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OS POETAS ‘ESDRÚXULOS’

Em 15.03.2014 prometi aos leitores da Gaveta criar uma antologia poética para a divulgação de versos que, no meu tempo, eram considerados de “primeira linha”, e já na semana passada comecei a cumprir o prometido. Mas queria também divulgar o trabalho daqueles que poderíamos denominar “poetas esdrúxulos”, não pelo teor de suas composições, mas por causa dos nomes estranhos ou pseudônimos com que assinavam seus versos. Entre estes, arrolamos logo de saída, Judas Isgorogota, Sosígenes Costa, Euríclides Formiga, Cleômenes Campos, Junquilho Lourival, Emiliano Perneta, Otoniel Beleza, Pethion de Villar, Petrarca Maranhão, Pretextato da Silveira, Segundo Wanderley… Se Judas Isgorogota e Pethion de Villar eram evidentes pseudônimos, respectivamente de Agnelo Rodrigues de Melo, alagoano, e de Egas Muniz Barreto de Aragão, baiano, todos os outros – pasmem! — são nomes verdadeiros, Aliás, o Egas Moniz nem precisava daquele Pethion de Villar, pois seu próprio nome já soa como pseudônimo. Todos esses estranhos/esquecidos compuseram versos considerados “de primeira linha” em seu tempo e figuram em várias antologias e florilégios até hoje. Quanto aos temas, eram em geral versos de amor, de conquista ou de saudade, vez por outra apelando para uma filosofia ingênua. Mas há o caso daquele Segundo Wanderley (1860-1909), poeta abolicionista norte-rio-grandense, que escreveu um incrível soneto intitulado “Amor de Filha”, dedicado a Pedro Avelino (?), personagem que deu nome a uma cidade do Rio Grande do Norte, mas sobre o qual ainda não consegui nenhum dado. Voltaremos a ele no futuro.

Vamos começar nossa antologia dos poetas “esquisitos” com

 

JUDAS ISGOROGOTA (1901-1979) – poeta alagoano

Chamava-se Agnelo Rodrigues de Melo e adotou o pseudônimo nas seguintes circunstâncias, conforme consta de uma entrevista: Autor de versos humorísticos numa revista em que desancava todo mundo, principalmente seus desafetos, resolveu adotar um nome literário para se livrar das represálias. “Judas”, na tragédia bíblica, simboliza o “homem possível”, da mesma maneira que Jesus representa o “homem perfeito”. Judas bem poderia servir de nome de guerra para um poeta que queria “judiar” com as pessoas. Assinei, por isso, Judas Isgorogota. O Isgorogota nada mais é do que simples corruptela de “Iscariotes”.

(Judas Iscariotes, como se sabe, era o nome do discípulo que traiu Jesus Cristo; Cariotes o de sua cidade natal). Conceituadíssimo como poeta e escritor no meio literário da capital paulista onde vivia, Agnelo Rodrigues teve vários livros publicados e seus versos traduzidos para mais de oito línguas.

 

 

DIVINA MENTIRA

 

Pobrezinha da mãe que teve um filho poeta

E o viu cedo partir para as bandas do mar…

Nunca mais que ele volte à mansão predileta,

Nunca mais que ela deixe, um dia, de chorar…

 

É como a água de um lago, inteiramente quieta,

A alma de toda mãe que vive a meditar:

O mais leve sussurro é-lhe um toque de seta,

A mais leve impressão basta para a assustar…

 

Eu, por sabê-la assim, quando lhe escrevo, digo:

“– Minha querida mãe, não se aflija comigo.

Eu vou passando bem… Jesus vela por mim…”

 

É que assim, ela – a humana expressão da bondade –

Contente por saber que vou sem novidade

Jamais há de pensar que eu vá mentir-lhe assim…


CAROS LEITORES

Esta antologia é um velho projeto meu e gostaria que vocês participassem dele. Mas posso estar enganado quanto ao interesse que ela possa despertar em vocês, meus leitores, principalmente entre os jovens, se é que os tenho.

Preciso  saber claramente se esta seção (que seria permanente) lhes despertou interesse, se devo continuar publicando aqui os versos que me entusiasmaram no passado, ou se o que era “primeira linha” para mim já não faz sentido para vocês.

Por favor, deixem uma nota, curta que seja, um sim ou não já basta, mas não posso ficar na dúvida.

 

IVO BARROSO

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O ROMANCE DE MILTON

Meu conterrâneo de Ervália-MG, Milton Rezende, já produziu cerca de dez livros de poesia, dois ou três de ensaios e pesquisas, enfrentou a morte que o ameaçava com cirurgias malogradas e dela ressurgiu já pronto para enfrentar novos desafios, como este de escrever um romance. E não um romance comum, desses que contam uma história do começo ao fim, com personagens e diálogos definidos. Milton escolheu a mais sofisticada forma de narrativa que é o romance minimalista. Que vem a ser isto? Em miúdos, um texto em que nada acontece no sentido habitual de descrever um fato existente ou imaginado, leitura em que não se fica sabendo com clareza onde está o narrador nem o que está ocorrendo em seu redor, ou o que ocorrera antes ou poderá vir a ocorrer depois. Sabe-se, vagamente, que o autor da narrativa é um escritor que se considera fracassado, às voltas com um livro que não chega a terminar nem muito menos imprimir; que vive na dependência de um telefonema que não consegue dar nem receber e por isso se embebeda de inúmeras doses de cachaça que toma prosaicamente em xícaras de café. Mas aí é que está a grandeza do texto: esse solilóquio de um homem em busca de amor, a perseguir duas ou três (nomes de) mulheres, que não são descritas nem se sabe bem que papel representam na vida do narrador: esposa? ex-esposa? namorada? idealização? meros fantasmas?

É preciso ser um exímio prosador, ter-se um extenso domínio da língua para manter o leitor preso a esse desdobrar de um acontecimento que não acontece, ouvindo o monólogo de alguém que parece fora da realidade e cuja existência se resume num permanente estado de espírito de espera de não se sabe o quê. O leitor fica na expectativa permanente de que de súbito o telefone toque, que o poeta atenda, que identifique a interlocutora, que se saiba o que ela representa (ou representou) na vida do autor – enfim, aquele happy end que se espera dos livros, das novelas televisivas e mesmo da vida real. Mas Milton segura o pião na unha: nada de aberturas, de intimidades; tome divagação, tédio, indecisão, voltas e mais voltas sobre si mesmo.

O leitor chegado à literatura vai pensar logo em Camus ou num outro mestre da narrativa desintegrada; mas posso dizer que Milton foi além disso: conseguiu escrever todo um romance, numa excelente linguagem, sem recorrer aos acidentes e incidentes peculiares das narrativas. A “história” está toda, inteira, na elaboração da frase, no anti-fato, na negação do acontecimento. Um caminhar permanente no fim da navalha. Você não pode deixar de ler esse livro. É claro, acompanhado de inúmeras xícaras de… café!

Ivo Barroso

 

 

 

LITERATURA

BREVIÁRIO DE AFETOS

Conhecido como poeta e crítico literário, Ivo Barroso é essencialmente tradutor. Sua tradução da Poesia completa e da Prosa poética de Rimbaud está, sem favor algum, entre as realizações mais perfeitas de um autor francês para o português, e contam com a vantagem – que para outros seria descrédito – de figurarem numa edição bilíngue, extremamente vantajosa para o leitor comum. Não há dúvida que esse trabalho de tradutor teve diversos desdobramentos, a tal ponto que seu nome, além dos prêmios recebidos, é geralmente apreciado pelos teóricos da tradução, como Paulo Rónai. Aqui, porém, cuidaremos de outra faceta de Ivo Barroso. Breviário de afetos (São Paulo: SESI-SP editora 2107) compreende crônicas, entrevistas e postagens escritas com simplicidade e que, em alguns casos, surpreendem pelas “revelações” que contêm. O livro fala dos conhecimentos do autor, sobretudo os escritores brasileiros mais ilustres ou destacados, como Alceu Amoroso Lima, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, Ferreira Gullar, etc., mas também do tradutor francês Didier Lamaison (que publicou, em dois volumes, traduções de poemas de Drummond) e se refere a outros tradutores, como o alemão Curt Meyer-Clason, e os brasileiros, Onestaldo de Pennafort e Milton Amado, que traduziu “ O corvo” de Edgar Poe.

Todos os textos de Ivo Barroso são redigidos sem a preocupação de exibir conhecimentos, o que aumenta o interesse que despertam. Seja nas recordações sobre escritores já falecidos, como Antônio Houaiss, Otto Maria Charpeaux, João Cabral de Melo Neto, (uma entrevista), Paulo Rónai, Melo Nóbrega, Antônio Carlos Villaça, Mário Faustino, Anísio Teixeira, seja quando aborda amigos e parentes fora da literatura, Ivo Barroso alcança um nível de empatia extraordinário, quase como se o leitor estivesse sentindo, ou até “vendo” a figura retratada. Em todos os tipos desenhados e/ou revividos, distinguem-se o perfil de Edgard de Vasconcellos Barros, incentivador do adolescente Ivo e o de seu tio Pedro, outro que também incentivava o jovem Ivo. E, acima de tudo, o belo texto sobre a namorada – e depois esposa – Sílvia, verdadeiro exemplo de prosa poética, no qual comemora o fato de já estarem casados há 60 anos! Ademais, convém igualmente referir os textos sobre Karlos Rischbieter, cuja devoção ao poeta Rilke o levou a traduzi-lo. A propósito, notem-se reproduções de textos seus ou alheios, sejam traduções de poesia, seja o prefácio redigido para um livro de Gullar. De todo modo, um volume de leitura imprescindível.

FERNANDO PY (Tribuna de Petrópolis, 19.01.2018)

***

                 ANTOLOGIA POÉTICA DA GAVETA

Quando eu era jovem (isto é coisa dos anos ’50), tínhamos a mania das coleções: grandes álbuns com marcas de cigarro, artistas de cinema, selos estrangeiros, etc. Os mais sensíveis, no entanto, costumavam carregar também um “Caderno de Poesias”, onde colecionavam os versos (românticos!) que mais apreciavam. Lembro-me que na folha de rosto do nosso havia a frase: Só poemas de primeira linha”. Lá estavam, seguramente, o Alceu Wamosy, com o seu “Ó tu que vens de longe, ó tu que vens cansada”; o Aníbal Teófilo, autor de um único soneto, “A Cegonha”, que terminava em “Ver a dúvida humana debruçada/ Sobre a angústia infinita de si mesma!”; o indefectível Júlio Salusse com os seus cisnes, “A vida manso lago azul algumas/ vezes, algumas vezes mar fremente”; sem faltar o Padre Antônio Tomaz, filosofando : “Quando partimos no vigor dos anos/ Da vida pela estrada florescente” e o sempre declamado Nilo Bruzzi a lamentar “Pobre de quem, como eu, vê que, infeliz,/ Teve todas aquelas que o quiseram,/ Mas nunca teve aquela que ele quis!…” Eram os nossos poetas exemplares, só mais tarde desbancados pelo Guilherme de Almeida e o Menotti Del Picchia, e finalmente esquecidos quando Manoel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade se impuseram. Quem hoje, com menos de 50 anos, ainda se lembra daquele (imortal?) “Nascemos um para o outro, dessa argila/ de que são feitas as criaturas raras?” Ah, fugit irreparabile tempus!

De primeira linha… Que vinha a ser isto? O senso estético já nos permitia, à época, afirmar que Menotti del Picchia era melhor que J. G. de Araújo Jorge e que Raul de Leoni e Olavo Bilac eram os grandes nomes da poesia sentimental. Mas, o que será, para a gente de hoje, um poeta de primeira linha? Com o advento da Internet bagunçou-se o conceito de poesia e qualquer semianalfabeto enche hoje as redes sociais com seus versos de pé quebrado ou mesmo versos sem pé nem cabeça alguns. Com isso os mais jovens vão perdendo a noção clássica do belo e do estético, ignorando os grandes poetas brasileiros do passado, mesmo os de um passado recente representado pelas correntes modernistas.

Nosso intuito aqui é o de trazer aos leitores da Gaveta aqueles versos que no passado nos encantaram e considerávamos  “de primeira linha”. Serão apenas amostras, sem grandes comentários, meras transcrições dos poemas em si. No máximo acrescentaremos, após o nome do poeta, as suas datas extremas, nascimento e morte, para que o leitor tenha uma noção de época. Sem biografia ou crítica literária, o poema valerá por si só e o gosto do leitor será o juízo final.

 

RAUL DE LEONI (1895-1926)

EUGENIA

 

Nascemos um para o outro, dessa argila

De que são feitas as criaturas raras;

Tens legendas pagãs nas carnes claras

E eu trago a alma dos faunos na pupila…

 

Às belezas antigas te comparas

E em mim a luz olímpica cintila.

Gritam em nós todas as nobres taras

Daquela Grécia esplêndida e tranquila…

 

É tanta a glória que nos encaminha

Em nosso amor de seleção, profundo,

Que (ouço ao longe o oráculo de Elêusis).

 

Se um dia eu fosse teu e fosses minha,

O nosso amor conceberia um mundo,

E de teu ventre nasceriam deuses…

 

Nota: O título do poema é paroxítono (nía) e diz respeito à ciência que trata das condições mais propícias à reprodução e melhoramento genético da espécie humana. (Aurélio). Se você já conhecia o poema, ótimo; se não, sai correndo e vá comprar a obra completa de Leoni (um único volume denominado “Luz Mediterrânea”). Não é possível falar de poesia brasileira sem conhecer essa obra, inteira. Há duas edições confiáveis: a 4ª. edição da Livraria Martins Editora (1946), belíssima em papel encorpado, azul, raridade bibliográfica, e a edição da Topbook, de 2000, criteriosamente organizada por Pedro Lyra).

Devo dizer que a influência de Raul de Leoni, sobre mim, era tamanha que lhe imitava, além do vocabulário e ambientação (Grécia, Roma), até mesmo o vezo de deixar a sexta sílaba sem icto, como se fosse um verso de pé quebrado. Eis um dos meus sonetos da época:

 

EGRESSO

Venho de longe… Sou daqueles dias

Em que se ergueu a Acrópole de Atenas.

Fui discípulo amado nas serenas

Peripateses das Academias.

 

Com Epicuro provei das alegrias

E do prazer das bacanais helenas

E Platão me ensinou, nas horas plenas,

A mais sublime das filosofias.

 

Formei entre os estetas das ideias,

Talhei com Fídias as panatenéias,

Fui sacerdote oracular de Elêusis…

 

Mas, seguindo da Sorte os maus caprichos,

Hoje vivo entre uns homens que são bichos,

Eu, que nasci no tempo em que eram deuses!

 

(Por favor, desculpem)

Desculpem os leitores se repito este ano as palavras que escrevi em 2016 para lhes desejar um Feliz Natal. Reli-as agora e senti que me invadia uma emoção antiga, a volta ao aniversariante que sofria nas noites de chuva do Herval com a ausência dos amigos, sofrimento que as compensações caseiras e as alegrias gustativas não conseguiam minorar. Repito-as agora por me fazerem bem e por sentir que aquela ausência é hoje compensada pelo convívio virtual com as dezenas de amigos que adquiri ao longo destes anos em que venho mantendo esta Gaveta. Que todos tenham, pois, como, eu um Natal repleto de calor humano (mesmo quando virtual).

Como sempre no Natal, a Gaveta entrará em recesso por uns tempos, devendo regressar depois do Carnaval. Mas sem fechar as portas, que continuarão abertas de par em par aos nossos leitores que poderão escarafunchar à vontade e aproveitar para ler os artigos mais longos. Também este ano ilustramos o post com uma pintura a óleo de um dos componentes da associação “Pintores com a Boca e os Pés”, que todos os anos editam uma série de belíssimos cartões postais executados por eles. Merecem o seu apoio pelo esforço e a qualidade de seus trabalhos (tel. (11) 5053-5100 ou www.apbp.com.br).

 

JÁ É NATAL!

Já é Natal porque a gente ouve uns sinos que tocavam longe na nossa infância, na noite que estava sempre enevoada, as pessoas indo para a missa do galo que procurávamos em nosso quintal onde nunca tinha havido um galo. E um certo corre-corre dos lados da cozinha, a preparação da ceia, as velas que estavam escondidas no étager, a presença indefectível de Geralda, pronta para se vestir de Papai Noel.  Sim, tudo já eram prenúncios, mas temíamos pelo dia 25, o do aniversário pois todo ano chovia, chovia forte e as mães não deixavam os meninos vir à festa. Ficávamos sozinhos, eu e meus irmãos, olhando o tempo através da vidraça, imaginando a possibilidade de aparecer alguém vindo embaixo daquele guarda-chuva, que passava sem no entanto entrar no prédio.

Já é Natal porque muitos natais já se passaram, os da infância se arrastando, ah meu Deus agora só no ano que vem, os da juventude tão depressa, as férias voaram num minuto, e os da velhice, esse sopro que passa veloz, mas deixa sempre a ameaça de parar um dia.

Sim, já é Natal pois vultos de anjos que adejam, magos que seguem o rastro de uma estrela, e o presepe, o burro, a manjedoura, os indícios materiais do evento. Não há como fugir desse menino-símbolo, desse deus que criamos e sacrificamos, desse apelo ao invisível, desse desesperado aceno ao inalcançável.

Já é Natal porque em meio a tanta incerteza, decepção, angústia, desse grito agudo da miséria humana, dessa incapacidade de um gesto, de uma ação, só nos resta a esperança de um milagre, e tudo nos projeta em direção do divino transcendente. Uma luz há de nascer. Natal é luz.

FELIZ NATAL! E ANO NOVO MAIS AINDA!

 

***

 PROMESSAS DE FIM DE ANO

Como havíamos prometido num quase esquecido post de 15.03.2014 (’Poetas Esquecidos”), estamos planejando, para a volta definitiva da Gaveta, logo após o Carnaval, a criação de um setor permanente destinado à divulgação da poesia brasileira. Entendemos que a atual facilidade dos meios de comunicação ensejou uma certa barafunda entre os leitores quanto ao que se deva (ou possa) entender como sendo poesia. Não queremos bancar o sabereta, o magister dixit, mas a ideia é apresentar aqui exemplos do que, a nosso ver, consideramos poemas dignos de ser conhecidos ou reconhecidos dentro dos padrões habituais e conceptuais da arte. Já imaginamos duas seções diferentes: uma em que procuraremos trazer aos leitores de hoje aqueles poetas que, em nossa formação literária, eram considerados padrões do bom gosto    estético e do bem fazer poético; outra, será uma curiosidade: apresentar aos leitores poetas cujos nomes extravagantes de certa forma os tornaram “casos especiais” de nossa literatura. Referimo-nos por exemplo a vates  como Zeferino Perneta ou Judas Isgorogota, cujos nomes estranhos não os impediram de produzir belos momentos poéticos, os quais iremos mostrar em nossas duas antologias permanentes (ou seja, elas sairão em todos os posts seja como matéria principal seja como simples anexo.)

BRIGHT FRIDAY

ÚLTIMO AVISO: SEXTA FEIRA, DIA 1º DE DEZEMBRO ÀS 19 HORAS NA

LIVRARIA DA TRAVESSA DO SHOPPING CENTER DO LEBLON

Caro Amigo/Amiga,

Se você é leitor da Gaveta e mora no Rio, esta é uma bela oportunidade de nos conhecermos: estou lançando meu livro de memórias, Breviário de Afetos, no dia 1º de dezembro, a partir das 19 horas, na Livraria Travessa, do Shopping Center do Leblon. Estou certo de que muitos de meus amigos e parentes irão prestigiar o evento, e nessa ocasião poderei rever alguns e me confraternizar com eles. Seria, no entanto, uma bela surpresa se, entre as pessoas que lá estiverem, surgir você, que até então eu não conhecia, dizendo: Eu sou fulano, leitor da Gaveta, vim conhecê-lo pessoalmente.  E eu lhe agradeceria com um abraço, prometendo que a Gaveta vai continuar.

A POESIA CAPSULAR DE RAYMOND CARVER

Quem conhece a obra ficcional de Raymond Carver (1938-1988), um dos mais peculiares contistas norte-americanos dos anos ’80, referenciado por sua concisão estilística, aversão ao “literário” e diretividade vocabular, dificilmente poderia imaginar que ele fosse capaz de aplicar, com êxito, tais características na composição de seus poemas.  E obtivesse com eles os mesmos resultados consagratórios que lhe granjearam a produção de contos. O curioso é que, conforme revelou o próprio autor numa entrevista à Paris Review, com ele se passou precisamente o contrário: o caminho foi da poesia para a prosa, ou nas palavras de sua segunda esposa e antologista, Tess Gallagher, “da corrente espiritual da poesia é que ele partia para escrever seus contos”.

Se destes o leitor brasileiro já conhecia duas recolhas (Iniciantes (2009) e 68 contos (2010), ambas editadas pela Companhia das Letras em tradução de Rubens Figueiredo, o que temos agora, na antologia poética, Esta Vida, lançada pela Editora 34, é uma primeira amostra de seus poemas individualíssimos, na tradução mais que consentânea de Cide Piquet. A garantia da fidelidade de transposição fraseológica e vocabular se evidencia no cotejo com os originais ao fim do livro e a leitura desta série de poemas permitirá observar que a  viagem de ida e volta entre a prosa e a poesia se desenvolveu pelo mais determinado dos caminhos.

Desde logo, tal encontro fortuito com a poesia de Raymond Carver poderá despertar no leitor habitual uma série de hesitações: o que está lendo será de fato poesia, ou seja, será o que ele até então considerava como pertencente a um padrão poético? Não lhe parecerá, antes, que se trata de uma série de minicontos, alguns extremamente condensados, outros mais explícitos, guardando da estrutura poética apenas o fato de estarem escritos em versos irregulares?

A continuidade da leitura irá evidenciar, no entanto, a descoberta de uma personalidade poética inteiramente fora dos padrões habituais, explorando temas raramente considerados poéticos, numa voz que soa tão clara quanto estranha, exigindo às vezes uma reelaboração mental para abranger-lhe o sentimento mais íntimo. E não há como passar de liso sobre a manutenção, agora no verso, daquele vocabulário preciso, quase vulgar e de uma diretividade realística, utilizado nos contos, que poderia soar aqui até mesmo antipoética. Carver consegue, mesmo assim, o milagre de acender uma fagulha emotiva na aridez de um relato banal, fazendo ali brotar a chispa que caracteriza a essência de um poema. Veja-se o que ocorre, por exemplo, em um de meus preferidos: A cabine telefônica. O poeta está em seu carro parado diante de uma cabine telefônica; lá dentro, um jovem casal chora ao receber uma notícia má; o casal volta para o próprio carro, enquanto o poeta prepara as moedas para fazer sua chamada (“Detesto usar um telefone / que acabou de dar notícias de morte. “) E é a sua vez de tentar, por essa via, a sempre negada reconciliação com a esposa, que agora o manda definitivamente para o inferno. A poesia, até então contida, restrita à descrição da cena, encontra a seguir seu momento de eclosão: “O casal no sedan abaixa os vidros / das janelas e observa, suas lágrimas pausadas / por um momento em face daquela distração. / Depois sobem os vidros de novo e se recolhem no carro. Por algum tempo / não vamos a parte alguma. / Depois vamos embora. ” Essa pausa, entre a espera e a partida, é que resume toda – digamos – a emotividade do poema. Ao lermos composições como O padeiro, Para Tess e Esperança, nos quais a realidade mais abrupta adquire status de substância emotiva, nos admiramos de um poeta da qualidade de Carver, com seu estilo inigualável, só agora ter sido apresentado ao público brasileiro.  

Sua origem rústica e humilde – o pai, de quem herdou o estilo de vida desprendido e o uso de bebidas, era empregado numa serraria e costumava levar o poeta para intermináveis pescarias e caçadas; Carver acostumou-se a esse tipo de “vida menor” a ponto de fazer dele sua forma habitual de ver o mundo. Teve de passar por dezenas de empregos secundários e mal pagos (entregador de encomendas, zelador de edifícios, ajudante de porteiro e faxineiro num hospital), até conseguir terminar um curso superior que lhe permitiu afinal lecionar e conviver com pessoas de outro nível cultural.

O próprio Carver revela que até os 19 anos não tinha a menor noção do que fosse um poema; em 1957, ao fazer uma entrega de remédios, deparou na casa do cliente com um exemplar da revista Poetry. Ele, que andava obcecado com a ideia de escrever alguma coisa, descobre ao folheá-la que seu objetivo é a poesia, mas só 28 anos mais tarde enviou à revista seus trabalhos e teve seu primeiro livro de versos (Near Klamat) publicado apenas em 1968.  Alcançando um nível de convivência intelectual bastante acima de suas atividades anteriores, começa a frequentar escritores e jornalistas, a participar de importantes workshops e de editorias de revistas literárias nas quais publica seus contos que, desde cedo, lhe trazem notoriedade e prêmios.

A presente antologia, Esta Vida contempla uma seleção dos quatro principais livros do autor:  Fogos (1983), Onde a água se junta a outra água (1985), Ultramar (1986) e Um novo caminho para a queda d’água (1989), organizada por pelo excelente tradutor Cid Piquet a partir de All of Us: The Collected Poems – Vintage, 2000) .

(Publicado no suplemento Prosa & Verso, de O Globo, em 28.10.2017)

Eis o argumento apresentado pela artista-gráfica Valquíria Palma à SESI-Editora para criar a capa do livro “Breviário de Afetos”:

Para encontrar uma unidade temática, acerca do que seria o ato de “revisitar a memória”, o caminho foi a imagem que ficou um pouco ao final da leitura do livro. 

A imagem de um barco navegando na correnteza da memória, tentando reter tudo o que passou. Na minha análise (bastante subjetiva, eu sei), o Ivo Barroso está guiando o bote da memória, em busca de eternizar fragmentos que viu/viveu ao longo de sua vida como tradutor, como poeta, como crítico, como ser humano.

Quando fiz a pesquisa, quis brincar com essa noção de tempo, com tudo o que ele pode nos dar e nos tirar. Como a água – do mar, dos rios – que aparentam estar sempre no mesmo lugar, mas nunca são as mesmas.

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