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Archive for janeiro \28\UTC 2011

Em 1994, ano de sua morte, Elias Canetti confiou à Biblioteca de Zurique uma volumosa quantidade de inéditos com a condição de que suas memórias, constantes do acervo, só deveriam ser publicadas 30 anos depois, ou seja, a partir de 2024. Contudo, em 2005, ano do centenário de nascimento do autor, sua filha Anna decidiu divulgar uma parte delas (no original alemão, Party im Blitz), em que o tempestuoso relacionamento de Canetti com a escritora irlandesa Iris Murdoch se apresenta minuciosamente detalhado.  Anna achou necessária essa publicação antecipada em vista da grande celeuma que se criara em torno daquele affaire sentimental, porquanto Iris havia, em seus romances, esboçado um retrato de Canetti caracterizando-o como “misógino prepotente”. Logo em seguida, aparecerem as Aufzeichnungen für Marie-Louise (“Apontamentos para Marie-Louise” [von Motesiczky, pintora austríaca, autora de um retrato famoso seu, outra de suas amantes com quem fugiu em 1939 para a Inglaterra]).  Agora foi a vez de Über die Dichter (“Sobre os escritores”), uma coletânea de aforismos, notas de leitura e conferências, organizada por Penka Angelowa e Petter Von Matt, que vem propiciar aos leitores um novo passeio por esses importantes segmentos da abrangência literária de Canetti.

É exaustivo enunciar os vários segmentos dessa abrangência: Canetti consagrou-se principalmente por seu romance “Auto-de-Fé”, mas como, de acordo com seu biógrafo Sven Hanuschek, se rebelasse contra “todo tipo de especialização”, recusou-se a seguir uma carreira de romancista, passando a explorar o ensaio filosófico-etnológico sobre as ambivalentes relações entre Massa e Poder (aliás título de um de seus mais importantes livros, publicado em 1960, responsável direto pela obtenção do Prêmio Nobel de Literatura de 1981). Além disso, tornou-se apreciado conferencista pela veemência com que exaltava ou demolia seus ídolos literários. Segundo Peter Von Matt, organizador deste livro, “a sua devoção era devoração, seu desprezo um vômito”. Era natural que sua forma ostensiva de manifestar-se lhe trouxesse enorme conflito com a crítica literária convencional. Em todos os seus escritos avultam as observações sagazes e sarcásticas, os aforismos desconcertantes, as observações contraditórias, tudo vazado num estilo sempre tenso, mas nem sempre facilmente compreensível.

Amálgama de um verdadeiro cadinho de línguas e vivências, Elias Canetti, nascido na cidade búlgara de Rustschuk, a 25 de julho de 1905, tornou-se um dos intelectuais europeus mais incisivos do pós-guerra, graças a seu rigoroso senso estético, à defesa de posições extremadas e de convicções que não se deixaram distorcer nem mesmo em face de circunstâncias vividas. Apesar de seu retraimento natural, foi a representação última do intelectual consciente de seu papel de pensador que, sem buscar os holofotes da publicidade, não se deixou no entanto enclausurar num atitude meramente contemplativa. Criado em casa dos avós maternos que se exprimiam em ladino, língua falada pelas comunidades judaicas da Europa central e meridional (especialmente a Bulgária e a Iugoslávia), trazida para esses países pelos judeus expulsos da Espanha em 1492, só veio a falar o búlgaro pelo contato com os empregados domésticos, pois os próprios pais preferiam na intimidade o alemão, nostálgicos de seus anos estudantis na Viena do Império Austro-Húngaro, onde sonhavam se tornar atores do teatro oficial. Os avós, que pretendiam educá-lo nos rigores do judaísmo ortodoxo, eram tão radicais que não admitiam nem mesmo o casamento entre judeus asquenazes e sefarditas, e chegaram a matriculá-lo numa escola talmúdica. Mas, em 1911, os pais resolveram mudar-se para Manchester, levando consigo Elias, o filho menor Nissim (1909) e o recém-nascido George (1911). A mudança deveu-se mais ao empenho da matriarca Mathilde Canetti, cujo nome de solteira era Arditti, ansiosa por fugir à influência dos sogros e integrar-se na cultura européia cujos ideais cosmopolitas cultuava, associando-se, na Inglaterra, aos irmãos já ali estabelecidos como comerciantes de sucesso. Elias, seu predileto e já predestinado a triunfar pelo saber, foi logo matriculado na escola pública. Um ano depois, Mathilde segue para Bad Reichenhall, na Baviera, aparentemente para tratar da saúde, mas por lá se demora indefinidamente. Depois de seu regresso, o pai, fumante inveterado, morre de um ataque cardíaco, talvez em consequência de desgostos íntimos e das preocupantes notícias sobre a guerra dos Bálcãs.  Muitos anos mais tarde, Canetti registra em um de seus livros de memória (Die geretteteZunge / A língua absolvida) o choque que a morte do pai lhe causara e sua reação de espanto ao descobrir que a mãe tivera um romance extra-conjugal em sua permanência na Baviera. Embora afaste a hipótese de que sofresse de complexo de Édipo — opositor renitente às concepções psicanalíticas de Freud, com quem aliás conviveu — e por atribuir o assombro a uma  reação natural da infância, a verdade é que, depois da morte do pai, passou a exercer sistematicamente uma fiscalização dos relacionamentos da mãe.

Mas as experiências linguísticas e vivenciais de Canetti não se limitaram a isso: com a morte do esposo, Mathilde resolve mudar-se com os filhos primeiro para a Suíça, obrigando Elias a enfrentar um curso intensivo de alemão, e, em seguida, para Viena, onde ele vai prosseguir seus estudos secundários e conhecer as primeiras manifestações anti-semitas, sublimadas pela noção de orgulho que a mãe lhe infunde. Da Suíça, a família se muda para Frankfurt, onde Canetti termina seus estudos preparatórios em 1924; vão em seguida para a Áustria, onde Elias se matricula no curso de química da Universidade de Viena, mais para atender aos desígnios de Mathilde, pois já a essa altura estava decidido a dedicar-se à literatura e à crítica cultural.  É aí que encontra Venetiana (Veza) Taubner-Calderón, oito anos mais velha que ele, e portadora de defeito físico, imbuída de idéias socialistas e feministas e com veleidades literárias; irá casar-se com ela em 1934, certamente para contrariar a violenta oposição materna e, de certa forma, acabar definitivamente com o obsessivo apego de (e a) Mathilde, de quem já estava em parte separado, pois esta, em 1927, muda-se para Paris em companhia dos outros dois filhos, deixando-o só em Viena.

Antes do casamento, Elias já havia feito sua estréia literária com um drama em versos (Junius Brutus) e duas peças teatrais (Hochzeit, O Casamento-1932 e Komödie der Eitelkeit, Comédia da Vaidade-1934). Residindo nas proximidades do hospital psiquiátrico Steinhoff, e inspirado em Balzac, concebe o plano de escrever uma série de novelas que tivessem por tema a loucura humana. A primeira delas, Die Blendung (literalmente, O Ofuscamento), lançado em Viena em 1935, seu primeiro e único romance, só lhe traria notoriedade muitos anos depois, graças às traduções inglesa e francesa (inicialmente com o título de “A Torre de Babel”, tendo Canetti mais tarde adotado “Auto-de-fé” para todas as edições).

A novela, que se tornaria mais tarde um momento referencial de toda a literatura, explora a paranóia do sinólogo Peter Kein, dono da maior biblioteca da cidade, possuidor de transcendente cultura, mas alheado do mundo em que vive; transformando o contato com os livros na própria razão de sua vida, seu absenteísmo da realidade o leva a casar-se com a governanta Therese Krummhollz, que irá explorá-lo juntamente com o zelador do prédio, Benedikt Pfaff, a verdadeira figura do protonazista. O irmão de Kein, vendo o estado de penúria a que os aproveitadores o levaram, tenta em vão resgatá-lo da loucura.  “Klein morre numa apocalíptica autodestruição em meio a seus livros”. O romance encontrou leitores entusiasmados inclusive Thomas Mann, que o saudou como um livro além de sua época.

Em 1937, começam as primeiras evidências de anti-semitismo na Europa e, no ano seguinte, Hitler ocupa a Áustria; Mathilde está à morte em Paris, o casal consegue os vistos necessários à viagem, e uma vez longe das perseguições que se intensificavam, os dois resolvem seguir depois para Londres, onde irão residir modestamente no subúrbio de Hampstead. Nos anos subsequentes, Elias concentra-se na preparação de sua obra Masse und Macht (Massa e Poder), um de seus escritos capitais, em que estuda, de forma inteiramente pessoal o conceito de massa, seus deslocamentos, concentrações, ações e reações, afastando-se das ideias dominantes à época, de tal forma que os nomes de Marx e Freud são citados apenas uma vez, e numa pequena nota. Em 1946, sai a tradução inglesa de Die Blendnung, tornando seu nome conhecido nos meios literários da Europa livre. Em 1952 adquire cidadania inglesa e será nessa qualidade que receberá em 1981 o prêmio Nobel (US$180.000), acompanhado do embaixador do Reino Unido na Suécia. Em seu discurso de agradecimento, em vez de mencionar o holocausto judeu, como todos esperavam, alerta o mundo contra a barbárie de Hiroshima.

Sempre surpreendente em suas ideias e atitudes, muda constantemente o rumo de suas atividades literárias: autor de um romance de sucesso, nunca escreverá outro; envereda pelo teatro e logo se põe a estudar os grandes movimentos sociais; inicia suas memórias, mas interrompe-as para se dedicar a uma compilação de suas máximas e frases de efeito. Em 1969, escreve Der andere Prozess. Kafkas Briefe an Felice (O outro Processo. Cartas de Kafka [à sua noiva] Felice), em que estuda a luta interior de Kafka entre sua confortável vida burguesa e seu isolamento individual, utilizando interpretações psicanalíticas totalmente heterodoxas.

Uma das restrições que em geral lhe é feita está ligada ao suposto egocentrismo literário que o levava a boicotar em vida a produção literária da esposa, autora de várias novelas inéditas, entre as quais a semibiográfica Schildkröten (literalmente, As Tartarugas, mas se referindo ao nome que era dado em sua infância às empregadas domésticas), em que narra sua experiência na Áustria anexada, enquanto aguardava o visto para deixar o país. Contudo, depois do Nobel, Canetti estabeleceu um fundo para a divulgação da obra de Veza, chegando mesmo a escrever o prefácio da edição. No entender de Marianna Birnbaum, professora de literatura alemã da Universidade da Califórnia, a atitude de Canetti se devia mais ao receio de, em vida, expor Veza aos rigores da crítica, já que todos os seus livros, segundo a comentarista, eram insipidamente medíocres. Considerando as desavenças do casal, já separado nos últimos anos de vida da esposa, o comportamento de Canetti em vez de se mostrar egocêntrico, pode ser até mesmo interpretado como um último ato de reverência conjugal. Veza morreu em 1963 e Canetti voltou a casar-se em 1971 com Hera Buschor, de quem teve a filha Anna, hoje encarregada da divulgação de sua obra. Notório pela conquista de prêmios literários e de amantes problemáticas, Canetti achava que todas as relações pessoais eram para ele “um enigma” e via na “vida de casal” uma aberração. Mesmo durante seu longo casamento com Veza, ele morou quase sempre sozinho.

Apesar de ter vivido na Inglaterra por cerca de 40 anos e dominar perfeitamente o inglês, Canetti sempre escreveu em alemão, considerando-o sua “língua materna”. Chegou mesmo a fazer uma extensa apologia do idioma, atribuindo-lhe as características de doçura e suavidade. Alegam alguns críticos, pouco simpatizantes com sua obra, que ele fez tudo, do ponto de vista cultural, para se igualar aos grandes escritores de língua alemã, como Kafka, Thomas Mann e Musil, acumulando uma portentosa erudição e exercitando-se nos mais variados gêneros literários, mas só conseguindo permanecer num nicho de reserva, à espera do declínio imprevisto de algum daqueles nomes.

O mesmo ocorre em relação a certos críticos ingleses, que acusam Canetti de tentar “se inserir no que considera o mundo da maior das literaturas [a inglesa]” mediante ataques contundentes ao seu poeta maior, T. S. Eliot.

Esse existir em múltiplas culturas e o domínio de vários idiomas, em que se exacerbava sua compulsiva fome de leitura, fez de Canetti um ser conflituoso, incapaz de se satisfazer com as conquistas literárias (e outras) que foi obtendo ao longo da vida. Daí a diversidade de sua produção em que as narrativas se entremeiam de aforismos, em que as memórias dão espaço às críticas, em que as conferências se enriquecem com seus dados biográficos. A leitura era para ele como um ato antropofágico, pois deglutia o autor até incorporá-lo a si mesmo, como os selvagens faziam para se revigorar com a carne de seus inimigos mais valentes. Daí estas anotações sobre autores e livros, com sua impressionante extensão e variedade, nas quais ele emite conceitos díspares e julgamentos não raro a contracorrente da avaliação dominante. Sua obra está cheia de pedras de toque, de expressões cáusticas emitidas como esguichos de incontido sarcasmo. É quase certo que deve muito ao filósofo-corcunda alemão, Georg Christoph Lichtenberg (1742-1799) (“A ocasião não faz apenas o ladrão, mas também grandes homens”), de quem foi grande leitor e divulgador, bem como a William Blake (1753-1827), contemporâneo deste, e um dos poucos escritores ingleses que despertou o interesse de Canetti, a ponto de ter escrito neste livro: “Da população da Inglaterra que acossa a minha memória, ele é o único que me restou”. Esse passeio prolongado pelos clássicos gregos e latinos, e esse desfile de grandes escritores das principais literaturas do nosso tempo, é percorrido por Canetti sem qualquer intenção de crítica literária, de julgamento de valor, mas numa espécie de toma-e-larga, de um puxão apropriativo e de um afastamento repulsivo, nesse gesto meio inconsequente e alienado de quem lê e depois atira o livro fora. Canetti, a rigor, não lê: apropria-se de seus autores para domá-los, absorvê-los e depois livrar-se deles.

Também em suas conferências – sendo duas das mais características as sobre Georg Büchner e Karl Kraus – esse estranho misto de admiração e desdém se evidencia, deixando no entanto claro que esse último sentimento não se nutre de qualquer espécie de inveja, mas de identificação e autocrítica quando ele não  sente em si os valores especiais (não os tradicionais) que o outro possui e ele não consegue ter.

O acervo deixado por Canetti à Biblioteca de Zurique tem um volume dez vezes maior do que a sua obra já publicada. Dele poderemos esperar muitas surpresas à medida em que esses inéditos forem   publicados, o que será feito ao longo do tempo, conforme determinação do autor.

(Fonte: Cultura – O Estado de S. Paulo – 24.07.2005 – O senso estético como princípio)

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Cinéfilos de plantão, valei-me! Ewalds pais, filhos netos e afins, salvai-me! Um filme que vi (?) quando ainda na minha idade da pedra (de escrever, a ardósia, lembram-se?), ou algo depois, quando já deixara as cavernas da infância para caçar nas savanas da puberdade — está infernando a minha vida, como o emplastro a cabeça de Brás Cubas. Todos os dias me lembro dele, acrescentando algum detalhe ao enredo, iluminando uma sequência esmaecida, dando contorno à face dos atores. Já recorri a alguns amigos para me tirarem da dúvida se esse filme existiu mesmo ou não passa de uma projeção da minha mente. Dois ou três desses espantosos cinemaníacos, que sabem tudo sobre até mesmo os intérpretes de pontinhas mudas de antigos seriados da RKO, perderam tempo com minha dúvida existencial e foram prestimosos a ponto de  exumar dois ou três títulos, que infelizmente não bateram em sua totalidade com a minha história.

Mas vamos ao filme, um preto-e-branco possivelmente da década de ´30; cenário: estepe russa, vasta extensão de neve batida pelo vento. Numa estalagem, a meio caminho de Moscou, os cossacos se refazem das fadigas do percurso. Lareira acesa, vodca rolando, o estalajadeiro falastrão e sorridente animando os hóspedes com suas histórias ingênuas. De repente – emoção! – aparece a loura e bela filha, servindo desenvolta os clientes que lhe dirigem galanteios. Mas todos se aquietam quando ela canta uma daquelas  canções russas acompanhada de buliçosas balalaicas. Um dos cossacos, a fim de seduzi-la, diz ao pai que a moça faria grande carreira se fosse residir em Moscou. Ele cede afinal. Ela parte, já nos braços do futuro sedutor. Grande corte. O cossaco, depois de possuí-la, abandona a moça ao seu destino e ela passa miséria para não ter que voltar e revelar sua desdita ao pai. Escreve-lhe dizendo que se casou com o cossaco, vive numa bela mansão e faz sucesso cantando no teatro. O velho estalajadeiro (estou vendo a cara dele: Akim Tamiroff? Harry Baur? quem, meu Deus?) chora de alegria. Mas lá pelas tantas tem que ir a Moscou para – digamos – tratar da saúde. Escreve à filha que, apavorada, corre à procura do cossaco e lhe pede a graça de bancar seu marido por uma noite apenas, recebendo em sua casa o pai. O cossaco aquiesce; e para caçoar do “sogro”, convoca os colegas; dá uma festa, o velho todo alegre no meio daquela gente importante, na suposta casa da filha. Mas vendo  os oficiais mangando do mujique, a jovem resolve revelar toda a verdade. [É aqui o grande momento do filme: a fisonomia inesquecível do velho – Tamiroff? Baur? quem seria aquele grande ator? – que ao mesmo tempo chora e exproba a canalhice dos boiardos (estou vendo seus olhos de beberrão à la Mussorgsky)]. Novo corte: pai e filha regressam num trenó à estalagem da estepe. The end.  Alguém viu? Esse filme existe? Creio que se chamava A Estrada do Pecado ou O Caminho da Perdição. Não posso ter sonhado: o estalajadeiro lá me ficou emplastrado no trapézio do cérebro, machadianamente. Ajudem-me a deslindar o impasse. Prometo uma garrafa de vodca, para manter o clima.

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A excelente revista literária Dicta & Contradicta publicou em seu último número (dez., 2010) algumas traduções de Nelson Ascher, seguramente um dos nossos maiores tradutores de poesia, radicado em São Paulo. O talento multilíngue de Nelson, seu leque de interesses poéticos, sua tranquila navegação por épocas e escolas literárias podem ser apreciados na leitura de “Poesia Alheia”, publicado pela Imago em 1998, em que reúne 124 poemas traduzidos do latim, provençal, inglês, francês, espanhol, italiano, alemão, húngaro, esloveno e hebraico. Embora apreciador de Pound, Nelson nunca se disse (nem foi considerado) concretista, embora não fuja à inclinação do make it new. Entre as traduções mencionadas de início, ele incluiu uma versão (moderna) da célebre “Chanson d´Automne”, de Verlaine, sobre a qual já havíamos feito algumas observações em nosso post de 24.08.2010, e que aqui vai transcrita para a apreciação de nossos leitores:

 

Canção de outono

 

Violinos com

seu choro assom-

bram o outono

e eu, corpo mor-

to de torpor,

me abandono.

 

Quase sem ar,

desmaio ao soar

da hora enquanto,

lembrando em vão

os dias de então,

caio em pranto.

 

E o vento cruel

leva-me ao léu

pouco importa

aonde, em vaivém,

vago que nem

folha morta.

 

Vejam as preocupações formais do tradutor em preservar os sons “sombrios” de Verlaine: (sanglots longs d´automne=Violinos com, choro assom-), que são perseguidos mesmo nos versos seguintes (corpo morto torpor) quando no original a clave já havia mudado para coeur langueur. O sentido dos versos (além dos violinos) é igualmente preservado com ágeis e sutis transmutações: Tout suffocant = Quase sem ar/ Sonne l´heure = ao soar da hora/ Et je pleure = caio em pranto). A sensação é de que se trata de um “novo” poema, ou melhor de um poema novo, do poema renovado pela atualidade do autor. Possivelmente se vivo e brasileiro, Verlaine o teria feito assim.

Que acham?

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Uma seleção de 125 contos de Guy de Maupassant, escolhidos por Noemi Moritz Kon, traduzidos por Amílcar Bettega e editados pela Cosac & Naify (2009), traz-nos de volta um autor que, por várias décadas, foi o próprio ícone desse gênero literário. Não se podia falar em conto sem que o nome de Maupassant aparecesse como o grande inovador da categoria, e até mesmo como o criador da narrativa moderna. É verdade que, em pleno apogeu da produção maupassiana (1880), já Baudelaire tinha revelado aos franceses a genialidade narrativa de Edgar Allan Poe, uma das grandes fontes de inspiração e imitação de Maupassant; mas o aparecimento de Guy, depois de um longo período de maturação, sob a égide e o rigor criativo de Flaubert, aconteceu de maneira tão estrepitosa, que seu nome foi guindado imediatamente à categoria de mestre da história curta, e ele, cativando a maioria dos leitores das narrativas estampadas em jornais e revistas, logo se tornou o autor a que todos teriam a obrigação de conhecer para se mostrarem em dia com as novidades literárias.

Nascido em 1850, Guy de Maupassant ainda jovem já demonstrava inclinação para a literatura, mas graças à intervenção de Flaubert, amigo íntimo da família de sua mãe (e, possivelmente, seu pai biológico, segundo hipótese do biógrafo Michael G. Lerner), desenvolveu suas qualidades ao passar à condição de protegé do grande escritor, que o submeteu a um rigoroso aprendizado, proibindo-lhe editar qualquer coisa que não fosse considerada definitiva. Assim, só em 1880, publica seu primeiro conto (Boule de Suif, “Bola de sebo”), que recebeu a consagração pública de Flaubert, até então muito rigoroso no julgamento dos trabalhos literários do discípulo. Nos dez anos seguintes, Maupassant escreveu cerca de 300 contos, seis romances, um volume de versos, três impressões de viagens e algumas peças de teatro. Disputado pelos jornais, revistas e editoras alcançou nesse período o status de escritor que se torna rico exclusivamente com seu trabalho literário. Frequentador dos salões nobres, amante das grandes cortesãs e das mulheres fatais da alta sociedade de seu tempo, mobiliou com luxo nababesco um apartamento em Paris, teve iate e casa de campo no Mediterrâneo. Sua glória só vem a ofuscar-se quando, em decorrência da sífilis que se manifestara desde cedo, sofre ataques de depressão, enfrenta períodos de loucura (de que tinha consciência e que explora em alguns de seus contos), passa por uma tentativa de suicídio e morre aos 43 anos. Houve quem atribuísse esse infortúnio à vida desregrada do autor, que deixou sem perfilhar três de seus descendentes…

Flaubert considerava Bola de Sebo uma obra prima. Que dirão os críticos de hoje, depois do aparecimento de tantas tendências literárias envolvendo o gênero conto? Depois de Joyce e Virginia Woolf, depois de Gogol e Tchekov, depois do “conto psicológico”, do “conto fantástico”, do “conto sócio-político”, etc. etc? Baseado no conceito que ele atribuía a Flaubert, de que “só existe um modo de exprimir uma coisa, uma só palavra para dizê-la, um só adjetivo para qualificá-la e um só verbo para animá-la”, Maupassant foi um autor que passou a vida procurando a simplicidade objetiva sem chegar a consolidar um estilo.  É um narrador de fatos, quase um fotógrafo dos acontecimentos, apresentando-os sem comentários, sem tirar ilações. Em geral, transforma em conto uma anedota ou um caso, mas sem exagerar na roupagem estílistica, sem fazer dele ou dela uma obra literária. Mas o resultado é quase sempre admirável. Todo o valor cabe à simples narrativa, ao seu desenvolvimento linear, ora enriquecido de uma inversão da expectativa ou de um desdobramento inesperado. Incensado e controvertido ainda em seu tempo, a Maupassant foi em geral negada a condição de gênio, ou de êmulo de Flaubert, e as referências ao seu talento de escritor não raro se associam a limitações à sua criatividade. Apesar de tudo, formou-se em torno de sua figura e de sua obra todo um nicho de admiração, uma universidade de estudos, teses, biografias, clubes e cultos, que vão do levantamento exato do número de suas amantes à quantidade dos vocábulos que usou em sua obra. Houve época em que era a mais editada em todo o mundo, e ele foi imitado, plagiado, abundantemente traduzido e até mesmo falsificado. Ficou célebre a história da mistificação conhecida em francês por le canular du Corbeau, que começa com o aparecimento em 25 de outubro de 1912 de um artigo em La Grande Revue, intitulado “Guy de Maupassant íntimo – notas de uma amiga”, no qual certa Madame X revela suas relações amorosas com o escritor que lhe teria deixado alguns inéditos, principalmente cartas. Esse primeiro artigo foi seguido de outros, estendendo as confidências e revelando novas cartas amorosas. Tal era a aparência de autenticidade delas que, mesmo antes de se apurar sua autoria, já eram largamente transcritas na famosa edição da Pléyade, servindo de base a várias afirmações biográficas. Tempos depois, um estudioso do autor, Leon Deffoux, afirmou que as notas eram autênticas e devidas a Hermine Lecomte du Noüy, sabidamente uma das grandes “amigas” de Maupassant. Mas a 10 de julho de 1932, aparece no Esprit Français um artigo de certo Aurèle Patorni, anunciando a morte de Adrien Le Corbeau, escritor de origem romena e tradutor de Maupassant, que seria o verdadeiro autor das confidências e das cartas apresentadas por Madame X. Jacques Bienveny, hoje o grande estudioso de assuntos ligados a Maupassant, fez levantamentos estilísticos e cronológicos nas referidas peças, concluindo ter sido realmente Le Corbeau o autor da mistificação. Apesar de tudo, embora admitindo a possibilidade de fraude, a edição da Pléyade não retirou as citações de que se utilizara como atestados biográficos.

Mas, voltando aos 125 contos que o leitor brasileiro tem agora às mãos. Leia “Sobre a água”. Leia “Bola de Sebo”. Quem sabe Flaubert tinha razão.

(Fonte: Prosa & Verso – O Globo – 27.09.2009 – A arte de encantar)

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A mão direita afasta o ser em círculos

fechados contra o centro de si mesma.

Outros anéis — imóvel,

mantêm o pé na véspera do passo.

Do lado

onde o ofídio (mais olhos do que boca) ofende,

freia-o trêmula

a outra mão

— serpente do homem.

Equilíbrio de forças sobre o nada

momento de estática — vida?

…esse braço que vai ceder

e

teima.

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Solteirão de muitos amores mas de poucas ligações permanentes, arredio da grande cidade embora a visitasse para o convívio ocasional de seus amigos escritores, avesso a qualquer tipo de convenções (“As honrarias desonram, os títulos degradam, os empregos entorpecem”), Gustave Flaubert (1821-1880) havia se refugiado na literatura, em sua propriedade rural de Canteleu-Croisset, para vencer a aversão pela tolice humana.

Esse recolhimento campestre teve, no entanto, outros determinantes. De compleição robusta, Flaubert sofria de epilepsia psicogênica, e seu pai, cirurgião-chefe no hospital de Rouen, achou conveniente que o jovem trancasse matrícula no curso de direito em Paris e se recolhesse à província, onde seria mais bem assistido pela família. Ideal para ele, que só pensava em escrever. Mas alguns infortúnios domésticos iriam marcá-lo: o irmão mais velho Achille, médico-cirurgião como o pai, acaba louco; a irmã Caroline, por quem tinha manifesta afeição, casou-se em 1845 com Emile Hamard e teve uma filha de seu nome, morrendo em seguida; Flaubert assumiu a criação da menina, pois Hamard, desesperado, enlouqueceu após a morte da esposa. O pai, seu grande esteio, falece no ano seguinte. Restou-lhe a Sra. Flaubert, descrita por ele como sua carcereira, confidente, ama, paciente, banqueira e crítica.

Mas muitos são os amigos fieis que o cercam, como Louis Bouilhet e Maxim du Champ, este com quem viaja para o Egito, Palestina, Grécia, etc. dilapidando boa parte da herança que lhe coubera com a morte do pai.  E grande é o número de seus/suas correspondentes e confidentes, aos quais escreve montanhas de cartas (hoje reunidas em cinco volumes), comentando seus projetos literários e seus afãs amorosos. Visto como o “carrasco de si mesmo”, levava anos para escrever um livro, às vezes semanas para produzir uma página, esse cultor do “mot juste” que se tornou um dos maiores estilistas da literatura francesa do século XIX. Seus livros, como Salambô e Madame Bovary (que provocou escândalo, e um processo judicial do qual foi absolvido por pouco) trouxeram-lhe grande fama e sucesso financeiro, enquanto outros, como A educação sentimental e A tentação de Santo Antão não alcançaram o grande público, e, neste último caso, houve mesmo a insistência dos amigos para que o jogasse fora.

Durante cerca de 30 anos, principalmente nos últimos seis de sua vida (de 1874 a 1880), entregou-se à composição de Bouvard e Pécuchet, um romance anti-romântico, ao mesmo tempo fugindo do naturalismo reinante, em que, à falta do enredo tradicional, os acontecimentos são substituídos pela troca e conflito de ideias. Bouvard (viúvo sem filhos) e Pécuchet (solteirão convicto) são dois escreventes (ou copistas) que, graças a uma oportuna herança do primeiro e às economias acumuladas do segundo, vão se estabelecer na propriedade rural de Chavignolles, com o fito de adquirir cultura no convívio com os livros. Acreditando que as ciências pudessem ser aprendidas e experimentadas pela simples leitura dos compêndios doutorais da época, chafurdam em montanhas de livros e adquirem os implementos neles preconizados para a prática da atividade científica. Os resultados são desastrosos em função dos conflitos que os doutos geravam na defesa de suas teses e teorias. Os dois escribas se dedicam de início à jardinagem e à agricultura, embrenhando-se sucessivamente pelos estudos de agronomia, química, anatomia, fisiologia, medicina, higiene, astronomia, história natural, paleontologia, geologia, arqueologia e história. A cada leitura e a cada discussão, intentam provar ora a falácia dos livros, ora o que julgam o acerto de suas próprias teorizações, chegando fatalmente a resultados desastrosos tanto num caso quanto no outro. Como disse Guy de Maupassant no aparecimento do volume em 1881, trata-se de “uma prodigiosa crítica de todos os sistemas científicos que se opõem uns aos outros, destruindo-se mutuamente pelas contradições dos fatos”. O intuito de Flaubert não foi desmoralizar a ciência em si, mas as incongruências e bizarrices que o ensino da ciência então apresentava. Para tanto, desloca estrategicamente a ação (?) do livro para 30 anos antes (1840-50), o que lhe permite abordar e contradizer um quadro científico ainda mais empírico e criticável que o do seu tempo.

Flaubert parece ter “vivido” a experiência de seus (anti)heróis, pois ele próprio andou às voltas – como confessa a sua amiga  Edma Roger des Genettes – “com mais de 1500 volumes”, lendo-os e anotando-os, para acumular um montão de fichas “com oito polegadas de altura!” Frases pinçadas em diversos respeitáveis tratados então em voga, mostram o quanto de chavões, crendices e toleimas eram tidos como ciência — anotações essas que viriam compor a 2ª parte (inacabada) do livro. Alguns dos desastres agrários, hortigranjeiros e florestais dos bonshommes de Chavignolles talvez tenham sido na prática experimentados pela inabilidade rural do grand seigneur de Canteleu-Croisset. Ele chega a passear à noite em sua horta com uma vela acesa antes de escrever a última página do primeiro capítulo, em que relata essa experiência de seus personagens.  Logo se disse que Bouvard e Pécuchet eram uma réplica século-XIX das ilustres figuras de D. Quixote e Sancho Pança, cujas peripécias decorrem igualmente de um excesso de leituras cavaleirescas. Só que em Flaubert os moinhos de vento são as ciências empíricas e retrógradas, as cavalgadas pela honra e a virtude se fazem no campo das ideias. Os descobridores de semelhanças biográficas poderão dizer que Bouvard e Pécuchet são uma autocrítica da dupla Flaubert-Du Champ em suas viagens de explorações pelo Oriente e em suas discussões intermináveis a propósito de qualquer assunto. Extrapolando o terreno literário, o livro se apresenta de grande atualidade no cenário político mundial, principalmente em relação a nós, onde, por falta de planejamento e de correção administrativa, todas as iniciativas tomadas no campo das artes e ciências acabam nos melancólicos desastres dos bonshommes de Flaubert.

O livro saiu póstumo (1881): Flaubert havia morrido um ano antes, vítima da enfermidade fatal da terceira idade – escorregou na neve e partiu a fíbula (no seu tempo, o perôneo). Daí para as complicações é mais um passo. Esmagado pelo excessivo trabalho intelectual, ameaçado de falência, tendo que aceitar um cargo público para manter seu dia-a-dia, Flaubert morre aos 59 anos, de hemorragia cerebral. Saindo agora [2007] pela Estação Liberdade, louve-se Marina Appenzeller, a tradutora brasileira  desta nova edição [a anterior, de Galeão Coutinho e Augusto Meyer é hoje raridade de alfarrábio] pela correção do trabalho feito, pela pertinácia em encontrar as centenas de palavras exatas para designar os substantivos das inúmeras ciências, artes e ofícios que inundam o livro.

(Fonte: Suplemento Cultura – O Estado de São Paulo -17.02.2o08)

BOX

Em 1989, numa produção de Jean-Daniel Verhaeghe para os canais de televisão France 3 e La Sept, Jean-Claude Carrière adaptou brilhantemente o livro numa mini-série com Jean Carmet no papel de Pécuchet e Jean-Pierre Marielle no de Bouvard. Saindo em DVD em 1992, a realização permitiu ao grande público verificar como os dois atores conseguiram dar corpo, voz e alma aos personagens de Flaubert. A expressão cândida e fascinada de Carmet a cada frase ou decisão do incisivo Marielle consegue transmitir essa radiância hoje quase impossível das amizades puras e das afeições descompromissadas.

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ACALANTO 

Hoje dormirás a noite dos rios silenciosos

fluindo no tempo

as mornas águas do verão desfiando

os cabelos noturnos

por entre os velhos paredões da ponte.

A noite descerá dos eucaliptos

prenunciada pelas primeiras folhas

devolvidas ao solo.

Mas não haverá serenatas:

isso implicaria o passado

e a voz que tece aos teus ouvidos

vem mais da certeza do amanhã

que de murmúrios confundidos

em tramas de luar e vozes tristes.

Onde estarei em tua noite,

morta que foi a última estrela?

Onde estarei depois dos longos caminhos,

se me obstino em ter os rosto voltado para a frente?

A rua da província corre com o vento

para os altos descampados;

e este poste que fura um túmulo de luz

na noite sem mistérios

devolve a minha sombra aos teus domínios lentos

quase desfeitos na névoa do sono

que te cobre.

WIEGENLIED

 Heute wirst du die Nacht der stillen Flüsse durchschlafen

die in der Zeit fliessen

die milden Gewässerdes Sommers

welche die nächtlichen Haare

zwischen den alter Brückenmauern herausfordern.

 

Die Nacht wird von den Eukalyptusbäumen herabsteigen

angekündigt von den dem Erdboden

zurückgegebenen ersten Blättern.

 

Es wird aber keine Serenaden geben:

dies würde die Vergangenheit einbeziehen

und die Stimme die deinen Ohren zusingt

kommt stärker aus der Gewissheit vom Morgen

als aus dem Gemurmel

gemischt aus Mondgewebe und traurigen Stimmen.

 

Wo werde ich in deiner Nacht sein,

da der letzte Stern tot ist?

Wo werde ich nach den langen Wegstrecken sein,

wenn ich darauf beharre das Gesicht vorwärts zu richten?

 

 Die Strasse der Provinz läuft mit dem Wind

auf die Hochebenen zu;

und dieser Pfosten der ein Grabmal aus Licht

in der Nacht ohne Geheimnisse durchbohrt

gibt meinen Schatten deinen langsamen Besitztümern zurück

fast aufgelöst im Nebel des Schlafs

der dich bedeckt.

 

ÚLTIMA CARTA

Te ofereço Abril —

Abril subindo as escadas noturnas

onde o silêncio acumulou as heras do longínquo

Abril fitando um céu fluorescente

debruçado em sacadas e colunas.

Te ofereço a minha paz —

Este modo tranqüilo de ser

como um pôr-do-sol na minha terra.

Te ofereço o antiqüíssimo crepúsculo,

a tradição dos relógios antigos

e a doce alegoria dos cartões-postais.

Te ofereço esta árvore, tão provinciana,

que ainda sabe amadurar seus frutos

entre sombras e pássaros.

Tudo o que a tua infância não provou

e que a tarde como um canto rememora.

Mas não aceites nada —

que isso são coisas tristes do passado

e eu prefiro o teu sorriso

em que os dias eternos se renovam.

LETZTER BRIEF

 Ich biete dir April –

 

April der die nächtlichen Treppen ersteigt

wo die Stille den Efeu der Ferne anhäufte

April der einen blühenden Himmel betrachtete

gelehnt an Erker und Säulen.

 

Ich biete dir meinen Frieden –

 

Diese stille Art zu sein

wie ein Sonnenuntergang auf meinem Stück Land.

 

Ich biete dir das Geschenk der Abenddämmerung,

die Überlieferung der uralten Uhren

und das sanfte Sinnbild der Postkarten.

 

 

Ich biete dir diesen Baum, den so provinziellen,

der noch seine Früchte

zwischen Schatten und Vögeln zu reifen versteht.

 

Alles was deine Kindheit nicht erprobte

und woran der Abend wie ein Lied erinnert.      

 

Aber nimm nichts an –

denn dies sind traurige Dinge der Vergangenheit

und ich ziehe dein Lächeln vor

in dem die ewigen Tage erneuern.

 

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