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Archive for abril \30\UTC 2016

            MAIS UM LIVRO DE GEORGES PEREC

perec

“A Vida, modo de usar” — a obra fundamental de Georges Perec – foi traduzida por mim e publicada em 1991 pela Companhia de Letras, de S. Paulo. O livro esgotou-se em pouco tempo, mas levou dezoito anos para ser reeditado, o que só ocorreu em 2009, pela mesma Companhia das Letras, mas dessa vez em formato de bolso.

Em 2005, traduzi para a Cosac & Naify duas curtas novelas de Perec, “A Coleção Particular” e “Viagem de Inverno”, obras que, escritas no final da vida do autor, oferecem excelente abertura para o seu labirinto literário, pois nelas se observa a inventiva transbordante de Perec, que povoa os relatos de incontáveis seres e coisas. Além disso, há que destacar sua escrita minudente e ardilosa, que solicita a cumplicidade do leitor ao mesmo tempo que desnorteia sua bússola.

Surge agora pela Gustavo Gili, uma editora de Barcelona com filial no Brasil, essa “Tentativa de esgotamento de um local parisiense”, claro exemplar da fase oulipiana do autor, que em outubro de 1974 se instalou por três dias seguidos na praça Saint-Suplice, em Paris, com o fim de observar os seus detalhes. Em diversos momentos desses dias anotou tudo o que via: os acontecimento cotidianos da rua, as pessoas, os veículos, os animais, as nuvens, o passar do tempo. Fez listas de tudo o que ocorria, mesmo dos fatos mais insignificantes da vida cotidiana, mas nada ou quase nada de conclusivo. Entretanto, sua visão de uma percepção humana única, vibrante, impressionista e variável, recolheu os mil detalhes imperceptíveis que compõem a vida de um bairro determinado de uma grande cidade: as incontáveis e sutis variações do clima atmosférico, da luz, dos cenários, de tudo o que está vivo: “tudo aquilo que acontece quando não acontece nada”.

Leia mais sobre Perec:

Georges Perec, um Proust da sucata, aqui.

                                                   ***

CHAMO A ATENÇÃO DOS LEITORES PARA A POSTAGEM ANTERIOR EM QUE FORAM PRESTADAS  HOMENAGENS  A SHAKESPEARE E A CERVANTES PELO QUARTO CENTENÁRIO DE SUAS MORTES, OCORRIDAS AMBAS EM 23 DE ABRIL DE 1616.

NÃO DEIXEM DE LER O MONÓLOGO DE HAMLET – O FAMOSO TO BE OR NOT TO BE – SER OU NÃO SER — QUE CONSIDERO UMA DAS MINHAS MELHORES TRADUÇÕES.  INB

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HOMENAGEM  AO  QUARTO  CENTENÁRIO DA MORTE

DE WILLIAM SHAKESPEARE  (1564 – 1616)

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HAMLET’ S SOLILOQUY (Act III, Sc I)

 

HAMLET: To be, or not to be–that is the question:

Whether ‘tis nobler in the mind to suffer

The slings and arrows of outrageous fortune,

Or to take arms against a sea of troubles

And by opposing end them. To die, to sleep–

No more; and, by a sleep to say we end

The heart-ache and the thousand natural shocks

That flesh is heir to. ‘Tis a consummation

Devoutly to be wish’d. To die, to sleep;-

To sleep: perchance to dream: ay, there’s the rub;

For in that sleep of death what dreams may come

When we have shuffled off this mortal coil,

Must give us pause. There’s the respect

That makes calamity of so long life;.

For who would bear the whips and scorns of time,

The oppressor’s wrong, the proud man’s contumely,

The pangs of despriz’d love, the law’s delay,

The insolence of office, and the spurns

That patient merit of the unworthy takes,

When he himself might his quietus make

With a bare bodkin? who would fardels bear,

To grunt and sweat under a weary life,

But that the dread of something after death,

The undiscover’d country from whose bourn

No traveller returns, puzzles the will,

And makes us rather bear those ills we have

Than fly to others that we know not of?

Thus conscience does make cowards of us all;

And thus the native hue of resolution

Is sicklied o’er with the pale cast of thought,

And enterprise of great pitch and moment

With this regard their currents turn awry,

And lose the name of action.

(Edição de W. J. Craig da Oxford University Press)

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MONÓLOGO DE HAMLET

 

Ser ou não ser… eis a questão.

Se é mais nobre à razão o suportar

Fundas e flechas da afrontosa sorte

Ou tomar armas contra um mar de opróbrios

E enfrentando-o acabar? Morrer, dormir;

Não mais? E imaginar que em sono acabam

Mil dores d’alma e os naturais conflitos

Herdados pela carne… eis um epílogo

De ansiar-se com fervor. Morrer, dormir.

Dormir: sonhar, quem sabe? Eis o impasse.

Nesse sono da morte vir-nos sonhos,

Depois de livres do mortal invólucro,

Nos faz deter. E tal cogitação

Nos transforma em flagelo a longa vida.

Pois quem sofrera os látegos do tempo,

Ultrajes do opressor, o ar do arrogante,

Os ais do ingrato amor, da lei delongas,

A insolência do mando, as rejeições

Que o mérito paciente tem do indigno,

Se ele próprio pudesse resgatar-se

Com a adaga nua?

 

Quem levara fardos,

Gemendo e suando numa vida insulsa,

Senão que o medo de algo após a morte

– País indescoberto donde nunca

Viajante algum voltou – enreda o intento

E nos faz preferir nossas misérias

A voar para outras mais que não sabemos?

Assim nos faz covardes a consciência

E a primitiva cor da decisão

Dilui-se ante o palor do pensamento,

E as empresas de alcance e de visão

Desviam-se por isso de seu curso

E perdem o nome de ação.

(Tradução de Ivo Barroso)

***

 HOMENAGEM AO QUARTO CENTENÁRIO DA MORTE DE

MIGUEL DE CERVANTES (1547-1616)

Miguel-de-CervantesSONETO A SANCHO PANZA

Sancho Panza es aquéste, en cuerpo chico,
pero grande en valor, ¡milagro extraño!
Escudero el más simple y sin engaño
que tuvo el mundo, os juro y certifico.

De ser conde no estuvo en un tantico,
si no se conjuraran en su daño
insolencias y agravios del tacaño
siglo, que aun no perdonan a un borrico.

Sobre él anduvo -con perdón se miente-
este manso escudero, tras el manso
caballo Rocinante y tras su dueño.

¡Oh vanas esperanzas de la gente;
cómo pasáis con prometer descanso,
y al fin paráis en sombra, en humo, en sueño!

dom-quixote-e-sancho-pancaSONETO A SANCHO PANÇA

Sancho Pança, o que tem corpo nanico,
mas que é grande em valor, milagre  arcano!
O escudeiro  mais simples, sem engano,
que houve na terra, eu juro e certifico.

Esteve perto de ser conde rico,
se contra ele não houvesse o plano
de insolências e agravos deste insano
século, a perseguir mesmo um burrico.

Por ele andou – se é que não se mente –
este manso escudeiro, atrás do manso
“Rocinante” e de seu patrão bisonho.

Oh! esperanças vãs de toda gente;
como viveis a prometer descanso
se tudo acaba em sombra e fumo e sonho!

(Tradução de Ivo Barroso)

 

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Beijo-Rodin                                       O Beijo, escultura de Auguste Rodin

Origem do Dia Internacional do Beijo

Não se tem certeza sobre a origem do Dia do Beijo, porém acredita-se que a data teve origem numa vila italiana onde havia um homem chamado Enrique Porchelo, que beijava todas as mulheres que encontrava, não importando se eram ou não comprometidas. No dia 13 de abril de 1882, o padre da localidade resolveu oferecer um prêmio em moedas de ouro à primeira mulher que se apresentasse e não tivesse sido beijada por Enrique. Nenhuma mulher se apresentou, e acredita-se na lenda de que a pequena fortuna, não outorgada, continui escondida em algum lugar da Itália até hoje.

As duas mais famosas citações literárias sobre beijo que conheço são a cena do baile em “Romeu & Julieta”, de Shakespeare, e o beijo de Roxana, no Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand (a minha preferida).

A CENA DO BAILE

romeue julieta

A cena do baile é a número V do ato I e se passa durante uma festa na mansão dos Capuleto (pais de Julieta). Romeu, que é Montecchio, ou seja, de família rival, penetra disfarçado no baile, aproxima-se de Julieta e lhe segura a mão para dançar com ela:

If I profane with my unworthiest hand 

This holy shrine, the gentle sin is this; 

My lips, two blushing pilgrims, really stand 

To smooth that rough touch with a tender kiss. 

 

Ou, na mais que fabulosa interpretação de Onestaldo de Pennafort:

 

Se profanei com a minha mão sacrílega

O santo relicário dessa mão,

Para tão doce falta a doce pena é esta:

Meus lábios, dois humildes peregrinos,

Só pedem a graça de expiar

Com ternos beijos a profanação

Da rude mão.

 

E prossegue:

 

JULIETA:

Meu bom romeiro,

Sois severo demais com a vossa mão,

Que só mostrou com isso a sua devoção,

As santas também têm mãos, que os romeiros

Podem tocar, quando eles bem desejam.

E unindo as palmas é que as mãos se beijam.

ROMEU

As santas e os romeiros não têm lábios?

JULIETA

Sim, romeiro, mas só para a oração.

ROMEU

Oh! se assim é, minha querida santa,

Que os lábios façam o que faz a mão!

Eles vos rogam; concedei a graça,

Para que a sua fé não se desfaça!

JULIETA

Porém, as santas, para conceder

As graças, não precisam se mover.

ROMEU

Ficai imóvel, pois, minha santa querida,

Enquanto eu colho a graça concedida

(Beija-a)

 

O BEIJO DE ROXANA

cyrano

A outra citação — em que se encontra a mais bela definição de beijo que conheço (em francês: Un point rose qu’ on met sur l’ i du verbe aimer; em português: Ponto róseo no “i” do lábio que se adora) — se refere à famosa cena do balcão (Ato III, cena X) da peça teatral “Cyrano de Bergerac”, de Edmond Rostand (1868-1918), cena ali denominada “O Beijo de Roxana”.

O poeta-espadachim Cyrano de Berrgerac, pertencente aos célebres cadetes de Gasconha, nutre um secreto amor por sua prima Roxana, mas jamais ousará confessá-lo pois sua aparência física (um narigão descomunal) não lhe permite qualquer veleidade amorosa. Por sua vez, Roxana está apaixonada pelo belo Cristiano, um cadete que serve na mesma companhia de Cyrano. Sabendo que a prima é uma letrada, que adora os galanteios floreados, Cyrano ajuda Cristiano, belo mas nada eloquente, a escrever e pronunciar palavras que seriam do agrado da prima. A cena aqui se passa à noite: Roxana está em seu balcão e Cristiano se aproxima para seduzi-la. Ele se recusa a usar frases que Cyrano lhe havia ensinado, pois acha que pode conquistá-la sozinho. Logo às suas primeiras frases, Roxana se mostra desiludida com a platitude vocabular do moço, e Cyrano sugere ficar ao lado, na sombra, soprando para ele algumas frases amorosas. A alternativa fracassa pois Cristiano não consegue reproduzir devidamente o que Cyrano lhe sopra. A solução será Cyrano, aproveitando-se da sombra e de seu enorme chapelão, assumir o lugar de Cristiano e continuar a conversa amorosa como se fosse o outro. Lá pelas tantas, Roxana já embevecida com o palavreado de Cyrano, concede dar ao suposto Cristiano uma prova de seu amor. O jovem então se aproveita e pede a Cyrano que convença a amada a conceder-lhe um beijo. Apesar da recusa de Cyrano, Roxana insiste na oferta, embora pudicamente se retraia ante a menção de beijo.

 

CYRANO

Baiser. Le mot est doux!

Je ne vois pourquoi votre lèvre ne l’ose;

S’il la brûle déjà, que sera-ce la chose?

 

E prosseguindo, na mais que extraordinária tradução de Carlos Porto Carrero:

 

Beijo, o nome é doce. E, pois,

Para o lábio hesitar, motivo é que não vejo.

Se ao nome ele se inflama, o que faria ao beijo?

Não vos deixeis tomar de repentino susto;

Deixastes o gracejo, aos poucos e sem custo;

Deslizastes, após, sem comover-vos tanto,

Do sorriso ao suspiro e do suspiro ao pranto;

Basta-vos deslizar dos olhos para a boca:

Das lágrimas ao beijo a diferença é pouca.

………………………………………………………….

Mas… um beijo? O que é que não se peça?

Um voto que se faz mais perto, uma promessa

Mais firme, uma expressão que o fato corrobora;

Um ponto róseo no i do lábio que se adora;

Segredo que se diz.. na boca; uma centelha

Do infinito, e que faz leve rumor de abelha;

Comunhão que nos dá de pétalas o gosto;

Modo de se aspirar o coração no rosto

E de provar-se, um pouco, à flor dos lábios, a alma.

……………………………………………………………………….

Sim! Um beijo é a soberana palma:

A rainha de França a um lorde, ao mais ditoso,

Um beijo concedeu…

……………………………………………………………………..

Silencioso

Como ele eu sufoquei a dor que me espezinha;

Como ele, triste, em vós, adoro uma rainha.

Depois dessa lábia toda, Roxana não resiste: pede que o amado suba até a sacada em que ela está para colher “a vívida centelha”. Cyrano empalidece, quer que Cristiano suba em seu lugar. Este hesita, pois sente que foi Cyrano quem conquistou o beijo. “Avia-te, animal!” Sobe lá imbecil, diz-lhe Cyrano.O belo Cristiano vai; mas ao vê-lo  colhendo “o beijo da vitória”, Cyrano exclama:

Ai de mim! Que lancinante dor!

Beijo! No teu festim sou Lázaro de amor;

Contudo, uma sutil partícula, que é tua,

Dentro em meu coração nas trevas se insinua;

Pois no lábio que beija, em frívola doidice,

Roxana está beijando as frases que eu lhe disse.

Demais! Caro leitor, se esta é a primeira vez que você lê estes versos de Rostand, trazidos até nós pelo insigne tradutor Carlos Porto Carreiro, corra e vá comprar o livro. Ele ficou gravado na alma dos jovens de minha geração. Tenho a certeza de que também há de ficar na sua.

 

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O CADERNO DO ESCOTEIRO – Traduções – Ivo Barroso – 1947/49 (já citado aqui na Gaveta e em livro) deixa claro que minha primeira tradução de poesia foi o soneto “El Celaje”, de Amado Nervo, poeta mexicano nascido em 1870 e falecido em 1919. Saber onde eu teria encontrado o original é algo menos evidente, embora imagine que a fonte mais provável tenha sido a revista “Paratí”, que então se editava na Argentina. Explico: meu tio Alfredo era radioamador (PY-4AP) e recebia publicações de seus correspondentes estrangeiros, em geral postais com dia e hora do contato herteziano, mas vez por outra lhe chegavam fotos e publicações dos respectivos países. Eu me interessava sempre pelas revistas, principalmente essa que publicava uma seção “Quando mi vida, quando…”, com pensamentos e poemas curtos. Foi lá, sem dúvida, que encontrei o soneto.

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El Celaje

Amado Nervo

 

Adónde fuíste, Amor, adónde fuíste?

Se extinguió del poniente el manso fuego

y tú, que me decías “Hasta luego,

volveré por la noche”… no volviste!

 

En que zarzas tu divino pie heriste?

Qué muro cruel te ensordeció a mi ruego?

Qué nieve supo congelar tu apego

y a tu memoria hurtar mi imagen triste?

 

…Amor, ya no vendrás! En vano, ansioso

de mi balcón atalayando vivo

el campo verde y el confín brumoso;

 

y me finge um celaje fugitivo,

nave de luz em que, al final reposo

va tu dulce fantasma pensativo.

4/9/1915

 

cuidadosamente transcrito na primeira página do caderno, tendo na seguinte a tradução, toda certinha, o que faz supor anteriores rascunhos emendados:

 

A Nuvem

Amado Nervo

Para onde foste, Amor, e me deixaste?

Extinguiu-se no poente o manso fogo,

e tu, que me dizias: “Até logo!

voltarei pela noite!” — não voltaste!

 

Em que sarça o divino pé magoaste?

Que muro te ensurdece de meu rogo?

Que neve pôde congelar-te o afogo

e a memória daquele a quem amaste?

 

…Amor, já não virás! Em vão, ansioso,

da minha porta, em atalaia, vivo

aos verdes campos e ao confim brumoso;

 

E me parece um “stratus” fugitivo

— nave de luz, em que, ao final repouso

vai teu doce fantasma pensativo.

01.12.1947

Parece que a dificuldade maior estava precisamente na tradução do título, Celaje, que em espanhol significa “aspecto do céu quando está sulcado de nuvens tênues e de cores distintas”. Como não conseguisse encontrar um equivalente imediato, acrescentei uma nota: À falta de melhor palavra que correspondesse à tradução, usei “stratus” como equivalente de “celaje”. Na verdade, esse tipo de nuvem fina e alta no poente é o que mais pode assemelhar-se à palavra espanhola, sem nome especial entre nós, que, despreocupadamente, chamamos “nuvem” a qualquer tipo delas.

 

MAS QUEM ERA ESSE POETA AMADO NERVO?

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Para mim, na época, totalmente desconhecido e, ao que parece até hoje ignorado pela maioria dos leitores. Mas Nervo teve seu momento de glória: Nascido em 1870 em Tepic (México), José Amado Ruiz de Nervo, começou a se distinguir no periodismo com a fundação da Revista Azul (1894), em que publicou suas primeiras crônicas e poesias. Em 1898 lança seus livros de poemas Perlas Negras e Místicas, que lhe granjeiam de imediato considerável sucesso. Em 1900, segue como correspondente do diário El Impacial para cobrir a Exposição Universal de Paris, onde faz amizade com o grande poeta nicaraguense Rubén Darío e se relaciona com literatos e artistas parnasianos e modernistas franceses. Nessa ocasião, conhece Ana Cecilia Luisa Dailliez, que seria, na expressão do poeta, “a mulher de sua vida”. Em 1902 regressa ao México onde é nomeado professor de literatura e inspetor de ensino. Publica Los jardines interiores e Cantos Escolares, poemas pedagógicos musicados. Torna-se poeta de grande aceitação pelo público, graças ao seu estilo direto, emotivo, quase coloquial. Em 1905, ingressa no serviço diplomático e vai servir na Legação do México em Madrid, onde  colabora com várias revistas literárias e se liga aos escritores Pérez Galdós, Juan Ramón Jiménez e Miguel de Unamuno. Em 1918, já poeta consagrado na literatura latino-americana, é nomeado ministro plenipotenciário para a Argentina, Paraguai e Uruguai. Ao assumir o cargo, faz uma escala no Rio, onde é recebido com grande honra pelos intelectuais da época, que até organizam um concurso para traduzir seu poema “Covardia”. Amado Nervo morreu em Montevidéu em 24 de maio de 1919, tendo o governo uruguaio decretado honras de ministro, bandeiras a meio pau e salvas de canhão. Em novembro, seus restos mortais foram transladados ao México, onde grande multidão seguiu seu féretro até a Rotunda dos Homens Ilustres.

UMA HISTÓRIA DE AMOR

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Em 31 de agosto de 1901, quando correspondente jornalístico em Paris, Amado Nervo conheceu Ana Cecilia Luisa Dailliez, o amor de sua vida. Eis como ele próprio descreve o encontro: “Eu ia à procura de uma garota do Bairro Latino [Quartier Latin] (…) A moça não compareceu ao encontro e, ao contrário, a mão misteriosa que tece os destinos, nos pôs, a Ana e a mim, frente a frente. Ela passeava com uma irmã e, como soube depois, havia saído aquela noite impulsionada por um tédio tão grande quanto o meu. (…) Nossa simpatia foi imediata,mas apesar disto aquela alminha ingênua e temerosa resistia em entregar-se. A vida havia sido sombria para com ela e por isso tinha medo. — Não sou mulher por um dia — disse-me enérgica, mas sorridente. — Então, por quanto tempo? — perguntei-lhe entre leviano e ansioso. — Para toda a vida. – Pois bem!

Inicia-se o romance, o casal vai morar junto, mas já no ano seguinte Amado teve de regressar ao México, onde permanece até 1904, quando Ana Cecilia vem se reunir a ele. Nomeado diplomata, com posto em Madrid, Nervo segue para lá com a amante e vão residir na calle Baillén, 15, 2º andar Esq. Ana Cecilia leva vida reclusa, não sai nunca de casa em companhia do poeta. Os costumes rígidos da época não permitiam que um diplomata assumisse uma amante ostensiva. Os dois só têm liberdade quando viajam juntos por alguns países da Europa. Em 1911, vai com ela a Paris, donde regressam trazendo para Madrid a filha de Ana, Margarida, então com 11 anos. Tudo indica que havia uma premeditação nesse regresso a três. Não fica claro se só então Amado soube da existência daquela filha. Ao que tudo indica, Ana Cecilia tinha sido uma espécie de jovem avançada para a época e já era mãe solteira quando conheceu o poeta. Consta que era filha de um teósofo, dono de uma livraria especializada em ciências ocultas. Admite-se que Ana tivesse cultura e sensibilidade para ouvir o poeta recitar-lhe os versos de Serenidad. O certo é que sua dedicação a ele, a partir de então, transformou-a numa companheira totalmente sublime e conformada, a ponto de permanecer anos seguidos presa num pequeno apartamento madrilenho para não comprometer a carreira do poeta. Um ano depois, Ana contraí febre tifoide, doença fatal naquela época. Ambos sabem que ela vai morrer, e Amado, que trabalha na Chancelaria do México a três quilômetros dali, faz todos os sacrifícios para estar mais tempo possível a seu lado. Ana lhe pede que nada revele de seu relacionamento a seus superiores, mas o poeta não resiste e lhes confessa o romance moribundo, pedindo-lhes que o deixem sair todos os dias um pouco antes de encerrar o expediente. Ele corria, voava “entre a multidão atarefada“, subia “com ânsia de morte as escadas” e perguntava “com voz trêmula a quem lhe abria a porta: Com vai ela? Como vai?” O médico o desengana, está mantendo a enferma artificialmente, à base de estimulantes. E Ana morre a 6 de janeiro, sendo enterrada no dia seguinte no cemitério de Saint Lazare.

O inconsolável poeta busca refúgio na poesia e nas ciências ocultas. Escreve durante a agonia da amada quase todos os dias, e mais ainda depois de sua morte. Esses poemas, nascidos do mais extremado sentimento de frustração e culpa, mas igualmente de esperança de um dia recuperar a amada, foram reunidos em volume a que deu o título A Amada Imóvel, com a determinação de que só fossem publicados depois de sua morte. Saindo em 1922, esse livro trouxe um novo alento à poesia de Amado Nervo, fazendo dele um dos poetas mais lidos da América latina.

GRATIA PLENA

Tudo nela encantava, tudo nela atraía:

o sorriso, seu gesto, os olhos, seu andar!

O talento da França de sua boca fluía

era cheia de graça, como na Ave Maria:

— quem a viu não consegue esquecer seu olhar!

 

Ingênua como as águas, diáfana como o dia,

era pálida e loura, — Margarida sem par.

Ao influxo de sua alma celeste, amanhecia,

e era cheia de graça, como na Ave Maria:

— quem a viu não consegue esquecer seu olhar!

 

Uma doce e amável dignidade a investia

de não sei que prestígio distante e singular.

Mais que muitas princesas, princesa parecia,

e era cheia de graça, como na Ave Maria

— quem a viu não consegue esquecer seu olhar!

 

Gozei do privilégio de tê-la nesta via

dolorosa, pois nela findou meu desejar.

Ela encheu de cadência do céu minha poesia,

e era cheia de graça, como na Ave Maria

— quem a viu não consegue esquecer seu olhar.

 

E amei-a muito, muito. Por dez anos possuí-a.

Porém flores tão belas nunca podem durar!

Era cheia de graça, como na Ave Maria,

e a essa fonte de graça, de que ela procedia

retornou… como gota que volta para o mar!

(Março de 1912/ Trad, de Ivo Barroso em dez. de 1947)

 

EPÍLOGO

margarida

Com a morte de Ana Luisa, Amado Nervo temeu que as autoridades francesas lhe tirassem a tutela da enteada, Margarita, nascida em Paris a 7 de setembro de 1900. Eis o que escreve a seu irmão, Rodolfo: “Agradeço-te de coração as frases tão nobres e afetuosas que dedicas a minha Anita. Infelizmente não fui para ela tão bom quanto o merecia essa alma de eleição que por mais de dez anos me acompanhou pela vida sem que um só instante sua ternura empalidecesse. Devia ter-me casado com ela e não o fiz por preocupações e suspeitas que agora à crua luz de minha dor considero indignas e estúpidas. Só encontro um modo de reparar minhas omissões para com ela ao amparar-lhe a filha.” Em abril de 1912, o Tribunal de la Seine o nomeia oficialmente tutor de Margarida, e em 1918 segue em companhia dela e de seu sobrinho, o oficial de chancelaria Rafael Padilla Nervo, para Nova York, onde pronunciará conferências na Universidade de Colúmbia. Cada vez mais obcecado pelas ciências ocultas, Amado vê em Margarida a “reencarnação” de Ana Cecilia, e chega a propor casamento à enteada. A recusa de Margarida leva-a a deixar a companhia do poeta, vindo a casar-se, mais tarde, com o sobrinho diplomata. Em 1970, ambos fundam em Tepic a “Casa Museo de Amado Nervo”, que conserva as obras e objetos pessoais deixados pelo poeta.

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