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Archive for abril \29\UTC 2014

Demian alemãoDemian alemão 001

     A primeira edição de “Demian” saiu em 1965 pela Civilização Brasileira. O livro obteve imediata aceitação e logo se esgotaria, permitindo à editora lançar novas edições nos anos sucessivos. Nesse ano em que saiu, o livro foi objeto de sensível análise feita pelo jornalista Carlos Menezes, que editava, à época, uma coluna em O Globo denominada Feira de Livros. O articulista – o que era raro nessa altura – além de comentar a tradução, não deixou de mencionar o nome do tradutor.

DEMIAN, UMA HISTÓRIA BELA E INESQUECÍVEL

     Foi assim: vários livros haviam-me sido entregues naquele dia. Ensaios, política, religião, poesia, ficção científica e um romance de Hermann Hesse. A jornada de trabalho fora penosa — como de rotina — e eu precisava de algo que me repousasse o espírito. Abri o livro de Hesse, “Demian”, do qual já  ouvira referências, passei por cima da nota do tradutor (que li depois, e vale ser lida) e mergulhei na magia do insigne escritor: “A vida de todo ser humano é um caminho em direção de si mesmo, o seguir de um simples rastro”.

     Deixei-me levar, totalmente entregue pela narrativa de Sinclair; suas angústias, seus temores infantis, suas noções distorcidas de crime, pecado, punição  e perdão; seu encontro maravilhoso com Demian; seus desencontros com Demian e consigo próprio; seus encontros com Beatrice (a doce e benfazeja miragem em forma de mulher) e com Pis­tórius, o sábio organista que o evangeliza nas doutrinas de Abraxas (deus e demônio); seus sonhos cheios de luz, de  ternura, de misticismo, de dualidade; seus reencontros com Demian e o conhecimento de Eva, como ele, portadora do indelével sinal de Caim.

     A noite transcorrera, para mim, como num dos maravilhosos sonhos de Sinclair, e a manhã já era menina  nova quando meus olhos, nem um pouco fatigados da longa mas deliciosa viagem noturna  por mundos de místicas magias, leram  o período final: “Tudo o que depois me aconteceu causou-me mal. Mas quando  vez por  outra encontro a chave e desço em mim mesmo, ali onde, no sombrio espelho, dormem as imagens do destino, basta-me inclinar sobre a negra superfície  acerada para ver em mim a minha própria imagem, semelhante já em tudo a ele, o meu guia e meu amigo”.

     Assim é  Demian, um livro belíssimo e inesquecível, obra capital do expressionismo alemão. Romance de uma geração — a do primeiro  pós-guerra — Demian conserva  a  mesma  indomável força, o mesmo e inarredável valor, atualíssimo, para esta geração jovem, que enfrenta um segundo após guerra (embora distante, mas de efeitos duradouros) e um ante guerra dilacerante, no qual os valores espirituais como que se pulverizam pelas emanações dos experimentos bélicos  atômicos, mergulhando todos e tudo  num  vórtice de  materialismo alucinante e desenfreado.

     DEMIAN, ainda hoje (foi escrito em 1919), é um livro do dia.  Que seja  lido pelos  adultos, mas principalmente pelos jovens. Nele, em Demian, encontraremos, e encontrarão,  algo de irreal mesclado de real, um pouco difuso, mas às vezes de uma clareza de sol a pino, agora  um  pouco   soturno  e  já gloriosamente jubiloso, numa sucessão saborosa  e inebriante de vida  e­ de morte; de amor e de abstinência; de luz e de sombras; de tormento e de paz, uma paz permanente, anestesiante, com a doçura da morte que é refrigério e sal­vação.

     DEMIAN é lançamento da Civilização Brasileira, em tradução esplêndida de  Ivo  Barroso,  que antecede a história de Hermann Hesse com um rápido mas ilustrativo estudo crítico da obra do eminente escritor expressionista.  Na “orelha”, Oto Maria Carpeaux dá sucinta aula sobre Hesse, sobre  Demian e sobre expressionismo. Assim, Demian é um livro completo, belo, inesquecível.

Carlos Menezes (Feira de Livros – O Globo – 16 de novembro de 1965)

     Mas, na maior parte dos casos, os comentaristas chegam a citar frases inteiras da tradução em seu artigo, sem sequer mencionar que se trata de uma tradução, como se aquelas palavras em português fossem as do próprio autor. Eu me agastava com isso, e cheguei a enviar ao Jornal do Brasil  uma nota a respeito, que acabou saindo na íntegra:

Hermann Hesse

     “Na matérIa sobre Hermann Hesse, recentemente  inserida no Caderno B, fala-se no au­tor mais lido no Brasil nestes últimos tempos, mas nenhuma referência é feita àqueles que, mal remunerados e laboriosa­mente, puseram a obra de Hesse ao alcance do leitor brasi­leiro.

     Além, da omissão – injusti­ficável em qualquer outro pais, mas comum entre nós, onde a atividade de tradutor, ainda que de alto gabarito, é siste­maticamente ignorada – o autor do texto usou, sob a for­ma de paráfrase, sinonímia ou mesmo transcrição literal, um pequeno estudo que acompa­nha minha tradução do Demian. Não quero me arvorar em dono do Hesse pelo sim­ples fato de haver traduzido dois de seus livros fundamentais (o outro foi O Lobo da Es­tepe), mas  parece-me questão de honestidade (para não solenizar a coisa, em prin­cípio ético) citar a fonte que nos permite, além da mera in­formação, esboçar uma opiníão crítica, e mesmo, como é o caso, abalançar afirmativas que são fruto de leitura, conhecímento e estudo da obra de um escritor. Dá uma certa frustração ver tudo isso transfor­mado depois numa notícia anônima e casual, como se as ideias ali expostas não passas­sem de meras notas biográfi­cas ao alcance de qualquer consulente que se dê ao trabalho de folhear uma encíclopédía. Assim como tive o cuidado, naquele estudo, de dizer que os dados biográficos de Hesse foram extraídos do li­vro de Hugo Bell, o Caderno B poderia, en passant, dizer em que se baseou para defen­der alguns conceitos que eu, até então, julgava meus.

Ivo Barroso – Rio.”

     Não era a primeira vez que reclamava dos jornais a omissão do tradutor nas resenhas de livros. De outra feita, mandei a um deles a seguinte nota:

A SITUAÇÀO DO TRADUTOR

     Há alguns anos, quando ainda morava no exterior, vi numa revista brasileira de grande circulação uma resenha literária sobre o Martin Fierro, de José Hernández, que acabara de sair em excelente tradução de Augusto Meyer. O resenhador deitava falação sobre o personagem e o autor, citava abundantemente os versos em português, falava da beleza das imagens — mas não dizia uma única palavra sobre a tradução ou o tradutor, cujo nome sequer aparecia no alto da página, com outros informes sobre a edição. Eu que morava num país onde se davam créditos até para as legendas dos filmes da televisão, escrevi uma carta à revista, reclamando contra tamanha negligência. “Não se esqueçam”, dizia-lhes, “que quando o resenhador fala na ‘beleza destes versos’ e os cita em português, o que está citando já não é Hernández mas Augusto Meyer, que conseguiu fazer com que eles ficassem igualmente belos em português”.  A revista naturalmente não deu importância à minha carta importuna: tradutores, entre nós, com raríssimas exceções, ainda não tinham seu lugar ao sol.

                                                                     ***

     É bem verdade que a história mudou (um pouco): hoje o nome do tradutor aparece devidamente no colofon do livro junto com o título original, o nome da editora e o ano da publicação. Alguns leitores já se preocupam, ao comprar um livro traduzido, em saber o nome de quem o traduziu. Alguns tradutores são até mesmo conhecidos do público e pesam na escolha de uma edição.

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MEA CULPA!

     Eu já havia traduzido dois os três livros sem importância antes de me aventurar na transposição do Demian. A edição que eu tinha, feita em 1930 por Luís López Ballesteros y Torres (conhecido tradutor espanhol de Freud e vários outros autores importantes) fora lida por mim tantas vezes que eu já a sabia quase de cor. Minha tradução de 1965 foi feita totalmente por ela, pois só vim a conhecer o original alemão muito depois (“Hermann Hesse – Demian – Die Geschichte Von Emil Sinclairs Jugend”, da Suhrkamp taschenbuch), quando então fiz o cotejo de palavra por palavra, emendando muita coisa. Tradutor bisonho, eu às vezes pensava estar “melhorando” as frases, quando as alongava para as tornar mais sonoras. O mesmo fazia o tradutor espanhol que, diante de um simples “Ja” (sim) do original, às vezes me vinha com um “Por supuesto que sí”, que, estou certo, lhe parecia mais natural em sua língua. Esses exageros, em sua maior parte, foram corrigidos quando da revisão, mas há dois momentos que persistiram sobre os quais quero hoje, diante dos leitores, fazer o “mea culpa!”

     Ambos ocorrem no primeiro capítulo: Sinclair conhece o fanfarrão Franz Kromer, garoto mais velho e mandão, diante do qual, para não bancar o fraco, admite ter roubado maçãs de um pomar vizinho. Kromer aproveita a confissão para chantagear o pobre do menino, dizendo-lhe que irá denunciá-lo ao dono do pomar, pois este teria prometido dois marcos a quem apontasse o culpado. É quando lhe pergunta se ele sabe de quem é o pomar. E Sinclair responde: “Não, não sei… Acho que é do Müller” . Claro que Sinclair disse, em alemão,  achar que o  dono do pomar era o moleiro (Müller). Mas eu (e bem assim o tradutor espanhol) repudiamos o moleiro, palavra horrível, provavelmente desconhecida para o leitor brasileiro… e lá tacamos o Müller, como se a palavra fosse nome próprio e não o substantivo comum que, em alemão, se escreve sempre com letra maiúscula (Numa das últimas revisões, sugeri fosse trocado o “Müller” por “o dono do moinho”, ficando assim fiel ao original mas fugindo ao mesmo tempo do abominável moleiro).

     A outra é mais engraçada: Sinclair, chantageado, não sabe o que fazer e, sob tensão emocional, acaba por cair de cama depois de ter vomitado. A falsa enfermidade lhe permite fugir ao compromisso com Kromer e ele banca o doentinho recebendo as atenções da mãe que lhe prepara um “Kamillentee” (chá de camomila, no original). Fiquei desolado. Na minha terra, chá de camomila era medicação exclusiva de parturientes em resguardo! Para mim era inconcebível que o meu herói Sinclair tomasse um chá de camomila. Então (– pasmem! como hoje eu também!) resolvi transformar o Kamillentee em suco de frutas! Salvei a honra de Sinclair mas cometi um erro de tradução, uma deformação do texto, que jamais hoje o faria, pois agora tenho a convicção de que o tradutor não pode e não deve alterar o texto do autor.

     Pagando os pecados: muitos e muitos anos depois, na década de ’80, passei umas férias em Badgastein, na Áustria, no Hotel Grüner Baum, uma maravilhosa estação de esqui que funciona igualmente no verão graças à beleza do vale alpino em que está localizada. Pois todos os dias, por falta de opções reconhecíveis, tomávamos de manhã, de tarde e à noite o famoso Kamillentee, diante do sorriso enigmático da Kellnerin no belo chalé de caça do hotel.

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     Sabe aquele livro cuja leitura muda a sua vida? O livro que  revela a nossa própria identidade que não conhecíamos inteiramente? E que nos obriga a tomar uma atitude, que era então para nós inconcebível – a de mudarmos nossa vida? Pois esse livro existiu para mim, tive-o nas mãos, li-o com a suspeita de que estava penetrando o segredo de minha própria personalidade, que ele era uma advertência, um toque de alarme. Explico: minha família mineira havia se mudado para o Rio de Janeiro nos anos da guerra (1944-45) e eu me sentia totalmente deslocado no novo meio ambiente; refugiava-me nas férias voltando ao interior, à minha cidade de Ervália, em Minas. Um dia, não sei exatamente como, tive nas mãos o livro Demian, de um autor para mim desconhecido, Hermann Hesse, em tradução do espanhol, língua que eu começava a estudar por conta própria mas que lia com afinco. Logo me identifiquei com a figura de Sinclair, menino tímido, superprotegido pela família burguesa que o defendia dos perigos da vida. Eu sofria de uma timidez agônica, que me levava a evitar as pessoas. O livro me convenceu a mudar minha atitude e enfrentar a vida real. Era preciso fugir um pouco da literatura em que eu mergulhara no anseio da fuga, fugir da música, da poesia, das artes – e encarar a vida na sua realidade brutal. Passei a exercitar-me, a fazer, aos poucos, o que temia, inclusive – façanha jovem da época – tomar o bonde andando. Puxava papo com pessoas desconhecidas, bancava o “rasgadão” (equivalente, à época, ao nosso “descolado”), me insinuava com as garotas auxiliado por uma lábia vocabular que então surtia efeitos benéficos.

    Poucos anos depois, já mais ambientado, frequentando jornais e livrarias, convenci o editor Enio Silveira a publicar o Demian, pois certamente o livro poderia fazer por outros o que fizera por mim: uma mudança correta de atitude, um novo enfoque da existência. Eu não sabia alemão. A primeira versão do Demian foi feita por mim do espanhol, mas como pretendia traduzir também o Lobo da Estepe, do mesmo autor, comecei meus estudos da língua com um grande amigo, Daniel Brilhante de Brito, que dominava o idioma por ter sido criado por uma babá alemã. Fiz depois uma revisão do Demian, e o texto corrigido que hoje está no comércio já ultrapassou a 50ª. edição. Essa tradução, bem como a de O Lobo da Estepe, que trouxeram grandes lucros para a Editora, foi vendida pelo equivalente atual a R$300,00. Pasmem! Em outro país, em que o tradutor tem participação nas vendas do livro, eu teria recebido até hoje uma considerável quantia. Mas ele me deu outras satisfações. Uma vez, no ônibus, voltando para a casa no Andaraí, vi um jovem lendo o livro. Lembrei-me da necessidade de vencer a timidez e perguntei a ele se estava gostando da leitura. Disse-me exatamente que o livro estava mudando sua vida. Sorri. Disse-lhe que o mesmo acontecera comigo. Mas não consegui dizer-lhe que eu era o tradutor do livro.
Leiam o texto que escrevi para a primeira edição de Demian e que até hoje faz parte da apresentação do livro.

demian

   DEMIAN, escrito em 1919, é o primeiro grande livro de Hermann Hesse no caminho que o conduz a DER STEPPENWOLF (O Lobo da Estepe) – sua indiscutível obra-prima de 1927 – e do qual SIDARTA, que aparece em 1922, constitui a etapa intermediária. Pode-se dizer que o Harry Haller, de O LOBO DA ESTEPE, é o Emil Sinclair, de DEMIAN, na matu­ridade.

     O arranque representado por DEMIAN é, entretanto, mais significativo se se tem em conta seu valor de quebra-diques na própria contenção formal e emotiva da obra de Hesse. Até então, a despeito dos gritos convencionais de revolta contra a educação coercitiva do novecentismo germânico, representados por PETER KAMENZIND (1904) e UNTERM RAD (Debaixo das Rodas – 1906), seus escritos estratificam o burilar correto e neoromânti­co de um mestre-escola provinciano, pontilhado de descrições de um gosto artífice, mas onde o olhar se coloca numa posição alpina, de contemplação para baixo, paisagística. É exatamente com DEMIAN que o enfoque se modifica: a contemplação se volta para si mesma e vai buscar no interior do próprio personagem a visão multilatitudinal do mundo; a perspectiva se intromete na própria vivência autobiográfica e o autor ousa ser ele e proclamar sua mensagem. Esse novo elemento, até então ausente da obra literária de Hesse, transforma por completo sua essência: de estilista requintado, mas restrito, se torna um dos valores mais originais e profundamente humanos da literatura alemã da primeira metade do século.

     “Quem quiser nascer tem que destruir um mundo” – eis a mensagem – destruir no sentido de romper com o passado e as tradições já mortas, de desvincular-se do meio excessivamente cômodo e seguro da infância para a consequente dolorosa busca da própria razão de existir: ser é ousar ser – o que Gide levaria às últimas consequências em sua obra, marcadamente em “Os Subterrâneos do Vaticano”. O conflito entre a dualidade “mundo luminoso” (ideal) e “mundo sombrio” (real) por que tem de passar Sinclair para o encontro ou a edificação de sua personalidade é o tema central do livro; tema que se teria prestado, como inúmeras obras românticas da época, a um estado sentimental de rebeldia, infrutífero e estanque, no qual essa dualidade de impulsos não conduz a qualquer síntese ou solução, mas que em Hesse, entretanto, se equaciona “na aceitação e na afirmação da própria personalidade em toda a sua humana plenitude de tendências antitéticas e inconciliáveis, inevitavel­mente coexistentes num trágico dinamismo psíquico”. E ainda mais que uma história ou romance de educação é o relato de um processo de deseducação, ou, preferindo-se, de reeducação, de laborioso apagar das pegadas que o puritanismo educacional deixa impressas na alma adolescente: a timidez, a humildade, o alheamento — armas obsoletas contra a hostilidade do mundo real — e que conduzem, mais tarde, inapelavelmente, à solidão e à inadaptabilidade, à surda revolta e ao amargo constrangimento.

     O livro reflete, obviamente, a tendência de introduzir na literatura a doutrina de Freud, que estava na ordem do dia, e da qual Hesse era um apaixonado estudioso, tendo-se posto inclusive aos cuidados do Dr. J. B. Lang, psicanalista de Luzerna, quando vítima de crise de neurastenia que lhe sobreveio após a Primeira Guerra Mundial. Daí a presença constante do oni­rismo na obra, de um certo entrevelado complexo de Édipo (aqui exposto através de um sutil mecanismo de transferência), de permeio com reminiscência de estudos de ciências antigas e herméticas, hauridos na intimidade da biblioteca do avô materno.

   No caso de Hesse, mais do que na maioria dos autores, um conhecimento biográfico se faz necessário à boa compreensão dos elementos surpreendentes de sua natureza. Descendente de família suábia, criado no mais rígido rigorismo religioso — o pai, erudito famoso de história religiosa; a mãe, filha de missio­nário, nascida e educada na Índia; o avô, Hermann Gundert, indianista de renome — Hermann Hesse nasce em 2 de julho de 1877, em Calw, pequena cidade do Wurtemberg, na Floresta Negra. Desde logo destinado à carreira eclesiástica, passa pela levedura espiritual e a constrição educativa de quatro seminários, donde egressa para tornar-se aprendiz de relojoeiro e, mais tarde, auxiliar de livraria, em Basiléia e Tübingen.

     Essa reação à vida religiosa e a firme obstinação de se tornar poeta (aos treze anos tinha por divisa: “serei poeta ou nada”) é explicada por seu biógrafo, Hugo Ball, como uma fixação pela poderosa personalidade de sua mãe, contista de sensibilidade, cuja figura (“bela voz clara e sonora”) imprime-se na alma do jovem de maneira tão marcante quanto a imagem da “mulher ideal”. O contato com o mundo livreiro proporciona­l-lhe a oportunidade de publicar, em 1899, seus ROMANTISCHE LIEDER, (Cantos Românticos) e, cinco anos mais tarde, sua primeira novela, PETER KAMENZIND, que logo alcançou nume­rosas edições, permitindo ao poeta libertar-se da ocupação burguesa para entregar-se exclusivamente à literatura. Nesse mesmo ano (1904), transfere-se com a primeira esposa para Gaenhofen, ás margens do lago Constança, na fronteira ger­mano-suíça. Data dessa época sua colaboração na revista März, de Munique, cujo diretor Theodor Heuss, combate o poder pessoal de Guilherme II; os artigos de Hesse, entretanto, corres­pondem mais a uma atitude democrática e liberal, do que a um compromisso partidário, que nunca teve.

     Em 1911, “por necessidade interior”, empreende uma viagem à India, berço de sua mãe, e que exerce sobre ele a atração de uma pátria espiritual e misteriosa; a viagem, entre­tanto, não lhe proporciona o esperado deleite. Em 1914, transfere-se para Berna, onde vai surpreendê-lo a declaração de guerra, em relação à qual Hesse assume, desde o início, uma atitude intelectual de absoluta neutralidade. O entusiasmo guer­reiro de seus compatriotas poetas leva-o a escrever o artigo “ó amigos, abstende-vos desse tom”, que lhe acarreta uma onda de incompreensão e repulsa semelhante à que avassalou Romain Rolland.

    Data dessa época sua crise nervosa, decorrente não só da conturbada situação mundial, mas ainda do agravamento da enfermidade psíquica da esposa. A separação do casal é ine­vitável. Hesse fixa-se ao sul dos Alpes e descobre em 1919 a Collina d’Oro, a sudoeste de Lugano. Nessa fase, excursiona pela pintura, fazendo aquarelas, e o trato com as cores vai impressio­nar vivamente sua obra, transparecendo inclusive nas páginas deste livro. Data dessa época também o encontro de sua segunda esposa, Ruth, vínculo que teve, aliás, breve duração. Em 1923, adota a cidadania suíça e encontra finalmente tranquilidade, junto à terceira esposa, para empreender a obra principal de sua vida, coroada com o aparecimento, em 1943, de DAS GLASPER­LENSPIEL (O Jogo das Contas de Vidro), onde expressa um apurado conhecimento musical.
Durante os anos da Segunda Grande Guerra, acolhe refu­giados do regime nazista e encontra as portas literárias da Alemanha novamente fechadas para a sua obra. Em 1946, obtém o prêmio Nobel de Literatura, principalmente em razão de sua obra poética, mas a saúde débil não lhe permite ir a Estocolmo recebê-lo pessoalmente. Falece em 1962, aos 85 anos de idade.

     De posse desses elementos, fácil nos é perceber quanto as figuras de Sinclair, Demian e Pistórius encerram do próprio Hesse, não passando de sínteses ou projeções de suas vivências: Sinclair, mais do que todos, é o êmulo real do autor: a mesma infância, o mesmo ambiente parental, a mesma inadaptabilidade ao mundo cotidiano. Demian será talvez o Hesse ideal, o que gostaria de ter sido, decisivo, homem do destino, marcado pelo sinal de Caim. Também Pistórius é um heterônimo de Hesse, organista na vida real, filho de teólogo, guia de outrem mas incapaz de encontrar o próprio caminho. Tudo indica, ainda, ter servido para o vigoroso retrato de Eva a significativa figura da própria mãe do poeta.

     Cabe uma palavra final sobre a atitude de Hesse em relação à guerra e à comunidade. Pode parecer hoje um tanto superado o desprezo pela coletividade demonstrado por Sinclair, passível de confundir-se com um sucedâneo da torre de marfim. Mas o que Hesse realmente ataca é a aceitação do rebanho, permeável a influências externas, capaz de ser levado à guerra na ilusão de estar praticando um ato heróico. A atitude não está certamente isenta de alguma aristocracia intelectual, mas formulada antes no sentido do culto do individualismo enquanto útil, capaz de encontrar o destino, do que no isolamento gratuito e inaplicável. Hesse rebela-se contra a uniformização; não é a massa que o impressiona, mas os processos de submissão, de estandardização a que ela se submete. Ergue um canto de glorificação ao indi­víduo consciente de si mesmo e de seu próprio caminho e execra o morticínio capaz de destruir com uma simples bala esse expe­rimento único e insubstituível da natureza: o homem.

 

Ivo Barroso
CONTINUA

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Pascoa_Cordeiro_01

No ano passado, por ocasião da Páscoa (29.03.2013), tive a oportunidade de apresentar aos leitores deste blog alguns poemas referentes à data, belos sonetos de Djalma Andrade e de Alphonsus de Guimaraens, dois dos nossos maiores poetas litúrgicos. Desta vez, para que não passe totalmente em branco a efeméride religiosa de maior significado cristão, tudo que lhes posso oferecer é esta primeira estrofe da Canción a Cristo crucificado, do quase desconhecido poeta espanhol Miguel Sanchez. Ela consta do The Oxford Book of Spanish Verse (p. 169) que informa saber-se muito pouco sobre o poeta, provavelmente nascido em Valladolid e falecido em Plasencia, sem citar as datas. O poema é bem maior e, caso haja interesse dos leitores, poderei oportunamente transcrevê-lo na íntegra, em espanhol é claro.

 

Canção a Cristo crucificado

 

MIGUEL SANCHEZ

 

Inocente Cordeiro

Em seu sangue banhado

Com que do mundo tiras os pecados,

Desse forte madeiro

Suspenso pelos braços

Abertos, que me incitam a abraçar-te;

Já que humilde definhas

Com a cor e a formosura

Desse rosto divino

Tão próximo da morte

Antes que a alma soberana e pura

Parta para salvar-me

Volve teus mansos olhos para olhar-me.

 

(Tr. Ivo Barroso)

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peixe voador 450

O PEIXE DE NERUDA

IVO BARROSO

 

Neruda pôs um peixe na bandeira

que desfraldava em frente à sua casa.

Talvez quisesse assim, desta maneira,

dizer que um peixe voa sem ter asa.

 

 

Dizer que nós podemos transformar

as coisas pela força da vontade:

que o mar pode ser céu, o céu ser mar,

dependendo do olhar, da intensidade.

 

 

Talvez quisesse nos dizer que a vida

é o exercício de enganar a morte;

que depende de nós uma saída,

parar os dados, reverter a sorte.

 

 

Que toda coisa é muito mais que a coisa

em si; que um nome pode ser trocado:

tudo consiste em ser a mariposa

que se transforma num milagre alado.

 

 

Assim, pensando bem, o que Neruda

buscou simbolizar com o peixe erguido

na flâmula, que agora se transmuda

em onda do mar, tem múltiplo sentido:

 

 

Antes do mais, é a pura imagem física

do peixe, o seu desenho, o seu traçado

geométrico, a linha elíptica, a risca,

o contorno preciso e elaborado;

 

 

a exatidão de meios, essa técnica

biológica que o torna a parte viva

da água em que ele vive, a chispa elétrica

que intensa o move, orienta, compulsiva.

 

 

O peixe de Neruda é mais que um peixe,

é uma bandeira, é mais que uma bandeira,

um conjunto de símbolos, um feixe

de acepções — a mitologia inteira.

 

 

É um peixe apostólico, sem dúvida,

a ser multiplicado quando há bodas;

mas é também um peixe só e único,

quando se forem as esperanças todas.

 

 

Pois é o peixe de Cristo e do infinito,

esse oito deitado e em si completo,

oracular, sinal na areia escrito,

signo zodiacal, moto perpétuo.

 

 

Por isso penso às vezes que Neruda

ao erguer de manhã aquele mastro,

com voz potente e ao mesmo tempo muda,

dizia versos ao seu peixe-astro:

 

 

‘Acorda, ó peixe inaugural, ó peixe matutino

Longe de teu reduto aquático, nos ares;

Deixa a esponja, o coral, o caramujo

— Teus amigos agora são as aves.

 

 

Deixa o reduto de imersões profundas,

Liberta-te de abraços isobáricos

E paira livre de teu peso em vôo silencioso e estático;

Nada nesse ondulante pavilhão que o vento do mar fustiga.

És agora o peixe em estado virtual, o peixe-pensamento, espadanando

A esbranquiçada metamorfose das escamas.

A ti entrego o destino de uma espécie

Marítima e volátil, a dupla vida

Que intentamos viver sem os recursos

Que ora te empresto da imaginação.

A ti confio o destino de todos estes seres

Que querem ser bem mais do que têm sido.

Mas que lhes falta o anseio de ter asas

Ou temem sempre mergulhar no abismo’.

 

 

E tarde, tendo os olhos seus imersos

no pôr-do-sol, descendo o pavilhão,

talvez Neruda lhe dissesse versos

— que o verso de Neruda é uma oração:

 

 

‘Volta, ó peixe vesperal, mergulhador do ocaso,

Ao seio original de onde saíste, entre líquenes e anêmonas;

Conta às algas o azul do céu quando os stratus

coroam as colinas,

Agora sabes os segredos dos que pairam acima do horizonte,

Mas dize-lhes também que aventura inaudita

É viver em dois mundos, é saber que estás aqui

Mas que podes pairar além do insuspeitado.

Sonda teu elemento com perícia mas denodo,

Não deixes o recôndito esquecido,

Nele há tesouros que ainda não fulguram

Por lhes faltarem olhos que os vejam.

Vai mais fundo, explora os teus recursos mais íntimos,

A força potencial que jaz nessas escamas

Que tatalaram como virgens rêmiges,

Um dia nas alturas.

Usa teus olhos oblíquos para veres na sombra

O que muitos não vêem em pleno dia,

Sê tu mesmo, sabendo bem que podes

Ser outro, muitos mais, ser legião, miríade

Sem trair o que de mais teu trazes contigo.

Amanhã, serás outro meu amigo.’

 

 

E ouvindo o Poeta descobri que havia

algo de mais recôndito na imagem:

Além de toda essa mitologia,

há no peixe uma última mensagem.

 

 

A de que é a Poesia um peixe-alado

e o Poeta um ser que busca o vir-a-ser.

Vive para dar vida ao Incriado,

pois que a missão do Poeta é transcender.

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