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Inaugurada em 25 de julho de 2010, a Gaveta estaria completando hoje o 6º aniversário, mas – para efeitos de aposentadoria – ela só tem, na verdade, menos de cinco anos de funcionamento efetivo. Uma decisão in extremis levou-nos a interromper sua publicação entre 23 de junho de 2014 e 10 de fevereiro de 2016, ou seja, um lapso de cerca de um ano e meio. Para minha íntima satisfação, verifiquei, pelas estatísticas, que a Gaveta não deixou de ser visitada um só dia durante aquele longo período. Isto me convenceu de que tenho alguns seguidores fieis e de que, se sempre escrevi estas notas para o “meu secreto prazer” (como diria Gide), elas também despertam o interesse ou a benevolência de um singelo número de leitores. Vez por outra (confesso que gostaria fossem muito mais frequentes!), esses leitores-amigos deixam pequenas notas e comentários que servem de estímulo e inspiração para o prosseguimento deste trabalho, sobre a utilidade do qual sempre levantei dúvidas. E aproveito este papo informal para dizer que às vezes me surpreendo com a reação dos leitores.  Ainda pelas estatísticas, o post mais visitado até hoje (alguns milhares de consultas, cerca de uma dezena cotidianamente) é a minha tradução de “Eu canto o corpo elétrico”, de Walt Whitman. Tenho grande admiração pela poesia desse gigante americano e, por isso mesmo e pensando nos leitores, publiquei recentemente a tradução de outro de seus célebres poemas, “Eu ouço a América cantando ”, devidamente acompanhado de seu epígono negro, o “Eu também canto a América”, de Langston Hugues. Mas, para minha surpresa, esse novo post foi escassamente consultado pelos leitores e nele jamais deixaram um simples “gostei!”. Que pena! Seria tão bom se eu pudesse saber o que os leitores procuram ou gostariam de encontrar nesta Gaveta…

Como das outras vezes, faremos um pequeno recesso após o aniversário, mas o de agora será realmente curto, de no máximo três semanas. Como sempre, a Gaveta continuará aqui aberta à visitação e desde já lhes deixo um grande e extenso artigo de consolação, que irá requerer várias consultas: “As Quatro Meninas”, peça teatral surrealista de Picasso, com seis longos atos, cuja leitura levará certamente algum tempo para ser feita. Até breve.

foto-fim

Eu já contei a história em Minhas Incursões Teatrais (07/09/2010), mas vou repeti-la aqui:

Em 2001, para a grande Exposição Surrealista montada no CCBB do Rio, traduzi, a pedido do prof. Guilherme Castelo Branco, a peça AS QUATRO MENINAS, de Picasso. Desde criança, apaixonado pelo célebre quadro de Velásquez (“A Família de Felipe IV”, mais conhecido como “As Quatro Meninas”), Picasso em 1947/1948 pintou uma série de 58 “releituras” da obra, que se encontram hoje reunidas, em sua integralidade, no Museu Picasso em Barcelona. Não satisfeito com essas “reinterpretações”, escreve em Cannes, em 1957, uma peça teatral surrealista (umas das poucas existentes na literatura mundial),  esta que no Brasil foi interpretada pelas atrizes Suzana Kruger, Ângela Noal, Ludmila Breitman e Maura Baiochhi, e tendo como narrador Sérgio Mambertti. Conforme o programa, tratava-se de uma “leitura nos moldes estritamente surrealistas, respeitando as convicções mais marcantes do movimento quanto ao teatro: indiferença com a verossimilhança e com os aspectos formais, desprezo pelas regras de interpretação convencional, preferência pelo humor e/ou inesperado”. As atrizes ora sentavam-se estáticas ora arrastavam as cadeiras pelo palco, voltando a sentar-se às vezes até de costas para os espectadores, que, um tanto estupefatos, se deixavam levar pelas fortes imagens cenográficas picassianas que em nada ficavam a dever àquelas suas visões de olhos, narizes e artelhos destorcidos.  Um verdadeiro painel pintado com palavras que o público carioca só pôde contemplar no dia 13 de setembro de 2001. Convívio inesquecível do tradutor com aquelas quatro meninas francesas que não falavam coisa com coisa, mas que tudo o que diziam soava genial. Eta Picasso!

foto2AS QUATRO MENINAS

Pablo Picasso

Tradução:

Ivo Barroso

 

Golfe Juan 24.11.47

Cena: um quintal com um poço quase ao meio

QUATRO MENINAS cantando – não iremos mais ao bosque derrubaram os loureiros a bela que está lá vai recolhê-los entra na dança vai veja só como se dança dançai cantai beijai aquele que desejais.

MENINA I – abramos todas as rosas com nossas unhas e façamos sangrar seus perfumes sobre as rugas do fogo dos jogos de nossas canções e de nossos aventais amarelo azul e púrpura. Brinquemos até morrer e beijemo-nos com fúria a dar gritos horríveis.

MENINA II – mamãe mamãe vem ver Yvette destroçar o quintal e incendiar as borboletas vem mamãe.

MENINA III – façam o que bem quiserem para iluminar as chamas das plumas do galo com vela em torno dos cueiros pendurados nos ramos da cerejeira – atentem para o que lhes digo nas asas arrancadas dos pássaros mortos nas gaiolas cantando em voo rápido  sobre  o chamalote  das  mangas  do  vestido plissado  o céu de tão alto tombado do azul.

MENINA I – cantando – não iremos mais ao bosque derrubaram os loureiros a bela que está cá (grita) lá está lá está lá está o gato que pegou um dos pássaros do ninho na goela e o estrangula com seus grandes dedos e o leva para trás da nuvem limão roubado em manteiga derretida do pano do muro derrubado por terra pelo sol coberto de cinza.

MENINA III –  que tolice.

MENINA IV – arranjem-se vocês com as flores o fio de tricô arrasta pelo jardim suas patas e agarra-se a cada ramo seu rosário de olhares e as taças cheias de vinho no cristal dos órgãos que se ouvem batendo com toda a força no algodão do céu escondido atrás das grandes folhas de ruibarbo.

MENINA I – arranjem-se arranjem-se a vida me envolve o giz de minhas invejas do casaco rasgado e cheio de manchas de tinta preta escorrendo a garganta aberta das mãos cegas que buscam a boca da chaga.

MENINA III (escondendo-se por trás do poço) – e isto é isto é isto.

MENINAS I – II – IV – boba boba – você é boba – está duplamente visível – nós a vemos – completamente nua coberta de arco-íris. Ajeite os cabelos eles flamejam e vão deitar fogo à cadeia de reverências raspado à cabeleira emaranhada dos sinos lambidos pelo mistral.

MENINA III – é isto – é isto – é isto vocês não me terão viva e nem vão me ver – estou morta.

MENINA IV- não seja idiota.

MENINA I – se você não vem iremos todas nos enforcar nos pés de limoeiro e viver em flor nossos dramas e nossas danças fio do punhal de nossas lágrimas.

MENINA II- vamos lhe dar uma escada (buscam uma comprida escada e trazem-na com grande dificuldade equilibrando-a de pé).

MENINA l – não está atrás do poço -não ela está no teto da casa.

MENINA IV – está sobre o ramo florido no alto à esquerda da pereira.

MENINA II – vejo-lhe a mão que morde a ponta da asa de uma folha que sangra.

MENINA IV – não não ela está em frente à mancha furta-cor que faz o sopro do clarim sobre a janela do quarto do primeiro [andar] fervendo a socos o ângulo quebrado pelo cego sol que busca seu caminho nas trevas.

MENINA I – ela escorrega parece buscar entre as folhas úmidas e entre as ervas sua merenda descrevendo arabescos em curvas e cores e em fios da virgem.

MENINA IV – quer vir aqui ou não Paulette você está nos chateando vou dizer à mamãe que você não quer mais brincar e está procurando chamar a atenção transformando-se de mil maneiras em buquê de flores japonesas.

MENINA II – seja o que quiserem colho as toranjas e as como cuspo as sementes limpo com o dorso da mão os lábios e acendo os pavios das lanternas com meus risos os incomparáveis queijos que lhes peço aceitar sinceramente a vossos pés me assino.

MENINA I – é muito difícil passar uma tarde agradável das férias de verão em companhia de vocês e além do mais ademais quando se sabe que vocês não querem brincar de nada que toque cronologicamente nas lições nos mostraram na ponta da orelha durante as aulas do inverno.

MENINA II – é melhor deixá-la e não lhe dar atenção ela voltará para melhor simplificar sua astúcia e nos fazer rir com seus falsos livros de contas e seus arranjos geniais tão artísticos que são.

MENINAS I – II – IV (aqui um longo silêncio – três minutos – elas continuam segurando a escada com bastante dificuldade em silêncio de um extremo ao outro da cena aproximando-a das árvores – da parede da casa e tentando trazê-la para junto do poço) durante esse  tempo  ouve-se  a voz da

MENINA III –  é isto é isto é isto começa a chover.

MENINA II – chove chuva miudinha e a festa da sapinha chove chuva.

MENINA IV – chove chuva miudinha a festa da sapinha…

MENINA III – é isto…

MENINA II- não se deve acreditar que o gato tenha ido comer sua águia sem medo nem remorso por trás das cenouras. Os azuis de suas queixas o verde­malva de seus saltos os violentos violetas de suas garras arrancando o amarelo­enxofre de sua fúria os farrapos verdes veroneses retirados do sangue fundente da fonte cheia de vermelho o ocre do muro lilás e as franjas cobalto tão agudas de suas queixas o pobre pássaro empinado sobre os cascos de suas plumas macaqueia em acrobacias as bandeiras estalando as línguas sobre o aço o punhal plantado já o gato acumula e retrai a cada estágio suas sombras e suas espadas confusas e confundidas na queda das verticais se esmagando gota a gota na cortina verde oliva.

MENINA I – chove  chuva  miudinha  é a  festa  da  sapinha  chove  chuva miudinha é a festa da sapinha chove neva tudo molha é a festa da piolha.

MENINA II – queria que ela voltasse está faltando sol agora chove. 0 riso das flores rasga o vestido branco de xadrez e verde-gris e funde em acrobacias e saltos de humor o fundo da tela crucificada ás minhas sandálias chame-a Jeannette solte grandes gritos para que ela retome seu lugar ao sol e tire o fio a prumo pela parte grossa da luneta.

MENINA I – deixe-a fazer sem dizer nada o silêncio  deve  pôr seu  ovo  no canteiro de seu destino feito em pedaços pelo jogo das grandes curvas atiradas a grande custo e múltiplas manigâncias por cima dos moinhos asas cortadas  de todos os loureiros  e bem felizes de ser retirados  do comércio com preço tão em conta.

MENINA II – você não me fará crer e se digo crer estou exagerando que sua partida e a sintética projeção de sua imagem seja de fato diluída no caldo imaginário desta tarde sujeito em seguida a ruidosas revelações a audaciosas discussões cursivas.

MENINA I – a chuva  que  aumenta  pouco  a  pouco  já  dura dez  séculos  e compõe meticulosamente a página pintada tão minuciosamente com pequenos signos e linhas torvas desfazendo nós  górdios e fichas  antropométricas todas responsabilidades e consequências de um jogo imposto  do outro lado. Lá ela nos causou muita alegria.

MENINA IV – ela nos fez sucumbir  e não se dá conta de que chove para nós que gera que o sol se achatou por terra que caminhamos  por  cima  que nos queimamos

MENINA II – os pássaros  têm chifres  as flores roem  as unhas  e as nuvens servem para limpar as vidraças faz um calor sufocante no paraíso e os pássaros já acendem fogo sobre as nuvens.

MENINA I – as flores cheiram a sopa que ontem à noite para o jantar minha pôs ao fogo a  partir  das  cinco  horas  e  que às dez  para  as  sete  de olhos esbugalhados a  porta aberta do nosso pranto transporta corpos e bens  ao paroxismo  sim-não-sim-eu  não sei – mas retoma o tempo bom a seu cargo e afaga a paleta cheia até a borda da carga de seus porta-copos bebidos até a borra.

MENINA  IV –  parou a chuva já podemos  brincar vamos correr  em volta do poço vamo-nos  divertir  bancar  as loucas o  ramo  da pereira  deu  um tapa  no grande monte de nuvens e a ponta do pé do sapato da palmeira ronca acocorado na toalha de mesa rato que se cata vamos correr feito loucas – como as loucas e levemos conosco todas as flores as louras e as morenas as doces e as amargas as tenras e as duras de pedra e de algodão de óleo e de vinagre de tinta nanquim e de tinta simpática sem um erro de ortografia  e  com  as  quarenta e  cinco mil  vírgulas  vamos correr  brincar bancar as louças (dançando)  – loucas – loucas – loucas loucas louca loucas loucas loucas.

MENINA  I – as folhas negras  do quintal  vão escrever  sua  vida com toda a rapidez  os ramos sonharão com os arcos  do futuro e serão doces  e cordatos como as imagens votivas e tão berrantes quanto parecem tão domesticadas é seu hálito sentadas diante do fogo lendo o jornal apontarão os golpes do destino sobre a ardósia.  Carga de lembrança de braços cruzados a ronda desdobra suas músicas no ácido o grande carneiro alado soa o sino ao longe.

MENINA ll – como estamos bem aqui e como estamos bem no campo ao sol derretidas no meio de sua pança brincando brincando e  gracejando  ao  sol repleto de amoras o sol cheio de fitas cheio de pedras cheio de casquinhas de sorvete vamos todas rir e cantar e fazer comidinha traga seus cacos de copos de cor e procure os ossos de sépia que servirão  de prato  as  plumas furta-cores  dos  ramos  secos  dos  caroços de azeitona  e as conchas de meu colar com a cinza do muro dos grandes plátanos untarão a fatia de pão misto da taça de frutas presa na armadilha da fonte vai buscar a vela de seda negra com que nos cobriremos  todas  para  fazer a noite  de núpcias que iremos passar no fundo  do poço  cheio de estrelas fritas a mãe de Jeannette na noite do casamento de sua irmã tinha um vestido cosido de lâmpadas elétricas de cor vão ver se as árvores já foram se deitar e dormem é preciso fazer tanto barulho quanto pudermos e iremos gritar com todos os nossos pulos de cabrito a alegria de estarmos  sozinhas  e loucas  iremos  amarrar  a escada  à árvore  e vamos subir nela para acender o fogo da cozinha em cada folha que cerziremos ao  algodão  dos  ramos espinhos  de  açúcar do  mel  amargo das  agulhas dos espinhos das flores dos duplos  eucaliptos  (apanham a escada e a engancham nos ramos altos da árvore, deitam-se no chão de barriga para baixo e adormecem) e ouve-se a voz da

MENINA III – é isto é isto é isto…

MENINAS I – II – IV se levantam e começam a brincar  de roda saltando e cantando – é isto é isto é isto é isto vamos à guerra guerra de casa anjos de malvaísco ratos e ratazanas noite de caramelo manhã de guiso a vida que passa fez nos meus lençóis – é isto é isto é isto a vida se empaca para ordenhar as vacas a vida é bela ocultemo-nos dela os novilhos morreram e têm asas a roda que gira desfaz seu vestido e mostra os seios sob as ervas a noite esconde seus peixinhos a bela pimpinela ama o seu pimpilim diz-nos rosa malva-rosa a aurora desta noite nos conta e nos faz rir levanta a tua golilha desembucha os teus rosários  aponta-nos  tua  garrucha  sobre  o  buquê de  rosas murchas miserável miserere – estamos contentes contentes em atar amanhã depois de amanhã com o hoje e com o ontem.

(elas rodam saltam e gritam cada vez mais rápido cada vez mais forte e caem no chão umas por cima das outras s sorrindo)

MENINA IV – nós bem que nos divertimos eu divirto tu divertes ela diverte feliz feliz feliz feliz feliz feliz.

MENINA II – feliz.

MENINA I – eu sou feliz eu sou feliz elas começam a gritar– é isto é isto é isto e ouve-se cantar inúmeros pássaros e uma chuva de olhos começa a cair sobre elas colando-se em seus cabelos e vestidos.

MENINA II- estamos cobertas de luz.

MENINA IV – estamos sujas de luz.

MENINA II- ou queimada.

MENINA I – estou gelada de luz.

MENINA II – olhem olhem no alto da escada um pássaro que se rasga estamos vendo seu coração gritar e com as garras ele arranca os olhos.

MENINA IV – as  folhas  em  redor  dele  mostram  os  dentes-de-lobo  e  o ameaçam com suas mãos docemente fechadas.

MENINA I – é preciso ajudá-lo.

MENINA II – não toques nele queima está em chamas uma tocha.

MENINA I – vamos arrancar todos esses olhos de nossos vestidos ou esconder nas mãos esses olhares.

MENINA N – vamos nos envolver no véu fazer-nos medo e à nossa volta façamos uma cerca em círculo de punhais plantados na terra pelo cabo MENINA I – vamos atirar-lhe todas as flores do jardim para que ele morra de rir.

MENINA II- representemos um drama vamos montar a cena diante do poço e disfarçar as árvores em vagas você aí será o náufrago você o raio e eu a lua você aí dirá às vagas que levantem suas redes e apanhem todas as estrelas e as conchas em suas presilhas e as atirem para nós em  colares de  perolas e montadas em vacas desfilarem a mesa azul e as cadeiras fazendo-nos caretas.

Você a mais nova lhe oferecerá as cenouras as couves e os tomates que iremos colher cantando de joelhos segurando pelos quatro cantos a vela e  você enquanto isso acenderá uma fogueira de alegria e jogará dentro dela todos os nossos vestidos ficaremos nuas e você também se despirá ao mesmo tempo e iremos nos esconder embaixo da mesa mas preste bem atenção para não se queimar na fogueira não aproxime dela suas ânforas cheias de vinho e as grandes folhas de ruibarbo que teremos trano em tomo farão a cortina mais negra para a corrida que a tempestade desencadeará quando as vagas vierem nos agarrar na garganta e nos envolver com seus musaranhos o mais  ávido silêncio enchera sua ânfora de fogo e as asas quebradas do cavalo que arrasta as tripas sobre a cinza abrirão suas romãs ao espelho repleto de luas quando por sinais vocês farão sinal de morder nós todas  nos  levantaremos e unharemos o rosto até sangrar então o mel do transbordará todas as suas abelhas e fingindo-nos  de mortas de  medo riremos  e cantaremos juntas  e a  plenos pulmões o barco com as velas todas desfraldadas  reentrará em cena será carregado de leite e de sangue e em fogo iluminado por mil lanternas

MENINA IV – diga-me diga-me o raio rirá rirá será infeliz ela terá medo no mar sob a mesa será ela loura e ruiva e longa com longos cabelos negros e amaranto terá um amante não me diga a verdade mas enormes mentiras quero ver com minhas mãos fuxicar o grosso colchão de estrelas cravado não importa como sobre o dorso do céu que passeia à beira do teto tão granjeador.

MENINA  II – grande  desilusão  afinal  de contas  espontaneamente desenhada em complicados arabescos e circunvoluções matemáticas mas a grande questão é saber se sou absolutamente branca de mármore de penugem de cisne de papel branco de fio puro fio e coberta inteiramente  de neve e sozinha de pé à beira do telhado e imóvel

MENINA II – cale-se você nos chateia.

MENINA IV – não você fará aquela que vê e com seu pedaço de giz com os olhos fechados irá desenhando em tudo grandes olhares de homem.

MENINA  I – esconda as mãos atrás dos olhos leia o futuro verde primavera de folhas e de flores que regarão seus cabelos de músicas.

MENINA II – canto canto noite e manhã e não gosto de fazer comédia só gosto do ruidoso refúgio do silêncio sobre a minha barca  em perdição e engodo é a bela estação.

MENINA IV – ora veja.

MENINA I – ah.

MENINA IV – dó ré mi fá sol lá si dó.

MENINA  I – dó si lá sol fá mi ré dó eis que um grande  sol rola  lentamente sobre a cena até aos nossos  pés onde se estende  de todo comprimento e nos lambe as mãos — como é bonzinho.

MENINA II – a flauta ao longe desmonta peça por peça o jogo de paciência irrigando a cor e pacientemente inventa o jogo de cena do grande barco vogando amorosamente nos véus da noiva do naufrágio coçando suas pulgas nos azuis acidulados do celeste com ambas as mãos agarradas ao arreio da égua e catastroficamente tomado de chances inutilmente fugazes.

MENINA I –  o azul dirige  a  ponta  de seu  casaco  azulidão  azul-real    anil cobalto  azul celeste ameixa  sobre o braço estendido do amarelo  limão verde amêndoa e pistache contornando o malva lilás batido os dois punhos pelo verde da laranja e a toalha de riscas azul-rei e azul-pervinca estridente confundidos aos seus joelhos e todo o acidulado arco-íris  do branco enfaixado com o arco  dos pés molhados no  verde-esmeralda funambulescas  batidas de gongo feridas de morte entre as meadas de cravos e de rosas tão  malva-rosas

MENINA IV- o azul o azul o celeste o azul o azul do branco o azul do rosa o azul do lilás o azul do amarelo o azul do vermelho o azul limão o azul laranja o azul que transuda azul e o azul branco e o azul vermelho e o azul das palmas do azul limão das pombas brancas aos jasmins em campos de aveia em grandes cantos verde amêndoa esmeralda.

MENINA II – as espirais dos limões os grandes quadrados brancos das laranjas os losangos em limão dos ovais perfeitos   dos círculos exasperados das rosas lilás dos  tomates  cantados  cochichados  pela oliva  do  roxo  escondido  no xarope de amoras

MENINA I – branca a rosa vermelha o cravo e azul o branco amarelo do muro.

jorrando em ondas a baba de veniz do fogo encadeado às barras de aço do longo véu arrastado por imensas asas da pequena agulha espetada na face do círculo que arrebenta em vestido de lantejoulas de sarças luminosas.

MENINA II-doce entardecer doce doce uma tarde de doçuras doce entardecer doce.

MENINA IV-relógio cheio de abelhas ilhota de mel.

MENINA  II – barca cheia de abelhas amamentando  os voos das pombas com as asa arrancadas levadas a grandes gritos de ramo jogo e cabriolas de riso em riso imaculadas e em embriaguez.

MENINA  IV – os doze cavalos brancos alados que puxam a carroça feita de um grilo de arroz inundam com seus grandes jarros azul amarelo e vermelho a imensidão do prato cheio de pastilhas de ouro dos feixes e das folhas de acanto trançadas em torno e os jatos de mercúrio da fonte irisam com seus vapores e suas melodias as espadas nuas de seus cantos.

MENINA  II – melancia de azul picada de pregos tesouras  cortando os fios trançados do rio que arrasta os cabelos na areia seu vestido rasgado ilegível  à orelha do encanto rompido saltitante coxeando sobre a longa pata.

MENINA I – um grande  oval amarelo luta em silêncio contra os dois pontos azuis com todas as suas garras retorcidas  na queda  de Ícaro  do  labirinto das linhas  da armadilha  do  losango  verde  oliva  estrangulado com  as duas mãos pelo violeta tão terno  do quadrado  do arco vermelho Iançado tão Ionge pela tempestade.

MENINA  IV – o azul o rosa  o lilás o amarelo limão o verde pistache  o verde da laranja e o azul e o violeta o malva e o lilás e o vermelho.

MENINA  II – tenho a mão cheia de vozes meus cabelos são cobras de fitas de todas as cores ao penteá-los  eles escorregam entre os meus dedos e acendem os fogos  de Bengala  a cada  folha das árvores  arrancadas  pelos  lábios a cada ataque de rins

MENINA I – a poeira dourada que se ade.re a cada suspiro os saltos de cabrito da faixa branca que levanta a barca a janela  isola  os degraus  do anfiteatro  a charrua e sulco que solenemente imolam a cabra acorrentada  sobre  o papel imaculado da grande página escrita.

MENINA  II – deixe  a cabra  pastar dê-lhe folhas de couve você é tola  como você é tola mas você é tola de verdade tola tola tola

MENINA I – um colchão de sarças para eu dormir esta noite sobre o xarope de amoras de gentil cotovia você almoçou direitinho as meninas I- II- IV em silêncio põem-se a correr para todos os lados e a se engalfinharem e sobem sempre correndo os degraus que levam ao primeiro andar do casa.

MENINA III –  sai do poço e pula no chãocorre atrás das outras sobe os degraus e entra gritando – é isso é isso é isso é isso é isso é isso é isso é isso.

Fim do 1° ato.

foto3

2° ATO

O mesmo quintal mas tendo ao meio uma grande barca – amarrada à barca uma cabra – a cena está vazia

MENINA  III – descendo os degraus da casa carregando uma boneca maior que ela atada por correntes de guirlandas de flores e – avental amarelo – pássaro branco de xadrez azul amaranto e azul limão linha perpendicular do celeste azul-real médio irritante branco espalhado em  grandes  colheradas sobre  a  mancha   lilás  do   imenso   amarelo   limão espalhado  corpos e bens sobre a ogiva fechada do centro estridente do grande quadrado fechado a dupla volta das lacas esmeralda do silêncio escondido entre as dobras do ovo posto pela cabra.

(ela ajeita a boneca envolvida pelas guirlandas de flores na barca e amarra-a ao mastro deita-se de dorso no chão e mama na cabra acariciando-a)

Belo jovem  belo namorado  meu amante  meu sol minha  cólera meu  centurião meu  cavalo  furioso  minha  mentira  minhas  mãos de  manteiga  em  espiral  a deliciosa  subida e a descida amarrada  as cadeias  do picadeiro  em festa limão espremido na goela fechada do ácido nítrico da tenra pombinha que se abre em leque no centro da fornalha da tina de piche que fumega .

(levanta-se desamarra a cabra e a estrangula segura-a nos braços e dança)

As meninas I – IV estão na janela da casa e olham vão um instante ao interior e tornam a voltar com grandes bigodes pintados sobre os lábios e libertam grandes quantidades de pombos que saem voando.

As  meninas I II e IV pulam pela janela para o quintal tinham amarrado ao ombros grandes asas abertas contornam e prendem no meio de sua roda a menina III que traz nos braços a cabra morta.

MENINA  II – faça-nos ver a claridade  cega de seu canto  de gelo e a aurora boreal de seu olhar remexendo na fuligem que ela arrebente em buquê de víboras sobre nós e suas auréolas de jasmins e as mãos cheias de signos.

MENINA  IV – deixe correr seu  sangue  sobre  a minha  face que  eu sinta  o frescor dos alísios de sua vida que alça voo ao longe.

MENINA  II – a folha de mármore de seu olhar  decompõe  em paletas  o fogo gelado que ferve na indolente crispação das curvas em cristalização

MENINA    IV   – vamos   buscar   vinho   em   grandes   jarras    em   ânforas transportemos todo o vinho que ela se embebede em sua morte que cante e ria e daremos de beber também à boneca vamos embriagá-la para que ela cante e ria e dance conosco e nos adore

MENINA  I – a barca  balança incha-se e ergue-se  ela se ilumina  de todos os lados  e mil braços remam os campos  de azul  cobalto  limão verde  esmeralda lilás rosa e papoula púrpura  lia do vinho branco rosa azul-real  furta-cor e suco de limão de tangerina de toranja e verde laranja amarga.

MENINA II – (que enfia o bracinho inteiramente na ferida da cabra degolada e lhe arranca o coração que mostra às outras meninas) – está vivo – vivo – ele pula – ai que dor ele me morde – tirem-no de mim – ele salta ao meu pescoço – me rasga – me estrangula – matem-no – matem-no – ele está vivo.

MENINA I – (arranca o coração com as mãos envolvidas na fralda do vestido e como se segurasse um carvão incandescente o introduz na boca da boneca) –  o coração vai pôr seu ovo e a colmeia cantará suas litanias a matinas de mel de fel colados às cordoalhas e às velas da barca encalhada a baba dos bodes do sol.

MENINA IV – aqui a página está branca vazia  extinta o silêncio  envolve de cinzas seus passos uma grande poça branca mole depõe seus dedos pálidos seu escarro sobre a franja da bandeira estendida sobre o cadáver

MENINA II – a cabra curte seu porre morta na laguna do leite espalhado sobre a poça de sangue enfiada na lama até os tornozelos da flor aberta.

MENINA  I – vou arrumar  um pouco a casa vou  ver toda essa poeira de estrelas que esmagamos  com os nossos saltos  e regar com um pouco de lágrimas a grande  sede  de  riso  da  grande  boca cheia  de  terra  do quintal – vocês  duas consertem  cada uma com sua faca e com toda a delicadeza exigida e querida os grandes  frascos de azul inflados de sabedoria  e que não reste um só talo para juncar com seus traços de arcabuz o alto da torre abarrotada  de amores  urrando agitando as asas através das grades.

MENINA  II – ali ali olhe a serpente  sua espada  que  penetra  tão  de leve na chaga sem tremer a mão.

MENINA  I – morreu  o riso  viva  o riso  o riso  pôs seu  vestido  de  noiva  e enfeitou  de anêmonas  os cabelos mas o longo véu de   chumbo  o imobiliza e o esmaga  e  sua  cauda  se  engancha  e rasga  e  quebra  as  taças de cristal tão delicadamente colocadas cheias de flores no chão à sua passagem

MENINA II – olhe só enchi esta taça de água retirei o copo e a água continuou em seu lugar sem que uma só gota molhasse minhas  mãos – agora quebrei o copo e não sei onde por toda essa água.

MENINA IV (aproxima os lábios da água e bebe como se na fonte) – como é doce e fresca

MENINA II – e clara

MENINA I – é a árvore do saber e do bem e do mal ou a dorme em pé

MENINA II – só o olho do touro que morre na arena vê

MENINA I – ele se vê

MENINA IV – o espelho deformante vê

MENINA II – a morte esta água clara

MENINA I- e muito pesada

MENINA IV – contornam de folhas verdes o leito  de  ardósia  e  cubram  de mirtilos  a  renda  de caranguejos  fazendo  quarto  a parte  e branca alcova em segredo quero lhes dizer meu caderno de despesas e moinho  de pedra plissada acordeom tão doce ao fundo dos bosques.

A primeira das notas escritas e cantadas radiante e penteada a contrapelo goteja suas rosas e pervincas sobre a teia de aranha fazendo suas contas sobre a borda da pia – acrescento, primeiro – um  saquinho  de pralinas  malvas  rosas  e verdes  uma  máscara  de carnaval  máscara  de cinza suando  a pez  dos anos  e picada por uma chuva de grãos de arroz iluminando a face cheia de riso de um céu de verão às 7 h torcido no pau de sebo aspirado pela tempestade e segundo aderindo com  todo  o  peso  à  teia  estraçalhada  que  abana   a  guipura   do açougueiro as tripas desfeitas balançando os dedos no mar a face do vaso cheio de jasmins – e após  os regimentos  do tédio  o açougueiro 50  o quitandeiro 3000 – o carvão o óleo as ervilhas as cenouras o açúcar os cravos-da-índia as batatas cebolas sal pimenta 38 e 11 e 200 três mil oitenta  seis centos cinquenta o arroz o alho as ervilhas grãos-de–bico a laranja voos de pombas  negras  por trás do leque desfeito atirado ao chão longa carta a responder  e não ler olhos fechados às músicas cruzando suas espadas ponta a ponta e o Iongo desfile dos rebanhos de águias roendo  unhas e bicos no negro do estandarte que cobre a mesa do festim e as tochas.

MENlNA I – o aço dos fogos de alegria acocorados em círculo e as acrobáticas fábulas  desfraldadas  herborizando  o celeste  azul-real azul tão terno  e meigo vestido de azul com toda a parcimônia de sua angústia posta em dia.

MENlNA II – boa festa  feliz ano  verão  tão suave  ar  de  metal  línguas  de abelhas cheiro de pio grelhado e de manteiga e melancia

MENlNA  IV – à noite  eu  canto  e  choro  minha  cabeça batendo  contra  o carneiro  de  minha  cama  os  arabescos  das  meadas de  lã de  minha paleta

recheada de pássaros e minhas mãos de gaze descosem a dentadas o buquê de anêmonas

MENlNA II – a alegre canção do verão – bela e tão grávida e encantadora jovem peça única e muito rara o largo traço de giz branco apagará timidamente a conta

MENINA I – o cinzel cor de anil rendado de esmeralda corta em dois o arco da ponte do canteiro da carta de jogar arriscando  a sua sorte – a sombra rompe suas amarras

MENINA II – árvore jóia  cheia de palavras colar de esperança corrente de mel ária de flauta máscara de argila sino de prata rosa de cristal sono de relógio

MENINA I – vejam como o sol que nos deseja chega a nós através das folhas e lepra nossos rostos mãos e roupas e o quintal. Seus dedos cheiram a figos seco a pus a sangue a nardo e o azul de sua roupa se decompõe em mil lantejoulas e cantos gregorianos e alcalinos relentos (riem) – o sol nos disfarça de morta o sol nos ama

(Cena dos coveiros carnaval)

Um grupo de coveiros chega carregando um caixão – estão fantasiados de sátiros centauros e bacantes – chegam dançando  bêbedos – depositam  o caixão  sobre  estrados  que  recobriram   de  palmas  abrem-no  e  tiram  dele grandes ânforas e taças que enchem de vinho e enquanto bebem brincam de roda em volta das ânforas postas em pé sobre o caixão

MENINA II – dança a noite em volta das luzes canta o íris em volta dos jogos de cartas e rasga em cadência as cordas da ânfora seus fogos e o silêncio do côncavo das mãos

MENINA I – flocos de estrelas colocados sobre o fogo vivo das camadas de sol sofrendo de suas algas a arquitetura toda em caminhos de atalhos o ovo posto a baixo custo a bandeira azul queimando nas quatro pontas

MENINA II- a cinza atirada ao pasto das águias do galinheiro funde o bronze das asas do cavalo arrastando a charrua no campo de diamante e atrela às lanternas as melodias da ponta do buril grifando o mel do cobre

MENINA IV- órgãos ébrios do louco amor âncoras atiradas ao fundo dos céus linhas puxadas das barcas molhadas  de chamas

MENINA II – a grande torta de cerejas está cheia de moscas – se vocês não querem prová-la vou comê-la inteira inteirinha e podem depois chorar chorar chorar e me bater

MENINA I- a torta e tão minha quanto sua quanto todas

MENINA IV- a torta não é de ninguém ou antes ela é das moscas

Os coveiros voltam a apanhar o caixão com  todo  o cerimonial da chegada  e partem dançando as meninas os seguem e ouve-se  a MENINA  III gritando – é isso é isso é isso

 Cortina- Fim do 2° ato

foto4

3° ATO

O mesmo quintal  mas  no  interior  de uma  gaiola  dentro  da  qual  as  quatro meninas estilo nuas

MENINA II -na amarelinha as árvores são sinos do fio de prumo que a cada sopa a ária do violino traz a cada passo e fia a trama dos violinos cosidos à franja lilás dos corpos de caça estendidos rochedos de cobalto e colares de ouriços transbordam no Ianço de muro do relógio amarrado a cada folha as incompatíveis feridas e as chicotadas dos aromáticos saltos de carpa de tanto azul misturado às guipuras da carnificina e a vergonha e rascantes remorsos das flores desmaiadas sobre o lago de amêndoas.

A cada cordeiro sua carga de asas e todo o peso das auroras postas em dia sobre o mármore gravado com garras e dentes a melancólica inocência dos linhos limpando o suor da face do azul do céu atado ao pote por cordas o arco-íris estendido ao máximo descobre aos transes do buquê seu caminho e parte para o festim posto em jogo.

MENINA I – a catastrófica  ausência  de  quaisquer  andaimes  e  o  temor impreciso do grande salto ao alto da escada plantam um estandarte no cimo desfraldar seus fastos e aniversários.

No meio da cena aparece a bolha de um grande aquário em que nadam em círculo peixes coloridos um vermelho outro azul outro amarelo outro verde outro violeta outro laranja

Do aquário sai o buquê de um fogo de artifício  

A tinta da fonte rasga os joelhos sobre a manteiga derretida desta tarde jogada à cara ou coroa no cristal do prisma do acre persistente perfume das volutas dos cantos das sombras recolhidas nas mãos estendidas aos suplícios e convulsa delicadamente  gota  a  gota  a  rota  desenfreada dos  carros  róseos  dos  íbis arrastando seus farrapos na lama da cal remexida dos remos batendo em desordem suas palmas sobre o chamalote das arcadas pique corpos e bens sobre o leque e fio de Ariadne enredado nas sarda moreia o festim todo posto à parte

MENINA IV – a sombra da aurora marca com a unha no canto da página seu buque de anêmonas

MENINA II- rato camundongo arganaz musaranho morcego flor de piretro unguento cinza ácido cítrico posto a cavalo sobre o ramo de lilás adormecido graciosamente deposto aos pés fendidos do contrato em chuva de rosas e tortas de creme.

MENINA I – rotunda em espiral jogada ao vento pasta de tocaia sobre o alva arrancado da árvore plantada de raízes para cima sobre o lago esmeralda. MENINA II- garatuja garatujas garatujas passando a esponja molhada de giz sobre a ária e a canção espetando o xale de luas na paisagem gritando em altos brados  delicadas  atenções e suas melancólicas e angustiantes cantorções rato camundongo arganaz musaranho morcego unguento ácido lilás cinza nítrico e chuva longínqua de passo de asas batendo duro como ferro sabre os barrotes do céu através da gaiola

MENlNA  I – serpentes trançadas em longas esteiras cada abelha portando seu vestido de flores a taça repleta de Ieite salta de pés juntos suas manigâncias e melodias em cascatas arabescos e mordidas a cada caule mãos estendidas

MENINA II- a pequena joaninha rasteja suas lanternas  penduradas  com uma corda ao pescoço do patíbulo e range o óleo de sua oliva nas pedras de fogo untando a poça de azul pervinca limpando os vidros de seu linho mergulhado no ovo batido em omelete de perder o fôlego

MENINA I – a joninha morreu ora pro nobis a joaninha se acaba ela acabou

MENINA lV – pão um copo de vinho e a sopa a mesa recoberta com a toalha xadrez azul escuro e azul claro o garfo a faca a colher a mesa a colher o guardanapo  dobrado sobre o prato o murro no lado direito da mesa o balde o amarelo derramado ligeiramente  rosa vomitado  pelo sol limpando a cor acobreada  erguidas sabre seus esporões fazendo-lhe face

MENINA II – contem  digam  um  dois  três  quatro  dez  onze  vinte  dois  três quatro quatro quatro

MENlNA  I – contem contem contem

NINA IV – laranja tangerina  limão azeitonas peixinhos grelhados  o tique­taque do despertador a hora da tarde o dia a manhã a aurora

Fim do 3° ato

foto5

4° ato

O mesmo pomar (à luz da lua)

MENINA IV – sentada numa cadeira sozinha – a manhã mergulha suas alusões e seus carros louros de acres aciduladas rampantes estrelas de patas negras de eixos pontos e vírgulas fixados a vidraça destacada uivante de tantos ocres e pálidos festões desfeitos em fendas de poeira e raias oleando o degrau do poço atirado ao  fogo aprestando  o  cinza  ruidoso  provendo  a  abóbora  colhida na armadilha   suas  enlameadas   ilusões e  suas  alusões  mentirosas de  cortinas cerradas falando à parte  estremecendo  suas  melodias  e seus  gritos  aos  cem pontos   cardeais   e  suas  salsichas   ardentes   ao  arco  intervindo   nos   jogos descobrindo o nu vestido de viga de amendoeiras em flor arrebatando o leito de todos  os  seus  enfeites  e  unguentos  soltos  em  voo  de  pombas  de  goela escancarada  de sol esmagado sobre o tecido bordado  de amêndoa  no prato de arroz  silêncio  posto  as claras  de tocaia  inchado  de  músicas  hilariando  suas hortênsias em ondas de remorsos e circunstância atenuantes.

Focinho careteiro torcendo seus pregos nos punhos  fechados distribuindo  suas ogivas mantendo  em dia a dia suas contas  dobrando  em bola seus salpicos  e suas ardósias sob a asa.

A pilha de-aromas toando seus cânticos e suas mordidas a cada porta todas as velas desfraldadas e todo o  encantamento  permitido a  gaiola   aberta desenrola seu leque e rói o mármore  da corrente  a cifra inscrita  procura suas pulgas sob a pia a pequena  caçarola azul  dorme apoiada  a sombra  rosa feita gratuitamente de pés juntos de joelhos deitada  no chão a falsa violeta corta o pescoço da janela arrastada  pelos cabelos sobre os ladrilhos da cozinha a mesa molhando  suas  patas no  sangue  a boca  aberta  mostrando  o  ciículo  de  seus dentes azuis votos inúteis engancham  suas asas aos pregos entortados pelo ferrugem  – a gravidade da bora  corrompe  sua  carne  à claridade  emitida  em evidência  e o fluxo do relógio autoriza a cada passo sua autoritária aversão

(Entra um enorme cavalo branco alado arrastando suas tripas rodeado de águias – um mocho está pousado em sua cabeça – fica um breve lapso diante da menina e desaparece do outro lado da cena.)

Fonte  luminosa de pêlos eriçados do arco-íris  enganchado  em  cada dedo  dos colares  de  plumas  do  ácido  ferindo  de  morte   o  animal  – o  montão  de reverências  e genuflexões e o alerta dado infligindo suas carícias as estridências do azul desenrolado  diluída em todo

O Ieite derramado  sobre o ramo de mimomas  agitado  obscurecendo  a peça encantamentos esbranquiçados e estouros    bizarros    contorcionando   aos diminutivos adquiridos borboleteantes  imagens concêntricas.

O vestido azul do corpete liIás do verde tão tenra de sua saia das mãos rosas do amarelo  a cadência  do  ocre  vermelho  revelado   em  sobressalto   do  sonho adormecido  gradualmente esparso gota a gota imobilizado  no giz suspenso em ondas dosando a mistura em signos convencionados traçando o caminho aberto ao aroma desprendido  sobre a borda de sentinela  (uma gatinha tendo na boca um canário salta de um galho a outro e a neve começa a cair) lençol dobrado em diagonal festonado de cravos e de íris cabana do Pai Tomás coberta de luas e talhadas de melancia pássaro de algas Tristão e Isolda de gesso cadeia de rosas e palmeira cheia de figos e de ratos grandes concha relógio de ouro e livro aberto de rasuras roída por enxames de abelhas árvore do berne do mal posta no fogo das licitações.

Entram as meninas I e II nuas trazendo grandes círios acesos numa das mãos e puxando com a outra uma charrete vazia – a menina IV rompe em lágrimas e dança como uma louca até cair no chão rindo e fazendo suas roupas em farrapos

MENINA IV -gordura fervente caída das estrelas inundando com seus caroços de cereja os lençóis róseos dos campos de violeta grelhando suas plumas nos gelos do sol dormindo a sesta  asas despregadas sobre a cortina de plumas estendidas ajur mordendo de pés juntos a isca

Bom  prato  de  tripas  bem  quentes  risos  em  todos  os  andares  vinho transbordando das ânforas grande pão branco buquê de abelhas cheio de rosas enxame de mãos mordiscando a echarpe de seda bordada de carícias e à ponta da agua a gota de sangue torcendo sua chama vestido com grandes poás limão verde amêndoa negra e amaranto alegria atirada aos gansos e fio a  prumo torcido em sarças  orlas da palmeira dobrada cuidadosamente aos golpes do machado tão duramente batidas pelos lábios das bandeiroIas dependuradas nas lanças atravessando as gazes mais o azul derramado em ondas tão mesquinhamente mostrando bico e dentes à chaga rosa e  festão  dourado  glória   aos  diminutivos perfumes  verde quadriculado a resposta voltando as costas ao sol serrado em suas garras a imensidade da mágoa derramada escondendo a janela com suas mãos de lama

MENINA I – dentes serrados em tomo do punho do pescoço da águia o chicote de sua plumagem engancha-se a cada pétala as carícias mais inesperadas e as violentas reflexões inconciliáveis  com os arcos da ponte derretendo-se em lágrimas suas cavalgadas procissões e imprevisíveis sugestões aos inumeráveis atributos tão obscuramente postos em evidência – eis aqui a nota três pacotes de linha branca de costura e de cerzir em ponto morto a catastrófica imagem revelada pelo ácido a cada marcha o joelho iluminando o caminho de esfoladuras

MENINA ll – a bela fritada de cadoz o prato de nhoque doce pissaladeira voz clara do linho estendido batendo os dentes postos em oferenda ao sol poente à sombra sob o plátano

MENINA I – a talhada de melão grelha sua fome polar ao clarão da lua

MENINA ll – Ieite de amêndoas doces passas figos alface ouro fundido azeitos pretas cachos de risos as mãos e verde suco de estrelas nascentes trombetas de prata empapando os pés abeira do lago.

Vaso de  argila transbordando milagres  batido  por  enxames de  abelhas inabordável escada destacada da casa em fogo semeando o prado com grandes punhados de sal

MENINA IV – gostaria de ter um vestido de seda de ouro violeta bordado de prata costurado de pérolas de jasmins de filhos da Virgem bordada de ramos de mimosas  de heliotrópios  de narcisos  de cravos de espigas  de milho e minha cabeça rodeada de chamas ver entre as sarças grandes papoulas e os mares de sargaços dos pregos de cravos densos plantados sobre as algas rosas exsudando as vagas de baba das rosas azul celeste sobre as palavras pirogravadas  sobre o ouro  dos  mármores  cobrindo  as asas do  alambrado envolvendo  o ninho  da serpentes

MENINA II – negro  festim linho fino estendido  a secar ensopado de lágrima sobre o leito desfeito riscado a cada suspiro pelas persianas

MENINA IV – mentira posta  às  claras  em  plena  ebulição sobre  a  mão arrancada  ao  destino  bordada  de  signos  arquitetura   líquida  do  palácio de maravilhas  postas a boiar  sobre  a nuvem  cristalizada  raspando  o campo  de violetas lambendo a chama

MENINA II- violenta  tempestade  figurada  pelo  buquê  posto  ao abrigo  das chuvas   de compotas  por trás do engradado  posto sobre a pia cobrindo o ouro das  bordas com a dobras  rasgadas  de seu casaco  violeta  mãos  estendidas  às doçuras dos signos convencionados

MENINA IV – fossa comum aberta aos festins dos  jogos de endereços dos grafitis  desfolhando  precipitadamente  o  lago  adormecido  em  sobressalto  de Ofélias

MENINA I – parto negro da ondas de orquídeas apontando seus jogos de azar para as telha fixadasnos linhos rasgados jogando os cotovelos  grande besteira feita o número que ganha aureola de serpentinas a cabeça

golpeando a fronte contra as lajes do templo subitamente refletido no olho cego do lago estendido de negro agarrando com as unhas minuciosamente a cifra MENINA IV -silêncio posto a ferros camisa de foça ângulo torcido restos de comida coagulados de esmeraldas da garganta aberta da pomba

(*Ouve-se a voz da menina III gritando – é isto é isto é isto é isto…)

o unguento das asas abertas do cavalo arrastando a charrua rói a chaga a vivo e raspa a mordida  feita no vestido por gotas de sol cantando seus broncos sapos na sombra oferecida

MENINA III ao Ionge– é isto…

Lança vibrante pregada no meio do céu estendido de veludos verde maça rosa do babado de orla rasgada as franjas nos picantes das amoras

MENINA II –  grande canteiro  branco em bolas de algodão  sedas asas malvas talos de grama azul-reais dos idílicos picantes de creme batido azul das rendas achamaloteadas cor de cera do braço pendido sobre  o vazio à  janela  cortada sobre  o céu espalhado  em campo  de aveia  sobre a mantilha  negra  dos fios a prumo cruzando  suas ripas  de madeira  pintadas  de verde de cromo rangendo seus  ávidos  e  faustosos  desejos  nas  jarras  dormentes   abafadas   pela  goma arábica dos cantos alcalinos  do concreto  encadeado  apanhado  na armadilha das luas arrastadas do assalto pelos tratos de terra arrancados aos cantos tardios dos rouxinóis

MENINA IV –  a carga das asas trazendo a aba do pichel suspenso  ao horário do dedo mínimo

MENINA II- baile de máscaras mordiscando em silêncio sobre a ardósia

MENINA IV – cavalo furioso cheio de ameixas trançado de pássaros a flauta ao Ionge fazendo das suas sobre a fatia de melão aclarando a rampa do buquê de jasmins batendo duro como o ferro a grandes golpes de chicote de braço comprido encurtado a doce e terna imagem

MENINA IV – hoje dezessete de maio de mil novecentos e quarenta e oito nosso pai tomou seu primeiro banho e ontem belo Domingo foi ver em Nîmes uma  corrida  de  touros com  alguns  amigos  comeu  um  prato  de  arroz  à espanhola e bebeu provadores de vinho na enologia

MENINA ll – o amor estende suas lavas sobre os  fogos despertados nos quadrantes solares o arco flutua sobre as rodas de chamas o óleo que corre em ondas sobre a tempestade a barca bate asas sobre o tambor enegrecido pelas lágrimas uma tromba de cinzas acumula alga em torno de picantes arrancados aos azuis chamuscados das trombetas infestando a rendas atiradas sobre as moitas descobertas as respostas e correm a cada esmola as ruborizadas esperança dos caules partidos em longas folhas aos mastros torcidos grunhindo seus sorrisos levantados do desenho pintado no vestido e as mãos juntas coladas aos galhos quebradas da barca fogo perdido mordendo a página branca pregada verde amêndoa doce do limoeiro lavando a borda da fita transbordando da mesa de madeira branca pintada de ocre a cada degrau chicoteada pelo grão de arroz do sol nascente a pata contra o muro calcinado cheio de revelações.

MENINA IV – oráculo enganchado às infelicidades exsudando suas tropas de camaleões nos barrotes da tempestade torcendo as asas sobre o chão enfeitado de lanças afundando sobre a presa

MENINA II- azul rosa e malva e limão da grande tigela de leite agitada de manhã à janela

MENINA IV – a boca abrindo os cílios a escada de corda abrindo caminho às cotoveladas sobre a pedra do tanque da cozinha saltos de cabra árias da música adquirida as liras do metal dos rebanhos dos aromáticos arabescos fixados ganchos e unhas sobre o tecido de pó branco lambendo a jarra pesada constelação de respostas todas as cortinas erguidas aos refrãos dissolvida no creme derramado nas urtigas atirada em grandes punhados de sal da cabeleira emaranhada de grande plantio de favas pintado em grandes azeitonas pretas sobre a ardósia

MENINA ll – espelho

MENINA IV – silêncio desvestido das multidões de lâmpadas de prata ardentes iluminando-o qual dia de seus golpes de leque a dança que cai sobre a flor que se afoga retalha seus risos no côncavo da mão desatando a fivela de sua sandália.

MENINA ll – o riso faz seu ninho a grama canta a terra grita suas olhadelas e arrasta suas barcarolas para as habilidosas festividades votivas untando as vagas com suas palmas.

O pano cai por uns instantes – mudança de cenário – a cena esta pintada de branco cortina de fundo bastidores gambiarras estilo cobertos com todas as letras do alfabeto e números em grandes caracteres pintados de todas as cores  também o chão do palco esta pintado da mesma maneira – ao centro uma cama em que as três meninas I-II-IV estão deitadas – enormes cães alados vagueiam na cena em volta da cama

AS MENINAS na cama cantando ­

ah ah ah ah ah o amor

ah ah ah ah ah a morte

ah ah ah ah ah a vida

ah ah ah ah ah rir riremos nós rir rirei vós a morte o amor a vida rirei vós o amor rirei vós a vida  rirei vós a morte ride que eu ria  que a vida a morte o amor e vós e a morte a vida e o amor riam ride conosco riamos convosco o amor a morte a morte a vida a vida ao amor a vida a morte a vida a morte o amor toda a vida

Saltam as meninas da cama nua estendem no chão um grande lago azul

rodeado de flores e nele se banham – do meio do lago sai a menina III nua também os cabelos cobertos de flores e envolta de flores no pescoço nos punhos nos tornozelos na cintura dança no meio segurando a boneca num braço e puxando a cabra pela trela – os cães alados voam ­ repórteres fotógrafos entram em tropel e fotografam a cena de todos os lados

Cai o pano – Fim do 4°ato

foto6

5°ATO

Cena – o mesmo pomar – as quatro meninas com vestidinhos de cores vivas – a bola de fogo de um sol enorme ao explodindo rola sobre a cena o grande lago que as meninas estenderam no fim do 4°ato em cujas águas enormes íbis mergulham as palas e pescam peixinhos e rãs as meninas cantam brincando de roda – não iremos mais ao bosque

derrubaram os loureiros…

gritando

MENINA I- Jeannette venha cá

MENINA II – Jeannette

MENINA III – Jeannette

MENINA IV – Jeannette

MENINA II- Jeannette

MENINA III – Jeannette

MENINA IV – Jeannette aqui está lá está a carta

Põem-se a ler a carta em voz alta

– Minhas delicias minhas couves meus nabos minhas couves-nabos minhas ervilhas minhas cotovias eu lhes escrevo daqui a mil léguas de qualquer sinal percebido e de todo e equívoco esclarecimento varrendo as vaga das velas batendo com força nas persianas

A filha do funileiro deu à luz esta noite no albergue a alegria resplandecente de ser mãe de um gordo neném rechonchudo revelado pela placa  grande revelação incrível aparência jubilosa descoberta que os ângulos abertos das asas brancas das pombas arrastaram de uma boa sopa a outra em tornos dos arco-íris quebradas sobre o mármore.

O pai e a mãe estão passando bem e os anjos só chegarão bem mais tarde.

Esperamos também seu tio com a pequena cadela e as grandes despesas virão depois quando as rosas terão feito seus buquês e a partida indecente será pregada sem tambores nem trombetas e todos os fogos acesos sob a grelha do fomo posto a nu por tantos buques oferecidos as ninfas que são vocês em holocausto e se lhes faço rir tanto pior esta noite fará mais claro e amanhã o ranger de dentes de seu gordo gato poderá cantar matinas e vésperas sobre as costas todas suas velhas e corteses civilidades e suas oferendas à Virgem – e seu tio souber que lhes escrevi ficarei coberto de chagas feridas desde a nuca aos tornozelos e creio que será tudo como aperitivo boa noite beijos eu lhes desejo minhas pequenas lentilhas seu humilde servidor e seu muito temo e devotada serva não tendo o ar de esquecer as escondidas todo meu velho mofo em toda parte grande pacote de excrementos do prato cheio até as bordas incarnadas de minha reverência

MENINA I – grande vagabunda imenso cagalhão porcaria bem traçada.

MENINA II – quarto de peidar

MENINA III – velha marmelada de esgotos monte de excrementos

MENINA IV – torta dourada de merda

MENINA III – o machado furta-cor das flores do buquê do feixe de anêmonas diluído no azul das chamas e a delicada atenção prestada à máscara careteira da cesta de laranjas amarram na forca a corda da lira batendo as asas na gaiola

MENINA IV – boca a boca o relógio grita suas babas sobre o aço contido na taça das mãos voantes que batem nos vidros das janelas a vela de alteia enfeixando o vestido lança ao granito as flores sangrentas com feridas evidentes

MENINA III – seu vestido lantejoulado de gritos tocando o clarim no centro da

laguna em fogo cortando em dois o espelho da arena enterrada sob as rendas

MENINA III – o vácuo solta suas garras e morde a todo pano diante da imagem

MENINA I -o silêncio se estira sobre a bola de sabão do sonho enterrado nas acrobacias despejadas das palmas açoitadas duramente até o sangue

MENINA II- a luz move no centro da echarpe os jogos suas orações suas coroas de espinhos

MENINA I – em grandes colheradas a paisagem repintada sobre a ardósia chacoalha suas pulgas a cada ponto do equinócio com frias doura aninhadas em arvoredos de mármores das sereias o pouco de azul queimado em feixe de aveia em chuva de encantações e risos rasgados e jogos de graças

MENINA Ill – boca negra do sol repleta de cinza

MENINA I- odor apavorante de uma cheia pratada de estrelas fritas na panela MENINA II – grandes sapos engolidores de bois tabula do Pai Tomás e da Virgem Maria domadora de pulgas o arquiteto que fez suas necessidades tirando a escada com ambas as mãos

MENINA I – janela aberta para o branco imaculado da página marcada ao centro com o mel de abelhas da palavra riso

MENINA IV – leite de jasmins

MENlNA II- unguento de nardos

MENINA I -licor de cravos

MENINA III – grossa risca de giz barrando a estrada

MENINA I – a sopa vazia se abre em guirlandas de umbigos e a festa recomeça algas festões e jatos de alcova doces traços tirados à noite do cora o do lago de pé sobre pernas de pau batendo asas a colcha da cama grifando com grossos traços de tinta a folhagem de leite morno

MENINA II – a sombra do limoeiro cava seu ninho na ponta do punhal enfiado até o coração no ácido escondido sob o campo de medusas do acordar

MENINA  I – sombra morna pendida da bora bebida na fonte

MENINA II- salga de anchovas das largas estradas da lembrança cortada em picadinho sobre o mármore coberto de grafites de tantas auroras abandonadas ao telefone das tacheias de cegos rouxinóis

MENINA IV-dedos leves da noite cantando gota a gota seus colares de orvalho

MENINA I- e cravada em cada estrela a harpa de cada folha tirada do vestido nadando nas dobras dos carrosséis iluminados por fogos extintos como de dia

MENINA II – esmeralda cheia de pimenta-negra gota de cera fervente caída no olho espantado da noite

MENINA IV- grande pérola do oriente apanhada pela tarântula

MENINA I- circunferência aberta ao riso

MENINA II- alegria  louca dos leques erguendo voo de pombas sobre o azul da bochecha

MENlNA I – abrindo o silencio da talhada de melancia gelando a hora arrancada moribunda das unhas bicos e garras do azul acidulado riscando os traços de pena do balcão de caniços fixado em bandeirolas  à música saltando de pés juntos sobre a cama posta nos bastidores

MENINA II  (mergulhando no lago e cantando) – silêncio de rosa silêncio de melão silêncio de alteia silêncio de carvão rosa de silêncio rosa de melão rosa de silêncio de carvão de rosa de rosa de rosa de rosa e branca papoula  e a casa a mosca sobre a manga verde de seu vestido malva de grandes bolas  limão chapéu de andorinha sapatos de sapo cinturão de cobra belo amarílis peras figos e pêssegos laranjas limões ar fresco das montanhas e grande monte de velhos babacas e ora pro nobis que lhes dizem alo e lhes mostram o rabo grandes porcos e porcas e seus porquinhos todos alados  enchem o lago – as meninas dançam e cantam em coro a canção que a menina II cantou a princípio sozinha – dois ou três vezes

imobilidade – grande silêncio

Pano – Fim do 5° ato.

foto7

6° ATO

Na horta

Sob uma grande mesa as quatro meninas sobre a mesa um enorme buquê de

Flores e frutas num prato – alguns copos e uma jarra – pão  e uma faca uma enorme serpente se enrola numa das pernas da mesa e sobe para comer as frutas morde as flores o pão e bebe na jarra

AS QUATRO MENINAS lendo um livro -”a vida de vida à vida de vida tão vida a vida pela vida de vida tão vida de vida a vida a morte à morte tão morte à morte de vida a morte tão vida tão morte a vida a morte para a vida de vida aromática escada fincada nas ondas do azul em quadrados luminosos em corbelhas aveia louca colorário opalino acidulado em chamalotes e guirlandas aos suaves impasses dos festões luminosos e pontilhados olhares músicos revistos tão atualmente revelados aos rasgões – orgasmos de asas metodicamente dissolvidas em bailes e procissões unguentos e cavalgadas – a porta aberta do esquecimento batendo contra o céu seus charcos fétidos – a barra do vestido rasgado limpando os vidros besuntando o monte de revela contidas na taça quebrada rompendo o aroma em frágil castelo de cartas os punhos fechados arranhando o vidro do espelho – simulacro justificado pela enorme soma a pagar da qual eis aqui um detalhe o vestido todo de desejos festonados de ouro e de jasmins todo de pérolas cintura de amarílis costurada com fios de diamantes branca aIface gota a gota regada de estrelas grande buquê de fogos no Pont-Neuf à noite pelas 11 horas do dia 14 de julho mandíbula serrada  com os ferrolhos do lagarto preso pela doçura das asas balbuciantes da borboleta noturna convulsionando os braços no creme da noite diluída no mármore fervente cantando de todo comprimento sua litania à passagem da isca grande monte de cebolas de berinjelas de pimentas de melões e de figos timo rosmaninho robalo rascassos enguias alho vestido de lua com grandes pés de esmeralda vestido branco de nuvens vestido de azul vestido feito de grandes troncos de árvores nogueiras carvalho mogno pau-de-ferro ébano tocador de castanholas pau-rosa e limoeiro pé de alcaçuz e pé de panamá limpo para lavar”

MENINA II:- a rosa do cravo ri com todos os dentes da história ela escuta e já refletiu sobre as consequências finais dos fios trançados tão finamente para fazer a tela e tábua rasa de toda ira contida nas tão longamente esperadas auroras

MENINA I- tudo se acende meu vestido de fogos de São Joao rabisca em minhas mãos seus horóscopos e dá de beber suas espadas aos rebanhos de cabras que parem na grama molhada

(um verdadeiro balé de formigas aladas enche de alto a baixo a cena disputando a rainha em fantásticos torneios)

MENINA IV- carvão ardente alga em flor de lis ondas de sangue músico de pesados riachos pendidos dos fios elétricos em escamas

MENINA IV- mão arrancada da face caindo a pique em flor de acanto ao Iongo do braço mergulhando por inteiro seu lote de sarças de Ianças de alabastro as caricaturais harmônicas quebraduras da aparente ferida feita de improviso pelo branco lilás untando na ponta do caule a singular aparição bebida até a lia no coração do mármore escondido atrás da máscara pintada cor da carne

As quatro meninas apanham  a serpente e servindo-se dela como se fosse uma grande foice dão grandes golpes no ar sobre as formigas volantes e as abatem por trás da horta passam alguns rapazes tocando acordeon e cantando  “o vinhozinho branco que se toma sob a pérgola” entre grandes risalhadas a noite cai – estrelas – a lua – todos os astros – grilos – rãs – sapos ­ algumas cigarras –rouxinóis – vaga-lumes – um intenso perfume de jasmim enche a sala e ouve-se ao Ionge o latido de um cão – depois – toda a horta se aclara cada folha é uma chama de vela – cada flor um lampião de sua cor cada fruta uma tocha e as fitas dos ramos das árvores são de luzes de diferentes chamas – as estrelas cadentes tombam do céu em arpões e fincam suas pontas no chão que se abrem em rosáceas e em taças de fogo – as quatro meninas brincam de pular carniça e riem riem e cantam

Purê de batatas purê de lentilhas purê feijão purê de favas e purê de cebola

Viva o creme o creme de castanhas o molho de vinagre a maça agridoce a couve ao creme éclair de chocolate torta de mirabela gengibre bananas melão figos e pêssegos damascos e passas

(deitam-se no chão e adormecem) árvores flores frutos por toda a parte o sangue corre de fazer poças e inunda a cena empurrando a terra e formando um canteiro quatro grandes folha brancas envolvem as quatro meninas por transparência e ao virarem aparecerão sucessivamente escritas em cada uma das folhas MENINA I-MENINA II-MENINA Ill-MENINA IV

escuridão completa

em seguida a luza cena – (enchendo-a totalmente)  interior de um cubo inteiramente pintado de branco no meio ao chão um copo cheio de vinho tinto

 

Pano – Fim do 6°ato.

FIM.

Sexta-feira, 13 de agosto de 1948 em Vallauris

GR

Creio que foi aí por 1948. Enquanto aguardava minha carteira de reservista, que me permitiria procurar o meu primeiro emprego, eu costumava, toda manhã, passar um tempo na Biblioteca Nacional, no Centro, onde lia de graça os livros que não podia comprar. Vinha do Andaraí, de bonde, e descia no Largo da Carioca, no então chamado Tabuleiro da Baiana, ponto final da linha, bem em frente à maior livraria do Rio na época, a Freitas Bastos, em cujas vitrines eu “namorava” os grandes lançamentos literários de então. Era uma passagem quase obrigatória e, de tanto perambular entre os balcões de livros, acabei conhecendo um funcionário de nome Edgar Rezende, com quem trocava opiniões sobre os autores da moda. Edgar havia publicado em 1945 uma antologia poética, “Os mais belos sonetos brasileiros (florilégio)”, de que eu adquirira um exemplar a preço de retalho, ocasião em que trocamos algumas palavras que me permitiram uma aproximação  posterior.

A dois quarteirões dali estava a Biblioteca Nacional, meu templo, onde passava praticamente toda a manhã empenhado nas leituras mais variadas. Já empolgadíssimo com o estudo de línguas, descobri uma edição de luxo das obras completas de André Gide, feita na Suíça, em encadernações artísticas, com belas ilustrações e papel de gramatura expressiva. Devo ter lido praticamente todo o Gide naqueles dez ou doze volumes de capa dura, e, tendo-me finalmente decidido sobre o que achava o suprassumo do autor, comecei a copiar num caderninho (que tenho até hoje), o “Le Retour de l’ enfant prodigue”, com a secreta aspiração de traduzi-lo. um dia.

Numa dessas idas à Biblioteca, e ao passar como de hábito pela livraria Freitas Bastos, fui encontrar o Edgar Rezende um tanto atarantado, circulando meio perdido entre os balcões do fundo. Quando me viu, aproximou-se de mim e, apontando lá na frente, um senhor que parecia compulsar alguns livros expostos, me perguntou: “Sabe quem é?”, insistindo com um olhar significativo. Antes que eu esboçasse a menor suposição, foi logo dizendo: “o Rosa, ele mesmo, o Guimarães Rosa!” Olhei na direção apontada e fiquei paralisado.  Só o nome dele já era para mim uma espécie de palavra mágica, de abracadabra, de abre-te sésamo para o mundo encantado da literatura. Meu ídolo, meu deus, minha entidade inatingível! Imagina agora a possibilidade de vê-lo, de estar fisicamente na sua presença?! Rosa tinha estreado em 1946 com “Sagarana”, que eu havia comprado e lido a grande custo (monetário e intelectual) e desde então seu nome passara para mim a figurar num mundo à parte, tornando-se uma dessas figuras de culto postas além e acima do comum dos mortais.  Fiz tudo para não acreditar no que ouvira, pois a timidez que me avassalava naquela época não me permitiria sequer ficar na presença do “mago”, quanto mais em tentar pronunciar-lhe o nome.  Mas o Edgar insistia: “Você, que gosta tanto dele, que acha “Sagarana” o maior dos livros, por que não aproveita para pedir-lhe autógrafo”? Tremi, quis escapar, fingir que não ouvira. Mas o Edgar não queria que eu perdesse a chance: “Vai lá, fala com ele, leva o livro, pede um autógrafo. Vai ser difícil encontrar uma oportunidade melhor. Ele está sempre rodeado de muita gente”. Algo insistia comigo para que eu quebrasse a timidez. Estava quase disposto a ir, quando a realidade me chamou de volta. “Mas, Edgar, como vou pedir autógrafo sem ter o livro aqui comigo”? Ele não se deixou esmorecer. ‘‘Toma outro aqui, eu te empresto, depois você me devolve o seu”. Era bom demais, irrecusável. Tomei o livro e mais um hausto de coragem e me dispus a caminhar em direção ao ídolo.

No momento em que me aproximava, devo dizer um tanto lentamente demais, uma senhora entrou na livraria e logo reconheceu o autor, avançando espevitada para ele. Aliás, reconhecer Rosa, o famoso Guimarães Rosa, era a coisa mais fácil nesse então: ele usava gravata borboleta, o que o distinguia não só da plebe ignara quanto de qualquer outro de seus pares literários. Parei de súbito, a poucos metros dos dois, livro na mão, ouvido alerta para saber o que diziam. Não vou tentar reproduzir aqui a conversa, pois não me lembraria das palavras exatas, mas procuro, ao menos, estabelecer o tom:

Senhora espevitada: “Ah, como vai a Sussuquinha? Soube que a pobrezinha andou dodói”.

Autor consagrado: “A mais não poder! Tive que levar a coitadinha ao vetê”.

Ali fiquei por um instante ouvindo, meio incrédulo, o longo e penoso diálogo, quando percebi, meio encabulado, que a conversa transcorria em torno de uma cachorrinha de propriedade do escritor, ao que me pareceu, bastante conhecida de todos os seus leitores, com a minha desonrosa exceção.

Não tenho animais de estimação, mas acho perfeitamente cabível que alguém sinta por eles um grande apego e os trate com carinho. Sim, certo, que alguém o tenha, que qualquer outra pessoa o faça, mas, pelo amor de Deus, todo mundo menos o meu ídolo, o escritor acima de qualquer suspeita, que só devia dialogar com os deuses…

Mais duas ou três frases e já o livro me pesava na mão, paralisava a indecisa caminhada, insistia solene na desistência. Dei meia volta, meio trôpego em direção ao Edgar e lhe devolvi o livro para sempre virgem.

“Desculpe, mas não tive coragem”!

 Edgar sempre atribuiu o fracasso da entrevista à minha timidez e creio que jamais suspeitou da influência decisiva da Sussuquinha.

Ney BarrosoMeu querido irmão, o Prof. Ney Julião Barroso, completaria hoje 84 anos de existência. Aquele menino arteiro lá do Herval, que me seguiu em mil e uma travessuras (a travessia do rio Turvão em cima de uma escada que nos serviu de ponte, o tiro com a garruchinha de chumbo que resultou num castigo de horas ajoelhados em caroços de milho na porta da farmácia, a fuga do cão Montenegro que levamos para um passeio na capoeira do Brazinho e que de repente sumiu, etc), aquele mesmo, pois ele se tornou uma figura respeitável no meio docente da então Capital do país, onde chegou a Diretor-Geral do campus Tijuca II, do Colégio Pedro II, no período 1992/2000. Amado por seus alunos, a eles ministrava lições de geografia viva, levando-os a conhecer in loco formações rochosas, grutas, terrenos alagadiços, plantações de cana e café, etc por este Brasil afora. Suas excursões em ônibus pelo interior do país, principalmente por Minas Gerais e, em especial, pelas terras vermelhas de Ervália (nossa terra), tornaram-no um inovador em matéria de ensino factual e exemplificativo. Mesmo depois de aposentado mantinha estreito contato com seus colegas do Pedro II e assessorava, por prazer e vocação, os antigos colegas que vieram a distinguir-se na administração daquele educandário. Inconformado com os rumos que a nossa política e a nossa economia estavam tomando, tornou-se assíduo colaborador da seção de Cartas do Leitor, d’ O Globo, que sempre publicava suas opiniões com grande destaque editorial. Além disso, defendia seus pontos de vista, sempre voltados para o bem público e a dignidade administrativa, em seu blog denominado “falandogrossodoherval”, no qual ainda hoje o leitor poderá encontrar matérias e temas de permanente atualidade.

Ao evocar hoje, no que seria o seu aniversário, não posso deixar de prestar meu preito ao grande educador, embora veja também, ao longe, a figura sorridente daquele zureta (frase de nossa avó) que percorreu comigo os imprevistos caminhos da infância.

condicao

Publicado precisamente há oitenta e três anos (1933), que impressão poderá causar no leitor de hoje este livro que tanto impacto provocou nos leitores de seu tempo? Com a vulgarização da epopeia através do cinema e da televisão, que força espantosa poderá revestir esta ficção para despertar ainda, nos dias atuais, um sentimento de grandiosidade, de sublime heroís­mo, de desprendimento humano — enfim, de épico — que fez desta novela a ruidosa ganhadora do prêmio Goncourt daquele ano?

       A garantia maior de que este livro representa um dos gran­des romances de nossa época é precisamente a sua total capa­cidade de permanecer legível e empolgante até hoje, de ter en­frentado todas as grandes transformações político-sociais deste fim de século e milênio sem perder a vitalidade de sua narrati­va, transformando-se por isso mesmo no que chamamos de um clássico. Romance engajado, sem ser embora um romance de tese, procurando apresentar sob ângulo favorável uma ideolo­gia hoje esvaziada, nem por isso viu perder ou diluir-se sua qualidade literária, sustentada por um estilo novo à época mas que ainda se revela válido e atuante nos dias atuais.

       O olhar crítico, não raro sardônico, que poderia ter o leitor de agora em relação à figura de Malraux, analisado dentro de uma perspectiva que abrange toda a sua vida (com suas tran­sições de herói e aventureiro para o político e o burocrata) — e não apenas o momento glorioso em que compôs o livro — não consegue, nem mesmo assim, embaciar os reflexos lumi­nosos de sua obra. É certo que nela podemos achar, diante das evoluções sofridas durante todos estes anos pelo tema princi­pal — a revolução chinesa de 1927 — que muito da “ideolo­gia” explicitada no romance há de soar pelo menos ingênua, para não dizer meramente romântica. Malraux escreve seu li­vro quando a revolução estava em processo e ameaçada, mas, apesar de depois traída e desfigurada, ela hoje aparece como triunfante e estabelecida, malgrado todas as contorções de crueldade e prepotência que em geral as revoluções trazem no seu bojo. Terá esse comunismo do plano real da China de hoje algo a ver com a idealização que dele fazem os persona­gens de A Condição Humana? O próprio Malraux, numa en­trevista de 1973, declarou que “o ideário e a ação do livro es­capam forçosamente a seu autor”, sabendo que seu romance, com o passar do tempo, não poderia ser sentido da mesma maneira que o fora por ocasião de seu aparecimento. É certo que a história, em seu desenvolvimento, ensejou novas pers­pectivas, que o ponto de vista dos leitores mudou. Como bem assinala Alain Meyer em seu comentário ao livro, o romance foi escrito “em cima de uma situação”, que evoluiu, mas a vida de A Condição Humana prossegue. Isso, em vez de tornar o livro perempto, o enriquece. Daí a necessidade de lê-lo ao mesmo tempo no passado e no presente.

      André Malraux é um desses raros autores à maneira de Rimbaud que conseguiram realizar uma obra-vida, passando para o campo da realidade — ou vice-versa — o seu ideário ar­tístico. Sua posição política será necessariamente a de um ho­mem de esquerda, embora não radicalizada a ponto de assumir um comprometimento cego com o partido comunista. Seu es­pírito, sempre lúcido, permanece livre para discordar, para se opor ao banimento de Trótski, para se rebelar contra o regime de ferro de Stálin. Antifacista convicto, parte para a Espanha, onde forma e dirige uma esquadrilha de aviadores estrangeiros junto às forças republicanas contrárias a Franco. Durante a in­vasão alemã da França, na II Guerra Mundial, atua como maqui, comandando a brigada Alsácia-Lorena. Mais tarde, une-se ao general De Gaulle, de quem será um companheiro fiel até o fim. Eis aí, muito esquematicamente, em flashes distintos, como retratos de épocas diversas num álbum aberto ao acaso, alguns dos momentos culminantes desse que foi uma das maiores per­sonalidades — para não dizer personagens — de nosso século. Nos anos 30, era a imagem perfeita do intelectual dublê de ho­mem de ação; o aventureiro dotado de extraordinário senso crí­tico, profundo conhecedor de arte e de literatura. Chegou mes­mo a criar um “tipo” físico, cuja aparência era imitada pelos jovens, como os de hoje imitam os superstars do esporte ou da música pop – – mecha de cabelo rebelde, cigarro nervoso nos lábios, olhar febril e inspirado; e, a partir da Guerra de Espanha, o blusão ou o macacão de aviador. Mais tarde, imitaram-lhe o estilo literário, à exaustão, podendo-se dizer que Albert Camus foi o resultado vitorioso na suplantação do modelo. Facilmente constatamos que tudo isso mudou, que o artista de nossos dias de desconstrutivismo está mais propenso à inação, cultor do álcool, das drogas e da promiscuidade, com tendência a produ­zir necessariamente uma literatura de anti-heroísmo, de. anti­sublimidade, de antiépico enfim, mergulhado que está nas par­tes mais lodosas e individualizantes desse ser que é o homem moderno, condenado ao niilismo e à autodestruição. Dentro dessa ótica é muito difícil encontrar um lugar para este livro que é a exaltação da “amizade viril”, da ação social, da tentativa de restabelecimento da dignidade para o ser humano. A menos que o vejamos como essa luz que sempre se espera nas situações desesperadas.

       Em 1931, Malraux, em companhia de sua mulher Clara, foi comissionado (e financiado) pela editora Gallimard para fazer uma viagem de volta ao mundo com a finalidade de reunir ele­mentos para uma exposição destinada a mostrar o relaciona­mento do mundo grego com o budismo. O itinerário incluía a Pérsia, o Afeganistão, a índia, Cingapura, Cantão, Xangai, a Mandchúria, o Japão e Nova York, etapa final onde os Malraux tiveram que esperar dez dias pelo envio de fundos por parte dos mandatários, que afinal lhes mandaram um bilhete azul, desti­tuindo-os da missão. Em agosto-setembro daquele ano, o casal se encontra em Xangai, donde segue em visita à China central, antes de partir para a Coréia e o Japão. Da China, até aquela data, Malraux só havia conhecido Hong-Kong, e apenas no âmbito da concessão britânica, numa breve visita em abril de 1925. Nessa segunda passagem por lá, conta sua mulher, Clara Malraux (Voici qui vient l’été, Bernard Grasset, 1973) que “nesse ano da graça de 1931, antes de seguir para o Japão, depois de haver passado pelas índias frutuosas, penetramos na China, pela primeira vez Xangai, depois Cantão. Em Xangai sentamo-nos diante do mais comprido balcão de bar do mundo (Morand dixit), eu para beber um rosé e descobrir que não há nada me­Ihor, depois de passarmos um mês sem engolir sequer um frag­mento de verdura, do que mastigar talos de aipo cru, André para beber não sei o quê e sem dúvida comer batatas fritas. No cais fervilhavam riquixás, autos e bondes, fumaça de carvão, de pe­tróleo, excrementos, suores de brancos e amarelos se casavam. De tempos em tempos, um homem se esgueirava, rápido, en­tre os veículos em disparada, na esperança de que alguma roda passasse em cima do corpo invisível do mau espírito que o ator­mentava. Cantão, onde transcorre a ação de Les Conquérants, Cantão, semelhante e diversa do quadro que `ele’ dela fez. For­ça do mito embalador do irreal, tremendamente maior que a da realidade. Eu, só via a realidade, uma pequena realidade fervi­lhante, mais parecida a um fogo-fátuo que a uma pítia; brinca­lhona, um tanto maliciosa, admirativa também, saltitava em tor­no a `ele’. `Foi mesmo aqui que você teve tal gesto, aqui que você disse isso ou aquilo, que sua iniciativa lhe permitiu…?’ Ele se irritava um pouco. Outros, sem dúvida teriam se irritado bem mais. Um ou dois dias mais tarde, fez-me saber que seu próxi­mo romance se transcorreria ali naqueles lugares e me pergun­tou o que eu achava de A Condição Humana como título.”

       O livro começa no dia 21 de março de 1927, ou seja, relata “acontecimentos” ocorridos havia quatro anos. Malraux conse­gue, no entanto, dar-lhes um tom de reportagem “ao vivo”, como se participando fisicamente da ação. Fantasista até a sofreguidão, apesar da realidade quase ficcional em que vivia, ele sempre ali­mentara uma “biografia paralela”, uma espécie de vida “em cai­xa dois”, onde se atribuía desempenhos e ações que só se passa­vam em seu wishful thinking. antes de A Condição Humana, André Malraux havia conquistado seu espaço literário com as narrativas de La Tentation de l’Occident (1926), Les Conquérants (1928) e La Voie Royale (1930), mas em todas elas o escritor ainda se mostra monocórdio, a ação centrada sempre sobre persona­gens quase intercambiáveis, que pouco se diferenciam uns dos outros. Embora nos dois últimos já se encaminhe para o roman­ce de ação, as idéias e reflexões ainda sufocam o desenrolar da trama. Com A Condição Humana, Malraux atinge finalmente seu momento “polifônico”, ou no dizer de Pierre de Boisdeffre (em seu estudo André Malraux, testemunha do século XX, in Mé­tamorphose de Ia littérature, 1963), “por fim seus personagens — e nisto reside a verdadeira conquista literária — vão indivi­dualizar-se: Clappique, Ferral, Gisors são seres plenos, vivos, au­tônomos, que nossa memória não pode confundir.”

       A narrativa reveste-se de um tratamento tão “cinematográfi­co” que quase pode ser lida como um script. Não seria absurdo afirmar que Malraux tivesse, desde o início, a intenção de trans­formar seu romance em filme, ou a de escrever um romance para ser filmado, como procede a maioria dos autores de best sellers modernos. Em todo caso, a técnica era novidade à época, o que assegurou o caráter de ineditismo da obra. A “tomada” inicial do livro mostra o terrorista Tchen no ato de assassinar um trafican­te de armas num quarto de hotel. A cena transcorre a princípio em completo silêncio. O homem está dormindo num somiê sob um cortinado pendente do teto e Tchen hesita entre atingi-lo com sua arma através do cortinado ou erguer o cortinado para atingi­lo. O olho do autor (ou da câmera cinematográfica) faz um close do pé da vítima que parece mais vivo que todo o corpo adormeci­do. Mas não é só o efeito câmera que domina a cena – o autor provê igualmente a iluminação (“A única luz provinha do edifício ao lado: um grande retângulo de eletricidade pálida, cortado pe­las grades da janela, umas das quais riscava a cama precisamente por cima do pé como para acentuar-lhe o volume e a vida” ) e a sonoplastia do momento (“Quatro ou cinco buzinas soaram a um só tempo”). Segue-se a descrição do assassínio cota o mesmo realismo gritante dos filmes noirs atuais, a lâmina que atravessa o corpo, o corpo rechaçado pelas molas do colchão, a mão parali­sada empunhando a arma. E não falta nem mesmo a presença do imprevisto surreal dos filmes impressionistas alemães com o apa­recimento súbito das orelhas de um gato projetadas contra a pa­rede do quarto. Gato que Tchen persegue até a varanda e de re­pente-.grande angular- as luzes da cidade lá embaixo, a volta ao mundo das pessoas vivas. Impossível não se ouvir a música incidental irrompendo com toda a força…

       Há outra cena que se tornou um verdadeiro clichê cinema­tográfico: Tchen, após assassinar (`Assassinar não é só matar”, diz ele para si mesmo) o traficante de armas, vai à sua célula comunicar o resultado aos companheiros que o esperam: “Uma loja cheia de discos. cuidadosamente arrumados, com um vago aspecto de biblioteca municipal; depois os fundos, um quarto espaçoso e nu, e quatro camaradas, em mangas de camisa. Ao se fechar a porta, a lâmpada oscilou: os rostos desapareceram, reapareceram: à esquerda, rechonchudo, Lu-Yu-Dhuen; a ca­beça de boxeador arrebentado de Hemmelrich, cabelo raspa­do, nariz partido, ombros caídos. Ao fundo, na sombra, Katov. A direita, Kyo Gisors; ao lhe passar por cima da cabeça, a lâmpa­da marcava fortemente os cantos caídos de sua boca de estam­pa japonesa; ao se afastar, deslocava as sombras e aquele rosto mestiço parecia quase europeu. As oscilações da lâmpada tor­naram-se cada vez mais curtas: as duas faces de Kyo reapare­ciam a cada vez menos e menos diferentes uma da outra “. Ou ainda esta, repetida até hoje: “A rua deserta. Um riquixá, ao longe, atravessou-a. Um outro. Dois homens saíram. Um cão. Uma bicicleta. Os homens viraram à direita; o riquixá atraves­sou. Rua deserta de novo; só, o cão…” E que pode ser mais cine­matográfico do que a fuga de Clappique, disfarçado de mari­nheiro e empunhando uma vassoura a subir pela escada do navio? Um momento inesquecivelmente chapliniano!

       Era natural que, após o êxito do romance, Malraux buscas­se sua transposição cinematográfica. Em 1934, quando foi a Moscou participar de um congresso de escritores, teve oportu­nidade de visitar a Mezrabpoumfilm, onde lhe prometeram es­tudar uma versão cinematográfica do livro. A adaptação seria feita por Joris Ivens, o metteur en scène e documentarista holandês, ou pelo cineasta soviético Alexandr Dovchenko, e o diretor nada mais nada menos que Sergei Eisenstein, com música de Dimitri Chostakóvitch. Mas o projeto não avançou: houve interferência da censura stalinista, severos cortes foram impostos ao argu­mento. Eisenstein confidenciou a Malraux: “Quando fiz o Potemkin, deixavam-me em paz porque eu era desconhecido e me davam seis semanas para fazer o filme, e se a coisa não des­se certo, pior para mim. Eu tinha 27 anos. Mas agora não vou pedir uma audiência a Stalin, porque, se ele não compreender meu ponto de vista, só me restará o suicídio.”

       O desejo de transformar A Condição Humana em filme po­rém não se arrefeceu com esse primeiro insucesso. (Minta e cinco anos mais tarde, outra tentativa: a MGM interessou-se pelo pro­jeto, que teria Carlo Ponti como produtor, com Fred Zimmermann na direção. Mas fracassa de novo.) Porém, Malraux teve que se contentar com a proposta de Meyerhold para uma adaptação tea­tral do romance, com música incidental de Prokofiev. Mas nem mesmo essa chance ocorreu. A peça só foi estreada vinte anos de­pois, em dezembro de 1954, no Théâtre Hébertot, numa adapta­ção de Thierry Maulnier, com encenação de Marcelle Tassen­court, que representou igualmente o papel de May. Evidente que um argumento em que a ação predomina sobre a palavra não poderia resultar numa peça de sucesso. As digressões filosóficas de Gisors, as perorações proselitistas de Tchen, as falas amargas de Kyo tornaram-se mero palavrório sem o sustentáculo da in­tensa ação em que elas se integram. Malraux, que chegou a rodar cenas de um filme na Espanha, com roteiro tirado de seu livro L’Espoir (1938-39), morreu (1976) sem ver sua obra-prima trans­posta para o cinema. Parece fatalidade que o mais cinematográfi­co dos livros não tenha encontrado até hoje o seu realizador.

      Mas a grandeza da narrativa não se fundamenta apenas em sua estrutura cinematográfica. Malraux aliou a ela um estilo tenso, de imagens fortes e percucientes, com frases extrema­mente trabalhadas às vezes no intuito de levar o leitor a um misunderstanding, que só se esclarece após uma releitura aten­ta. Utiliza uma pontuação muito pessoal e um sistema de no­tação dialogal que mistura aspas e travessões nem sempre de maneira canônica. Na tradução, esforçamo-nos por manter essas características. Contudo, o que ressalta eloqüente é to­mar como enredo o instante mais drámatico da História de seus dias, trabalhá-lo como um depoimento pessoal, uma ex­periência vivida, dar-lhe um tom de reportagem fragmentária e transfigurá-lo à força da inteligência e profundidade dos diá­logos. Malraux, testemunha do mundo moderno.

       Mais tarde, em seu livro Les Voix du Silence, de 1951, irá dizer: “A arte não tem que copiar o mundo, mas recriá-lo.” Assim entendido, temos que A Condição Humana, nascida de uma tentativa de transformar a História em ficção, acaba por transcender a própria História, o que nos permite hoje ler o livro abstraindo a existência real e passada de uma revolução chinesa em 1927 para senti-lo como uma narrativa atemporal em que predominam comportamentos arquetípicos talvez oriundos das tragédias gregas.

O Malraux que havia mitificado a arte é hoje uma teste­munha do futuro.

barco-verde

Um amigo de Ponte Nova-MG, que está fazendo pesquisa literária em antigos jornais daquela cidade, me informa que em dezembro de 1952 eu inaugurava no Jornal do Povo de lá uma seção denominada Bilhete do Rio com a crônica intitulada Sylvia (naquela época eu ainda escrevia o nome dela com y). Na verdade tratava-se de uma rentrée, pois já bem antes eu colaborava no suplemento literário daquele jornal, sob a égide de Tony Brant Ribeiro, que conseguira fazer com que um modestíssimo encarte de literatura da província se tornasse lido e elogiado por grandes escritores nacionais.

Em 1952, havia conhecido Sílvia, que viera visitar uma de suas irmãs, a bem dizer minha vizinha. Eu trabalhava (meu primeiro emprego) no Santos Dumont e, vindo de ônibus da Tijuca, saltava na Esplanada do Castelo e caminhava pela Avenida Beira Mar até chegar ao aeroporto. Completamente apaixonado, vinha sempre divagando sobre aquele amor que me parecia afinal definitivo, mas que estava sofrendo constantes interrupções principalmente pela minha então impossibilidade de assumir um compromisso mais sério. Um dia, no caminho à beira mar, dei com um barco que estava sendo construído no trapiche, e que tinha gravado na proa precisamente o nome da minha namorada. Associar esse barco à situação que eu estava vivendo foi quase fatal: um dia o barco estaria pronto, entraria nas águas do mar e eu nunca mais o veria ali no meu caminho. Mas, eis que o final feliz aconteceu: em 1956 nós nos casamos e em maio deste ano completamos 60 anos de união! 

bilhete-rio

“Sílvia” era um grito verde no olhar vazio da paisagem. Este caminho, muitas vezes percorrido, que me leva ao aeroporto, já perdeu para mim o encanto dos primeiros dias, quando, extasiado, contemplava a madrugada lentamente diluir-se na vastidão do mar. Agora, já se familiarizaram olhos e percepção íntima, e esta manhã que vejo – escama e ouro líquido – escorrendo pelas águas, transfigurando as coisas, não consegue despertar o velho entusiasmo, propenso à evocação contemplativa e lírica. Mas “Sílvia” raiou assim como a fuga ao diuturno, a eterna renovação do cotidiano. E dizer que possivelmente já estivesse ali há tempos, e eu a passar de olhos fechados ao que pensava sobejo e gasto, não reparasse na estranha fascinação que se propaga…

O trapiche inclina-se para o mar; preso a ele, de ambos os lados, protegido de escoras, o casco emerge alguns palmos da proa na amurada, o suficiente para deixar, faiscantes ao sol, as seis letras do nome “Sílvia” aparecendo. É um pequeno iate em construção, mas há que deitar-lhe os olhos de um devaneio esquecido nos corredores da infância, e navegar, pois “Sílvia” é o roteiro para as ilhas sonhadas, a mágica peregrinação às terras desconhecidas.

Associo esse barco ao meu destino. O pressentimento de que, amanhã, ao chegar, não o encontre mais ali, perturba em mim a íntima estruturação de uma felicidade arquitetada a custo; por isso, enredo-o, firmemente o quero preso ao trapiche, encrustado entre as pedras, fora de seu elemento de mobilidades naturais. Dele me aposso à força da contemplação e do silêncio, sem os ditames do egoísmo, procurando mais me conformar a ele do que fazê-lo configurar-se a mim. Ocorre, em paralelo, que, uma vez me alvoroçando na pretensão da posse, empresto-lhe inadvertidamente as minhas tintas, meus cordames e escotilhas, supondo embelezá-lo para mim, quando, na verdade, acelero com isto o seu acabamento e a consequente escapatória. A minha insegurança cresce cada vez que, pela imposição de meu desejo de permanência, venho sondá-lo, ausculto-o e me dou conta de que o verde se carrega em mãos de tinta sucessivas, de que os desvãos se locupletam e as corredeira funcionam bem.

Avança a fase final do acabamento: há uns poucos reparos que têm sido protelados pela tremenda firmeza de minha vontade em lhes frustrar a conclusão – de modo que tudo permanece numa flutuante dependência, que é a medida áurea entre a ancoragem permanente e a fuga terminante para o mar…

Por ventura não me acordo de que, incrementando em mim a permanência de “Sílvia”, estarei associando-o a esse mesmo cotidiano que me enfara? Não me ocorre a ideia de que esse desejo de constância implica uma dependência cada vez maior do meu enfraquecido anseio de mobilidades? E, se houve uma corda interior estremecida pela inflexão do nome, um olhar magnetizado pela exaltação do verde, não pode dar-se o caso de que a vibração se desvaneça, de que se desbote o colorido? Permanece realmente o impulso a acelerar-se no correr dos dias ou seu movimento se desloca “à contre cœur”? Mas a desconhecida tranquilidade que me vem de o ver ainda, no trapiche, a cada instante, subtrai essas possibilidades e volatiliza o enevoado das cogitações. E o certo é que, dos meios que possuo, já empreguei todos – da retenção pelo esforço físico à inconcebível fraqueza das lágrimas – para que o bojo não resvale para o mar e a quilha não demande as distâncias do ignoto. Por outro lado, constrange-me a possibilidade, última, de que se deixe ficar no trapiche, com o mar tão perto, sonhando tanto — e sem roteiros. Deve pertencer a alguém, destinar-se a algum viajante que desconheço ou que, como eu, lhe vive rondando as proximidades. Seria justo empregar tanto esforço mental – o verde-sonho, o azul-quimera, a mastreação de tantas fantasias – e desejar que tudo isto se redunde num adeus de lenço branco?! Ou, calçá-lo tanto, escorá-lo dessa forma pela satisfação estúpida de o ver, aos poucos, na inutilidade da fixação, parado e sem destino, perecer como um peixe que se lançou na areia?!

Decerto a solução reside na impossibilidade aquisitiva de o ter para mim e navegá-lo em minhas águas; mas, desde que a única solução descamba no golfo de uma impossibilidade, o dilema persiste, atormentando, e grave.

“Sílvia”… um grito verde no vazio da paisagem: resta saber se de angústia ou de esperança.

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Já apresentamos aqui várias semelhanças literárias, tais como a de Machado de Assis e William Blake (Ainda Blake e Machado: uma curiosa coincidência) 04/09/2010 veja aqui, entre versos de Rimbaud, Vinicius e Fernando Pessoa (Duas semelhanças curiosas) 13/03/2016 veja aqui e entre poesias de Rimbaud e Castro Alves, 16/12/2013, veja aqui.

Pois temos outra, agora em prosa: 

A parábola do Filho Pródigo, originalmente em LUCAS 15-16, inspirou o escritor francês André Gide em 1948 a escrever um traité (relato), um tanto simbólico em que insinuava sua apreensão em converter-se ao catolicismo, o que era esperado por boa parte de seus amigos. Gide faz o pródigo retornar depois de “uma longa ausência” e é recebido em casa festivamente, mas em seguida terá quatro conversas com seus familiares (a reprimenda do pai, a reprimenda do irmão mais velho, o diálogo com a mãe e o diálogo com o irmão mais novo, a quem ajuda a fugir de casa na esperança de que este consiga alcançar o objetivo a que ele teve de renunciar.)

O mesmo relato bíblico terá certamente inspirado o nosso escritor brasileiro Raduan Nassar a publicar em 1975 seu livro Lavoura Arcaica, um êxito literário que levaria seu autor a obter recentemente o prêmio Camões. Também aqui temos os diálogos com os familiares, inexistentes no relato bíblico, só que com uma pequena variante: Raduan faz o pródigo regressar a casa, trazido pelo irmão mais velho, enquanto em Gide ele regressa, conforme na Bíblia, premido pela fome e o desencanto. O que mais nos chamou a atenção nessas coincidências estruturais, inexistentes na parábola de Lucas, foi a cena final em que tanto o Pródigo gideano quanto o de Nassar entram no quarto do irmão mais novo, que se recusou a compartilhar de sua festa de acolhimento.

Temos em Gide: 

Le prodigue, une lampe à la main, s´avance près du lit où son frère puiné repose, le visage tourné vers le mur.

(O pródigo, uma candeia à mão, se aproxima do leito onde repousa o irmão mais novo, rosto voltado contra a parede.) (grifos nossos)

ANDRÉ GIDE – LE RETOUR DE L´ ENFANT PRODIGUE – Gallimard, 1948 – pág. 199

E em Nassar: 

Ao entrar no quarto, embora achando um tanto estranho, não me surpreendi vendo Lula na cama, deitado de lado contra a parede, coberto por um lençol branco da cabeça aos pés.

RADUAN NASSAR – LAVOURA ARCAICA – J. Olympio, 1975 – PÁG. 169

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