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Archive for junho \30\UTC 2013

Lista dos artigos publicados no Caderno B do Jornal do Brasil                           entre maio/outubro de 2005:

07.05 – Uma lembrança de Drummond *
14.05 – A paixão da leitura – Em louvor da Bienal *
21.05 – Lula, uma vocação contrariada
28.05 – Protestos e implicâncias
04.06 – O nariz de Villaça *
11.06 – A bandeja da abjeção *
18.06 – Está faltando um nome para a Presidência *
25.06 – Corrupção e/ou incompetência
02.07 – U arraiá di Lula e a maratona de ridículos *
09.07 – Brasil, o país da cultura esférica *
16.07 – Um pouco mais de pão, senhores do destino
25.07 – A outra margem do rio
30.07 – A enganosa ilusão do Eldorado
06.08 – Brasil de duas faces
13.08 – Esperando Erwartung *
20.08 – Depois do Muro de Babel
27.08 – Lições de culinária parlamentar
03.09 – Vim do Norte Severino
10.09 – Bastou um vento para a desfolhar *
17.09 – ‘Passons au déluge’
24.09 – Briga de cachorro grande
01.10 – Fim do Bolo Brasil
08.10 – Esta arma nós não podemos depor
15.10 – A generalização do mineirismo
22.10 – O verdadeiro plebiscito
29.10 – Ainda resta uma esperança *

(Os assinalados com asterisco foram republicados aqui no blog)

 JB 004

Talvez para amenizar a visão depressivamente ridícula dos” espetáculos populares” que integram em geral nossas representações oficiais no exterior, a televisão francesa (canal TV5) apresentou na semana passada um documentário de quase duas horas sobre a cidade mineira de Diamantina, considerada patrimônio da humanidade. Em geral, toda vez que os estrangeiros documentam alguma coisa sobre o Brasil, é fatal que o foco da reportagem recaia sobre os aspectos mais deprimentes do nosso país: favela, miséria, doenças, pauperismo, indigência, ignorância, extermínio de índios, folclore mambembe, exotismo primitivista. Desta vez, foi um tanto diferente: embora fossem registrados demoradamente aspectos da procissão de Notre-Dame des Douleurs, a ênfase recaiu sobre 1.700 alunos (disseram), uniformizados e bem-portantes, que se dedicam ao aprendizado da música instrumental naquela cidade.

Por algum tempo, ficava-se na dúvida se a cena se passava realmente na terra do futebol e do carnaval. Em vez de estarem na rua jogando pelada ou batendo tamborim, os meninos de Diamantina empunhavam com seriedade seus violinos, seus instrumentos de sopro, de percussão, etc. e se dedicavam ao estudo da música barroca. Qual seria a entidade pública capaz de criar em Minas um projeto tão avançado e tão benéfico? Que sociedade progressista e instruída estaria por trás desse milagre brasileiro? A objetiva dos franceses não permitia dúvidas: a garotada local estava levando a sério aquela atividade pelo fato de nela reconhecer os benefícios desse aprendizado na formação de sua personalidade.

É sabido que a música estimula a capacidade mental, que age como uma espécie de matemática sonora, enriquecendo o raciocínio e a criatividade. Não é sem razão que os povos civilizados da Europa e do continente norte-americano investem nas escolas de música, nos orfeões, nos corais, incluindo esse aprendizado mesmo nos currículos primários. Bastante diferente aqui da terra em que os nossos dirigentes, sempre antenados na demagogia mais rendosa e eleitoreira, só pensam em criar campos de futebol e terreiros de capoeira. Não que se tenha algo contra o esporte, igualmente necessário para a eugenia da raça; nem contra os ritmos populares, a alegria do povo; o que se gostaria de ver é a não exclusividade deles em detrimento de quaisquer outras atividades que poderiam ser úteis ao desenvolvimento intelectual da nossa juventude

Recentemente o governo do Rio de Janeiro anunciou, em campanha publicitária, que estava liberando verbas para a construção de duas centenas de campos de futebol. Seria mais construtivo se parte dessa verba pudesse ser aplicada em outros tipos de educação de massa, no auxílio às entidades culturais falidas por falta de recursos oficiais, na manutenção de orquestras sinfônicas que se estiolam pela ausência de interesse particular ou público, pela criação de mais bibliotecas. Mas falar em cultura no Brasil desperta o escárnio daqueles que vêem na atividade cultural um ato de elitismo. O povo tem que ter é bola; bater bola na rua, nas calçadas, nos pátios, nos playgrounds, na praia, no saguão dos prédios, e até nos elevadores de edifícios (já vimos!). A bola é o nosso deus, nosso futuro, nosso único momento de glória. Músicos, pintores, escultores, artistas plásticos, arquitetos, escritores, tudo isto é frescura. Se a fome-zero não deu certo, a bola­-milhão certamente dará: 120 milhões de bolas para serem distribuídas por todo o país e seremos os invencíveis campeões do mundo. A cabeça não nasceu para pensar, mas para poder cabecear.

JB 005

Na maratona de ridículos à qual estamos assistindo, surge, a cada semana, um fato mais grotesco para superar a marca anterior. Só que desta vez tivemos um empate. Que será mais hilariante: o prefeito de Campinas proibindo o uso de “roupas típicas” na festa de São João ou o presidente Lula editando mais um de seus “arraiá” nos jardins do Palácio do Planalto? No caso de Campinas, o ato é tão absurdo como seria um desfile de carnaval sem escolas de samba. E, quanto à festa junina do Planalto, ela nos parece redundante, já que o governo vive num permanente forró caipira, em que o mais lamentável provincianismo se alia ao que de pior existe no folclore (cultural) brasileiro. Animados pelo quentão, certamente irão ouvir o mestre-de-cerimônias Dr. Dirceu, com impecável sotaque caipira, dizer: “0 PT não róba nem deixa róbar”, e já talvez por força do hábito roubando um “u” na conjugação verbal.

Enquanto isso, fogos, foguetes, foguetões, bombinhas, traques, girândolas, busca-pés, rojões estarão pipocando, explodindo, espiralando pelos salões do Congresso nas mil e uma CPIs que se instalam, se enroscam, se desfazem ou se multiplicam, sempre gerando ainda a ilusão ingênua de que veremos alguns fogos-de-bengala luzindo no céu da esperança de que algo vai mudar com essas movimentações. Mas, até agora, pelo rolar da carruagem, ou melhor, pelo rinchar preguiçoso dos fueiros dos carros-de-boi, a única vítima certa e previsível é o deputado Roberto Jefferson, que será, nas linhas do atual clima folclórico, impiedosamente malhado como um Judas de sábado da Aleluia.

O mais triste de tudo é que essa maratona de ridículos representa apenas uma parte ínfima do descrédito nacional. Desmotivada pelos exemplos negativos que vêm de seus governantes e das elites apodrecidas, a classe média– a verdadeira espinha dorsal da nação, na frase estereótipo — só pode sofrer as artroses do arrocho, os entorses do achatamento. Sem acesso à cultura, que foi escamoteada, varrida dos ideogramas nacionais como uma doença que tem de ser erradicada; sem possibilidades de ascender na escala de conhecimentos imprescindíveis à vida moderna; e intoxicada pelo mau gosto das artes populares, que lhes são impostas como o supra-sumo da criatividade humana, as gerações atuais estão sofrendo um processo de catarata progressiva, de otite obstrutora. de olfação degenerante em que os odores mefíticos são confundidos com aromas transcendentes.

A televisão, a propaganda martelante, o consumismo pé-de-chinelo, tudo puxa para baixo, para o inferior; para a falta de classe, de bom gosto, de cultura, de civilização. Entregue a uma governança sem programa, sem meta, cujo único objetivo é o de salvar a própria pele (e a de seus familiares, segundo Severino), a população brasileira está chegando aos mais baixos níveis de alfabetização, de desempenho cultural, de atividade criadora de que se tem notícia. Em vez de música séria, tome forró. Em tez de, espetáculos enriquecedores da mente, as baboseiras da vulgaridade rastaquera.

Enquanto os outros povos se aculturam, avançam no domínio da técnica, progridem no campo das artes, constroem países mais ricos e mais poderosos, nós vamos aqui — com a ajuda dos de cima, que pisam sobre as nossas costas — cada vez nos afundando mais na ignorância, na grossura e, daí para baixo, no crime e na devassidão. Chega de forró, chega de folclore esclerosante, chega de cultuar o que temos de pior e de mais preguiçoso. Está na hora de um governo decente e progressista nos dar educação, cultura, tecnologia e arte, que são os instrumentos garantidores da verdadeira liberdade.

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Há oito anos, de 7 de maio a 29 de outubro de 2005, mantive no Jornal do Brasil uma coluna semanal, aos sábados, de conteúdo predominantemente político. Os artigos vinham ilustrados por grandes caricaturistas da época, mas, para atender a uma bossa editorial de então, as ilustrações não se referiam necessariamente ao assunto do texto. Diante das lídimas reivindicações que hoje alcançam as ruas, voltei a ler algumas daquelas crônicas em que, como toda a imprensa da época, gritávamos contra os mesmos escândalos e esperávamos pelas sempre frustradas providências.  Ao transcrever aqui alguns deles, fazemos votos para que, desta vez, algo de concreto seja feito, pois esta é a nossa última esperança. Vejam em A bandeja da abjeção que já naquela época havia no nosso legislativo um movimento semelhante ao PEC 37!

 JB

Todos sabemos que em 1513, há quase 500 anos, o lobista florentino Niccolò Machiavelli dedicava seu tratado de bem governar ao poderoso príncipe da época, Giuliano de Médicis, e, perfeitamente familiarizado com o jogo do poder, já três anos depois aggiornava a dedicatória para o sobrinho daquele, Lorenzo de Médicis, que passara a assumir o comando da situação. Redigido por um chicaneiro de talento, a lição do tratado não podia ser mais direta: o poder se obtém à força ou através do ludíbrio e da vilania.

Em todos esses anos que rolaram de lá para cá, viu-se que não só o príncipe florentino, mas toda a camarilha política da maioria dos países, andou pondo em prática os ensinamentos de Nicollò, às vezes de maneira velada (a sottocapa, como diriam os italianos), às vezes de maneira ostensiva (de barriga de fora, como diríamos nós). Com isto acostumou-se a aceitar a política como sendo um teatro de hipocrisias e promessas falsas com atores cujo objetivo único é o de alcançar o poder e nele permanecer.

Aqui em nosso Reino tropical, tanto nos tempos do império, da República, da ditadura, do parlamentarismo ou do neoliberalismo, nossa vista foi se habituando à máscara multifronte dos chamados representantes do povo, empenhados em salvar seus interesses, mesmo (e quase sempre) em detrimento dos interesses da nação. Alguns desses representantes se tornaram emblemáticos: acostumamo-nos com a hipocrisia de hiena de um Maluf, a astúcia camaleônica de um ACM, a demagogia destrutiva de um Brizola – para só ficarmos no panteão da mais alta hierarquia no manuseio individualista do poder.

No entanto, observado agora do mirante da atualidade, essa perspectiva nos parece longínqua e desfocada, quase irreal, pois o ludíbrio foi substituído pela desfaçatez franca e agressiva, com um presidente da Câmara dos Deputados declarando-se a favor do nepotismo e dizendo que o papel do político é fazer barganhas e atender a todos os pedidos dos colegas, sem qualquer indagação quanto ao mérito ou à canalhice da solicitação.

Incentivado pelo despudor reinante, o deputado Jatahy Magalhães, do PFL da Bahia, resolveu mesmo sacramentar a ignomínia propondo uma lei que institucionaliza a corrupção no país, excluindo de processo os governantes. Sem que haja qualquer tipo de coerção – seja por uma decência interna que não existe mais na Câmara, seja pelo protesto externo, público, que pouco pode fazer de concreto, e face às explosões atômicas de escândalos que sobem como cogumelos putrescentes – tapamos a vista com a peneira das denúncias e esperadas punições que não se concretizam, abafadas pelas conivências e conveniências partidárias. E diante da inação governamental, as declarações do presidente de que os fatos serão apurados, que os responsáveis serão punidos doa a quem doer (lembram-se do duela a quien duela?), de que será cortada no próprio corpo a porção de carne apodrecida – acabam soando como meros ribombos de uma retórica de palanque, outros lugares-comuns de uma eloquência de jaquetão.

As poucas figuras que se salvavam pelo seu comportamento não escrachado nem circense – diverso do que se têm visto em muitos componentes do governo – e que vinham resistindo com tenacidade ao conluio e ao descalabro, acabam também elas, diante da força do código maquiavélico (este best-seller da política atual), tendo de participar diretamente em áreas de exposição de todo alheias ao seu reduto, talvez forçadas pelo impositivo máximo de manutenção no poder. Foi com grande pesar que o Brasil esperançoso de uns últimos laivos de decência viu o ministro Palocci expondo-se ao deprimente beija-mão da visita ao Poderoso Brucutu (em mangas de camisa)* para levar-lhe na bandeja da vergonha o dinheiro da acomodação.

[* Referência a Severino Cavalcanti, então presidente da Câmara dos Deputados, hoje cassado]

JB 001

Se o príncipe Hamlet fosse brasileiro teria de mudar sua célebre frase “há qualquer coisa de podre no Reino da Dinamarca” para “há podridão total na casa da Mãe Joana”. O descalabro apossou-se de Brasília e os catilinas já abusaram demais de nossa paciência.

As tribos africanas, para afugentar a fera predadora que lhes ronda os rebanhos, usam lançar mão de tudo quanto possa provocar ruído e percutem tambores, troncos ocos, paus, panelas para dar a impressão de que os poucos habitantes são milhares de guerreiros dispostos à caçada. Parece que o nosso presidente, em suas andanças pela África, aprendeu essa técnica de causar ilusões para ocultar a verdade. Nunca, em governo algum, pipocaram tantos escândalos, vieram a furo tantas denúncias, configuraram-se tantas acusações; mas, passado o foguetório inicial do encher-a-vista, as coisas voltam à impunidade de sempre e ninguém é punido, ninguém devolve o dinheiro.

Sem querer repisar nem reprisar as maracatuias de Brasília, seus despudorados e comprovados atos de compra-e-venda partidária, com membros do governo filmados metendo no bolso o gordo dinheiro do suborno, temos, na área cível, um caso típico de impunidade flagrante. Um deputado (logo,impune por definição) constrói com material inadequado   (de seu conhecimento) um edifício que rui matando pessoas e deixando uma centena de famílias desabrigadas. O caso rola na Justiça, ele ganha a causa e vai brindar a vitória com champanhe em Miami num luxuoso hotel de sua propriedade. Os novos sem-teto continuam a briga e o magnata volta a julgamento, mas, possuidor de alguma varinha de condão, é novamente ilibado e certamente terá desta vez consumido, com o champanhe de praxe, uma boa lata de caviar do Irã.

E se juízes vendilhões são presos em flagrante, com seus computadores confiscados; membros do governo apanhados com a mão na grana; contas na Suíça com os nomes de seus depositários divulgados – nada disso faz com que alguma medida possa garantir ao cidadão de que tais atos sejam condenáveis e puníveis. Que passará na cabeça do ingênuo trabalhador que procede honestamente, que paga imposto, que acredita num Brasil futuramente grande onde seus filhos poderão viver com dignidade?

Lula, na oposição, uivava contra o adversário, alegando que o governo anterior protegia os banqueiros, que era um roubo um banco apresentar num trimestre um lucro de bilhões. Agora, no governo, o PT parece o Protetor dos Todo-Poderosos, em alegre conúbio com aqueles que considerava criminosos exploradores da miséria do povo. E ainda embarca na onda criando na Caixa Econômica uma ardilosa maneira de explorar os velhinhos aposentados.

A verdade é que Lula não governa, refugiado nas nuvens, acionado pelos cordéis da Casa Civil, da presidência do PT e de seus líderes parlamentares. Ele é hoje a nossa rainha da Inglaterra, só que mais semostrador, sem o mesmo recato. Em seus pronunciamentos bombásticos, chega a assumir ares de ditador com aqueles “eu fiz”, “eu faço” “eu vou fazer”, que acabam em nada fazendo e em não fazendo nada.

Não é o caso de corrermos à passeata pelo impeachment – isso arriscaria desestabilizar o país, que já não vai lá muito além das pernas, cambaleante em sua política de improvisos. Mas já é hora de pensarmos na sucessão presidencial. Outro mandato seria a reprise da incompetência, o remake da incapacidade petísta de governar segundo as diretrizes que preconizava quando na oposição.

O problema todo está em quem votar, em quem seria o braço capaz de corrigir o rumo e não deixar o Brasil-Titanic soçobrar. Até agora não pintou ninguém a quem pudéssemos confiar esse comando. Falta um nome capaz de encarnar a decência, assumindo de fato o compromisso da honestidade.*

* [De repente surge uma luz com o nome de Barbosa]

CONTINUA

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MUSEU NAB (todo)

No princípio deste ano, o grupo ultraconservador Cossacos de São Petersburgo atacou a sede do museu Nabokov, na rua Bolshaya Morskaya, 47, naquela cidade, pichando uma das paredes com a palavra “pedófilo”. O museu, inaugurado em 1998, funciona na casa em que nasceu o escritor cerca de um século antes e onde ele viveu até 1917, quando se exilou com a família após a Revolução de Outubro. O protesto visava ao romance Lolita, em que Nabokov descreve a paixão de um professor quarentão por sua enteada, uma menina de 12 anos, livro que lhe trouxe fama mundial e lhe permitiu libertar-se de suas atividades universitárias para se dedicar exclusivamente à literatura. Enriquecido, o escritor foi viver com a mulher Vera e seu filho único, Dmitri, no 4º andar do hotel Montreaux Palace, na Suíça, onde faleceu em 1977.

 NAB BORB

Perfeitamente trilingue (russo, inglês e francês), ele já havia publicado cerca de dez novelas em russo quando chegou em 1940 aos Estados Unidos, empreendendo aí uma carreira de professor e conferencista no Wellesley College e nas universidades de Cambridge e Cornell, ao mesmo tempo em que desenvolvia seus estudos e paixão pela lepidopterologia. Seu primeiro livro escrito em inglês foi A verdadeira vida de Sebastian Knight (1941), em que já revelava as características literárias que o distinguiriam pouco depois como um dos maiores estilistas da língua inglesa.

LOLITA

Essas qualidades se evidenciaram no grande escândalo literário que foi Lolita (1955), livro que começa com uma espécie de poema aliterativo, verdadeiro inferno de frustrações para os tradutores de todo o mundo: “Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta.” Acusado desde o princípio de ter escrito um romance pornográfico e indutor à pedofilia – acusações que vêm recrudescendo agora como demonstra o pichamento do museu de São Petersburgo – Nabokov sempre se defendeu alegando que o personagem do romance, Humbert Humbert, é de fato um mau caráter, a quem ele, autor, denuncia no livro por suas atividades ilícitas e o condena à morte na prisão. Abstraindo-se julgamentos de ordem comportamental, não há como negar a capacidade descritiva do autor em analisar os meandros de uma personalidade doentia invadida por uma paixão avassaladora,

FOGO PALIDO

Seu livro seguinte, Fogo pálido (1962), apresenta o ineditismo de ser um romance policial extraído da análise de um poema, uma espécie de transposição factual de sugestões meramente esboçadas pelo jogo sonoro-vocabular da poesia. Originalidade que se prolonga em Ada ou o Ardor (1969), seu livro mais longo e abrangente, ao qual Nabokov consagrou um tempo maior de elaboração. Em todos eles, no entanto, o leitor fica fascinado com a complexidade de seus enredos, a sutileza de seus jogos de palavras, suas imbricações linguísticas e a microscopia de sua capacidade de observador. Amante de enigmas, palavras cruzadas, xadrez, adivinhas, acrósticos e trocadilhos, o texto de Nabokov se distingue pela busca obcecada de um vocabulário preciso e funcionalmente multiplicativo trazendo às suas descrições a impressão de que as lemos sob a mesma lupa com que ele estudava as entranhas de suas borboletas.

NABOKOV

Autor de centenas de poemas, de dezoito romances, de um livro de memórias, inúmeras cartas a escritores e editores e de elaboradas traduções, Nabokov ainda escreveu ao longo de sua vida quase uma centena de contos, 68 dos quais chegam agora ao público brasileiro numa compacta edição da Alfaguara, através do profissionalismo tradutório de José Rubens Siqueira. Boa parte deles foi publicada ainda em vida do autor, cabendo a seu filho Dmitri, igualmente poliglota e exaustivo tradutor da obra do pai, selecionar mais treze dos que se achavam sob a rubrica “raspa do tacho”, referindo-se isto não à sua qualidade, mas ao fato de que eram no momento os únicos dignos de publicação. Tais contos encontraram em Siqueira o que se poderia designar de tradutor integral, aquele que não deixa nenhuma palavra sem tradução, que busca não equivalências mas o mot just, a palavra exata para transpor a calidoscópica riqueza vocabular de Nabokov, sem perder com isto a naturalidade da frase, a precisão de seu significado e a preciosa cadência de seus tons. Em contos, como por exemplo, A primeira namorada, Nabokov descreve a viagem ferroviária que fez quando criança, em férias, de Moscou a Biarritz, e as suas observações visuais do deslocamento para cima e para baixo das linhas telegráficas que bailavam, através da janela, ao ritmo dos movimentos do trem; o leitor fica maravilhado com os efeitos sinestésicos do original e a capacidade do tradutor em reproduzi-los.

Capa Contos reunidos Nabokov.indd

Essa capacidade se evidencia no arqui-notório As Irmãs Vane, em que Nabokov usa (e abusa) de trocadilhos e acrósticos. O conto tem uma espécie de overture mozartiana, toda delicadeza e acordes mágicos, em que o narrador descreve os pingentes de gelo (estalactites) que se formam nas calhas do telhado de uma casa de madeira e a sombra alongada de um parquímetro sobre a qual incide um estranho tom avermelhado. É em meio dessas divagações que ele encontra seu colega-professor D. que tem um caso com Sybil, uma das irmãs Vane, enquanto o narrador, por sua vez, irá se relacionar com a outra irmã, de nome Cynthia. Obrigada a renunciar à sua ligação com D., Sybil, acaba suicidando-se, após deixar um bilhete ambíguo, e Cynthia, que era chegada ao espiritismo, tenta comunicar-se com ela, acabando por morrer de um ataque cardíaco depois de manter um curto affaire com o narrador. Este acha que ela lhe mandará uma mensagem de além-túmulo. Embora fosse impossível, na tradução, reproduzir o trocadilho inglês do bilhete de Sybil (D minus e minus D.) em que o nome do personagem se confunde com a notação musical , e a expressão minus possa significar tanto maior como menos, a solução apresentada pelo tradutor preserva no entanto o substrato da narrativa (“a Morte não era melhor que D menos, mas era definitivamente melhor que a Vida menos D”.) Mas onde a perspicácia e a pertinácia do tradutor fica mais à prova é no famoso epílogo em que Nabakov, depois de aludir a uma novela inglesa (sem mencionar diretamente O Retrato de Dorian Gray, cuja personagem feminina se chama Sybil Vane, como em seu conto), deixa a entender que nela, em seu parágrafo final, há uma mensagem oculta representada pela primeira letra de cada palavra. O leitor corre logo para o livro de Wilde, mas nada encontra. Só depois percebe que tal mensagem existe sim, mas no último parágrafo do próprio conto As Irmãs Vane — Icicles by Cynthia Meter from me Sybil –, que o tradutor conseguiu reproduzir em Estalactites de minha irmã Parquímetro meu Sybil.

Creio que o reconhecimento de um excepcional trabalho de tradução é a melhor recomendação que se possa fazer de um grande livro.

Publicado no suplemento Prosa & Verso, de O Globo, em 08.06.2013 sob o título Nabokov em ótima versão brasileira.

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navio nas ondas (1)

SEGUNDA PARTE

E onde andava Enoch? prosperamente engajado

No barco “Boa Sorte”, que embora deitando velas

No rumo de Biscaia, sulcou ásperas ondas para o leste,

Abaulou, quase submergiu; contudo, indene,

Deslizou no longo mar das terras quentes

E após grande avaria nas imediações do Cabo

E frequ1entes alternâncias de bom e de mau tempo,

Passou mais uma vez pelo mundo dos trópicos;

E com a brisa do céu soprando de contínuo

Foi levado suavemente para as ilhas douradas

Até o silêncio de seu porto oriental.

Ali Enoch negociou por conta própria, adquiriu

Estranhos animais para os mercados da época,

E um lagarto dourado, também, para as crianças.

Menos auspiciosa a viagem de volta: no início de fato

Ao longo de uma bela circunavegação, dia após dia,

No fraco embalo, a figura da proa mantinha a cabeça

Acima da crista das ondas em todos seus corcovos:

Depois a calmaria, seguida de ventos variáveis,

Após desconcertantes, uma grande série deles; por fim,

A tempestade, a ponto de arrastar, sob céus sem lua,

O navio tão fortemente, que após se ouvir o grito “vagalhões”,

Veio o fragor do choque e a ruína, e a perda de todos

Naufr+ígio (2)

Exceto a de Enoch e de mais dois. Em meio à noite,

Boiando sobre destroços e partidas vergas,

Os náufragos foram dar de manhã à praia de uma ilha,

Rica, mas a mais solitária na solidão do mar.

N+íufragos (3)

(partitura)

Mas todo dia

o sol surgia em raios escarlates

entre palmeiras, juncos, precipícios:

— um clarão sobre as águas do levante;

— um clarão  sobre a ilha à sua frente;

— um clarão sobre as águas do oriente…

Vinha depois a noite em céu de estrelas;

o cavo uivo do mar; e novamente

o sol raiava – mas nenhuma vela.

Enoch s+¦ (4)

Às vezes, de vigia ou se tal fosse,

Silente, qual lagarto de ouro imóvel,

um fantasma gerado de fantasmas

vinha assombrá-lo, ou punha-se ele próprio

a assombrar gente, coisas e lugares

que o julgavam em negra ilha distante:

os filhos a falar, Annie, a casa,

a subida da rua, o moinho, as trilhas,

fícus podados de pavões, a igreja,

o barco que vendeu, as madrugadas

frias de novembro, orvalhados campos,

a chuva fina, o odor das folhas mortas

e o murmúrio do plúmbeo mar mugindo.

E de outra vez, tangendo em seus ouvidos

em som festivo — embora bem distante —

ouviu planger os sinos de seu porto;

sem saber a razão, estremeceu…

E quando a bela e malfadada ilha

voltou-lhe à mente, se seu coração

não tivesse falado com Aquele

que estando em toda a parte nunca vemos,

certo iria morrer de solidão.

Vela (5)

(declamação)

Viu Enoch, sobre a  precoce prata dos cabelos,

Ano após ano, chuvosas e ensolaradas estações

Se sucederem. As esperanças de rever os seus

E palmilhar de novo os sacros campos familiares,

Não perecera ainda, quando a sua solitária sina

Chegou abruptamente ao fim. Outro veleiro,

(Em busca de água) desviado por ventos imprevistos,

Como foi o “Boa Sorte”, de seu curso de destino,

Se acercou da ilha, sem noção de onde estava.

Quando o contramestre vislumbrou de madrugada,

Por um rasgo na névoa que envolvia a ilha,

A cascata silente que escorria das montanhas,

Mandou uma equipagem a terra que, ali precipitando

Em busca de um regato ou fonte, logo alvoroçou a praia

Com seus clamores. Descendo pela encosta da montanha

Lá vinha o solitário de longos cabelos e comprida barba,

Queimado, mal parecendo humano, calçado estranhamente,

Gaguejante e trôpego, com ares de idiota

E inarticulada fúria, fazendo-lhes sinais

Que não podiam compreender; mas mesmo assim levando-os

Para onde estavam os riachos de água doce;

E embora se misturasse aos tripulantes

E os ouvisse falar, sua língua há muito entorpecida

Se havia perdido, até que os fez compreender.

A ele trouxeram, com seus pipotes de água, para bordo;

Ali então a história que ele engrolou indistintamente,

A princípio pouco acreditada, mas que o foi sendo aos poucos,

Assombrou e comoveu quantos que ouviram.

Deram-lhe roupas e passagem livre para a terra.

Amiúde laborava em meio deles, conseguindo

Quebrar o isolamento. Nenhum dos tripulantes

Vinha de seu país, ou podia esclarecer

Suas perguntas, mormente aquelas que lhe interessavam.

E a viagem seguiu monótona e com grandes tardanças,

O barco sem condições de navegar; cada vez mais, contudo,

Sua imaginação corria à frente do indolente vento

Nesse retorno, até que sob uma lua encoberta pelas nuvens,

Ele, tal um amante no último resquício de suas forças,

Aspirou o hálito matinal das campinas orvalhadas

Da Inglaterra, soprado para além de sua espectral escarpa.

E naquela manhã oficiais e a marujada em peso

Penalizados com a sorte desse homem

Fizeram uma coleta e deram o recolhido a ele.

E manobrando ao longo da costa então deixaram-no

Naquele mesmo porto donde partiu um dia.

ENOCH SALVO 6

Ali Enoch não trocou palavra com ninguém,

Mas a caminho de casa… casa?… que casa?… teria uma casa?

De sua casa ele seguiu. Clara estava a tarde,

Ensolarada mas fria; então se embrenhou por outra ravina,

Em cujo fim em baixo um outro porto se encontrava

Imerso na névoa do mar que a tudo envolvia de cinzento.

Foi andando ao longo da estrada à sua frente,

Deixando à esquerda e à direita pequenos vestígios

De ressequidos bosques, de lavouras e pastagens.

Numa árvore desnuda um triste tordo piava

Desconsolado, e através da névoa umedecida

O peso morto de uma folha morta se abatia.

Quanto mais densa a névoa, mais fundo o desconsolo

Ia ficando, até que um pequeno clarão borrado pela bruma

Pareceu-lhe cintilar à sua frente. Chegara ao seu lugar.

Então, percorrendo a passo lento a longa rua,

O coração prenunciando só calamidade,

De olhos fitos nas pedras do chão, chegou à casa

Onde Annie vivia e o amava, a ele e aos seus filhos,

Que nasceram naqueles sete anos felizes e distantes;

Mas não achando ali nem luz nem um murmúrio

(Um anúncio de venda luzia através da névoa) arrastou-se

Mais para baixo pensando: “Mortos ou mortos para mim!”

Descendo mais chegou às águas do acanhado porto,

Buscando uma taberna que outrora  conhecia

Cujo frontão de madeira que era uma antigüidade,

Cheio de escoras, carcomido, ruinosamente velho,

Pensou que já se fora; porém quem tinha ido

Era o dono; e a viúva, Miriam Lane, mantinha

A casa com os minguados tostões de cada dia.

Refúgio de ruidosos marujos no passado, agora

Mais calmo, com quartos de aluguel aos forasteiros.

Enoch, silencioso, lá ficou por muitos dias.

ENOCH e Miriam 7

Mas Miriam Lane era alegre e tagarela,

Não o deixava falar, porém se intrometendo,

Contou-lhe, assim como outros anais do porto,

Sem saber — Enoch tão queimado, tão cabisbaixo,

Tão abatido — a história inteira de sua própria casa.

A morte do filho, a penúria crescente,

Como Philip levou os filhos dela para a escola

Ali mantendo-os, a longa corte que lhe fez,

A lenta aquiescência dela, o casório, o nascimento

Do filho de Philip: mas em seu semblante não passou

Nenhuma sombra, nenhuma contração: qualquer pessoa

Que o visse, pensaria que a narração lhe tocara menos

Que ao próprio narrador; só no fim quando ela disse:

“O pobre Enoch ficou perdido e abandonado”,

Ele, balançando pateticamente a cabeça grisalha,

Repetiu murmurando “perdido e abandonado”,

E de novo num suspiro mais fundo murmurou “perdido!”

Mas Enoch ansiava por ver-lhe novamente a face:

“Preciso ver de novo aquele rosto amado

Para saber se está feliz”. E de tal forma o pensamento

O exasperava e exauria, que o impeliu à colina,

Certa vez quando o dia triste de novembro

Num crepúsculo ainda mais triste se fazia.

Lá sentou-se a olhar tudo o que havia embaixo.

Mil lembranças voltaram-lhe à mente

Na tristeza indizível. Pouco a pouco,

O esquadro róseo de uma luz reconfortante,

Brilhando ao longe nos fundos da casa de Philip,

Fascinou-o, como a luz do farol fascina

A ave migradora, até que enlouquecida

Se choca contra ele, e põe um fim à fatigada vida.

A casa de Philip dava frente para a rua,

A última casa do terreno; atrás dela,

Com uma cancela que abria para um ermo,

Medrava um pequeno jardim quadrangular, murado,

E nele brotava um antigo pé de sempre-viva,

E mais um fícus, em torno do qual havia um corredor

De cascalho, que uma passagem dividia.

Mas Enoch evitou a passagem do meio e esgueirou-se

Ao comprido do muro, por trás do fícus, e dali — do lugar

Que melhor fora se tivesse evitado, se um sofrimento

Como este pode saber o que é melhor ou não — ele viu:

Copos e talheres na lustrosa mesa brilhavam

E luziam, tão acolhedor que era o lar.

E à direita da lareira viu

Philip, o desprezado pretendente de outros tempos,

Rosado e robusto, com seu filho ao colo;

E inclinada sobre seu segundo pai a moça,

Uma  Annie Lee porém mais nova e mais altiva,

Loura e bem alta, de cuja mão erguida

Pendia a extensão de uma fita e um anel

Para tentar a criança, que erguia os pregueados braços

Naquele pega e não pega, enquanto riam.

E à esquerda da lareira viu

A mãe a olhar insistentemente para o filho,

Mas vez por outra se voltando para falar com aquele

Que era também seu filho, que ao lado dela, esguio e forte,

Lhe dizia algo agradável, pois que riam.

ENOCH V+¬ a casa 8

Quando o morto que volta à vida viu

a esposa não mais sua esposa, e o filho

dela, não dele, entre os joelhos do pai,

tanto calor e paz, tanta ventura,

seus próprios filhos altos e bonitos,

e aquele outro, reinando em seu lugar,

tendo os direitos dele e o amor dos filhos,

então ele, a quem Miriam já contara

— pois ver é bem mais forte do que ouvir —

tremeu de medo e se agarrou ao galho

para não dar agudo e horrível grito,

que num momento, qual clarim do Juízo,

destroçaria a paz daquele lar.

Então, voltando qual ladrão furtivo,

silenciando o cascalho sob os pés,

tateando ao longo o muro do jardim,

temendo desmaiar, cair, ser visto,

chega ao portão, abre de leve e o fecha

como a porta do quarto de um doente,

atrás de si, e sai nas sombras do ermo.

E quis se ajoelhar, mas seus joelhos

fraquejaram, e então caiu de bruços

e os dedos enterrou no chão, pregando:

“Quem há-de suportar! por que fui salvo?

Ó Todo-poderoso Salvador,

que me amparastes na deserta ilha,

sustentai-me, meu Pai, na solidão

mais um pouco! valei-me, dai-me forças

de não dizer-lhe, nem deixar que o saiba.

Ajudai-me a manter aquela paz.

Também meus filhos! não falar com eles?

Não me conhecem. Eu me trairia.

Nunca: adeus beijo de pai… minha filha

tão semelhante à mãe… o outro meu filho”.

Então a voz e a mente se acalmaram

mantendo-o em transe, mas quando se ergueu

de volta à nova solidão de agora,

descendo veio a longa e estreita rua,

martelando no cérebro cansado

como o estribilho de uma cruel canção:

“Não lhe dizer, nem lhe deixar que o saiba”. Nunca!

(PIANO SOLO)

Não se sentia infeliz. Sua resolução

Fizera-o renascer, e a firme fé, e mais ainda

A prece que, de uma fonte viva em seu desejo,

Brotava, atravessando a amargura do mundo

Como torrentes de água doce sob o mar,

Mantinha-o vivo. “A mulher do moleiro”,

Disse ele a Miriam, “cuja história me contou,

Não teme que o primeiro marido dela esteja vivo?”

“Ai, ai, pobre coitada”, disse Miriam, “temeu muito!

Se você lhe pudesse dizer que o viu morto,

Isso lhe serviria de consolo”, e ele pensou:

“Quando Deus me chamar, há-de sabê-lo,

O porto 9

Vou esperar que me chame”, e Enoch pôs-se então,

Recusando caridade, a trabalhar por seu sustento.

Suas mãos sabiam fazer de tudo um pouco.

Carpinteiro, fazia barcos, e sabia igualmente

Tecer redes para os pescadores; ajudava a carregar

E descarregar os altos barcos empenhados

No restrito comércio que havia nesses tempos.

Assim ganhava o seu magro sustento,

Mas como só trabalhasse para si, labutava

Sem futuro; não havia no labor aquela vida

Pela qual um homem quer viver; e como o ano

Girou em torno de si mesmo até de novo o dia

Em que Enoch voltara, uma tristeza veio

Como uma enfermidade amena, gradualmente

Abatendo-o, até que ele não pôde mais agir

E ficava em casa, numa cadeira, e ao fim na cama.

Mas Enoch suportava sua fraqueza alegremente:

Decerto nenhum náufrago na praia

Vê com mais júbilo no abrir-se de uma névoa

O barco que lhe traz a esperança aproximar-se

Para salvar do desespero a vida, do que Enoch via

A morte vir ao seu encontro, e tudo ter um fim.

Pois nesse encontro luzia uma esperança cara

Quando Enoch pensava: “Talvez depois que eu for

Ela venha a saber que a amei até meu último dia”.

Chamou então em voz alta por Miriam e lhe disse:

“Dona, tenho um segredo… porém quero que jure,

Antes de lhe contar… que jure sobre a Bíblia

Não revelá-lo a ninguém antes que eu morto esteja”.

“Morto”, clamou a taberneira, “olha quem fala!

Eu lhe garanto, homem, que em breve está de pé.”

“Jure”, repetiu firme Enoch, “sobre a Bíblia”.

E sobre a Bíblia, meio assustada, ela jurou.

Enoch voltando-lhe então seus olhos cinza:

“Você conhece o Enoch Arden desta vila?”

“Conheço?!” disse ela, “eu o conheci há muito tempo.

Ah, lembro-me dele descendo pela rua,

Tendo a cabeça erguida, sem se importar com ninguém.”

Vagarosa e tristemente Enoch respondeu-lhe:

“A cabeça baixou e ninguém se importa com ele.

Penso não ter mais que três dias de vida;

Sou esse homem.” Diante do que a mulher lançou

Um grito meio incrédulo, meio histérico.

“Você, Enoch, você! não… ele era decerto

Mais alto que você.” Enoch retrucou-lhe:

“Deus me reduziu  a isto que hoje sou;

A dor e a solidão acabaram comigo;

Saiba contudo que eu sou bem aquele

Que se casou com… mas seu nome mudou…

Que me casei com quem se casou com Philip.

Sente-se e ouça.” Então lhe contou toda a viagem,

O naufrágio, a vida solitária, o seu retorno,

Como foi espreitar Annie, a decisão que tomou

E como a havia mantido. Enquanto a mulher ouvia,

Logo fácil correu-lhe a torrente do pranto

Enquanto no seio ansiava ardentemente

Sair lá fora e dizer a toda a gente do porto

Que Enoch estava vivo e contar seu infortúnio;

Mas respeitando a promessa a que se achava presa,

Disse apenas: “Veja ao menos os seus filhos antes de ir!

Deixe-me buscá-los, Enoch”, e levantou-se

Ansiosa por trazê-los.  Enoch se deteve

Um momento nessas palavras, mas por fim lhe disse:

 

(Partitura)

Enoch velho 10

“Não venha confundir meu pensamento,

Quero morrer com a minha decisão.

Sente-se aí de novo. Olhe-me e escute

enquanto tenho força ainda — incumbo-a

de, quando a vir, dizer-lhe que morri

abençoando-a, a rezar de amor por ela,

e que em minha desgraça muito amei-a

como no tempo em que estivemos juntos.

E diga à minha filha Annie, que vi

tão semelhante à mãe, que eu expirei

dando-lhe a bênção e a rezar por ela.

A meu filho que, ao morrer, o abençoei.

Diga a Philip também que eu o bendisse;

ele só fez o bem a todos nós.

Se meus filhos quiserem ver-me morto,

que em vida pouco viram, pois que  venham,

eu fui seu pai; Annie não deve vir,

Pois minha face a espantaria para sempre.

Agora só me resta um de meu sangue

e que há de me abraçar lá noutro mundo;

este cabelo é dele; ela cortou-o,

deu-me e o guardei por todos esses anos.

para o levar comigo para a cova.

Mas mudei de pensar, pois hei de vê-lo

em sua glória; assim, quando eu me for,

dêem-no a ela, ser-lhe-á de algum conforto;

além de lhe servir também de prova

de que sou eu.

(declamação)

Emudeceu; e Miriam Lane

Lhe pareceu tão hesitante prometendo

Que ele mais uma vez pousou-lhe os olhos

Repetindo-lhe as últimas vontades, e ela

De novo prometeu.

Então, na terceira noite depois disto,

Enquanto Enoch jazia entorpecido e pálido,

E Miriam a intervalos velava e dormitava,

Veio do mar um chamado em voz tão alta

Que todas as casas do porto despertaram.

Ele acordou, ergueu-se, abriu os braços amplos

Gritando a toda voz: “a vela! a vela!

Estou salvo”, e caiu sem nada mais dizer.

pausa

(partitura)

Finou-se assim a brava e heróica alma.

Quando foi seu enterro, raras vezes

o porto viu tão rico funeral.

Fim

Enoch livro 1

ADENDOS

Consta que a canadense Florence Nightingale Graham, inspirada no poema de Tennyson, adotou o nome de Elizabeth Arden como trade mark para seu império cosmetológico.

Nos Estados Unidos, a Lei Enoch Arden permite o divórcio ou a separação do casal de modo  que uma das partes possa voltar a casar-se se o cônjuge ausente  permanecer desaparecido após sete anos, quando poderá ser declarado legalmente morto.

Esta tradução do poema Enoch Arden está protegida pela lei dos direitos autorais. Para sua apresentação em público é necessária a autorização do tradutor e o pagamento de um fee.

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