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OS NOSSOS PEQUENOS PRÍNCIPES

Em 1907, o editor Jorge Schmidt, que já publicava duas revistas semanais a Kosmos e A Careta, decidiu lançar uma terceira, que seria, segundo ele, mais dinâmica, mais em consonância com a modernidade de então. E nada mais adequado para uma publicação com tal escopo que o nome FON-FON, uma espécie de representação gráfica da buzina dos automóveis, símbolo ímpar da agitação das grandes cidades modernas.

A revista cativou o público já no primeiro número, pois conclamava os leitores a participar de um concurso que logo despertou grande celeuma: a eleição do “príncipe dos poetas brasileiros”, a ser escolhido por votação popular. O primeiro, proclamado ainda naquele ano de 1907, foi Olavo (Brás Martins dos Guimarães) Bilac, poeta que desfrutava de enorme prestígio literário em razão de sua obra poética, amplamente divulgada em livros e jornais, e mais ainda por sua atuação patriótica como propagandista do serviço militar obrigatório e do culto à bandeira nacional. O reinando de Bilac durou até 1924, quando novas eleições, igualmente patrocinadas pela FON-FON, consagraram o nome de (Antônio Mariano) Alberto de Oliveira, farmacêutico, pintor e poeta parnasiano que desfrutava de enorme popularidade entre as classes leitoras, membro representativo da Academia Brasileira de Letras. Alberto de Oliveira conservou o título até 1938, quando nova eleição popular, ainda sob a égide da FON-FON, eleva ao principado o poeta, político e diplomata Olegário Mariano (Carneiro da Cunha), que viria a ser conhecido como “o poeta das cigarras”. Em 1958, já agora por iniciativa do jornal CORREIO DA MANHÃ, o concurso popular proclama a figura do modernista Guilherme (de Andrade) de Almeida, grande jornalista, crítico de cinema e conceituado tradutor de poesia, membro da Academia Brasileira de Letras.

O atual detentor do título, sem que tenhamos referência sobre o concurso popular que o teria elegido, é Paulo (Lébeis) Bomfim, poeta, membro da Academia Paulista de Letras, nascido em 1926 (atualmente com 92 anos). Em sua homenagem a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo instituiu, em 2016, um concurso que tem precisamente esse nome: “O Secretário de Educação do Estado de São Paulo, considerando a importância de homenagear o Decano da Academia Paulista de Letras, PAULO BOMFIM o “Príncipe dos Poetas Brasileiros” que completou 90 anos dia 30 de setembro de 2016, institui o Concurso: Paulo Bomfim o “Príncipe dos Poetas Brasileiros” como forma de incentivar a pesquisa e a leitura; valorizar a produção literária de alunos e alunas da rede estadual de ensino; e resgatar o legado do poeta para a literatura brasileira.”

 

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Olavo Bilac (1865-1918) – poeta carioca – príncipe de 1907 a 1924

Via-Láctea
XIII

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

 

Alberto de Oliveira (1857-1937) – poeta carioca – Príncipe de 1924 a 1938

 

VASO CHINÊS

 

Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.

Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.

Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?… de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura;

Que arte em pintá-la! a gente acaso vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.

 

Olegário Mariano (1889-1958) –  pernambucano – Príncipe de 1938 a 1958

O enterro da cigarra

As formigas levavam-na… Chovia…
Era o fim… Triste Outono fumarento…
Perto, uma fonte, em suave movimento,
Cantigas de água trêmula carpia.

Quando eu a conheci, ela trazia
Na voz um triste e doloroso acento.
Era a, cigarra de maior talento,
Mais cantadeira desta freguesia.

Passa o cortejo entre árvores amigas…
Que tristeza nas folhas.., que tristeza
Que alegria nos olhos das formigas!

Pobre cigarra! Quando te levavam,
Enquanto te chorava a Natureza,
Tuas irmãs e tua mãe cantavam…

 

Guilherme de Almeida (1890-1969) – poeta paulista – Eleito em 1951

Nós

Fico – deixas-me velho. Moça e bela,
partes. Estes gerânios encarnados,
que na janela vivem debruçados,
vão morrer debruçados na janela.

E o piano, o teu canário tagarela,
a lâmpada, o divã, os cortinados:
– “Que é feito dela?” – indagarão – coitados!
E os amigos dirão: – “Que é feito dela?”

Parte! E se, olhando atrás, da extrema curva
da estrada, vires, esbatida e turva,
tremer a alvura dos cabelos meus;

irás pensando, pelo teu caminho,
que essa pobre cabeça de velhinho
é um lenço branco que te diz adeus!

 

Paulo Bonfim – poeta paulista  – considerado o nosso príncipe atual

Soneto

Não busco especiarias, sou apenas
Um corpo transformado na paisagem,
Barco de amor e morte, céu de penas,
Voo tinto de rumos e ancoragem.
Se pastoreio estas contradições
Que são agora carne e pensamento,
É porque trago a noite e seus violões
A percorrer os quarteirões do vento.
Dos passos estrangeiros crio o mapa
E a bússola escondida na lapela,
O resto é chuva desenhando a capa
Que jogo sobre o corpo da procela.
Não busco especiarias sou somente
A mesa posta e o convidado ausente.

 

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Existe uma mulher que tem algo de Deus pela imensidade de seu amor, e muito de anjo pela incansável solicitude de seus cuidados; uma mulher que, embora jovem, tem a reflexão de uma anciã, e na velhice trabalha com o vigor da juventude; mulher que, sendo ignorante, descobre os segredos da vida com mais acerto que um sábio, e, se instruída, se amolda à simplicidade das crianças; mulher que, sendo rica, daria com prazer todo um tesouro para não sofrer no seio a ferida da ingratidão; mulher que, sendo fraca, se reveste às vezes da bravura de um leão; mulher que, enquanto vive, não a sabemos estimar porque a seu lado todas as dores se esquecem, mas que depois de morta daríamos tudo o que somos e tudo o que temos para poder vê-la de novo um só instante, dela receber só um abraço,  ouvir um só latejar de seu coração. Dessa mulher não me exijam o nome se não querem que eu inunde de lágrimas este seu álbum, porque eu a vi passar em meu caminho. Quando seus filhos crescerem, leiam-lhes esta página, e eles, cobrindo-lhes de beijos a fronte, lhes dirão que um humilde viajante, em retribuição à suntuosa hospedagem que recebeu, lhes deixou aqui, para vocês e para eles, um esboço do Retrato de sua própria Mãe.

Tradução de Ivo Barroso

Mons. RAMÓN ÁNGEL JARA (1852-1917) – prelado chileno, considerado o maior orador sacro de língua espanhola de seu tempo.

 

OUTRAS HOMENAGENS AO DIA DAS MÃES

Veja também:

— Mãe em dobro – post de 08.05.2016 – AQUI

— Poema testamento – post de 08.05.2011 – AQUI

— Homenagem ao dia das Mães – 12.05.2012 – AQUI


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ANTOLOGIA POÉTICA DA GAVETA
NÚMERO ESPECIAL

Dois poetas à parte: Machado de Assis e Coelho Neto

MACHADO DE ASSIS – poeta carioca

Joaquim Maria MACHADO DE ASSIS (1839-1908) foi o maior estilista da língua portuguesa, autor de inúmeros romances, contos, crônicas, peças de teatro e traduções. Mas gostava que seu nome fosse igualmente citado como poeta e chegou a publicar em vida quatro volumes de versos (Crisálidas, 1864; Falenas, 1870; Americanas, 1875 e Ocidentais, 1880), longos relatos em prosa rimada, hoje devidamente esquecidos. De sua produção poética, salvam-se uns dez poemas realmente apreciáveis, entre os quais o célebre “A mosca azul”, sobre os quais pretendemos falar mais tarde. Entra hoje aqui por causa de seu poema de exaltação materna, “Minha Mãe”, sobre o qual, numa epígrafe (os poetas da época adoravam as epígrafes!) diz ser uma “Imitação de Cowper”. Contudo, lendo On receipt of my mother’s picture (1798), de William Cowper (1731-1800),quase nada pudemos encontrar ali que justificasse a referência.

MINHA MÃE

Quem foi que o berço me embalou da infância
Entre as doçuras que do empíreo vêm?
E nos beijos de célica fragrância
Velou meu puro sono? Minha mãe!
Se devo ter no peito uma lembrança
É dela que os meus sonhos de criança

Dourou: — é minha mãe!

Quem foi que no entoar canções mimosas
Cheia de um terno amor — anjo do bem
Minha fronte infantil — encheu de rosas
De mimosos sorrisos? — Minha mãe!
Se dentro do meu peito macilento
O fogo da saudade me arde lento

É dela: minha mãe.

Qual anjo que as mãos me uniu outrora
E as rezas me ensinou que da alma vêm?
E a imagem me mostrou que o mundo adora,
E ensinou a adorá-la? — Minha mãe!
Não devemos nós crer num puro riso
Desse anjo gentil do paraíso

Que chama-se uma mãe?

Por ela rezarei eternamente
Que ela reza por mim no céu também;
Nas santas rezas do meu peito ardente
Repetirei um nome: — minha mãe!
Se devem louros ter meus cantos d’alma
Oh! do porvir eu trocaria a palma

Para ter minha mãe!

 

COELHO NETTO (1864-1934) – poeta maranhense

Henrique Maximiano COELHO NETTO é outro prosador brasileiro, autor de inúmeros romances e contos, e que se celebrizou poeticamente com um único poema, o soneto abaixo, SER MÃE, até pouco tempo a única referência lírica evocada por ocasião do Dia das Mães. Mas seu nome, um tanto peculiar, justificaria sua inclusão entre os poetas ‘esdruxulos’, mormente se lembrarmos a curiosa passagem relatada pelo poeta italiano Giuseppe Ungaretti (1888-1970), que veio para o Brasil em 1936 como professor de literatura da USP. Relata Ungaretti em suas memórias que foi “recebido pelo presidente da Academia Brasileira de Letras “um pequeno senhor que atendia pelo estranho nome de Cuelhonetto”, que o poeta italiano ouvia como sendo cuglionetto, cujo significado em sua língua é testículo, no diminutivo.

Ser mãe

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo!  É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!

Depois de ler na Gaveta a análise que fizemos de um soneto de Shakespeare, AQUI, o leitor Felipe (?) enviou-nos cópia de sua tradução do XC – 90, pedindo que a avaliássemos AQUI. Este não será nosso procedimento habitual, mas vamos abrir uma exceção dada a qualidade do trabalho.

Eis o envio:

Soneto 90

Odeia-me, portanto, desde agora,
Que o mundo os meus feitos contraria.*
Alia-te à fortuna sem demora;
Não aguardes o fim desta agonia.
Não venhas, quando já meu coração
Estiver são, reabrir suas chagas;
Não deixes que à noite de trovão *
Suceda uma chuvosa madrugada.
Não esperes o fim, para deixar-me,
Da mesquinha sequência destas dores;
Faze-o agora, e deixa provar-me *
Da Fortuna o poder e os horrores. *
Então outras formas de dor, amada, *
Perante tua perda serão nada.

 

Eis a avaliação:

Pontos positivos:

Conhecimento adequado dos idiomas fonte/alvo.

(Caro Felipe, você escolheu um dos mais difíceis sonetos do Vate e embora não tenha chegado (ainda) a uma grande tradução, conseguiu alguns efeitos que demonstram seu pendor para a ingrata arte de traduzir poesia. Uma boa tradução – como sabe – deve tentar reproduzir “o que está dito da forma como foi dito”, ou seja: aquilo que antigamente se chamava de fidelidade. Sua capacidade de compreensão/reprodução é bastante apurada, salvo em um caso ou outro em que você acaba, como a maioria dos tradutores, por “passar por cima”. Esse soneto começa com aquele terrível “if ever”, que tem necessariamente de ser mantido, algo como “desde já, já agora, que seja agora”, que você soube muito bem enfatizar. Bastava isto para qualificá-lo.)

Deficiências:

É necessário melhorar sua prática da metrificação: os versos apontados com *são deficientes, com uma sílaba a menos (ditos de pé quebrado) devido a hiatos não recomendáveis neste tipo de tradução (ex. ‘Não/ dei/xes /que// à/ noi/te/ etc.) A contagem habitual neste caso seria /que à/ constituindo uma única sílaba. É fácil consertar: Não/ per/mi/tas/ que à/ etc. Tente acertar metricamente os outros assinalados. O 11º verso tem icto na 5ª. sílaba, o que é incomum no decassílabo; melhor seria: Outras formas de amor, então, amada.

Parabéns:

Pela fluência dos versos, coisa difícil de se conseguir em tradução. Sua versão do icônico Give not a windy night a rainy morow por Não deixes que a uma noite de trovão / Suceda uma chuvosa madrugada é galardão de futuro grande tradutor. Você deve ser muito jovem; vá em frente; tem todo o resto do ano para conseguir a tradução nota dez.
Go ahead!

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ANTOLOGIA POÉTICA DA GAVETA

DOIS CASOS ESPECIAIS

Nosso álbum de poemas escolhidos acolhia de preferência os poetas parnasianos; só muito mais tarde descobrimos os grandiosos Cruz e Souza e Augusto dos Anjos (Simbolistas). Os poemas em geral eram versos de amor, idealistas, sonhadores ou sofredores, queixando-se dos infortúnios da vida, da solidão, do abandono. Mas havia duas exceções curiosas: um devaneio espiritual (“Ilusões da vida”, de Francisco Otaviano) e um soneto filosófico (“A Cegonha”, de Aníbal Teófilo), que todos achávamos grandiosos e sabíamos de cor.

FRANCISCO OTAVIANO (1825-1889) – poeta carioca (17)

Francisco Otaviano de Almeida Rosa, advogado, jornalista, diplomata, político, membro da ABL, sempre se queixou de nostalgia literária, arrebatado pela política a que chamava de “Messalina impura”. Como poeta ficou famoso com os versos abaixo:

ILUSÕES DA VIDA

Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem – não foi homem,
Só passou pela vida – não viveu.

 

ANTOLOGIA DOS ‘ESDRÚXULOS´

ANÍBAL TEOFILO (1873-1915)–poeta brasileiro nascido no Paraguai-(18)

Só pelo nome já se justificaria sua inclusão nos ‘esdrúxulos’: Aníbal Teófilo de Ladislau y Silva Figueiredo de Girón de Torres y Espinosa, mas além disso o nosso poeta nasceu em Humaitá, no Paraguai, durante a campanha cisplatina em que o pai, militar, servia. Ele também militar e político, era de porte atlético, belicoso, rixento. Numa disputa com o deputado federal Gilberto Amado foi por este assassinado com dois tiros de pistola pelas costas, no salão do Jornal do Comércio, no dia 19.06.1915. Seu poema que abaixo transcrevemos garantiu-lhe celebridade literária:

A CEGONHA

Em solitária, plácida cegonha,
Imersa num cismar ignoto e vago,
Num fim de ocaso, à beira azul de um lago,
Sem tristeza, quem há que os olhos ponha?

Vendo-a, Senhora, vossa mente sonha
Talvez, que o conde de um palácio mago,
Loura fada perversa, em tredo afago,
Mudou nessa pernalta erma e tristonha.

Mas eu, que em prol da Luz, do pétreo, denso
Véu do Ser ou Não Ser, tento a escalada
Qual morosa, tenaz, paciente lesma,

Ao vê-la assim mirar-se na água, penso
Ver a Dúvida Humana debruçada
Sobre a angústia infinita de si mesma.

O MÁRTIR DA INDEPENDÊNCIA

 

Imagem do infortúnio e da desgraça,
no escarmento ao rebelde prisioneiro,
da cidade do Rio de Janeiro. armara-se um patíbulo na praça

Com sua veste tala, dos pés aos ombros,
e entregue aos seus algozes inclementes,
numa cena de lágrimas e escombros,
ao cadafalso assoma Tiradentes.

Os pés desnudos, sobre o grande estrado,
a fronte erguida, a longa cabeleira,
é o réu altivo, o herói predestinado,
a face imperturbável e altaneira.

Vinte eum de abril, de mil e setecentos
e noventa e dois. Onze horas são dadas.
É a vítima, em seus últimos momentos.
no adeus àsilusões ambicionadas.

Epopeia de um trágico fracasso,
eis, na forca, a figura destemida:
seu corpo, inerte, agita-se no espaço,
no supremo holocausto de uma vida.

Na história apoteótica de um drama,
imolouse no altar da eternidade,
lição que nos exorta e nosconclama,
glória imortal da nossa liberdade.

 

ASSIS ABRAHÃO (publicado na revista O Verde Oliva, editada pelo Exército Brasileiro em 21 de abril de 1982). Não encontramos quaisquer referências à vida ou a obra do poeta.

 

Nota: Para homenagear a data comemorativa da morte de Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), o Tiradentes, andei procurando nos meus alfarrábios algum poema alusivo à data ou, mais especificamente, ao martírio desse herói nacional.Um clássico do gênero, é sem dúvida o “Romanceiro da Inconfidência”, livro de Cecília Meireles, editado em 1953, em que se destaca o “romance” do Animoso Alferes, cuja transcrição fragmentária, no entanto, desfiguraria o poema. Aos interessados, aconselhamos a leitura integral da obra. Há referências, ainda, a poemas do mineiro Dantas Mota, que não conseguimos infelizmente localizar.

***

Para obviar nossa indigência de citações, veio a nosso auxílio o excelente amigo poeta-crítico Alexei Bueno que conseguiu localizar este outro soneto de Raimundo Correa, poeta parnasiano sobre o qual iremos falar em seguida:

A CABEÇA DE TIRADENTES     

Da ideia que engendrou pendia a sorte
Da pátria, a sorte a que ela, ávida, anseia;
Mas o músculo férreo, o punho forte
Comprime-lhe do déspota a cadeia.

Sela-lhe a morte os lábios e os roxeia,
E anuvia-lhe o largo e altivo porte —
Morre esmagado pela grande ideia!
Morre — e morrendo isenta-se da morte!

Do moribundo a mártir e divina
Cabeça fulge sobre o poste imundo,
Onde grasnam as aves de rapina;

Da luz sangrenta que, a morrer, derrama,
Em torno, o sol — esse outro moribundo —
Tece-lhe um largo resplendor de chama…

 

RAIMUNDO CORREA 

****

 ANTOLOGIA POÉTICA DA GAVETA

 

RAIMUNDO CORREA (1859-1911) – poeta maranhense (15)

Raimundo da Mota Azevedo Correia (conhecido como Raimundo Correa) foi um dos mais célebres poetas brasileiros da escola parnasiana (1850), figura de destaque em nossos álbuns de poemas. Diplomata, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, estreou em 1897 com seu livro Sinfonias. No tempo em que um belo soneto era considerado um verdadeiro galardão, e sua publicação na primeira página dos jornais equivalia ao que hoje são “os quinze minutos de glória na televisão”, Raimundo Correa ficou célebre com o soneto “As Pombas”, que foi reproduzido em boa parte da imprensa. A este seguiram-se outros que ficaram igualmente célebres como “Mal Secreto”, “A Cavalgada” e “Anoitece”, que o leitor fica na obrigação de conhecer. De sua vasta obra poética, impecável na metrificação, na escolha das rimas, na fluência e colorido do verso – itens que distinguem um soneto “de primeira linha” – escolhemos o significativo “Ouro Preto”, que evoca  a antiga e decadente Vila Rica, quando o poeta a visitou pela primeira vez, e que guarda estreita relação com nosso tema de hoje.


SAUDADE

Aqui outrora retumbaram hinos;
Muito coche real nestas calçadas
E nestas praças, hoje abandonadas,
Rodou por entre os ouropéis mais finos…

Arcos de flores, fachos purpurinos,
Trons festivais, bandeiras desfraldadas,
Girândolas, clarins, atropeladas
Legiões de povo, bimbalhar de sinos…

Tudo passou! Mas dessas arcarias
Negras, e desses torreões medonhos,
Alguém se assenta sobre as lájeas frias;

E em torno os olhos úmidos, tristonhos,
Espraia, e chora, como Jeremias,
Sobre a Jerusalém de tantos sonhos!…
 

ANTOLOGIA DOS POETAS ‘ESDRÚXULOS’

 

EMILIANO PERNETA (1866-1921) – poeta paranaense (16)

Filho de um cristão-novo (judeu português convertido ao Cristianismo) e de uma afrodescendente, Emiliano David adotou o esdrúxulo nome de Perneta em alusão ao pai,  que era deficiente físico. Nome fundamental do Simbolismo brasileiro (Sec. XIX) no Paraná, originalíssimo e excêntrico, seus poemas são de extrema originalidade, como este

 

CORRE MAIS QUE UMA VELA…

Corre mais que uma vela, mais depressa,
Ainda mais depressa do que o vento,
Corre como se fosse a treva espessa
Do tenebroso véu do esquecimento.

Eu não sei de corrida igual a essa:
São anos e parece que é um momento;
Corre, não cessa de correr, não cessa,
Corre mais do que a luz e o pensamento…

É uma corrida doida essa corrida,
Mais furiosa do que a própria vida,
Mais veloz que as notícias infernais…

Corre mais fatalmente do que a sorte,
Corre para a desgraça e para a morte…
Mas eu queria que corresse mais!

 

DOIS POETAS PAULISTAS

Estimulados pelas palavras de vários leitores que nos vieram trazer seu apoio e dedicação, estamos aqui de volta à nossa Antologia Poética,. hoje apresentando dois paulistas que sempre figuraram em nossas coleções: Guilherme de Almeida e Menotti del Picchia, contemporâneos e fundadores do movimento literário denominado modernismo, ambos pertencentes à Academia Brasileira de Letras.

GUILHERME DE ALMEIDA (1890-1969) – poeta paulista (13)

De nome completo Guilherme de Andrade e Almeida, carinhosamente conhecido por seus admiradores como “Gui”, foi o poeta mais importante de sua geração, tendo sido inclusive eleito “Príncipe dos Poetas Brasileiros” em 1958 (o título anterior havia cabido a Olegário Mariano). Com grande domínio sobre a arte poética, deixou inúmeros livros a partir de sua estreia (“Nós”, 1917), celebrizando-se igualmente como um dos nossos maiores tradutores de poesia. Sua antologia “Poetas de França” (1936)  contém algumas das mais perfeitas traduções de poemas franceses já realizadas entre nós, em especial as de  Paul Verlaine e de Charles Baudelaire.

 

INDIFERENÇA

 

Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado
passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto,
pudéssemos varrer nosso passado.

Passo esquecido de te olhar, coitado!
Vais, coitada, esquecida de que existo.
Como se nunca me tivesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado

Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos,
se quando passo, teu olhar me alcança
se meus olhos te alcançam quando vais.

Ah! Só Deus sabe! Só nós dois sabemos.
Volta-nos sempre a pálida lembrança.
Daqueles tempos que não voltam mais!

 

Nota: o leitor encontrará aqui da Gaveta um comentário sobre outro célebre soneto de Guilherme de Almeida, o “Dor Oculta”, feito no post de 02/09/2010 “Lágrimas que rolam” [aqui].

 

ANTOLOGIA DOS ‘ESDRÚXULOS’

MENOTTI DEL PICCHIA (1892-1988) – poeta paulista (14)

Como seu antecedente Onestaldo de Pennafort, o nosso Paulo Menotti del Picchia, filho de imigrantes italianos, entra aqui não como “esdrúxulo”, mas por causa do nome pouco comum, que sempre o distinguiu entre os poetas brasileiros. Estreou em 1913 com os “Poemas do Vício e da Virtude”, mas foi em 1917, com a publicação de “Juca Mulato” que alcançou verdadeira glória literária. Prefaciado pelo poeta e crítico português Júlio Dantas, que desfrutava de celebridade literária à época, o longo poema de Menotti, abordando um tema rural brasileiro, tornou-se do dia para noite o grande best seller da poesia nacional. Versos sentimentais, mas de grande poder plástico, desfrutaram (e desfrutam até hoje) de inquestionável preferência do público leitor de poesia.

Ser Feliz

Ser feliz! Ser feliz estava em mim, Senhora…
Este sonho que ergui, o poderia pôr
onde quisesse, longe até da minha dor,
em um lugar qualquer, onde a ventura mora;

onde, quando o buscasse, o encontrasse a toda hora,
tivesse-o em minhas mãos… Mas, louco sonhador,
eu coloquei muito alto o meu sonho de amor…
Guardei-o em vosso olhar e me arrependo agora.

O homem foi sempre assim… Em sua ingenuidade
teme levar consigo o próprio sonho, a esmo,
e oculta-o sem saber se depois o achará…

E, quando vai buscar sua felicidade,
ele, que poderia encontrá-la em si mesmo,
escondeu-a tão bem, que nem sabe onde está!

 


Ainda há pouco, quando ia iniciar este post, estive a ponto de partir para um daqueles meus antigos RECESSOS, ou seja, aquela paradinha que eu me impunha na Gaveta sempre que me sentia sem ânimo de continuar, na dúvida de estar escrevendo para leitores inexistentes. O assunto do post de hoje seria a apresentação de dois grandes poetas, ambos paulistas, que desfrutaram da nossa maior admiração nos tempos da juventude: Guilherme de Almeida e Menotti del Picchia. Mas aí bateu a indagação:  para que seguir com esta Antologia se ela já surge ultrapassada ao falar   quase sempre   em “coisas do meu tempo” ou “nos jovens da minha geração”? Que interesse poderia ter para os leitores de hoje, adeptos do WhatsApp, do Google e do telefone celular, essas velharias que lhes quero impor?

A cada semana, dou uma olhada (demorada, diga-se) nas estatísticas do blog e verifico que os assuntos, que de mim exigiram o maior desvelo, foram os menos consultados. O grosso das visitas se concentra sistematicamente numa tradução que fiz do poema “O Corpo Elétrico”, de Walt Whitman, acessado pelo menos por 30 visitantes-dia? E já que estou aqui “chorando” por uma comunicação maior com os leitores, não seria melhor que eu fizesse a tradução de algum outro poema do Whitman, para assegurar, dessa forma, um maior número de visitações. Correto?

Andei uns tempos empolgado com a Antologia, ou melhor, com as antologias, já que havia conseguido introduzir uma pequena dose de humor naquele assunto específico (poesia). A pesquisa do motivo de algum pai ter dado a seu filho o nome de Eurícledes me fez recorrer a enciclopédias, nominatas, chatear amigos, e até mesmo escrever à família do falecido Dr. Zerbini, que era o outro (além do Formiga) a carregar esse nome. Tempo e esforço perdidos. Ninguém se manifestou a respeito, embora, curiosamente, eu tenha conhecimento de que há muitos outros “Eurícledes” no Facebook. No caso do poeta “esdrúxulo’ Junquilho Lourival, depois de procurar por uma foto sua, esgotei as fontes imediatas de consulta e cheguei a recorrer à Academia Norte Rio-grandense de Letras, sem obter êxito, mesmo assim…

Naquele entusiasmo inicial, estive mesmo a pensar em fazer uma espécie de adendo ou separata em que desse aos leitores iniciantes algumas noções do que era um soneto, o porquê de chamarmos “de primeira linha” a uns e de defeituosos a outros. Daí se seguiriam noções sobre a arte da metrificação, etc. Se o entusiasmo crescesse, pensávamos até em contar a história do soneto baseada na obra-prima do nosso Mello Nóbrega. E um desfile de sonetos famosos, em várias línguas, é claro, com suas respectivas traduções. Mas…

Confesso que esperava uma participação maior de meus leitores em relação às Antologias; que falassem algo sobre os poemas, se já os conheciam, se a leitura deles lhes havia despertado alguma lembrança ou sentimento agradável. Enfim essas conversas de “velho”. Agradeço, vivamente, àqueles amáveis leitores que, logo no princípio, elogiaram o empreendimento, considerando-o útil mesmo para as jovens gerações. Mas – insisto – foram tão poucos que já agora não sei se algum deles continuou a consultar os posts.

Pedindo desculpas por essa choradeira, fico, à espera de um sinal que me permita continuar ou então pendurar definitivamente a lira nos salgueiros (aí vai mais uma expressão antiga…)

Nosso amigo André Ladeia, de Varginha-MG, acaba de lançar pela  Oito e Meio um livro híbrido de poemas e contos, cujo título Mordaça vem, na capa, ampliado pela ameaça de uma guilhotina. A primeira parte é quase toda constituída de haicais ou wittcisms, vez por outra entrecruzados por poemas de estruturas  mais amplas. Termina com três  contos, todos chegados à literatura fantástica, com destaque para o primeiro (Nihil), que é uma espécie de autobiografia imaginária. A qualidade do estilo de André é inquestionável e em vez de indecisão mostra, com essa variedade, o perfeito domínio de uma pletora de possibilidades. Daí esperamos futuros gritos escancarados.

 

Deixei de ser lírico no dia em que me tornei poeta.
Certa vez /Conheci um homem tão bom/ Mas tão bom/
Que quase era um cachorro.
O universo inteiro/ Na palma das mãos; /As estrelas /Na ponta dos dedos.
A infância / Corre tanto /Que se perde /Da gente.
Depois de algum tempo no exterior, /Você passa a agir como os nativos. /
Você passa a andar, a falar e a se vestir como eles /
Você passa a cheirar como eles.

***

ANTOLOGIA POÉTICA DA GAVETA (11)

Voltemos à nossa Antologia, agora com dois nomes de peso, que sempre figuravam entre os poetas de “primeira linha” dos nossos velhos álbuns de poemas: Nilo Bruzzi e Onestaldo de Pennafort.

NILO BRUZZI (1897-1976) – poeta mineiro –

De nome completo Nilo de Freitas Bruzzi, este poeta nascido no Pomba-MG, jornalista militante, ficou famoso com o soneto abaixo, verdadeira coqueluche dos antigos declamadores de salão.

 

ÚNICA

No turbilhão da vida cotidiana
Há sempre um rosto oculto de mulher.
Há no tumulto da existência humana
Alguém que a gente quis e ainda quer.

E numa sede de paixão insana,
Cego e humilhado, aceita outra qualquer,
Mas, no íntimo ardor, de alma profana
Porque a alma nem acordará sequer.

E vão passando, assim, uma por uma,
Mulheres e mulheres , como vieram,
Sem depois despertar saudade alguma…

Pobre de quem, como eu, vê que, infeliz,
Tive todas aquelas que o quiseram
Mas,nunca teve aquela que ele quis.

*** *** ***

ANTOLOGIA DOS POETAS ‘ESDRÚXULOS’ 

ONESTALDO DE PENNAFORT (1902-1987) – poeta carioca (12)

Onestaldo de Pennafort Caldas figura aqui entre os ‘esdrúxulos’ não por seu nome que poderíamos classificar no máximo de “invulgar” ou “único” (não encontramos nenhum homônimo seu em nossas pesquisas), mas pela oportunidade de fazermos um paralelo temático entre o seu célebre Soneto (abaixo) e a composição anterior, de Nilo Bruzzi.  A grande fama literária de Onestaldo lhe veio principalmente por sua obra de tradutor de poesia, um de nossos maiores, ao trazer para a nossa língua toda a lírica de Verlaine e o verbo dramático de Shakespeare.

 

SONETO DA ESCRAVA

Ela chegou, chegou-se a mim e disse
Que tinha vindo para ser escrava…
E eu respondi-lhe que era uma tolice
Aquela frase que ela murmurava.

Lembrei-lhe a triste história de Belkiss…
E ela, sem dar ouvido ao que escutava,
Fechou os olhos e, num beijo, disse
Que tinha vindo para ser escrava…

E eu, num gesto de pura maluquice,
Ao vê-la assim, tão cheia de meiguice,
Abri os braços para a que chegava…

Sem pressentir que, por desgraça minha,
Do meu destino ia ficar rainha
Quem tinha vindo para ser escrava…

 

Nota sobre o soneto acima:

É curioso notar que, quando da publicação deste soneto numa revista semanal da época, houve um crítico-leitor que aconselhou o poeta a modificar o 1° verso para: Ela chegou-se para mim e disse, a fim de evitar a repetição do verbo. Ora, uma das sutilezas deste verso está precisamente na repetição do verbo chegar, com duas regências distintas: chegar, intransitivo, no sentido de vir, e chegar-se, pronominal, no sentido de aproximar­-se — com o que toda a frase adquire uma dinâmica de manobras sutis nas quais se pode vislumbrar a felinidade e a envolvência dessa nova Rainha de Sabá (a Belkiss do 4° verso), que surge e se encaminha para o poeta e, só bem junto dele, lhe segreda a frase “que tinha vindo para ser escrava”. Verso que sugere um verdadeiro travelling cinematográfico.  Além do mais, Onestaldo, como purista que era, certamente não admitiria a construção chegou-se para e a alternativa chegou-se a quebraria a contagem decassilábica do verso. Além desse efeito repetitivo, porém amplificador de significâncias, o reaparecimento dos dois versos iniciais no fecho da segunda quadra, longe de empobrecer o soneto, dá-lhe um caráter de harmoniosas recorrências que corroboram a duplicação inicial. Louve-se ainda a sutileza da rima dos 4° e 6° versos (Belkiss com disse), que poderia parecer imperfeita, mas cuja leitura em enjambement, ou seja, com o extravasamento da linha para ligá-la ao início do verso subsequente (Belkiss e ela), restaura todo o seu valor consonântico, toda sua integralidade fônica (Belkis-se). Este soneto ficaria nos florilégios nacionais ao lado de grandiosas obras-primas da sonetística brasileira, tais como Os cisnes, de Julio Salusse (“A vida, manso lago azul, algumas”), Contraste, do Pe. Antônio Tomaz (“Quando partimos, no vigor dos anos”), e Duas almas, de Alceu Wamosy (“O tu, que vens de longe, ó tu que vens cansada”), e é o responsável por seu autor ser lembrado ainda hoje também como poeta autônomo, além do inesquecível tradutor que foi.

 

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