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Feliz Natal!

Queridos amigos leitores da Gaveta,

Embora não me sinta ainda recuperado das insuficiências que me afligiram (as mãos ainda estão ásperas e endurecidas; tenho imensa dificuldade em caminhar) não poderia deixar esta data sem lhes desejar um FELIZ NATAL, como há dez anos venho fazendo. E agradecer-lhes por estarem compreendendo meu silêncio e continuarem vasculhando as páginas antigas desta Gaveta para que não declinem as estatísticas de visitantes.

Perdi em parte a vontade de escrever, não consigo nem mesmo alinhar algumas palavras que possam expressar meu desejo de voltar ao convívio com os amigos leitores. Meu querido irmão, Ney Barroso, e minha irmã Léa, recentemente falecida, certamente me ajudarão a voltar ao que mais fiz e gosto de fazer na vida: escrever. Peço aos leitores que rezem por mim.

FELIZ NATAL!

A Bruxa anda solta para os lados da Gaveta. Há cerca de dois meses, o nosso Redator-chefe está com ambas as mãos paralisadas, endurecidas, não podendo sequer pegar nas coisas e muito menos escrever; além disso teve um grande golpe na vida que foi a morte de sua querida Irmã Léa (conhecida como “Leoa”), a mesma que aparece aqui na Gaveta em: As Vaquinhas de Uberaba, veja aqui. Léa ficou por mais de vinte dias na UTI vindo finalmente a falecer, um desastre total, causando-lhe uma amargura profunda!

Além de todos os acontecimentos, nosso Redator gostaria de dizer aos seus Leitores, que apesar de tantas amarguras pretende voltar a escrever ainda no final do mês de outubro. O mesmo pede a todos que não deixem de ler os belíssimos trechos de Ascese que estão no post, já que não será possível ler em livro (veja Ombro Amigo I).

Pedimos a todos os amigos leitores que aguardem mais um pouco, rezem por todos nós e não deixem de ler este livro maravilho que é o Ascese.

Nosso Redator envia a todos um grande abraço!

(ass.) Assessor Técnico

 

 Perrengue, manquitolando, emperrada ao abrir, eis que a Gaveta chega hoje ao seu nono aniversário. Cheia de frustrações e de anseios, tudo junto. Houve momentos em que vibrou com mais de uma centena de consultas num só dia. Entrou em parafuso noutro em que as visitas não chegaram a cinquenta. Mas seja como for, está à espera de que a parada atual lhe propicie forças para mais uma jornada, pois anda cheia de planos futuros: whishful thinkings, idealizações auspiciosas: há o antigo projeto do Machado de Assis, poeta – com uma seleção daqueles poemas que Manuel Bandeira considera de qualidade igual à da prosa; a sonhada apresentação do poeta mineiro Djalma Andrade, a alma boa de Congonhas do Campo e a sempre protelada antologia dos poetas regionais. Esperemos, oxalá, que Deus nos ajude. E até breve. 

Em tempo: Para lerem nas férias, mando-lhes um trecho da Ascese, de Nikos Kazantzakis, na versão francesa de Aziz Izzet, que traduzi em 1973 e hoje imagino perdida conforme relatei no post Ombro Amigo-I. 

 


OMBRO AMIGO-II

Além daqueles definitivamente perdidos, há várias traduções minhas, de livros importantes, desde muito esgotadas no mercado sem que as editoras façam novas edições:

Vida, modo de usar – Obra prima de Georges Perec, que indiquei à Companhia das Letras e o traduzi em 1991, logo esgotado, levou 18 anos para sair em 2ª. edição (2009), dessa vez em formato de bolso. Trata-se da obra capital de um dos mais importantes escritores franceses da atualidade. Além desse, traduzi também outra importante obra de Perec , A Coleção Particular seguida de Viagem de inverno, para a Cosac&Naif, em 2004; com o encerramento daquela, os direitos passaram para a editora do SESI, que não se interessa atualmente em reeditá-los. Aguardo que outra editora se lembre deles. De Perec, traduzi ainda o interessante Tentativa de esgotamento de um local parisiense para a Editora G. Gili, Ltda., de São Paulo. O autor Perec passou três dias seguidos acampado na praça Saint Suplice anotando tudo que via. Livro curioso, uma daquelas doidices geniais de Perec. Saiu em 2016, mas nunca vi o livro por aqui.

Tive vários livros editados pela SESI: O Pinóquio, herdado da Cosac & Naif; Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, que tirou o  Jabuti de tradução de 2015, A carta de Pero Vaz de Caminha, de 2017, a 4ª. edição de O Corvo e suas traduções e Breviário de afetos (minhas memórias), todos desativados depois que a editora deixou de publicar livros não-didáticos.

Uma antologia dos meus poemas traduzidos, O Torso e o Gato, editada pela Record em 1991, não consegue ser reeditada em função de problemas com a aquisição de direitos autorais estrangeiros. 

Igual (má) sorte tem minha antologia de poemas pessoais, A Caça Virtual e outros poemas, finalista do prêmio Jabuti de tradução em 2000, também da Record, agora enriquecida de Novos Poemas, já que os editores relutam em editar poesia, considerada invendável. 

A obra completa de Rimbaud, em 3 volumes: Poesia completa, Prosa Poética e Correspondência embora não sejam encontrados nas livrarias podem, contudo, ser adquiridos, via postal, diretamente da Topbooks Editora, Rua Visconde de Inhaúma, 58 sala 203 – 20091-800 – Centro – Rio e Janeiro.

Bibliografia de Ivo Barroso

POESIA

Antologia Poética 

– O Torso e o Gato

Arthur Rimbaud 

– Uma Estadia no Inferno

– Poesia Completa

– Prosa Poética

– Correspondência 

 

POESIA

Eugenio Montale 

– Diário Póstumo

TS. Eliot

– O livro dos Gatos

William Shakespeare 

– 50 sonetos

 

PROSA

André Breton 

– Nadja

André Gide 

– A Volta do Filho Pródigo NF

André Malraux 

– A Condição Humana 

August Strindberg 

– Inferno NF EH

Georges Perec 

– A Vida, Modo de Usar

– A Coleção Particular + Viagem de Inverno

– Descrição etc

Hermann Hesse 

– O Lobo da Estepe

– Demian

Italo Calvino 

– Seis Propostas para o Próximo Milênio

– O Castelo dos Destinos Cruzados

– As Cosmicômicas

– Palomar

Italo Svevo 

– A Consciência de Zeno NF

– Senilidade NF

A Novela do Bom Velho e da Bela Mocinha

Jane Austen 

– Razão e Sentimento NF

– Emma NF

– Novelas inacabadas NF

Marguerite Yourcenar 

– Golpe de Misericórdia NF

– O Denário do Sonho NF

– O Tempo, Esse Grande Escultor NF

Nikos Kazantzakis 

– Ascese

Romain Rolland 

– Colas Breugnon

Shel Silverstein 

– Uma Girafa e Tanto (infantil)

TS. Eliot

– Teatro completo

Umberto Eco 

– O Pêndulo de Foucault

 

Originais:

– Nau dos Náufragos

(poesia) Lisboa

– Visitações de Alcipe

(poesia) Lisboa

– O Corvo e suas traduções

(ensaio)

Infanto-juvenis

– Poesia ensinada aos jovens,

– Viagem ao mundo da poesia

– A Caça Virtual e outros poemas

 

Edições:

– Poesia e Prosa, de Charles Baudelaire, organização, introdução e notas

– À Margem das Traduções, de Agenor Soares de Moura, estabelecimento de texto, introdução e notas

 

A FÁBULA DO GALO

Acontece, entretanto, que o meu galo
não fazia a manhã nascer do canto.
Sabia muito bem que
se cantasse
ou se deixasse de cantar
— o dia
rompendo as cercas do quintal
viria empoçar-se em seus olhos de suspeita. 

 

(Cantava apenas para ser concorde.:.)

 

Em  meio à noite, vinha-lhe de dentro
a sensação do amanhecer:
a crista
ensandecia de rumor do sangue;
as penas eriçavam-se no cio da soberba
e os olhos acompanhavam no frêmito da espera
o dia romper a casca da manhã,
finíssima.

Era quando lhe vinha da garganta
aquele anseio de ajudar o dia
e, na sofreguidão que o exasperava

— sabendo embora que cantasse
ou que deixasse de cantar —
cantava,
cantava todo trêmulo, intranquilo,
lançando o canto nos quintais da véspera
e ficava esperando pressuroso
o sol nascer das notas de seu canto.

 

O POÇO

Da borda ao bojo
do poço o balde
num baque oco
salta em
————
drado.
Baixa em balouço
busca a profunda
fonte fechada.
Grito de cacos
gotas de espelho
raios de escama
golpes de gelo.
Garganta larga
no escuro gole.
Peso nos olhos
tombo no peito.
Tão satisfeito
grave de encanto
tonto de espanto
pende pesado
lento rotundo
deita no fundo
a
fogado.

Rija
a corda acorda
arde dardo dura dança
iça
e começa
a lida de erguê-lo
a ele odre
a ele bambo
a ele bêbedo.
Bate nas
bor —–das
brotam
bor bu lhas.
Ao peso pende
arreda a roda
retorna a ronda.

Chega (cego) à clara
borda à clara
bóia
onde bóia claro.
E cai de cara
contra o jarro
e jorra a água
de um só jato.
E já de borco
debruçado à borda
vago vazio
va ga ro so
——v
o
l
t
a


 Prof. Ney Julião Barroso

 Ele faria hoje 87 anos. Leia mais sobre ele: 

— Foot ball – 10/07/18, clique aqui.

— Presença do Ney – 15/06/19, clique aqui.

Há mais de 60 anos, no dia 24 de julho de 1955, o JORNAL DO POVO, de Ponte Nova-MG anunciava com destaque o aparecimento de uma nova seção intitulada “Os 3 Mosqueteiros”, “a cargo de quatro jovens esperanças do jornalismo mineiro” [sic]: Ivo Barroso (D’Artagnan), Albertus Marques (Athos), Arildo Salles Dória (Porthos) e Geraldo Marques (Aramis). Éramos todos amigos e funcionários do Banco do Brasil, dando o máximo de nossas energias e ânsia literária para o abrilhantamento do jornal interiorano que nos abrira suas portas. Conheci o Albertus (Athos) logo que cheguei ao Rio, em 1945, quando partilhamos a mesma carteira dupla do Colégio Vera Cruz, na rua São Francisco Xavier. O Arildo (Porthos) foi um pouco depois, quando nos mudamos para o Andaraí, já nos anos ’50. Ele morava numa casa de frente para a rua Maxwel, esquina da Pontes Correa, que era a minha rua. Sempre que passava por ali, o janelão aberto da casa da Dona Cora, deixava ver lá dentro uma rapaziada alegre, sempre cantando e dançando. Eram sobrinhos e sobrinhas da família capixaba que vinham conhecer o Rio. Arildo era o filho mais novo, tinha quatro outros irmãos, todos militares ou cursando o Colégio Militar. Ele, no entanto, era chegado às letras e logo nos demos bem, e um dia, ao passar pela rua, vi lá dentro, a Silvia, irmã da vizinha de Dona Cora, em cuja casa estava hospedada. Foi Arildo que nos apresentou e nos serviu de cupido, até o dia em que me casei com ela em 1956.

Durante quase dez anos escrevemos a página quádrupla Os Três Mosqueteiros, onde Arildo se destacava pelos seus artigos de ardoroso fundo político. Essa tendência foi se tornando militância com a adesão de Arildo ao Partido Comunista. Com o advento da Ditadura Militar, ele passou a ser constantemente procurado para investigações e depoimentos, e sempre se safava do pior (prisão e torturas) graças à interferência dos irmãos militares. O máximo que os censores conseguiram foi ameaçar sua carreira bancária, forçando o Banco a transferi-lo para o Piauí, como uma espécie de degredo onde passou três anos. De volta, foi transferido para Brasília, onde chegou a ser preso em 1972, quando já membro militante do PC, tentava reorganizar o partido. Definindo-se como um “apátrida” e um “torto” na vida, Arildo começou a trabalhar na Câmara dos Deputados em 1987, no gabinete do então deputado pelo PCB e ex- companheiro do Sindicato dos Bancários Augusto Carvalho, incumbido entre outras tarefas a de escrever praticamente todos os discursos dos deputados vermelhos e líderes sindicais. Fundou o movimento sindical Cidadania de que foi o presidente executivo. Suas preferências políticas nunca interferiram em nossa amizade: continuávamos a considerá-lo nosso “padrinho de casamento” e “amigo secular”. Era o primeiro a me telefonar no dia de meu aniversário e eu procurava fazer o mesmo a cada 2 de Janeiro, que era o seu. Pois o intrépido mosqueteiro Porthos, para o nosso pesar, o de seus amigos, familiares e sindicalistas baixou a espada no domingo passado, dia 23,vítima de complicações pulmonares com que vinha se debatendo (sic) havia algum tempo. Missão mais do que cumprida! Amigo até o fim!

Obituário: Albertus da Costa Marques, o Athos, faleceu em 2010, vítima de insuficiência renal (fazia diálise 3 vezes por semana) e o frágil Geraldo Marques, o Geraldinho. desapareceu total e definitivamente durante a Ditadura, perseguido por suas ideais esquerdistas (?) . Apagado dos anais do Banco do Brasil, todos os esforços para saber de seu destino foram inúteis, mesmo com auxílio do Comité da Verdade. Agora os três me deixaram aqui esgrimindo sozinho no ar da saudade e da lembrança.

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