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Além do já consagrado MILTON REZENDE, com vários livros de versos publicados, alguns dos quais resenhamos aqui na GAVETA, surge-nos agora, para nossa grata surpresa, o nome de CRISTIANO DURÃES EVANGELISTA, igualmente nascido na promissora terra de ERVÁLIA-MG, nosso berço natal. CRISTIANO é um verdadeiro fenômeno literário: mal saiu de Ervália (fez um ou dois cursos em Viçosa-MG), nunca veio ao Rio e ainda não viu o mar. Apesar disso e de sua pouca idade (creio que tem uns vinte e pouco anos — ainda não cheguei a verificar), ele domina a arte do verso e se mostrou um crítico literário de alta envergadura pelo conhecimento das técnicas, dos alcances e dos extremos da arte de criar. Dele os nossos leitores já conhecem ou podem apreciar aqui agora o excelente (e para mim surpreendente) ensaio que fez sobre o meu poema PAPEL & CHÃO, um momento literário que sem falsa modéstia encerra alguns ápices da técnica do verso e dos arroubos da imaginação. Suspeitei que ele também, além de arguto crítico, escrevesse versos e acertei na suspeita. Cristiano mandou-me a amostra de sua criação literária autônoma, que me apresso em compartilhar com os leitores da GAVETA.  Vejam só!


P   O   E   U   T   I   C   A

Cristiano Durães

Paz Decidida

Sento-me e encontro na dureza dos meus ossos o desejo de amolecer-me. Respiro consciente e procuro dar-me às coisas, deixar o vento falar e ouvi-lo entre os motores e a fala engrenada do homem. Em mim ainda assopra algum rastro de serenidade. É preciso encontrá-lo, deixar as palavras dizerem-se sem vergonha e sem pressa. É preciso diminuir o fluxo indomável da minha vontade de mim mesmo. 

Escrevo saboreando o gosto amargo das folhas revoltadas das árvores sem nome, flores ou frutos. Estão rígidas e firmes em ser o que são, essencialmente. Eu ainda não sei ao certo o que deu voo a esses pensamentos, o que me fartou de sensações meteóricas, eclodindo em baques graves de reflexões vazias… Mas, não posso… agora não posso deixar o estrondo me fazer tremer. Agora o vento me disse outros capítulos da mesma história. Então, por agora passarei do ponto. Vou deixar-me andar, ouvir também o que o mundo tem a dizer. 

Descobri que há motivos para fingir uma nova esperança. Nisso, seria nítida a moleza do corpo e da alma. Contemplar-se é só manter-se basicamente agradável, e tudo isso pode se parecer com liberdade. Existem desafios. Prisões me petrificam. Sonhos mal sonhados, amores não amados, poemas não escritos, livros não publicados, iniciativas não acabadas, , tempos verbais confusos e parágrafos inúteis.

 Mas deixa lá. Eu sou essas árvores de quintal abandonado. O tempo faz a poda dos galhos podres. Se dissolverão em matéria base para outro galho que emergirá no chão e brotará no mundo. As folhas olharão altas e então toda a inércia finalmente se tornará descanso.

                  Juiz de Fora, 09 de agosto de 2018


V     o     z    e    s

Deixei morrer em mim
 aquela ânsia por um grito,
 afogado no atrito e na paz
dos mortos e feridos,
dos doentes e famintos,
dos nossos dias estáticos.

Tenho sido por inteiro
 um pedaço do quis ser 
e tenho deixado os adiamentos 
adiantarem o meu dia a dia 
em dias escuros, noites fugidias.

Pago em dia o meu medo do que faço.
 Mesmo assim estou prostrado à lama,
 e escorrego na aspereza do cansaço
 e na inércia sem descanso.

Deixei viver ainda 
as palavras mal ditas, 
os malditos ditames da poesia
 e tenho estado entregue ao nocaute 
como quem reconhece no desmaio
 a última oportunidade de um sono tranquilo.

Ainda assim,
 o encontro com o espelho, 
o farejar dos meus olhos que se entreolham; 
as olheiras mudas, 
a boca funda, 
enfim, tudo; 
É miudeza me fazendo crer 
na razão envolvendo meu rosto.

E a contemplação dessa forma de eu, 
dessa profusão de termos idos e vindos, 
é como o resultado que tenho de mim 
para contrapor o que estou 
do que finalmente sou.

Ervália, 12.03.2019


II

O que não finda é agora.
 Agora é tudo aquilo que não se recorta, 
é toda tradição cravada e esquecida
que finge não ser. 

Todo conceito vivo é insuficiente. 
Vive cheio de sentidos demais
 e o homem precisa de tempo 
pra alimentar sentimentos sem fome. 

Viçosa, 04.05.2019


III

A voz é a vontade de existir
que quando incapaz transforma o nada
e ecoa a presença de uma ausência.
Se me foge às mãos
tudo que os olhos fotografam,
conjuro desejos em nuances de concretude.
Juro a tactilidade do sopro vivo
e rompo-me no silêncio de poemas
muitas vezes malditos.

A voz não está na boca
e divide o vazio com o papel
ciente de que o eco retoma
outros sentidos reverberados
que o papel julgou contrariar.

 Viçosa, 03.07.2019


IV

O artista simbólico,
o corpo também.
A obra agora é nossa
e a realidade tem estado
sempre em nossas mãos.
Tuas mãos e as minhas
são nossas, e o que é nosso
se desenvolve exterior
ao que por essência é
o teu e o meu.

Diluído o gênero,
tudo agora se desmascara.
O aspecto figurativo
some no espaço
e transfaz-se em viver
sem interrupção;
em constante ruptura. 

Viçosa, 13.07.2019


V

Cá estou,
fazendo literatura nua
numa aula de literatura,
como se os nomes dos poetas
em suas veleidades estético-sentimentais
fossem dar infinitude às minhas bobagens.

Existe entre as coisas um certo ponto
não mensurável, que não se constata,
mas que as fazem poesia:
Cabral cata feijão em delongas poéticas
e mastiga as pedras como se gostasse.
Milton revira a terra da sepultura
e garimpa da existência suas mais incertas exatidões.

 Eu demoro na vida,
adio os poemas
e durmo com fome.

Eu sigo velho sem idade,
preso nos arrolhos de mim.
Estou sentado,
esquecido do tempo
e daquela caneta que ficou em casa.
Um poema perdido talvez fosse a obra perfeita…
A companheira de classe detém a única cópia.

Um dia, quando em mim toda vida resolver-se morte,
talvez entre as páginas ignoradas,
esquecidas no caderno ou na janela do chat,
 na linha do tempo do Facebook;
a obra prima única e inédita
esteja a se desentranhar do útero.
Cultivando os primeiros olhares
para ser palavra de fundo pra outro poeta escrever,
durante a aula,
o quanto nada lhe cabe
enquanto não cabe em nada.

Viçosa, 13.07.2019


Nau & Nós 

Desliguei o computador.

Adiadas, as ideias ficaram

Escanteadas para o amanhã.

Teria meu encontro com a dor? Lamberia seus pés?

Sorveria seus abismos?

Talvez não. As manhãs tem chegado
Em todos os dias que anoitecem.
Iluminados?
Estamos demais.
Por tanta luz não somos aptos a ler nossas sombras.

Eu e eu.

Relação pintada em poemas

Pretos e brancos, barcos

Que não estão à deriva,

Seguem incógnitos cursos.

Não vemos a nos guiar o céu:

Antes papel e fleuma

Nos levarão a tal distância,

Tal destino a comer léguas no mar.

Por muito tempo…

Já faz mais de ano que buscamos

E nada distinguimos nas distâncias,

perdemos os ventos que nos levariam.

Sabíamos do risco, era a rota natural:

Espatifar na pedra os desejos

Essencialmente náufragos.

Foi então que a chuva chegou.
Chamava nossos nomes
Zunia no zinco das coberturas
Cobria o azul do céu com cinza
Zombava das nossas cores
Com raios repentes
Restritos a olhos atentos.
Estávamos todos a guardar varais
Quando trovejaram sobre nós
Ventos de aventuras literárias.
Prevíamos perigos;
E ainda assim, era o medo
Que rangia nossos cascos
Estufava e apagava nossas velas.
Antes, daqui, nossos olhos viam.
Abraçavam pastos e nelores,
Motos, bicicletas e pedestres.
Berravam a vida, usavam todas as tintas
E pintavam o dia visto da janela.

Agora, pouco depois daquele prédio,
O véu ziguezagueante das águas
Espanta os transeuntes de chinelo,
Encapa de couro os motoboys
E fecha os vidros dos carros.

Agora, cada gota de novembro

É um espelho, uma oportunidade

De contemplar da janela não bois

Não prédios, não vidas,

Mas nós: centelhas livres

Encarceradas na janela,

A olhar pra dentro de casa.

Encontramos a sujeira dos cantos
E ignoramos, a chuva pede paz.
Detectamos na falta de energia
Provocada pela energia dos raios
Objetos inúteis que reinventaremos:
Os violões e flautas esquecidos
Terão física racional e humanidade.

Quando caiu a noite

Caiu em nós o mesmo caos

Da chuva que ainda caía.

Já são poucos os prédios daqui

e eles mesmos já não subiam.

Apenas postes de LED novíssimos,

os velhos piscas dos natais

rasgam a lógica da cegueira

da chuva muita que descia.

Perderemos estradas, pontes,

cavalos e plantações despreparadas.

Em alguns bares,

bêbados bicarão mais uma pinga do alambique,

Cientes que a chuva

é sempre bom pretexto

Para uma estrada mal gerida

E o gesto a denunciar o gosto,

A gastura do beber a pinga.

Mais uma…

Digestos estamos enfim

Presos em nossos temporais diversos

e nossos dejetos foram levados

pelo desejo sem viés do velho Turvão.

Já fazemos muito caso da luz que faltou

Que o violão não consegue iluminar,

Visto que a mão cega, trasteja os acordes,

Acode o olho a tatear
O mundo e seus trejeitos não palpáveis.
Mas quando o mais ridículo dos gestos
Ganha atos e ares de vergonha

O zunir das chuvas no zinco

Se esvai.

Ficam os olhos

Bobos de fato.

Rimos sem saber

Se a sombra do vazio em breu

Não era melhor que o farol dos nossos tetos

a revelar os nossos textos.

E mesmo que a chuva volte a zunir
Somos agora uma tripulação em choque.
Nossas velas estão frouxas de vendaval
Cessaremos os rumos, clamando
Às nuvens censuradas
Que galguem seus caminhos.

Ficaram os trastes da chuva

Empoçados no asfalto.

Neblina igual à do dia

em que visitamos o cemitério,

compramos pão na padaria

e partimos para o luto no lar.

Já estamos cansados demais

para voltarmos à janela.

Ficaremos aqui.

Dormiremos.

Estaremos enfim,

Nós,

Eu e eu,

Atados,

Esquecidos

Se caía, se corria…

Esquecidos da direção.

Ervália 24.01.2020

MAIS UM ANO

Querido irmão, a proximidade da data crucial de sua morte moveu-me a mão, há muito endurecida, para escrever estas linhas. Que não sei se dirigidas a você ou se falam diretamente a mim, incentivando-me a escrever de novo, a forçar os dedos enrijecidos a encontrarem as teclas fugitivas do computador.

Seis anos… em plena pandemia, sem um abraço, sem a presença de um riso. Sobreviver num limbo como se também já tivéssemos morrido. E sem você.

Desculpa, irmão, esta choradeira inútil, infantil, do Bibi que acompanhava o Julião nas suas peraltices… Somos salvos apenas pela lembrança, já é alguma coisa. Onde estiveres pede por nós!

Beijos do mano, Ivo.

Leia também:

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MAIS UMA SAUDADE

HOMENAGEM PÓSTUMA

Sabem os meus leitores que estou com grande dificuldade de datilografar e, por isso, há muito não escrevo nem posto nada aqui. Mas hoje recebi um belo ensaio sobre a minha poesia, produzido supreendentemente por um jovem conterrâneo meu (de Ervália), que me deixou em tal estado de euforia, que pensei logo em voltar à Gaveta, em escrever alguma coisa. Acabei, pela já dita dificuldade de datilografar (erro tudo, tento corrigir, acabo desistindo) por transcrever aqui o belo artigo desse jovem (incrível tal conhecimento crítico em tão pouca idade) CRISTIANO EVANGELISTA DURÃES, sobre quem espero dar aos leitores informações assim que as tiver. Leiam e vejam o quanto ele soube penetrar no labirinto daquele poema que me saiu num instante de profunda angústia. Abraços por ora, vou tentar escrever mais.  


Caro Ivo, 

Mando notícias do Rio Turvão. Está envolto em pedras ali jogadas para conter as enchentes. Não há mais meninos a nadar em sua lama, mas quase todos os dias alguém joga uma pedra, ou um graveto, uma sacola de lixo em nossa baba diluída para ver como se comporta o Turvão com o choque. O rio sentiu o sabor dos tratores que o alargaram e ele já começa a assumir a forma de uma vala de concreto, sem as curvas nos bambuzais e a erosão natural de suas margens, como um rastro na terra feito por um pedaço de pau. Ainda assim, entre tantos dejetos, há de sempre encontrar algum poema a deitar seus sonhos sobre o rio que carrega nossas essências intestinais, sociais, sistêmicas, e por fim, sentimentais, diluídas que estão ali as nossas lágrimas.

Entrei em contato com o Milton Rezende, que me mandou seu email há algum tempo atrás. Acredito até que ele chegou a comentar com você a meu respeito, que eu entraria em contato. Acabei demorando, por insegurança talvez. Muitas e muitas vezes escrevi e excluí o texto que hoje te envio, receoso pelo tom audacioso e sem rédeas que emprestei às palavras. De lá para cá tentei escrever uma análise à altura do seu Papel & Chão, presente no livro “Nau dos Náufragos”. 

 Já não há em mim palavra para tentar decifrar esse teu poema. Nesse movimento de escreve – apaga, tenho por certo que não consigo firmar pés em barro algum. Então, de antemão, peço perdão pela longa exposição hermética nas análises. Ainda tenho muito caminho a trilhar nas boas e belas letras. Li-te como poeta que sou, como amante das palavras. Escrevo-te com a audácia de crer em mim. Ao encontrar ali os trejeitos do nosso rio, da nossa gente, não pude deixar de deitar e rolar nessa lama, engrossada pelas nossas lágrimas, nós.

Estive nos últimos meses buscando um texto que pudesse esgotar o teu Papel & Chão, obra prima que exerce sobre mim a força de um coice em um menino. Estive agarrado ao seu livro, o Nau dos Náufragos, dia após dia no último ano. Lia à janela os versos do Papel & Chão, e quando pude contei aos poucos amigos interessados em literatura sobre o poema, sobre a delicada tarefa de esconder tantos estremeções, tantas dúvidas, tanto sujeito nesses [l]rios em que estamos. O plural é ajustado: é o velho Turvão a matéria prima da imagem pintada nesse poema, mas são múltiplos os “cursos d’água” que o texto evoca. A memória, a saudade, o diálogo, a experimentação e a musicalidade; sentimento e reflexão como objetos palpáveis a clarear as curvas que guiam as águas do teu rio na busca pelo mar, a tentar esconder nas palavras o culpa, descabida antes mesmo do poema.

Embalei-me a princípio com as palavras esparsas a preencher com vazio a folha. Como as eufônicas entradas dos Nocturnes de Chopin a dar seus primeiros estalos em nosso coração, as palavras de Papel & Chão chegavam lentamente, tocando-me o rosto. A mancha gráfica me parece dar tom, compasso e tempo para a sonata forma, com todo o rigor que lhe é próprio, motivo pelo chamaremos as partes do texto de “Movimentos”. Se posso descrever o ato, eu já não lia as palavras. Antes, uma voz que não a minha falava sobre os Turvões que se arrastam em mim.  Então, à medida que a leitura fluía as palavras aconteciam em mim, de tal maneira que nunca pude me debruçar sobre uma análise fria e acadêmica desses versos, ausente do sentir e do viver esse poema, essa cidade, esse Turvão e essa mesma matéria-prima dos versos teus. 

Seria ao mesmo tempo cômodo e trabalhoso limitar os olhos à caça dos labores estéticos traçados em Papel & Chão, caro Ivo. Cômodo pela infinidade de exemplos de aliterações, assonâncias, rimas, neologismos e inversões que os manuais literários e estilísticos nos induzem a perceber, e que compõem o arsenal estético do seu longo poema. Trabalhoso pela imensa complexidade que é definir precisamente as teias que ligam esses elementos entre si, encontrar as funçõesque esses artifícios cumprem na plástica do texto. Seria fácil reduzi-los ao estatuto de prova cabal do pensamento esteta que jorrou do seu “parto”. Mas, não. Não é o que buscamos.

Devo ressaltar a laboriosa tarefa que cumpre o Papel & Chão, a de homenagear o centenário do bardo ancestral e sua grandeza. Eu, ainda aquém da leitura do Babel e Sião, presumi encontrar uma daquelas homenagens de ouro, coroas de flores douradas e palavras de sublimação. Ao ler, me deparei com um Camões desnudo, despido de toda a goma flavescente que o envolve. Vestia suas roupas pretas de gola engraçada; eu podia ver o Camões na Gruta de Macau, tal qual Metrass nos faz ver, a meio rosto, feições sisudas e o olhar de quem desconcerta o mundo. Sim, estava vestido. Deixaste desnudo o grande Camões sem lhe tirar as roupas. Babel e Sião não foi refeito ou vertido a outro tempo. Papel & Chão ousa; revisita o desconcerto do mundo, ainda que dessa vez o mundo desconstruído, desconcertado, não aparente ser esse em que pisamos, este mundo de rios e terras e céus, mas aquele mundo que involuntariamente se constrói dentro de nós, com moinhos e anfiteatros a reger-nos mão e pensamento.

Camões na gruta de Macau, Francisco Augusto Metrass, 1853, óleo sobre tela

A perspectiva trazida nos versos decanta a saudade que sentia do Herval em seus tempos de barquinhos de papel a navegar meios-fios. Vejo no Turvão a estampa de um Rio Ivo em sua nascente e em seu desaguar barroso, turvo, íntimo, permeado pelos medos e pela injusta comparação entre o antes ausente e o agora nausente. A sensação de viver o vazio do arder de Babel não é como algo que dói assim tão solitariamente: a dor leva consigo o vazio da resignação. E tal nulidade, no conforto de “Sião” torna-se mais que um incômodo, uma vontade “de devolver vulcão o que tens dentro”. 

A inversão dos valores entre Babel e Sião (cidades da representação bíblica do bem e do mal, do divino e do profano e tantas outras contraposições) ativa outros sentidos à distância que o assolava. Não estavas como o povo de David a chorar as lembranças de Sião por entre os rios da Babilônia. Conquistara a terra prometida, o desejo de deitar e rolar nas terras de cultura, comer o pão e beber o vinho da pulsante intelectualidade do continente europeu. Ainda assim, como um laço invisível que o ligasse não ao Rio Turvão ou ao barro natal, mas ao menino e o embornal, algo clamava a vivência de sonhos e vontades que tinhas na poesia que manava em Babel e que de ti fora arrancada na conquista de Sião. O exílio em que padecia não era sobre os verdes campos do Herval, o rio a lamber os barrotes nos quintais, as ruas de pedra fincada e a gente de fala turva feita o rio, sentada na praça. O exílio cutucava por dentro, sem falar de serras, montanhas ou terras de cultura. A distância entre o que buscavas e o que já tinhas estava a esfacelar a sensação exata do que eras ou não eras. Poeta que és, sabias que não haveria de ter qualquer artifício maior e melhor do que um bom poema para medir essências. Nele sabemos que mudamos e que o mundo já aspira outros sonhos e vontades, ou que a inércia já nos corrompeu e que a estética de nossa ética já se desgastou e por isso já não fazemos mais questão de estarmos certos. Deixamo-nos apenas seguir.   

Eu, particularmente, nunca vi o mar. Pouco saí de Ervália e de Minas Gerais. Apenas na literatura pude experimentar o mundo em amplitudes. Mas ainda me arrisco a depor aqui palavras a respeito do exílio, imagem tão amplamente navegada nos mares e desertos desde o princípio dos tempos. Talvez por isso ela esteja a nos dar tantos estremeções estéticos, movendo-nos como pedaços de terra; ilhas que andam pelo mundo a carregar seus ossos e carnes sem poder esquecer do barro em que foram moldadas. E muitas vezes, nessa angústia de não poderem se comunicar com os mesmos olhos e corações quando andam nas ruas, os dotados desse gênio intruso das letras nos deram noções de dores e sabores tantos, tão diversos, tão escavados em si que já não podia ser apenas a distância entre uma perna e outra o motivo. Muitos textos de exílio são sítios arqueológicos de sociedades das quais já não queremos saber, ou nunca quisemos. Papel & Chão o é. Muitos exílios são as pompas e outras loas daquela palavra viajante que adotamos, tão famosa para os ditos amantes do nosso luso idioma: a SaudadePapel & Chão o é. Muitos exílios são como aquelas canções em língua estranha das quais não sabemos a letra, mas sentimos erroneamente seus caminhos. Os acometidos por esse exílio escutam as advertências do mar, mas ignoram-na. Normalmente escutam tanto a si, que quando falam não conseguem se esconder nas bússolas e astrolábios: suas direções estão todas voltadas para si. Isso, contrariado o Papel & Chão é. Nesse ar contrariado é que o poema analisa a textura exata do ser e do estar nas terras de cultura, feito um imperador que se arruina pelo vazio da conquista de um deserto. 

Pude notar as vozes, os ecos que pelas tuas vozes repetiam em outros tempos. Além do Camões e do Salmo Bíblico reescrito em Babel e Sião, podemos encontrar outros diálogos, poemas que paralelos ao teu falaram do Rio Turvão, dos cursos intrincados da poesia e da literatura, ou até de grandezas e pequenezas e tantas outras discussões que o Papel & Chão pode desencadear. Cito a exemplo disso os versos de Paulo Toledo, intitulados “Meu Rio Turvão”, em que a saudosa invocação do Turvão contrasta em profundidade e temática do mesmo Turvão que corre no Papel & Chão. Nos versos de Toledo chega-se a comparar o pequeno ribeirão ervalense com o Jordão, dando ao velho Turvão ares de coisa sagrada. A tendência “bairrista” desses versos configura-se não da simples exaltação das possíveis belezas do rio e sua importância, mas também de um sentimento de “amar apesar de”. Os versos circulam elementos que demonstram a fragilidade, a pequenez do Rio Turvão, que é grande em termos de significado e potencial imaginativo pessoal.

Sua água tão verde 

Vagarosamente vai 

Sem barranco 

Sem peixe 

Vai sempre turvar

 Qual turvos caminhos 

A cidade sempre a lavar 

Descendo sempre calado 

Contigo a sujeira vai 

Em ti Turvão ninguém morre 

Também nunca morreu 

Tu vens de cima da “Matinha”

 O berço de onde nasceu 

E, passas por toda Ervália 

Em forma de um ribeirão 

Dobra sereno as esquinas 

Como quem nada quer 

Chega calado no “Casca” 

Molha-se da cabeça aos pés 

Sem barranco

 Sem barco 

Sem barro 

Sem nada

 Penso até ser o “Jordão”

 Mas tenho o brio de dizer bem alto 

Que és tu!

 Meu pequeno-grande

E simplório Turvão 

PAULO TOLEDO (Meu Rio Turvão)

Paralelamente, vejamos:

Embora a aproximação entre os dois na descrição e na atribuição de valores significativos ao velho Turvão “apesar de”, um paralelo (ou um pequeno contraste temático) deve ser pontuado. A tua saudade não é “bairrista”, pelo simples fato de o Rio Turvão ser uma espécie de falso tema central, embora condutor das águas barrentas nas quais o poema se desenvolve. O Rio fala de saudades, da culpa do exílio, fala de viver poeticamente tal culpa, entender a voluntariedade desse desassossego. É a metáfora viva para aquilo que corre dentro do teu lirismo, em termos de reminiscência, representação de sentimentos, anseios, questionamentos. Daí a sagacidade dos dizeres de Eduardo Portella sobre o “exilado forçado”, ao afirmar que “a culpa se dissolve na eficácia da autocrítica”.

Esses versos do Mestre Caeiro, assim vistos em tom de literatura comparada, é um ponto de encontro para a leitura do Papel & Chão. Ao dizer pequenices do rio de sua aldeia contrapostas às grandezas do Tejo e ainda assim afirmar que o Tejo não é mais belo que o rio que corre por sua aldeia, por não ser o rio que corre em sua aldeia, o eu lírico nos mostra, com a singeleza da repetição dos termos, da contrastante descrição de grandezas e pequenices, a potência que carrega a memória e a identidade, que ultrapassa com simplicidade as distâncias e grandezas. É o amor não circunstancial, ou aquele em que as circunstâncias estão ligadas a valores outros, que não as grandezas nem a imponência. Por que cantamos e amamos essa pequena porção de água barrenta a correr atrás dos nossos quintais? Porque corre por trás de nossos quintais e carrega nossos olhos todos os dias quando passamos pela ponte da prefeitura. Cantamos e amamos o Turvão porque ele, como nós, estamos fincados aqui nesse pequeno chão das Gerais, ainda que não mais pisemos nessa terra vermelha. 

Afirmo: a simples ativação de imagens, culturas, palavras, estéticas,não representa por si só os múltiplos faróis acesos em sua obra. Para tal efeito, em algum sentido de dar totalidade à leitura, podemos dizer que o conceito mais próximo aqui  é a memória. Aspecto basilar da nossa literatura mineira, ela atua nos versos com tons de figuras desbotadas, infância envolta numa lubrina que o tempo presente insiste em manter. Um poema jamais reviverá um momento. A história é incapaz de reproduzir a memória viva, como nos diz Pierre Nora. Mais do que um problema para os historiadores, a poesia e suas quintessências também sofrem com a incapacidade de materializar sentimentos reais, apesar do discurso da ficcionalidade e da subjetividade do suposto eu-lírico. As memórias do Papel & Chão representam não somente uma saudade: é uma gênese para o Ivo que escrevia naquele instante. O menino e o peixe são, respectivamente, poeta e poesia buscando seu bojo, algo de concreto que tenha dado aos rumos do distante Ivo não somente um “porque” para ser quem é, mas também um “como”.

 Se há algo que deve ser dito é que uma leitura de sua obra não deve buscar somente um diálogo a ser feito ou a projeção de sentimentos catafóricos a serem diluídos: Drummond disse que a poesia aconteceria em você, quando assim fosse necessário ou possível. E, com o risco de dizê-lo, para mim Papel & Chão é a realização máxima da poesia de Ivo Barroso, a medula do fazer literário, do seu jeito de ler e escrever a si. Um labor cedido ao emaranhado de sensações e sentimentos do visível e palpável ato à “pedante” e complexa reflexão do que é a vida, o erotismo da poesia, o delírio concretista nas curvas do poema-rio e na esfera fonética das palavras, a neologização, a preocupada e constante busca por uma definição precisa do que é fazer e viver a literatura. Tudo isso aí está, e escorre em outros poemas originais e traduções às quais emprestas o gênio de tuas mãos.

O que há de descoberta ou constatação nessa busca é a naturalidade da poesia. Nada mais simples que isso e por isso nada tão potente: escrevemos o que sentimos? E se sentimos, quando escrevemos, era o que sentíamos? Sentimos o que escrevemos, ainda que tenhamos escrito aquelas sensações jamais sentidas antes da escrita? A obrigação, a intensa epifania de escrever mais e diariamente, a suposta obrigatoriedade do poeta em publicar livros coloca a poesia em correntes?  Essas são perguntas que o poema não responde. Não responde por estar experimentando na sua caça lexical um meio termo entre o Apolo das correntes e o Dionísio das correntezas. Não responde por saber que, da visita mental e inspirada ao velho patrimônio no dia de finados não escorre poética se não há os grilhões da técnica, que por sua vez nunca será capaz de descrever sozinha em que estradas andam os nossos delíricos lírios, a que tantas andavam o nosso pensamento preso em liberdade.

Todas essas reflexões me tomam de assalto no último verso do Movimento I. Ele antecede tematicamente toda a discussão do Movimento II do poema, que carrega explicitamente a reflexão quanto à experiência de escrita que surgia naquele momento. Suas nuances, suas dúvidas, os pensamentos de um poema que gestou por anos e anos até o seu parto (aparentemente doloroso, é claro) em atos, palavras e estéticas de 10 anos espremidas em um poema, devolvidas em um estouro, um grito vulcânico. Não nos esqueçamos, aliás, que os vulcões permanecem eras na violência das erupções sem jorrar uma gota do que há dentro. A “constância dos astros” que a gestação do poema me ensina a ler é o entendimento da literatura como expressão máxima, embora lenta e incompleta, do que somos, da potência das infinitas leituras que terão os que lêem aquilo que escrevemos, os laboriosos critérios com os quais a[na]lisamos e lambemos nossa cria. O resultado, não uma pepita ciscada no teclado a palpitar uma pequena problemática, mas sim a compreensão da língua morta ou fictícia que chamamos poesia.

Caio, por fim, na enorme pedância que julgava ser capaz de evitar: a estética, o labor dos teus joguetes lexicais, morfológicos; a tua fome em buscar amplitudes para as palavras através de seus sistemas fônicos, as irrupções do estilo. Mas, aproveitando do espaço não acadêmico que ocupo neste texto, tomo a liberdade e audácia de tentar imaginar suas mãos a teclar furiosas, correspondendo à fúria que roía de dentro. O movimento III desta sonata se alinha ao que ocorre no meio das composições de Maurice Ravel, especialmente em Gaspard de la Nuit,  em que os movimentos do piano dançam em sentidos estranhos ao andamento mais constante da música, mas que compõem os mais ímpios traços das mãos e olhos de Ravel em suas construções. A insistência estética nas aliterações e assonâncias correspondem ao campo harmônico do seu poema. Em idas e vindas, todo o poema se estrutura não em decassílabos ou sextetos, não esquemas rítmicos marcados pela rima no final do verso, mas na constância do diálogo entre fonemas e ideias que permeiam todo o texto.

A primeira e falsa impressão que nos toma, no movimento III, é de que perdeste o fio da meada, que ficaram as iluminações Rimbaudnianas acesas a todo o tempo no poema, de tal modo que não podemos enxergar os contornos da ideia que tecias. Mas a atenção nos carrega para outros lados: a tua poesia é simbólica. Todas são, claro está. Mas a tua túrgica tara nas relações inter lexicais carrega quadros em que as sensações pintam versos que nunca desligam entre si, mesmo que à primeira vista algumas relações não pareçam possíveis. Além da profusão dos sons, é importante atentar-se à economia dos teus versos, às vezes com palavras esparsas, mas dotadas de sentidos tantos que todo um poema não seria capaz de delinear.

Como não ver ou ouvir nos “b’s” e “l’s” e “p’s” desses versos o movimento do rio a correr em suas curvas? Indo além, como não escutar o burburinho manso a dizer bobagens, besteiras, brancas e birutas projeções, pitorescas patifarias, latifundiárias solidões alastradas? E a hermética dessa análise é ajustada: o sujeito que escuta os ribombos da água e suas aliterações não é apenas o poeta que lembra, mas a figura do menino que já não está em seu tempo de meninice: é antes um adulto no lugar das infâncias, ponderando novos sentidos ao que antes via e ouvia nas margens do Turvão. É um Turvão impuro, denso e turvo, acometido pelo tempo e pelo delírio do crescimento dos homens. Os sons que dançam na cabeça do adulto frente ao rio da infância é o barulho da memória, em seu conceito mais ímpio e livre de academicismos. 

A memória ainda se configura além das imagens e vozes da repetição fônica: a mancha gráfica do poema desenha a imagem lembrada do rio, corroendo as montanhas entre as quais corre. As curvas, que também cumprem função fônica ao aproximar sons à nossa vista, delineiam o poema tornando uma imagem do Turvão necessária para dar vazão aos sentimentos. E esse, ao meu ver, é outro trunfo da escrita de Papel & Chão: a mancha gráfica perde seu sentido único de diagramação estética, ela constrói pontes para que nossos olhos pronunciem os rimbombos e burburinhos do rio em alto e bom tom, variando a velocidade e a intensidade, igual aos rios correndo entre remansos e corredeiras. 

Enchente no Rio Turvão – Foto de João Antonino da Costa “Mudinho”

Eis que as delícias da experimentação são tomadas num sobressalto pelo retorno à discussão primeira. A mancha gráfica do poema, tal como o conteúdo, reconfiguram a retomada ao tema central da Sonata. A ruptura, responsável pela progressão, pelo acionamento de imagens e sentidos tantos para os sentimentos descritos é submetida à retomada, à continuidade da ideia primeira. Eis o maior ato de musicalidade, de assídua adaptação da sonata forma; Eis o movimento IV, estranho caminho para o desaguar do poema. Com precisão e agudeza, traz aglutinados em versos curtos a visão do velho Turvão e seus taboais, a lira enfim deposta sobre as erupções que aturdem o poeta, a precisão dos termos, os tiros certeiros e as irrupções estéticas.

Subvertidas pela intensidade das reflexões ao longo do poema, as mesmas imagens carregam sentidos outros e trazem tons de conclusão. Já não estão desbotados os quadros nos quais encontramos os rios (Turvão e Ivo), uma vez que falam daquele agora em que a poesia se consumia, enquanto a própria reflexão sobre si calçava sua última pedra para os caminhos que tomaria dali em diante. É aquele instante em que o poeta é tomado pelo parto, e já amamenta o poema com olhar de coisa feita, vida gerada. 

Por isso: 

Aqui poderíamos cometer o erro de enxergar nos versos apenas a crítica ao tratamento para com o rio, hoje reduzido aos fundos dos quintais, entre pneus e outros dejetos. Seria, nessa leitura rasa, uma míope visão saudosa, em que negamos toda e qualquer mudança daquilo que nos formou como pessoas; os primeiros professores de fugas. Mas não, já não é o menino, nem o velho Herval que se debruça sobre o rio. É o próprio Papel & Chão que está em cheque, e junto dele o poeta. Ao lançar olhares para dentro buscando na memória os rios da infância, só encontra o salitre da mudança, a constatação de que já não estamos indiferentes à sujeira que carregamos. Embora os elfos, falenas, alfenins e ninféias da lembrança do rio-mar ervoso rasgando arrozais e infâncias, hoje a lembrança é a aceitação do que o sujeito lírico é, atravessada pela impossibilidade de reviver as memórias que ainda persistiram.

al distância, tal desassossego com a ausência injustificável do poeta frente às coisas que canta carrega por fim a autocrítica ao exílio voluntário. A ausência não é do barro natal metido na memória, nem do homem que deita e rola nos pães e vinhos das terras de cultura. É o silêncio poético, a lira que canta coisas tão sem curso, tão foscas e inanimadas, que já renegas o canto, já preferes no vazio das memórias depor a cediça lira. É o exílio sem distâncias, em que o objeto da saudade divide espaço com a realidade que o aflige, coisas de dentro do homem. 

“Penduramos as nossas harpas (…) pois (ou por que) os que nos levaram cativos nos pediam canções.” 

Judeus no Cativeiro Babilônico (Salmo 137) – Johann Heinrich Ferdinand Olivier, óleo sobre tela

Enfim, num último ato de desacato à reflexão (o poeta tem sempre de desacatar a lógica que ele mesmo encontra) o sujeito retoma sua lira, deposta sobre todas as loas que compõem a memória da infância e a pressentida sensação do agora: a distância, o pertencimento, a autocrítica literária, a gestação dos versos, o parto doído e a consciência da dor e sua face que facilmente se confunde às de todos os homens. Pois bem, deposto todo jato de lava a corroer a lógica dos atos poéticos de Papel & Chão, resta o apelo. Que o feto ali nascido cresça, progrida em sua função. Que fira! Que a poesia siga a encontrar percalços. Que a memória se desbote e que os rios estejam entregues às privadas e latrinas do povo, desde que cumpra seu papel, desde que fira, desde que toque, desde que faça sangrar nos olhos algum sentido inteiramente novo para a visão de um simples rio. O importante, no entanto, é que a força dos poemas escondidos nos livros seja capaz de romper com seus próprios cursos pré-definidos como fazem os rios, ferir normalidades, arrancar dos olhos gritos e vozes que a boca calou. 

Que fira!

Cristiano Durães Evangelista

MEUS PRESENTES

MÁSCARAS
CONFINAMENTO
ÁLCOOL-GEL

ATÉ ANO QUE VEM
CUIDEM-SE

Meu caro amigo José Carlos Teixeira reclama com frequência que não tenho escrito nada na Gaveta. É verdade: um desânimo cruel, uma inapetência, a própria dificuldade em escrever com a mão meio torta, tudo e mais a pandemia tem me impedido de compartilhar meus textos com os leitores como fazia antes. E teve a gentileza – para me avivar a memória ou despertar-me o ânimo — de me enviar uma coleção de traduções que andei fazendo no passado a seu pedido. Era quase um desafio. Ele me mandava um texto em língua estrangeira e eu corria para lhe devolver o que seria a sua tradução. Quase sempre apressada e mambembe, mas às vezes acertava e me dava não só a satisfação de atender o amigo. mas também a sensação de que a máquina cerebral ainda estava em forma. Neste momento de escassez intelectual só me resta compartilhá-las com meus leitores, com aqueles que queiram matar as saudades de meus escritos.

Gabriela Mistral
El niño solo
A Sara Hübner

Como escuchase un llanto, me paré en el repecho
y me acerqué a la puerta del rancho del camino.
Un niño de ojos dulces me miró desde el lecho
¡y una ternura inmensa me embriagó como un vino!

La madre se tardó, curvada en el barbecho;
el niño, al despertar, buscó el pezón de rosa
y rompió en llanto… Yo lo estreché contra el pecho,
y una canción de cuna me subió, temblorosa.

Por la ventana abierta la luna nos miraba.
El niño ya dormía, y la canción bañaba,
como otro resplandor, mi pecho enriquecido.

Y cuando la mujer, trémula, abrió la puerta,
me vería en el rostro tanta ventura cierta
¡que me dejó el infante en los brazos dormido!


O BEBÊ SÓ
Gabriela Mistral
Trad. de Ivo Baroso

Como escutasse um choro, detive-me a despeito
E me acerquei da porta do rancho do caminho.
Um bebé de olhos doces olhou-me de seu leito
E uma ternura imensa me embriagou como um vinho!

Tardara a mãe, curvada a trabalhar no eito;
a criança ao despertar, buscou-lhe o seio rosa
e se pôs a chorar… Tomei-a junto ao peito,
e a canção de ninar me ocorreu, temerosa.

Pela janela aberta a lua nos olhava.
A criança já dormia, e a cantiga banhava,
como outro resplendor, meu peito enriquecido.

Quando chega a mulher e abre a porta, insegura,
viu decerto em meu rosto luzir tanta ventura
que deixou a criança em meus braços dormindo!


Adieu Haiti
Compositor(es): Raphael Feat. Toots
Trad. de Ivo Barroso

Je marche dans les rues
Caminho pelas ruas
Le Bon Dieu dans ma poche
Com o bom Deus no bolso
Je marche dans la grande ville
Caminho pela cidade
Et je n’ai plus froid
E não tenho mais frio
La terre est mon amie
A terra é minha amiga
Et souvent je dors dessus
E durmo muitas vezes sobre ela
Et je m’ennuie de mon pays
E me aborreço com meu país
Qui était si petit
Por ser tão pequeno

Adieu mon petit pays
Adeus, meu pequeno país
Adieu ma famille
Adeus minha família
Adieu mon île ô Haïti, adieu ma petite terre
Adeus minha ilha ó Haiti, adeus minha terrinha

I remember my country
Lembro de meu país
Down Memory Lane
Pelas veredas da memória
The wind is my best friend
O vento é o meu melhor amigo
It always blows for me
Sempre sopra a meu favor
Neons in the distance
Letreiros à distância
Dear as daylight
Caros como a luz do dia
Sometimes I think that I’m not of this world
Às vezes penso que não sou deste mundo
I remember this song

Lembro esta canção
O farewell my country
De adeus ao meu país
My caribean island in the sun
Minha ilha caribenha ao sol
O farewell Haïti
Ó adeus Haiti
The sun I just can´t see
O sol que eu não consigo ver

Adieu mon petit pays
Adieu ma famille
Adieu mon île ô Haïti, adieu ma petite terre (repete o de cima)

Je me souviens des rues
Lembro-me das ruas
Et des nuits de Port-au-Prince
E das noites de Port-au-Prince
Et je suis toujours un étranger
E continuo sendo um estrangeiro
A la gare internationale
No saguão internacional
Le vent nous emportait
O vento nos levava
Aussi loin qu’il pouvait
Ao mais longe que podia
Cet air je le connais
Esse ar eu o conheço (etc. como acima)
I say farewell my country
Digo adeus ao meu país
My carribean island in the sun
O farewell Haïti

http://vagalume.uol.com.br/raphael/adieu-haiti.html



LIBRE TE QUIERO
Poema de Agustín García Calvo
Música e Interpretação de Amancio Prada
Trad. Ivo Barroso

“Libre te quiero”, Agustín García Calvo

Libre te quiero

Libre te quiero,
como arroyo que brinca
de peña en peña.
Pero no mía.

Grande te quiero,
como monte preñado
de primavera.
Pero no mía.

Buena te quiero,
como pan que no sabe
su masa buena.
Pero no mía.

Alta te quiero,
como chopo que en el cielo
se despereza.
Pero no mía.

Blanca te quiero,
como flor de azahares
sobre la tierra.
Pero no mía.

Pero no mía

ni de Dios ni de nadie
ni tuya siquiera.

http://ramondeaguilar.blogia.com/2013/032801-libre-te-quiero-agust-n-garc-a-calvo-.php


Quero-te livre
Trad. de Ivo Barroso

Quero-te livre
Como o regato que brinca
De fraga em fraga
Porém não minha.

Quero-te grande
Qual monte impregnado
De primavera.
Porém não minha

Quero-te boa
Como o pão sem o gosto
De sua boa massa.
Porém não minha.

Quero-te alta
Como o álamo que vai no céu
Se espreguiçando.
Porém não minha.

Quero-te branca
Como a flor da laranjeira
Sobre a terra
Porém não minha.

Sim, nem minha

Nem de Deus, de ninguém mais
Nem de ti mesma.


¡HABLA, QUE LO QUIERE EL NIÑO!
Miguel de Unamuno

¡Habla, que lo quiere el niño!
¡Ya está hablando!

El Hijo del Hombre, el Verbo
encarnado
se hizo Dios en una cuna
con el canto
de la niñez campesina,
canto alado.

¡Habla, que lo quiere el niño!
¡Hable tu papel, mi pájaro!

Háblale al niño que sabe
voz del alto,
La voz que se hace silencio
sobre el fango…
Háblale al niño que vive
en su pecho a Dios criando…

Tú eres la paloma mística,
tú el Santo
Espíritu que hizo el hombre
con sus manos…

Habla a los niños, que el reino
tan soñado
de los cielos es del niño
soberano,
del niño, rey de los sueños,
¡corazón de lo creado!

¡Habla, que lo quiere el niño!
¡Ya está hablando!

http://www.poemaspoetas.com/miguel-de-unamuno/habla-que-lo-quiere-el-nino


FALA, ASSIM QUER O MENINO
Miguel Unamuno
Trad. de Ivo Barroso

Fala, assim quer o menino!
Já está falando!

O Filho do Homem, o Verbo
encarnado
tornou-se Deus num bercinho
com o canto
da meninez campesina,
canto alado.

Fala, assim quer o menino!
Fala o teu papel, ó pássaro!

Fala ao menino que sabe
voz do alto
A voz que se faz silêncio
sobre o lodo…
Fala ao menino que vive
criando Deus em seu peito…

És aquela pomba mística,
tu o Santo
Espírito que fez o homem
com as próprias mãos…

Dize aos meninos que o reino
tão sonhado
dos céus é o deste menino
soberano,
do menino rei dos sonhos,
coração da criatura!

Fala, assim quer o menino!
Já está falando!

http://www.los-poetas.com/k/unam1.htm


Denso, denso
de Miguel de Unamuno

Mira, amigo: cuando libres
al mundo tu pensamiento,
cuida que sea, ante todo,
denso, denso.

Y cuando sueltes la espita
que cierra tu sentimiento,
que en tus cantos éste mane
denso, denso.

Y el vaso en que vino escancies
de tu sentir los anhelos,
de tu pensar los cuidados,
denso, denso.

Mira que es largo el camino
y corto, muy corto, el tiempo:
parar en cada posada
no podemos.

Dinos en pocas palabras,
y sin dejar el sendero,
lo más que decir se pueda,
denso, denso.

Con hebra recia de ritmo,
hebrosos queden tus versos,
sin grasa, con carne prieta,
densos, densos.

http://www.poemaspoetas.com/miguel-de-unamuno/denso-denso


DENSO, DENSO
Miguel de Unamuno
Trad. de Ivo Barroso

Mira, amigo, cuando libres
Atenção, amigo, ao soltares
al mundo tu pensamiento,
teu pensamento para o mundo,
cuida que sea ante todo
trate que seja antes de tudo
               denso, denso.
Denso, denso

Y cuando sueltes la espita
E quando abrires o depósito
que cierra tu sentimiento
que encerra teu sentimento
que en tus cantos éste mane
que ele em teus cantos permaneça
               denso, denso.
Denso, denso

Y el vaso en que nos escancies
Seja o copo em que nos sirvas
de tu sentir los anhelos,
De teu sentir os anelos
de tu pensar los cuidados,
De teu pensar os cuidados
               denso, denso.
Denso, denso.

Mira que es largo el camino
Vê que comprido é o caminho
y corto, muy corto, el tiempo;
E curto, bem curto, o tempo.
parar en cada posada
Parar em cada pousada
               no podemos.
Já não podemos

Dinos en pocas palabras,
Diz-nos em poucas palabras
y sin dejar el sendero,
E sem deixar o sendeiro
lo más que decir se pueda,
O que mais dizer-nos possa
denso, denso.
Denso, denso.

Con la hebra recia del ritmo
Com o fio régio do ritmo
 hebrosos queden tus versos,
Fibrosos sejam teus versos
 sin grasa, con carne prieta,
Sem untos, com carne preta.
              densos, densos.
Densos, densos.


O LOBO DA ESTEPE
Hermann Hesse

Ich Steppenwolf trabe und trabe,
Die Welt liegt voll Schnee,
Vom Birkenbaum flügelt der Rabe,
Aber nirgends ein Hase, nirgends ein Reh!
In die Rehe bin ich so verliebt,
Wenn ich doch eins fände!
Ich nähm’s in die Zähne, in die Hände,
Das ist das Schönste, was es gibt.
Ich wäre der Holden so von Herzen gut,
Fräße mich tief in ihre zärtlichen Keulen,
Tränke mich voll an ihrem hellroten Blut,
Um nachher die ganze Nacht einsam zu heulen.
Sogar mit einem Hasen wär ich zufrieden,
Süß schmeckt sein warmes Fleisch in der Nacht –
Ist denn alles und alles von mir geschieden,
Was das Leben ein wenig heiterer macht?
An meinem Schwanz ist das Haar schon grau,
Auch kann ich gar nimmer deutlich sehen,
Schon vor Jahren starb meine geliebte Frau.
Und nun trab ich und träume von Rehen,
Trabe und träume von Hasen,
Höre den Wind in der Winternacht blasen,
Tränke mit Schnee meine brennende Kehle,
Trage dem Teufel zu meine arme Seele.

http://www.tokado.at/index.html?http://www.tokado.at/hesse_steppenwolf.htm
http://www.tokado.at/index.html?http://www.tokado.at/hesse_steppenwolf.htm


O LOBO DA ESTEPE
Hermann Hesse
Trad. de Ivo Barroso

Eu, o Lobo da Estepe, vago errante
Pelo mundo de neve recoberto;
Um corvo sai de uma árvore, adejante,
Mas não há lebre ou corça aqui por perto!
Ansiando eu vivo de encontrar a corça,
Ah! se pudesse achar alguma um dia!
Tê-la entre os dentes, agarrá-la à força,
Nada mais belo para mim seria.
Havia de tratá-la tão cordial,
De cravar-lhe nas ancas o meu dente,
Beber-lhe o sangue todo, até o final
E uivar na noite solitariamente.
Até mesmo uma lebre hoje me basta!
À noite a carne tenra é preferida.
Porque sempre de mim logo se afasta
Tudo o que torna alegre a nossa vida?
Já meus pelos da cauda estão grisalhos
Nem posso ver mais nítida uma cousa;
Há muito que morreu a minha esposa
E vago e vejo corças nos atalhos,
E sonho e sinto lebres; a ânsia é tanta
Que ouvindo o vento uivar na noite incalma,
Com neve aplaco o fogo da garganta
E entrego ao diabo a minha pobre alma.


¡OH CRISTO!
Amado Nervo

Ya no hay un dolor humano que no sea
mi dolor;
ya ningunos ojos lloran, ya ningún
alma se angustia sin que yo me
angustie y llore;
ya mi corazón es lámpara fiel de
todas las vigilias,
¡oh Cristo!
En vano busco en los hondos
escondrijos de mi ser
para encontrar algún odio: nadie
puede herirme ya sino de piedad y
amor. Todos son yo, yo soy todos,
¡oh Cristo!

¡Qué importan males o bienes! Para mí
todos son bienes.

El rosal no tiene espinas: para mí sólo
da rosas.
¿Rosas de pasión? -¡Qué importa! Rosas
de celeste esencia, purpúreas como
sangre que vertiste por nosotros,
¡oh Cristo!


OH! CRISTO!
Trad. de Ivo Barroso

Já não existe dor humana que não seja
a minha dor;
Já não choram nenhuns olhos, já nenhuma
Alma se angustia sem que eu me angustie
e também chore
Meu coração já é uma lâmpada fiel de
todas as vigílias
Oh! Cristo!
Busco em vão os mais fundos
esconderijos do meu ser
à procura de algum ódio; ninguém
pode ferir-me senão por piedade ou
por amor. Todos são eu e eu sou todos
Oh! Cristo!

Que importam os males ou os bens! Para mim
Tudo são bens

Para mim a roseira não tem espinhos,
apenas rosas
Rosas. Rosas de paixão? Que importa! Rosas
de celestial essência, purpúreas como
o sangue que verteste por nós todos
Oh! Cristo!


TU
Amado Nervo

Señor, Señor, Tú antes, Tú después, Tú en la inmensa
hondura del vacío y en la hondura interior.
Tú en la aurora que canta y en la noche que piensa;
Tú en la flor de los cardos y en los cardos sin flor.

Tú en el cénit a un tiempo y en el nadir;
Tú en todas las transfiguraciones y en todo el padecer;
Tú en la capilla fúnebre, Tú en la noche de bodas;
¡Tú en el beso primero, Tú en el beso postrero!

Tú en los ojos azules y en los ojos oscuros;
Tú en la frivolidad quinceañera y también
en las grandes ternezas de los años maduros;
Tú en la más negra sima, Tú en el más alto edén.

Si la ciencia engreida no te ve, yo te veo;
si sus labios te niegan, yo te proclamaré.
Por cada hombre que duda, mi alma grita: “Yo creo”
¡y con cada fe muerta, se agiganta mi fe!

http://www.motivaciones.org/MOTIV004/ctosetuamadonervo.htm
http://m.espanol.christianpost.com/news/amado-nervo-quiza-el-mejor-poeta-latinoamericano-10272/

TU
Amado Nervo

Trad. de Ivo Barroso

Senhor, Senhor, Tu antes, Tu depois, Tu na imensa
Fundura do vazio e na fundura interior;
Tu na aurora que canta e na noite que pensa, 
Tu nas flores dos cardos e nos cardos sem flor.

Tu no zênite a um tempo e no nadir; Tu em todas
As transfigurações, na dor e no desejo; 
Tu na capela fúnebre e na noite de bodas;
Tu no beijo primeiro e Tu no último beijo.

Tu nos olhos azuis e nas pupilas escuras;
Tu na frivolidade juvenil e também    
Nas ternuras sublimes das idades maduras; 
Tu no mais negro abismo e no mais alto além.

Se a ciência não Te vê, o meu olhar te fita;
Se seus lábios te negam, meu lábio Te decanta.  
Ante a dúvida mais a minha alma acredita 
E com cada fé morta, minha fé se agiganta!

http://www.electricscotland.com/burns/hearth.html


Música Andalusí “La fuente del amor secreto”

Cese en su aflicción y se regocije
aquel que conozca las penas de mi corazón,
pues mi sufrimiento ha llegado a su fin.

Ya no hay sitio en mi corazón para la tristeza:
He alcanzado la Unión que era mi objetivo.

Alabo al Señor del Cielo, me prosterno hacia la qibla
y digo: ¡Hoy he sido aceptado!

Estaba sepultado en el sueño de la distracción,
pero he aquí que he despertado a la Alegría.
¿Quién temerá las palabras del envidioso o del espía?


(Sidi Qaddur l-‘Alami)
“La fuente del amor secreto”

Cese en su aflicción y se regocije
Cesse sua aflição e que se alegre
aquel que conozca las penas de mi corazón,
quem conhece as penas de meu coração
pues mi sufrimiento ha llegado a su fin.
Pois meu pensamento chegou agora ao fim.
Ya no hay sitio en mi corazón para la tristeza:
Já não há lugar em meu coração para a tristeza
alcanzado la Unión que era mi objetivo.
Tendo alcaçado a União que era o meu objetivo
Alabo al Señor del Cielo, me prosterno hacia la qibla
y digo: ¡Hoy he sido aceptado!
Lovo o Senhor dos Céus e me ajoelho diante da qibla (*)
E digo: Hojee u fui aceito!
Estava sepultado no sonho e na distração
Mas eis que agora me desperto para a Alegria.
Quem há de temer as palavras do invejoso ou do espia?
Estaba sepultado en el sueño de la distracción,
pero he aquí que he despertado a la Alegría.
¿Quién temerá las palabras del envidioso o del espía

(*) (ponto que marca a distancia em que alguém está em relação à Kaaba) 
(Sidi Qaddur l-‘Alami)


O poema é um trecho (estrofe 5) do longo poema “As Viúvas dos mortos e as viúvas do vivos (Pra Havana)”. Aí vai: 

5

Este vaise i aquel vaise
E todos, todos se van,
Galicia, sin homes quedas
Que te poidan traballar.
Tés, en cambio, orfos e orfas
E campos de soledad,
E nais que non teñen fillos
E fillos que non tén pais.
E tés corazóns que sufren
Longas ausencias mortás,
Viudas de vivos e mortos
Que ninguén consolará.

Este se vai e aquele se vai,
E todos, todos se vão,
Galiza, sem homens ficas
Que te possam trabalhar.
Tens, em compensação, órfãos e órfãs
E campos de solidão,
E mães que não têm filhos
E filhos que não têm pais.
E tens corações que sofrem
Longas ausências mortais,
Viúvas de vivos e mortos
Que ninguém consolará. 

(tradução literal de Andityas Soares de Moura em Rosalía de Castro – A rosa dos claustros – edição bilíngüe da Crisálida – BH – www.crisalida.com.br)

Ivo Barroso


Nana Mouskouri – Le temps qui’l nous reste

Le  Temps qu’il  nous reste
O tempo que nos resta
Composição: Dalmazio Masini; Nicola di Bari e Piero Pintucci.

Quelle importance le temps qu’il nous reste
Como é importante o tempo que nos resta
Nous aurons la chance de vieillir ensemble
Teremos a c hance de envelhecer juntos
Au fond de tes yeux vivra ma tendresse
No fundo de teus olhos viverá minha ternura
Au fond de mon cœur vivra ta jeunesse
No fundo de meu coração viverá tua juventude

Comme une prière du temps de l’enfance
Como uma prece dos tempos de infância
Ces mots sur tes lèvres me donnent confiance
Estas palavras em teus lábios me dão confiança
Je nous imagine ta main dans la mienne
Imagino nós dois, tua mão na minha
Nos moindres sourires voudront dire je t’aime
Nossos menores sorrisos significarão que te amo

Mais l’un de nous s’en ira le premier
M as um de nós há de ir-se primeiro
Il fermera ses yeux à jamais
Fechando os olhos para sempre
Dans un tout dernier sourire
Num derradeiro sorriso

Et l’autre en perdant la moitié de sa vie
E o outro, perdendo metade de sua vida,
Restera chaque jour dans la nuit
Ficará cada dia na noite
Son cœur bien sûr battra mais pour qui mais pourquoi
Seu coração certamente baterá, mas para quem, mas para quê ?

Ton pas résonne la porte s’entrouvre
Teu passo ressoa na porta entreaberta
Mon cœur bat plus vite et je te retrouve
Meu coração bate mais rápido e te reencontro
Quand nos mains se tiennent j’oublie tout le reste
Quando estamos de mãos dadas me esqueço de tudo mais
J’ai l’impression même que le temps s’arrête
Tenho mesmo a impressão de que o tempo parou

Mais l’un de nous s’en ira le premier
Mas um de nós há de ir-se primeiro
Il fermera ses yeux à jamais
Fechando os olhos para sempre
Dans un tout dernier sourire
Num derradeiro sorriso

Un jour l’un de nous sera trop fatigué
Um dia um de nós estará cansado demais
S’en ira presque heureux le premier
E será o primeiro a ir-se quase feliz
Et l’autre s’en tarder viendra le retrouver
E o outro sem tardar virá reencontrá-lo
Je nous imagine ta main dans la mienne
Imagino nós dois, tua mão na minha
Nos moindres sourires voudront dire je t’aime
Nossos menores sorrisos significarão que te amo


SYLVIA PLATH
Um poema de SYLVIA PLATH
traduzido por I. Barroso

I Am Vertical

But I would rather be horizontal.
I am not a tree with my root in the soil
Sucking up minerals and motherly love
So that each March I may gleam into leaf,
Nor am I the beauty of a garden bed
Attracting my share of Ahs and spectacularly painted,
Unknowing I must soon unpetal.
Compared with me, a tree is immortal
And a flower-head not tall, but more startling,
And I want the one’s longevity and the other’s daring.

Tonight, in the infinitesimal light of the stars,
The trees and the flowers have been strewing their cool odors.
I walk among them, but none of them are noticing.
Sometimes I think that when I am sleeping
I must most perfectly resemble them–
Thoughts gone dim.
It is more natural to me, lying down.
Then the sky and I are in open conversation,
And I shall be useful when I lie down finally:
Then the trees may touch me for once, and the flowers have time for me.

EU SOU VERTICAL

Gostaria de ser horizontal.
Não sou árvore com raízes no solo
Sugando os minerais e o amor da natureza
Para em cada maio reluzir-me em folhas.
Nem sou como os encantos de um canteiro
Atraindo um quinhão de Ahs! com minhas flores
Sem saber que em breve estarei despetalada.
Comparada comigo, a árvore é imortal
E o canteiro não me sendo mais alto, é mais surpreendente,
E quisera desta a longevidade e daquele a insolência.

Hoje, diante da luz infinitesimal das estrelas,
As árvores e flores destilam seus frescos odores
E caminho entre elas, sem me notarem.
Às vezes penso que, quando estou dormindo,
É quando de fato mais me pareço com elas.
Os pensamentos se esvoaçam.
Para mim é mais natural estar deitada
Quando o céu e eu entramos em conversa franca
E me sentirei útil quando estiver estendida para sempre:
Então as árvores poderão tocar-me, e as flores terão seu tempo para mim. 


The Eagle soars in the summit of Heaven
T. S. Eliot

The Eagle soars in the summit of Heaven.
The Hunter with his dogs pursues his circuit.
O perpetual revolution of configured stars,
O perpetual recurrence of determined seasons,
O world of spring and autumn, birth and dying!
The endless cycle of idea and action,
Endless invention, endless experiment,
Brings knowledge of motion, but not of stillness;
Knowledge of speech, but not of silence;
Knowledge of words, but not of the Word.
All our knowledge brings us nearer to our ignorance,
All our ignorance brings us nearer to death,
But nearness to death no nearer to God.
Where is the Life we have lost in living?
Where is the wisdom we have lost in knowledge?
Where is the knowledge we have lost in information?
The cycles of Heaven in twenty centuries
Bring us farther from God and nearer to the Dust.

A ÁGUIA SE ERGUE NOS CONFINS DO CÉU
Tradução de Ivo Barroso

A Águia se ergue nos confins do Céu.
O Caçador com seus cães persegue-lhe o circuito.
Ó perpétua revolução de estrelas configuradas,
Ó perpétua recorrência de determinadas estações.
Ó mundo de outono e primavera, nascimento e morte!
O ciclo interminável da ideia e da ação,
Invenção perene, perpétua experiência,
Traz a noção do movimento, mas não a do repouso;
A ciência da fala, mas não a do silêncio;
A ciência das palavras, e a ignorância da Palavra.
Todo o nosso saber nos aproxima de nossa ignorância,
Toda a nossa ignorância nos acerca da morte,
Mais próximos da morte, e não mais perto de Deus.
Onde a Vida que perdemos no viver?
Onde a sabedoria que perdemos no saber?
Onde o saber que perdemos na informação?
Os ciclos do Céu em vinte séculos
Nos afastam de Deus e nos acerca do Pó.

https://gavetadoivo.wordpress.com/T. S. Eliot


El mundo que yo no viva
Agustín García Calvo


El mundo que yo no viva
lo pensé como cosa extraña,
como arca de maravilla.
Ay de mi vida

Allí ¿sonará la lluvia
junto al fuego las noches frías?
¿Tendrá Agosto en el río barcas?
Y tú ¿la gentil sonrisa?

¿Brillará en el papel que siembro
la negra flor de la tinta?
Ay de mi vida

¿Será posible que vengan
los amigos y que “Era” digan
“un hombre, y te quiso mucho”
y “Mucho” llorando digas?

Es el mundo que no conozco,
Atlántida sumergida.
Ay de mi vida.

Allí las palmeras echan
esmeraldas. Allí las crías
del delfín esmeraldas pacen.
Allí no hay noche ni día:
cuando ordeñan a los rebaños,
de púrpura el mar se agría,
Ay de mi vida.

Más limpio que agua de oro
es el mundo que yo no viva:
no hay naves de arar espumas
ni arado para las viñas;
el gran árbol le da su fruto
al que el nombre del fruto diga.
Ay de mi vida.

Ese mundo no es el mío:
es el tuyo: el que en tus pupilas
hundido está desde siempre
y no lo alcanza mi vista.
A ese mundo quisiera entrar,
antes que suene la hora
– ay – de mi vida.
http://antologiapoeticamultimedia.blogspot.com.br/2007/02/el-mundo-que-yo-no-viva.html

                    

El mundo que yo no viva
Agustín García Calvo
Trad.de Ivo Barroso

O mundo em que não vivo
O pensei como coisa estranha
Como arca de maravilha.
Ai, de minha vida

Ali soará a chuva
Junto ao fogo nas noites frias?
Terá agosto barcas no rio?
E tu o gentil sorriso?

Brilhará no papel que semeei
A negra flor da tinta?
Ai, de minha vida

Será possível que venham
Os amigos e que “Era” digam
“um homem, e te quis muito”
E chorando “MUITO” digas?

É o mundo que não conheço,
Atlântida submergida.
Ai, de minha vida.
É ele teu: ele que em tuas pupilas
Submergido está desde sempre

Ali as palmeiras tornam-se
Esmeraldas. Ali as crias
Do delfim pascem.
Ali não há noite nem dia:

Quando ordenham os rebanhos,
De púrpura o mar se exasperava
Ai, de minha vida.

Mais limpo que água de ouro
É o mundo que eu não vivo:
Não há navios para arar espumas
A grande árvore lhe dá seu fruto
Ao que o nome do fruto diga.
Ai, de minha vida.

Esse mundo não é meu
É ele teu: ele que em tuas pupilas
Submergido está desde sempre
E não o alcança minha vista.
Nesse mundo quisera entrar,
Antes que soe a hora
― Ai ― de minha vida.

JUNTO AL MAR
José Hierro


Si muero, que me pongan desnudo,
desnudo junto al mar.
Serán las aguas grises mi escudo
y no habrá que luchar.

Si muero que me dejen a solas.
El mar es mi jardín.
No puede, quien amaba las olas,
desear otro fin.

Oiré la melodía del viento,
la misteriosa voz.
Será por fin vencido el momento
que siega como hoz.

Que siega pesadumbres. Y cuando
la noche empiece a arder,
Soñando, sollozando, cantando,
yo volveré a nacer.

JUNTO AL MAR
José Hierro
Trad. De Ivo Barroso

Se eu morrer ponha-me desnudo,
Completamente nu diante do mar
As águas tristes serão meu escudo
E não terei que lutar.

Se eu morrer, deixei-me a sós
O mar é meu jardim.
Quem ama as ondas não pode
desejar outro fim.

Que ceifa pesadelos. E quando
A noite começar a arder,
Sonhando, soluçando, cantando
Voltarei a nascer.


LO FATAL
Jose Luis Hidalgo

He nacido entre muertos y mi vida
es tan sólo el recuerdo de sus almas
que, lentas van soñando entre mi sangre
y sobre el mundo ciego la levantan.

Quedó lejos la tierra, mis raíces
no saben del frescor que en ella canta.
De invisibles cenizas es mi cuerpo.
Los muertos de la tierra me separan.

Quisiera ser yo mismo, luz distinta
brillando cada día con el alba,
estrella de la noche, siempre joven,
que fulge de sí misma solitaria

Pero ya no estoy solo, mi se vivo
lleva siempre los muertos en su entraña.
Moriré como todos y mi vida
será oscura memoria en otras almas.

http://www.cervantesvirtual.com/obra-visor/antologia-poetica–28/html/00d6843e-82b2-11df-acc7-002185ce6064_2.html

O FATAL
Jose Luis Hidalgo
Tradução de Ivo Barroso

Nasci entre mortos, minha vida
não passa da lembranças dessas almas
que, lentas, vão sonhando no meu sangue
e que a levantam sobre o mundo cego.

Longe ficou a terra e as raízes
não sabem do frescor que nela canta.
De cinzas invisíveis é meu corpo.
Os mortos separam-me da terra.

Quisera ser eu mesmo, luz distinta
brilhando cada dia na alvorada,
uma estrela da noite, sempre jovem,
que brilha solitária de si mesma.

Mas já não estou só, o meu ser vivo
sempre leva seus mortos nas entranhas.
Morrerei como todos, minha vida
será a obscura memória de outras almas.


Cristo en la cruz
Jorge Luis Borges

Cristo en la cruz. Los pies tocan la tierra.
Los tres maderos son de igual altura.
Cristo no está en el medio. Es el tercero.
La negra barba pende sobre el pecho.
El rostro no es el rostro de las láminas.
Es áspero y judío. No lo veo
y seguiré buscándolo hasta el día
último de mis pasos por la tierra.
El hombre quebrantado sufre y calla.
La corona de espinas lo lastima.
No lo alcanza la befa de la plebe
que ha visto su agonía tantas veces.
La suya o la de otro. Da lo mismo.
Cristo en la cruz. Desordenadamente
piensa en el reino que tal vez lo espera,
piensa en una mujer que no fue suya.
No le está dado ver la teología,
la indescifrable Trinidad, los gnósticos,
las catedrales, la navaja de Occam,
la púrpura, la mitra, la liturgia,
la conversión de Guthrum por la espada,
la inquisición, la sangre de los mártires,
las atroces Cruzadas, Juana de Arco,
el Vaticano que bendice ejércitos.
Sabe que no es un dios y que es un hombre
que muere con el día. No le importa.
Le importa el duro hierro con los clavos.
No es un romano. No es un griego. Gime.
Nos ha dejado espléndidas metáforas
y una doctrina del perdón que puede
anular el pasado. (Esa sentencia
la escribió un irlandés en una cárcel.)
El alma busca el fin, apresurada.
Ha oscurecido un poco. Ya se ha muerto.
Anda una mosca por la carne quieta.
¿De qué puede servirme que aquel hombre
haya sufrido, si yo sufro ahora?

Disponível em<http://www.lainsignia.org/2005/marzo/cul_054.htm >Acesso em: 15.02.2015

CRISTO NA CRUZ
Um poema de JORGE LUIS BORGES,
Traduzido por Ivo Barroso

Cristo na cruz. Os pés tocam a terra.
Os três madeiros são de igual altura.
Cristo não é o do meio. É o terceiro.
A negra barba pende sobre o peito.
O rosto não é este das gravuras.
É áspero e judeu. Mas não o vejo
E vou buscá-lo sempre até o dia
De meu último passo sobre a terra.
O homem alquebrado sofre e cala.
A coroa de espinhos o castiga.
A chacota da plebe não o alcança
Já tantas vezes viu sua agonia.
A sua ou a desse outro. Dá no mesmo.
Cristo na cruz. Desordenadamente
Pensa no reino que talvez o espera,
Pensa numa mulher que não foi sua.
Não lhe foi dado ver a teologia,
A Trindade indecifrável, os gnósticos,
As catedrais, a navalha de Occam,
Nem a púrpura, a mitra, a liturgia,
A conversão de Guthum pela espada,
A Inquisição, o sangue de seus mártires,
As atrozes Cruzadas, Joana d´Arc,
O Vaticano que bendiz exércitos.
Sabe que não é deus e que é um homem.
Ele morre com o dia. Não lhe importa.
Importa o duro ferro desses cravos.
Não é romano. Não é grego. Geme.
A nós deixou esplêndidas metáforas
E uma doutrina de perdão que pode
Anular o passado. (Esta sentença
Escreveu-a um irlandês no cárcere.)
Sua alma busca o fim, impaciente.
Escureceu um pouco. Já está morto.
Anda uma mosca pela carne quieta.
De que vale saber que tenha esse homem
Por mim sofrido, se eu sofro agora?

Disponível em: < https://gavetadoivo.wordpress.com/2014/06/18/cristo-na-cruz/>
Acesso em: 15.02.2015


Prayer To Go To Paradise With the Asses
by: Francis Jammes (1868-1938)
translated by Jethro Bithell

O GOD, when You send for me, let it be
Upon some festal day of dusty roads.
I wish, as I did ever here-below
By any road that pleases me, to go
To Paradise, where stars shine all day long.
Taking my stick out on the great highway,
To my dear friends the asses I shall say:
I am Francis Jammes going to Paradise,
For there is no hell where the Lord God dwells.
Come with me, my sweet friends of azure skies,
You poor, dear beasts who whisk off with your ears
Mosquitoes, peevish blows, and buzzing bees …

Let me appear before You with these beasts,
Whom I so love because they bow their head
Sweetly, and halting join their little feet
So gently that it makes you pity them.
Let me come followed by their million ears,
by those that carried paniers on their flanks,
And those that dragged the cars of acrobats,
Those that had battered cans upon their backs,
She-asses limping, full as leather-bottles,
And those too that they breech because of blue
And oozing wounds round which the stubborn flies
Gather in swarms. God, let me come to You
With all these asses into Paradise.
Let angels lead us where your rivers soothe
Their tufted banks, and cherries tremble, smooth
As is the laughing flesh of tender maids.
And let me, where Your perfect peace pervades,
Be like Your asses, bending down above
The heavenly waters through eternity,
To mirror their sweet, humble poverty
In the clear waters of eternal love.

https://goo.gl/FUF4sx

FRANCIS JAMMES

Prece para ir ao paraíso com os burros
Quando eu tiver que ir ao vosso encontro, ó Deus,
Fazei que seja um dia em que a campanha em festa
Esteja empoeirada, pois quero, como fiz aqui embaixo,
Escolher um caminho para ir, como quiser ao Paraíso,
Em que as estrelas brilharão de dia.
Tomarei meu cajado e pela estrada imensa
Irei, dizendo aos asnos, meus amigos:
Eu sou Francis Jammes e estou indo ao Paraíso,
Pois não há inferno no reino do Bom Deus.
Eu lhes direi:
“Vinde, doces amigos do azul dos céus,
Pobres animais queridos que, num movimento brusco das orelhas,
Afastam as moscas importunas, os toques e as abelhas…”  
E que em meio aos animais, a vós eu apareça,
Pois que os amo tanto por baixarem a cabeça
lentamente e pararem à espera das crias pequenas
De um modo tão doce que até nos dá pena.
Irei seguido de seus milhões de orelhas,
E daqueles que trazem no dorso as corbelhas,
Dos que puxam os carros de acrobatas
ou as carroças de ferro-velho e latas,
daqueles que carregam grandes bujões de aço,
jumentas prenhas como odres, .trocando o passo
por causa dos panos enrolados nas canelas
para impedir as moscas insistentes sobre elas.
Meu Deus, fazei com que junto a esses asnos eu vos surja
 E na santa paz os anjos nos conduzam
Aos regatos floridos onde as cerejas chovem
Lisas como a carne sorridente das jovens.
E fazei com que, neste repouso das almas, nestas  
Vossas águas divinas eu me veja igual às bestas
Que contemplarão sua humildade e benigna pobreza
Na limpidez do amor eterno.

O 10º aniversário da Gaveta, a 25 de julho, nos passou batido, ou, como se dizia antigamente, “em brancas nuvens”: nenhuma estante com 10 gavetas, nenhum bolo com 10 velinhas! É que a bruxa nessa altura andava solta: um estranho reumatismo endureceu-me a mão direita impedindo-me de escrever — mesmo agora tenho o indicador inteiramente torto, o que me leva quase  sempre à troca de letras ao bater nas teclas… Em setembro, uma enfermidade estranha, espécie de coronavírus avant la lettre, levou minha querida irmã Léa, o esteio da família. A cada perda ou ameaça, fui perdendo algo do antigo élan. Por fim, foi-me embora  toda a vontade de escrever e até mesmo de ler, atividades que faziam parte do meu DNA. Dias e dias tentando compor alguma coisa, e nada: uma obstrução total de ideias, um regresso à infância pré-escolar. Passei algum tempo em hibernação, talvez meses, como se tivesse perdido a memória ou sofresse a gradativa paralisação dos movimentos. Pensei em dar por encerrada a minha carreira literária, despedir-me dos leitores, encerrar definitivamente esta Gaveta. Mas veio um dia em que senti saudades, em que para a minha perplexidade, fazia já um ano em que a minha irmã morrera. E consegui escrever uma nota de carinho, entreabrindo uma Gaveta emperrada. Depois, contudo, novamente o silêncio, a apatia, a retração da vontade, a volta ao analfabetismo, à frase sem nexo, à garatuja…


De repente, brotando do mais fundo da lembrança, veio um grito – um pedido de socorro ou um gesto firme de ajuda? – uma voz de desespero e de esperança:


Quero escrever, mas só me sai espuma…

 

Quero dizer muitíssimo e me embrulho…

 

Ah! Vallejo! Meu deus, meu consolo, inspiração e crença.

Onde estavas? SAIBA MAIS SOBRE VALLEJO: link 01, link 02 

Deus sabe o quanto me penitencio por não ter conseguido que os nossos editores publicassem os seus livros (Tilcee Los Heraldos Negros); ofereci-me para traduzi-los a qualquer preço, por nada mesmo. Sem sucesso. Me diziam que nosso tempo não estava para poesia, como se ela não fosse necessária em qualquer época. Mas consegui pelo menos divulgar alguns poemas seus em minha antologia (O Torso e o Gato) e aqui na Gaveta (vide Cesar Vallejo). Sim, estavas ao meu alcance: era só invocar-te e ver que

Quero escrever mas só me sai espuma

mas que insistindo acabaríamos por domar o infortúnio e

fecundar a corva!

Foi o que aconteceu agora: espuma, espuma, gosma, nada, silêncio, inapetência, solidão e, de repente, o teu grito que me desperta, me obriga a resistir, não com a fluência antiga, mas comendo as ervas sorvas das palavras.Lembro-me que, um dia, varado por um sentimento inexprimível de saudade, lembrei-me de teus poemas e um turbilhão de versos invadiu-me a mente e fui escrevendo cartas a quem? a uma transfigurada Alcipe, versos que me salvaram do abismo total da angústia...

Ah! Companheiro das tristes caminhadas, dos inexplicáveis infortúnios, dos silêncios constrangedores, deste ruminar de espuma, a mão de novo se agita, terei de novo

fecundado a corva?

________________________

Para os meus perplexos leitores do emaranhado acima, reproduzo o inspirador soneto de Cesar Vallejo, seguido da canhestra tradução que consegui fazer dele. Até breve, espero!

 

Intensidad y altura
de César Vallejo

 

Quiero escribir, pero me sale espuma,
quiero decir muchísimo y me atollo;
no hay cifra hablada que no sea suma,
no hay pirámide escrita, sin cogollo.

 

Quiero escribir, pero me siento puma;
quiero laurearme, pero me encebollo.
No hay toz hablada, que no llegue a bruma,
no hay Dios ni hijo de Dios, sin desarrollo.

 

Vámonos, pues, por eso, a comer yerba,
carne de llanto, fruta de gemido,
nuestra alma melancólica en conserva.

 

Vámonos! vámonos! estoy herido;
vámonos a beber lo ya bebido,
vámonos, cuervo, a fecundar tu cuerva.

 

 

INTENSIDAD Y ALTURA

CÉSAR VALLEJO

 

Quero escrever, mas só me sai espuma,

Quero dizer muitíssimo e me entulho;

Não há cifra falada sem ser suma

Nem pirâmide escrita, sem cogulho.

 

Quero escrever, porém me sinto puma;

Quero a glória, e no entanto a mim me esbulho.

Não há engasgo que não seja bruma,

Não há deus nem seu filho, sem acúleo.

 

Vamos, por isso, comer erva sorva,

Carne de pranto, fruta de gemido,

A nossa alma em conserva sempre torva.

 

Vamos agora porque estou ferido;

Vamos beber o que já foi bebido,

E vamos, corvo, fecundar a corva.

 Faz hoje um ano que a Léa nos deixou. Léa, a irmã querida, a mais velha, esteio da família. Léa, a Leoa, que soube suportar o golpe da perda de um filho em circunstâncias trágicas. Léa que conseguia organizar a família com firmeza e doçura ao mesmo tempo. Léa, enfim, aquela para a qual os adjetivos são débeis e inexpressivos. 

Não estou certo, pois então nem se falava nisto, mas acho que ela foi vítima do coronavírus, pois teve em casa uma falta de ar que a levou ao Hospital São Lucas (vizinho de sua casa em Copacabana), o mesmo onde morreu, também tragicamente, o nosso amado irmão Ney. No hospital, vi Léa ser entubada mais de uma vez, todos querendo que ela voltasse para casa. O destino obrigou-nos a levar a Grande Irmã ao Cemitério do Caju, onde hoje repousa junto da nossa mãe, Cedinha, e dele, o nosso sempre querido irmão, Ney. 

Lembro-me dela a cada instante em que entro aqui no escritório e vejo aquela pilha de palavras cruzadas (em italiano), que deixei sem solução. Que ficaram e ficarão intactas. Léa era a rainha das enigmáticas, e conversávamos sobre os enigmas que ela “matava”, literalmente todos, até os mais intrincados, ao passo que eu ficava apenas nas “diretas”. Nunca mais tive ânimo, ou força, e muito menos prazer em compulsar as revistinhas e passo correndo pelas “cruzadas” nas páginas de jornal… 

Um ano! Incrível, pois vejo-a atuante, em casa, ao telefone, vindo almoçar comigo vez por outra, trazendo a Lia. Ou quando íamos ao “Don Camillo” para alguma comemoração de aniversário. 

Saudades, Léa, querida irmã que lá se foi em seu último voo. 

Leia mais sobre Léa: 

Éramos quatro – aqui 

As vaquinhas de Uberaba – aqui 

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