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Archive for maio \31\UTC 2018

CORPUS CHRISTI

 

Ó divino banquete onde foi dada
Toda a glória do Céu por iguaria,
Nunca aparteis desta alma o santo dia
Da morte de meu Deus por mim causada.

Pagando em Cruz o amor, sem dever nada,
Tudo lhe pareceu que nos devia,
No tempo em que de nós se despedia,
Ir-se e ficar numa hóstia consagrada.

Finos toques de amor, raros extremos,
Se os anjos não vos podem entender,
Os que somos humanos que faremos?

Contento-me, Senhor, basta-me crer
Que nessa hóstia sagrada, onde vos vemos,
Mais nem menos no Céu não podeis ser.

 

Fr. MARTIM DE CASTRO DO RIO — (c. 1548-1613)

Poeta dito “minor”, português, do século XVI, sem dados  biográficos


LEIA MAIS SOBRE CORPUS CHRISTI E EUCARISTIA (aqui)


ANTOLOGIA POÉTICA DA GAVETA – A série voltará em junho com os nomes finais (mais oito) na série “de primeira linha” e outros tantos dos chamados “esdrúxulos”. Depois disso, pretendemos fazer uma outra denominada “Grandes Poetas do Brasil”, com informações mais extensas sobre os biografados e uma seleção mais ampla de seus poemas comentados.

Como já ocorrido, a Gaveta completará aniversário (o 8º) em 25 de julho, entrando em seguida em recesso até setembro, isto quer dizer que vamos ter ainda sete postagens semanais até lá.

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traduzido por Ivo Barroso

James Tate nasceu em 1943 em Kansas City, no Missouri. Diplomado pelo “The Writers’ Workshop”da Universidade de Iowa, lecionou ultimamente na Universidade de Massachusetts (MA). Prêmio Pulitzer de poesia do ano de 1992.

Peggy in the Twilight

Peggy spent half of each day trying to wake up, and
the other half preparing for sleep. Around five, she
would mix herself something preposterous and ’40s-ish
like a Grasshopper or a Brass Monkey, adding a note
of gaiety to her defeat. This shadowlife became her.
She always had a glow on; that is, she carried an aura
of innocence as well as death with her.

I first met her at a party almost thirty years ago.
Even then it was too late for tragic women, tragic
anything. Still, when she was curled up and fell asleep
in the corner, I was overwhelmed with feelings of love.
Petite black and gold angels sat on her slumped shoulders
and sang lullabies to her.

I walked into another room and asked our host for
a blanket for Peggy.

“Peggy?” he said. “There’s no one here by that name.”
And so my lovelife began.

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PEGGY  AO CREPÚSCULO

Peggy passava a metade do dia tentando acordar e a outra
metade preparando-se para dormir. Lá pelas 5, fazia
para si mesma um desses  coquetéis extravagantes dos anos 40,
como um Grasshopper ou um Brass Monkey, acrescentando uma nota
de alegria ao seu fracasso. Tornou-se uma sombra de vida,
ela que sempre havia luzido, ou seja, que carregava uma aura
de inocência e bem assim de morte por onde fosse.

Conheci-a há quase trinta anos numa festa.
Então já havia passado a moda das mulheres trágicas, das coisas
trágicas. Mesmo assim, quando a vi encolher-se e adormecer
a um canto,  senti-me esmagado por sensações de amor.

Anjinhos negros e dourados sentavam-se em seus ombros caídos
e lhe cantavam canções de ninar.

Fui até a outra sala e pedi ao dono da casa um cobertor
para Peggy.

“Peggy?” estranhou. “Não há ninguém aqui com este nome”.

E assim minha vida amorosa começou.

 

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OS NOSSOS PEQUENOS PRÍNCIPES

Em 1907, o editor Jorge Schmidt, que já publicava duas revistas semanais a Kosmos e A Careta, decidiu lançar uma terceira, que seria, segundo ele, mais dinâmica, mais em consonância com a modernidade de então. E nada mais adequado para uma publicação com tal escopo que o nome FON-FON, uma espécie de representação gráfica da buzina dos automóveis, símbolo ímpar da agitação das grandes cidades modernas.

A revista cativou o público já no primeiro número, pois conclamava os leitores a participar de um concurso que logo despertou grande celeuma: a eleição do “príncipe dos poetas brasileiros”, a ser escolhido por votação popular. O primeiro, proclamado ainda naquele ano de 1907, foi Olavo (Brás Martins dos Guimarães) Bilac, poeta que desfrutava de enorme prestígio literário em razão de sua obra poética, amplamente divulgada em livros e jornais, e mais ainda por sua atuação patriótica como propagandista do serviço militar obrigatório e do culto à bandeira nacional. O reinando de Bilac durou até 1924, quando novas eleições, igualmente patrocinadas pela FON-FON, consagraram o nome de (Antônio Mariano) Alberto de Oliveira, farmacêutico, pintor e poeta parnasiano que desfrutava de enorme popularidade entre as classes leitoras, membro representativo da Academia Brasileira de Letras. Alberto de Oliveira conservou o título até 1938, quando nova eleição popular, ainda sob a égide da FON-FON, eleva ao principado o poeta, político e diplomata Olegário Mariano (Carneiro da Cunha), que viria a ser conhecido como “o poeta das cigarras”. Em 1958, já agora por iniciativa do jornal CORREIO DA MANHÃ, o concurso popular proclama a figura do modernista Guilherme (de Andrade) de Almeida, grande jornalista, crítico de cinema e conceituado tradutor de poesia, membro da Academia Brasileira de Letras.

O atual detentor do título, sem que tenhamos referência sobre o concurso popular que o teria elegido, é Paulo (Lébeis) Bomfim, poeta, membro da Academia Paulista de Letras, nascido em 1926 (atualmente com 92 anos). Em sua homenagem a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo instituiu, em 2016, um concurso que tem precisamente esse nome: “O Secretário de Educação do Estado de São Paulo, considerando a importância de homenagear o Decano da Academia Paulista de Letras, PAULO BOMFIM o “Príncipe dos Poetas Brasileiros” que completou 90 anos dia 30 de setembro de 2016, institui o Concurso: Paulo Bomfim o “Príncipe dos Poetas Brasileiros” como forma de incentivar a pesquisa e a leitura; valorizar a produção literária de alunos e alunas da rede estadual de ensino; e resgatar o legado do poeta para a literatura brasileira.”

 

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Olavo Bilac (1865-1918) – poeta carioca – príncipe de 1907 a 1924

Via-Láctea
XIII

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

 

Alberto de Oliveira (1857-1937) – poeta carioca – Príncipe de 1924 a 1938

 

VASO CHINÊS

 

Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.

Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.

Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?… de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura;

Que arte em pintá-la! a gente acaso vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.

 

Olegário Mariano (1889-1958) –  pernambucano – Príncipe de 1938 a 1958

O enterro da cigarra

As formigas levavam-na… Chovia…
Era o fim… Triste Outono fumarento…
Perto, uma fonte, em suave movimento,
Cantigas de água trêmula carpia.

Quando eu a conheci, ela trazia
Na voz um triste e doloroso acento.
Era a, cigarra de maior talento,
Mais cantadeira desta freguesia.

Passa o cortejo entre árvores amigas…
Que tristeza nas folhas.., que tristeza
Que alegria nos olhos das formigas!

Pobre cigarra! Quando te levavam,
Enquanto te chorava a Natureza,
Tuas irmãs e tua mãe cantavam…

 

Guilherme de Almeida (1890-1969) – poeta paulista – Eleito em 1951

Nós

Fico – deixas-me velho. Moça e bela,
partes. Estes gerânios encarnados,
que na janela vivem debruçados,
vão morrer debruçados na janela.

E o piano, o teu canário tagarela,
a lâmpada, o divã, os cortinados:
– “Que é feito dela?” – indagarão – coitados!
E os amigos dirão: – “Que é feito dela?”

Parte! E se, olhando atrás, da extrema curva
da estrada, vires, esbatida e turva,
tremer a alvura dos cabelos meus;

irás pensando, pelo teu caminho,
que essa pobre cabeça de velhinho
é um lenço branco que te diz adeus!

 

Paulo Bonfim – poeta paulista  – considerado o nosso príncipe atual

Soneto

Não busco especiarias, sou apenas
Um corpo transformado na paisagem,
Barco de amor e morte, céu de penas,
Voo tinto de rumos e ancoragem.
Se pastoreio estas contradições
Que são agora carne e pensamento,
É porque trago a noite e seus violões
A percorrer os quarteirões do vento.
Dos passos estrangeiros crio o mapa
E a bússola escondida na lapela,
O resto é chuva desenhando a capa
Que jogo sobre o corpo da procela.
Não busco especiarias sou somente
A mesa posta e o convidado ausente.

 

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UM RETRATO DE MÃE

Existe uma mulher que tem algo de Deus pela imensidade de seu amor, e muito de anjo pela incansável solicitude de seus cuidados; uma mulher que, embora jovem, tem a reflexão de uma anciã, e na velhice trabalha com o vigor da juventude; mulher que, sendo ignorante, descobre os segredos da vida com mais acerto que um sábio, e, se instruída, se amolda à simplicidade das crianças; mulher que, sendo rica, daria com prazer todo um tesouro para não sofrer no seio a ferida da ingratidão; mulher que, sendo fraca, se reveste às vezes da bravura de um leão; mulher que, enquanto vive, não a sabemos estimar porque a seu lado todas as dores se esquecem, mas que depois de morta daríamos tudo o que somos e tudo o que temos para poder vê-la de novo um só instante, dela receber só um abraço,  ouvir um só latejar de seu coração. Dessa mulher não me exijam o nome se não querem que eu inunde de lágrimas este seu álbum, porque eu a vi passar em meu caminho. Quando seus filhos crescerem, leiam-lhes esta página, e eles, cobrindo-lhes de beijos a fronte, lhes dirão que um humilde viajante, em retribuição à suntuosa hospedagem que recebeu, lhes deixou aqui, para vocês e para eles, um esboço do Retrato de sua própria Mãe.

Tradução de Ivo Barroso

Mons. RAMÓN ÁNGEL JARA (1852-1917) – prelado chileno, considerado o maior orador sacro de língua espanhola de seu tempo.

 

OUTRAS HOMENAGENS AO DIA DAS MÃES

Veja também:

— Mãe em dobro – post de 08.05.2016 – AQUI

— Poema testamento – post de 08.05.2011 – AQUI

— Homenagem ao dia das Mães – 12.05.2012 – AQUI


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ANTOLOGIA POÉTICA DA GAVETA
NÚMERO ESPECIAL

Dois poetas à parte: Machado de Assis e Coelho Neto

MACHADO DE ASSIS – poeta carioca

Joaquim Maria MACHADO DE ASSIS (1839-1908) foi o maior estilista da língua portuguesa, autor de inúmeros romances, contos, crônicas, peças de teatro e traduções. Mas gostava que seu nome fosse igualmente citado como poeta e chegou a publicar em vida quatro volumes de versos (Crisálidas, 1864; Falenas, 1870; Americanas, 1875 e Ocidentais, 1880), longos relatos em prosa rimada, hoje devidamente esquecidos. De sua produção poética, salvam-se uns dez poemas realmente apreciáveis, entre os quais o célebre “A mosca azul”, sobre os quais pretendemos falar mais tarde. Entra hoje aqui por causa de seu poema de exaltação materna, “Minha Mãe”, sobre o qual, numa epígrafe (os poetas da época adoravam as epígrafes!) diz ser uma “Imitação de Cowper”. Contudo, lendo On receipt of my mother’s picture (1798), de William Cowper (1731-1800),quase nada pudemos encontrar ali que justificasse a referência.

MINHA MÃE

Quem foi que o berço me embalou da infância
Entre as doçuras que do empíreo vêm?
E nos beijos de célica fragrância
Velou meu puro sono? Minha mãe!
Se devo ter no peito uma lembrança
É dela que os meus sonhos de criança

Dourou: — é minha mãe!

Quem foi que no entoar canções mimosas
Cheia de um terno amor — anjo do bem
Minha fronte infantil — encheu de rosas
De mimosos sorrisos? — Minha mãe!
Se dentro do meu peito macilento
O fogo da saudade me arde lento

É dela: minha mãe.

Qual anjo que as mãos me uniu outrora
E as rezas me ensinou que da alma vêm?
E a imagem me mostrou que o mundo adora,
E ensinou a adorá-la? — Minha mãe!
Não devemos nós crer num puro riso
Desse anjo gentil do paraíso

Que chama-se uma mãe?

Por ela rezarei eternamente
Que ela reza por mim no céu também;
Nas santas rezas do meu peito ardente
Repetirei um nome: — minha mãe!
Se devem louros ter meus cantos d’alma
Oh! do porvir eu trocaria a palma

Para ter minha mãe!

 

COELHO NETTO (1864-1934) – poeta maranhense

Henrique Maximiano COELHO NETTO é outro prosador brasileiro, autor de inúmeros romances e contos, e que se celebrizou poeticamente com um único poema, o soneto abaixo, SER MÃE, até pouco tempo a única referência lírica evocada por ocasião do Dia das Mães. Mas seu nome, um tanto peculiar, justificaria sua inclusão entre os poetas ‘esdruxulos’, mormente se lembrarmos a curiosa passagem relatada pelo poeta italiano Giuseppe Ungaretti (1888-1970), que veio para o Brasil em 1936 como professor de literatura da USP. Relata Ungaretti em suas memórias que foi “recebido pelo presidente da Academia Brasileira de Letras “um pequeno senhor que atendia pelo estranho nome de Cuelhonetto”, que o poeta italiano ouvia como sendo cuglionetto, cujo significado em sua língua é testículo, no diminutivo.

Ser mãe

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo!  É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!

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