, Glory, uma girl de teatro de revista, de nacionalidade inglesa, trabalhando pela primeira vez na França; ele, Marcel, o jovem ator francês, carreirista e conquistador, decidido a vencer na vida. Fiquei encantado com o texto e, em casa, procurei traduzi-lo por completo. Em outra aula, mostrei a tradução à professora Marcella, que elogiou a linguagem em geral e gostou das soluções que eu apresentava para a parigote e a angliche. Disse-me que eu tinha jeito para a tradução e que devia cultivar essa minha tendência. Foi meu primeiro elogio profissional e possivelmente o momento que determinou o meu direcionamento nesse sentido. Isto aconteceu há mais de 60 anos e durante todo esse tempo guardei esta tradução que irão ler, agora revista e um tantinho melhorada.

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AMOUR

– de “L´ENVERS DU MUSIC-HALL” de COLETTE

Por ser jovem e loura, magricela e de olhos azuis, ela preenche exatamente todas as condições que se exigem de uma “dançarina inglesa”. Fala um pouco de francês, com uma voz vigorosa de patinho novo, e gasta, para articular algumas palavras de nossa língua, uma força inútil que lhe faz enrubescer as faces e brilhar-lhe os olhos.

Quando sai do camarim que ocupa com outras colegas, ao lado do meu, e desce em direção ao palco, maquiada, vestida, não a distingo das outras girls, pois ela se esmera, o quanto possível, para não passar de uma inglesinha de teatro de revista, impessoal e agradável. A primeira que desce, e a segunda, e a terceira e até a nona, todas me lançam ao passar o mesmo sorriso, o mesmo mover de cabeça balançando os mesmos cachos postiços de um louro rosado. As nove faces estão pintadas com a mesma maquiagem, habilmente violácea em torno dos olhos, as pálpebras carregadas, em cada olho, de uma gota de “perlé” tão densa que não se vê mais a tonalidade do olhar.

Mas quando se vão, à meia-noite e dez, as faces limpas com um lencinho de papel e empoadas de talco, os olhos ainda selvagemente ampliados – ou ainda quando vêm ensaiar de tarde, à uma hora — reconheço imediatamente a pequena Glory, de um louro autêntico, dois pompons de cabelo encaracolados ajustados às têmporas por uma presilha de veludo negro, oculta no fundo de seu horrível chapéu como um pássaro metido num balaio velho. Dois incisivos elevam seu lábio superior: em repouso, tem o ar de alguém que deixa derreter na boca uma bala muito branca.

Não sei por que a observei. Ela é menos bonita que Daisy, a morena demoníaca, sempre chorando ou furiosa, dançando como um demônio, ou refugiada num degrau da escada, donde vomita abomináveis palavrões ingleses. Agrada menos que a sonsa Edith, que exagera o sotaque para fazer rir e profere em francês, ingenuamente, barbaridades que ela compreende muito bem… .

Mas Glory, que dança pela primeira vez na França, atrai minha atenção. É gentil e terna, anonimamente. Jamais chamou o mestre de balé de “maldito idiota”, e seu nome não figura no quadro das multas. Grita, ao subir e descer os dois andares, mas grita como as outras, mecanicamente, porque uma trupe de girls, que mudam de trajes quatro vezes entre as nove e a meia-noite, não pode subir e descer as escadas sem lançar uivos de peles-vermelhas e cantos desordenados . Glory ajunta a esse tumulto necessário sua jovem voz falsa e cômica e desempenha seu papel igualmente no camarim comum, separado do meu por um reles tapume de madeira.

As girls viajantes fizeram desse gabinete retangular um acampamento de saltimbancos. Os lápis vermelhos e pretos rolam sobre a prancheta de maquiagem, ora coberta por um papel de embrulho, ora por um guardanapo esburacado. Uma lufada de ar arrancaria das paredes os cartões-postais, presos apenas por alfinetes espetados de viés. O estojo de ruge, o batom Leichner, a esponja de lã. Tudo isto é transportado dentro de um lenço, e essas meninas, que irão embora dentro de um mês, deixarão menos traços do que um acampamento de ciganos que assinalam seu trajeto por queimadas redondas do capim, pelos flocos de cinza das fogueiras.

 

***

 

— … ´k you, diz Glory, com uma voz educada.

 — De nada, replica polidamente o nosso companheiro Marcel, no momento tenor, mas que dançará talvez no mês que vem, e é também capaz de representar no drama em Gobelins e no musical em Montrouge.

 Marcel espera no patamar, como por acaso, a trupe tumultuosa das girls. Como por acaso, Glory passa por último e se demora um minuto, só o tempo de vasculhar, com graciosa sem-jeiteza, o saquinho de bombons acidulados que lhe oferece o nosso gentil companheiro.

Observo o progresso, lento, desse idílio. Ele é jovem, famélico, ardente, decidido a não “morrer de fome”, lembrando em tudo, apesar das roupas batidas e da flor artificial da lapela, um belo operário oportunista. Mas Glory o desconcerta com seus modos de pequena estrangeira. Com uma colega qualquer, uma garota da ribalta “nacional”, ele já teria resolvido – a coisa vai ou não vai… Mas essa “gringa”, ele não sabe como tratá-la… Mesmo ao sair de cena, esbaforida e despenteada, desabotoando às pressas o corpete, isto não a impede de aceitar um bombom e agradecer dignamente: “… ´k you”, como se estivesse vestida a rigor.

Ela lhe agrada. Ela o irrita. Às vezes, ele dá de ombros vendo-a afastar-se, mas sei bem que ele zomba é de si mesmo. Um dia destes, atirou dentro do chapelão de Glory, que ela segurava pelas abas, uma meia-dúzia de tangerinas, logo arrebatada pela horda de selvagens louras aos gritos apavorantes, risadas e arranhões…

O demorado flerte impacienta esse francesinho vivo e volúvel, ao passo que Glory se deleita com isto. Ela se comove lentamente, à la mocinha sentimental. Chama Marcel pelo nome: “Márs´l . e lhe deu uma foto em cartão postal – não aquela da menina segurando o arco ou do tipo menino de calças furadas, oh não – mas a sua mais bela, a que mostra Glory como dama medieval, com chapéu de corneta, uma Glory totalmente rainha!

Não se aborrecem por não poderem conversar um com o outro. O jovem, flexível, finge uma solicitude, uma humildade. Vi-o beijar uma pequena mão que não se retirava, uma mãozinha magra, gretada pela água fria e o alvaiade; mas, de viés, ele fixa Glory com insistência e precisão, como se estivesse vendo por antecipação os lugares em que a beijaria. Ela, por trás da porta do camarim, que voltou a fechar, canta para que ele ouça e lhe atira seu nome : “Márs´l !” como se atirasse flores…

A coisa vai bem, em suma. Vai até bem demais… O idílio, quase mudo, se desenrola como um mimodrama. Nenhuma outra música senão a voz exuberante de Glory, e quase nenhuma palavra além do nome : “Márs´l ” , matizado pelo amor… Depois dos “Márs´l !” estridentes e alegres, um tanto anasalados, ouvi “Márs´l !” longos, sestrosos e ternos, suplicantes — e, de repente, certo dia, um “Márs´l ” tão trêmulo, tão desfeito, que já era uma súplica…

… Esta noite, eu o ouço, creio, que pela última vez. Porque, lá no alto da escada, refugiada no último degrau, encontro a pequena Glory sozinha, a cabeleira de través, a chorar humildemente sobre a maquiagem, repetindo baixinho:

— Márs´l!…

 

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Em dezembro de 1998 fiz várias visitas ao poeta João Cabral de Melo Neto a fim de entrevistá-lo para o Suplemento Prosa & Verso de O Globo. Durante quatro quintas-feiras estive em conversa com ele em seu apartamento da praia do Flamengo, um belo prédio de estilo francês com pé-direito alto e amplas janelas dando para o Aterro. A aproximação com o poeta fora feita por sua esposa Marly de Oliveira, nossa antiga colega no Clube dos Doze, nos idos de ´50, quando todos queríamos ser poetas editados. João Cabral não passava por momentos favoráveis: com o agravamento de seus problemas visuais estava quase cego, atormentado ainda pelo velho estigma de uma dor de cabeça (enxaqueca) que o perseguia desde sempre. Logo no primeiro instante afastou a ideia de entrevista e disse que podíamos conversar à vontade pois queria saber muita coisa a respeito do que os leitores achavam de sua poesia. Chegou mesmo a me perguntar numa das vezes se ele seria lembrado depois de morto. Eu lhe disse, com toda a sinceridade, que sua obra era um divisor de águas da poesia brasileira: AC (antes de Cabral) e DC (depois dele). E tive de lhe mostrar o quanto nós, os poetas mais jovens, devíamos à sua estética seca e destituída de pieguismo. Mas creio que ele não gostou muito (pelo rictus da face) quando lhe disse que o considerávamos o nosso Ezra Pound. Certa vez, com dificuldade, levantou-se da sala e foi buscar os dois volumes de seus versos que tinham saído pela Nova Fronteira, no ano anterior: “Serial e antes” e “A educação pela pedra e depois”. Neles conseguiu escrever dedicatórias muito simpáticas, embora com letra irregular. Numa delas: “A Ivo Barroso, seu já amigo, João Cabral de Melo Neto”. Durante as conversas, que transformei em entrevista (com sua aquiescência) fiz-lhe uma pergunta que todos queriam saber naquela altura; se ele, apesar de não ter tratado do tema amor em seus livros, havia feito um retrato poético da esposa em “Sevilha andando”, um de seus últimos livros. A resposta está nesta entrevista que saiu no Prosa & Verso de 9 de janeiro de 1999, encimada pelo mesmo retrato que aqui reproduzimos.

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─ João, como foi sua infância? Você era um menino triste?

JOÃO CABRAL DE MELO NETO: Tive uma infância feliz. Fui menino de engenho e lia muito desde criança. Havia livros em casa, meu pai era advogado e gostava de Eça de Queirós. Minhas primeiras leituras de poesia deixavam-me insensível, achava aquilo tudo muito chato. Só fui gostar de poesia depois que conheci os poetas modernos, principalmente Drummond e Bandeira, já então no Recife, quando meu pai vendeu o engenho e se mudou para a capital. Foi lá que fiz os primeiros estudos e encontrei duas pessoas que marcaram minha formação: Willy Lewin, que me iniciou na literatura, e Vicente do Rego Monteiro, nas artes plásticas. Lewin me emprestava livros franceses, e Vicente, que estava voltando de Paris, onde fora estudar pintura, trouxe uma coleção de livros sobre pintores. Também com relação à pintura, só fui achá-la interessante depois que conheci os pintores modernos. Quando morei na Espanha, conheci Miró, de quem fiquei amigo. Embora não os conhecesse pessoalmente, convivi com a pintura de Dali, que achava um charlatão, e a de Picasso, que considero o gênio das artes plásticas.

─Por falar em Espanha, acha que sua poesia teria sido a mesma se, em vez de ter passado ali uma grande temporada, tivesse sido designado para a França ou a Inglaterra?

JOÃO CABRAL: A literatura espanhola ajudou-me a fixar alguns objetivos a que eu me predispunha, deu-me coragem para prosseguir no caminho da concretude. Minha ida para a Espanha como primeiro posto e voltando a servir ali em várias outras ocasiões fez com que me identificasse com aquele país. Sevilha é das minhas admirações mais profundas, o que fez talvez com que não me importasse muito com outras paisagens culturais do mundo. Além disso, conheci em profundidade a literatura espanhola antes de conhecer bem a portuguesa e acho-a superior, mais rica que esta. Dentre os poetas portugueses, costumo destacar Cesário Verde, um dos poucos que me parece isento de sentimentalismos. Na verdade, sem a influência da poesia espanhola eu não teria feito o mesmo tipo de poema.

─ E quanto à literatura inglesa, quais são suas preferências?

JOÃO CABRAL: Quando fui servir em Londres, em 1950, comecei a ler os poetas ingleses desde Chaucer e me interessei principalmente pelos metafísicos, que de metafísicos não têm nada. Dos posteriores, os que mais me chamaram a atenção foram George Crabbe (1754-1832) e Wilfred Owen (1893-1918). Depois me interessei por W H. Auden (1907-¬1973), mas não posso dizer que os ingleses tenham concorrido significativamente para o rumo da minha poesia.

─ Além da poesia e da pintura, que outra atividade artística o atraía?

JOÃO CABRAL: 0 cinema, por exemplo. Em Londres, filiei-me a uma meia dúzia de clubes de cinéfilos, de modo que podia ver um filme importante por dia, variando de clube. Foi assim que vi todos os clássicos russos, franceses e ingleses que me interessavam. Depois disso, o cinema perdeu muito para mim, pois sempre tinha a sensação do déjà vu.

─ Quem ligado às artes você conheceu na Inglaterra?

JOÃO CABRAL: Estive num almoço literário em homenagem a Eliot, mas não houve uma aproximação entre nós. Fui lá a convite e levado por Beata Vettori, que era minha colega no consulado e conhecia muitas pessoas no mundo das letras inglesas. À porta havia um aboyeur que anunciava aqueles que chegavam, geralmente dizendo-lhes o nome, a atividade exercida ou a função que ocupavam. Pude observar que Eliot permanecia imóvel mesmo diante de nomes importantes da poesia inglesa, mas se levantava solícito e corria ao beija-mão de qualquer dama do society inglês que chegava. Claro que isso não diminuiu em nada a admiração que tenho por sua obra. Considero “‘The Waste Land” e os “Four Quartets” os livros fundamentais da poética de nosso século. Já suas peças, como “Murder in the Cathedral”, por exemplo, me parecem grandes discursos poéticos destituídos de dramaturgia.

─ Quais são os seus poetas franceses preferidos?

JOÃO CABRAL: Gosto principalmente de Baudelaire, e de Valéry, sobretudo o Valéry teórico, pois o poeta me parece um tanto preso à tradição melódica. E de Mallarmé, por seu cuidado com a construção do verso.

─E no Brasil, quem destacaria?

JOÃO CABRAL: Sempre achei Drummond, Murilo, Joaquim Cardozo e Bandeira grandes poetas. Sobre os vivos, é difícil opinar, pois se esqueço algum me sinto mal.

─Quando diplomata, gostava da vida social, teatros, restaurantes?

.JOÃO CABRAL: Frequentava os tablaos na Espanha. Nunca fui um “gourmand” e muito menos um “gourmet”. Nunca me preocupei com comida no sentido seletivo ou esnobe do termo, de bons restaurantes, cozinheiros famosos. Na Espanha, vez por outra, ia a Cádiz comer mariscos, mas sempre em função de algum convite ou dever de ofício. O mesmo em relação a bebidas. Não sou apreciador de vinhos de mesa. Além do uísque dos coquetéis diplomáticos. sempre preferi o xerez e a manzanilla, vinhos que se tomam para conversar.

─Você que é o poeta mais premiado do Brasil, qual sua atitude diante dos prêmios literários?

JOÃO CABRAL: Acho bom recebê-los. Um prêmio literário dá satisfação a quem o recebe. Mas nunca andei “cavando” nada para isso. Minha única interveniência na consecução de um prêmio — o que recebi com o poema “O Rio” — foi inscrevê-lo no concurso, o que era obrigatório. Os outros vieram por via natural.

─ E o que pensa do Nobel?

JOÃO CABRAL: Nunca pretendi recebê-lo. Creio que a Academia Sueca não tem acesso direto à língua portuguesa, lendo seus autores (se os lê) por meio de traduções. Pelo pouco que li da tradução de meus livros acho que as perdas são grandes e sempre achei que havia outros brasileiros que o mereciam mais que eu. Desconfiei da possibilidade de ele vir a ser dado a um escritor de língua portuguesa, mas agora que foi concedido a Saramago, certamente levará outro século para que se lembrem novamente de nossa língua.

─Que significa para você a poesia? Se não fosse poeta, o que seria?

JOÃO CABRAL: A poesia é um trabalho, uma função, um ofício. Sempre quis ser um crítico literário, mas nunca me senti com capacidade suficiente para exercer a crítica. Passei a escrever, a fazer, a construir poesia, aquela poesia que eu, como crítico literário, gostaria de ver que alguém fizesse. Se não tivesse sido poeta, talvez fosse um diplomata melhor.

─Qual o sentido da vida ?

JOÃO CABRAL: Não gosto dessas questões metafísicas. Posso dizer apenas que com a idade nossas certezas ficam um tanto duvidosas.

─Em sua poesia, como você próprio já disse, o tema do amor está ausente. Mas, “Sevilha andando” não será um grande poema de amor à Marly? Em outras palavras, Sevilha=Marly?

 JOÃO CABRAL: É. Os críticos têm dito muita coisa sobre a minha poesia que jamais me passou pela cabeça. Mas você acertou. “Sevilha andando” é ela mesma.

E podemos esperar outro livro, que você estaria ditando, já que não consegue mais escrever?

JOÃO CABRAL: Não, estes dois foram meus últimos livros. Escrever poesia era para mim um ato visual, de trabalho quase manual com a palavra. Sem isto não consigo fazer poemas. Nunca os fiz na mente, a não ser uma ou outra ideia, que em seguida guardava no papel. Também não consigo “ouvir” poesia, que só se concatenava em meu espírito mediante sua forma no papel. No entanto, todos os dias minha mulher lê algo para mim, sempre uma releitura de meus livros. Há alguns meses, minha filha Inez tem passado por aqui de manhã e sempre lhe peço também que me leia alguma coisa. Mas abandonei o fazer poético porque, além da vontade, também as forças me vão faltando com o tempo e o sofrimento.

 capas

 

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