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POSFÁCIO PARA AS PESSOAS GRANDES

Antoine Jean-Baptiste Marie Roger de Saint-Exupéry, nascido a 29.6.1900, em Lyon, na França, famoso aviador civil, que se distinguiu igualmente como piloto militar durante a II guerra, tornou-se igualmente conhecido no mundo dos livros por grandes obras autobiográficas como Correio do sul (1929), Voo noturno (1931), Terra dos homens (1939), Carta a um refém (1940) e Piloto de guerra (1942).

Mas seu maior feito no mundo literário, que perdura já por três gerações, foi O Pequeno Príncipe, aparentemente uma história para crianças que logo se tornou livro de referência em todo o mundo. Durante décadas, quando se era perguntado sobre que livros se tinha lido, a resposta, indefectível, era: O Pequeno Príncipe! Como, então, uma história aparentemente infantil obteve tal unanimidade? Porque além de ser uma espécie de lenda, um conto mágico, uma distração colorida, enfim o que os franceses chamam de uma féerie, o livro encerra um repositório de exemplos construtivos da personalidade, a análise de amores e paixões, a fidelidade e a solidão, temas sem dúvida adultos, tratados com seriedade e experiência, embora num contexto de narrativa infantil.

Nascido de família nobre, seu pai era conde, Antoine passou a infância em castelos de propriedade da família. Aos 12 anos, fascinado por aviões, ludibriando os instrutores, consegue fazer seu primeiro voo, sem autorização da família, decidindo-se, a partir de então, a seguir a carreira aeronáutica. Estudante medíocre, consegue completar seus estudos secundários em 1917 e tenta se engajar na Marinha, sem sucesso. Amoroso notório, conhece, em 1918, Louise de Vilmorin, que será uma de suas grandes paixões. Mas o enlace não se verifica apesar do longo noivado, e eis que se dá a ruptura em 1923, pois a família da noiva insistia para que Antoine abraçasse uma profissão comercial, ao passo que ele, cada vez mais, se decidia pela aviação. Em 1926, finalmente, ei-lo que realiza seu sonho: ingressa na companhia Latécoère (futura Aéropostale), na qual, em companhia de Mermoz e Guiaumet, faz o transporte de correspondência entre Toulouse e Dacar, a capital do Senegal.

A companhia tem sua filial sul-americana em Buenos Aires e é ali que Antoine vai conhecer sua paixão maior, Consuelo Suncín de Sandoval, nascida em El Salvador, mulher culta, educada na França e na Inglaterra, identificada no livro como a Rosa, criatura sensível, digna de cuidados especiais como uma redoma para protegê-la do sol e um biombo para abrigá-la do vento. O romance-paixão por Consuelo será definitivo, irá durar toda a vida, malgrado as numerosas escapadas extraconjugais de Antoine, mulherengo incorrigível, principalmente para junto de sua Hélène de Vogüe, a “Nelly”, e da princesa Natalie Paley, suas outras duas grandes paixões. Esse aspecto da vida amorosa de Exupéry aparentemente se reflete até mesmo no enredo de O Pequeno Príncipe, com algumas referências mais evidentes como a já mencionada de que a Rosa se refere a Consuelo de Sandoval; de nossa parte, chegamos a imaginar que os três vulcões que existem no planeta do Príncipe bem podem representar Louise de Valmorin (como o extinto) e Hélène de Vogüe e Natalie Paley, como os outros dois, em atividades periódicas. Mas será ao lado de Consuelo que ele viverá seus últimos dias em Nova York, onde iria residir depois de 1944, com a invasão nazista de sua querida França; ela será sua conselheira literária na elaboração de O Pequeno Príncipe.    

Algumas outras referências simbólicas conseguimos vislumbrar nestas páginas inocentes dedicadas às crianças: os conselhos da raposa (que seria provavelmente a consciência amorosa do autor) que. diante de um campo de rosas, faz com que ele se dê conta de que a Rosa, a sua Rosa, é única e insubstituível e – momento culminante – a aceitação da responsabilidade absoluta de quem ama. Já a serpente representa o mal e suas tentações. Será por uma picada de serpente que o Pequeno Príncipe desaparecerá da visão do autor. Donde teria vindo a associação de serpente com a morte? Eis um símbolo que parece ter acompanhado Saint Exupéry por muitos anos. Descobrimos em seu livro Terra dos Homens (de 1939) um trecho em que conta ter feito um pernoite forçado numa pequena cidade do interior da Argentina, onde foi acolhido por um lavrador e suas duas filhas, que o abrigaram e lhe deram uma pequena ceia noturna, durante a qual o aviador percebeu que algo se arrastava pelo chão junto à mesa em que estava. Eis a narrativa: “Fez-se um silêncio – e durante esse silêncio alguma coisa sibilou levemente no assoalho… Ergui os olhos intrigado… mas a mais nova das moças explicou: – “São as víboras”. Aqueles bichos haviam passado entre as minha pernas, junto a meus calcanhares, e eram víboras… –“Elas fizeram ninho num buraco, debaixo da mesa. – Às dez horas elas voltam depois de caçar…” O que para as moças não passava de uma circunstância banal de sua vida campestre transformou-se na mente do autor na indelével imagem da morte iminente.

Saint Exupéry exerce o seu ofício de aviador-postal até 1939 quando, com a guerra, vai servir

numa esquadrilha francesa de reconhecimento aéreo; com o armistício (junho de 1940) deixa a França pelos Estados Unidos, onde se esforça pela adesão desse país à guerra contra Hitler, tornando-se uma das grandes vozes da Resistência francesa. Sempre ansioso pela ação, consegue finalmente em 1944 juntar-se a uma unidade de reconhecimento fotográfico com vistas ao desembarque na Normandia. Foi numa dessas missões, em 31 de julho de 1944, que seu avião é abatido por um caça alemão. O corpo de Exupéry nunca foi encontrado, mas os destroços do aparelho foram formalmente identificados em 3 de setembro de 2003, ao largo de Marselha.  

PREFÁCIO DO DIÓGENES

     A língua portuguesa merecia “O Pequeno Príncipe”, a fábula magistral de Antoine de Saint-Exupéry, com um sutil sabor brasileiro. Não que não tivéssemos traduções bem elaboradas, desde a primeira feita pelo monge beneditino Dom Marco Barbosa, baseada na edição francesa de 1945. Em 2013, ano em que o lançamento do livro comemorou 70 anos, Ferreira Gullar trasladou a edição original de 1943. Encantou-me a feita por Raimundo Gadelha, edição com ilustrações inovadoras. O famoso livro, ilustrado com a aquarela do próprio autor, foi publicado em 1943 no Estados Unidos, simultaneamente em inglês e francês, é um dos mais lidos no mundo, com mais de 250 versões em diferentes línguas e dialetos. 

Câmara Cascudo gostava de repetir, que somente traduzia quando considerava as traduções existentes insuficientes. Assim também deve ter pensado o editor quando teve a feliz ideia de convidar Ivo Barroso para essa edição. Foi certa a iniciativa. É um dos nossos maiores tradutores de prosa e poesia para a língua portuguesa. Ele é responsável por traduções definitivas para o português de William Shakespeare. Somente um tradutor privilegiado seria capaz de semelhante proeza.

De fato, somente um poeta do porte de Ivo Barroso seria capaz de dar um toque definitivo aos brasileiros a esta obra misteriosa e fascinante. Para isso, o tradutor penetrou a concepção estrutural intangível da obra literária, sua forma e conteúdo. Não bastava a erudição, o exercício intelectual, nem ser fortemente experimentado em traduzir, mas é imprescindível a compreensão emocional da criação poética. Como na casa de Deus, a língua tem muitas moradas.  Ivo Barroso é habitante privilegiado do inglês, francês e italiano. Francês é a principal, confessou-me Rimbaud. A sua tradução do clássico de Exupéry é inovadora e animadora, ele mergulha em um olhar infanto-juvenil, revelando novas facetas da obra. O respeito pelo leitor é absoluto. No texto, leveza e densidade caminham de mãos dadas, com tamanha naturalidade que nem nos damos conta de estarmos diante de uma obra vista e revista inúmeras vezes.

“O Pequeno Príncipe” adaptou-se ao Brasil. É amado por crianças de toda idade. A saga do seu autor entrou na alma do povo, no sentimento coletivo. O imaginário popular criou e ampliou histórias, lendas, versões e contraditas. Principalmente em Natal e Florianópolis, onde se diz que ele era muito popular e chamado Zé Perri. Natal era referência obrigatória aos pilotos pioneiros da aviação. Nesta cidade, Jean Mermoz, o amigo mais próximo Saint-Ex, tornou-se ícone vindo da África para este destino e desapareceu no mar. 

Saint-Exupéry menciona Natal no roteiro de volta de Buenos Aires. A cidade é presença obrigatória nos mapas de viagem da Latécoère e de outras companhias. Como na vida do piloto-escritor é envolvida em magia e mistério, até a sua morte, em nosso País não foi diferente. É negado e tem confirmação documental da sua presença aqui. Ele deu entrevista para o Diário de Natal ao jornalista Nilo Pereira, foi fotografado pelo italiano Rocco. A maior parte da população considera o Baobá do Poeta, situado na capital potiguar, a árvore do Pequeno Príncipe. As ilustrações do livro têm coincidências coincidentes com Natal, com os símbolos e ícones da cidade: as dunas, a falésia (a Barreira do Inferno), um vulcão extinto (o cabugi), a estrela cadente da bandeira da urbes, três baobás da espécie folhada (Natal, Macaíba e Nísia Floresta), um mapa do Estado semelha e é estilizado como elefantinho. Por tudo isso, Saint-Exupéry é cultuado como avenida como Mermoz é rua. 

Aventureiro, escritor, piloto, viajante, desenhista e humanista são algumas das facetas de Antoine de Saint-Exupéry. Como os grandes escritores viajantes, de André Gide a Henri Michaux, ele convida o leitor a viajar por sua escrita, traçando observações poéticas e uma experiência interior que se dilata. Ele “mordeu as estrelas”, surgindo no Rio Grande do Norte como um lampejo, um cometa. Sem dúvida, uma visita ilustre.  Ele é símbolo do bem querer da nossa terra.

Acredito que quando o que lemos é atraente e apresenta uma linguagem que favorece a compreensão, a leitura torna-se inevitavelmente prazerosa, o que nos faz ler para dormir e até acordar para ler. Afinal, leitura boa é aquela que se realiza por e com prazer. Por esse motivo, este livro constitui-se em uma viagem mágica, exata, objetiva, sólida, que não se descura quando deve investigar os fantasiosos e calculados engenhos de que se reveste a ficção. Cheio de diálogos que nos emocionam e nos fazem sorrir, aborda temas leves e profundos traduzidos ao português com maestria.

Uma boa leitura.

Diogenes da Cunha Lima

DEDICATÓRIAS DO AUTOR

A LÉON WERTH

              Peço perdão às crianças por ter dedicado este livro a um adulto. Mas tenho uma desculpa séria: esse adulto é o melhor amigo que tenho no mundo. Tenho outra desculpa: esse adulto pode compreender tudo, até os livros para crianças. E tenho uma terceira desculpa: esse adulto mora na França e tem fome e frio. Precisa ser consolado. Se todas essas desculpas não forem suficientes, então quero dedicar este livro à criança que esse adulto foi um dia. Todos os adultos a princípio são crianças. (Mas poucos entre eles se lembram disso.) Corrijo então minha dedicatória:

A LÉON WERTH

QUANDO ERA CRIANÇA


POSFÁCIO DA ILUSTRADORA

Senti uma grande responsabilidade ao criar as imagens para este livro cujas aquarelas de Antoine de Saint-Exupéry, tatuadas em nosso inconsciente fazem parte da infância de muitas gerações. Como desenhar um novo pequeno príncipe no qual eu mesma pudesse acreditar?
A primeira providência foi ler Terra dos homens. Publicado em 1939, o livro narra as memórias de Saint-Exupéry quando foi piloto do correio aéreo francês. Minha suspeita de que O pequeno príncipe, se não fosse ficção, poderia ser um capítulo de Terra dos homens, se confirmou pelo modo particular fascinante e sensível do autor em iluminar por meio de aventuras literárias, o bem e o mal da natureza humana. Na última página do livro, numa viagem de trem o narrador escreve:

“Sento-me diante de um casal. Entre o homem e a mulher, a criança, bem ou mal, havia se alojado e dormia. Volta-se, porém, no sono, e seu rosto me aparece sob a luz da lâmpada. Ah, que lindo rosto! Havia nascido daquele casal uma espécie de fruto dourado. Daqueles pesados animais havia ­nascido um prodígio de graça e encanto. Inclinei-me sobre a fronte lisa, a pequena boca ingênua. E disse comigo: eis a face de um músico, eis Mozart criança, eis uma bela promessa da vida. Não são diferentes dele os belos príncipes das lendas. Protegido, educado, cultivado, que não seria ele?

Quando, por mutação, nasce nos jardins uma rosa nova, os jardineiros se alvoroçam. A rosa é isolada, é cultivada, é favorecida. Mas não há jardinei­ros para os homens.” (tradução de Rubem Braga). 

Fantasiei que o pequeno príncipe de Saint-Exupéry nasce no instante em que a luz da lâmpada ilumina o rosto daquele menino. Ao conceber o perso­nagem, o escritor o protegeu, o educou e o cultivou. Responsável para sempre por tudo o que tenha cativado, Saint-Exupéry escreve a história do pequeno príncipe, publicada em 1943, tornando-se um clássico mundial. 

A ideia de que qualquer um de nós pode ser um pequeno príncipe, um pe­queno Mozart, uma rosa nascida por mutação, muito me intrigou. A potência dentro de nós, que se revela a cada dia, a cada noite dormida, a cada viagem de trem, a cada leitura de um livro, é a própria promessa de uma vida. 

Assisti a documentários para conhecer a infância de Mozart, assim como filmes biográficos do próprio Saint-Exupéry. Esse foi o terreno fértil que pre­parei para criar este pequeno príncipe: um personagem prosaico, que poderia habitar o corpo de qualquer criança. Os pequenos príncipes, os pequenos Mozarts, estão à nossa volta; inclusive pode ser você, caro leitor. 

Incorporei o uso do papel carbono amassado e passado a ferro, técnica que se aproxima esteticamente da gravura. Com um pouco de abstração nas imagens, convido a diferentes leituras, a liberdade para cada um interpretar a seu modo. Na capa, por exemplo, a rosa pode estar numa redoma ou sobre um planeta; na frente de uma pedra ou naquilo que você imaginar. 

Juntos, os pequenos príncipes que vivem em nós e que não abdicam jamais de uma resposta depois de haver feito uma pergunta, criam leituras particulares desta obra repleta de metáforas, que instiga às mais livres reflexões. 

RAQUEL MATSUSHITA

NOTA DO EDITOR

Como o livro ainda não foi lançado, o editor Fariaesilva – rua Oliveira Dias, 330 – 01433-030 – São Paulo informa ser possível adquiri-lo em qualquer plataforma eletrônica (Amazon, Mercado Livre w Estante Virtual) e mesmo nas livrarias mediante solicitando ao livreiro que o encomende para futuro estoque.

PREFÁCIL PARA AS CRIANÇAS

Há motivo para mais uma tradução de O Pequeno Príncipe, esse livro superconsagrado de Antoine de Saint-Exupéry e já vertido inúmeras vezes para centenas de línguas? Há dois. O primeiro é que temos alguns indícios para associá-lo ao Brasil, já que o autor esteve muitas vezes em nosso país. Há registros de que em novembro de 1927, Exupéry, então aviador da Aeropostale, a primeira companhia aérea a fazer voos regulares entre a Europa e a América Latina, pernoitava com frequência em Recife e Natal, onde teria visto um baobá, supostamente o mesmo que aparece citado em sua obra famosa. Sabe-se que o de Natal,  nessa época, era uma árvore, já um tanto frondosa, crescia num terreno baldio, desde então ameaçado de venda para a construção de um edifício no local.  O baobá foi salvo do extermínio, graças ao mecenas e poeta natalense, Diógenes da Cunha Lima, que adquiriu o terreno para preservar a árvore, transformando o seu habitat num recanto público, hoje denominado “O baobá do poeta”. Ali se realizam, hoje, concertos, recitais, palestras, aulas práticas de Botânica, etc. numa faixa de terreno que recebe cuidados de jardim. O baobá se tornou ponto de referência e local de visitação turística, exibindo publicamente toda a sua beleza vegetal, como pode atestar a foto que estampamos na contracapa deste livro. Em suas viagens como piloto de correio aéreo, Exupéry conheceu muitos países da África e esteve perdido no deserto da Líbia, conforme relata em seu livro Terra dos Homens. Mas em nenhum de seus relatos faz qualquer referência a baobás, árvore originária daquelas regiões. Esse nome só vai parecer em O Pequeno Príncipe, publicado em 1944, quando o autor já estava exilado nos Estados Unidos, voluntariando-se para participar da II Guerra ao lado dos americanos. Tudo indica, portanto, que o baobá do Pequeno Príncipe seja o baobá de Natal, hoje elevado a monumento exposto à visitação pública. A suspeita de que seja essa a árvore do livro, levou, em 2009, o ilustre sobrinho do autor, François d’ Agay a visitar Natal para se certificar das conclusões sugeridas pela leitura do livro.  

O outro motivo é muito meu, como tradutor. Este livro é ao mesmo tempo uma grande obra literária e uma singela história para crianças. O gênio artístico de Exupéry conseguiu criar, aqui, um texto de grande sentimento humano e de singelíssima narrativa infantil. O fato de nele ressaltarem suas qualidades literárias tem, necessariamente, levado os tradutores a adotar, em sua transposição linguística, um formalismo verbal compatível com a linguagem padrão de seus respectivos idiomas. 

Eu quis, sem macular o estilo literário de Exupéry, trazer esse texto o mais perto possível da linguagem das crianças brasileiras, ou seja, fazer dele um livro exclusivamente de literatura infanto-juvenil.   Apresentar uma leitura   acessível a qualquer menino ou menina, sem a necessidade de recorrer a dicionários ou à internet. Que as frases ditas pelo Pequeno Príncipe fossem exatamente aquelas que uma criança do Brasil atual diria em tais circunstâncias, impedindo assim que essa oralidade fosse expressa de maneira formal, de acordo com os preceitos da linguagem escrita. Daí ter evitado a todo custo, por exemplo, ênclises e próclises, hoje totalmente banidas do nosso linguajar habitual. Substituí, por exemplo, “fez-se silêncio” por “houve silêncio”, ou “encontrar-se-iam” por “se encontrariam”. Usei também perífrases verbais para substituir formas que poderiam soar rebuscadas ou incompatíveis com o linguajar infantil. Mas não alterei nada, não pulei nada, não sacrifiquei nenhuma frase, tendo todo empenho em tornar os diálogos os mais naturais possíveis, procurando reproduzir exatamente o que (principalmente uma criança) diria naquelas circunstâncias. Nem sempre a tradução de uma frase francesa corresponde ao tom que ela pode adquirir em português, segundo as circunstâncias. Assim, a primeira fala do PP no livro: Dessine-moi un mouton!” exprime o modo como qualquer francês, criança analfabeta ou homem culto, pediria a alguém para lhe desenhar um carneiro. Mas, já no Brasil, teremos para isso uma forma dita culta “Desenha-me um carneiro” e outra, comum, habitual, informal ou popular de dizer a mesma coisa: “Me desenha um carneiro”. Achei que o correto seria traduzi-la da forma como uma criança brasileira a diria. Em resumo, tentei não apenas traduzir (fidelidade a tudo o que está lá escrito) mas “interpretar”, “transpor”, “reformular” (principalmente as frases) para lhes dar uma naturalidade, digamos  coloquial.     

Meu querido irmão Ney Barroso amava (ainda mais que eu) a sua cidade natal de Ervália (Herval em nosso tempo de criança) e durante muitos anos costumava tirar férias ou passar longas temporadas por lá, em companhia de nosso pai. Já homem feito, professor emérito do Colégio Pedro II, do qual foi inclusive um dos diretores, dispôs-se a colecionar fotos antigas e acabou organizando uma espécie de “exposição do passado hervalense”, que enviou para a Casa de Cultura de Ervália, a qual aliás deve todo o seu acervo a ele. Hoje, saudoso de ambos, resolvi registrar todo esse material aqui na minha Gaveta, sabendo embora que tal mostra não terá muito significado para os leitores comuns deste blog, mas tendo a certeza de que comoverá a todos aqueles que nos conheceram na intimidade.  Esta publicação não teria sido possível sem o auxílio precioso e imediato de nossa conterrânea, Aída Sant’ana, diretora daquela instituição. 


 

Reminiscências

 

de

 

Ney Barroso

Dedico esta mostra fotográfica a todos os amigos de infância que conviveram comigo; aos amigos da juventude e todos aqueles que chegaram à terceira idade!! Deus nos proporcionou a felicidade de ter nascido e vivido neste solo sagrado que foi o Herval- Ervália.

Dedico às famílias que conviveram com minha avó, meus tios e meus pais e à minha querida professora D. Nenzinha, agradecendo por tudo aquilo que ela fez, ensinando a minha geração, o caminho certo da dignidade. Peço desculpas se omiti algum fato ou alguém.

Ney Julião Barroso

Esta casa antiga não sei se ainda existe. Ficava na rua de baixo como era chamada a Rua atual Capitão Américo Taveira. Por algum tempo foi Delegacia de Polícia. Em frente desta casa, do outro lado da rua existiam duas coisas que jamais esqueci: a Fundição, onde aprendi que o ferro se tornara maleável pela ação de um enorme fole que acionado, esquentava e avermelhava o ferro das ferraduras e outros objetos, a bigorna que fazia música na mão do ferreiro (não sei o nome dele. Que pena!); a outra era um exemplar de Araucária Angustifólia ( Pinheiro) que ali existia no espaço onde é hoje a casa do Dr. Normando. O fator clima e altitude foram responsáveis por sua existência naquele lugar. Depois, fazendo trabalho de campo no Paraná e Santa Catarina como  Geógrafo do CNG, conheci a Mata dos Pinhais, linda formação vegetal que ainda resiste à devastação. Mas nenhum pinheiro que vi era tão frondoso, altaneiro e senhorial como o que nasceu e cresceu naquele quintal de Ervália. Foi uma pena derrubá-lo!  

Foto com a Casa  de Fundição e a  Araucária supostamente  mencionada no devido ao local. Fonte: Jornal “A Estrella Hervalense”.

Outra fotografia com a Araucária supostamente  mencionada no local citado no texto. 

Esta foto eu tirei observando um ângulo diferente mas que mostrasse as pinturas que tinham no alpendre que acompanhava toda a parte lateral da casa. A foto antiga em preto e branco é relíquia para ser guardada na Casa da Cultura de Ervália. Esta e outras casas em Ervália foram construídas por um cidadão de nome Zico Coutinho, irmão do Juca Coutinho, coletor federal em Ervália. Ambos irmãos da Giulite Coutinho, exportador de café e renomado prócer do futebol carioca como presidente e benemérito do América Futebol Clube aqui do Rio. Me lembro do Juca, forte e gordo com uns olhos avermelhados e sempre de pasta na mão ou tirando talão de impostos na Coletoria. Se naquela época o Juca andava atrás dos impostos, hoje, nós brasileiros, pagamos os mais elevados impostos do mundo e o presidente ainda reclama da extinção do imposto do cheque! Quem quer se enriquecer? 

Dona Elisa de Freitas morou nesta casa e gostava de ficar na janela apreciando o movimento pelas manhãs, quando o sol iluminava o quintal da casa, na frente havia sombra. Numa dessas manhãs eu sentei na calçadinha que circundava os tanques com os peixinhos na ânsia de apanhá-los, escorreguei e caí dentro do tanque. Eu tinha 5 ou 6 anos e não sabia nadar! D. Elisa assistiu a cena e, mais que depressa, correu para o jardim e me puxou para fora da água que cobria meu corpo! Me embrulharam num pano e me levaram para a casa da vovó. Me livrei de uma surra! E D. Elisa me livrou da morte! Era mãe do Osmar e do Hélcio. Osmar era advogado e conselheiro do Fluminense F.C. Muito considerado nas hostes tricolores. Fiquei sabendo de sua morte através de um anúncio no Jornal “O Globo.” 

Rua do Rosário, na época a mais larga e arborizada de Ervália. Dia de procissão. Cidade enfeitada. Como eram solenes as procissões naquela época (a foto tem mais de 60 anos!) Mostrava a fé e a devoção de quase todas as famílias ervalenses. Fui criado dentro desses parâmetros religiosos e agradeço a Deus, minha avó e meus pais de terem nos ensinado tais cânones da Igreja Católica. Figuras como a de Monsenhor Rodolfo, do Cônego, do Padre Teófilo, das Semanas Santas e principalmente da Filarmônica São Luiz Gonzaga que abrilhantava todos os eventos. Jamais esquecerei!!! Era a única rua de mão e contramão que existia em Ervália!! No final, uma pracinha e a Igreja do Rosário, velhinha mas com muito mais estilo que a atual. 

Esta foto foi tirada nos anos 20! Mostra o timaço de basquete que existiu no Herval graças à iniciativa do Sr. Américo Taveira. Minha mãe aparece no outro pedaço da foto que sumiu!! Observem os trajes da época. As meninas superelegantes e garbosas em seus uniformes botam no chinelo as atuais jogadoras da NBA norte-americana! Embora a blusa de manga comprida e a saia até as canelas pudessem atrapalhá-las, o certo é que no Herval já existiu um time organizado do basquetebol feminino!!

Sr. Anélio Salles de Oliveira e senhora, cercada de parentes, aderentes e amigos, comemorando as bodas de ouro do casal. Na foto, minha mãe é a primeira da esquerda para direita da fila do meio e Flávio Taveira  o penúltimo da mesma fileira. Isto eu sei porque um dia, minha mãe me relatou o acontecimento e deu o nome de todos os presentes. Espero que exista alguém que possam identificar as pessoas para resgatar a memória das antigas famílias do Herval. 

Esta foto, tirada nos anos 20:  mostra pessoas da primeira e da segunda gerações dos formadores da “família” ervalense. Ao centro, o Sr. Américo Taveira, benemérito da cidadezinha que começava a crescer, para mais tarde emancipar-se, tornar-se Município e gerar outros na Zona da Mata de Minas Gerais. Alguns eu sei quem são: Pela fisionomia reconheci José Targino, Custódio de Barros, José Avelar, José Franklin (Tiririu) e acho que meu tio João Pimentel está entre eles também. O que impressiona são as vestimentas super atualizadas para a época  e bem confeccionadas pelos artistas da  tesoura que sempre existiram no Herval/Ervália. Convivi com algumas dessas pessoas, algumas delas marcaram minha infância e por isso, até hoje, ainda guardo na lembrança a impressão maravilhosa do que foram.

(Casa da Cultura, faça uma pesquisa para ver se conseguem identificar todas as pessoas da foto)  

Fotos com 2 anos de idade, no quintal da casa da minha avó, obtidas por meu tio Alfredo (numa delas aparecem sua sombra). Na primeira, estou com chu inseparável chupeta pendurada no pescoço. Foi meu primeiro vício. Só dormia com ela na boca. Aos seis anos joguei fora e mais tarde adquiri outros vícios piores tais como o de fumar (herança de meu pai que fumava 2 maços  de Selma ou Iolanda ou Odalisca ou até Colomy por dia); tomar chopinho nas refeições, comer muito, trabalhar muito (como professor, necessitava trabalhar em 5 escolas durante a semana) e outros de menor consequência e importância. A Cerca atrás de mim limitava um pequeno jardim  com rosas, couves,  alfaces e cebolinha que minha vó cultivava com toda dedicação ! Na segunda foto, no mesmo quintal, a parede ao fundo era da padaria  existente quando a casa se tornou numa espécie de hotel. O carrinho foi o melhor presente de Natal que recebi. Quase morri de medo quando vi o Oswaldo ( o empregado) da Farmácia) vestido de Papai Noel. Era um total arigó de penacho. Atrás da padaria, um vasto quintal que ia até depois de um córrego que lá passava. Cheio de árvores frutíferas: abacate, mexerica, marmelo, manga, laranja e goiaba. A casa da vovó marcou muito em nossas vidas. Era senhorial, enorme, ventilada e fresca no verão e aquecida no inverno. Quando praticava um delito, corria para ela e dormia lá após é claro, mandar um recado para minha mãe. Aos domingos, todos os tios e tias, papai e mamãe reuniam-se para o almoço numa sala enorme, numa mesa muito comprida, onde cabia todo mundo!!

Na Praça XV, no Rio de Janeiro, um grande viaduto foi construído para desafogar o trânsito que desemboca no aeroporto Santos Dumont da Zona Sul via Aterro do Flamengo.

Embaixo do viaduto, aos sábados, funcionava uma feira de antiguidades onde se encontra quase de tudo. Centenas de barracas vendem bugigangas até objetos de arte e tudo o mais que se possa colecionar. O espaço é muito grande (uns 500 metros, aproximadamente e é frequentado por milhares de pessoas todos os sábados faça chuva ou faça sol. Pois foi exatamente numa barraca desta feira que vi essa foto!!!

Comprei imediatamente, antes que algum colecionador o fizesse: parece incrível, mas é verdade, tenho testemunhas. Imaginem vocês aí da santa terrinha, Estava eu diante da casa que já foi a Prefeitura (me lembro da inauguração), e residência do senhor José Albino (amigo do meu tio Alfredo) veio parar na minha mão! Não identifiquei as pessoas que aparecem na foto. Se for possível consultar alguém daí para a identificação seria ótimo. Estou enviando para a Casa da Cultura, pois é em Ervália que ela deve ficar para mostrar à gerações futuras como o bom gosto de morar sempre existiu entre os ervalenses. 

Uma das esquinas mais tradicionais do Herval e Ervália, a casa do Senhor Pedro Lopes. Na parte virada para a rua principal tinha um quarto e uma grande sala de visitas; na esquina, as quatro portas eram d loja. Panelas, tecidos, louças, artigos de armarinho e muitas outras coisas eram vendidas na loja do homem mais alegre de Ervália.  A cozinha dava para um jardim interno cheio de rosas e o quintal com a palmeira que se vê na foto. Das casas antigas da cidade era a mais conservada! Os quartos davam para o quintal e para o jardim. Era ventilada e fresca durante todo o ano. O assoalho  era de tábuas corridas como a casa da minha avó. Na prede da casa virada para a Travessa, uma gaiola com um canário belga (um dos poucos que existia na cidade) que cantava alto, e claro longos trinados que de longe se ouvia. Mas o que mais eu gostava era de ouvir as gargalhadas do Sr. Pedro Lopes, contrabaixista da Filarmônica São Luiz Gonzaga. É inesquecível para mim aquela figura quase do meu tamanho tocando  um instrumento enorme que ele  tinha de coloca-lo nas costas. Muitos anos depois de sua morte, as meninas, suas filhas, mantinham o instrumento pendurado na parede!! Homenagem àquele alegre músico e cidadão exemplar do Herval. Onde hoje existem as casas do José Paulino, dentista: o sobrado onde foi a barbearia do Sr. Oliveira; a casa da esquina onde morava sr. José Matias; a casa onde morou o Ari Castanheira e Dona Celuta e a Filarmônica São Luiz Gonzaga- toda essa área era uma Praça.  É só observar as construções mencionadas, diferentes da do Sr. Pedro Lopes. Com o passar do tempo, a Praça foi edificada, dando origem a duas travessas que a envolvem. Lá já teve parque de diversões e circo!!

Foto da antiga Usina Hidrelétrica que gerava luz para o Herval e Ervália. Na época das chuvas mais fortes, entupia as tubulações e  faltava luz na cidade. Na época da seca, o filete de água não era suficiente para iluminar a cidade. Apagão no Herval nunca foi novidade. Todas as casas tinham velas, lamparinas, lanternas e lampiões para enfrentar os apagões. Me lembro que a rua mais iluminada numa noite de apagão era a Rua Monsenhor Rodolfo iluminada através da luz dos lampiões ( de vários tipos) de todas as lojas comerciais. Desde o Bar do Jair (hoje Supermercado do Guido) até a loja do sr. José dos Reis de um lado e de outro, da alfaiataria do Plínio até o bar que existia na esquina da Rua com a Praça Arthur Bernardes. As pessoas andavam com as lanternas acesas para não tropeçar. Quase nada era afetado, tinha benção ou se rezava o terço normalmente na Igreja matriz. A empresa que gerava energia elétrica  chamava-se; Empresa Força e Luz Esperança de propriedade do Senhor Toni de Faria. Lembro-me de algumas pessoas ligadas à iluminação da cidade: Sr. Isalino,  Toninho Faria que percorria a fiação com um enorme bambu desenrolando os fios. A iluminação era precária, as ruas tinham mais sombras que áreas iluminadas e, por isto, quase não se brincava nelas. O rádio, em grande parte do Brasil é que estabelecia o contato com o mundo exterior, e quebrava o isolamento, as notícias e as novidades chegavam através  dele.  Era comum em Ervália, em vários estabelecimentos  comerciais, a presença de um rádio, principalmente, durante a 2ª Guerra Mundial, os adultos ouviam através das ondas curtas as notícias transmitidas pela BBC de Londres, a Rádio do Vaticano, a Voz da América, e muitas outras. O futebol do Rio de Janeiro chegava através do rádio cujas emissoras tinham mais potência, por isso times como o Flamengo  (papai e Tião Pinto), Fluminense (Oswaldo Pires), Botafogo (Tarcísio Coutinho) fizeram parte das torcidas enquanto que, existiam poucos atleticanos, cruzeirenses ou americanos… Tem uma história sobre a Empresa de Luz que não posso atestar a veracidade, mas, diziam que antes de morrer, o proprietário passou a mesma para o nome de São Sebastião! Não sei se é verdade e se fizeram a escritura de transmissão de posse para o Santo assinar!!! No fim do mês, todos recebiam as contas e todos pagavam religiosamente!!!

Bicicleata em homenagem à volta do Getúlio ao Palácio do Catete. A concentração foi exatamente em frente o Bar do Toninho Faria e depois do Jair. Eu aqui no Rio de Janeiro participei na volta do “velho” ao poder. Foi apoteótico e acredito que no mesmo dia, em todo o Brasil não seria nem de perto o que é hoje. Antigamente o político como o GV amava o país e construía a Nação. Hoje, a maioria dos políticos amam os ganhos que obtém com a política e, idolatram seus partidos. O Brasil se transformou numa imensa vaca, cheia de tetas onde eles, os maus políticos ( os fichas sujas por exemplo!) mamam. Reparem bem que não se falam em construir uma grande Nação mas sim em: Uma grande usina, uma grande estrada, uma grande ferrovia. Essas coisas geram e mobilizam grandes fortunas que saem do erário público (através do nosso dinheiro) para os bolsos de algumas dúzias de enganadores e compradores de votos que habitam o Congresso!! 

Enchente de 1979. Muitos anos antes dessa, houve uma outra, quando a água chegou até a Farmácia, ajudei a colocar os remédios longe da água. Os quintais dos sobrados foram todos alagados!! Este local, por ser o mais baixo da cidade, era sujeito a alagamentos. O rio passava rente à ponte. A façanha era passar por debaixo da ponte segurando as taboas até sair do outro lado! Quando a água baixava, pescávamos cascudos e lambaris. A ponte era toda de madeira, tinha uma proteção lateral que servia de trampolim, para saltar no rio, passar por baixo dela, sair no quintal da casa de Monsenhor Rodolfo e voltar, para um novo salto. A meninada da época sabia brincar!! No período de chuvas, pernas de pau feitas de bambus ou latas, nadar nos rios, fazer barquinhos de papel para jogar na correnteza, descer as encostas do Santo Cristo, escorregando na folha de palmeira: na época dos ventos, soltar papagaios nos altos dos morros (com manivela e tudo!); no inverno, pião, rodar arco, jogar bolinha de vidro, pelada na rua, brincadeiras de roda à noitinha, pular carniça e comparecer às festas da igreja, sem contar com o cinema, que exibia na quinta-feira, além do seriado, mais um filme!! A coisa ficava melhor ainda quando chegava um parque de diversões ou um circo. Acompanhar o palhaço dava direito a uma entrada! Mas o melhor mesmo, era entrar por debaixo da lona!! Era uma verdadeira farra durante todo o ano!! Éramos felizes e não sabíamos, ou tínhamos a certeza de que pior, estaria por vir com a idade. 

Neste lindo sobrado morava uma figura sem par. Parecia um personagem “machadiano”. Tinha todos os ingredientes da “belle époque” brasileira. Vestia feito um “dandi”, com bom gosto e muito alinhado. Amigo de minha avó. Entrava sempre para tomar café e pitar um cigarro confeccionado por ele. Tinha um lindo canivete para aparar as palhas que trazia num pequeno  envelope. O fumo de rolo, semi picado, saía de uma bolsa de borracha. Desfilava com as mãos e colocava o fumo na palha de milho e enrolava. Passava a língua na palha e dobrava a ponta do cigarro. Usava pincenê  e um chapéu tipo panamá e do colete onde num bolso saía uma corrente de ouro presa a um relógio Omega, também de ouro! Adorava dançar e não perdia um baile. Já ia dançando em direção à dama escolhida e nunca foi recusado! Estou falando “Titatão Lourenço”- alegre e inesquecível dançarino do Herval!!

Dois aspectos da Praça principal de Ervália. Nos domingos após a missa, a praça transbordava de gente!! Nela se misturavam pessoas da cidade e da roça. Os rapazes passeavam no sentido anti-horário e as meninas ao contrário. Aí, os olhares trabalhavam tanto quanto os pés! O flerte, a mirada longa. O voltar com a cabeça para ver a futura namorada ao longe. Depois, muito tempo depois de namorar sentado num dos bancos. Milhares de quilômetros de palavras, alguns poucos beijos e afagos e uma vergonha danada de serem olhados por parentes. Dos bancos do jardim para a porta da casa passavam quase dois anos, mas depois de casados, a vida toda juntos. Uma penca de filhos depois de netos. Nesta Praça, no dia de São Sebastião erguia-se um mastro. Na extremidade um estandarte com a imagem do santo todo espetado de flechas que não foram espetadas pelos índios. A banda executava os mais belos dobrados! Havia leilão após a missa. Primeiro os doces depois as galinhas, o galo, a leitoa, a porca e, por último, os bezerros. A noitinha se passeava até iniciar a seção de cinema quando todos trocavam a praça pela magia dos filmes de amor ou faroeste. A Praça era mais para adultos. O jardineiro corria atrás dos meninos com uma enorme vara. Era proibido pisar na grama, subir nos postes, colher as flores, quebrar os galhos das árvores, fazer xixi nos tanques ou tentar pescar os peixes que, sempre mortos de fome, chegavam à tona para ganhar comida. A Praça era olhada com orgulho por todos. Era um lugar santo, prolongamento da Matriz, era o jardim da Matriz. Os anjos protegiam e protegem até hoje. Foi a Praça mais democrática do mundo  sem ter tido sequer um comício. Grandes figuras,  moravam na Praça, centro da cidade, local de festejos de encontros e desencontros. Era o lugar onde melhor se ouvia o repicar dos sinos que falavam várias coisas para a população e dos alto falantes doutrinários dando os recados do Senhor! Foi nesta Praça que diversas vezes andei a procura dos sonhos de adolescentes. Não sei se hoje essas coisas acontecem na Praça mas no meu tempo era assim…

Esse lindo cão chamava-se Montenegro, pertencia ao Oswaldo Ludgero dos Santos, que trabalhava na Farmácia do meu pai. Nunca vi um profissional tão dedicado nos afazeres do dia a dia. Sabia tudo de farmácia. Aplicava injeções como ninguém, gostava de música erudita e popular e apreciava móveis e objetos antigos. Pessoa de bom gosto era o Oswaldo. Quando veio ao Rio, ficou hospedado em nossa casa. Adorava tomar banho de mar e gostava de ser enrolado pelas ondas, até chegar na areia. Saiu da Farmácia, casou-se e foi para São Paulo e nunca mais o vi. Telefonei um dia para a sua casa mas o filho achou melhor não chama-lo devido a emoção dele e minha ao ouvir aquela voz e aquela gargalhada. Fazia xarope, drágeas, supositórios, pomadas, manipulava as receitas de meu pai com carinho e esmero. Arranjou um companheiro fiel, o Montenegro: manto negro, brilhoso e dócil. Ensinou o cachorro a fazer várias graças… O casario da foto mostra os três sobrados existentes na Praça Arthur Bernardes, todos construídos pelos Andrades que também construíram a máquina de café, atual Clube Casarão. Do outro lado da Praça existia uma das maiores casa de comércio do Herval (onde é hoje a Prefeitura); tinha um barranco e um muro de madeira com uma pequena cobertura de zinco que ia até o rio, onde aos domingos, funcionava como estacionamento de cavalos, burros, éguas etc. Neste muro estava escrito “Honrar pai e mãe”, acho que era algum filme que iria passar no cinema. Muitas saudades principalmente dos meus cabelos pretos, da minha cinturinha, do Montenegro e do Oswaldo Ludgero dos Santos. 

Eu tinha 6 ou 7 anos de idade. Bem longe daquela pacata cidade, efervescia o nazismo na Alemanha e o fascismo na Itália. Espanha e Portugal eram ditaduras. Na América Latina, Brasil e Argentina, também curtiam suas ditaduras. Logo iria estourar a 2ª Guerra Mundial. O militarismo iria influenciar até na moda infantil. Numa das idas ao Rio de Janeiro, minha mãe comprou essa vestimenta de marinheiro para mim (as meninas também usavam!) Relutei muito em usá-la pois sabia que, no mínimo, iria receber um apelido. Não podia sujar, coisa que no Herval da época era impossível!! Quando eu vestia a marinheira, deixava de brincar de bolinha de vidro, pião, andar de pernas de pau (feitas de bambu), jogar bola, soltar papagaio, apanhar amoras nos pastos e muitas outras coisas que, para nós meninos, eram sagradas!! Naquela época, o jardim possuía árvores frondosas depois cortadas. A cobertura do coreto pode ser observada, e lá, a Filarmônica São Luiz Gonzaga, com seus professores, exibia nos dias de festas, inesquecíveis dobrados sob a batuta do Sr. João Caldeireiro, pai Bereco. Que tempo bom! As crianças brincavam por toda a cidade uma espécie de quintal urbano para todos nós! As únicas coisas que nos tiravam da rua eram: a escola, a missa, o cinema, o circo, o grupamento de escoteiros e ainda, quando nos reuníamos para roubar frutas nos quintais das casas dos outros. Vários meninos do Herval e Ervália viveram esses momentos inesquecíveis. Eu fui um deles!!!

A nossa infância foi cheia de novidades. Papai e mamãe não mediam esforços para torna-la feliz e agradável. Velocípede, carrinho de lata, patins e bicicleta eram acessórios obrigatórios em nossas vidas principalmente, da minha e do Ivo. Bonecas e mais bonecas, vestidinhos e mais vestidinhos para as meninas Lea e Lia. Fomos criados com toda a atenção e carinho por nossos pais. Rigorosos, quando errávamos, aí a cobra fumava. No meu caso particular, apanhei com vários objetos: escova, cinto, vara de marmelo, sapatada, tábua de caixote e até um vidro de Biotônico Fontoura foi atirado contra mim. Já minha mãe era mais requintada. Boa costureira que foi, me prendia no pé da mesa da sala, com linha Corrente nº 24, ou mandava eu tirar a correia da máquina de costura e descia a lenha!!! Todas as surras que tomei foram minuciosamente explicadas e justificadas. E é aí que cada vez mais, cresceu o amor que sempre tivemos pelos nossos pais. As surras na realidade doíam,  mas não marcavam. Nenhum ódio o rancor, pelo contrário, eram mais educativas que coercitivas. Mas eu era muito levado!! Tanto que, quando o Bispo de Mariana, Dom Helvécio Gomes Pimenta veio ao Herval, foi recebido em nossa casa, no tal sobrado da Farmácia, ao som da banda de música. Almoçamos todos juntos e minha avó, que falava o que bem queria, naquele sotaque quase lusitano, pediu ao Bispo para me benzer e tirar o capeta que ela achava que existia dentro de mim! Fui exorcizado ali mesmo, na sala, ajoelhado diante do Bispo, recebendo os respingos de água benta, beijei o anel com a cruz de Cristo!!! Comungava aos domingos após confessar com o exigente Cônego Marcial Muzzi, os mesmos pecados semanais. Na hora da comunhão saía da Igreja leve como um beija-flor. Aquelas surras, os conselhos da minha santa vozinha, de minha mãe e as broncas de meu pai acabaram me transformando num cidadão de bem, por esse motivo, nunca quis ser político!!! Fui ser professor, como a Dona Nenzinha!!

Gostava de passar as férias em Ervália. Revia meu pai, os amigos e os familiares que restavam. Na década de 50 lá estava eu alegre e feliz!! A foto com a moto, foi batida em frente ao bar do Toninho Faria, depois do Jair. Era um verdadeiro “point” em Ervália. Imenso salão, pé direito alto, três portas de aço. Lá dentro, a coqueluche da época: duas mesas de sinuca Tujague Majestic e um bilhar francês, que se não me engano, saído da barbearia do Sr. Oliveiro. Um grande rádio Philips irradiava os jogos no domingo. O bar ficava cheio! Gente da cidade e da roça, principalmente após a missa, quando se vendiam picolés, um atrás do outro. Joguei muita sinuca com vários “professores” e entre todos, destaco meu amigo Michel. Como jogava!!! Limpava a mesa e o parceiro ficava olhando! Parecia que ele dialogava, em pensamento, com as bolas, que obedeciam as suas ordens e paravam exatamente onde ele queria! Sabia tudo de efeito, efeito contrário, puxada e tabelas. Matava mais do que defendia. Dominava todos os segredos deste maravilhoso jogo! Lembro-me do Genésio, deficiente físico, que jogava só com um braço. Nunca fiquei sabendo como ele perdeu o braço! Do Mário Miranda que se contorcia todo para a bola entrar na caçapa. Na época do Carnaval (vetado em Ervália pela arquidiocese???), reunimos vários amigos para brincar em Coimbra. Nessa época chovia muito e a estrada era totalmente de barro. Atoleiro após atoleiro, chegávamos na pequenina Coimbra (era menor que Ervália ) cobertos de lama. No trajeto, descíamos várias vezes para desatolar o veículo (piruá ou caminhão). No Hotel Rubim (não sei se existe ainda) tomávamos banho e emperiquitados, adentrávamos no salão de baile. As meninas de Coimbra gostavam dos rapazes de Ervália. A rivalidade só existia nos jogos de futebol. O baile era no salão do cinema local, depois da ponte, em direção da Praça. Depois o baile, nova aventura a enfrentar- a estrada barrenta que ligava as duas cidades. Em certo trecho da estrada ficávamos tensos, quando a pirua, subindo a curva da morte,  derrapava ora em direção ao barranco, ora em direção ao precipício!!A tal curva da morte  curva do Eldoformio, o Marengo. A turma, o Córrego Frio são lugares que me trazem muitas saudade!!!

O retratista (de origem espanhola, Vililla) escreveu errado o nome do meu avô: era Lourenço, com Ç e não com Z como está. Nesse casarão morava meus avós, juntamente com minha querida mãe e meus tios João, Abel e Pedro. Quando meu avô morreu em 1922, a casa foi modificada. A grande loja diminuiu duas portas para aumentar a sala de visitas. A janela envidraçada da direita foi, por muitos anos, a do quarto em que meu pai morava (dando para a rua, para facilitar o atendimento de quem dele precisasse fora das horas de trabalho) As paredes de quase todos os cômodos era de madeira, imensas tábuas que vinham do teto  até o assoalho. De alvenaria, somente as paredes laterais e frontais da casa. A loja transformou-se em J. Pimentel e Irmãos, com Tio Alfredo gerenciando a loja de ferragens onde, entre vários objetos, se podia deparar com canivetes “Corneta”, navalhas “Solingen”, arame farpado, implementos agrícolas etc. Observem as calçadas de Herval de antanho: a maioria era assim, feitas de grandes blocos de granito, como, no Império, eram as de quase todo Rio de Janeiro. Os passeios acimentados e os meios-fios se generalizaram com o advento do Município, mas apenas em alguns lugares isso existia (correr de prédios feitos pelos Andrades da Praça Arthur Bernardes, por exemplo). Esta casa existiu até ser vendida, quando a derrubaram e no seu espaço foi construído o Clube Yásbeck. Meu irmão escreveu um poema sobre ela. Durante toda nossa primeira infância convivemos muito naquele espaço, e lá dentro a nossa vó Maria das Pedras Pimentel me livrou de muitas surras e castigos quando eu fazia artes!!! A casa possuía na frente uma grande sala e 3 quartos, e, após um pequeno corredor, outra sala, onde almoçávamos juntos: tios, tias, sogras, genros etc. numa enorme mesa tosca de madeira de lei com duas grandes gavetas cheias de retratos, cartas, etc. Um outro corredor dava para a cozinha, cujo piso era dividido: parte assoalhado de tábuas corridas e o restante de tijolos. Não tinha forro e o teto era todo preto de fumaça do fogão a lenha. Anexa à cozinha tinha uma despensa. Uma grande porta abria para a área coberta onde havia um forno, um grande tanque ao fundo e, distante de tudo e todos, um banheiro com vaso sanitário e chuveiro de água fria! Na casa existia duas claraboias de telhas de vidro para iluminação. O pé direito era aproximadamente cinco metros! Minha avó escrevia cartas para todos os membros da família ausentes e recebia cartas da Califórnia, onde tinha dois irmãos; de Portugal, onde tinha parentes na ilha do Corvo no arquipélago dos Açores; dos parentes do Rio de Janeiro. Lia muito um jornalzinho editado  pelo bispado de Mariana, O Lar Católico! Era tesoureira da irmandade do Sagrado Coração de Jesus, usava uma fita vermelha e gostava de ir à missa das 6 todos os dias!! Brigava quando a empregada chegava antes dela na missa. Foi grande amiga do Monsenhor Rodolfo, que parava sempre à sua porta para conversar. Me lembro da santa figura do vigário: batina preta, guarda-chuva servindo de bengala. Sua morte abalou  a comunidade ervalense que até hoje lhe rende homenagens. Todos móveis, retratos dos parentes, oratório, filtro “senum” de pedra sabão, rádio, etc, desapareceram com a venda da casa. Nunca mais vimos nada disso que nos acompanhou por toda a infância e juventude!! O que resta hoje é a lembrança do espaço em que convivemos durante muito tempo. Sei até hoje quantos pregos havia nas paredes e o que era pendurado neles por toda a casa!! 

No terceiro plano, a fachada da casa da Vovó. Lá está ela com a mão na testa fazendo sombra no rosto. Gostava de ficar assim, apreciando o movimento. Se passasse alguém, pediria para botar uma carta no correio ou mandava um recado para uma pessoa amiga, ou ainda, comprar alguma coisa que ela precisasse. Minha avó falava com todo mundo e todo mundo  e todos falavam com ela. Era uma pessoa querida e respeitada. A janela com cortinas era do quarto onde meu pai dormia, voltado para a rua, afim de atender a quem o chamasse a qualquer hora da noite. Em segundo plano, o Jeep Willys americano comprado por meu tio Abel que veio ao Rio só com essa finalidade. Passava em qualquer atoleiro devido à sua tração 4 x4 que somente o Jeep possuía. Hoje, vários veículos são assim. Em primeiro plano meu tio Abel e meu pai. O primeiro nasceu no Herval e papai nasceu em São Geraldo. Quem conhece o clima das duas cidades, compreende a diferença dos agasalhos usados. O frio era a única coisa de que meu pai reclamava em relação à Ervália. O cigarrinho nos dedos acabou sendo seu algoz!  

Na foto, Ormindo Teixeira Barroso, farmacêutico, nascido em São Geraldo, trabalhou quase toda sua existência na ex – farmácia Santa Therezinha, situada na atual Praça Arthur Bernardes, no sobrado que ali existia e que foi demolido. Casado com Maria Pimentel Barroso, que era chamada de “Cedinha”, não só pelos íntimos, mas por todos da cidade. No colo dela, minha irmã mais velha, Therezinha Léa Barroso. Fora da foto, pois ainda não existiam, Ivo, Ney e Lia, nascidos todos no tal sobrado da citada farmácia, berço de formação da nossa família. Do que nosso pai fez pela população de Ervália e o que ele representava para a cidade, só tomei conhecimento no dia do seu enterro. Quase toda a cidade compareceu àquele último adeus!! Foi para mim comovente e me encheu de orgulho!! Seu Ormindo iniciou seus afazeres profissionais em 1925 no antigo Herval e veio a falecer em Ervália com 84 anos de idade, vividos mais para os outros do que para ele próprio. Foi sua opção de vida. Nós afastados dele, crescemos e constituímos nossas famílias. Se existe alguma coisa que nos prende a Ervália, além do fato de termos nascido nessa santa terra, foi a permanência de nosso pai em viver nesse rincão que ele adotou e amou até sua morte. Parece que ele pressentiu que aí seria mais útil às pessoas e poderia ajuda-las no que fosse necessário. 

Esta foto me traz muita saudade! Da direita para a esquerda temos: Tio Abel, tio Alfredo, Vovó e tio João. Acho que era um dia de festa na família pois todos estão numa estica que faz gosto! Quero me referir mais ao tio João Pimentel, meu tio e padrinho de batismo juntamente com a tia Ana. Era fazendeiro e possuía uma pequena fazenda numa localidade chamada Limas. Você saía de Ervália, passava pela Fazenda do Sr. Chico Lopes (onde aprendi a nadar no rio) e seguia em frente, passava pela Vargem Alegre, seguia à direita e subia dois enormes morros;  passava pela casa onde morou tio Alfredo e chegava na Fazenda. Era uma modesta casa, mas as atividades eram muitas. A fazenda produzia café seu principal cultivo. Tinha um terreiro acimentado para secar o café, tinha despolpador mas o que mais me fascinava era a máquina de beneficiar o café. Um enorme locomóvel queimando lenha e muita fumaça! Tinha pecuária leiteira que fornecia leite para os clientes de Ervália. Tinha dois carros de bois, pomar e foi uma das primeiras fazendas no Herval a ter luz elétrica! Criação de porcos e galinhas. Plantava ainda milho, arroz e feijão. Na frente da casa tinha um extenso cocho onde o gado ia lamber sal. Tinha o retiro onde se fazia a ordenha diária. Atrás existia uma capoeira fechada com árvores lindas! A última vez que vi meu tio e minha tia foi numa casinha num alto de um morro em Juiz de Fora! Nunca soube de que morreram e onde estão sepultados. Meu tio morreu na miséria. Tinha uma carabina Winchester 44 com que dei muitos e muitos tiros numa grossa árvore que deve estar lá até hoje e que deve ter resistido a minha fúria de rapaz. 

Esta foto mostra o interior da Farmácia do meu pai. Na fachada do sobrado estava escrito: FARMÁCIA SANTA TEREZINHA, e, entre as portas – farmacêutico Ormindo Barroso. Todos os móveis eram de madeira de lei. Estantes, mesas, cadeiras, vitrines, etc. Tanto é verdade que se manteve intactos desde o dia que a Farmácia foi comprada pelo meu avô, até o dia em que foi desativada, permaneceram intactos! Era uma Farmácia típica do interior do Brasil. Manipulava a maioria dos remédios. Algumas fórmulas eram elaboradas por meu pai. No laboratório se fazia: pomadas, xaropes, comprimidos, cápsulas, supositórios, etc. Basicamente era dividida em: uma parte para homeopatia (tudo que existia): uma outra parte de remédios da flora medicinal brasileira (para atender aos pedidos e receitas dos curandeiros existentes no Município – acho que eram 4 ou 5 curandeiros, todos da roça): uma outra parte de remédios de laboratórios estrangeiros e nacionais. Tinha pouca perfumaria: sabonetes, rouge, pó de arroz, esmalte etc. Mas o forte era a manipulação e aí, me vem a figura maravilhosa de Oswaldo Ludjero dos Santos, prático da mais alta qualidade. Sabia tudo de farmácia. O esmero e a perfeição era com ele mesmo. Aplicava injeções como ninguém. Era alegre e sua gargalhada transmitia alegria a todos nós que convivemos com ele, Um dia o Oswaldo veio para o Rio e ficou hospedado lá em casa. Adorava ir à praia e se deixar embrulhar na areia após a onda mais violenta!! Vinha rolando e gargalhando. A estória que se segue, aconteceu naquele sobrado, e relato a seguir. O título é O TIRO. 

Após meses de experiências secretas, Ivo, eu e Gaim (nosso primo) conseguimos a melhor dosagem dos componentes: nitro, clorato de potássio, enxofre e carvão beloc, “roubados” da farmácia para obter uma mistura que nos desse a pólvora que queríamos, isto é, que queimasse rapidamente quase como uma explosão.  Conseguimos!!! A garrucha de carregar pela boca, eu consegui através de uma troca por uma canivete (cujo cabo tinha a forma de peixe). 

Era bem feita, o cano de latão ou cobre bem robusto e bem fixado à coronha. Tudo pronto! Só faltava o dia e a hora do disparo. Tinha de ser num mês que tivesse a bênção na Matriz pois papai e mamãe, certamente, estariam presentes e nós, sob a vigilância, quase ausente, da empregada. Chegou o dia, ao anoitecer, a Farmácia fechada (fato que nos indicava que estava tudo bem). Iniciamos a operação que consistia em: carregamento da arma com bastante pólvora! (quatro dedos bem medidos) e muito chumbo e alguns pregos. As buchas eram de palha de milho cortadas fininhas e amassada; fizemos um sorteio para ver quem iria atirar e Ivo foi o sorteado; eu deveria tampar os ouvidos dele com dois travesseiros e Gaim tamparia meus ouvidos com mais dois travesseiros e botava algodão nos dele. O alvo seria o muro do quintal de Dona Monsueta, que dava para o sobrado da farmácia, exatamente na direção da janela do nosso quarto. Tudo pronto. Após tentativas com várias espoletas (de revólver de brinquedo), ocorreu o disparo!!! Bummmmmm!!! Parecia um trovão!! Acontece que nosso pai, naquela noite, não foi à bênção e, é claro, assustou-se com o barulho ensurdecedor. Eu, Ivo e Gaim, instintivamente, deitamos nas respectivas camas, lendo o Globo Juvenil e escondemos a arma debaixo do travesseiro da cama do Ivo. O quarto parecia o “fog” de Londres, cheio de fumaça. Entra meu pai. O que foi isso perguntou?!! Foi uma bombinha, disse o Ivo. Bombinha coisa nenhuma!! Isso foi um tiro e onde está a arma? Ao puxar o cinto, o Ivo entregou lhe a garrucha. Papai tentou quebra-la na perna e no portal, não conseguiu. Colocou a garrucha na cinta e disse: Vou entregar ao delegado e amanhã, todos três de castigo, ajoelhados na porta da Farmácia ( o que realmente aconteceu). 

Meu tio João Pimentel possuía uma carabina Winchester 44, modelo 1873 (Henry). Na foto, o “sniper” sou eu. A pose e o tiro: perfeitos. Acertei onde queria.  A vasta cabeleira preta e a magreza, já foram embora há muito tempo. As carabinas Winchester foram fabricadas no Estado de Connecticut (USA) entre 1873 e 1919 mais de 200.000 exemplares. Nas mais antigas, o cano era oitavado e as mais “modernas” o cano cilíndrico. Foi arma da Cavalaria e da Infantaria do Exército norte americano e também do Exército brasileiro. A carabina era arma da cavalaria, tinha o cano mais curto; o rifle era usado pela infantaria e o cano mais comprido. A meninada do Herval e Ervália tomaram conhecimento das tais carabinas através dos filmes de bang-bang (ou faroeste) fartamente exibidos nos cinemas ervalenses. Primeiramente, no salão que ficava vizinho à Prefeitura (casa onde morou Sr. Albino) e, posteriormente na Rua Monsenhor Rodolfo. Nesse ponto me lembro de algumas pessoas inesquecíveis que ficaram na memória: Dona Sinhá, dona do Hotel e do cinema mãe do Tututa, meu amigo, e o Sr. José dos Reis dono da venda de secos e molhados e do cinema. Éramos todos fãs de carteirinha de Buck Jones, Tom Mix, Tim Mac Coe, Joel Mac Crea, JENY Autre, John Wayne e muitos outros. As carabinas presentes nos filmes ficaram obsoletas nos USA e foram vendidas. Participaram das revoluções mexicanas. Chegaram ao Brasil e espalhadas por todo o interior. Foram entregues aos seringueiros da Amazônia para defesa pessoal e, posteriormente, nas batalhas da Conquista do Acre liderada por Plácido de Castro. Em todas as áreas rurais brasileiras ficou conhecida, sempre nas mãos dos fazendeiros com o objetivo de defender seus bens e sua terra dos ladrões de gado e outros marginais antigos e modernos. Eram mais potentes e letais que as espingardas, as garruchas e os revólveres. Antigamente, a munição era carregada com pólvora negra; cada tiro era acompanhado de uma enorme nuvem de fumaça que saía da boca do cano. Anualmente, a CBC fabrica a munição que é mais potente e sem fumaça. A Winchester 44 do meu tio João Pimentel sumiu! (como quase todos os objetos existentes na fazenda e na casa da minha avó!!) Atualmente, os fazendeiros de quase todo o Brasil, tornaram -se vítimas de invasões; não podem mais defender sua família, seus bens e sua terra! E se o fizer, torna-se marginal e certamente irá preso e processado por ter disparado arma de fogo segundo a lei. Lei que foi leoninamente defendida no Congresso pelo- pasmem!!! Ex-governador cassado de Brasília. Que coisa meu Deus!!! 

Ainda sobre as carabinas Winchester a foto mostra os modelos fabricados no Brasil, pela Rossi. São lindas e bem feitas! Precisas, com alcance médio de 100/150 metros, dependendo do calibre, coloca o agressor bem distante do atirador. Desta vitrine, as melhores são as de calibres 44 e 357 Magnum. Esta última, apesar de ser fabricada no nosso país, não está ao alcance de nossas mãos. Paraguaio, Colombiano e até argentinos e cubanos, podem ter o prazer de possuí-las, nós não…O estatuto veta calibres como: 9mm, 45 ACP, 40AUT e 357 Magnum, reservados às forças armadas e policiais. Outro dia, numa favela do Rio de Janeiro, foi apreendida uma bazuca em poder dos traficantes. Pistolas 9mm ou 45, são comuns nas mãos de qualquer bandidinho!! Se você atirar num ladrão, dentro de sua casa, ou defender seu patrimônio e sua família, disparando uma arma de fogo, estará sob as penas da lei!! É o Brasil de hoje, de hoje não, de oito anos atrás!! Mas, o pior mesmo é a sociedade conviver com esses absurdos e não falar nada!! 

Foto do meu tio Alfredo Pimentel em sua estação de radioamador. Filiado à LABRE, com prefixo PY4 AP. Recebia e transmitia, falando ao microfone ou em código Morse para todos os países do mundo. Sua estação ficava num quarto dos fundos do sobrado onde foi morto o delegado de polícia chamado Deolindo!! Durante anos, prestou relevantes serviços de comunicação ajudando a todos e estabelecendo contato com todo mundo, até a eclosão da 2ª Guerra Mundial. A estação, como quase todas existentes no Brasil, naquela época, foi fechada pelo então pelo então Ministério da Guerra. Antes de residir no Herval, meu tio Alfredo viveu muitos anos no Rio e aqui se casou com tia Nenê. Trabalhou ate se aposentar na Empresa Hime Ind. e Com.  Minha avó contava que no dia da chegada ao Brasil, (o navio ancorado na Baía de Guanabara), uma forte rajada de vento jogou ao mar o quepe do Comandante! Num salto acrobático, meu tio Alfredo lançou-se ao mar e recolheu o boné. Na juventude foi remador do Clube Internacional de Regatas. Sempre admirei meu tio, pois, além de inteligente (sabia tudo) tinha uma linda caligrafia. Não sei se o sobrado ainda existe, mas era vizinho da casa da Dona Nicolina, excepcional doceira (até hoje sinto o gosto dos canudinhos, do figo cristalizado e dos bom-bocados que ela fazia) com esmero e perfeição! Era a mãe do Datinho que, juntamente com o risonho e delicado Senhor Pedro Lopes, tocavam tuba na Filarmônica São Luiz Gonzaga. Sei até hoje solfejar os dobrados…Pessoas que se fixaram em nossa mente e tornaram-se inesquecíveis e quando recordadas, nos trazem  pesar pelas perdas e, ao mesmo tempo, felicidade por ter convivido com elas. 

Sobrado mencionado com a casa de Dona Maria Nicolina a direita  do sobrado onde morou Alfredo Pimentel. Arquivos do Mudinho (João Antonino da Costa) 

Casa de Dona Maria Nicolina pouco antes da demolição para dar entrada para a Rua Prefeito Carlos Silva com parte do sobrado.  (Acervo: Casa da Cultura) 

Sobrado onde morou Alfredo Pimentel mencionado no texto,  foto de um Projeto de  2018.

Milton e Mário Miranda

    Passaram a maior parte de suas vidas na farmácia de meu pai. Milton herdou de Osvaldo tudo aquilo de excelente ele tinha e o aprendizado foi nota dez. Também excelente em tudo que fazia e faz até hoje. Um verdadeiro gentleman no lidar com as pessoas. Acrescento mais uma qualidade excepcional: gosta do que eu gosto! Milton acompanhou de perto todos aqueles anos de agonia do meu pai. Sempre atento e presente. Quando eu queria saber como estava o velho, ligava para a farmácia e Milton passava tudo para mim. Me ajudou a vestir meu pai quando do seu falecimento. Nunca esquecerei essa pessoa bondosa, dedicada e fiel. Mário Miranda era nervoso e ficava bravo quando ele passava pano molhado na farmácia, e logo após a gente entrava com a bicicleta em dia de chuva! A pobre bicicleta ia parar longe. Depois de alguns anos, saiu da farmácia e passou a trabalhar por conta própria. Adorava jogar na loteria mineira, e jogava futebol com um calção igualzinho aos que usam atualmente, até os joelhos. Estava na moda e não sabia. Pessoas que tenho o maior respeito e saudade. 

Esta foto foi batida na praça principal da cidade de Aparecida do Norte. Em primeiro plano, Ormindo Teixeira Barroso junto com Sr. Francisco Renna (Chico Renna para todos). Ao fundo a antiga Basílica da N. S. Aparecida. A atual só foi construída muito tempo depois. Nessa Igreja fiz a minha primeira comunhão. Cumprindo uma promessa feita pele tia Nenê, esposa do tio Alfredo, após me curar de uma pneumonia. Na foto menor, em que aparecemos eu, mamãe e papai, foi tirada nessa mesma ocasião, na porta do Hotel onde ficamos hospedados em julho de 1941!!! Lembro-me do bar do Sr. Chico Renna. Quatro portas dando para a rua principal defronte da casa do Sr. Francisco Mellim. Lá comprei muito picolé de coco, limão, abacaxi e groselha. Casado com D. Zilda tiveram vários filhos nascidos no Herval: Aparecida, Zélia (embora surda e muda ouvia rádio encostando uma caca apoiada no rádio e no seu ouvido e ainda cantava!!) Zizi, Chiquito e Isa. Meu pai e Chico Renna eram grandes amigos. Quando a Penicilina chegou a Ervália, meu pai pedia ao Sr. Chico para guardar todo o estoque na geladeira!!! Uma outra coisa sobre o bar que já não era mais do seu Chico: foi o primeiro bar em Ervália a ter reservado, isto é, locais para se beber cerveja sem ser visto ou acompanhado!!


 

Tributo às

Famílias Barroso e Pimentel 

Dona Ana Pimentel casada com meu tio João Pimentel. Meus padrinhos de batismo. Na fazenda ela fazia de tudo! Matava porco com uma só estocada e o coitado nem gemia. Sapecava, cortava, fazia linguiça, muitas latas de banha onde guardava o lombinho, o pernil, as costelas e os pés de porco; fazia torresmo e com o que sobrava, fazia sabão. Nunca comi um frango frito como o que ela fazia!! E os seus biscoitos de polvilho: eram deliciosos! Fazia queijo e manteiga, catava os ovos de galinha no quintal e fazia cada bolo sensacional. Eu gostava muito de passar uns tempos na fazenda. Minha tia era exímia pescadora. Sua puxada de linha na munheca era certeira,  o  lambari vinha tremendo todo. Eu o tirava do anzol e espetava na fieira. Certa manhã, após uma chuvarada, o rio transbordou. Minha tia foi pescar pois a enchente trazia muitos cascudos e lambaris. Fiquei atrás dela na beira do rio. A margem era alta, uns dois metros.  Num dado momento, não sei até hoje porque, empurrei a minha tia para dentro d’água!!! Ela era gordinha e foi água para todos os lados!! Agarrou nas canavieiras e gritou socorro. Os empregados vieram rápido e tiraram-na do rio!! Fiquei pensando se meu tio João iria me bater com o lado da fivela muito grande… Nada disso aconteceu. Arriou um cavalo e me devolveu! Aí, quando cheguei na farmácia, é que acertei contas com meu pai e depois com minha mãe. Meus tios não tiveram filhos, fato que os incomodava, incomodava minha vó e me incomodava. Perguntar porque, nem pensar. Ninguém tocava no assunto. Muitos anos depois fui visitar a fazenda que já tinha sido vendida. A casa em ruínas. O mato tomou conta do pomar; a horta não existia, o moinho que gerava luz também não, o retiro de ordenha e o coxo que ficava em frente à casa também já eram. Tanta fartura!! Na época do meu tio “Jão” João Pimentel, meu outro tio trouxe dos Estados Unidos, um rádio que só era ligado na Hora do Brasil, programa que meu tio gostava de ouvir. Os empregados do lado de fora da casa numa friagem dos meses de junho-julho. Perguntei a um deles: não querem entrar? E ouvi de resposta: agora não, estamos esperando seu João acabar de conversar com “rai”. Toda vez que eu chegava na fazenda minha tia Ana perguntava: Ney, você já encontrou com Sebastião lá no Rio de Janeiro? Seus olhos marejavam com minha resposta. (Sebastião, seu irmão mais velho, era o homem mais rico de São Geraldo!!) Minha mãe um dia foi visitar a Sílvia mulher do Sebastião, eu também fui. Foi triste ver a figura jogada no chão, sem roupas, na enfermaria do Hospital Pinel. A história do Sebastião foi um terrível drama. Daria um filme ou uma novela. Seu paradeiro até hoje desconhecido. Compreendi, então, o porquê os olhos de minha tia marejavam quando perguntavam por ele. 



Velha Casa

Pedro Pimentel

Velha Casa que és hoje o prazer estupendo
Que sinto, ao recordar, as vezes, minha vida,
Velha Casa onde vai a tristeza crescendo
A proporção que vais ficando envelhecida;

À sombra do teu teto amigo, que compreendo, 
Quanta vez receei o instante de partida
Nesta separação que vai fortalecendo
A profunda amizade entre nós dois nascida;

Foi nesse teu recinto espelhado de calma
Foi sob a guarda austera e leal das tuas portas
Que me senti crescer, e que formei minh’alma;

Foi aí, Velha Casa, em teu seio tristonho,
Que aprendi a sonhar com as emoções já mortas
E chorá-las, depois, ao fim de cada sonho! 

Esta foto onde aparece D. Maria da Conceição Rocha, Dona Vivica Rocha, outra benemérita do Ensino em Ervália. Basta observar como estão vestidas as meninas para se ter uma ideia de como Dona Vivica era caprichosa nos afazeres de educar na total plenitude da palavra. No verso do original da foto se lê: “Recordação do dia 26 de abril de 1923 da Escola de D. Maria da Conceição Rocha. Conheci mais de perto a casa onde  existia a escola através de Liló e guardo até hoje o bibelô que ele me deu. Será que a casa ainda existe? Trata-se de uma foto histórica e deve ser preservada!! O original fará parte do acervo da Casa da Cultura. As cópias servirão para pesquisa na identificação das pessoas que nelas aparecem. Quando eu ia a Ervália, Dona Vivica Rocha sempre perguntava pela minha mãe e meus irmãos. Era uma doçura de pessoa!

Tempo

            Tempo

                         Tempo

                                     Tempo

Quadrante solar ou relógio de sol, trabalho em pedra-sabão existente no adro da Igreja-matriz de Santo Antônio, em Tiradentes-MG

Já lhes confessei aqui, em 02/09/2010, a minha precária intimidade com a música popular brasileira quando comentei sobre a composição “Lagrimas que rolam pela face”, de Pixinguinha e Cândido das Neves, cantada por Orlando Silva. Salientei que, embora fosse mais chegado à música clássica (ópera), notei na interpretação daquele cantor popular uma sonoridade que me comoveu. A mesma comoção me vem agora ao ouvir o Caetano Veloso cantando, de sua autoria, o “Tempo, tempo, tempo”, com tal originalidade que me levou aos arroubos sentidos diante das grandes interpretações líricas. Caetano conseguiu, a cada vez que pronunciava a palavra tempo, uma dimensão espacial que me fazia lembrar alguns momentos cruciais das árias operísticas.

Com isto, dei-me conta de que o tema “tempo” sempre foi muito caro à minha composição poética, tratado em vários poemas quase sempre referentes à sua passagem ou à tentativa de apreendê-lo no mostrador dos relógios. Já falei em ampulheta, em relógio de sol, em várias sensações despertadas pela inexorável velocidade da vida ou sobre o decréscimo dela na proximidade da morte. Eis alguns dos exemplos:

Ampulheta ou relógio de areia

A FUGA DAS HORAS

Meu pobre coração está triste e sozinho
Como um relógio na penumbra de uma sala.
Não se lamenta – e sofre. O tic-tac fala
Da indecisão no meio de um caminho…
Mas vai batendo tic e vai batendo tac,
Numa cadência igual e com igual destaque,
Que o Tempo vai perdendo o seu mortal sentido!…

Se fosse uma saudade, um amor esquecido,
Diria que — ao invés dessa tampa que o envidra —
Que lhe assentava mais se fosse uma clepsydra
Para ir chorando, gota a gota, essa lembrança;
E quando se esvaísse a última das gotas,
Deixasse o Tempo sem marca e as horas ignotas
Fugirem, como foge a última esperança…

Se fosse uma saudade!… Uma recordação,
Dessas que existem sempre em nosso coração
(Como uma carta antiga em fundo de gaveta),
Talvez quisesse que ele fosse uma ampulheta
Para, de grão em grão, marcar essa ansiedade
De quem espera e diz: “Em vão eu esperei-a!”
Pois, filho do silêncio imenso, o grão de areia
Que veio do deserto exprime o que é saudade.

Se fosse uma saudade!… Ou mesmo uma incerteza
Que traz nossa alma da esperança presa!…
Se fosse uma saudade este meu mal-estar,
Meu coração seria um quadrante solar
Que a amplidão desses céus dia e noite vislumbra,
Pois que seria bem o símbolo do incerto,
De quem sabe estar longe a que quisera perto
E espera num sem-fim de sol e de penumbra…

Mas, não! Não é saudade o que sinto, nem que de
Triste há no tic-tac de um relógio de parede.
É o “spleen”, que me torna alheio e triste;
“Spleen” de ter buscado o que não mais existe…
De ter matado cedo a inocência, demais…
De querer seguir sem saber para onde…
De sempre resolver pelas questões fatais…
De revelar aquilo que se esconde
No íntimo do ser… E esta vontade
De ser mais real que a própria realidade…

Ainda esgotara a borra dos séculos; ainda
Gostaria de andar pelos recantos virgens
E de esperar a que não vem…

                                            Mas, já se finda

O ardor, e o tédio principia…

                                            Ah! as vertigens

De Absoluto e de Eterno, aos poucos deliquescem…
E as Horas, sem parar, a longa teia tecem
— Ardil que freia o movimento, rede
Que tolhe o sonho e que não posso mais quebrá-la…

E sou o tic-tac de um relógio de parede,
Triste e sozinho na penumbra de uma sala…

(1947)      

Campanário São João del Rey

A MORTE DAS HORAS

Quando passar o Tempo que me resta
No relógio-das-horas-do-Destino,
Meu pobre coração, qual velho sino
Que à tarde azul melancolia empresta,

Há de cantar, num dobre vespertino,
Toda a tristeza que não manifesta!
… Ah! um sol de outono a minha vida cresta!…
Adeus, último raio purpurino!…

Sofro a angústia das horas mortas… Peno-a
No caminhar das horas para a hora
Final… E o coração, cansado músculo,

Se alvoroçando na esperança ingênua
De ressurgir inda uma vez na aurora,
Sabendo que é seu último crepúsculo!…

(1947)

A Primavera (detalhe), de Sandro Botticelli

A DANÇA DAS HORAS

Fugìt irreparabile tempus

VIRGÍLIO, Geórgicas

Dançando as horas se vão
Pelos caminhos do Tempo
Numa leveza de pluma…
Quem vedes na marcação
Do compasso e contratempo ?

– Uma. 

Dançando se vão as horas
Sob os véus de fina gaze
Dançarinas seminuas…
Quem dança, das mais sonoras,
Esta belíssima frase?

– Duas.

Rapidamente bailando,
Cada qual mais erradia,
Desfila por sua vez.
E aquela, aos poucos finando
Nos horizontes do dia?

– Três. 

Vão dançando a tarantela…
– Mas, daúltima, o perfil
Me parece horrível e atro.
Ah! não falemos daquela;
Esta aqui é mais gentil.

– Quatro. 

Sabeis acaso do nome
Da de vestido de faile
Que lhe queda como um brinco?
Que pena! Logo se some …
A mais ligeira do baile!

– Cinco. 

E aquela, de azul vestida,
Tão triste no seu bailar,
Seu nome acaso sabeis?
Parece o adeus da partida
Para nunca mais voltar…

– Seis. 

E esta, bailando qual fronde
Ao vento que vem do mar
Em que a lua se reflete?
Trajada como o “gran” monde”;
Esbelta no seu bailar?!

– Sete.

Vós me enganais no bailar:
Sei que passais sem demora
(Quisera ser tão afoito
Que vos pudesse parar).
Mas, e esta que dança agora?

– Oito. 

Sob os vestidos de gazes
Trazeis convosco a ruína;
Vosso olhar não me comove,
Falazes horas, falazes…
Mas, e aquela bailarina?

– Nove. 

Dançou o rápido “allegro”;
Nem sequer o rosto olhou-me
Eeu mal notei os seus pés.
E esta, vestida de negro,
Sabeis acaso o seu nome?

– Dez. 

Agora passam mais lentas:
Vede aquela que aí vem
Dando passadas de bronze
Pelas horas sonolentas…
Que nome será que tem?

– Onze. 

Aquela outra que se arrasta
Custando tanto a passar,
Que eternamente repouse
Já de tão velha e tão gasta.
Como se deve chamar?

– Doze. 

Fechando o ciclo fugace
A de perfil atro vem
E nos leva em seu transporte.
Pois dessa, de horrenda face,
Dizei-me o nome, se tem?!

– MORTE.


Havia também um soneto de que eu gostava muito, mas cujo original não consegui, até agora, encontrar. Começava assim: 

Antigamente este relógio ardia

No fogo juvenil das alvoradas:

Avançava correndo pelo dia

No galope das horas desvairadas

E ao chegar exultante ao meio-dia,

Desfazia nas doze badaladas 

Toda a glória ardente que existia

Na exaltação das vidas rebeladas

Mas hoje envelhecido…

E ao chegar à meia-noite, mais parece

Cruzar os dedos trêmulos em prece 

– essas lanças viris de outras idades –

E soluça embargado na velhice

Um som que lembra o estertor da morte. 

Nascido em 1932, estaria fazendo hoje 89 anos.

NEY JULIÃO BARROSO

SAUDADES PERENES

Leia mais sobre o Ney:

ANIVERSÁRIO DO NEY (10.07.1932)

FOOTBALL

PARABÉNS SILENCIOSOS

MAIS UMA SAUDADE

HOMENAGEM PÓSTUMA

Além do já consagrado MILTON REZENDE, com vários livros de versos publicados, alguns dos quais resenhamos aqui na GAVETA, surge-nos agora, para nossa grata surpresa, o nome de CRISTIANO DURÃES EVANGELISTA, igualmente nascido na promissora terra de ERVÁLIA-MG, nosso berço natal. CRISTIANO é um verdadeiro fenômeno literário: mal saiu de Ervália (fez um ou dois cursos em Viçosa-MG), nunca veio ao Rio e ainda não viu o mar. Apesar disso e de sua pouca idade (creio que tem uns vinte e pouco anos — ainda não cheguei a verificar), ele domina a arte do verso e se mostrou um crítico literário de alta envergadura pelo conhecimento das técnicas, dos alcances e dos extremos da arte de criar. Dele os nossos leitores já conhecem ou podem apreciar aqui agora o excelente (e para mim surpreendente) ensaio que fez sobre o meu poema PAPEL & CHÃO, um momento literário que sem falsa modéstia encerra alguns ápices da técnica do verso e dos arroubos da imaginação. Suspeitei que ele também, além de arguto crítico, escrevesse versos e acertei na suspeita. Cristiano mandou-me a amostra de sua criação literária autônoma, que me apresso em compartilhar com os leitores da GAVETA.  Vejam só!


P   O   E   U   T   I   C   A

Cristiano Durães

Paz Decidida

Sento-me e encontro na dureza dos meus ossos o desejo de amolecer-me. Respiro consciente e procuro dar-me às coisas, deixar o vento falar e ouvi-lo entre os motores e a fala engrenada do homem. Em mim ainda assopra algum rastro de serenidade. É preciso encontrá-lo, deixar as palavras dizerem-se sem vergonha e sem pressa. É preciso diminuir o fluxo indomável da minha vontade de mim mesmo. 

Escrevo saboreando o gosto amargo das folhas revoltadas das árvores sem nome, flores ou frutos. Estão rígidas e firmes em ser o que são, essencialmente. Eu ainda não sei ao certo o que deu voo a esses pensamentos, o que me fartou de sensações meteóricas, eclodindo em baques graves de reflexões vazias… Mas, não posso… agora não posso deixar o estrondo me fazer tremer. Agora o vento me disse outros capítulos da mesma história. Então, por agora passarei do ponto. Vou deixar-me andar, ouvir também o que o mundo tem a dizer. 

Descobri que há motivos para fingir uma nova esperança. Nisso, seria nítida a moleza do corpo e da alma. Contemplar-se é só manter-se basicamente agradável, e tudo isso pode se parecer com liberdade. Existem desafios. Prisões me petrificam. Sonhos mal sonhados, amores não amados, poemas não escritos, livros não publicados, iniciativas não acabadas, , tempos verbais confusos e parágrafos inúteis.

 Mas deixa lá. Eu sou essas árvores de quintal abandonado. O tempo faz a poda dos galhos podres. Se dissolverão em matéria base para outro galho que emergirá no chão e brotará no mundo. As folhas olharão altas e então toda a inércia finalmente se tornará descanso.

                  Juiz de Fora, 09 de agosto de 2018


V     o     z    e    s

Deixei morrer em mim
 aquela ânsia por um grito,
 afogado no atrito e na paz
dos mortos e feridos,
dos doentes e famintos,
dos nossos dias estáticos.

Tenho sido por inteiro
 um pedaço do quis ser 
e tenho deixado os adiamentos 
adiantarem o meu dia a dia 
em dias escuros, noites fugidias.

Pago em dia o meu medo do que faço.
 Mesmo assim estou prostrado à lama,
 e escorrego na aspereza do cansaço
 e na inércia sem descanso.

Deixei viver ainda 
as palavras mal ditas, 
os malditos ditames da poesia
 e tenho estado entregue ao nocaute 
como quem reconhece no desmaio
 a última oportunidade de um sono tranquilo.

Ainda assim,
 o encontro com o espelho, 
o farejar dos meus olhos que se entreolham; 
as olheiras mudas, 
a boca funda, 
enfim, tudo; 
É miudeza me fazendo crer 
na razão envolvendo meu rosto.

E a contemplação dessa forma de eu, 
dessa profusão de termos idos e vindos, 
é como o resultado que tenho de mim 
para contrapor o que estou 
do que finalmente sou.

Ervália, 12.03.2019


II

O que não finda é agora.
 Agora é tudo aquilo que não se recorta, 
é toda tradição cravada e esquecida
que finge não ser. 

Todo conceito vivo é insuficiente. 
Vive cheio de sentidos demais
 e o homem precisa de tempo 
pra alimentar sentimentos sem fome. 

Viçosa, 04.05.2019


III

A voz é a vontade de existir
que quando incapaz transforma o nada
e ecoa a presença de uma ausência.
Se me foge às mãos
tudo que os olhos fotografam,
conjuro desejos em nuances de concretude.
Juro a tactilidade do sopro vivo
e rompo-me no silêncio de poemas
muitas vezes malditos.

A voz não está na boca
e divide o vazio com o papel
ciente de que o eco retoma
outros sentidos reverberados
que o papel julgou contrariar.

 Viçosa, 03.07.2019


IV

O artista simbólico,
o corpo também.
A obra agora é nossa
e a realidade tem estado
sempre em nossas mãos.
Tuas mãos e as minhas
são nossas, e o que é nosso
se desenvolve exterior
ao que por essência é
o teu e o meu.

Diluído o gênero,
tudo agora se desmascara.
O aspecto figurativo
some no espaço
e transfaz-se em viver
sem interrupção;
em constante ruptura. 

Viçosa, 13.07.2019


V

Cá estou,
fazendo literatura nua
numa aula de literatura,
como se os nomes dos poetas
em suas veleidades estético-sentimentais
fossem dar infinitude às minhas bobagens.

Existe entre as coisas um certo ponto
não mensurável, que não se constata,
mas que as fazem poesia:
Cabral cata feijão em delongas poéticas
e mastiga as pedras como se gostasse.
Milton revira a terra da sepultura
e garimpa da existência suas mais incertas exatidões.

 Eu demoro na vida,
adio os poemas
e durmo com fome.

Eu sigo velho sem idade,
preso nos arrolhos de mim.
Estou sentado,
esquecido do tempo
e daquela caneta que ficou em casa.
Um poema perdido talvez fosse a obra perfeita…
A companheira de classe detém a única cópia.

Um dia, quando em mim toda vida resolver-se morte,
talvez entre as páginas ignoradas,
esquecidas no caderno ou na janela do chat,
 na linha do tempo do Facebook;
a obra prima única e inédita
esteja a se desentranhar do útero.
Cultivando os primeiros olhares
para ser palavra de fundo pra outro poeta escrever,
durante a aula,
o quanto nada lhe cabe
enquanto não cabe em nada.

Viçosa, 13.07.2019


Nau & Nós 

Desliguei o computador.

Adiadas, as ideias ficaram

Escanteadas para o amanhã.

Teria meu encontro com a dor? Lamberia seus pés?

Sorveria seus abismos?

Talvez não. As manhãs tem chegado
Em todos os dias que anoitecem.
Iluminados?
Estamos demais.
Por tanta luz não somos aptos a ler nossas sombras.

Eu e eu.

Relação pintada em poemas

Pretos e brancos, barcos

Que não estão à deriva,

Seguem incógnitos cursos.

Não vemos a nos guiar o céu:

Antes papel e fleuma

Nos levarão a tal distância,

Tal destino a comer léguas no mar.

Por muito tempo…

Já faz mais de ano que buscamos

E nada distinguimos nas distâncias,

perdemos os ventos que nos levariam.

Sabíamos do risco, era a rota natural:

Espatifar na pedra os desejos

Essencialmente náufragos.

Foi então que a chuva chegou.
Chamava nossos nomes
Zunia no zinco das coberturas
Cobria o azul do céu com cinza
Zombava das nossas cores
Com raios repentes
Restritos a olhos atentos.
Estávamos todos a guardar varais
Quando trovejaram sobre nós
Ventos de aventuras literárias.
Prevíamos perigos;
E ainda assim, era o medo
Que rangia nossos cascos
Estufava e apagava nossas velas.
Antes, daqui, nossos olhos viam.
Abraçavam pastos e nelores,
Motos, bicicletas e pedestres.
Berravam a vida, usavam todas as tintas
E pintavam o dia visto da janela.

Agora, pouco depois daquele prédio,
O véu ziguezagueante das águas
Espanta os transeuntes de chinelo,
Encapa de couro os motoboys
E fecha os vidros dos carros.

Agora, cada gota de novembro

É um espelho, uma oportunidade

De contemplar da janela não bois

Não prédios, não vidas,

Mas nós: centelhas livres

Encarceradas na janela,

A olhar pra dentro de casa.

Encontramos a sujeira dos cantos
E ignoramos, a chuva pede paz.
Detectamos na falta de energia
Provocada pela energia dos raios
Objetos inúteis que reinventaremos:
Os violões e flautas esquecidos
Terão física racional e humanidade.

Quando caiu a noite

Caiu em nós o mesmo caos

Da chuva que ainda caía.

Já são poucos os prédios daqui

e eles mesmos já não subiam.

Apenas postes de LED novíssimos,

os velhos piscas dos natais

rasgam a lógica da cegueira

da chuva muita que descia.

Perderemos estradas, pontes,

cavalos e plantações despreparadas.

Em alguns bares,

bêbados bicarão mais uma pinga do alambique,

Cientes que a chuva

é sempre bom pretexto

Para uma estrada mal gerida

E o gesto a denunciar o gosto,

A gastura do beber a pinga.

Mais uma…

Digestos estamos enfim

Presos em nossos temporais diversos

e nossos dejetos foram levados

pelo desejo sem viés do velho Turvão.

Já fazemos muito caso da luz que faltou

Que o violão não consegue iluminar,

Visto que a mão cega, trasteja os acordes,

Acode o olho a tatear
O mundo e seus trejeitos não palpáveis.
Mas quando o mais ridículo dos gestos
Ganha atos e ares de vergonha

O zunir das chuvas no zinco

Se esvai.

Ficam os olhos

Bobos de fato.

Rimos sem saber

Se a sombra do vazio em breu

Não era melhor que o farol dos nossos tetos

a revelar os nossos textos.

E mesmo que a chuva volte a zunir
Somos agora uma tripulação em choque.
Nossas velas estão frouxas de vendaval
Cessaremos os rumos, clamando
Às nuvens censuradas
Que galguem seus caminhos.

Ficaram os trastes da chuva

Empoçados no asfalto.

Neblina igual à do dia

em que visitamos o cemitério,

compramos pão na padaria

e partimos para o luto no lar.

Já estamos cansados demais

para voltarmos à janela.

Ficaremos aqui.

Dormiremos.

Estaremos enfim,

Nós,

Eu e eu,

Atados,

Esquecidos

Se caía, se corria…

Esquecidos da direção.

Ervália 24.01.2020

MAIS UM ANO

Querido irmão, a proximidade da data crucial de sua morte moveu-me a mão, há muito endurecida, para escrever estas linhas. Que não sei se dirigidas a você ou se falam diretamente a mim, incentivando-me a escrever de novo, a forçar os dedos enrijecidos a encontrarem as teclas fugitivas do computador.

Seis anos… em plena pandemia, sem um abraço, sem a presença de um riso. Sobreviver num limbo como se também já tivéssemos morrido. E sem você.

Desculpa, irmão, esta choradeira inútil, infantil, do Bibi que acompanhava o Julião nas suas peraltices… Somos salvos apenas pela lembrança, já é alguma coisa. Onde estiveres pede por nós!

Beijos do mano, Ivo.

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