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Archive for março \06\UTC 2019

 

ASH-WEDNESDAY – QUARTA-FEIRA DE CINZAS

UM POEMA DE T. S. ELIOT TRADUZIDO EM 06.03.2019

POR IVO BARROSO

Porque não espero retornar jamais
porque já não espero
porque já não espero retornar
desejando deste os dons, daquele o intento
já não me empenho em empenhar-me em tais empresas
(por que abriria a velha águia as asas presas?)
Por que então haveria de chorar
A força consumida de meus dons habituais?

Porque já não espero conhecer
A glória infirme da hora derradeira
Porque não creio
Porque sei que nunca saberei
A única transitória força verdadeira
Porque não posso beber dessa
água onde as árvores florescem e as fontes fluem, pois nada recomeça.

Porque sei que o tempo é sempre o tempo
E que o espaço é apenas o espaço
E que o agora só é o agora por um tempo
E apenas num lugar
Exalto-me por serem as coisas o que são
E renuncio à face abençoada
E renuncio a essa voz do alto
Porque já não espero retornar
E por isso me exalto, tendo de construir algo
De que me possa exaltar.

E rogo a Deus que de nós tenha piedade
E rogo para que eu possa esquecer
Os temas que comigo sem cessar discuto
Tentando me explicar

Porque já não espero retornar
Que estas palavras respondam por si sós
Pelo que foi feito, e não pelo que de novo se faria
E que a sentença não pese tanto sobre nós.

Porque estas asas que voaram agora já não voam
Mas simplesmente adejam pelo ar
No ar agora inteiramente exíguo e seco
Mais exíguo e seco ainda que a vontade
Que nos ensina a cuidar e não cuidar
Nos ensina a calados nos sentar.

Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte
Rogai por nós agora e na hora de nossa morte.

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SONETO DA JUVENTUDE (1943) DE IVO BARROSO

 

Que mascara usarei na fantasia
de mais um dia que se vai? eu, que uso
uma face diversa cada dia,
que mais difunde meu perfil difuso?!

Estranhas mutações em mim produzo;
mas, apesar da face fugidia,
que tédio o meu, ao ver que me conduzo
exatamente igual ao que seria!…

E ao romper, cada noite, o meu disfarce
que tanto êxito fez, a alma abatida
vê que não paga a pena mascarar-se

e que aspira, fremente, para si,
ter realmente vivido aquela vida
que os meus amigos pensam que vivi.

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