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BRIGHT FRIDAY

ÚLTIMO AVISO: SEXTA FEIRA, DIA 1º DE DEZEMBRO ÀS 19 HORAS NA

LIVRARIA DA TRAVESSA DO SHOPPING CENTER DO LEBLON

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Caro Amigo/Amiga,

Se você é leitor da Gaveta e mora no Rio, esta é uma bela oportunidade de nos conhecermos: estou lançando meu livro de memórias, Breviário de Afetos, no dia 1º de dezembro, a partir das 19 horas, na Livraria Travessa, do Shopping Center do Leblon. Estou certo de que muitos de meus amigos e parentes irão prestigiar o evento, e nessa ocasião poderei rever alguns e me confraternizar com eles. Seria, no entanto, uma bela surpresa se, entre as pessoas que lá estiverem, surgir você, que até então eu não conhecia, dizendo: Eu sou fulano, leitor da Gaveta, vim conhecê-lo pessoalmente.  E eu lhe agradeceria com um abraço, prometendo que a Gaveta vai continuar.

A POESIA CAPSULAR DE RAYMOND CARVER

Quem conhece a obra ficcional de Raymond Carver (1938-1988), um dos mais peculiares contistas norte-americanos dos anos ’80, referenciado por sua concisão estilística, aversão ao “literário” e diretividade vocabular, dificilmente poderia imaginar que ele fosse capaz de aplicar, com êxito, tais características na composição de seus poemas.  E obtivesse com eles os mesmos resultados consagratórios que lhe granjearam a produção de contos. O curioso é que, conforme revelou o próprio autor numa entrevista à Paris Review, com ele se passou precisamente o contrário: o caminho foi da poesia para a prosa, ou nas palavras de sua segunda esposa e antologista, Tess Gallagher, “da corrente espiritual da poesia é que ele partia para escrever seus contos”.

Se destes o leitor brasileiro já conhecia duas recolhas (Iniciantes (2009) e 68 contos (2010), ambas editadas pela Companhia das Letras em tradução de Rubens Figueiredo, o que temos agora, na antologia poética, Esta Vida, lançada pela Editora 34, é uma primeira amostra de seus poemas individualíssimos, na tradução mais que consentânea de Cide Piquet. A garantia da fidelidade de transposição fraseológica e vocabular se evidencia no cotejo com os originais ao fim do livro e a leitura desta série de poemas permitirá observar que a  viagem de ida e volta entre a prosa e a poesia se desenvolveu pelo mais determinado dos caminhos.

Desde logo, tal encontro fortuito com a poesia de Raymond Carver poderá despertar no leitor habitual uma série de hesitações: o que está lendo será de fato poesia, ou seja, será o que ele até então considerava como pertencente a um padrão poético? Não lhe parecerá, antes, que se trata de uma série de minicontos, alguns extremamente condensados, outros mais explícitos, guardando da estrutura poética apenas o fato de estarem escritos em versos irregulares?

A continuidade da leitura irá evidenciar, no entanto, a descoberta de uma personalidade poética inteiramente fora dos padrões habituais, explorando temas raramente considerados poéticos, numa voz que soa tão clara quanto estranha, exigindo às vezes uma reelaboração mental para abranger-lhe o sentimento mais íntimo. E não há como passar de liso sobre a manutenção, agora no verso, daquele vocabulário preciso, quase vulgar e de uma diretividade realística, utilizado nos contos, que poderia soar aqui até mesmo antipoética. Carver consegue, mesmo assim, o milagre de acender uma fagulha emotiva na aridez de um relato banal, fazendo ali brotar a chispa que caracteriza a essência de um poema. Veja-se o que ocorre, por exemplo, em um de meus preferidos: A cabine telefônica. O poeta está em seu carro parado diante de uma cabine telefônica; lá dentro, um jovem casal chora ao receber uma notícia má; o casal volta para o próprio carro, enquanto o poeta prepara as moedas para fazer sua chamada (“Detesto usar um telefone / que acabou de dar notícias de morte. “) E é a sua vez de tentar, por essa via, a sempre negada reconciliação com a esposa, que agora o manda definitivamente para o inferno. A poesia, até então contida, restrita à descrição da cena, encontra a seguir seu momento de eclosão: “O casal no sedan abaixa os vidros / das janelas e observa, suas lágrimas pausadas / por um momento em face daquela distração. / Depois sobem os vidros de novo e se recolhem no carro. Por algum tempo / não vamos a parte alguma. / Depois vamos embora. ” Essa pausa, entre a espera e a partida, é que resume toda – digamos – a emotividade do poema. Ao lermos composições como O padeiro, Para Tess e Esperança, nos quais a realidade mais abrupta adquire status de substância emotiva, nos admiramos de um poeta da qualidade de Carver, com seu estilo inigualável, só agora ter sido apresentado ao público brasileiro.  

Sua origem rústica e humilde – o pai, de quem herdou o estilo de vida desprendido e o uso de bebidas, era empregado numa serraria e costumava levar o poeta para intermináveis pescarias e caçadas; Carver acostumou-se a esse tipo de “vida menor” a ponto de fazer dele sua forma habitual de ver o mundo. Teve de passar por dezenas de empregos secundários e mal pagos (entregador de encomendas, zelador de edifícios, ajudante de porteiro e faxineiro num hospital), até conseguir terminar um curso superior que lhe permitiu afinal lecionar e conviver com pessoas de outro nível cultural.

O próprio Carver revela que até os 19 anos não tinha a menor noção do que fosse um poema; em 1957, ao fazer uma entrega de remédios, deparou na casa do cliente com um exemplar da revista Poetry. Ele, que andava obcecado com a ideia de escrever alguma coisa, descobre ao folheá-la que seu objetivo é a poesia, mas só 28 anos mais tarde enviou à revista seus trabalhos e teve seu primeiro livro de versos (Near Klamat) publicado apenas em 1968.  Alcançando um nível de convivência intelectual bastante acima de suas atividades anteriores, começa a frequentar escritores e jornalistas, a participar de importantes workshops e de editorias de revistas literárias nas quais publica seus contos que, desde cedo, lhe trazem notoriedade e prêmios.

A presente antologia, Esta Vida contempla uma seleção dos quatro principais livros do autor:  Fogos (1983), Onde a água se junta a outra água (1985), Ultramar (1986) e Um novo caminho para a queda d’água (1989), organizada por pelo excelente tradutor Cid Piquet a partir de All of Us: The Collected Poems – Vintage, 2000) .

(Publicado no suplemento Prosa & Verso, de O Globo, em 28.10.2017)

Eis o argumento apresentado pela artista-gráfica Valquíria Palma à SESI-Editora para criar a capa do livro “Breviário de Afetos”:

Para encontrar uma unidade temática, acerca do que seria o ato de “revisitar a memória”, o caminho foi a imagem que ficou um pouco ao final da leitura do livro. 

A imagem de um barco navegando na correnteza da memória, tentando reter tudo o que passou. Na minha análise (bastante subjetiva, eu sei), o Ivo Barroso está guiando o bote da memória, em busca de eternizar fragmentos que viu/viveu ao longo de sua vida como tradutor, como poeta, como crítico, como ser humano.

Quando fiz a pesquisa, quis brincar com essa noção de tempo, com tudo o que ele pode nos dar e nos tirar. Como a água – do mar, dos rios – que aparentam estar sempre no mesmo lugar, mas nunca são as mesmas.

CONVITE

A Gaveta do Ivo convida todos os seus leitores e amigos para o lançamento do livro BREVIÁRIO DE AFETOS no dia 1º de dezembro próximo, a partir das 19 horas na Livraria da Travessa, no Shopping Center do Leblon. Venha e traga seus amigos. O autor terá muita alegria em conhecê-los pessoalmente.

Os leitores acostumados a encontrar a assinatura de Ivo Barroso em algumas das melhores traduções de prosa e verso publicadas no Brasil seriam capazes de jurar que o tradutor mineiro verte textos com a facilidade de quem observa pássaros – no que não poderiam estar mais enganados. Nascido a 25 de dezembro de 1929 em Ervália, a 265 km de Belo Horizonte, Ivo do Nascimento Barroso é tradutor laborioso, incansável, mas não só. Como se vê nas memórias aqui reunidas, o também poeta, ensaísta e crítico literário dedicou-se a diversas frentes ao longo da carreira, como mesmo rigor dispensado à tradução (esforço reconhecido inclusive com três Jabutis, um recebido em 1992 pela tradução de Os Gatos, de T. S. Eliot, outro em 1998 pelo trabalho com a prosa poética do francês Arthur Rimbaud, e em 2016 pela tradução interlingual do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente publicado pela SESI-SP Editora). Assim, ainda que causem algumas surpresas pelas “revelações” que contêm, os textos deste Breviário de Afetos não constituirão necessariamente um choque para o leitor: serão, antes de tudo, um comovente testemunho de vida, de um percurso consagrado ao melhor da criação literária.

Os Editores

Este Breviário de Afetos é composto por crônicas memoráveis que visitam encontros, desde os corriqueiros aos mais inusitados, com grandes nomes de nossa cultura, tais como:

Cronologicamente, a Gaveta estaria completando hoje sete anos de publicação. Sete anos! Sete, número cabalístico. Deus criou o mundo em sete dias. Sete são os pecados capitais. Sete os dias da semana. Sete as maravilhas do mundo. Sete os sábios da Grécia. As virtudes humanas. São sete as propriedades da matéria. Sete as notas da escala diatônica. As sete cores do arco-íris. Os sete braços da menorah. E eram sete os anões da Branca de Neve. Se quisermos prosseguir, podemos entrar no campo das expressões em que aparece a palavra sete, como pintar o sete, botas de sete léguas, cova de sete palmos. Nem vale a pena apelar para o setestrelo, pois são poucos os dicionários que o consignam.

Como o Senhor descansou no sétimo dia, seria o caso de achar que já trabalhamos o suficiente, que nossa missão pode ser dada por cumprida…  Dar adeus aos nossos queridos leitores… Mas, não, vamos comemorar este sétimo aniversário apenas fechando a gaveta por sete semanas; isto, não se assustem, sete semanas, pouco mais que um mês e meio de merecidas férias e logo voltaremos quem sabe até com fôlego de sete gatos.

Brincadeira à parte, despedimo-nos hoje dos leitores com – para nós — a definitiva consagração do número sete em literatura: este imortal soneto de Camões, uma joia literária perfeita, da qual nada se pode tirar nem acrescentar:

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
assim lhe era negada a sua pastora,
como se não a tivera merecida,

começou a servir outros sete anos,
dizendo: Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida!

 

 

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