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Ney, filho do S’ Ormindo
——PRESENTE 

Ney, goleiro e dono da bola
——PRESENTE 

Ney, amigo do Tututa e rival do Don Del Oro
——PRESENTE 

Ney, aluno de Dona Nenzinha
——PRESENTE 

Ney Julião, nascido em julho de 1932
——PRESENTE 

Ney, apelidado de Góis por ter bochechas iguais ao do Gal. Góis Monteiro
——PRESENTE 

Ney, benfeitor da Biblioteca de Ervália

——PRESENTE 

Ney, marido da Conceiça e pai da Claudinha e Marco Antônio

——PRESENTE 

Ney, torcedor doente e sócio-diretor do Fluminense

——PRESENTE 

Ney, professor emérito do Pedro II

——PRESENTE 

Ney, idolatrado por seus alunos e colegas professores
——PRESENTE 

NEY, a alegria dos amigos com seus causos do Herval
——PRESENTE 

NEY, dos mil e um atributos entre os quais o de meu irmão querido: 

É com a maior angústia que constato a sua ausência há cinco anos 

E vibro de alegria ao lembrar que está presente em tudo e todos nós. 

Não se morre, ausenta-se inexplicavelmente por uns tempos. 

Leia mais sobre o Professor Ney, aqui: 

Homenagem póstuma

Mais uma saudade

Parabéns silenciosos

Football

Éramos quatro

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 Leia as homenagens da Gaveta ao Dia dos Namorados aqui.


 Os leitores talvez estejam lembrados, quando tracei aqui dois retratos de Mário Faustino, do modo como fui parar na redação do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil em 1956: eu lhe mandara uma tradução do III Soneto a Orfeu, de Rainer Maria Rilke, para sair na seção “Poema Traduzido”, e ele o publicou em “O Poeta Novo”, com um grande elogio; passei a considerar-me um realizado tradutor de poesia. Embora esteja em meu livro de traduções “O Torso e o Gato”, nunca divulguei aqui esse extraordinário poema, síntese de toda a filosofia poética de Rilke. Faço-o agora: 

Ein Gott vermags. Wie aber, sag mir, soll
ein Mann ihm folgen durch die schmale Leier?
Sein Sinn ist Zwiespalt. An der Kreuzung zweier
Herzwege steht kein Tempel für Apoll.

Gesang, wie du ihn lehrst, ist nicht Begehr,
nicht Werbung um ein endlich noch Erreichtes;
Gesang ist Dasein. Für den Gott ein Leichtes.
Wann aber sind wir? Und wann wendet er

an unser Sein die Erde und die Sterne?
Dies ists nicht, Jüngling, Daß du liebst, wenn auch
die Stimme dann den Mund dir aufstößt, – lerne

vergessen, daß du aufsangst. Das verrinnt.
In Wahrheit singen, ist ein andrer Hauch.
Ein Hauch um nichts. Ein Wehn im Gott. Ein Wind.

Aus: Die Sonette an Orpheus, Erster Teil (1922)

Eis a minha tradução, apreciada por Faustino: 

Um Deus o pode. Mas, da lira ao solo,
há-de o homem consegui-lo? À dissensão
tendemos, e não há Templo de Apolo
no enredar dos ramais do coração.

O canto, como o queres, não são teus
desejos, nem a busca do atingível.
Cantar é ser. Tão fácil para o Deus!
Mas, quando o somos?  E Ele, quando ao nível 

de nosso  olhar  o céu e a terra estende?
Jovem no amor ainda não és, conquanto 
a palavra te suba ao lábio. Aprende

A esquecer que cantaste. E sem alento.
Uma outra coisa é o verdadeiro canto.
Um sopro ao nada. Um voo em Deus. Um vento.

 

A Gaveta está repleta de posts referentes a Rilke: 

Senhores, é tempo de Rilke aqui 19.04.11 

Um poema de Rilke traduzido por Ivo Barroso aqui 01.09.10 

E principalmente – não deixe de ler – 

RMR: o poeta ofendido e humilhado aqui 16.07.11 

O leitor encontrará aqui na Gaveta várias referências ao tema:

Poema testamento 08.05.11 aqui

Dois poemas em homenagem ao Dia 12.05.12 aqui

Mãe em dobro 08.05.16 aqui

Divina mentira 21.02.18 aqui

Um retrato de mãe 12.05.18 aqui


Adendo ao post UM RETRATO DE MÃE (12.05.18) segunda parte
ANTOLOGIA POÉTICA DA GAVETA – NÚMERO ESPECIAL 

Embora tenham sido dois dos maiores prosadores da literatura brasileira, Machado de Assis (1839-1908) e Coelho Neto (1864-1934) insistiam em se considerar também poetas. Machado, no auge de sua glória de romancista, não deixava de publicar, de tempos em tempos, uma coletânea de versos: Crisálidas, (1864), Falenas, (1870), Americanas, (1875), Ocidentais, (1880), e até mesmo as suas Poesias Completas, (1901). É verdade que em sua produção poética, há alguns poemas seus que podem ser considerados representativos para a época (A Mosca Azul, Círculo Vicioso, Soneto de Natal, o soneto a Carolina e sua tradução (paráfrase) de O Corvo, de Edgar Allan Poe, que têm, segundo Manuel Bandeira, seu antologista, “a mesma excelente qualidade dos seus melhores contos e romances”. Já Coelho Neto, dele só conhecemos o famoso soneto Ser Mãe, sem dúvida a peça poética mais representativa de nossa literatura sobre o tema da maternidade. O soneto é bem feitinho, métrica correta, decassílabos com ictos na 6ª. e 10ª. exceto o 3º verso que adota o sistema 4, 8 e 10. Assunto bem desenvolvido, embora haja uma certa indecisão nos 2º e 3º versos; rimas ricas, pouco usuais. Valeu! Emplacou sendo a nossa melhor homenagem literária ao Dia das Mães.

Machado também prestou sua homenagem materna sob a forma de uma paráfrase ou imitação (como diz ele) do poeta inglês William Cowper (1731-1800). O cotejo com o original revela pouquíssima semelhança como texto inglês, tratando-se mais de um exercício poético sobre o tema. Eis o original, caso queiram conferir:

 

In Receipt Of My Mother’s Picture

BY WILLIAM COWPER

Oh that those lips had language! Life has pass’d

With me but roughly since I heard thee last.

Those lips are thine—thy own sweet smiles I see,

The same that oft in childhood solaced me;

Voice only fails, else, how distinct they say,

“Grieve not, my child, chase all thy fears away!” AA

The meek intelligence of those dear eyes

(Blest be the art that can immortalize,

The art that baffles time’s tyrannic claim

To quench it) here shines on me still the same.

 

Faithful remembrancer of one so dear,

Oh welcome guest, though unexpected, here!

Who bidd’st me honour with an artless song,

Affectionate, a mother lost so long,

I will obey, not willingly alone,

But gladly, as the precept were her own;

And, while that face renews my filial grief,

Fancy shall weave a charm for my relief—

Shall steep me in Elysian reverie,

A momentary dream, that thou art she.

 

My mother! when I learn’d that thou wast dead,

Say, wast thou conscious of the tears I shed?

Hover’d thy spirit o’er thy sorrowing son,

Wretch even then, life’s journey just begun?

Perhaps thou gav’st me, though unseen, a kiss;

Perhaps a tear, if souls can weep in bliss—

Ah that maternal smile! it answers—Yes.

I heard the bell toll’d on thy burial day,

I saw the hearse that bore thee slow away,

And, turning from my nurs’ry window, drew

A long, long sigh, and wept a last adieu!

But was it such?—It was.—Where thou art gone

Adieus and farewells are a sound unknown.

May I but meet thee on that peaceful shore,

The parting sound shall pass my lips no more!

Thy maidens griev’d themselves at my concern,

Oft gave me promise of a quick return.

What ardently I wish’d, I long believ’d,

And, disappointed still, was still deceiv’d;

By disappointment every day beguil’d,

Dupe of to-morrow even from a child.

Thus many a sad to-morrow came and went,

Till, all my stock of infant sorrow spent,

I learn’d at last submission to my lot;

But, though I less deplor’d thee, ne’er forgot.

 

Where once we dwelt our name is heard no more,

Children not thine have trod my nurs’ry floor;

And where the gard’ner Robin, day by day,

Drew me to school along the public way,

Delighted with my bauble coach, and wrapt

In scarlet mantle warm, and velvet capt,

‘Tis now become a history little known,

That once we call’d the past’ral house our own.

Short-liv’d possession! but the record fair

That mem’ry keeps of all thy kindness there,

Still outlives many a storm that has effac’d

A thousand other themes less deeply trac’d.

Thy nightly visits to my chamber made,

That thou might’st know me safe and warmly laid;

Thy morning bounties ere I left my home,

The biscuit, or confectionary plum;

The fragrant waters on my cheeks bestow’d

By thy own hand, till fresh they shone and glow’d;

All this, and more endearing still than all,

Thy constant flow of love, that knew no fall,

Ne’er roughen’d by those cataracts and brakes

That humour interpos’d too often makes;

All this still legible in mem’ry’s page,

And still to be so, to my latest age,

Adds joy to duty, makes me glad to pay

Such honours to thee as my numbers may;

Perhaps a frail memorial, but sincere,

Not scorn’d in heav’n, though little notic’d here.

 

Could time, his flight revers’d, restore the hours,

When, playing with thy vesture’s tissued flow’rs,

The violet, the pink, and jessamine,

I prick’d them into paper with a pin,

(And thou wast happier than myself the while,

Would’st softly speak, and stroke my head and smile)

Could those few pleasant hours again appear,

Might one wish bring them, would I wish them here?

I would not trust my heart—the dear delight

Seems so to be desir’d, perhaps I might.—

But no—what here we call our life is such,

So little to be lov’d, and thou so much,

That I should ill requite thee to constrain

Thy unbound spirit into bonds again.

 

Thou, as a gallant bark from Albion’s coast

(The storms all weather’d and the ocean cross’d)

Shoots into port at some well-haven’d isle,

Where spices breathe and brighter seasons smile,

There sits quiescent on the floods that show

Her beauteous form reflected clear below,

While airs impregnated with incense play

Around her, fanning light her streamers gay;

So thou, with sails how swift! hast reach’d the shore

“Where tempests never beat nor billows roar,”

And thy lov’d consort on the dang’rous tide

Of life, long since, has anchor’d at thy side.

But me, scarce hoping to attain that rest,

Always from port withheld, always distress’d—

Me howling winds drive devious, tempest toss’d,

Sails ript, seams op’ning wide, and compass lost,

And day by day some current’s thwarting force

Sets me more distant from a prosp’rous course.

But oh the thought, that thou art safe, and he!

That thought is joy, arrive what may to me.

My boast is not that I deduce my birth

From loins enthron’d, and rulers of the earth;

But higher far my proud pretensions rise—

The son of parents pass’d into the skies.

And now, farewell—time, unrevok’d, has run

His wonted course, yet what I wish’d is done.

By contemplation’s help, not sought in vain,

I seem t’ have liv’d my childhood o’er again;

To have renew’d the joys that once were mine,

Without the sin of violating thine:

And, while the wings of fancy still are free,

And I can view this mimic shew of thee,

Time has but half succeeded in his theft—

Thyself remov’d, thy power to sooth me left.

No dia 25.03.2016, ou seja, na Semana Santa de há três anos passados, publiquei aqui na Gaveta  um trecho do belo poema de Miguel de Unamuno sobre o impressionante Cristo, de Velásquez.

Era só uma primeira parte que me apressei em mostrar aos leitores em comemoração daquela data.

Fiz acompanhar aqueles versos de uma apreciação sobre o quadro do mestre espanhol (Diego Velásquez) e também de uma nota sobre o autor do poema (Miguel de Unamuno), que podem (e devem) ser relidas AQUI.

Na Semana Santa de agora, passados três anos e num momento de profunda depressão, animo-me a apresentar aos leitores o texto final do poema, numa tradução dedicada ao meu prestimoso amigo José Carlos Teixeira.

 

ALVA

Branco estás como o céu que, no nascente,

Está a branca alvorada antes que o sol

Surja do limbo da terra que é a noite:

Que alvor de aurora deste à nossa vida

Que retorna da morte em alva, pórtico

Do dia eterno; branco qual a nuvem

Que em coluna guiava no deserto

O povo do Senhor, enquanto o dia

Durava.  Tal como a neve dos cumes

Qual ermitãs, seguras pelo céu,

Donde reverberava sem estorvo o sol;

De teu corpo, cimeira desta vida,

Resvalam cristalinas águas puras,

Espelho claro dessa luz celeste,

Para regar cavernas subterrâneas

Envoltas pelas trevas nos abismos.

Como o pico altíssimo, de noite,

Qual lua que anuncia a alva aos que vivem

Perdidos em barrancos, fossas fundas,

Assim teu corpo níveo, que é o cimo

Da humanidade e é manancial de Deus,

Proclama em nossa noite o eterno alvor!

ORAÇÃO FINAL

Tu que emudeces, Cristo, para ouvir-nos,

ouve de nossos peitos os soluços;

acolhe as nossas queixas, os gemidos

deste vale de lágrimas. A Ti,

Cristo Jesus, clamamos desde o fundo

De nosso abismo de miséria humana,

E Tu, do alto da branca humanidade

Dá-nos a água de tua neve. Águia

Branca que ao voar o céu abarcas,

O teu sangue pedimos; tua vinha,

O vinho que consola ao embriagar-nos;

A Ti, Lua de Deus, o doce lume

Que na noite nos diz que o Sol persiste

E nos espera; a Ti, coluna forte,

Arrimo em que pousar; oh Hóstia Santa,

Te pedimos o pão desta jornada

Para Deus, como esmola; e te pedimos

A Ti, ó Cordeiro de Deus que lavas

Os pecados do mundo, o velocino

De ouro de teu sangue; te pedimos

A Ti, a rosa do sarçal bravio,

A luz que não se extingue, a luz que ensina

Como Deus é quem é; a Ti que és a ânfora

Do divino licor, que o néctar deites

De eternidade em nossos corações.

Traz-nos o reino de teu Pai, ó Cristo,

Que é o reino de Deus, reino do Homem!

Dá-nos vida, Jesus, que é labareda

Que aquece e que alumia e que em pábulo

Encerrado em vasilha se mantém;

Vida que é chama, que no tempo vive

E em ondas, como o rio, se sucede.

***

Avançamos, Senhor, nós, indigentes.

As almas em andrajos, em farrapos

Qual palha que nas eiras revolteia

Quando sobre ela sopra uma rajada,

Envoltos pela tromba tempestuosa

De aguerridas negruras; faz brilhar

Tua brancura, ó caiação da abóbada

Dessa infinita casa de teu Pai

— o lar da eternidade — no caminho

De nossa marcha e da esperança sólida

E sobre nós enquanto exista Deus!

De pé e com os braços bem abertos

E estendida a direita sem descanso.

Faz-nos cruzar a vida pedregosa

– encosta de Calvário – sustentados

Pelo dever dos cravos, e morramos

De pé, qual tu e braços bem abertos

Como Tu, subamos para a glória

De pé, para que Deus de pé nos fale

E com os braços estendidos. Dá-me,

Senhor, que quando ao fim erre eu perdido

Possa da noite tenebrosa

Em que sonhando o coração se ateia,

E me entre no dia que não finda,

Meus olhos fixos no teu claro corpo.

Filho do Homem, completa Humanidade,

Na não-criada luz que nunca morre

Meus olhos fixos em teus olhos, Cristo,

Meu olhar afogado em Ti, Senhor!

 

ASH-WEDNESDAY – QUARTA-FEIRA DE CINZAS

UM POEMA DE T. S. ELIOT TRADUZIDO EM 06.03.2019

POR IVO BARROSO

Porque não espero retornar jamais
porque já não espero
porque já não espero retornar
desejando deste os dons, daquele o intento
já não me empenho em empenhar-me em tais empresas
(por que abriria a velha águia as asas presas?)
Por que então haveria de chorar
A força consumida de meus dons habituais?

Porque já não espero conhecer
A glória infirme da hora derradeira
Porque não creio
Porque sei que nunca saberei
A única transitória força verdadeira
Porque não posso beber dessa
água onde as árvores florescem e as fontes fluem, pois nada recomeça.

Porque sei que o tempo é sempre o tempo
E que o espaço é apenas o espaço
E que o agora só é o agora por um tempo
E apenas num lugar
Exalto-me por serem as coisas o que são
E renuncio à face abençoada
E renuncio a essa voz do alto
Porque já não espero retornar
E por isso me exalto, tendo de construir algo
De que me possa exaltar.

E rogo a Deus que de nós tenha piedade
E rogo para que eu possa esquecer
Os temas que comigo sem cessar discuto
Tentando me explicar

Porque já não espero retornar
Que estas palavras respondam por si sós
Pelo que foi feito, e não pelo que de novo se faria
E que a sentença não pese tanto sobre nós.

Porque estas asas que voaram agora já não voam
Mas simplesmente adejam pelo ar
No ar agora inteiramente exíguo e seco
Mais exíguo e seco ainda que a vontade
Que nos ensina a cuidar e não cuidar
Nos ensina a calados nos sentar.

Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte
Rogai por nós agora e na hora de nossa morte.

SONETO DA JUVENTUDE (1943) DE IVO BARROSO

 

Que mascara usarei na fantasia
de mais um dia que se vai? eu, que uso
uma face diversa cada dia,
que mais difunde meu perfil difuso?!

Estranhas mutações em mim produzo;
mas, apesar da face fugidia,
que tédio o meu, ao ver que me conduzo
exatamente igual ao que seria!…

E ao romper, cada noite, o meu disfarce
que tanto êxito fez, a alma abatida
vê que não paga a pena mascarar-se

e que aspira, fremente, para si,
ter realmente vivido aquela vida
que os meus amigos pensam que vivi.

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