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Cronologicamente, a Gaveta estaria completando hoje sete anos de publicação. Sete anos! Sete, número cabalístico. Deus criou o mundo em sete dias. Sete são os pecados capitais. Sete os dias da semana. Sete as maravilhas do mundo. Sete os sábios da Grécia. As virtudes humanas. São sete as propriedades da matéria. Sete as notas da escala diatônica. As sete cores do arco-íris. Os sete braços da menorah. E eram sete os anões da Branca de Neve. Se quisermos prosseguir, podemos entrar no campo das expressões em que aparece a palavra sete, como pintar o sete, botas de sete léguas, cova de sete palmos. Nem vale a pena apelar para o setestrelo, pois são poucos os dicionários que o consignam.

Como o Senhor descansou no sétimo dia, seria o caso de achar que já trabalhamos o suficiente, que nossa missão pode ser dada por cumprida…  Dar adeus aos nossos queridos leitores… Mas, não, vamos comemorar este sétimo aniversário apenas fechando a gaveta por sete semanas; isto, não se assustem, sete semanas, pouco mais que um mês e meio de merecidas férias e logo voltaremos quem sabe até com fôlego de sete gatos.

Brincadeira à parte, despedimo-nos hoje dos leitores com – para nós — a definitiva consagração do número sete em literatura: este imortal soneto de Camões, uma joia literária perfeita, da qual nada se pode tirar nem acrescentar:

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
assim lhe era negada a sua pastora,
como se não a tivera merecida,

começou a servir outros sete anos,
dizendo: Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida!

 

 

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Quando da publicação da obra completa de Rimbaud, editada pela Topbooks e traduzida por mim, várias apreciações críticas apareceram nos suplementos literários. Eis algumas dessas manifestações:

O INDOMÁVEL RIMBAUD

Edição organizada por Ivo Barroso é referência para estudos sobre o poeta

Marcelo Jacques

“Eu quis dizer o que isso diz, literalmente e em todos os sentidos”, teria dito Arthur Rimbaud à mãe em resposta a uma pergunta sobre a significação das “pequenas histórias em prosa” que constituem “Uma estadia no inferno”. Se considerarmos que esse texto é, ao lado das “Iluminações”, o grande legado em prosa do jovem poeta das Ardenas, podemos ver na afirmação, mais do que uma frase de efeito, a síntese de uma poética que não cessou de reclamar “invenções de desconhecido”, e que, como disse Mallarmé, “nenhuma circunstância literária realmente preparou”.

“Uma estadia no inferno” e “Iluminações” fazem parte da Prosa poética de Rimbaud, organizada por Ivo Barroso, cuja segunda edição revista foi recentemente lançada pela Topbooks. Se a primeira tradução de “Uma estadia no inferno”, de 1972, já era a melhor versão brasileira da obra, as sucessivas e cuidadosas revisões realizadas, ao lado da tradução de “Iluminações” e de outras prosas inéditas, acrescidas de um trabalho minucioso de notas e comentários, fazem definitivamente desta Prosa poética uma edição de referência para os estudos rimbaudianos em língua portuguesa.

Promessa da poesia do futuro

Rimbaud invoca, de fato, desde as famosas “Cartas do vidente”, essa virtualidade indomável da língua como a promessa própria da poesia do futuro, que a “hora nova” exigiria. Não se trata, porém, de criar uma poesia pura, apartada do todo da língua e da banalidade prosaica do mundo, como quererão muitos “modernos”. Trata-se, antes, como escreverá o adolescente de 15 anos, de “encontrar uma língua” que seja “da alma para a alma, resumindo tudo, perfumes, sons, cores, pensamento agarrando pensamento e puxando”, uma língua que permita “ (definir) a quantidade de desconhecido que desperta em seu tempo na alma universal”.

E, para tornar-se esse “vidente”, Rimbaud define desde então seu método: “um longo, imenso e estudado desregramento de todos os sentidos”, que implique a “eclosão” deste outro que nele pensa – “Pois EU é um outro” – para que ele possa então, a seu turno, alterar-se e, assim, abrir outras perspectivas para o seu tempo: “Que exploda em seu salto por entre as coisas inauditas e inomináveis: outros horríveis trabalhadores virão, e começarão pelos horizontes em que o outro se perdeu! ”. Com Rimbaud, portanto, o vigor e a autenticidade da poesia deixam definitivamente de confundir-se com qualquer forma de espontaneidade expressiva do eu, que, ao contrário, deve, por meio do “estudo” e do “cultivo” de si, deformar: “trata-se de tornar a alma monstruosa”.

É justamente esse “combate espiritual”, “tão rude quanto a batalha dos homens”, que é encenado em “Uma estadia no inferno”, único livro efetivamente publicado por Rimbaud, e que não pode deixar de ser lido ao mesmo tempo como uma narrativa autobiográfica e como uma espécie de auto-reflexão sobre a gênese da obra do próprio poeta e suas ambições futuras. Composta logo após o incidente dos dois tiros disparados por Verlaine, em 1873, que marcaria a ruptura definitiva entre os dois, essa “descida aos infernos” foi frequentemente considerada como uma espécie de “Adeus” – título da última seção do texto – à poesia: “Criei todas as festas, todos os triunfos, todos os dramas. Tentei inventar novas flores, novos astros, novas carnes, novas línguas. Acreditei-me possuído de poderes sobrenaturais. Pois bem! Devo enterrar minha imaginação e minhas lembranças! Bela glória de artista e prosador que lá se vai! ”

Essa leitura foi facilitada pela fascinante história do adolescente genial que abandonou a poesia aos 20 anos para viver como um “trabalhador” na África durante 17 anos, até a morte, em 1891. Mas os estudos em torno da datação das peças que vieram a constituir as “Iluminações”, escritas em parte depois da redação da “Estadia”, permitiram reler esse “Adeus”, re-ensejando a perspectiva de renovação da poesia nele também de certa forma reivindicado.

Leitor confrontado com o enigma da língua

Não por acaso, desde a primeira edição, organizada por Verlaine em 1886, as “Iluminações” se iniciam com o poema “Depois do dilúvio”. Mas aqui, ao contrário do que ocorre na “Estadia”, o eu pouco se enuncia. Prevalecem imagens caracterizadas pela justaposição de frases nominais, entremeadas de enumerações feitas a partir de associações sonoras e deslizamentos semânticos, realização plena daquilo que o jovem aspirante à vidência chamara de “visão”. Diante dessa obra, confrontado ao enigma da língua e de si, o leitor não sai imune: “Este veneno permanecerá em nossas veias mesmo quando acabar a fanfarra e voltarmos à nossa antiga inarmonia”.

Marcelo Jacques é professor de literatura francesa da Faculdade de Letras da UFRJ                 

Caderno Prosa & Verso O GLOBO 23/02/2008

 

CORDIALMENTE, ARTHUR RIMBAUD

Primeira edição brasileira com as cartas do poeta mostra uma vida partida em duas, entre o gênio precoce e a existência errante na África

Miguel Conde

Num dia de julho de 1873, o poeta Paul Verlaine andava pelas ruas de Londres levando uma rara provisão de comida e a dose costumeira de bebida para a casa onde vivia com Arthur Rimbaud, o jovem talentoso por quem há pouco mais de um ano abandonara a mulher, o filho, o emprego, e de modo geral todos os compromissos que até então faziam dele um integrante respeitável da sociedade parisiense. Ao se aproximar do número 8 da Great College Street, porém, ouviu o grito sarcástico do amante: “Que ar de babaca, com esse arenque e a garrafa na mão!”. Seria apenas uma provocação infantil, não fossem as incontáveis punhaladas (metafóricas e literais) já trocadas pelos dois escritores em sua rotina de brigas, bebedeiras e penúria. Decidido a encerrar o relacionamento que descreveu como “um amor de tigres”, Verlaine embarcou para a Antuérpia. Abandonado, Rimbaud escreveu ao amante uma carta derramada: “Volte, volte, querido amigo, único amigo, volte. Juro que serei bom. Se fui mordaz com você, foi só por besteira e teimosia, arrependo-me mais do que se possa dizer”. Verlaine tinha motivos para duvidar. Longe de ser uma besteira ocasional, a mordacidade era um hábito cultivado com prazer pelo remetente, como se pode ver no recém-lançado Arthur Rimbaud: Correspondência (Topbooks, Rio, 2009). Primeira edição brasileira a reunir todas as cartas conhecidas de Rimbaud, o livro traz escritos que vão da adolescência aos últimos dias do poeta, expondo uma vida intensa e atribulada, partida em duas metades: a do jovem brilhante, talentoso e impertinente que entremeava maledicências e trocadilhos escatológicos com poemas hoje contados entre os maiores da literatura moderna; e a do comerciante objetivo que relatava em tom sóbrio suas expedições pela África, onde tentava juntar dinheiro para um dia viver de renda, sem trabalhar.

Cartas queimadas pela mulher de Verlaine                                                                                                  

Tradução, notas e comentários são do poeta Ivo Barroso, um rimbaudiano devotado que conclui assim o trabalho de verter para o português as obras completas de Rimbaud, formadas ainda pelos volumes “Poesia completa” e “Prosa poética” lançados também pela Topbooks. Encerrado o trabalho, iniciado em 1972 com a tradução de “Uma estadia no inferno”, Barroso vai doar sua biblioteca de e sobre o poeta para o Centro Cultural Banco do Brasil.

– As cartas mostram que Rimbaud era de uma ironia terrível. Era um cara insuportável, mas um gênio indiscutível. Considero as “Iluminações” o maior momento da poesia de todos os tempos. Minha tese é que depois delas Rimbaud sentiu que não havia nada mais a fazer. Ele era incapaz de se repetir, evoluía a cada poema – diz.

As notas contextualizam as cartas e acabam compondo um breve perfil biográfico do escritor. Algumas poucas cartas escritas por Verlaine, pela mãe e pela irmã de Rimbaud também foram incluídas, assim como os depoimentos de Rimbaud e Verlaine à polícia sobre o episódio em que o primeiro foi baleado pelo segundo.

No conjunto da correspondência, o relacionamento dos dois aparece de forma breve, já que a mulher de Verlaine, Mathilde, destruiu todas as cartas enviadas a seu marido pelo amante. Quando a irmã de Rimbaud as solicitou, Mathilde respondeu: “As cartas dirigidas a Verlaine por seu irmão Rimbaud em nada poderiam servir à glória desse último. Se sua família e seus amigos as tivessem lido, como eu e meu pai, decerto me seriam gratos por havê-las destruído”.

Um fragmento de uma carta enviada por Rimbaud queixando-se da modorra em Charle-ville, sua provinciana cidade natal, da qual fugia sempre que possível, dá uma ideia do tom da correspondência: “O trabalho está mais longe de mim do que minha unha está de meu olho. Merda para mim! Merda para mim! Merda para mim! Merda para mim? Merda para mim! Merda para mim! Merda para mim! Merda para mim!”.

Teoria do poeta vidente, que cria sua linguagem                                                                                          

É em suas primeiras cartas, enviadas a poetas menores com cuja ajuda Rimbaud contava para ter suas obras publicadas, que o jovem escritor discorre sobre sua busca por uma poesia nova. A mais famosa é a enviada a Paul Demeny em maio de 1871, que começa com o aviso imperativo “Resolvi proporcionar-lhe uma hora de literatura nova”, e prossegue com a famosa teoria de Rimbaud do poeta como vidente, que por meio do “desregramento de todos os sentidos” “alcança o insabido” e deve inventar uma linguagem para dizê-lo: “A Poesia não marcará mais o ritmo da ação; ela estará na frente”.

Apenas quatro anos depois, aos 21 de idade, Rimbaud deixaria de lado essas ambições para iniciar uma segunda vida e uma série de viagens que o levariam finalmente à África. A vida errante e o trabalho em condições “miseráveis”, como diria mais de uma vez, lhe pareciam melhores do que a permanência na França: “É evidente que não vim aqui para ser feliz. E, todavia, não posso abandonar essas regiões, agora que já sou conhecido e posso encontrar meios de viver — ao passo que em outra parte eu apenas morreria de fome”.

Os pedidos por livros são frequentes, mas tudo que o comerciante procura agora são manuais práticos de construção, geologia, mapas. O talento descritivo e o humor negro no entanto aparecem ainda em várias cartas, como aquela em que Rimbaud descreve à mãe e à irmã sua adaptação às muletas, após ter a perna amputada devido ao câncer nos ossos que terminaria por matá-lo. A doença o levaria afinal de volta à França, de onde saíra para ganhar a vida, e para onde retornou em busca de cura.

Publicado na capa do Segundo Caderno de O Globo em 7.12.2009.

O TRANSGRESSOR MAIS ADORADO

 

A obra completa do poeta francês Arthur Rimbaud, que parou de escrever aos 20 anos, recebe primorosa tradução pelo poeta mineiro Ivo Barroso

Luís Antônio Giron

O poeta francês Arthur Rimbaud (1854-1891) ganhou admiradores entre seus colegas brasileiros. Vinicius de Moraes e outros se inspiraram nos poemas ”As Iluminações” e ”Oração da Tarde”, nos quais convivem visões proféticas e palavrões. Apesar disso, ainda não se completou a tradução brasileira de toda a obra de Rimbaud. A lacuna deverá ser preenchida quando o escritor Ivo Barroso lançar a Correspondência de Rimbaud. O volume [já em fase final de produção] encerrará a edição da integral do bardo visionário [pela editora Topbooks].

”Depois de uma vida devotada a ele, vou encerrar a missão”, promete Barroso, que já traduziu 220 das 250 cartas do poeta – algumas delirantes. Barroso acaba de lançar o volume Poesia Completa de Rimbaud, em edição revista. Em janeiro, é a vez da nova edição da Prosa Poética. O tradutor mineiro reviu a primeira versão que fez do poema ”Uma Estadia no Inferno”, elogiada em 1971 por Alceu Amoroso Lima – que atribuía sua conversão ao catolicismo à leitura de Rimbaud. Barroso apresenta textos como ”Um Coração sob a Sotaina” e ”Os Destinos do Amor”. Tudo repleto de anotações que contextualizam vocabulário e circunstâncias de cada título.

O tradutor reconhece que a devoção ao autor é trabalho insano em qualquer língua. ”Rimbaud nunca tem fim”, diz. No volume que acaba de sair, ele refez a fantasia ”Minha Boêmia”, que conta a história de um caminhante de bolsos descosidos e calças com furos que lembram ”Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso (”Lá ia eu, de mãos nos bolsos descosidos;/Meu paletó também tornava-se ideal;/Sob o céu, Musa, eu fui teu súdito leal/Puxa vida! a sonhar amores destemidos!”). O parentesco com o tropicalista não se deu por acaso: Rimbaud é um dos patronos do movimento hippie dos anos 60, quando Caetano compôs sua canção-programa. A versão de Barroso dá o tom coloquial que está nos versos em francês.

Muitas gerações têm cultuado Rimbaud por sua dupla face. Uma é a do gênio precoce que parou de escrever aos 20 anos. Esse ”deus da adolescência” – como o apelidou o surrealista Paul Claudel – desmontou o verso alexandrino, abrindo a picada para o Modernismo. A outra face exibe o homem bruto que rompeu com as convenções, assumiu o homossexualismo (manteve um caso turbulento com o colega Paul Verlaine, com direito a tapas e tiros) e aventurou-se no tráfico de armas na África. Morreu em Marselha, aos 37 anos, de complicações decorrentes da amputação de uma perna. Sua irmã, Isabelle, não sabia que ele havia sido escritor. O coquetel de atrevimento em vida e versos tem encantado artistas desde 1898, quando Paterne Berrichon, marido de Isabelle, divulgou a produção rimbaldiana. Primeiro santo, depois demônio e hoje guindado a fundador, Rimbaud influenciou beatniks e outros poetas do rock, como Bob Dylan. Vencida a rebeldia dos anos 60, ele segue em alta, mesmo que seja mais pela vida turbulenta que por sua alquimia verbal.

O que sucedeu a Rimbaud acontece a muita gente. Há quem se destaque na juventude como escritor para adotar, na idade adulta, ofícios mais prosaicos. ”As pessoas viram a página da literatura e tocam a vida”, diz Ivo Barroso – que, curiosamente, aposentou-se como funcionário do Banco do Brasil, sem abdicar dos versos. Mas o ”passante considerável”, como Mallarmé definiu Rimbaud, detonou uma fissão nuclear nas letras, evento que só pode ser saboreado na alta intensidade de seus poemas, conservada na tradução de Barroso.

Chanson de la Plus Haute Tour            

Oisive jeunesse
À tout asservie;
Par délicatesse
J’ ai perdu ma vie.
Ah! Que le temps vienne
Où les coeurs s’ éprennent.

Je me suis dit: laisse,
Et qu’ on ne te voi:
Et sans la promesse
De plus hautes joies.
Que rien ne t’ arrête
Auguste retraite.

J’ ai tant fait patience
Qu’ a jamais j’ oublie;
Craintes et souffrances
Aux cieux sont parties.
Et la soif malsaine

Obscurcit mes veines.

Ainsi la Prairie
À l’ oubli livrée,
Grandie, et fleurie
D’ encens et d’ ivraies
Au bourdon farouche
De cent sales mouches.

Canção da Torre Mais Alta

Mocidade presa
A tudo oprimida
Por delicadeza
Eu perdi a vida.
Ah! Que o tempo venha
Em que a alma se empenha.

Eu me disse: cessa,
Que ninguém te veja:
E sem a promessa
De algum bem que seja.
A ti só aspiro
Augusto retiro.

Tamanha paciência
Não me hei de esquecer.
Temor e dolência,
Aos céus fiz erguer.
E esta sede estranha
A ofuscar-me a entranha.

Qual o Prado imenso
Condenado a olvido,
Que cresce florido
De joio e de incenso
Ao feroz zunzum das
Moscas imundas.

Au Cabaret-Vert
cinq heures du soirDepuis huit jours j’ avais déchiré mes bottines
Aux cailloux des chemins. J’ entrais à Charleroi.
– Au Cabaret-Vert: je demandai des tartines
De beurre et du jambon qui fût à moitié froid.

Bienhereux, j’ allongeai les jambes sous la table
Verte: je contemplai les sujets très naifs
De la tapisserie. – Et ce fut adorable
Quand la fille aux tétons énormes, aux yeux vifs,

– Celle-là! ce n’ est pas un baiser qui l’ épeure!
Rieuse, m’ apporta des tartines de beurre,
Du jambon tiède, dans un plat colorié,

Du jambon rose et blanc parfumé d’ une gousse
D’ ail – et m’ emplit la chope immense, avec sa mousse
Que dorait un rayon de soleil arriéré.

Octobre 1870

No Cabaré-Verde
às cinco horas da tardeOito dias a pé, as botinas rasgadas
Nas pedras do caminho: em Charleroi arrio.
– No Cabaré-Verde: pedi umas torradas
Na manteiga e presunto, embora meio frio.

Reconfortado, estendo as pernas sob a mesa
Verde e me ponho a olhar os ingênuos motivos
De uma tapeçaria. – E, adorável surpresa,
Quando a moça de peito enorme e de olhos vivos

– Essa, não há de ser um beijo que a amedronte! –
Sorridente me traz as torradas e um monte
De presunto bem morno, em prato colorido;

Um presunto rosado e branco, a que perfuma
Um dente de alho, e um chope enorme, cuja espuma
Um raio vem doirar do sol amortecido.

Outubro de 1870

 

Ma Bohème (Fantasie)

Je m’ en allais, les poings dans mes poches crevées;
Mon paletot aussi devenait idéal;
J’ allais sous le ciel, Muse! et j’ étais ton féal;
Oh! là là! que d’ amours splendides j’ ai rêvées!

Mon unique culotte avait un large trou.
– Petit-Poucet rêveur, j’ égrenais dans ma course
Des rimes. Mon auberge était à la Grande-Ourse.
– Mes étoilles au ciel avaient un doux frou-frou.

Et je les écoutais, assis au bord des routes,
Ces bons soirs de septembre où je sentais des gouttes
De rosée à mon front, comme un vin de vigueur;

Où, rimant au millieu des ombres fantastiques,
Comme des lyres, je tirais des élastiques
De mes souliers blessés, un pied près de mon coeur!

Minha Boêmia (Fantasia)

Lá ia eu, de mãos nos bolsos descosidos;
Meu paletó também tornava-se ideal;
Sob o céu, Musa! Eu fui teu súdito leal;
Puxa vida! A sonhar amores destemidos!

O meu único par de calças tinha furos.
– Pequeno Polegar do sonho ao meu redor
Rimas espalho. Albergo-me à Ursa Maior.
– Os meus astros nos céus rangem frêmitos puros.

Sentado, eu os ouvia, à beira do caminho,
Nas noites de setembro, onde senti tal vinho
O orvalho a rorejar-me a fronte em comoção;

Onde, rimando em meio a imensidões fantásticas,
Eu tomava, qual lira, as botinas elásticas
E tangia um dos pés junto ao meu coração!

Revista ÉPOCA Rio de Janeiro 12/12/2004

A ERA DO CACAREJO

“Num momento como o nosso, em que somos atazanados por um bando
de palpiteiros ensandecidos, que manifestam permanentemente os
próprios pensamentos, Rimbaud recorda as infinitas virtudes do silêncio.
Ele é um modelo para todos nós”.

Diogo Mainardi

Rimbaud espancava Verlaine. Eu invejo Rimbaud. Eu gostaria de ter espancado Verlaine. Eu gostaria de ter espancado qualquer poeta simbolista. Verlaine vingou-se alguns anos mais tarde, num quarto de hotel, dando dois tiros em Rimbaud. Eu também invejo Verlaine. Ele tinha apenas má pontaria.

A editora Topbooks, depois de publicar os poemas de Rimbaud, agora publicou suas cartas, otimamente traduzidas e comentadas por Ivo Barroso. O primeiro lote de cartas mostra Rimbaud e Verlaine espancando um ao outro e atirando um no outro. Qual é o interesse disso? Para mim, nenhum. Eu poria os dois na cadeia. De fato, os dois foram parar na cadeia. O que realmente interessa é o segundo lote de cartas, escritas a partir de 1875, quando Rimbaud abandonou a poesia e passou a perambular de um lado para o outro. Num intervalo de apenas dezesseis anos – ele morreu em 1891 –, Rimbaud fez tudo o que uma pessoa dotada de um pingo de senso de dignidade quereria fazer: foi embora de Paris, que é uma cidade de maricotes; entranhou-se no deserto etíope, contraindo uma série de enfermidades; comercializou camelos; ganhou dinheiro e perdeu dinheiro; negociou armas dos mais variados calibres, permitindo o massacre de um monte de gente inocente; pegou um tumor no joelho e teve a perna amputada; morreu em Marselha, com muitas dores e pedindo ajuda a Deus, que caprichosamente se recusou a ajudá-lo.

Os poetas simbolistas, no tempo de Rimbaud, faziam uma grita danada. Eles se reuniam nos bares e bradavam seus versos. Nem quando eram espancados eles se calavam. Hoje é muito pior. A grita aumentou descomunalmente. Há gente demais papagaiando ao mesmo tempo. Estamos cercados de poetas simbolistas. Eles se espalharam por todos os cantos e se acotovelam brutalmente para conseguir recitar uns decassílabos. O presidente da República é um poeta simbolista. O chefe de cozinha é um poeta simbolista. Até o poeta simbolista é um poeta simbolista. Em 1875, depois de levar dois tiros de Verlaine, Rimbaud afastou-se disso tudo. Ele simplesmente resolveu parar de cacarejar e de ouvir o cacarejo alheio. Numa de suas cartas, de Aden, ele aparece encomendando alguns livros. De poesia simbolista? Ao contrário. Ele encomenda o Livro de Bolso do Carpinteiro, o Manual do Vidraceiro e o Álbum das Serrarias Agrícolas e Florestais Num momento como o nosso, em que somos atazanados por um bando de palpiteiros ensandecidos, que manifestam permanentemente os próprios pensamentos, Rimbaud recorda as infinitas virtudes do silêncio. Ele é um modelo para todos nós. Ele é um modelo para o presente. Em suas cartas, Rimbaud mostra que temos poetas simbolistas demais e carpinteiros de menos. Ele mostra que temos poetas simbolistas demais e vidraceiros de menos. Eu pergunto: já encomendou seu Livro de Bolso do Carpinteiro?

revista VEJA
06/02/2010

 

O MÍSTICO SELVAGEM

Em tradução primorosa, a Correspondência de Rimbaud
revela a gênese do poeta maldito e do explorador colonial

Silviano Santiago*

Em 1924, o jovem Carlos Drummond escreve a Mário de Andrade: “Nasci em Minas, quando devera nascer (não veja cabotinismo nesta confissão, peço-lhe!) em Paris. O meio em que vivo me é estranho: sou um exilado”. Em 1879, o jovem Arthur Rimbaud (1854-91) escrevia de Charleville a seu mentor: “Minha cidade natal é supremamente idiota entre todas as cidades pequenas da província. Estamos exilados em nossa própria pátria!!!”.

A sensação de exílio no torrão natal tem repercussões por personagens como Emma Bovary, de Gustave Flaubert, ou Luísa, de Eça de Queirós, e pelos poemas de Cesário Verde e reafirma a posição de Paris como centro do projeto cultural e artístico ocidental.

Marca de nascença

O exílio é marca de nascença e, no caso de Flaubert e de Eça, serve para reforçar o drama da frustração sentimental da mulher burguesa, conhecido por bovarismo. Em Drummond e Rimbaud, a província é o berço onde a revolta artística do poeta se amamenta de maneira voraz e contraditória. Lá é que nasce o “albatroz”, para retomar a metáfora de Charles Baudelaire para o poeta gauche. Em carta ao poeta Theodore de Banville, Rimbaud proclama o futuro sucesso em Paris, resgatando expressão do Renascimento italiano: “Anch’io, senhores jornalistas, serei parnasiano!”. E complementa: “Não sei o que tenho dentro de mim… que quer subir à tona…”.

Ao substituir parnasiano por modernista, Drummond subscreve a ambição desmedida e a angústia cega de Rimbaud. Se a grafia de vida de Carlos Drummond acaba por encerrá-lo nos meandros da burocracia federal (leia-se a crônica “A rotina e a quimera”, em Passeios na ilha), a de Rimbaud extrapola a rebeldia bronca para ambientá-lo na loucura da boemia parisiense.

Ao dar adeus à província, ele se lança como poeta maldito, sedutor de corações e mentes. Em suas garras, cai Paul Verlaine (1844-96), com quem mantém um caso amoroso, vulgarizado pelo filme Eclipse de uma paixão, com Leonardo DiCaprio.

Dois mitos

No Rio de Janeiro, o provinciano Drummond se transforma no mito poético da competência premiada e, em Paris, Rimbaud inaugura o mito da juventude desregrada e suicida, de que James Dean e Jim Morrison (The Doors) serão exemplos mais próximos. O périplo desvairado de Rimbaud pela província francesa, por Paris e a Europa e pelo verdadeiro exílio em países coloniais pode ser agora acompanhado nas próprias palavras do poeta. Primorosamente traduzida, anotada e comentada por Ivo Barroso, sua notável correspondência foi publicada pela Topbooks, que já nos tinha oferecido a poesia completa.

O resultado final é uma mistura de escritas. A biografia erudita de Barroso complementa a autobiografia em conta-gotas de Rimbaud. O leitor fica diante dos plenos e dos vazios de um reality show sem trapaças.

Não há por que destacar essa ou aquela carta. A razão do volume está no todo. No entanto a tradição dos estudos rimbaudianos nos obriga a salientar a carta a Paul Demeny (15/5/1871), tida como leitura pessoal da evolução da poesia francesa e manifesto da sua poesia.

Nela se lê: “O poeta se faz vidente, por meio de um longo, imenso e racional desregramento de todos os sentidos”. As cartas africanas encantarão os leitores familiarizados com a obra de Joseph Conrad (O coração das trevas) e de Louis-Ferdinand Céline (Viagem ao fim da noite). Escritas no hospital em Marselha, as cartas à mãe e à irmã historiam a hecatombe final.

Gangrena, perna amputada, dores mortais, o caminhar de muletas, a perna de pau… Isabelle socorre o irmão e, entre o tom provinciano e o carola, mantém um pungente e polêmico diário, que Ivo Barroso judiciosamente acrescenta à edição.

Catolicismo

As palavras da irmã transfiguram o poeta maldito e o explorador colonial em homem “justo, santo, mártir e eleito”. Depois da santa missa, anota Isabelle, um capelão se aproxima de Rimbaud e lhe propõe que se confesse, e ele aquiesce. Ao sair, o capelão lhe diz: “Seu irmão tem fé”.

Outro jovem provinciano, agora de nome Paul Claudel, se extasia diante da sua descoberta. À hora da morte, o maldito Arthur Rimbaud se convertera ao catolicismo. Segundo as palavras do futuro dramaturgo, Rimbaud fora “um místico em estado selvagem”. O mito agradecia a egrégia contribuição.

*SILVIANO SANTIAGO é crítico literário e escritor, autor de “Heranças” (ed. Rocco).

Autor viveu entre Europa e África

DA REDAÇÃO

Arthur Rimbaud foi um dos mais influentes autores da literatura moderna, marcando o surrealismo e os beats norte-americanos. Sua produção poética – cujo ápice é Uma temporada no inferno” (1873) – foi concebida entre os 16 e os 20 anos de idade, quando viveu em Paris. Lá manteve relacionamento amoroso com Paul Verlaine. Após o fim da relação, Rimbaud partiu para a África, onde se tornou um misto de aventureiro e comerciante.

caderno Mais!
FOLHA DE S.PAULO
21/02/2010

  

RIMBAUD SEM FIM

                                

Com a publicação da correspondência do poeta francês, Brasil tem acesso à obra completa de uma figura sem equivalentes nos dias atuais; biografia feita por Edmund White também é editada no país

Irinêo Baptista Netto

Rimbaud (1854-1891) é o tipo de figura que a indústria cultural de hoje adoraria explorar. É até inexplicável que não o façam. Jovem e rebelde, escreveu toda a poesia pela qual é lembrado entre os 16 e os 19 anos. Com 19 (uma criança para os padrões atuais, mas definitivamente um adulto na segunda metade do século XIX), abandonou a literatura para virar mercador de armas na África e nunca mais escreveu outro verso. Nunca mais. A vida era pouco para Rimbaud.

Há questão de semanas, o Brasil entrou para o grupo de países que podem ler, na língua pátria, tudo o que produziu o “poeta das sensações”. Foi quando a Topbooks publicou Correspondência, terceiro e último volume das obras completas, com tradução de Ivo Barroso, que já havia vertido ao português a poesia e a prosa poética de Rimbaud (leia abaixo entrevista com Barroso). Nesta semana, a Companhia das Letras publica Rimbaud – A vida dupla de um rebelde, ensaio biográfico de Edmund White. O livro é curioso porque o autor não tem pudores de se incluir na história e começa a narrativa lembrando como descobriu o poeta num internato de Michigan, em 1956.

Jean-Nicolas Arthur Rimbaud tem um magnetismo raro de se encontrar em escritores. Com uma personalidade explosiva e uma disposição incomum para aventuras – sexuais e literárias entre outras –, o poeta seria o rockstar oitocentista, o sujeito que, se vivesse no presente, estaria quebrando quartos de hotel e levando a vida como se o mundo fosse acabar num barranco. Seria talvez uma mistura de Mick Jagger (apesar da idade avançada) com J. D. Salinger (já morto, mas uma referência de artista recluso). O nonsense da comparação é revelador: não existem equivalentes para Rimbaud. Nenhum personagem atual consegue ombrear com o autor que atordoa leitores com O barco bêbado e oferece epifanias com Iluminações. No primeiro, o adjetivo “bêbado” aparece na tradução de Augusto de Campos. A versão de Ivo Barroso prefere “ébrio”.

Sobre o poema, Campos afirmou que é “um texto-ícone que funde o visionário e o visualista, sobrepondo à precisão imagística o ‘desregramento de todos os sentidos’ preconizado pelo poeta”. As aspas foram tiradas da introdução de Rimbaud livre (Perspectiva), livro raro que compila 11 poemas e se encontra somente em sebos. O poeta Fabrício Corsaletti (Esquimó), que adora Rimbaud, gosta da radicalidade do artista. “Ele nunca dá um passo atrás nem faz concessões”, diz. As atitudes do simbolista francês, com frequência, são mais exploradas do que seu legado literário. Essa discrepância é evidente no filme Eclipse de uma paixão (1995), de Agnieszka Holland. Mais preocupada em falar da relação homossexual e destrutiva de Rimbaud (Leonardo DiCaprio) com o poeta Paul Verlaine (David Thewlis), a cineasta polonesa deu pouca atenção à poesia.

Sincronia, a Hedra acaba de publicar A voz dos botequins e outros poemas, uma amostra dos talentos de Verlaine, na tradução clássica de Guilherme de Almeida (1890-1969). Como qualquer outra situação, o interesse na imagem de Rimbaud também tem pelo menos dois lados. Esse culto à personalidade, uma característica das últimas décadas, pode atrapalhar a apreensão da obra. Porém, há quem se aproxime da poesia porque teve contato com o mito. A atenção dada à vida de Rimbaud seria então uma porta de entrada para os seus versos. Pense que só a biografia tida como a mais importante em língua francesa, publicada em 2001 e citada por Edmund White, foi escrita por Jean-Jacques Lefrère e soma 1.242 páginas. É sensato supor que já se publicou dezenas de milhares de páginas sobre ele. Se considerarmos os trabalhos acadêmicos, pode pôr centenas de milhares sem medo de errar.

A importância para as letras universais do homem que morreu com 37 anos, destruído pelo câncer e depois de ter uma perna amputada por causa de um tumor, pode ser explicada numa frase simples: ele mudou a história da literatura. E cometeu o suicídio poético mais atordoante de que se tem notícia, ao abandonar as letras sem pestanejar. “Seu gesto de virar as costas para a Europa é muito significativo”, diz Rodrigo Garcia Lopes, que traduziu Rimbaud com Maurício Arruda Mendonça em Iluminuras. Entre os feitos do francês, Garcia Lopes lista o ataque ao romantismo, a ruptura com a forma e o conteúdo da poesia, a necessidade de ser “absolutamente moderno” e imerso por completo em seu tempo.

Pense em Marcel Proust, Jack Kerouac, Mario Vargas Llosa, Pablo Neruda, Roland Barthes, Jean-Paul Sartre. Todos já pararam para pensar em Rimbaud e, a certa altura, falaram dele. Bob Dylan fez “rambô” rimar com “go” nas letras de “You’re gonna make me lonesome when you go”. Jim Morrison (The Doors) venerava o francês. Para Augusto de Campos, “Rimbaud é, sem dúvida, um dos grandes inovadores da linguagem poética, na raiz da modernidade. Se não elude ou desestrutura a sintaxe tão fundamente como Mallarmé, se não conflita, no mesmo grau, palavra e significado, desestabiliza a semântica poética com as associações insólitas de sua imaginação e a violência do seu vocabulário, corrói os limites entre prosa e poesia, consciente e inconsciente”.

Começar a ler poesia – e a de Rimbaud, para ser específico – é entrar para um mundo com valores próprios. Se duas boas traduções de um mesmo romance têm diferenças sutis e elas dificilmente vão alterar a compreensão do livro, na poesia, as escolhas do tradutor pesam mais. O compromisso das palavras com os versos, rimas e imagens cria situações difíceis para a tradução. Em alguns casos, impossíveis.

Edmund White, o ensaísta-biógrafo, falando sobre O barco bêbado, diz que o poema “é amplamente reconhecido como uma obra-prima de rimas sutis, mas rimas tão descontraídas que são quase indetectáveis, sobretudo em meio ao assalto de imagens tão surpreendentes e de uma sintaxe intrincada e sinuosa entrelaçadas por uma complexidade de particípios presentes e passados e frases colocadas em aposição a nomes – uma gramática que, de fato, está sempre propondo cenas hipotéticas que se misturam como uma realidade palpável e, em seguida, voltam a se dissolver em alguma coisa pretérita, apenas relembrada”.

A descrição de White e toda a bajulação para Rimbaud só fazem sentido quando você lê a obra do menino terrível, o enfant terrible da poesia. “Para mim, a imagem de Rimbaud é meio como aquela miragem, aquela onda de calor que se vê nos desertos”, diz Garcia Lopes. “Ela sempre vai nos fugir”.

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ENTREVISTA COM IVO BARROSO

O desígnio final da arte

Irinêo Baptista Netto

* Ivo Barroso é o responsável pela tradução da obra completa de Rimbaud no Brasil, publicada em três volumes pela Topbooks – Poesia CompletaProsa Poética e Correspondência. Na entrevista a seguir, Barroso fala sobre Correspondência, lançado há pouco pela Topbooks, e comenta sua relação com a obra de Rimbaud, que já dura mais de três décadas.

Há quem identifique em Rimbaud a atitude de um astro do rock, um ícone a ser cultuado por adolescentes – algo que a cineasta polonesa Agnieszka Holland tentou explorar em Eclipse de uma Paixão (1995), colocando o ator Leonardo DiCaprio para interpretar o poeta. O que pensa dessa imagem que se faz de Rimbaud?

R – Acho uma capitis diminutio, já que Rimbaud é seguramente um dos maiores poetas da França e do mundo. Aliás, a exploração da vida de Rimbaud tem sido danosa ao conhecimento de sua obra, que é o que de fato interessa a quem esteja à procura de Poesia.

É possível que o mito em torno de Rimbaud atrapalhe a percepção que se tem hoje de sua obra?

R – É exatamente o que esbocei dizer na resposta anterior. Temos presenciado o aparecimento de inúmeras obras sobre a vida de Rimbaud e pouquíssimas sobre a sua poesia. É verdade que sobre esta já foi dito tudo ou quase tudo no passado; os estudos críticos vasculharam os poemas, os versos, as frases, a pontuação (há uma discussão sobre uma vírgula num dos poemas) – isto em outros domínios linguísticos. No Brasil só agora aparece uma edição da obra completa, ao passo que em inglês e italiano, por exemplo, cada editora famosa tem a “sua” edição integral.

Mallarmé teria dito que Rimbaud era uma espécie de hooligan que poderia causar danos à literatura francesa – e, de fato, causou. Na sua opinião, quais foram esses “danos”? O que a poesia dele fez para literatura francesa (e para a universal)?

R – Rimbaud tinha a perfeita noção de que a literatura francesa estava num impasse e que era necessário criar uma linguagem nova. Deve-se a ele a liberdade de ousar a imposição do novo como sendo o desígnio final da arte. Foi ele quem desconstruiu o alexandrino, iniciou o verso livre, elevou o poema em prosa à condição de grande poesia.

O biógrafo britânico Graham Robb defende que Rimbaud, ao abandonar a literatura e viajar pela África, transpôs sua obra para sua vida. Esse seria um dos valores da correspondência do poeta porque ela, de certa forma, dá sequência aos escritos poéticos. O senhor concorda com essa ideia?

R – Tenho sustentado que o abandono da poesia por ele se deveu ao fato de ter consciência de que havia chegado ao ponto máximo, ao páramo a que a poesia poderia alcançar. Continuar seria se repetir, o que não era seu intento. Fechou as malas e foi ganhar dinheiro, mas nessa nova vida continuou se distinguindo pelo seu anseio de sempre fazer melhor, de ir mais além, de buscar o desconhecido. A correspondência dita “africana” do poeta é condizente com essa transformação, com essa assunção de uma nova vida; nela não há o menor vestígio literário, embora não seja despida de sentimentos humanos.

O mesmo Robb diz que as cartas de Rimbaud eram mais acuradas na análise dos países que visitou na África do que inúmeros relatórios diplomáticos e que as cartas teriam influenciado a visão da França sobre o mundo estrangeiro. Como o senhor acha que deve ser lida a correspondência de Rimbaud? Qual é a conexão mais evidente dela com sua obra poética?

R – Sob certo aspecto, a correspondência “africana” é a negação da obra poética de Rimbaud. Seu espírito observador, a sua capacidade de expressão certamente fazem de seus relatórios documentos preciosos da historiografia de viagens; há passagens bem mais explícitas e detalhadas do que os estudos geográficos da época; mas nada encerram do que chamamos de literatura, algo que era a nota dominante de sua correspondência nos chamados “anos literários” (vide, por exemplo, a “Carta do Vidente”).

Nas suas palavras, o que a correspondência publicada agora pela Topbooks revela sobre Rimbaud?

R – Tudo, principalmente tudo sobre o “outro” Rimbaud, o que deixou a literatura no auge quando a maioria ficaria colhendo os louros de suas conquistas, aparecendo nos jornais e nas livrarias, possivelmente até ganhando algum com a venda de seus livros, além de se tornar uma “figura notória”. O que a correspondência revela, principalmente, é a outra face de sua personalidade, a determinação de ganhar dinheiro, voltar para viver de rendas, casar-se, ter um filho e fazer dele um engenheiro (ou seja, o oposto de um literato).

Robb escreveu sobre Rimbaud dizendo que “poucos poetas lucraram tanto com má poesia”. Em meio à produção de Rimbaud, existem versos ruins? (É uma pergunta estranha, mas ninguém costuma falar sobre a parte da obra que não é genial.)

R – É preciso interpretar de maneira correta as palavras de Graham Robb, que aliás não é autoridade reconhecida da obra de Rimbaud; você não vê essa afirmativa em nenhum dos grandes especialistas do assunto, como Alain Borer, Yves Bonnefoi, Jean-Jacques Lefrère, Pierre Briunel, André Guyaux, etc. A produção poética de Rimbaud, da primeira fase, a partir de “Sensação”, é uma espécie de escada de excelência, ou seja, cada um dos poemas é mais “conseguido”, mais avançado, tecnicamente mais perfeito que o outro, até atingir os zênites de “Memória” e “O barco ébrio”. A segunda fase, os chamados Novos versos e canções, encerra alguns dos mais importantes poemas da literatura francesa, e, finalmente, as Iluminações, que até hoje são consideradas ponto de referência de toda a poesia moderna. Talvez o que Robb quisesse equivocamente dizer é que, na edição da obra de Rimbaud, ela própria muito reduzida, os organizadores transcrevem poemas-brincadeira, como o chamado Album Zutique e outros fragmentos que, na verdade, não são poesia, mas divertimentos rimados. Pode-se também arguir que alguns dos versos da quase-infância, quando Rimbaud ainda imitava Hugo e Banville, sejam medíocres, e são; sua presença na coletânea serve talvez para mostrar o “salto qualitativo” que um menino é capaz de dar ao passar dos 14 para os 15 anos.

Como se deu seu primeiro contato com a obra de Rimbaud? Ao longo das décadas, o que o manteve interessado no poeta de Charleville?

R – A história é longa e não vale a pena repeti-la aqui. Sintetizo: o primeiro poema de Rimbaud que li foi o “Soneto das vogais”; traduzi-o e levei-o ao Suplemento Dominical do Jornal do Brasil (aí por 1955) que me acolhera em sua redação. Fiquei sabendo que o poema já havia sido traduzido diversas vezes e me aconselharam a traduzir os versos rimados que aparecem na Estadia… (que eu não conhecia.) Comprei o Arthur Rimbaud – Poètes d’Aujourd’hui, de Claude Edmonde Magny, edição Seghers. Era uma antologia, mas a leitura da Estadia me transtornou e me prometi que, mais tarde, haveria de traduzi-la. O que me manteve interessado na obra ao longo de décadas foi a decisão de traduzir a obra completa e a leitura das duas centenas de livros que tenho sobre o assunto.

A primeira tradução de Uma estadia no inferno foi publicada em 1970. Desde então, o senhor verteu ao português toda a obra de Rimbaud – missão concluída agora, com a edição da Correspondência pela Topbooks. Depois de tanto tempo dedicado à obra de Rimbaud, eu poderia perguntar que marcas esse trabalho deixou no senhor?

R – A minha foi em 1977. Antes de mim, Xavier Placer em 1952 traduziu-a como Uma estação no inferno e Lêdo Ivo, em 1957, como Uma temporada no inferno; homenageei esses dois pioneiros (e mais o português Mário Cesariny de Vasconcelos) dedicando-lhes o segundo volume, Prosa Poética. Deixou-me o conhecimento de um grande poeta, a satisfação de ter conseguido, ao traduzi-lo, produzir alguns belos versos que eu adoraria fossem só meus. Deu-me, é certo, muito trabalho traduzir, rever minuciosamente cada reimpressão, falar a respeito, manter-me em dia com o que ia aparecendo sobre ele.

Para o senhor, quem é Arthur Rimbaud?

R – Um jovem poeta genial.

 

AS CONTRADIÇÕES EM QUE RIMBAUD SE METEU

Sandra M. Stroparo*, especial para a Gazeta do Povo

No período que passou em Paris, em torno dos 17 anos, Rimbaud conseguiu algum respeito literário, mas não deixou boas lembranças entre muitos dos intelectuais da época; mais por conta de sua excessiva juventude e atitude rebelde e impudente nas reuniões de que participou do que necessariamente por sua obra, pequena e praticamente desconhecida da maioria. Mas enquanto passava seus últimos anos de vida na África e já tinha, havia muito, parado de escrever, seu nome se fazia na Europa, em grande parte graças a Paul Verlaine – embora eles não mais se falassem – que, de posse de muitos de seus textos, fez todo o possível para vê-los publicados. Naquele momento, no vácuo criado pela morte de Victor Hugo e Baudelaire, a poesia francesa definiu muito do que seria a literatura do século seguinte. Os novos autores já estavam por ali, procurando ocupar os espaços recém-abertos com obras novas, inúmeras revistas e meetings poéticos.

Em 1883, Verlaine publicou Les poètes maudits, um texto crítico e de apresentação de pequenas antologias, que não apenas definiria nomes importantes da época como acabaria também por fundar essa quase instituição moderna que é o “poeta maldito”. Rimbaud é posto entre Corbière, Mallarmé, Villiers de l’Isle Adam e o próprio Verlaine (sob o pseudônimo de Pauvre Lelian), e os comentários do autor somados à pequena amostra de poemas são suficientes para que sua fama se consolide e que seu nome suporte a passagem do século.

O início da formação de sua fortuna crítica foi tumultuoso e contraditório. Isabelle Rimbaud, irmã do poeta e católica convicta, fez esforços consideráveis, incluindo mutilação, destruição e ocultação de partes da obra, para que seu irmão entrasse para a história, sim, mas segundo suas convicções religiosas. Essa atitude, obviamente não respeitada por Verlaine, criou uma oposição que chegará alguns anos depois a um duplo Rimbaud: um católico, da leitura de um Paul Claudel e de outros estudiosos, que enxergavam em Uma temporada no inferno a mais substancial afirmação moderna do cristianismo; e um outro que permaneceu, o herético que será escolhido, por exemplo, pelos surrealistas.

E esse é só um dos exemplos das contradições em que Rimbaud se meteu. Vivo, não mediu meios para viver todos os opostos possíveis. Morto, sua biografia e sua obra alimentaram vários caminhos opostos. Mallarmé, que definiu o poeta como alguém com rosto de anjo e mãos de lavadeira, foi secundado por Leyla Perrone-Moisés, em Inútil poesia: “O ‘anjo’ era porco e mal-educado; o ‘rebelde’ era o primeiro da classe; o ‘marginal’ pedia a aprovação do establishment literário, que o reconheceu e homenageou de imediato; o ‘comunista’ teria apenas usado essa máscara para fins interesseiros; o ‘aventureiro’ posterior era um empregado exemplar, obediente, poupador e bastante aborrecido com a vida que levava; o ‘inimigo da família’ compactuava com a mãe-megera para sabotar o casamento do irmão com uma mulher inconveniente…”. Longe de atrapalhar, essas incongruências só o ajudaram, talvez porque ao mesmo tempo em que ele revelava o aborrecido e uniforme mundo burguês, se prestava para ser o rebelde radical que nem todos queriam ou podiam ser. E isso foi, em alguma medida, poeticamente romântico.

Ao lado de Lautréamont, poeta ainda mais desconhecido que ele durante o século XIX, Rimbaud é citado como referência no primeiro Manifesto Surrealista, de 1924. Sua biografia e bibliografia são igualmente responsáveis por isso: “Rimbaud é surrealista na prática da vida e no resto”, afirma André Breton. Daí para frente, sua obra será aos poucos estudada e integrada completamente ao cânone modernista.

Em 1931, em O castelo de Axel, Edmund Wilson tenta entender a poesia moderna e vê-se compelido a buscar em Rimbaud e Villiers de l’Isle Adam algumas das origens da explosão poética que “explicaria”, ou teria possibilitado, obras como as de Gertrude Stein, Eliot e Joyce. Para um leitor de língua inglesa como ele, essa pesquisa possuía um sentido maior, pois não era apenas uma tentativa de compreender influências, antepassados e sucessores literários, mas de tentar explicar o que havia na literatura francesa do final do século XIX que foi descoberto por esses que seriam os primeiros grandes autores do século XX. E é claro que ele não chega a uma conclusão única (na verdade afirma que tudo estava lá, na poesia inglesa, mas com menos estrondo…), mas, ainda uma vez, a vida de Rimbaud é relevante, por representar uma opção diferente da que fez a maioria dos outros autores — e Wilson também o compara especialmente ao personagem recluso de Villiers, Axel —, cloróticos que renunciaram ao mundo exterior.

Se a vida o catapultou para o panteão dos mitos durante o século XX do guitarrista Jimi Hendrix, sua obra se garantiu entre os autores que forjaram a liberdade poética desse tempo. Mesmo Mallarmé já tinha falado da força — entre o perverso e o exótico — do seu verso. De modo geral o enquadraram entre os simbolistas, principalmente por violentar o ritmo e a métrica da poesia francesa indo até o poema em prosa: Iluminações e Uma estadia no inferno são seus textos mais violentamente modernos. Nessas obras, no entanto, a clareza e a lógica sintática é que seriam abandonadas, atendendo ao chamado da época: “dar um sentido mais puro às palavras da tribo”.

Nesse processo de corrupção da linguagem aparecem a despersonalização moderna: o “eu” que é um outro, a defesa do feio como motivo de arte, o tratamento imoderado entre imaginação e realidade, a cidade como espaço preferencial, a ridicularização das tradições. A caracterização de simbolista não é unânime: apesar do poema em que dá cores às vogais, seguindo um pouco a ideia das correspondências de Baudelaire, a poesia de Rimbaud não cabe facilmente em nenhuma categoria. A coerência que ele talvez tenha para oferecer seja o violento e idêntico vigor com que regeu ora a vida, ora a obra.

*Sandra M. Stroparo é professora de Literatura na Universidade Federal do Paraná.

GAZETA DO POVO
Curitiba
30/03/2010

Ivo Barroso é poeta e tradutor, entre outros, de “Arthur Rimbaud – Poesia Completa”.

 

CARTAS DE UM VISIONÁRIO

 

Chega às livrarias Correspondência, o terceiro e último volume da obra completa de Arthur Rimbaud. O tradutor Ivo Barroso comenta a evolução do poeta até atingir o ponto mais alto: Iluminações, com os primeiros versos livres.

Desde o começo do século 20, quando os teóricos russos alcunhados de formalistas deram plena autonomia à literatura — instituindo assim os preceitos da crítica literária moderna — evita-se estabelecer a relação de causa e efeito entre a vida do autor e sua obra. Entrementes, o antigo modelo persiste de modo didático nos mais variados métodos de ensino. Como se pudesse abalizar a obra, a leitura de certos autores inicia-se pela sua biografia; cada linha escrita seria forçosamente fruto de algum fato peculiar na existência do escritor.

No caso de uma vida revolta e múltipla como a de Arthur Rimbaud, a análise da obra dificilmente escapa à associação com sua biografia. Um dos grandes expoentes da poesia francesa, Rimbaud realizou o sumo de sua produção literária entre os 15 e 21 anos, para logo depois dar-lhe as costas e ir à África negociar café, marfim e o que pudesse torná-lo rico (“não tenho a intenção de passar minha vida inteira na escravidão”). As muitas histórias criadas em torno dos excessos que cometeu em sua vida literária, suas andanças, sua problemática relação com o poeta Paul Verlaine e principalmente as muitas e contraditórias interpretações sobre seu rompimento com a poesia, tornam o mito em torno do enfant terrible (o menino terrível, como foi alcunhado) cada vez maior e mais vivo.

Em Arthur Rimbaud: Correspondência, lançado pela editora Topbooks — e traduzido pelo sempre competente Ivo Barroso —, contempla-se pela primeira vez no país a totalidade da correspondência do poeta. A importância do livro reside, entre outros fatos, em observar as profundas mudanças acontecidas em Rimbaud por meio de suas próprias palavras e percepções. As cartas desfazem, assim, boa parte de toda a mística frouxa que acompanha seu nome.

Além das cartas escritas por Rimbaud, é possível conferir toda a troca de correspondência entre ele e Verlaine (no capítulo “Intermezzo verlainiano”), mais os chamados “Depoimentos de Bruxelas”, relativos ao processo criminal decorrente do célebre episódio ocorrido em julho de 1873: Verlaine atirou contra Rimbaud, que foi atingido no pulso. O relacionamento tempestuoso dos dois foi adaptado para o cinema pela diretora Agnieska Holland no filme Eclipse de uma paixão, estrelado por Leonardo DiCaprio.

Identificada como a primeira obra literária de Rimbaud, uma composição em versos latinos – hoje perdida – foi enviada aos 14 anos ao príncipe Louis (12 anos à época) por conta de sua primeira comunhão. A largada da Correspondência realiza-se justamente com o relato de Édouard Jolly, estudante de filosofia contemporâneo do escritor; “… acaba de enviar uma carta de 60 versos latinos ao jovem Infante príncipe imperial a propósito de sua primeira comunhão. Ele mantinha isso dentro do maior segredo e não mostrou esses versos nem mesmo ao professor; daí ter cometido alguns barbarismos condimentados com alguns versos mancos”.

Aos 15 anos, Rimbaud conhece Georges Izambard. O novo professor de retórica de sua provinciana cidade, Charleville, reconhece nele uma invulgar vocação poética, tornando-se seu amigo, confidente e fonte de empréstimo de um considerável número de livros. Em agosto de 1870, Izambard viaja, deixando sua biblioteca à disposição do jovem poeta. Em carta do dia 25 deste mês, Arthur reporta-lhe o tédio que tem sentido, e diz ter-se valido de grande parte dos livros do amigo, inclusive do Quixote de Cervantes; “ontem, passei em revista por duas horas as gravuras de Doré: agora não tenho mais nada!”.

Carta do vidente

Menos de um ano depois, em maio de 1871, Rimbaud (com 16 anos) envia a um amigo de Izambard, Paul Demeny, sua carta mais conhecida, a Lettre du Voyant: Carta do vidente. Um dos elementos fundamentais do esclarecimento de seu gênio e de suas teorias poéticas, esta carta insinua-se como um ensaio sobre a evolução da poesia francesa, sobre os novos pensamentos e atitudes do poeta (“o racional desregramento de todos os sentidos”) e estampa quase uma coletânea de máximas do escritor (é daqui que surge a famosa “Eu é um outro”).

Em setembro do mesmo ano, ele deixará Charleville rumo a Paris para conhecer Paul Verlaine, àquela época o poeta mais importante da França. Às vésperas da partida, escreve Le Bateau Ivre (O barco ébrio), uma de suas obras-primas. As mudanças ocorridas na vida de Rimbaud se sucedem em ritmo brusco e em curtos espaços de tempo. Por meio de suas cartas, acompanhamos, em menos de uma década, o iniciante poeta que pede conselhos tornar-se um grande inovador da poesia — cônscio de seus métodos e de seu ofício — para, logo em seguida, tornar-se outro.

Como lembra o poeta e tradutor Dirceu Villa: “Há ainda muitas coisas a mudar na leitura mais superficial de Rimbaud. As cartas mostram, também, a via crúcis de um poeta genial, na capital da poesia à época (Paris), para receber alguma atenção. Isso não mudou. Os grandes poetas vivem a mesmíssima coisa ainda hoje, embora nossa época goste de pensar que essas injustiças são todas do ‘passado’ ”.

 

Entrevista com Ivo Barroso

“Rimbaud abriu as portas do futuro”.
“O encontro de Rimbaud e Verlaine foi um acidente desagradável para ambos”.

Como conheceu Rimbaud e decidiu dedicar-se à tradução de sua obra completa? 
Foi curioso. A história é longa e, se você não se importar, vou contá-la toda…

Pode contar, é claro. 
Por volta de 1954, nós tínhamos o suplemento literário do Jornal do Brasil. Ele era dirigido pelo Reynaldo Jardim e lá trabalhavam o Mário Faustino e o Ferreira Gullar. Eu acabei entrando para equipe por conta de um soneto do Rilke que traduzi. Um dia, vi numa antologia aquele soneto das vogais do Rimbaud. Eu não conhecia nada dele a não ser aquilo (tinha lá os meus 20 anos). Então levei para eles uma tradução minha do soneto das vogais. Mas, como muita gente já o havia traduzido, pediram-me para eu arrumar outra coisa. Eu, nessa altura, estudava letras, e fui a uma livraria de livros em francês, próxima à faculdade, e encontrei um livrinho do Rimbaud. Era uma espécie de antologia com biografia, e abri aquilo e fui dar em Une saison en enfer (Uma estadia no inferno, na tradução de Ivo). Eu fiquei absolutamente alucinado. Que coisa espantosa!

E depois? 
Reynaldo Jardim me disse que o Ênio Silveira queria que ele traduzisse a Saison, mas ele não tinha disposição nem tempo para isso. Propôs que eu a fizesse e eu disse: “Você está doido, aquilo é muito difícil”. (risos) Mas o Ênio me telefonou, insistiu, e eu topei fazer a tradução. Ele publicou uma edição feiíssima com uma cobra na capa (risos). A coisa formidável é que acabei conhecendo Alceu Amoroso Lima (o Tristão de Athayde), que era quem mais entendia de Rimbaud no país. Levei para o Ênio e ele ficou de editar, isso foi no fim de 1972, só saiu em 1977, o livro então ficou cozinhando na gaveta da censura. Aí, depois desse primeiro impacto – eu quase morri para traduzir a Saison – eu quis ler tudo do Rimbaud e fui me empolgando cada vez mais. Daí, botei na cabeça que queria traduzir a poesia completa: era uma missão, eu tinha que traduzir tudo que esse cara escreveu.

Todos consideram um dos maiores mistérios da literatura o fato de Rimbaud ter abandonado a escrita. Isso não seria apenas coerente com a personalidade dele? Uma vida cheia de mudanças bruscas… 
Ele foi o maior poeta. Tinha noção, certeza, consciência de que havia atingido o máximo. Tanto assim que, ao estudar a poesia dele, percebe-se que ele vai evoluindo de poema para poema, até chegar nas Iluminações. E mesmo nas Iluminações, em patamar altíssimo, tem umas que são ainda mais altas do que as outras. E, com o senso crítico que tinha, ele escreveu entre os 16 e 17 anos aquela carta do vidente, que é uma análise de toda a literatura francesa; com o senso crítico que tinha, ele deve ter pensado: “Além disso eu não vou, nem eu, nem a poesia; não tem mais aonde ir”.

Então você acha que o abandono foi muito mais pela consciência de já ter dado o máximo? 
O abandono da poesia dele foi consciente. Ele tinha certeza de que não podia ir além. Tinha chegado ao topo. Se ele continuasse, iria se repetir e não abriria mais nenhuma porta. Ele abriu a porta da poesia moderna: nas Iluminações há os primeiros poemas em versos livres. Então, ele já abriu as portas do futuro.

Falando em verso livre, na Carta do vidente Rimbaud diz que Baudelaire é “um verdadeiro deus”. Podemos dizer que os Pequenos poemas em prosa de Baudelaire pariram  Uma estadia no inferno?
Rimbaud foi muito mais além. Ele achava o Baudelaire um verdadeiro deus dentro da literatura francesa, só que ele usava uma linguagem que não era moderna. Rimbaud achava que a ideia do Baudelaire era extraordinária, mas estava sendo expressa por uma língua que ainda não era a língua poética com que Rimbaud sonhava. Então ele deu o grande salto. E fez coisas absolutamente modernas e altamente poéticas com as Iluminações. Ali, para mim, é o máximo dos máximos.

E quanto ao encontro entre Rimbaud e Verlaine, como foi a influência poética? 
Rimbaud tentou, como ele várias vezes fala, transformar o Verlaine num filho do sol. Isso quer dizer: iluminá-lo no sentido de torná-lo capaz de fazer uma poesia tão de vanguarda e tão avançada quanto a dele. Não conseguiu, de jeito nenhum. Os livros posteriores, até a velhice, são livros que não têm nenhum valor comparados com a primeira parte da poesia dele. E o Rimbaud não pegou nada da melodia da poesia do Verlaine porque já tinha a sua melodia própria. As canções finais, que alguns acham até que são canções religiosas, são melódicas, mas é de uma melodia extremamente moderna, não tem nada a ver com aquele pieguismo sonoro do Verlaine. Não há nenhuma influência de um sobre o outro. O encontro foi um acidente desagradável na vida dos dois. Porque o Verlaine poderia ter tido uma carreira muito mais realizada do ponto de vista da poética, e o Rimbaud poderia hoje ser muito mais lido na sua obra do que essa coisa boba das novas gerações de ficarem preocupadas com a biografia dele.

Você já traduziu Blake, Malraux, Breton, Hesse, Strindberg, Svevo, Calvino e tudo de Rimbaud… E agora?
Agora, acabou. Igual ao Rimbaud, que chegou aos 21 anos e falou: “Não tenho mais nada para fazer”. Eu cheguei à idade dos 80. Também não tenho mais nada para fazer.

A missão de tradutor está completa?
Eu espero que sim. Mas sabe como é… a gente é sensível a seduções. Se o editor miserável chegar e disser: “mas você não traduziu fulano de tal…”, eu sou capaz de quebrar o compromisso comigo mesmo de encerrar (risos).

FOTOS E DESENHOS

A edição bilíngue da Poesia completa de Rimbaud (Topbooks) foi lançada no Brasil pela primeira vez em 1994. Dez anos depois, por ocasião dos 150 anos de nascimento do poeta, ganhou nova edição. A Prosa poética de Rimbaud, por sua vez, foi lançada pela mesma Topbooks em 1998, e rendeu a Ivo Barroso o Prêmio Jabuti de melhor tradução do ano. Agora, em Correspondência, estão incluídas 28 ilustrações, entre elas fotografias feitas pelo próprio Rimbaud na África, além de desenhos feitos por ele, por sua irmã Isabelle e por Paul Verlaine.

  

As duas vidas de Rimbaud

Ivo Barroso 
especial para a Folha

Muitos leitores poderiam esperar deste “Rimbaud, o Filho”, do escritor francês Pierre Michon, uma análise do relacionamento entre o poeta de Charleville e seus pais; o “desertor” capitão Rimbaud e sua mulher, a amarga e forreta Vitalie Cuif. Entre os livros “convencionais” de estudos rimbaldianos -pitorescamente denominados “Vulgata” por Michon-, há pelo menos três que tratam diretamente do assunto: “Madame Rimbaud”, de Françoise Lalande; “Rimbaud et Son Père”, de Charles Henry L. Dodenham; e “L’Adolescent Rimbaud”, de Robert Montal. Mas em todos eles o que se pretende é levantar feitos e ações, ao passo que Pierre Michon está mais voltado para efeitos e emoções.
Por isso, o “filho” do título tem para ele um sentido mais amplo e quase antitético: Rimbaud não é apenas o filho do casal Frédéric/Vitalie, mas o filho espiritual de Hugo, de Banville, de Izambard -enfim, o filho da literatura- e é, ao mesmo tempo, o pai da poesia por ter conseguido superá-los, ultrapassá-los e de fato expressar aquele “frisson nouveau” que Victor Hugo atribuía a Baudelaire.
Daí ter escrito um livro sumamente singular, cheio de tensão, como se fosse o depoimento de alguém que estivesse observando Rimbaud ao vivo ou, mais que isso, penetrando e decodificado seus sentimentos íntimos e suas reações aparentemente ilógicas.
E o faz num estilo que é ao mesmo tempo surreal e realístico, que prima pela originalidade, representante da nova literatura francesa, ainda que o relato venha repassado de referências extraídas da obra do poeta ou hauridas nas páginas incontáveis da vulgata.
A maior ousadia que conhecemos neste campo até agora é a “autobiografia” de Rimbaud, uma vida de Rimbaud escrita na primeira pessoa, de autoria do escritor alemão Henning Boëtius, “Ich ist ein anderer” (“Je est un autre”), em que o autor se esmera por assumir a “personna” de Rimbaud e soar por meio dela com a força do “gamin”, embora não raro faça sobressair a posada vulgaridade deste em detrimento de sua autêntica genialidade.
Pierre Michon quis um pouco mais que isso: descobrir a razão que faz de Rimbaud a própria imagem da poesia. Desse Rimbaud misterioso e enigmático, em torno do qual há pelo menos dois momentos que intrigam todos os seus leitores e estudiosos: 1) Por que deixou de escrever?; 2) Por que uma mulher tão sovina e beata quanto Vitalie Cuif teria emprestado ao filho dinheiro para publicar um livro tão estranho quanto “Une Saison en Enfer”. Michon dá seu parecer, no livro, sobre a primeira questão.
Acha que Rimbaud descobriu não muito a tempo que a verdadeira vida não estava na poesia, mas sim no dinheiro (“que o verbo não era esse passaporte universal com o qual sonhara” e “percebeu um pouco tarde que só o ouro tinha alguma chance de ser essa senha”), e por isso tratou de amealhá-lo no famoso cinturão, à custa de mil sacrifícios.
A hipótese aproxima-se bastante daquela que admite ter o poeta vivido duas vidas consecutivas: uma dedicada à poesia e outra aos negócios, à semelhança desses jovens que são anarquistas aos 18 e “zangões” da Bolsa aos 20. Acha, ainda, que “ele parou de escrever porque não pôde tornar-se o filho de suas obras, ou seja, aceitar a paternidade delas”. Hipótese que revela o terreno imponderável por onde não raro caminha a narrativa.
Contudo, o autor elabora em torno desse e de outros pontos-chave da biografia rimbaldiana com um impulso jubilatório que consegue provocar no leitor uma cumplicidade de pensamento e de visão, fazendo deste uma espécie de comparsa ou testemunha de suas fantasias. Um livro de impressões, é certo, mas escrito com aquela “devoção” que é quase impossível de ser reprimida por todos os que mergulham nesse assunto.
Se ainda não é o livro que o leitor mais exigente espera, capaz de superar toda a vulgata e soar com a força daquela “linguagem universal” com que sonhava o poeta, é pelo menos um livro que se coloca à margem dos estudos universitários ou mesmo das análises pseudopsicológicas, no qual podemos distinguir um Rimbaud realmente dotado de neurônios.
Rimbaud, o Filho
112 págs., R$ 18,00 de Pierre Michon. Tradução de Juremir Machado da Silva. Ed. Sulina (r. Cel. Genuíno, 290, CEP 90010-350, Porto Alegre, RS, tel. 0/xx/51/228-1966).

Podemos dizer que este é um livro ímpar na pletórica bibliografia de Rimbaud: é, ao mesmo tempo, uma biografia, uma coleção de cartas e um compêndio de notas e observações – tudo num único volume. Ao traduzir a correspondência de Rimbaud, não nos restringimos às cartas (aliás importantes) de sua juventude; mas preservamos, de maneira especial, aquelas menos famosas, que ele escreveu aos seus familiares (no caso, a mãe e a irmã, às quais chamava de Caros Amigos) nos onze anos em que se auto-exilou na África (1880-1891). Nelas, Rimbaud evidencia seu abandono definitivo da literatura: não há nenhum vestígio do fabuloso estilista das obras primas de Charleville. O je era aqui un autre, a bem dizer o seu antípoda.  Rimbaud pensa em viver uma outra (nova) vida: trabalhar muito para ficar fico e poder viver de rendas; casar-se; ter um filho ao qual transmitiria os verdadeiros princípios de uma existência real. Chega mesmo a cumular fortuna e traz suas moedas de ouro e prata num amarrado que não tira da cintura nem mesmo para dormir. As primeiras remessas de dinheiro para casa seguem com a orientação de que devem ser aplicadas a juros, mas a mãe – camponesa – acaba comprando mais um alqueire de terra para futuro desespero de Rimbaud.

Eis o que escreveu sobre este livro o editor da Topbooks:

 

AS CARTAS DE RIMBAUD

 

Com este volume – Correspondência – A TOPBOOKS encerra a publicação da Obra Completa de Rimbaud , depois de proceder à reedição dos tomos anteriores, Poesia Completa e Prosa Poética. Fica assim o leitor brasileiro, a partir de agora, na posse de tudo o que foi escrito pelo gênio de Jean-Nicolas-Arthur Rirnbaud, desde seus primeiros trabalhos escolares de 1864 até a última carta, ditada à sua irmã Isabelle, já em seu leito de morte no hospital de Marselha, em 1891.

Tendo rompido com a poesia quando tinha apenas 21 anos, depois de vaticinar em Uma Estadia no Inferno: “Força é que um dia eu me vá para bem longe, pois tenho que ajudar os outros, é meu dever” – o poeta de Charleville empreende, a partir de 1880, uma série de viagens pelo Oriente, numa errância que iria durar 11 anos, durante os quais buscou desesperadamente acumular riqueza para se tornar independente e ajudar os seus. Com esse gesto, assume uma personalidade irreconhecível para aqueles que só o apreciavam literariamente. Com ela pareceu adquirir – ainda conforme suas palavras premonitórias em Une Saison – o segredo de “mudar a vida”, ou, neste caso, mudar devida (Du musst dein Leben andem; diria Rilke bem mais tarde), pois essa “existência africana” pode ser considerada a antítese daquela anterior, em que buscava uma realização meramente literária, entregue tão só às aventuras do espírito. Estas duas vidas, estas existências opostas podem ser aqui observadas na leitura integral de sua correspondência: as chamadas “cartas da vida literária” (período que vai de 1870 a 1875) contrapostas às cartas africanas” (que abrangem de 1880 a 1891).

O abandono da literatura, no caso de Rimbaud, foi realmente total. Depois das culminâncias poéticas das Iluminações – as últimas das quais são datadas por alguns estudiosos como sendo de 1875 – nada escrito por ele foi encontrado que se possa classificar de “poético”. O que deixou de seu punho após essa data são apenas estas cartas dirigidas aos familiares, a uns poucos amigos e a seus associados comerciais, escritas sem preocupação estilística, meramente noticiosas, informativas. Mesmo em duas ocasiões, ao publicar no jornal Le Bospboie Égyptien, do Cairo, em agosto de 1887, o relato de sua viagem do Choa ao Harar, a linguagem usada é antes a de um explorador, a de um observador geográfico, do que a de um ex-poeta. E quando escreve, com o intuito de ser editado em Paris, uma “reportagem” para ser enviada à Sociedade de Geografia, nem mesmo assim o tom sobressai do convencional- científico para adquirir uma fulgurância qualquer de sua antiga “prosa de diamante”.

Face a esse quadro, poderia o leitor imaginar que a leitura     dessas últimas cartas não encerra qualquer valor a acrescentar à obra do poeta. Mas pode se dizer, ao contrário, que elas são a reafirmação de sua obra, sua transposição para a própria vida. São a outra face da moeda, o complemento de um todo, pois nos permitem conhecer (e admirar) um outro Rimbaud (Je est un autre!), que procede na vida real com a mesma obstinação que teve em sua vida literária: lutando pela auto-superação, para ir sempre mais longe c mais além, para fazer o que o homem ainda fizera. É a continuação de seu velho sonho de adolescente, a sua transformação em realidade, a conquista de sua independência, daquela “liberdade livre”, que vem então a admitir como possível apenas pelo acúmulo de riqueza.

Apesar dessa mudança literal, pode-se perceber nesta leitura que o novo Rimbaud, o aventureiro, o explorador, o comerciante de produtos primários, e até mesmo o vendedor de armas, continua a manter um vínculo afetivo (disfarçado em distante formalismo) com os seus íntimos, a mãe e a irmã, às quais se dirige como “caros amigos”. A elas conta suas andanças, suas atividades, seus negócios, seus desejos e frustrações. E lhes pede livros com a mesma fome do leitor de outrora, só que então com o objetivo único de se preparar para o exercício de suas múltiplas ocupações. Com o passar do tempo, contudo, Roche, a casa materna – o porto para o qual velejava depois de todas as suas tempestades – já não atende ao seu desejo de pouso permanente, embora pense uma ou outra vez em voltar, casar-se, gerar um filho. O clima tropical já se apossava de seu corpo, a solidão lhe conquistara a alma. 
E a volta final se dá nas circunstâncias e condições mais terríveis pelas quais pode um ser humano passar, descritas, ainda desta vez, sem o menor rebique literário, num relato factual e quase impiedoso. Em suma, pode-se dizer que estas cartas são a réplica viva da Saison, a segunda passagem – agora real, inquestionável- por um inferno em vida.

A Topbooks tem o privilégio de apresentar pela primeira vez ao público brasileiro a edição integral dessa correspondência de Rimbaud, acrescida de comentários e notas que visam a dar ao leitor o conjunto das circunstâncias em que tais cartas foram escritas e esclarecê-lo sobre termos ou passagens que lhe poderiam parecer obscuras. Quis ainda o organizador deste volume – seu tradutor e comentarista – que a linguagem destas cartas acompanhasse fielmente a maneira direta e coloquial em que foram vazadas, sem melhorá-las, nem corrigi-las, mantendo a espontaneidade do original.

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PARABÉNS SILENCIOSOS

 

Todos os anos nesta data eu corria para o telefone a fim de dar os parabéns ao meu irmão Ney pelo seu aniversário. Ele não gostava de receber parabéns e era lacônico nos agradecimentos. Talvez tivesse demasiada consciência de que não estava fazendo mais um ano de vida e sim que a vida lhe estava tirando mais um ano de existência. Mesmo assim esperávamos que a cena fosse repetir-se uma imensidão de vezes, gostasse ele ou não dos cumprimentos. Hoje estaria completando 86 anos. Infelizmente a sequência se quebrou no dia 25 de junho de 2014, quando ele faleceu em consequência de uma operação de safena mal sucedida.  Agora, quando chega esta data o telefone permanece como um símbolo de silêncio, aquela eterna pergunta que nós os humanos fazemos em frente do mistério: Onde estará? Que é feito dele? Será que está ouvindo a nossa voz?…

Este segundo volume das Obras Completas contém as duas maiores obras poéticas de Rimbaud: Uma estadia no inferno e Iluminações. Considerados os textos seminais de toda a poesia moderna, ei-los aqui em sua forma integral, fruto de anos de estudo e persistentes tentativas de aprimoramento.  Os poemas são acompanhados de uma infinidade de notas e comentários esclarecedores não só do significado dos versos, como das circunstâncias em que foram compostos e da interpretação de suas intenções, segundo o parecer e análise de vários e importantes comentaristas internacionais. Eis o que a respeito deste volume escreveu o crítico-poeta  Bruno Tolentino:


Ao recomendar este Volume II do Rimbaud de Ivo Barroso, meticuloso e monumental labor de toda uma vida, afugento certa sombra de tristeza: o quanto se tornou raro entre nós empresa deste porte e seriedade! Aos estertores finais de um de seus períodos mais acabrunhantes, a vida do espírito no Brasil continua repleta de homúnculos que não sabem que não sabem javanês. Como é notório, depois da “morte do verso”, a arte da tradução de poesia – essa lição de Mestres da estatura de um Machado, um Bandeira, um Abgar – tem sido arrastada na sarjeta mental dos mais ralos exibicionismos, confundida à mais apressada inépcia retórico-linguística.

Consequentemente, esta é uma obra de poucos pares em nosso atual circo tradutório. Na primorosa edição da Topbooks, o leitor encontrará todo o contrário de certa endêmica modalidade nossa da febre “traduziológica” Não há falhas de leitura, muito menos gaffes “transcriativas” nesta exemplar conjunção de duas nobres artes: a de escrever e a de re-escrever poesia. Aqui, Ivo Barroso, passé maître na arte de passar décadas a entender primeiro para traduzir depois, simplesmente (e magistralmente) apelle un chat un chat. Logo, por mero contraste, implicitamente chama a cada um de nossos Rollet un fripon ... *

Étiemble observa que até mesmo o mais dedicado leitor tem sempre algo a descobrir sobre um original com a leitura de suas grandes traduções. Posso testemunhar disso: minha redescoberta de Rimbaud deve muitíssimo às repetidas leituras que tenho feito das recriações de Ivo Barroso. Nisso estou em ótima companhia; com Didier Lamaison, por exemplo, que há pouco nos dizia haver voltado em profundidade ao seu Rimbaud da juventude precisamente ao compará-lo com o que dele Ivo faz em vernáculo. Dito isso, temo que estas paralelas (e não raro unidas) “alquimias do verbo” arrisquem valer, a autor e a coautor, o mesmo ressentimento conspiratório que cerca outro de nossos raros grandes recriadores de poesia, aquele Jorge Wanderley quase linchado por ter posto Dante Alighieri onde Ivo Barroso vem há décadas pondo o voyant de Charleville: na simbiose da mais elegante arte de nosso verso.

Mas não é tudo! Ao saudar a ressurreição em nosso idioma desta obra capital da poesia maior do Ocidente, no momento em que estabelecem definitiva residência em nossas letras, pergunto-me quem se  irá  reconhecer  nestas  páginas.  Em nosso  morno  purgatoriozinho poético, já não pergunto quelle ãme est sans défault, mas sim quem tem alma para ter defeitos … Onde andam nossos Rimbaud de hoje? Que é feito do espírito de poesia ao qual devemos um Cruz e Sousa, um José Albano, um Augusto dos Anjos e tantos mais? Haverá ainda quem se inspire na devoção de um Ivo Barroso e se importe em emulá-lo – e aos Leopardi, aos Baudelaire, aos Hõlderlin, aos Celan, às Dickinson, aos Mandelstam, aos Radiguet, aos Artaud?

Porque – Ô saisons, Ô châteaux! – quem não sabe, hoje, que nosso jovem poeta aspira mesmo é à mais velha profissão do mundo? Assistimos a um fenômeno que faria explodir de engulho o autor das Illuminations: perambula entre nós a mais estranha das aberrações, o jovem poeta-cortesão. Com tantas ávidas bolsinhas rodando em torno de tantas polpudas Bolsas, dir-se-ia que nosso gênio poético atual não pertence mais aos maudits, mas aos garotos de programa literário … E qual deles faria o que Ivo fez: passaria uma temporada no inferno, ou se daria conta de que “a verdadeira vida está ausente, e livre seja esse infortúnio?”

O adolescente francês cuja prose de diamant revive em português sua inexaurível juvência, sob os longos cuidados apaixonados de um verdadeiro poeta-tradutor, morreria de tédio em nossa atual Etiópia poética. Pois este livro, que uma alma atormentada arrancou das vísceras e um intelecto privilegiado pôs ao alcance de todos os que sabem que não sabem francês, dificilmente irá queimar as pestanas de nossos poetas-candidatos a isso e aquilo. Et pourtant … Se a Providência for condescendente conosco, fará com que alguém, em alguma parte do país, leia este formidável trabalho com a mesma agônica atenção que autor (há 125 anos) e coautor (durante várias décadas) puseram em sua fatura. Então, quem sabe, talvez venham a acontecer “cousas futuras” …

Como andam as “cousas”, tanto vale o que dizem as lousas: aqui faz, requiescat, cigit. Até que se impregnem das artes combinadas de Arthur Rimbaud ‘e Ivo Barroso, nossos vates seguirão trocando o Verbo pelas verbas, e fazendo de boy-behindthe-door um boi-berrando-de-dor. E haja boi-tempo, porque o ôba-ôba anda alegre, e Ia nave va. Mas creia-me, leitor: os autores jumelados desta renovada obra-prima da poesia culta, profunda, metafísica e universal não têm absolutamente nada a ver com isso.

 

                                                                                                                                                                          BRUNO TOLENTINO

Alguns amigos, sabedores da minha tradução da obra completa de Rimbaud em 3 volumes (Poesia completa, Prosa poética e Correspondência), me escrevem perguntando onde encontrá-los.   Alegam que, ao procurarem a obra de Rimbaud numa livraria, recebem sempre como oferta um livreco da infame e suspeita editora Martin Claret, sob a alegação de que esta é a única obra do poeta que existe no mercado. Não é verdade: acho possível que se encontre algum volume avulso da minha tradução numa boa livraria, mas o certo mesmo é encomendá-la na Topbooks, editora da obra completa (telefax 21-2233-8718 e 2283-1039 – e-mail: topbooks@topbooks.com.br). No site da editora: www.topbooks.com.br há uma boa quantidade de informações sobre as obras, o autor e as críticas recolhidas a propósito dessas edições. Não estou aqui fazendo publicidade para a Topbooks, mas indicando o caminho das pedras aos leitores interessados. Segundo me informaram os editores, as vendas em livraria estão cada vez mais difíceis para eles, daí intensificarem o sistema da mala direta, garantindo-me que o livro adquirido diretamente na editora sai até mais barato que na livraria, pois concedem um desconto de 20% para cobrir as despesas com o frete.

Quando saiu o primeiro volume, em 1994, com uma festa no Centro Cultural Banco do Brasil, a qual durou toda uma semana, pronunciei uma longa conferência sobre Rimbaud, incluindo uma biografia do poeta, com o título de Flashes Cronológicos (1854-1891), que, por ser muito longa não poderei transcrever aqui. Mas reproduzo as palavras de apresentação do volume, escritas pelo editor José Mário Pereira, para que o leitor tenha uma informação sobre a importância da obra.

Arthur Rimbaud é um mistério humano e um enigma literário ainda não inteiramente decifrado, muito embora a indústria Rimbaud continue em grande atividade. Situar sua figura e sua obra no contexto da literatura francesa moderna tem sido a profissão da vida inteira de estudiosos de alta envergadura. Do mesmo modo, Rimbaud – encarnação da poesia e do próprio pathos do homem moderno – propõe um desafio permanente a todos aqueles que tentaram vertê-lo para outras línguas. 

Essa obra estranha e fundamental, que desde sua publicação fermenta a imaginação e a criatividade de outros poetas (Claudel, Paul Valéry, Auden etc.), compositores (Benjamin Britten, que musicou Les Illuminations, é um deles), e mesmo cantores populares (Léo Ferrê; por exemplo, canta “La Maline”), ainda não ganhou entre nós uma edição integral, muito embora poemas esparsos já se encontrem em português. Um estudo a ser feito é o da recepção de Rimbaud no Brasil e de sua influência em nossa poesia. Em princípio no entanto, percebe-se que Verlaine (este ganhou em 1945, o ano do seu centenário, uma bem cuidada edição das Poesias escolhidas, pela Globo, com tradução de Onestaldo de Pennafort) e Baudelaire (“roi des poètes, un vrai Dieu”, na expressão de Rimbaud, com três traduções brasileiras completas de suas Flores do mal) tiveram melhor sorte que ele. Eis aí uma questão sobre a qual a crítica brasileira não disse até hoje quase nada.  

A anemia nacional em relação a Rimbaud começou a findar quando, em 1973, o mineiro Ivo Barroso, poeta de fina sensibilidade, tradutor de raça e responsável pela execução de tarefas de extrema singularidade (traduziu Svevo, G. Perec, Italo Calvino e os sonetos de Shakespeare, entre outros), entregou ao público a sua versão de Une saison en enfer (Uma estadia no inferno), saudada por mestre Alceu Amoroso Lima como marco na história da tradução no Brasil. A certa altura de sua apresentação, escreve: “A tradução do poema, por Ivo Barroso, foi feita ao mesmo tempo com o maior respeito pelo pensamento do autor, na fidelidade aos mais sutis reflexos de sua expressão verbal, e com a constante preocupação de uma correspondência integral na linguagem vernácula mais depurada”.  

Dentro do mesmo espírito que sempre orientou o seu sacerdócio como tradutor, Ivo trabalhou nesta Poesia completa. Foram anos de dedicação absoluta, melhor dizendo, de obsessão integral, garimpando mundo afora livros, variantes, curiosidades sobre o poeta que, na expressão de George Steiner, “deixou sua impressão digital na linguagem, no nome e no temperamento do poeta moderno, como Cézanne o fez com as maçãs”.  

Referindo-se a Arthur Rimbaud, René Char identificou em sua obra uma qualidade fundamental: a invulnerabilidade. Para o poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz, a revolução perpetrada por este “drop-out da burguesia provinciana” francesa é a de que “seus poemas são crítica da experiência poética, crítica da linguagem e do significado, crítica do poema mesmo”.  Toda a poesia de Rimbaud, devido à habilidade e ao talento de Barroso, está aqui neste livro, sem dúvida ponto alto em nossa prática de tradução, e é mais um tento marcado por ele em seu projeto de pôr em português a obra completa do adolescente de Charleville, que espantou Paris com sua insolência e genialidade, viveu com Verlaine peripécias várias – que quase o mataram – e depois abandonou tudo por uma vida de aventura nos confins da África. Morto aos 37 anos, em 1891 – o ano em que veio à luz o Quinteto, op. 115 de Brahms, e em que Valéry publicou o seu Narcisse parle – foi adotado seguidamente por católicos, intelectuais de variadas facções, e mesmo pelo surrealismo.

Nem o cinema ficou indiferente a ele: em 1971, Terence Stamp, que antes protagonizara Teorema, de Pasolini, interpretou Rimbaud no filme Une saison en enier, de Nelo Risi. Já se falou da influência de Dante em sua obra, já se escreveu sobre a maneira como a leitura de Poe foi decisiva para a construção de Le Bateau Ivre (O barco ébrio, na elegante e precisa transposição de Ivo), e mesmo da presença de temas oriundos da tradição ocultista em sua obra. Agora mesmo Wallace Fowlie, seu tradutor em inglês, acaba de publicar um livro curiosíssimo, no qual identifica na personalidade e nas letras de Jim Morrison, o ousado vocalista do The Ooors, a presença de Rimbaud.

Quem ler o Rimbaud de Ivo não vai ter dúvidas: o poeta que um dia decretou a necessidade de se “reinventar o amor” encontrou, 140 anos depois de morto, o seu outro eu. É assim que os leitores ganham agora esta tradução exemplar, onde todos os ritmos, trocadilhos, assonâncias, elipses, e demais singularidades da poesia de Rimbaud foram respeitadas.

Voltaire, numa passagem das Cartas inglesas, comentando uma tradução sua de Pope, confessa não se sentir atraído pela tradução fiel, palavra a palavra. Essa observação, precursora das idéias de Pound, e a que nossos concretistas se referem como transcriação, não é receita cara a Ivo Barroso. Sua fidelidade ao texto levou Antônio Houaiss, o tradutor do Ulisses de Joyce, a falar em “reencarnação”. O testemunho geral de quem acompanhou o lento nascimento de Rimbaud em português depõe que o tradutor, nestes anos todos, em meio a compromissos e conferências, não parou de trabalhar, sempre em busca do vocábulo ou do verso preciso, e é sabido também que não foram poucas as vezes em que acordou aos saltos porque havia encontrado, em sonho, a solução que em vigília lhe tinha sido ingrata.

A TOPBOOKs e este seu envaidecido editor sentem-se honrados em entregar ao público leitor urna tradução dessa envergadura, sinônimo de profissionalismo, sensibilidade poética e rara disciplina intelectual.

José Mario Pereira (1994)

 

Capa: Adriana Moreno, sobre foto de
Rimbaud aos 17 anos, por Etienne Carjat.

 

Acho que seria “politicamente correto” advertir os ouvintes sobre alguns aspectos desta palestra, a fim de evitar um excesso de otimismo ou de falsas expectativas. Não se fará aqui a crítica literária da obra de Carlos Drummond de Andrade; os livros e artigos escritos sobre o assunto contam-se hoje às centenas, assinados por todos os grandes estudiosos de nossa literatura. Tampouco teremos um ensaio de características universitárias no qual pretendêssemos levantar um aspecto – em geral insignificante – que tivesse escapado aos ensaístas anteriores. Nem muito menos será uma análise do virtuosismo poético com que Drummond atravessou os vários períodos de sua generosa produção. Reduzidos a um pequeno espaço de manobra em decorrência da limitada capacidade analítica do expositor, e procurando dar a esta leitura o caráter diversificante que a Biblioteca Nacional pretende alcançar com esta série de palestras, resta-nos apelar para as evocações e confidências que, se nada acrescentam à obra ou à figura de Drummond, servem mesmo assim para divulgar alguns aspectos inéditos sobre ele, decorrentes de  circunstâncias especiais de que fomos participantes. Homenagem precária e canhestra – reconhecemos — ao nosso poeta-maior, cujo centenário de nascimento festejamos este mês.

Comecemos pois com uma lembrança:

Quando A Rosa do Povo foi publicado, em 1945, o nome de Drummond – ou seja, a sua poesia – já era conflitante, com partidários e oponentes acirrados, parecendo impossível uma posição de equilíbrio crítico entre os que o admiravam incondicionalmente e os que o atacavam sem piedade. Seu poema “No meio do caminho”, publicado alguns anos antes, havia dividido o Brasil, segundo seu próprio autor, em “duas categorias mentais”, querendo provavelmente se referir aos que o achavam genial e aos que o repudiavam como simples galhofa sem sentido. Nessa altura, Drummond já estava radicado no Rio de Janeiro, exercia relevante função no funcionalismo público, firmara nome como poeta e cronista e assumia abertamente uma posição de esquerda que lhe proporcionava inimigos, capazes de menosprezar a excelência de sua poesia por causa de sua tendência partidária. Mas todos os expoentes da intelectualidade brasileira da época eram concordes em ver em Drummond o nosso primeiro grande poeta, a voz brasileira que se universalizava, a realizada transição do canto intimista para o canto social. Além disso, Drummond era cada vez mais apreciado pelos jovens universitários, que se formavam sob a orientação de professores igualmente jovens e empenhados em traçar diretrizes de modernidade à cultura do país.

Havia, contudo, jovens como eu que se encontravam num limbo de perplexidade. A poesia de Drummond era desconcertante em relação ao que julgávamos até então como sendo poesia. Embora já tivéssemos esgotado as possibilidades dos românticos, dos parnasianos e dos simbolistas, não tínhamos ânimo ou formação para enfrentar os modernos, que surgiam para nós como iconoclastas do quanto venerávamos. Refugiávamo-nos então em alguns epígonos que nos pareciam a última palavra ou a excelência do momento. Sabíamos de cor os poemas do Juca Mulato e das Máscaras, de Menotti Del Picchia; admirávamos os sonetos de amor de Guilherme de Almeida e – acima de tudo – imaginávamos entrar no Nirvana com os poemas “filosóficos” de Raul de Leôni. Em meu caso pessoal, a entrada de Drummond em minhas considerações poéticas ocorreu não imediatamente com A Rosa do Povo, mas com Poesia até Agora, de 1948. O livro era tão desconcertante (refiro-me em especial a A Rosa do Povo, ali integrado) que passei a ler Drummond dia e noite em busca do sonhado momento da revelação, em que eu percebesse, por mim próprio e não pelo que me diziam os artigos de jornal, a autenticidade, a conquista definitiva do ideal poético, que assumira tantas e tão variadas fases e faces no decorrer de meu aprendizado de poesia. Havia poemas que me irritavam, que não me permitiam catalogá-los como “poéticos”; mas havia outros que me sensibilizavam profundamente, que me diziam algo que os outros poetas ainda não me haviam transmitido, principalmente a impressão de uma voz viva e dentro do meu tempo, que falava de maneira concreta, ao meu lado e ao meu alcance, de  problemas imediatos e palpáveis, uma voz filosófica sem pretender filosofar. Li que Drummond era um mineiro tímido e esquivo, mas que em geral respondia as cartas que lhe eram enviadas. Um dia consegui vencer a minha também timidez de interiorano, agravada de uma total incapacidade de me corresponder, e mandei a Drummond uma carta em que, depois de me queixar das dificuldades de publicação dos poetas jovens na cidade grande, lhe dizia de minha apreciação por certos poemas seus que, segundo eu, ainda guardavam um sentimento romântico (e citei, a propósito, “Menino chorando na noite” e “Consolo na praia”), em oposição a outros, como – também citei – “Áporo” (que é hoje um de seus poemas que mais aprecio), onde, ao meu ver de então, as palavras nada queriam dizer. E – ousadia mais que tanta! – juntei à carta dois poemas de minha prolífica oficina – “A morte do poeta mooderno” (em que reclamava da “morte da poesia sentimental”, dizendo que o poeta moderno acabaria morrendo de aridez poética, mas tudo isso num puxado discurso sentimentalóide) e “Criptógamo” (que era uma espécie de “Áporo” escrito à contre-coeur) – para os quais pedia a apreciação do poeta. Dias depois, recebi, datada de 23 de junho de 1949 (lá se vão 53 anos!) a carta cujo texto lhes vou ler, até hoje mantida inédita, e que aproveito esta oportunidade para divulgar.          [A Biblioteca Nacional está disponibilizando cópias da mesma, que ficarão acessíveis aos ouvintes, aqui mesmo, após a palestra, para a edificação dos jovens escritores e poetas que porventura estejam presentes ou a quaisquer outros que por ela possam se interessar].

Leiamos a carta:

 

Rio, 23 junho 1949.

 

Ivo N. Barroso:

 

         Não vejo muita razão para o pessimismo de sua carta quanto às dificuldades do moço literato na cidade grande. O que v. chama de “indústria da poesia”, creio que não existe. Os poetas que alcançaram maior apreço pela sua obra são, na sua quase totalidade, homens pobres e que não fizeram quaisquer transações com o gosto do público ou dos poderosos. Dificuldades existem para a profissão literária em geral, e não só no Rio. Apesar dessas dificuldades, contudo, nunca se fez ouvir como agora, com tamanha intensidade, a voz dos novos. Com vinte e poucos anos, hoje, no Brasil, os poetas têm uma infinidade de jornais e revistas à sua disposição, xingam valentemente os mais velhos e desfrutam de uma vasta notoriedade. Não me parece desanimador este espetáculo.

         Dos dois poemas que me mandou, prefiro o primeiro, “Criptógamo”, que tem uma intenção mais sutil, expressa de maneira mais trabalhada. “A morte do poeta moderno” é um tanto declamatório e vão, puxado a discurso poético. Não é possível formar juízo diante destas amostras, apenas, e de resto eu me considero o anti-julgador por excelência. Mas, de uma coisa esteja certo: a poesia acontecerá ou não em você, de forma inelutável, menos pelos palpites que lhe derem do que pelo próprio trabalho interior, sua inclinação irresistível para a expressão poética.

Cordialmente,

                                   Carlos Drummond de Andrade

 

Mais tarde, quando li as “Cartas a um jovem poeta”, de Rainer Maria Rilke, na histórica tradução de Paulo Rónai, senti que a carta de Drummond tivera mais peso para mim do que as palavras teorizantes de Rilke endereçadas a Franz Xaver Kappus. O nosso poeta, em poucas palavras, definira todo o drama da dúvida do poeta novo à procura de um incentivo ou de uma negação definitiva.  A poesia era um acontecimento. Um sinal de Caim, que nasce conosco como um pecado original. Aconteceria ou não em nós independentemente do que os outros achassem. Até mesmo do que nós próprios achássemos. Mas se acaso sentíssemos que ela de fato acontecia, era preciso, a custa de trabalho e estudo, desenvolvê-la a ponto de a tornar uma parte de nós mesmos, nossa identidade, nossa razão de viver. Não era uma flor que se cultiva pelo seu poder decorativo, “um pavonear nos palcos de marfim”, mas um sofrimento que perturba, pois, sadomasoquisticamente, nos satisfaz e angustia. Fazer desse acontecimento uma razão de vida, ou de morte, é o trabalho do poeta, seu aprendizado, sua evolução, sua realização, que estará sempre muito aquém do quanto ele quer ou pensa poder alcançar. E analisando a trajetória de Drummond pude ver como ele se foi estruturando de um poeta mineiro, tímido, gauche, de olhos míopes e que andava de banda, que privilegiava um vocabulário íntimo, de sua gente, de seu berço – para evoluir em direção de se fazer um poeta cosmopolita, uma voz do grande centro, implicado nos problemas do cidadão comum, nas dores cotidianas do homem do povo, na sem-graceza da vida de funcionário público, com mil sonhos rondando-lhe a cabeça e os sentidos eletrizados de erotismo. E o fazendo sem o menor laivo de demagogia, de poesia talhada a foice e a martelo para o agrado de um grupo ou facção, mas inspirada, imposta, implicante de um sentimento de consciência social a que o poeta não pode se eximir por conveniência ou covardia.  E num momento histórico de sua vida – e da vida nacional – eis que o homem-poeta, antes centrado em seus problemas pessoais, aos quais consegue no entanto dar essa dimensão mais vasta, de problemas comuns aos homens que o circundam – ei-lo que assume uma dimensão política, de compromisso social, e valentemente, com as armas de que dispõe, num mundo em conflito dicotômico, apresenta-se ao combate:

 

O poeta

declina de toda responsabilidade

na marcha do mundo capitalista

e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas

promete ajudar

a destruí-lo

como uma pedreira, uma floresta,

um verme.   

 

[Um parêntese: há certa crítica que procura menosprezar essa fase ou melhor essa tomada de posição de Drummond, acoimando-o de palavroso, verborrágico, logomáquico, dizendo que ele pretendia ser o Neruda da língua portuguesa. Mas, enquanto em Neruda o verso é uma sarabanda de floreios gratuitos, em Drummond é uma granada de significados. O longuíssimo poema Canto ao Homem do Povo Charlie Chaplin, que encerra A Rosa do Povo, é uma das mais belas elegias a um símbolo, na qual o poeta como que se autobiografa e se auto-realiza. Talvez não por mera coincidência, o apelido de Drummond era Carlito.]

Mas o poeta não parou aí. “Não faça versos sobre acontecimentos”, dirá ele em Procura da Poesia, um dos dez maiores poemas da língua. “E como ficou chato ser moderno,/ Agora serei eterno”, começa dizendo naquele velho tom de pilhéria de seus poemas iniciais de Sentimento do Mundo. Mas esse anseio de eternidade de fato se concretiza nos versos mais realizados da maturidade, quando o social se torna universal. Já não é o povo e a sua impossível redenção pelas armas da poesia o que preocupa Drummond. Depois de marcar sua posição anti-capitalista, sua exponencialidade poética não podia ficar apenas ali, como muitos ficaram. Drummond entra seguro no reino da universalidade poética concentrando-se nos problemas do homem, do ser humano, apátrida e apolítico, do pobre mortal que já não aspira à imortalidade. A dor do ser é coletiva e universal. É preciso conhecer-se, a si mesmo e ao seu semelhante, conhecer o ser humano, ajudá-lo, se possível, a nunca abdicar da vida. [A propósito, incluamos outro parêntese: Sabe-se de uma carta que o poeta recebeu na qual o missivista lhe confessa que esteve à beira do suicídio e encontrou forças no poema Consolo na Praia para continuar vivendo. Lembram-se do poema?

 

Vamos, não chores…

A infância está perdida.

A mocidade está perdida.

Mas a vida não se perdeu.

 

O primeiro amor passou.

O segundo amor passou.

O terceiro amor passou.

Mas o coração continua.

 

Perdeste o melhor amigo.

Não tentaste qualquer viagem.

Não possuis casa, navio, terra.

Mas tens um cão.

 

Algumas palavras duras,

em voz mansa te golpearam.

Nunca, nunca cicatrizam.

Mas, e o humor?]

 

A injustiça não se resolve.

À sombra do mundo errado

murmuraste um protesto tímido.

Mas virão outros.

 

Tudo somado, devias

precipitar-te – de vez – nas águas.

Estás nu na areia, no vento…

Dorme, meu filho.]

Para realizar essa trajetória, ascendente sempre, Drummond luta com as palavras: “Lutar com as palavras/ é a luta mais vã”. “Penetra surdamente no reino das palavras./ Lá estão os poemas que esperam ser escritos./ Estão paralisados, mas não há desespero,/ há calma e frescura na superfície intacta./ Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.” Seu vocabulário é preciso e abrangente: idiotismos, polissemias, expressões coloquiais, termos peregrinos, neologismos, estrangeirismos – tudo lhe serve de matéria-prima, sua experiência não se detém diante de nada. Drummond acompanha e supera, em determinado momento, os experimentalistas, os vanguardistas, os praxistas. Sua poesia, do ponto de vista formal, avançava sempre e até hoje norteia as tentativas mais ousadas. Incomensurável é o espectro de sua temática, nada lhe é estranho, nem o infinitamente grande nem a pequenez microscópica. Seus recursos técnicos vão dos modelos clássicos às últimas ousadias léxicas e morfológicas de seu tempo. Drummond é um compêndio, uma suma, uma epítome. Sua voz, que ecoou desde o gemido indistinto do menino chorando na noite aos altos clamores de revolta dos povos oprimidos, ecoa até hoje – quinze anos depois de sua morte – como a mensagem-diretriz da poesia brasileira. Uma voz de seu tempo, do nosso tempo, enunciando os tempos que virão.

 

E como soaria a voz de Drummond em outras línguas? Como suas invenções lingüísticas, suas acrobáticas manobras para fugir ao lugar-comum, seus regionalismos incomodando o linguajar atual, seus neologismos, seus hápax e oxímoros, se comportariam em alemão, inglês, francês ou espanhol?

Morte no avião — esse poema-chave de Carlos Drummond de Andrade — é testemunho eficaz e evidente de seu horror pelas viagens. A não ser “nas asas do sonho”, o poeta pouco viajou, mesmo no Brasil. Além fronteiras, foi no máximo a Buenos Aires, onde morava a filha, Maria Julieta, que se casara com um escritor argentino. Na Europa nunca botou os pés, embora fosse sabido o seu amor pela França e a vontade que tinha de conhecer Paris. Contudo, mais que visitar a França em pessoa, Drummond sempre acarinhou o desejo de ver sua obra viajar por terras gaulesas levada pelo passaporte de uma boa tradução. Mas nem sempre esse desejo se concretizava…

As primeiras tentativas de apresentar a poesia de Drummond em francês partiram de um funcionário da delegação do Brasil junto a UNESCO, em Paris, o poeta bilíngüe Antônio Dias Tavares Bastos, que incluiu Drummond em sua Anthologie de la poésie brésilienne contemporaine (Éditions Pierre Tisné – Paris – 1954), pela qual desfilavam cerca de 50 poetas, de variados níveis, inclusive o próprio tradutor. Os poemas selecionados foram os seguintes: Poema patético e Segredo, de BREJO DAS ALMAS;   O operário no mar, Os ombros sustentam o mundo e Sentimento do mundo, de SENTIMENTO DO MUNDO,  e A flor e a náusea, de A ROSA DO POVO.

Posteriormente, em 1973, Jean-Michel Massa publicou, pela Aubier Montaigne, Paris, a coletânea Réunion/Reunião, que apresentava um elenco mais vasto de poemas drummondianos, inclusive o E agora, José?, duramente criticado por Paulo Rónai, e também vertido para o inglês por Jean R. Longland e para o alemão por Curt Meyer-Clason. Falecendo a 17 de agosto de 1987, dias depois da morte de sua filha (“a pessoa a quem mais amei neste mundo”, em suas próprias palavras), Drummond não pôde ver seu sonho de transplante linguístico realizado. Só quatro anos mais tarde sairia pela Gallimard, na coleção DU MONDE ENTIER, a tradução de Didier Lamaison que o iria integrar definitivamente nos domínios da língua francesa, com a apresentação de 211 poemas extraídos de todos os seus livros até Amar se Aprende Amando, que contém os dois últimos poemas (Sonetos Heredianos) que publicou em vida.

A tradução de Lamaison foi, a princípio, um desses trabalhos de dedicação e desafio, de prolongadas consultas a dicionários e a pessoas amigas para solucionar uma dúvida ou decodificar uma palavra mais interiorana do vocabulário hermético-mineiro de Drummond, trabalho de garimpo e lapidação que fazia pelo prazer de às vezes ver reluzir diante de  seus olhos a iridescência dos achados tradutórios. Só mais tarde surgiu o projeto da edição do livro, obrigando Lamaison a reformular seu escopo inicial e ampliar o leque das amostras, garimpando a fundo e a céu aberto, trabalhador braçal das letras, para arrancar amostras dos numerosos outros livros de Drummond sobre os quais ainda não se havia debruçado. A multiplicidade de temas e estilos levou-o a descrever na Introdução a variada ganga léxico-estilística por onde esteve peneirando: “Drummond respiga em todos os gêneros literários que passam a seu alcance, da poesia popular à poesia metafísica, divertindo-se em meio a uma pletora de estilos, que vão desde o corriqueiro e familiar até o puxado a sublime; exercitando-se em todas as técnicas poéticas, desde o verso livre até o soneto mais impecavelmente clássico, passando pelo caligrama, o heptassílabo folclórico ou a nobreza da “terza rima”, ele submeteu a língua portuguesa a todas as escolas, a todos os dogmatismos, fazendo-a prestar-se a todas as regras do jogo poético, e se diverte tanto com a verbigeração caótica do modernismo como com o academicismo neo-clássico. Globe-trotter da poesia, percorre, sem sair de sua terra nem de sua acomodada existência de funcionário público, países tropicais em que o significado se alastra em vegetações luxuriantes no tronco da palavra, territórios polares em que não se ouve senão a cacofonia dos sintagmas gelados, e regiões temperadas em que o vocábulo não diz exatamente aquilo que significa. Não raro também, compraz-se, de retorno de suas longínquas viagens, em se entregar a experiências de laboratório, em cultivar num meio tropical algumas palavras gélidas, em observar num clima temperado certa flora lingüística vinda de regiões de significados calorosos. Virtuoso do Stilmischung (“a mistura dos estilos”, tão cara a E. Auerbach), militou pela “democracia” das palavras e das coisas, dos tons e dos gêneros (L. Spitzer), expondo tranqüilamente o flanco aos críticos prontos a imputar essa desigualdade de tom a uma irregularidade de inspiração, e sem dar a mínima aos ulteriores tormentos de seu tradutor, receoso de se ver imputado de guacheries de tradução naqueles pontos em que procura apenas refletir as gaucheries propositais de um malicioso poeta obstinado em gauchir os registros da língua”.

O ouvinte estará certamente curioso de saber como Lamaison se saiu naqueles momentos definitivos em que Drummond transforma as suas “gaucheries” (ou melhor diríamos, as suas “mineiridades”) em reluzente poesia. É o caso, por exemplo, de Pedra no meio do caminho em que o emprego da forma regional do verbo ter pelo verbo haver (Tinha uma pedra no meio do caminho, em vez de Havia uma pedra…) confere ao verso uma força que não teria se o poeta ficasse adstrito à convenção vernácula. Lamaison traduz: J’avais une pierre au millieu du chemin (literalmente: Eu tinha uma pedra no meio do caminho) com o que consegue chocar o leitor francês, talvez um pouco mais do que o tinha terá perturbado os ouvidos dos raros puristas brasileiros — mas o resultado é o mesmo.

Outro caso que ocorre verificar em seguida é aquele dístico inicial de Consideração do Poema

 

Não rimarei a palavra sono

Com a incorrespondente palavra outono

 

para ver como Lamaison enfrentou o problema, se em francês sommeil (sono) não rima com automne (outono). Os versos simbolistas de Verlaine nos trazem à memória o clichê francês de rimar automne com monotone (monótono), mas a incorrespondência nesse caso não existe, sendo o outono europeu perfeitamente monótono e a rima absolutamente adequada ? Eis a solução:

 

Je ne ferai pas rimer le mot sommeil

Avec l’incorrespondant mot vermeil.

 

A rima e a incorrespondência são assim mantidas, conquanto Lamaison reconheça em nota no final do volume que sua escolha é perfeitamente arbitrária.

Logo nos ocorre perguntar: E como resolveu o problema do E agora, José ?, escapando dos deslizes tradutórios que Rónai apontara em J.-M. Massa ? Dider Lamaison foi brilhantemente em cima, obtendo o efeito dos versos sintéticos e martelados mediante uma engenhosa repetição de rimas em “i”:

 

E agora, José ?          Et maintenant, José ?

A festa acabou,          La fête est finie,

a luz apagou,              la lumière aussi,

o povo sumiu,             la foule est partie,

a noite esfriou,            la nuit a fraîchi,

e agora, José ?            et maintenant, José ?

e agora, você ?            et maintenant, et toi ?

você que é sem nome,        toi que es sans nom,

que zomba dos outros,       qui te moques d’autrui,

você que faz versos            que fais de la poésie,

que ama, protesta ?            qui aimes, qui te récries ?

e agora, José ?                    et maintenant, José ?

 

Mas o crítico severo poderia argumentar que se trata de uma solução imediata, sem grandes vôos, caso em que o remeteríamos para essa espantosa versão de Memória, poema composto em tercetos pentassílabos rimados, estrutura e rimas que Lamaison conserva em sua tradução:

 

 

 

MEMÓRIA                           MÉMOIRE

 

Amar o perdido                    Aimer le perdu

deixa confundido                 laisse confondu

este coração.                     ce coeur qui est mien.

 

Nada pode o olvido             Rien ne peut l’oubli

contra o sem sentido           contre le défi

apelo do Não.                       absurde du Non.

 

As coisas tangíveis              Les choses tangibles

tornam-se insensíveis          se font insensibles

à palma da mão.                  à paume de main.

 

Mas as coisas findas,              Mais les choses achevées,

muito mais que lindas,            au-delà de la beauté

essas ficarão.                       celles-là demeureront.

 

 

 

Se publicada nos anos de vida de Drummond, esta variada amostragem de sua poesia, transposta em língua mais acessível que o português, certamente teria levado os acadêmicos suecos a uma apreciação mais significativa do valor poético do nosso miglior fabro.

 

E, a propósito, entra aqui nossa segunda e última reminiscência:

Por força de minhas atribuições profissionais, tive a sorte de morar na Suécia, mais precisamente em Estocolmo, nos anos 1983-88. A agência em que eu trabalhava, por uma coincidência digna de apreço, ficava em cima da maior livraria da cidade, a Bok Akademien, da prestigiosa editora Norstedts. Graças à proximidade, a livraria era meu lugar de visita diária, meu porto de refúgio e de iniciação, por onde eu navegava sempre que dispunha de um tempo qualquer. Vivia impressionado com a rapidez das edições suecas, principalmente no que dizia respeito aos best-sellers, que eram lançados quase simultaneamente ali e em seus países de origem. Eu passava por eles tentando decifrar o título das capas e seguia para a seção de livros em línguas estrangeiras, que compreendiam várias prateiras e bancadas.  Procurei saber o que havia de escritores brasileiros e tive a boa surpresa de verificar que Drummond fora editado em sueco. Lá estava, com sua capa branca, o En Ros at Folket, que continha poemas traduzidos não apenas de A Rosa do Povo, como o título poderia supor, mas de outros livros do poeta, desde Alguma Poesia, de 1930, a Esquecer para lembrar, de 1979. Se o leque era amplo, a amostragem no entanto pecava pela parcimônia numérica: de cada livro havia no máximo 5 poemas e nem sempre os mais expressivos, pelo menos no nosso conceito de leitor brasileiro. O tradutor era Arne Lundgren, que eu precisava conhecer. Consegui por meio da Embaixada um encontro com ele, numa de suas raras vindas a Estocolmo, já que morava em Gotemburgo, no sul do país. Lundgren era o que imaginamos seja o sueco típico: fechado, de poucas palavras, tímido e sem jeito. Eu me sentia a seu lado uma loja de desinibições. Consegui perceber, entre um silêncio e outro, que ele considerava Drummond um dos maiores poetas vivos e achava de seu dever revelá-lo ao mundo escandinavo. Conhecia tudo de Drummond, prosa e verso, artigos de jornal, poemas circunstanciais. Para essa antologia, havia escrito inclusive um prefácio em que traçava um esboço biográfico do poeta, sua origem interiorana, a razão da presença de animais e campos em sua poesia que pouco a pouco ia se ampliando em direção dos mistérios do cosmo. Estava preparando uma segunda antologia, Fran oxens tid (o equivalente sueco de Boitempo), que sairia em 1985. Mas não descansaria enquanto não publicasse também as crônicas de Drummond, escritas para o Jornal do Brasil, que viriam finalmente a lume em 1987 com o título Vilsna Varelser, que significa aproximadamente Criatura Sem Rumo.  De nossa conversa, meio desajeitada, pude perceber o sofrimento de Lundgren por não poder conseguir obter em sueco as dissociações vocabulares com que Drummond fugia aos lugares-comuns. O tradutor me disse que, dada a rigidez do idioma, sem grandes invenções, sem criatividade, sujeito às expressões ossificadas pelo uso, era com desespero que ele tinha que reverter as imaginosas construções drummondianas para acomodá-las aos colarinhos duros do sueco. O próprio título do primeiro livro En Ros at Folket espelhava essa sujeição. Se tivesse usado Folkets ros (Rosa do Povo) em vez de Uma Rosa para o Povo teria incidido numa expressão quase ininteligível, podendo o leitor pensar que se tratava de uma qualidade nova do cultivo das rosas. E mostrou-me logo no início de Fran oxens tid (literalmente Do tempo dos bois, que foi o máximo que pôde fazer pelo inventivo Boitempo),  o poema 15 de novembro de 1889, em que o poeta fala da alegria reinante em Itabira no dia da proclamação da República: “ Liberais e conservadores não queriam acreditar./ Artur Itabirano saiu para a rua soltando foguete”. Arne Lundgren sabia perfeitamente o significado literal e o metafórico de nossa expressão “soltar foguete”, mas só pôde corresponder com um anódino “Arturo fran Itabira gick ut pa gatan och jublade i högan sky”, ou seja, “saiu para a rua e deu gritos de júbilo para os altos céus” – verso que Drummond certamente não escreveria nunca. Mas a verdade é que seria impossível um sueco compreender alguém saltando foguetes de alegria, primeiro porque não existem foguetes na Suécia e, mesmo se existissem, seriam rigorosamente, terminantemente proibidos!

Num trabalho conjunto com a Embaixada do Brasil em Estocolmo, a organização nacional em que eu trabalhava conseguiu uma verba para financiarmos nova edição de Drummond, valendo-nos da paixão e eficiência de Arne Lundgren para traduzi-lo. Foi assim que em maio de 1987 saiu nas livrarias de Estocolmo o livro Tvärsnitt, que significa Corte transversal, em edição bilíngüe, contendo 68 poemas dos mais representativos e avançando as traduções até As impurezas do branco (1973), Discurso de primavera (1977) e A Paixão medida (1980). Drummond estava assim condignamente representado na terra de Nobel.

Competia saber se a Academia sueca estava a par dessas traduções. Por sorte fiquei conhecendo Kjell Espmark, professor catedrático de francês na Universidade de Estocolmo, que publicara em 1986 um livro sobre o prêmio Nobel, cuja tradução francesa eu acabara de ver na livraria embaixo. Fiquei sabendo que ele era o secretário-geral da Academia sueca, uma das pessoas-chave na atribuição do prêmio. Era necessário proceder com cautela, pois sabia-se que os acadêmicos suecos viam com reservas quaisquer aproximações nesse sentido. Fui encontrar Espmark na Universidade levando seu livro para um autógrafo e tendo como objetivo da visita conversar sobre a tradução sueca de Rimbaud sobre a qual ele havia escrito um recente artigo. A conversa permitiu uma derivação rumo a Drummond, pois Rimbaud, embora traduzido por um dos  maiores poetas da Suécia, Gunnar Ekelöf, também tivera seus versos mais contundentes despersonalizados pelas deficiências do idioma. Falei sobre Drummond, que Epsmark conhecia superficialmente (como já disse, a tradução francesa de Lamaison só sairia alguns anos mais tarde) e interessou-se por conhecê-lo melhor. Mandei-lhe todos os volumes traduzidos por Lundgren, mas não fiz nenhuma outra sondagem para não levantar suspeita de lobbying.

Para tristeza da poesia brasileira, Drummond viria a falecer em agosto daquele mesmo ano (1987), o que encerrava definitivamente a possibilidade de lhe ser atribuído o Nobel, já que o prêmio só contemplava autores vivos, tendo sido concedido postumamente uma única vez, a Erik-Axel Karfeldt, já que o regulamento da Fundação não lhe permitia recebê-lo em vida por ser o secretário-perpétuo daquela entidade.

Em janeiro de 1989 deixei a Suécia para morar na França. Antes de embarcar fiz uma visita de cortesia e despedida a Kjell Espmark que me recebeu, como da única vez anterior, numa sala da Universidade. Achei de prudência não falar em Drummond, mas o sueco, na sua enigmática expressão, referindo-se a ele e dizendo ter sabido de sua morte, me falou em francês: Domage, M. Barroso… e fez uma pausa insondável que eu, já conhecendo a natural reserva dos suecos, pude interpretar como: “Que pena! logo agora que ele estava cogitado para o prêmio”. Saí de lá na certeza dessa ilusão.

 

Não creio que o Nobel fosse uma láurea profundamente desejada por Drummond nem sei se teria ficado feliz se a recebesse naquele ano em que praticamente se deixou morrer.  Em vida o poeta sempre fugiu das homenagens e distinções. Sempre quis ser um cidadão comum. Creio que lhe bastava o reconhecimento da grandeza de sua poesia.

Deixou-nos uma obra que resistirá sem dúvida ao tempo. Uma obra que é preciso conhecer em sua integralidade. Raros são os poetas que resistem à prova da obra completa. A maioria deles ganharia se suas dezenas de volumes fossem reduzidos a umas dezenas de poemas. Não é o caso de Drummond, que é sempre essencial, em que nada parece descartável. Para se ter a verdadeira dimensão de sua poesia cumpre lê-la toda. Mesmo os  poemas póstumos, ditos eróticos, sobre os quais há grandes divergências. Não sou dos que os aceitam como sendo sua melhor obra, nem daqueles que querem a toda força transformar Drummond num simples poeta erótico. Noto um certo marketing em torno desse aspecto singular de sua poesia. Temo que estejam com isso procurando minimizar a indispensável e concludente contribuição de Drummond para a grande e perene poesia. Não que desdenhe os poemas dessa fase, mais pornográfica que erótica, quando se vale de palavras cruas para designar artes e atos que já havia descrito ou aos quais já havia aludido com a magia de suas sutilezas vocabulares. Claro que não se trata aqui – no dizer de Wilson Martins – “de assustadiços pundonores vitorianos”. Por ocasião do lançamento de O Amor Natural tive ocasião de registrar numa resenha a minha exaltação diante do anacreôntico Em teu crespo jardim, anêmonas castas e principalmente do espantoso soneto Para o sexo a expirar, que me pareceu a versão 80 do Torso arcaico de Apolo, e no qual Drummond teve a ousadia de empregar o verbo aljofrar para designar a ejaculação, ousadia semelhante à do jovem Rimbaud no Castigo de Tartufo, que a compara às contas de um rosário que se espalham pelo chão. Mas, como o próprio Drummond previra, os novos tempos se encarregaram de neutralizar a carga impactual do palavrão, seu poder de agredir ou desconcertar. Ele se aburguesou, tornou-se lugar-comum, se diluiu na linguagem habitual dos jovens e crianças. Os poemas de O Amor Natural perderam até mesmo o sabor de escândalo que poderiam ter com o poeta vivo. É possível que aquele “aljofrar” seja hoje muito mais impactante do que quaisquer explicitudes vocabulares do jargão erótico. Também não creio que Drummond os tenha escrito apenas para mostrar-se “moderninho”. Analisando seu voyeurismo dos primeiros tempos (perna, perna, perna) era natural esperar-se que fizesse um dia poemas eróticos, ele que explorava todas as possibilidades da poesia. Mas daí querer-se transformá-lo principalmente ou exclusivamente num poeta erótico, dando-se ênfase desproporcionada e absurda a essa incidência, é algo que se opõe à importância global de sua poesia. Não devemos menosprezar essa fase das mil faces do poeta, mas dispensemos esse zoom sobre a sua panorâmica universal.

É verdade que em seus últimos anos de vida, Drummond parecia preocupado em demonstrar um certo  aggiornamento, temendo talvez que o julgassem démodé ou ultrapassado. Suas crônicas mais leves insistem em descrever jovens de biquíni e empregar palavras do momento como broto, menininha, garota etc. numa possível tentativa de “enturmar-se”, ele que no passado sempre evitara expor-se, encerrado na feroz defesa de sua privacidade. Drummond percebeu a força do poder jovem num país de velhos e onde os velhos não tinham direito de existir. Numa de suas crônicas de Passeios na Ilha escreveu: “Impossível fazer compreender aos de vinte anos que não temos culpa de ser mais velhos, de possuir maior soma de visões, de lembranças, de riquezas imponderáveis; que desvendamos certos segredos porque nos foi dada oportunidade de viver já há mais tempo; que o tempo traz consigo certa sutileza, ainda aos menos dotados; e que a suposta derrota de envelhecer nos confere uma curiosa superioridade (aliás, de ninguém invejada).” Mas com o correr do tempo, é possível que tenha querido rever essa posição, temeroso talvez de que essa sonhada superioridade pudesse parecer apenas a máscara de inveja dos velhos, o despeito por terem vivido em tempos de coerção ou o ciúme da liberdade que os jovens conquistaram. O máximo que o ancião pode fazer em nome de sua dignidade é evitar certas atitudes extemporâneas que caracterizam aqueles que não souberam envelhecer. A publicação daqueles poemas, feita postumamente, decerto concorreria para um lifting de suas possibilidades poéticas – de resto inteiramente dispensável para aqueles que já haviam consagrado os traços rígidos de sua fisionomia criadora.

 

Voltando à carta que ensejou esta palestra: se pudéssemos genericamente endereçá-la a todo jovem leitor e candidato a poeta, talvez coubesse acrescentar-lhe um P.S.: Leia Drummond, todo o Drummond. Não para imitá-lo, torcê-lo ou diluí-lo, mas para ver como se pode, pelo trabalho e a aprendizagem, dominar uma infinidade de meios de expressão, penetrar nos mais íntimos segredos da linguagem, dar forma léxica às idéias mais absconsas.     E principalmente para que possa se conscentizar de que a poesia é a afirmação de uma identidade, que cada poema deve exprimir a fisionomia de seu criador a ponto de se tornarem únicos e inconfundíveis. Cabe ao poeta novo ser ele mesmo, ou seja, diferente dos demais. Imprimir sua marca, criar seu logo, registrar sua voz.  Não há poesia sem linguagem nova. A verdadeira poesia é um estado permanente de revolução.

 

Palestra pronunciada no CCBB em novembro de 2002.

      UM SONETO DE FRAY LUIS DE LEÓN TRADUZIDO
por Ivo Barroso

 

PÃO E DEUS – Fray Luis de León

 

Se pão é o que vemos, como dura

Sem que ao comê-lo todo não se acabe?

Se Deus, por que o gosto a pão nos sabe

Como se só de pão tem a figura?

 

Se pão, por que adorá-lo a criatura?

Se Deus, porque em tão pouco espaço cabe?

Se pão, porque a ciência assim não sabe?

Se Deus, como comer sua feitura?

 

Se pão, porque nos farta com tão pouco?

Se Deus, como é que pode ser partido?

Se pão, por que em noss’alma mexe tanto?

 

Se Deus, como é que o vejo e nele toco?

Se pão, como dos céus ei-lo descido?

Se Deus, como não morro então de espanto?

 

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O significado de Corpus Christi

“Eucaristia” é uma palavra grega que significa “dar graças” ou “agradecer”. Esta palavra ganhou um significado novo e profundo quando os cristãos passaram a chamar de “Eucaristia” a Última Ceia celebrada por Jesus. Isto aconteceu porque nesta ceia Jesus “deu graças a Deus” e se entregou total e gratuitamente por amor à humanidade.

Na Ceia Eucarística Jesus transformou o pão e o vinho em seu corpo e seu sangue dizendo: “Isto é o meu corpo… Isto é o meu sangue.” Além disso, ele deu aos apóstolos o poder de perpetuarem este milagre dizendo: “Fazei isto em memória de mim.” Por isso, a Eucaristia tornou-se “sacramento”, isto é, um meio pelo qual Deus se faz real e eficazmente presente entre nós.

 

                                                                                                   ***

  • FRAY LUIS DE LEÓN (Belmonte, Espanha, 1527 – Madrigal de las Altas Torres, id, 1591), escritor espanhol em castelhano e línguas latinas. De ascendência judaica, desde a sua juventude, professou  na ordem agostiniana. Foi um grande humanista de espírito cristão e grande conhecedor dos clássicos latinos. Ressaltou, acima de tudo sua consciência estilística, tão rigorosa quanto em sua prosa; na poesia demonstra domínio do ritmo e do tom. Seguiu as inovações métricas introduzidas por  Boscán  e Garcilaso , mas decidiu-se  exclusivamente pela lírica, com uma expressão poética de grande perfeição formal e força expressiva, simplicidade exemplar. (Google)

 

***

 

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