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Archive for março \29\UTC 2013

cordeiro pascal Foto 1

A Páscoa é tempo propício à meditação e à esperança. Mormente agora que habemus um novo Papa e a Igreja parece encaminhar-se no sentido de sua destinação histórico-religiosa: a valorização dos princípios éticos sem os quais a existência humana se degrada. Não tendo algo de meu para lhes dar sobre a grandiosidade deste período pascal, escolhi dois poetas mineiros que compuseram grandes versos sobre a Semana Santa: Djalma Andrade (1891-1976) e Alphonsus de Guimarães (1870-1921). Sobre Alphonsus e sua poesia religiosa, já falei aqui. Sobre Djalma, lembro-me que em 1954, em janeiro, três meses antes de entrar para o Banco do Brasil, fizemos (eu e Albertus Marques, meu grande amigo, aqui), uma espécie de “viagem de despedida”, a Ervália (minha terra natal), Viçosa (onde fui publicado pela primeira vez) e Ponte Nova (em cujo Jornal do Povo nós ambos escrevíamos). Em Viçosa, visitamos o nosso grande incentivador literário, Dr. Edgard de Vasconcelos (veja aqui), que viria a ser meu padrinho de casamento dois anos mais tarde, e que naquele momento estava no auge de sua carreira de pedagogo, professor emérito da Universidade Rural de Viçosa, depois de tirar vários PHDs de especialização no Exterior. Edgard nos recebeu em seu palacete a cavaleiro da estação ferroviária de Viçosa e conversamos longamente sobre literatura. Ao sairmos, ele nos presenteou com um livrinho de bela capa e excelentes versos do poeta mineiro Djalma Andrade, autor dos mais fluentes sonetos que já tenho lido, capaz de uma linguagem simples e direta que dá à sua poesia um tom quase conversacional:

DjalmaDjalma_Andrade_2

Foto de Djalma Andrade

ATO DE CARIDADE

Que eu faça o bem, e de tal modo o faça,
Que ninguém saiba quanto me custou:
― Mãe, espero de Ti mais esta graça:
― Que eu seja bom sem parecer que o sou.

Que o pouco que me dês me satisfaça,
E se, do pouco mesmo, algum sobrou,
Que eu leve essa migalha aonde a desgraça
Inesperadamente penetrou.

Que a minha mesa, a mais, tenha um talher,
Que será, minha mãe, Senhora nossa,
Para o pobre faminto que vier.

Que eu transponha tropeços e embaraços
― Que eu não coma, sozinho, o pão que possa
Ser partido, por mim, em dois pedaços.

mater admirabilis FOTO 3‏

MATER ADMIRABILIS

Quando eu entrei naquela igreja, estava
Nossa Senhora ao pé de Jesus Cristo;
Parecia que a santa me fitava
Como se nunca me tivesse visto.

― Não me conheces, Mãe?― E’ que eu pecava,
E vim para te ver e te contristo:
O rosto do teu filho o vício cava,
Mãe, minha Mãe, eis o que sou ― sou isto!

Mas noto em teu olhar um certo brilho …
Deixa que beije a fímbria do teu manto,
Talvez tu reconheças o teu filho.

Talvez fosse ilusão tudo que eu via:
Quando, de novo, olhei seu rosto santo,
Nossa Senhora, para mim, sorria.

***

Capa_Sept..alphonsus FOTO 4‏

Alphonsus de Guimaraens

DOIS SONETOS DO “SETENÁRIO DAS DORES DE NOSSA SENHORA”

E recebeste-O nos teus braços. Vinha
Do alto do Lenho onde estivera exposto
Ao ímpio olhar, tão ímpio! da mesquinha
Multidão que insultava o santo Rosto…

Sangue o peito suavíssimo continha,
Num resplandor de raios de sol posto…
Oh Vinha do Senhor, excelsa Vinha
Em cachos siderais de etéreo mosto!

Sangue que se derrama em ondas, sangue
Que, para a salvação dos homens, corre
Purpureamente brando, e O deixa exangue…

E que correndo como então corria,
Por toda a eternidade nos socorre
No mistério eternal da Eucaristia…

mater doloroisa FOTO 6‏

Só… Mas quem te fizera companhia,
Neste mundo, depois de Ele a ter feito?
Quem, Senhora dolente, poderia
Conter o mesmo amor daquele Peito?

Viesse-te Ele buscar naquele dia
Em que te abandonara, o Olhar desfeito
Em astros: e a tua Alma vagaria
Nas barbacãs e torres do seu Preito…

As harmonias célicas, suaves,
Para saudar-te, oh santa Bem-Amada,
Gorjeariam como um bando de aves.

E novo som nas harpas, novo brilho
Nas esferas da mística Morada,
Quando chegasses junto com o teu Filho…

Cristo dali FOTO 7‏

A única contribuição (semi) pessoal que posso dar ao tema é a minha tradução do célebre soneto anônimo espanhol do século XVI

A CRISTO CRUCIFICADO

Não me move, meu Deus, para querer-te
O céu que me deixaste prometido
Nem me move o inferno tão temido
Para deixar, por isso, de ofender-te.

Tu me moves, Senhor; move-me ver-te
Pregado numa cruz e escarnecido;
Move-me ver teu corpo tão ferido
Sofrer afrontas e jazer inerte.

Move-me, enfim o teu amor eterno,
Que em não havendo céu inda te amara
E te temera não houvesse inferno.

Nada por teu amor minh’alma espera,
Pois se o que espero achar não esperara,
O mesmo que te quero te quisera.

__________________________________________________________
P.S. O retrato de Djalma Andrade – raríssimo! – foi-nos enviado gentilmente pela Academia Mineira de Letras. Nossos agradecimentos. Igualmente rara, obtivemos a reprodução da capa do livro de Alphonsus de Guimaraens por intermédio de seu neto, o poeta Afonso Henriques Neto, a quem agradecemos.

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helena

Recebi, a propósito do poema To Helen, de Edgar Allan Poe, cuja tradução foi publicada no final de minha entrevista ao Suplemento Literário do Minas Gerais, algumas indagações que passo a responder:

Na verdade, há DOIS poemas de Poe com o mesmo título: o primeiro, To Helen (A Helen), publicado em 1848, foi inequivocamente dedicado a Sarah Power Helen Whitman, poetisa viúva, de quem Edgar ficou noivo, não chegando a casar-se. Depois da morte do poeta, ela escreveu um livro em sua defesa, contestando as acusações que sobre ele pairavam. Esse poema (em tradução de Milton Amado) pode ser lido aqui.

O segundo, igualmente intitulado To Helen, teria sido dedicado, conforme alguns comentaristas, a Jane Stith Craig Stanard, a carinhosa mãe de um dos colegas do poeta, jovem senhora por quem ele nutria um amor sentimental. Poe tinha apenas 14 anos quando a conheceu em 1823; Jane estava com 30 e iria morrer de tuberculose um ano depois, o que levou o poeta a uma crise de desespero. Publicado inicialmente em 1831, o poema foi revisto e grandemente aprimorado em 1845 (versão usada em nossa tradução). A atribuição da dedicatória a Jane Stanard baseia-se principalmente no fato de que ela e Poe eram ambos dedicados amantes da mitologia grega e da literatura clássica.  Daí outros comentaristas alegarem que o poema, embora dedicado a Jane, não a esteja necessariamente retratando, mas que  intenta “celebrar o poder criativo da mulher”. Indicam que ele teria em parte se inspirado num poema de Coleridge (“Youth and Age”), principalmente no que respeita ao segundo verso (“Like those Nicean barks of yore”), e que, ao referir-se a Helen, poderia estar perfeitamente aludindo a Helena de Tróia, considerada a mais bela mulher da Antiguidade, esposa de Menelau, rei de Esparta, raptada por Páris, príncipe de Troia, do que resultou a Guerra de Troia, inspiradora de Homero na criação da Ilíada e da Odisséia. Assim, as velhas barcas de Nicéia seriam uma referência às embarcações de três a cinco velas que transportavam para o porto de Nicéia (cidade fundada por Alexandre o Grande nas margens do rio Jelum ou Hydaspes), os guerreiros gregos de volta ao solo nativo (Esparta) através do “mar olente” (o Mar Vermelho). As “náiades” são sabidamente as ninfas mitológicas que habitavam os cursos de água, provavelmente tomadas aqui como metáfora para ondas. Sabe-se que a Sra. Stanard era grande conhecedora da mitologia grega e comungava com o poeta dessa dedicação; talvez Poe a esteja agradecendo por havê-lo “transportado” de volta ao culto dos temas mitológicos e históricos. Psique, na mitologia romana, era uma deusa mortal que amava Cupido, o imortal Deus do Amor, e com quem manteve uma ligação secreta, noturna, pois estava proibida de ver a sua face; certa vez, não resistindo à tentação, acende uma lâmpada de óleo e a aproxima do deus. Uma gota de óleo quente caindo-lhe no rosto, faz com que ele desperte, furioso com a quebra do segredo. A menção, no poema, à lâmpada de ágata pode estar conectada a essa lenda. Finalmente, a referência final (“Holy Land”) pode sugerir tanto a Terra Santa (das Cruzadas) quanto a Terra Prometida (ou seja, aquele Éden em que, livres das convenções humanas, o poeta e sua deusa poderiam finalmente se encontrar). Transcrevemos novamente o poema e sua tradução para maior facilidade de leitura.

Jane-HelenJane Stanard (1793-1824)         Sarah Helen Whitman (1803-1878)

To Helen

Helen, thy beauty is to me
Like those Nicean barks of yore,
That gently, o’er a perfumed sea,
The weary, wayworn wanderer bore
to his own native shore.

On desperate seas long wont to roam,
Thy hyacinth hair, thy classic face,
Thy Naiad airs have broght me home
To glory that was Greece,
And the grandeur that was Rome.

Lo! in yon brilliant window niche
How statuelike I see thee stand,
The agate lamp within thy hand!
Ah, Psyche, from the regions which
Are Holy Land!

A  HELEN

Helen, tua beleza é para mim
Como as antigas barcas de Niceia
Que lentas pelo olente mar sem fim
Traziam o rude réprobo enfim
De volta à nativa areia.

Vaguei em desespero e peripécia;
Clássica a face, de jacinto a coma,
Eis que teu ar de náiade me toma
Para a glória que era a Grécia
E a grandeza que foi Roma.

Eia! De pé, à luz de teu balcão,
Vejo-te como a estátua de uma infanta
Com a lâmpada de ágata na mão
Ah! Psique que vens da região
Da Terra Santa.

(Tradução de Ivo Barroso)

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suplemento 001

Em dezembro do ano passado, o Suplemento Literário do Minas Gerais publicou a entrevista que pode ser lida abaixo. Está nas páginas 12 a 17, sendo que esta última estampa a tradução do poema To Helen/A Helen, de Edgard Allan Poe, que eu mantinha até então inédita. Enjoy it.

ENTREVISTA AO SUPLEMENTO

Você é nascido em Ervália no ano de 1929. Que lembranças têm deste período? Quais leituras? É verdade que gostava de Machado de Assis e de Humberto de Campos? Deste último é verdade que você fez muitos sonetos imitando seu estilo?

Tenho grandes recordações de minha infância numa cidadezinha interiorana com meu pai farmacêutico e um tio fazendeiro: peraltices, tomar banhos de rio, empinar papagaio, correr atrás das tanajuras… A Filarmônica São Luiz Gonzaga… A escola de Dª Nenzinha… Ah! tantas lembranças que levei comigo até mesmo  pelos vários  paises da Europa por onde andei. Escrevi um longo poema (Rapsódia Hervalense) de louvor à minha terra e ainda hoje mando livros para a biblioteca de . Sempre houve leituras, sim, muitas: fui um dos primeiros assinantes de O Globo Juvenil e do Gibi. Não havia livrarias nem bancas de jornal no Herval de então, meu pai comprava coleções de livros de vendedores itinerantes: O Tesouro da Juventude e todos os clássicos  Jackson, encadernados. Machado de Assis  e Humberto de Campos foram os dois primeirospoetasque li em livro, quando começava a fazer versos. Gostava do “macete” de H. de Campos: ele começava com uma lenda da mitologia ou da história antiga e, no fim do soneto, entrava com umtambém eu… etc”. Fiz muitos sonetos com esse tipo de fecho em que me comparava com o personagem principal, mas geralmente me reservando condições de total inferioridade. 

Augusto dos Anjos também foi um autor importante deste período?

Augusto dos Anjos foi a grande revelação poética, no Rio, nos anos 45. Era o único livro de versos na biblioteca de um vizinho que soube de meu gosto pela leitura. Ele ficou surpreso de me ver lendo o Eu, sempre relegado ao fundo de sua estante, e me deu o livro de presente. Li-o inúmeras vezes, sublinhando as palavras que eu não conhecia, que eram praticamente todas. Eu sabia dezenas de sonetos dele de cor e até hoje me lembro de alguns. Inútil dizer que o considero um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos.

Você foi aluno da antiga Faculdade Nacional de Filosofia do Rio de Janeiro, onde fez o curso de línguas e literaturas neolatinas. Este período foi importante para a sua formação? A universidade teve alguma importância na sua formação?

Foi um período de verdadeira formação literária. Tínhamos professores excelentes, além de Manuel Bandeira (que acabara de aposentar-se): José Carlos Lisboa, que nos ensinou a amar em sua totalidade a literatura espanhola; Luce Ciancio, que nos envolvia na cantante língua italiana; gênios precoces como Élcio Martins, que nos faziam ansiar pela cultura… Foi que desenvolvi meu gosto pela tradução de poesia: os trabalhos de casa, de interpretação de versos e questões gramaticais, eram tomados por mim como verdadeiros desafios e quase sempre apresentava meus deveres sob a forma de traduções rimadas e metrificadas.

Você desde muito cedo se dedicou à tradução de poesia. Já na década de 60, integrou o movimento Concretista que tinha no Suplemento Literário do Jornal do Brasil, seu veículo de expressão, no qual publicou várias de suas traduções e poemas originais. Que lembranças tem da época do Suplemento do JB?

aqui uma pequena inversão: eu integrava a redação do Suplemento Literário do Jornal do Brasil, quando este, no Rio,  deu acolhida ao movimento concretista vindo de São Paulo. No Suplemento eu havia publicado muitos poemas originais e traduções, além de artigos de crítica literária. Com a adesão do Suplemento  ao  concretismo, muitos dos colaboradores passaram a fazer poemas concretos, ou supostamente concretos, pois não sabíamos bem do que se tratava. Eu mesmo cheguei  a publicar vários, e, mesmo depois de considerar o movimento ultrapassado, recolhi alguns que considerei “válidosem meu livro “A Caça Virtual e outros poemas”, sob a rubricapoemas da fase concretista”. Mas o concretismo serviu para nos conscientizar da necessidade de conhecermos línguas e usar a tradução como  aprendizado poético. O Suplemento representou para mim uma entrada na maturidade: o convívio com pessoas altamente integradas no fazer literário, como Mário Faustino, Ferreira Gullar e Reynaldo Jardim não nos servia de rumo como também de estímulo em nossas próprias criações. Foi um aprendizado permanente e de alto nível.

Recentemente li o seu texto sobre sua participação na revista Senhor. Lá fez importantes traduções. Seria legal o senhor falar um pouco deste período.

Eu trabalhava na Editora Delta quando ali foi criada a revista Senhor. Nela colaborei desde o primeiro número com  a tradução da novela As Neves do Kilimandjaro, de Ernest Hemingway.  Paulo Francis, Luís Lobo, Ivan Lessa eram as grandes figuras da redação, dirigidos por Nahum Sirotsky. Todos com grande experiência jornalística, inclusive adquirida no exterior, queriam criar (e criaram) uma publicação avançadíssima em termos gráficos e de conteúdo. Era uma revista que conjugava os assuntos mais sérios com boas doses de gozação e humorismo. Francis foi meu grande incentivador no campo da tradução; gostava do meu trabalho e sempre me entregava os textos mais difíceis para traduzir.  Foram várias novelas e contos, mas houve também poemas (traduzidos e originais) além de um artigo Para inglês ver, de crítica literária.  O convívio com aqueles jovens avançados (que eu chamava de estrangeiros) serviu muito para quebrar um pouco a minha crônica timidez.

O senhor trabalhou com Paulo Rónai na Coleção dos Prêmios Nobel de Literatura. Poderia falar um pouco desta amizade?

Paulo Rónai era de uma seriedade extrema, sempre determinadoobter a perfeição em seus trabalhosSua edição dos 98 volumes da Comédia Humana, de Honoré de Balzac, para os quais escreveu prefácios, selecionou e encomendou traduções e revisou tudo linha por linha, é um dos maiores monumentos da editoração no Brasil. Conheci-o por ocasião em que dirigia a Coleção dos Prêmios Nobel de Literatura, constante de volumes dedicados aos ganhadores da láurea, desde sua primeira atribuição, em 1919, ao poeta francês Sully Prudhomme.  Para a edição dessas obras em português (limitadas em princípio a 40), Rónai havia escolhido os melhores escritores brasileiros de então ou selecionado as melhores traduções existentes. Recomendado por meu trabalho no Suplemento e na revista Senhor, ele me convidou, de início, para traduzir o Colas Breugnon, de Romain Rolland, logo me prevenindo que se  tratava de um livro escrito numa prosa imitativa das narrativas do século XVIII, quase sempre rimada e cheia de expressões coloquiais. O resultadopor ele julgado satisfatório – estimulou-o a confiar-me outro livro, as Poesias, do escritor nacional sueco, Erik Axel Karfeldt. Como lhe expusesse meu total desconhecimento do sueco, Rónai disse que confiava em meus dotes poéticos para um bom resultado: deu-me a edição francesa em prosa e o original sueco, este para eu sentir a estrutura da língua e observar a disposição dos versos. Ele novamente aprovou o resultado. E a ironia foi que, anos depois,  morei durante 5 anos na Suécia,  aprendi algo da língua (pelo menos para ler) e pude verificar que a “traduçãonão fora tãoquanto a princípio imaginei.   

O senhor também trabalhou com de Antonio Houaiss na Grande Enciclopédia Delta-Larousse.   Poderia falar um pouco desta amizade?

Acabo de publicar em meu blog Gaveta do Ivo minhas lembranças de Antônio Houaiss, numa sequência de quatro postagens. Nelas evoco o longo convívio que tivemos no âmbito da Enciclopédia Delta Larousse, convívio este que logo se transformou em estreita amizade, em total devoção de minha parte. Houaiss era um trabalhador braçal da literatura, como ele próprio disse, dínamo incansável para quem não havia tarefa impossível. Aprendi com ele que a dedicação e o amor a um trabalho são capazes de vencer até as dificuldades aparentemente intransponíveis. Aliás, tudo aprendi com ele, inclusive a gostar de restaurantes estrelados. Dois de meus livros (Sonetos de Shakespeare e O Torso e o Gato) nasceram por estímulo seu e apresentação sua. Tive a satisfação de dedicar-lhe a Poesia Completa de Rimbaud e tracei seu perfil de tradutor no volume gratulatório que lhe oferecemos por ocasião de seu 80º aniversário.  Antônio Houaiss foi uma figura miliária no meu percurso de escritor.

A sua tradução dos sonetos de Shakespeare me parece que começaram a ser feita na época que o senhor morava na Holanda, no final dos anos 60. É isto? Poderia contar um pouco?

A primeira tentativa registrada por mim de traduzir um soneto de Shakespeare data de 1947, quando eu tinha 18 anos. Era o XXIX (Quando longe da vista humana e da fortuna), que traduzi em alexandrinos. No final dos anos ´50 devia ter uns 4 ou 5 prontos, então em decassílabos,  com os quais obtive uma espécie de passe livre nas páginas do Suplemento, sob a égide de Mário Faustino; entre eles estava o LXXI (Não lamentes por mim quando eu morrer), que me granjeou a simpatia de Manuel Bandeira. A fase de trabalhos sistemáticos, no sentido de traduzir um considerável número deles, ocorreu de fato na Holanda, onde residi entre 1968/70. encontrei uma edição integral bilíngue (inglês-neerlandês) e fiquei conhecendo o tradutor, que me pôs à mostra as dificuldades do texto, mas também me deu ânimo para prosseguir. De volta ao Brasil, tive a primeira edição publicada em 1973, com apenas 24 sonetos traduzidos. Em 1991, eram 30 e em 2005, por brincadeira numerológica, publiquei uma edição com 42, número que era o inverso dos 24 da edição inicial. Como havia  fixado para mim mesmo a meta dos 50, foi com uma espécie de alívio que encerrei minhas lutas de anjo com o Vate neste ano de 2012, com uma edição especial da Nova Fronteira.

Seria legal também o senhor conta um pouca do seu monumental trabalho de tradução do grande Arthur Rimbaud. Poderia falar disto?

A história com Rimbaud é mais longa. Um dia, no Suplemento, levei ao Reynaldo Jardim uma tradução do Soneto das Vogais, de Rimbaud, que eu encontrara numa antologia. Reynaldo me fez ver que o soneto havia sido bastante traduzido em português, mas achando boa a tradução insistiu para que eu fizesse outras do mesmo poeta, principalmente os poemas em versos da Saison, que eu não conhecia. Ao enfrentá-la tive uma espécie de choque traumático e me meti na cabeça que os havia de traduzir. Coincidentemente, o editor Enio Silveira (que publicara uma tradução anterior da Saison e das Illuminations), estava à procura de alguém que lhe fizesse uma nova, com os poemas em versos devidamente traduzidos em métrica e rima. Acabei lhe entregando a tradução na véspera de minha partida para a Europa (dezembro de 1972), inclusive com a corajosa apresentação que o Dr. Alceu Amoroso Lima escrevera para ela, ante minha total surpresa e absoluto encanto. O livro que devia sair em 1973, no centenário de publicação da obra,  acabou aparecendo em 1977, pelo motivo que eu vim a saber muitos anos depois: a tradução fora obstada pela Censura oficial da ditadura porque no prefácio do Dr. Alceu ele se referia a  Ênio Silveira como “o mais perseguido e o mais perseverante de nossos editores”. Durante minha permanência na Europa (1973-1993), sendo os 4 últimos na França, decidi traduzir a obra completa, inclusive a correspondência. Comprava e colecionava todos os livros, revistas e recortes que podia sobre a vida/obra do diabólico Arthur e cheguei a ter umas 3 centenas de livros correlatos. Em Paris, em contato com a Société des Amis de Rimbaud tive finalmente um insight que me permitiu o deslanche: parar de ler, abandonar tudo e tratar apenas de traduzir a obra, pois todos os dias saía alguma coisa sobre a obra de Rimbaud que alterava, contestava, acrescentava ou subtraía algo a toda a literatura específica existente, e se eu fosse me deter em cada um desses detalhes jamais terminaria a tradução a que me propunha. Quando regressei ao Brasil em 1993, encontrei no editor José Mário Pereira, da Topbooks, um entusiasta pela obra de Rimbaud e com ele vim a editar os três volumes, Poesia Completa, Prosa Poética e, finalmente, a Correespondência, que saiu em 2009. Para fugir à tentação de voltar a rever a obra, doei todos os livros de minha rimbaldiana ao Centro Cultural do Banco do Brasil. 

O senhor também já traduziu  Eliot:  Os Gatos (Old Possum’s Book of Practical Cats). Pergunto: o que pensa das traduções de Eliot feitas no Brasil?

Eu morava em Londres quando o musical de Lloyd Weber es­treou. Curioso por saber que tipo de tratamento o texto de 0ld Possum’s Book of Pratical Cats havia sofrido na encenação, fui com José Guilherme Merquior, que era meu vizinho, ver a peça, curiosos de saber se o músico tinha respeitado integralmente os versos do poeta ou se acrescentara ou suprimira trechos na adpatação para o palco. Verificando que o texto tinha sido integralmente respeitado, recebi de José Guilherme a intimação de traduzi-lo em protuguês. Mostrando-lhe uma primeira tentativa, recebi dele a intimação (e de­pois a cobrança reiterada) de traduzir o livro inteiro. Durante muitos anos, andei à procura de rimas pirotécnicas, jogos de palavras, polissemias e corres­pondências que pudessem dar ao leitor brasileiro a equivalente impressão dos versos humorísticos de Eliot.

Diferentemente de meu habitual processo tradutório, que consistia em manter-me o mais próximo possivel da letra do original, tive então que necessariamente recorrer  a um trabalho de recriação, optando por substituir o referencial inglês, quando ininteligível ou pouco familiar ao leitor médio brasileiro, por equivalências que, sem traírem o texto original, funcionassem da mesma forma no território de nossa língua. Esse esforço de reelaboração isotópica foi para mim, no entanto, um período igualmente de recreação, pois à medida que ia encontrando soluções sen­tia aumentar minha possibilidade lúdica, brincando e me divertindo com os versos da maneira como o próprio Eliot deve ter procedido ao criá-los. O livro saiu em 1991, ganhou prêmio Jabuti de tradução daquele ano e foi naturalmente dedicado à memória de  Merquior, que então havia falecido.

A obra poética de Eliot foi inteiramente traduzida por Ivan Junqueira e o teatro completo por mim. A apreciação cabe, pois, aos leitores.

Uma de suas últimas publicações foi O Corvo e suas traduções, aliás em 3ª edição. Poderia falar um pouco a respeito desse livro?

O livro nasceu de um pequeno ensaio que publiquei, em fevereiro de 1994, na revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional, de que eu era um dos redatores. Desde que li – muito tempo antes – a tradução de O Corvo, de Edgar Allan Poe, feita por Milton Amado, achei-lhe qualidades poéticas superiores às três outras mais conhecidas, ou seja, a de Machado de Assis, a de Fernando Pessoa e a de Gondin da Fonseca. Foi para manifestar essa minha opinião, baseada em evidências crítico-literárias, que recorri à revista. Tempos depois, tive uma conversa com meu amigo Carlos Heitor Cony sobre o poema e suas traduções. Ele não conhecia nem meu ensaio nem a versão de Milton, mas ficou convencido de minhas razões a propósito da primazia desta sobre às que ele conhecia. E escreveu a propósito uma crônica, publicada inicialmente na Folha de S. Paulo. Foi tal o número de cartas que chegaram à redação pedindo cópias do trabalho do Milton, que Cony me incentivou a publicar o ensaio em livro, juntamente com algumas traduções, inclusive as francesas de Baudelaire e Mallarmé. A primeira edição saiu pela Lacerda Editores em 1998, editora associada à Nova Fronteira, que detinha na época os direitos autorais da tradução de Milton. Uma segunda edição, revista e aumentada, apareceu pouco depois, em 2000, e agora, estando esgotada por longo tempo, veio à luz a 3ª, pela Editora LeYa, de São Paulo. Nela incluí a tradução francesa de Didier Lamaison, que, a meu pedido, dotou a língua de Baudelaire de uma tradução rimada e metrificada, num esforço semelhante ao de Milton Amado para o português.

Que evidências crítico-literárias o senhor tem para considerar a tradução de Milton a melhor?

Milton acertou a “embocadura” do poema, ou seja, percebeu que ao verso duplo de 7 sílabas de Poe (7+7) correspondia em nossa língua (pelo menos no português do Brasil) a um verso duplo de 8 sílabas (e não de 7), com o que acertava o andamento do poema. Lido em inglês e na tradução de Milton, nota-se a mesma cadência, a mesma fluência discursiva, o que não se dá, por exemplo, na tradução de Pessoa, que, desejando seguir à risca a métrica do original,  se manteve escravizado ao verso de sete sílabas. Daí resultou em Milton, à semelhança da métrica utilizada em Poe,  um verso longo com cesura (todos têm 16 sílabas métricas, fora o refrão, que acelera o ritmo para 8). Além disso, para evitar a monotonia das rimais em “ais” (ore, em inglês, aqui no esquema representadas pela letra b), em vez da notação a/a // b // c/c/ b // b / b, ele usou a/a // b //c/c/c /d// d /d //b ou seja, utilizou no 4º verso o mesmo sistema de rimas tríplices usado por Allan Poe apenas no 3º.

Mas não são essas tecnicalidades que tornam sua tradução surpreendente e sim a capacidade de fazer grandiosos versos em português, encima dos parâmetros poeanos. Se em alguns casos o sentido não é exatamente o mesmo em inglês e português, a carga emotiva do versoem suma a sua poesiaencontra em nossa língua uma correspondência perfeita:

Ansiando ver a noite finda, em vão, a ler, buscava ainda

Algum remédio à amarga, infinda, atroz saudade de Lenora

— essa mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora

e nome aqui não tem mais.

(…)

A seda rubra da cortina arfava em lúgubre surdina

arrepiando-me e evocando ignotos medos sepulcrais (…)

Milton Amado, com sua tradução, alcançou aquele momento com que sonham todos os tradutores de poesia: o da transmigração absoluta do conteúdo e da forma de um poema para o território de sua própria língua, dando-lhe a identidade de uma vida autônoma. Mas esse verdadeiro gênio poético, que doou nossa língua de uma tradução que é sósia perfeita do original, continua desconhecido e às vezes relegado à menção subsidiária a que vivia condenado. Milton é um orgulho para Minas Gerais, terra de grandes poetas. Tímido, pobre, na sombra, nunca teve em vida o reconhecimento de seu valor. Que os mineiros saibam agora todas vezes que declamarem “Foi uma vezeu refletia, à meia-noite erma e sombria”, que estão citando Edgar Allan Poe mas pela voz de Milton Amado.

 

 

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rubai_0

Descobri Omar Khayyam em 1948 na bela coleção Rubaiyat, da José Olympio, em tradução de Otávio Tarquínio de Souza com base na versão francesa de Franz Toussaint. O livro estava na 7ª. edição e, para minha surpresa, ali se falava que a primeira saíra em 1928, portanto havia 20 anos que o livro circulava em português sem que eu soubesse da existência desse texto. A linguagem do livro e também, porque não dizer, a “filosofia’ de seus conceitos me cativaram, deixando-me inteiramente fascinado por aquele mundo oriental das mil e uma noites, que então se abria numa pregação hedonística e inoculava uma pecaminosa negação da crença e do sentido da vida. É certo que no posfácio havia uma carta que o líder católico Alceu de Amoroso Lima dirigira ao tradutor, na qual buscava conciliar a “doutrina” de Khayyan com os ensinamentos cristãos do Eclesiastes e do Cântico dos Cânticos de Salomão. Mas o que o impacto do livro conseguiu mesmo foi derrubar minhas crenças precárias e abrir-me as portas largas do nihilismo e das liberdades totais de pensamento. Eu queria escrever coisas iguais e, para tanto, me “orientalizava” assumindo a persona de um poeta árabe. Cheguei a adotar um nome pseudo-persa, Hadiadat Maahatama, e comecei a compor poemas a que dei o título de Yezedis, palavra que eu havia encontrado em minhas leituras e sabia referir-se aos adoradores do diabo. Mas meus poemas não passavam de decalques do Rubaiyat e resolvi assumir o pastiche. Achava expressivo o texto de Tarquínio, mas faltava-lhe ritmo, faltava rima; eu queria transformá-lo em pequenos poemas rimados e metrificados. Foi o que fiz, aproveitando palavras e frases inteiras da tradução.

Eu sabia – como todos sabem – que esses rubaiyat (plural de rubai, que significa quadra poética) tinham sido “traduzidos” do persa pelo inglês Edward Fitzgerald (1809/1883), que praticamente os transformou em poemas seus tantas foram as alterações e acréscimos introduzidos por ele no texto original de Omar Khayyan, isso talvez para manter a estrutura original (1º, 2º e 4º versos com a mesma rima e o 3º branco, ou seja sem rima). Resultado: as quadras foram mantidas, mas o sentido dos versos e as palavras empregadas são bem outras. Depois de FitzGerald, o francês Franz Toussaint (1879/1955), já em 1924 empreendeu uma tradução em prosa dessas quadras, conseguindo assim manter-se mais próximo do sentido original. Decidido a parafrasear ou a adaptar em versos rimados o maravilhoso texto que Otávio Tarquínio traduziu da transposição feita por Tousaint, criei um caderninho com folhas da metade do A4, datilografadas, perfuradas e presas por grampo. Na capa, arranhei numa escultura rústica, os nomes Hadiadat / Yezedis/ Poemas sobre um fundo negro. Numerei os “rubaiyat” na mesma ordem da edição da José Olympio e… guardei o caderno.

Escavando agora os meus guardados, fazendo jus ao espírito deste blog que é uma velha gaveta atulhada de papeis amarelecidos, dou-os à curiosidade dos leitores, não sem antes reiterar que os meus rubaiyat nada têm de meus a não ser os atavios de uma forma poética extremamente livre e os berloques das rimas, que lhes dão uma sonoridade a mais.

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Rubai 2

Que vale mais? Fazer exame de consciência
Sentado na taberna, entre plebeus,
Ou na mesquita, em ampla reverência
À hipócrita caterva
dos fariseus?
Não desejo saber se tenho um deus
E o destino que acaso me reserva.

Rubai 5

Procura ser feliz ainda hoje;
Nada sabes do dia de amanhã!
Toma uma urna de vinho e foge
Da ciência, limitada e vã.
E antes que o dia de todo se acabe,
Escuta, ao luar, esta sábia canção:
“Amanhã, talvez, quem sabe?
te procure a Lua em vão!”

Rubai 9

Eu considero vil o coração
Que, sendo incapaz de amar, não pode
Conhecer o delírio da paixão,
O amor brutal que explode
Em chamas
E nem o beijo — essa divina
Esmola.
Se não amas
És indigno do Sol que te ilumina
E da Lua que à noite te consola.

Rubai 10

Sinto reflorescer a minha mocidade.
Desejo aquele vinho que me dá calor,
Felicidade,
Amor
— o vinho que conforta…
— Homem, porque meu passo embarga?
Ofende-lhe a bebida?
Quero vinho!… Dirá que o vinho amarga?
Não importa!…
Tem o gosto da vida!

Rubai 12

Lancei minh’alma além da Terra e do Infinito
A procurar o Céu e o Inferno, a esmo.
Quando voltou a mim, disse num grito:
“O Céu e o Inferno estão dentro em ti mesmo.”

Rubai 22

Na Primavera, gosto de sentar-me
À sombra amiga de um vergel florido;
E enquanto a rapariga entoa um carme,
Eu bebo do meu vinho preferido
E acaricio-lhe o frescor da face
Sem me lembrar da minha salvação.
Se de tal pensamento me ocupasse,
Eu valeria menos do que um cão,

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Rubai 41

Bebe um pouco de vinho!
Amanhã dormirás muito tempo sozinho
Nas entranhas da terra, num degredo,
Sem ar, sem dor, sem fé, sem ais…
Antes disto, confio-te um segredo:
— Tulipas murchas não florescem mais.

Rubai 47

Vi, ontem, um oleiro que, sentado
Diante de seu torno,
ia modelando as alças e o contorno
de uma urna, um cântaro afilado.
De quem supões
Era formado o jarro
Que, no futuro, adornará jazigos?
Pois amassava o oleiro um barro
Que era feito de crânios de sultões
E de mãos espalmadas de mendigos!

Rubai 50

Sê prudente, ó viajante!
Perigoso é o caminho que palmilhas;
E, na ânsia de ir avante,
Flores de mancenilhas
Não vás, impávido, colhendo-as
Ao longo do terreno!
Nem comas as amêndoas
Que no chão encontrares: têm veneno!

Rubai 51

Um jardim, ondulosa rapariga,
Pele de suave brancura,
Olhar bem terno
E voz amiga,
Uma ânfora de vinho, o meu desejo eterno,
A minha velha amargura
E todo o bem que eles me ensejam:
— eis o meu Paraíso e o meu Inferno!
Mas, quem sabe o que o Céu e o Inferno sejam?

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Rubai 54

… E da Sabedoria escuta a voz que tantas
vezes já repetiu aos que delas se esquecem:
“A Vida é breve, e não és como as plantas
que, depois de podadas, reflorescem!”

Rubai 56

Meu nascimento
Não trouxe nenhum proveito à humanidade,
E a minha morte
Não lhe diminuirá a imensidade.
Eu fui apenas um momento
Nessa intérmina coorte.
Amei o vinho e, para mim,
Esse momento foi uma hora!…
Ninguém pode explicar-me porque vim,
Porque vivi, porque me vou embora.

Rubai 67

Podes obcecar-me, ó miragem de outra vida!
Ao meu ouvido a voz do amor ressoe!
Eu só contemplarei minha elegida;
Só quero ouvir a voz a que me seduzi.
E se alguém me disser: “Deus te perdoe!”
Eu recuso o perdão que não pedi!

Rubai 69

Porque tanta ternura e suavidade,
De nosso amor tivemos nas primícias?
E depois uma real felicidade
Bafejou-nos os beijos e as carícias?
E… hoje, só sei dizer
Que teu único prazer
É de dilacerar meu coração.
Por quê, meu bem, por quê razão?

Rubai 74

Vinho! Vinho em torrentes!
Que ele palpite em minhas veias lassas,
Que em ondas voluptuosas, ondas quentes,
Percorra-me a cabeça!. Taças! Taças!
Antes que anoiteça!
Quero do vinho que em meu corpo gira
Gozar a sensação de seu circuito.
Taças! Silêncio! Vem! Tudo é mentira!
Taças! Depressa! Envelheci-me muito…

Rubai 83

Não aspires a paz neste mundo
E nem creias no eterno repouso:
O teu sono será muito breve
Quando a Morte vier te buscar.
Renascerás depois de um segundo
Nas raízes de um cedro orgulhoso
Ou no verde de um junco tão leve
Que há de o sol, num só dia, crestar.

Rubai 85

Dúvida e convicção, erro e verdade
— são palavras inúteis – fatuidade!
Vazias como a bolha de ar que, fraca,
De súbito, é rompida…
Irisada ou opaca,
Essa bolha é a imagem desta vida.

Rubai 87

Escuta o meu segredo:
Quando a primeira aurora cor-de-rosa
Iluminou o mundo,
Adão já era um ser cheio de medo,
Criatura dolorosa,
Sem ideal, sem sorte,
Abismado no tédio mais profundo,
Ansiando pela noite e pela morte.

Rubai 89

Não pedi a ninguém a vida que possuo!
Portanto,
Farei por acolher sem cólera, sem ira,                                                                                               Sem espanto, sem tédio e sem amuo,                                                                                           Tudo, tudo o que a vida me ofereça;
Quer me fira
Ou quer me favoreça.
Eu sou de modo tão conformativo,
De um desprezo tão profundo,
Que irei sem indagar o secreto motivo
Da minha misteriosa estada neste mundo.

Rubai 93

Quando eu não viver mais não haverá mais rosas
Nem vinhos de rubi em taças perfumosas.
E mortos os meus nervos, os meus músculos,
não haverá auroras nem crepúsculos,
nem castigos, nem penas,
nem ais, nem sofrimento.
Pois que tudo havia apenas
Em função de meu próprio pensamento.

Rubai 105

A abóbada celeste sob a qual vivemos
Semelha uma lanterna
Mágica, de que o Sol é o centro e nós
Os extremos.
O Sol é a luz eterna
E nós um momento de luz e nada após…
Ama a vida, por isso, jovem!
E desfruta-lhe os pomos,
Porque nada se leva
Para onde vou, para onde vais…
— Dessa lanterna mágica nós somos
apenas figurinhas que se movem
ao Sol, que vão voltar depois à treva
para nunca mais!…

Rubai 109

O amor que não devasta não é amor!
Possuirá uma brasa o calor
Da fogueira?
Não pode ser.
Noite e dia, durante
A vida inteira
O verdadeiro amante
Consome-se na dor e no prazer!

Rubai 110

A minha boca não blasfema, não alterca:
— Sou incapaz perante o Etéreo!
Podes sondar a noite que nos cerca
E podes penetrar o seio do mistério?
Em vão! Pois dize apenas a essa treva
Que por todos os lados
Nos circunda num letargo:
“Ó Adão e Eva,
Como deve ter sido o vosso beijo amargo
P ara que nos gerásseis tão desesperados!”

Rubai 112

Bebo o meu vinho assim como a raiz
Do salgueiro bebe a água da corrente,
E sou feliz!
— Recordas-me o Alcorão como bom crente:
“Só Deus é Deus por isto teme-o”
— Pois bem, quando me criou, Ele sabia
que vinho eu beberia.
Foi seu desejo que esta fosse a minha estrada.
Se eu me tornasse abstêmio,
Toda a ciência de Deus se quedaria errada!

Rubai 114

Toda manhã, o orvalho acorda na tulipa,
Na violeta ou no cardo,
Mas logo vem o Sol e o orvalho se dissipa,
Aliviando-se a flor do belo fardo,
Toda manhã eu sinto o coração
Tão pesado, mas logo o teu olhar
Como um raio de sol alegre e são
Vem a minha tristeza dissipar.

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Rubai 115

Se queres
Gozar a solidão perfeita que nos vem
Das estrelas e das flores,
Rompe com os homens – servos ou senhores –
Desliga-te de todas as mulheres,
Não busques companhia de ninguém.
Prefere a taça cheia
E sem espuma…
Não participes da alegria alheia
E nem te inclines sobre dor alguma.

Rubai 120

Homem, se este mundo é uma miragem,
Por que te desesperas?
Por que tens esperança e tens coragem?
Por que tens ilusões e tens quimeras?
Por que pensas sem tréguas, todo o dia,
Na tua miserável condição?
Abandona a tua alma à fantasia
Das horas.
Teu destino está escrito
Com letra indelével no livro de Allah.
É em vão
Que choras,
É vão teu grito:
— Emenda alguma agora adiantará!

Rubai 122

Cansado de escutar os sábios,
Interroguei a taça;
Colei meus lábios aos seus lábios
E murmurei à minha audaz consorte:
— Volverei, ou tudo passa?
Para onde irei depois da morte?
E escutei, da taça oriundo,
Este credo de conforto:
“Não haverá um outro Fiat!
Não volverás jamais ao mundo!
Bebe o meu vinho, pois, haure-o, inebria-te,
Porque nada serás depois de morto!”

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