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Stig Dagerman (1923-1954), um dos mais importantes escritores suecos do após-guerra é praticamente desconhecido no Brasil. Ao que me consta, seu único livro traduzido entre nós, “A ilha dos condenados” (no original: De dömdas ö), foi publicado pela Civilização Brasileira em 1978, nunca reeditado, hoje fora das livrarias e só com alguns exemplares à venda na Estante Virtual. Já os portugueses traduziram seus principais romances: “Vestido Vermelho” (cujo título original Bränt barn significa “a criança queimada”, em que relata a tentação de um jovem pela amante do próprio pai; “A Serpente” (Ormen), uma história antimilitarista tendo o medo como tema principal, simbolizando o fantasma da guerra; “As Sete Pragas do Casamento” (estranho título dado pelos portugueses a Bröllopsbesvär, literalmente “Aflições de um casamento” e que eu traduziria por “Nojo de Núpcias”) e “Outono Alemão” (Tysk Höst), livro em que conta suas impressões da Alemanha pós-guerra, sua preocupação com o destino cultural desse país que foi submetido (e submeteu-se) à loucura nazista. Essa simpatia pelo povo alemão, levou-o a casar-se em 1943 com uma refugiada de guerra, Annemarie Götze, de apenas 18 anos, com quem teve dois filhos. Mais tarde, já famoso como o mais representativo escritor sueco de sua geração, foi atraído pelo cinema e aproximou-se da atriz Anita Björk (estrela do filme “Senhorita Júlia”, baseado na obra de Strindberg e dirigido por Alf Sjöberg), com quem vai viver em 1953. Consta que Anita foi convidada por Hitchcock para fazer um filme em Hollywood, mas lá chegando em companhia de Dagerman e do filho de seu casamento anterior (Jonas Berström), foi impugnada pelo estúdio por não ser legalmente casada com seu acompanhante (Stig). O cinema exerceu grande influência sobre estilo de Dagerman: no conto que apresentamos a seguir, ele trabalha com uma série de cenas esparsas que vão se superpondo, aparentemente sem conexão entre si, para formar no fim uma espécie de painel homogêneo.

Apesar de todo o seu sucesso escandinavo, Dagerman sentia-se deprimido e isolado, acabando por suicidar-se em 1954: trancou-se na garagem, entrou no carro, ligou o motor e deixou-se asfixiar pelo gás carbônico da descarga.

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Att döda ett Barn (Matar uma Criança), o mais célebre dos escritos de Dagerman, foi traduzido para o português por JORGE CARDOSO, autor de “Mal pela Raiz” (2004) e “Um Cavalo no Cemitério de Deus” (2006), dois livros absolutamente alucinatórios. Jorge vive há 16 anos na Suécia, na úmida cidade de Umeå, expatriado por vontade própria, depois de passar por todas as peripécias com que sonharam os jovens aventureiros de sua geração.

 

MATAR UMA CRIANÇA (Att Döda ett Barn)       –           STIG DAGERMAN

É um dia leve e o sol cai a pino sobre a planície. Logo os sinos irão tocar, pois é domingo. Entre campos de centeio, dois jovens encontram um caminho nunca dantes percorrido e contemplam no fundo do vale as vidraças brilhantes de três vilarejos. O homem faz a barba diante do espelho sobre a mesa da cozinha e a mulher cantarola enquanto corta o pão; sentada no chão, a criança tenta abotoar o corpete. É a manhã idílica de um dia nefasto, pois neste mesmo dia uma criança será morta no terceiro vilarejo por um homem feliz. Enquanto isto, a criança sentada no chão ajusta os botões de seu corpete e o homem que se barbeia diz que hoje irão sair e farão um passeio de barco e a mulher cantarolando coloca as frescas fatias de pão num prato azul.

Não há sombras na cozinha, e enquanto isto homem que irá matar a criança está em frente a uma bomba de gasolina vermelha em um posto de abastecimento no primeiro vilarejo. Ainda é um homem feliz que olha o visor da câmera e vê na lente um carrinho azul e ao lado do carro uma garota que sorri. Enquanto a moça sorri e o homem faz a foto belíssima, o atendente do posto fecha a tampa do tanque e lhes deseja bom dia. A garota entra no carro e o homem que irá matar uma criança retira a carteira do bolso e diz que eles irão até o mar e quando lá chegarem vão alugar um bote e remarão para bem longe.

Baixando o vidro da janela do carro, a moça no assento dianteiro escuta o que ele diz, fecha os olhos e ao fechá-los vê o mar e o homem ao seu lado no bote. Ele não é um homem mau, está alegre e satisfeito e, antes de entrar no carro, para um instante diante do radiador cintilante, desfrutando do reflexo, do cheiro de gasolina e das cerejas. Não há nenhuma sombra sobre o carro e o para-choque não está amassado nem manchado de sangue.

Mas, ao mesmo tempo em que o homem naquele primeiro vilarejo, outra vez bate a porta do carro à sua esquerda e dá partida, a mulher na terceira vila abre a porta do armário da cozinha e não encontra nenhum açúcar.  A criança que acabara de abotoar seu corpete e sozinha deu laços nos sapatos está de joelhos no sofá e vê o córrego que serpenteia entre amieiros e um barco velho com os remos jogados sobre a grama. O homem que irá perder sua criança está barbeado e acaba de guardar o espelho. Sobre a mesa os copos de café, pão, creme de leite e algumas moscas. Falta apenas o açúcar e a mãe diz para a criança correr até os Larssons e pedir alguns cubinhos emprestados.  E enquanto a criança abre a porta o homem grita da cozinha que é para ela se apressar, porque o bote está à espera na margem e eles irão remar para bem longe como não haviam remado antes.  E enquanto corre atravessando os quintais a criança pensa o tempo todo no riacho, no bote e nos peixes se batendo e ninguém conta para ela que tem apenas oito minutos de vida e que o bote continuará lá o dia inteiro e por muitos outros dias irá continuar.

Não é tão longe até os Larssons, é só atravessar a rua e enquanto a criança corre para atravessá-la, um pequeno carro azul percorre o outro vilarejo. É uma pequena vila com casinhas vermelhas e pessoas que acabaram de acordar diante da mesa da cozinha segurando copos de café, vendo o carro passar acelerado no outro lado da cerca levantando, enquanto passa, uma imensa nuvem de poeira. Vai muito rápido e o homem que dirige vê as macieiras e os postes com seus cabos telegráficos de relance como se fossem sombras muito escuras. A brisa do verão entra pela janela, eles saem da vila, e estão seguros no meio da estrada e estão sozinhos – ainda. É gostoso este viajar solitário por uma estrada tão ampla e com o campanário ao longe fica ainda mais bonita. O homem é feliz e forte e com o cotovelo direito sente o corpo de sua namorada. Não é um homem mau. Tem apenas pressa para chegar ao mar. Não mataria uma mosca, mas ainda assim irá matar uma criança. Enquanto aceleram de encontro à terceira vila a garota fecha os olhos e brinca que não irá abri-los enquanto não cheguem ao mar e imagina no ritmo do balanço oscilante do carro quão tranquilo o mar vai estar.

E porque a vida é construída sem nenhuma compaixão um minuto antes de um homem feliz matar uma criança ele será ainda feliz e antes de a garota gritar apavorada ela conseguirá fechar os olhos e sonhar com o mar, e o último minuto na vida de uma criança pode ser aquele em que os seus pais sentados na cozinha esperam pelo açúcar e conversam sobre os dentinhos brancos de seus filhos e sobre um passeio de domingo. Esta mesma criança fecha um portão e começa a atravessar a rua segurando na mão direita alguns cubinhos de açúcar enrolados num papel branco e este último minuto nada mais é do que um longo e tranquilo riacho com peixes grandes e um barco com remos silenciosos.

O depois é sempre tarde demais. O depois é um carro azul derrapando pela estrada e uma mulher que aos gritos tira a mão da boca e a mão está sangrando.  Depois um homem que abre a porta do carro tentando ficar de pé embora tendo um abismo de terror dentro de si.  O depois são alguns cubinhos de açúcar esparramados entre o sangue e o cascalho e uma criança deitada imóvel de bruços com o rosto pressionado contra a estrada. Depois aparecem duas pessoas pálidas, que ainda não beberam seu café correndo e passando a cerca e vêem naquela estrada o que nunca irão esquecer. Porque não é verdade que o tempo é o melhor remédio. O tempo não cura a dor de perder um filho e cicatriza muito mal a mesma dor de uma mãe que se esqueceu de comprar açúcar e mandou a criança atravessar a rua para pedir um pouco emprestado. E o tempo também não cura a angústia do homem feliz que a matou.

Porque aquele que matou uma criança não vai até o mar. Aquele que matou uma criança volta em silêncio para casa e ao seu lado uma mulher que não consegue falar e com as mãos enfaixadas. E por todas as vilas que passam eles não conseguem ver uma única pessoa feliz. Todas as sombras são ainda mais escuras e enquanto eles se distanciam o silêncio continua e o homem que matou a criança sabe que este silêncio é o seu inimigo e que ele irá precisar de todos os anos de sua vida para vencê-lo gritando que não foi sua culpa. Mas ele sabe que é uma mentira e que ao invés disso, em cada noite ao se deitar, ele irá desejar apenas um minuto de sua vida de volta para fazer deste único minuto algo diferente.

Mas a vida não tem piedade para aqueles que matam uma criança e, por isso, tudo que vier depois será sempre tarde demais.

***

A tradução deste conto foi publicada no Brasil inicialmente na revista Dicta & Contradicta, de dezembro de 2008, nr.  02, pgs. 149-51, com autorização da Norsteds Agentur, de Estocolmo.

 

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A MI HERMANO MIGUEL

In memoriam

Hermano, hoy estoy en el poyo de la casa,
donde nos haces una falta sin fondo.
Me acuerdo que jugábamos esta hora, y que mamá
nos acariciaba: “Pero hijos…”

Ahora yo me escondo,
como antes, todas estas oraciones
vespertinas, y espero que tú no des conmigo
Por la sala, el zaguán, los corredores.
Después, te ocultas tú, y yo no doy contigo.
Me acuerdo que nos hacíamos llorar,
hermano, en aquel juego.

Miguel, tú te escondiste
una noche de agosto, al alborear;
pero, en vez de ocultarte riendo, estabas triste.
Y tu gemelo corazón de esas tardes
extintas se ha aburrido de no encontrarte. Y ya
cae sombra en el alma.

Oye hermano, no tardes
en salir. ¿Bueno? Puede inquietarse mamá.

 

A MEU IRMÃO MIGUEL

In memoriam

Mano, hoje estou junto ao poço da casa (*)
onde você nos faz uma falta sem fundo!
Lembro que nesta hora nós brincávamos, e mamãe
nos vinha acariciar: “Ouçam, meninos…

Então me escondo ,
como antes, todas aquelas orações
vespertinas, à espera de que você não me encontre.
Lá na sala, no saguão, nos corredores.
Depois, é você que se esconde, e não te encontro.
Lembro-me que acabávamos chorando
Irmão, naquela brincadeira.

Miguel, você, numa noite,
De agosto se escondeu, de madrugada;
Mas, em vez de esconder-se rindo, estava triste
E seu gêmeo coração daquelas tardes
Extintas se amargurou de não o achar. Já
Cai a sombra sobre a alma.
Ouça, irmão, não demore
Em se mostrar.  Pois mamãe pode se afligir.

***

Este sentido poema foi escrito por César Vallejo em memória de seu irmão mais velho, Miguel Ambrósio, que morreu de pneumonia fulminante aos 26 anos em agosto de 1915. A minha tradução, na qual tomei excepcionalmente algumas liberdades, como se o poema fosse meu, faço-a em homenagem ao meu falecido irmão Ney Julião Barroso, que também morreu em circunstâncias deploráveis (operação malsucedida em 15.06.2014) e me deixou igualmente “o gêmeo coração amargurado”. À noite, quando me deito, olho para o teto na esperança de encontrar o seu esconderijo que sei estar a milhões de anos-luz, lá nas alturas. Mas nada vejo além do teto. Chamo por ele em silêncio. Queria tanto que aparecesse, que me falasse. Ney, você não sabe a falta que me faz, de ouvir a sua voz ao telefone comentando assuntos de política, preocupado com os destinos de nosso país, chamando minha atenção para a sua última crônica em seu blog ‘falandogrossodoherval’. Há quanto tempo não tenho mais você para comentar sobre a Lava-Jato, o impeachment da Dilma, as olimpíadas, as eleições no Rio e nos Estados Unidos, o Enem, a reforma do ensino, nem ouvir reclamações sobre as derrotas de seu time…  Vamos parar com essa brincadeira de esconder. Já somos adultos. Nossa mãe já se afligiu bastante conosco, com as nossas estrepulias de criança e as nossas incertezas de homens feitos. Agora que somos adultos, podemos francamente trocar ideias e pedir conselhos. Mas não te acho… não te encontro… porque você se escondeu dessa maneira? INB

(*) A melhor tradução de poyo seria poial, mas não resisti diante da ilação poço sem fundo=fossa..

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Uma das minhas maiores frustrações como tradutor é a de não ter me empenhado em transladar à nossa língua a nervosa e personalíssima arte poética de César Vallejo, vate peruano cuja influência dominou toda a literatura latino-americana do século XX e se propaga ainda hoje pelo nosso.  Dele traduzi apenas três poemas (Los passos lejanos, La araña e Oh las quatro paredes de la celda), que publiquei em minha antologia de poemas traduzidos, O Torso e o Gato (Record, 1991), mas minha intenção foi sempre fazer todo o Trilce, de 1924, e bem assim Los Heraldos  Negros, seu primeiro livro, de 1918.

Vallejo é importante, é mesmo o poeta de língua espanhola mais importante da América Latina, ombreando-se na força expressiva com Neruda. Foi o primeiro a subverter os padrões linguísticos da poesia em língua espanhola, a introduzir a linguagem do modernismo nas Américas, a criar um vocabulário próprio em que usa indiscriminadamente letras como o h – enfim, numerar suas qualidades seria o mesmo que traçar o retrato de corpo inteiro de um Rimbaud dos Andes. E sua poesia é profunda, toca no âmago da angústia humana, revolve feridas da alma. Seu tema principal é o homem universal, mesmo quando está falando de si mesmo. O grande escritor e poeta católico Thomas Merton considerou-o “o mais importante poeta universal depois de Dante”.

Vallejo teve uma vida miserável em sua terra natal, vivendo de pequenos biscates literários e de aulas esparsas de latim. Não chegou a se formar em Direito, quando jovem, na Universidade de Trujillo, por falta de dinheiro, só o conseguindo bem mais tarde. Tenta a vida como professor, mas acaba sendo preso num caso equívoco de atentado a um político local, passando a viver perseguido pela justiça. Nessa altura conhece o grande poeta Manuel González Prada (1848-1919), ativista político que o conduz ao socialismo. Graças a um amigo, que partilha com ele uma passagem de navio na terceira classe, parte em 1928 para a Europa e vai viver em Paris, onde conhece vultos importantes como Antonin Artaud, Jean Cocteau e Pablo Picasso, tendo este último feito um retrato seu, sobre estêncil, que se tornou icônico [vide acima].  Esses conhecimentos intelectuais, no entanto, em nada facilitam sua subsistência, e seu dia-a-dia é de penúria, morando em cômodos inóspitos com a fiel amante Georgette Philipart, que compartilha de sua miséria. Um pequeno emprego numa gráfica permite a subvida ínfima do casal. Sua inclinação política leva-o a visitar, a convite, duas ou três vezes a Rússia, sem que isto lhe traga qualquer proveito material, continuando a levar, até o fim de sua vida, em 1938, aos 46 anos, uma existência de desterrado, em cômodos sem luz nem calefação. Vallejo nunca mais voltou ao Peru.

Aqui vão mais três poemas dele: Idílio Muerto, o que leva apenas o número XIII (ambos de Trilce) e o estranho Piedra Negra Sobre una Piedra Blanca (de Gleba, 2ª parte de Nómina de Huesos [1923-1936], póstumo); porém o que eu mais gostaria (já tentei) traduzir seria o primeiro (homônimo) de Los Heraldos Negros, que começa “Hay golpes en la vida tan fuertes… Yo no sé!” em que há, aquele verso aparentemente intraduzível em português: “de algún pan que en la puerta del horno se nos quema“ . Não consegui encontrar uma saída (métrica) para o “se nos quema” (seria: que na porta do forno deixamos queimar, que deixamos queimar na porta do forno, que se queima à porta do forno, etc.), construção com verbo pronominal que também existe em português: que se nos queima, mas que soa demasiadamente acadêmico, traindo o coloquialismo de Vallejo. Os leitores mais afoitos que se empenhem…

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IDILIO MUERTO

 

Qué estará haciendo esta hora mi andina y dulce Rita
de junco y capulí;
ahora que me asfixia Bizancio, y que dormita
la sangre, como flojo cognac, dentro de mí.

Dónde estarán sus manos que en actitud contrita
planchaban en las tardes blancuras por venir;
ahora, en esta lluvia que me quita
las ganas de vivir.

Qué será de su falda de franela; de sus
afanes; de su andar;
de su sabor a cañas de mayo del lugar.

Ha de estarse a la puerta mirando algún celaje,
y al fin dirá temblando: «Qué frío hay… Jesús!»
y llorará en las tejas un pájaro salvaje.

César Vallejo, 1918

 

IDÍLIO MORTO   

Que estará fazendo agora minha andina e doce Rita
de junco e capulim,
agora que Bizâncio me sufoca e que dormita
o sangue como frouxo conhaque dentro de mim.

Onde estarão as mãos na atitude contrita
de engomar todas tardes brancuras do porvir;
agora, que esta chuva me interdita
o anseio de existir.

Que será de sua saia de flanela, de seus
afãs, de seu andar,
daquele seu sabor de canas do lugar.

Há de estar bem à porta contemplando a paisagem;
dirá por fim tremendo: “Que frio faz… Meu Deus!”
e chorará nas telhas um pássaro selvagem.

 

XIII

Pienso en tu sexo.
Simplificado el corazón, pienso en tu sexo,
ante el hijar maduro del día.
Palpo el botón de dicha, está en sazón.
y muere un sentimiento antiguo
degenerado en seso.
Pienso en tu sexo, surco más prolífico
y harmonioso que el vientre de la Sombra,
aunque la Muerte concibe y pare
de Dios mismo.

Oh Conciencia,
pienso, sí, en el bruto libre
que goza donde quiere, donde puede.

Oh, escándalo de miel de los crepúsculos.
Oh estruendo mudo.
¡Odumodneurtse!

XIII

Penso em teu sexo.
Simplificado o coração, penso em teu sexo,
ante o filhar maduro do dia.
Palpo o botão de dita, está maduro,
e morre um sentimento antigo
degenerado em siso.

Penso em teu sexo, sulco mais prolífico
e harmonioso do que o ventre da Sombra,
embora a Morte conceba e paira
do próprio Deus.

Oh, Consciência,
penso, sim, no bruto livre
que goza aonde quer, aonde pode.

Oh, escândalo de mel desses crepúsculos.
Oh, estrondo mudo.
!Odumodnortse!

 

PIEDRA NEGRA SOBRE UNA PIEDRA BLANCA

Me moriré em Paris con aguacero,
un día del cual tengo ya el recuerdo.
Me moriré en Paris – y no me corro –
talvez un jueves, como hoy, de otoño.

Jueves será, porque hoy, que proso
estos versos, los húmeros me he puesto
a la mala y, jamás como hoy, me he vuelto,
con todo mi caminho, a verme solo.

César Vallejo há muerto, le pegaban
todos sin que él les haga nada;
le daban duro con un palo y duro

tambien con una soga; son testigos
los días jueves y los huesos húmeros,
la soledad, la lluvia, los caminhos…

 

PEDRA NEGRA SOBRE UMA PEDRA BRANCA

Morrerei em Paris com aguaceiro,
num dia de que até já bem me lembro.
Morrerei em Paris – e não me movo –
numa quinta, como a de hoje, no outono.

Será quinta, porque hoje, quinta, pro-
so estes versos, os úmeros me causam
mal, e jamais como hoje me levaram,
com todo o meu caminho, a ver-me só.

Morreu Cesar Vallejo, que espancavam
todos sem que ele lhes fizesse nada;
lhe davam duro com porrete e rijo

também com uma corda,  testemunhas
são os dias de quinta  e os ossos úmeros,
a solidão, a chuva, e os caminhos.

 

Nota: este poema, como a maioria dos versos espanhóis, é feito com rimas soantes, ou seja, só as vogais finais coincidem; assim, aguacErO/recuErdO // cOrrO/otOñO. O problema surgiu na 2ª quadra, com prOsO e sOlO, pois em português “só” tem apenas uma sílaba. Para obter a rima, tive que partir a palavra prO-so (do verbo prosar, escrever), no que se denomina rima quebrada.

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 Durante anos o Lucas Carton figurou no Guide Michel como um dos restaurantes mais estrelados de Paris. Reputado pelos gastrônomos como “a melhor carne de toda a culinária francesa”, era quase impossível conseguir-se ali uma reserva se não com meses de antecedência. Situado na Place de la Madeleine 9, bem defronte ao esplendoroso frontal dessa igreja que mais parece um templo grego ou um tribunal de justiça, o restaurante possui à entrada um pequeno pátio para estacionamento privativo de seus clientes, o que, considerando o local, é um verdadeiro privilégio para estes e um motivo de orgulho para o restaurante.

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Foi em princípios de 1982. Numa de nossas idas a Paris, resolvemos arriscar a sorte e chegar de improviso ao famoso Lucas Carton sem reservar. Talvez porque fosse ainda cedo, não tive dificuldade em entrar no estacionamento privativo, e saí do carro para falar diretamente com o maître. O garçon, que me atendeu logo à entrada, foi taxativo: Domage, Monsieur, nous sommes complet! E como eu argumentasse que o salão à minha frente estava completamente vazio, ele, condoendo-se de minha ignorância, informou que ainda era cedo para a chegada dos clientes, mas que todas as mesas estavam reservadas. Além do mais, ali só serviam uma refeição por noite; logo, pas de chance, adeus, não havia a menor possibilidade. Enquanto parlamentávamos, o maître se aproximou para saber de que se tratava. Expliquei que éramos de fora, que eu conhecia alguns restaurantes conceituados de Paris, mas que não queria regressar a casa sem ter pelo menos tentado jantar no famoso Lucas Carton. Não haveria uma possibilidade, nem que fosse numa mesa à parte, até mesmo fora do salão principal?! O maître gostou da minha insistência. Eu falava sem parar no nome do restaurante, indicava minha esposa que ficara lá em frente esperando no carro… Ele entrou de novo no salão enquanto aguardávamos à porta. “Esperem uma meia hora”, disse ao voltar. “Um de nossos clientes habituais, M. Dali, que costuma jantar bem cedo, está quase terminando. Vou lhes fazer a exceção de um segundo serviço”. Voltei para o carro com um sorriso aberto e disse à minha esposa que a parada estava ganha.

Algum tempo depois, vi passar em direção à entrada do restaurante, vindo de marcha a ré, um grande carro preto que estacionou em frente ao nosso. Logo saiu do volante um senhor que abriu a traseira do carro, onde havia uma espécie de cadeira especial. Momentos depois, amparado pelo maître e pelo garçom já nosso conhecido, vimos sair do restaurante um velho pálido, visivelmente enfermo, já que não conseguia andar por si mesmo. Ao chegar junto ao furgão, o trio deu uma meia-volta, ficando de frente para nós. Foi quando percebemos nitidamente que o enfermo era o famoso e genial Salvador Dalí, com seus bigodes retorcidos, mas sem aquela expressão agressiva que se vê nas fotografias. Com cuidado ou carinho, puseram-no sentado na cadeira especial  e começaram a fechar bem devagar a porta.  Atrás, vinha uma figura feminina, espevitada e bem-falante, caminhando normalmente, na qual reconhecemos  a igualmente famosa Gala, sua mulher e inspiradora. Ela despediu-se agradecida do maître, contornou o veículo e foi sentar-se ao lado do chofer, que deu partida ao carro.

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De fato era mesmo Elena Ivanovna Diakonova, nascida russa em 1894, e mais conhecida pelo apelido de Gala. Musa de poetas, mulher fatal que inspirou várias paixões, a começar com Paul Éluard (1895-1952), o grande poeta surrealista francês, que conheceu em 1912 em Clavadel, na Suíça, num sanatório para tratamento de tuberculose. Ambos tinham 17 anos e se apaixonaram, vindo a casar-se mais tarde, em Paris, em 1917, e tiveram uma filha, Cécile, que ela ignorou e maltratou, revelando a megera que se escondia atrás da musa inspiradora. Em Clavadel, naquele mesmo ano de 1912, Gala conheceu também o poeta alemão (depois naturalizado francês) Max Ernst (1891-1976), ligado ao surrealismo, com quem teve igualmente um caso, e com quem conviveu mais tarde (1924-1927) em Paris, juntamente com Éluard, em regime de casal-a-três. Posteriormente, Éluard, cujo nome era Eugène Emile Paul Grindel, de origem judaica, passou a chamar-se Paul Éluard, “pour motifs três litteraires” (conforme informou em carta a Manuel Bandeira), embora haja razão para se pensar em outra espécie de motivo. Por falar em Bandeira, o nosso Manuel também estava nessa de Clavadel na mesma época e certamente se viu atraído pelos encantos da jovem Elena. Há uma fotografia em que os três aparecem sentados na soleira do hotel, Bandeira se inclinando em direção a Gala, com um ar de quem está lhe fazendo um galanteio (*). Em 1928, numa viagem à Espanha, Gala e Éluard conhecem o emergente pintor surrealista Salvador Dalí, dez anos mais novo do que ela. Gala e Dalí passam a viver juntos em 1929 e se casam no civil em 1934. A cerimônia religiosa só foi possível em 1958, por Gala ser então divorciada. Éluard viria a se tornar um dos poetas mais amados da França, quando seu poema Liberté J´écris ton nom –, composto em 1942, foi espalhado em milhares de cópias jogadas de avião sobre o povo francês que resistia à invasão nazista.

Quem diria, a Gala, mulher fatal, inspiradora de artistas, que caminhava então sobranceira atrás do que parecia o cortejo fúnebre de um decrépito Dalí, quem diria que ela, com todo o seu ar de pitonisa, iria morrer pouco depois, exatamente a 10 de março daquele mesmo ano. O moribundo Dalí sobreviveu, embora enfermo, só vindo a falecer sete anos mais tarde, a 23 de janeiro e 1989.

***

Ah, quanto ao jantar, sentamo-nos à mesa em que esteve o casal, pedimos o recomendado boeuf à bourguignone, digno das estrelas que o consagraram, mas foi impossível manter um ar de vitória diante da lembrança do pintor.

(*) Não conseguimos reproduzir, por estar muito apagada, essa foto de Bandeira, Gala e Eluard, mas os interessados poderão encontrá-la na p. 55 da edição Manuel Bandeira – Poesia Completa e Prosa – em um volume, edição da Biblioteca Luso-Brasileira – Cia. José Aguilar Editora – 1974. A foto não consta da nova edição da Editora Nova Aguilar, de 2009. Inb.

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Alguns amigos e leitores me perguntam onde poderiam ler os versos antigos que às vezes publico aqui na categoria Versos Tristes e Sentimentais. Nela já saíram: Felicidade, A dança das Horas, Poema testamento, Homenagem ao Dia das Mães e Saudade. Todos eles constam,  de fato, do  livrinho Caixinha de Música, que editei em 1998 pela Atheneu Editora, do Rio de Janeiro, com o intuito exclusivo de reverter seus direitos autorais ao Lar de Frei Luiz, conhecida  entidade filantrópica e assistencial. Ao que parece a edição, com fins beneficentes, foi toda esgotada, já que a Editora me informa não haver exemplares em estoque. Vez por outra aparece algum na Estante Virtual, ora humildemente barato (R$5,00), ora escandalosamente caro (RS$45,00). No momento em que escrevo, não havia nenhum à venda. Para atender a esses pedidos, vou publicar, de quando em quando, alguns desses versos que compus quando ainda meninote (12 aos 16 anos), sempre com a ressalva de que se tratam de poemas infantis, escritos às vezes precocemente por um menino sonhador.

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REALEJO TRISTE

 

Realejo triste do meu bairro pobre,

Por que perdeste tão depressa o encantamento?

A ouvir-te agora não há tempo que me sobre

E nem eu gosto mais de ouvir o teu lamento.

Não me comove mais essa canção fanhosa;

Nem mesmo sei como há quem a suporte.

Não creio mais nos papeizinhos cor-de-rosa

Que predizem futuro e que adivinham sorte.

Pareces-me tão sujo e velho! Tenho

Mesmo aversão pelo teu som roufenho.

Como é banal e vão o teu lamento!

Perdeste tão depressa o encantamento!…

(…E o Realejo, rodando a manivela,

Tocava sempre a mesma tarantela:

          “Sou inda o mesmo de outrora

           P’ra quem conserva a inocência.

          Há muita gente que chora

          Ouvindo a minha cadência,

          A mesma valsa sentida

          Que o menino tanto ouviu.

          Que culpa tenho se a vida,

          Se a vida te poluiu?!…”

 

***

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SOLDADINHOS DE CHUMBO

 

Meus soldados, a seus postos!

E, dispostos

Em três ou quatro fileiras,

Bem ligeiras,

Punha os homens da comanda,

Logo a banda

E, após o tambor e o bumbo,

Os meus soldados de chumbo.

Traçava os planos da guerra,

Pela terra,

Pelo mar e em todo lado.

 O soldado

Nada tinha que pensar.

Avançar!

Gritava – e o meu batalhão

Jazia imóvel no chão.

Bem tristonho o contemplava

E chorava.

Antes, pensei que ao meu brado,

O soldado

Marcharia, firme e forte,

Para a morte.

E eu sonhava com a façanha

Dos soldados na campanha.

Lá se foi… O tempo foge…

E, até hoje,

Ao meu sonho imenso, brado:

Vai, soldado,

À luz da vida sonhada!

Mas, qual nada!

Como aos soldados de então,

Brado aos meus sonhos em vão!

(1945)

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Este Filho Pródigo já foi citado aqui na Gaveta algumas vezes: as minhas visitas quase diárias à Biblioteca Municipal do Rio de Janeiro, nos anos 50, onde li a obra completa de André Gide numa bela edição suíça, copiando num caderninho esse “tratado” que me empolgou desde a primeira leitura; a determinação de traduzi-lo um dia; a consulta que fiz a Otto Maria Carpeaux sobre o significado de “au coin du tableau”; a laboriosa tradução completa dessa que foi a minha primeira tentativa de encarar um livro inteiro; e finalmente sua edição em volume, 30 anos depois, pela Nova Fronteira, em que se reuniam os cinco tratados originais: O Tratado de Narciso (Teoria do Símbolo), A Tentativa Amorosa ou O Tratado do Vão Desejo, Filoctetes ou O Tratado das Três Morais, Betsabé e, por fim,  A Volta do Filho Pródigo. Pois agora chegou a vez de apresentá-lo na íntegra aos leitores deste blog.

O texto original estava cheio de insinuações e recados: na época em que foi redigido (1907), os amigos católicos de Gide (com Paul Claudel à frente) se esforçavam por convertê-lo ao catolicismo, ele que era a bem dizer agnóstico, embora tivesse tido uma formação protestante. Preparavam uma verdadeira festa intelectual para acolhê-lo, contudo Gide recuou no último instante e escreveu este A Volta do Filho Pródigo em que simboliza no Pai o próprio Deus cristão, na Mãe compreensiva a Igreja Católica e no irmão mais velho a doutrina cristã. (Para ele, São Paulo é o ordenador da fé, o criador do pecado, o instituidor das proibições, antagônicas ao pensamento e às atitudes livres que sempre assumira.) O relato segue em princípio a Bíblia (Lucas, XV, 11-32), que descreve a chegada do pródigo, sua acolhida pelo pai que lhe prepara uma festa de boas-vindas, e a discordância do irmão mais velho que nunca saiu de casa nem dilapidou a herança paterna; Gide lhe acrescenta dois novos diálogos: com a mãe compreensiva e com o caçula rebelde, concentrando neste último toda a sua filosofia da ruptura com os laços convencionais, sempre exibida em todas as suas obras.

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O FILHO PRÓDIGO

Quando  após longa  ausência,  fatigado  de sua fantasia e como desprendido  de si mesmo,  o filho pródigo, do  fundo dessa  privação  que procurava, lembra-se do rosto de seu pai, do quarto bastante amplo onde a mãe sobre o seu leito se inclinava, do  jardim regado pela água corrente, mas cercado e de onde sempre desejou fugir, do irmão previdente a quem  jamais  amou, mas que guarda ainda à sua espera a parte de seus bens que ele, pródigo, não conseguiu dilapidar — o jovem  reconhece não ter encontrado a felicidade, nem mesmo conseguido prolongar por muito tempo aquela embriaguez que, à falta de felicidade, procurou. — Ah! pensa con­sigo, se meu pai, que a princípio, irritado contra mim, me dera como morto, pudesse talvez, apesar  de  meu pecado,  alegrar-se  de  me  ver;  ah!  se  acaso  voltando humildemente,  a  fronte  baixa e coberta de cinzas, e inclinando-me diante dele, lhe disser: “Meu pai, pequei contra  o céu e contra  vós” — que farei  se, erguendo­ me  com  a  mão,  me  responder:  “Entra  em  casa,  meu filho”? . . . E o filho contrito já  se põe a caminho.

Já cai a tarde quando, do alto da colina, vislumbra finalmente as chaminés fumegantes do solar; mas ele espera que as sombras da noite possam velar um pouco mais sua miséria. Ouve ao longe a voz do pai;  seus joe­lhos se curvam; cai por terra e cobre o  rosto  com as mãos, pois tem vergonha de sua própria vergonha, embora saiba que é o filho legítimo. Sente fome; não traz senão, numa dobra do manto esfarrapado, algumas bolotas de carvalho, com que se alimenta, igual aos porcos que outrora guardava. Percebe os preparativos do jantar. Distingue a mãe,  que aparece na varanda…e, não aguentando mais, desce a correr a colina e avança pelo pátio, onde seu próprio cão, que não o reconhece, ladra contra ele. Quer falar aos empregados, mas estes, desconfiados, se afastam e vão prevenir  o  dono; ei-lo que chega.

Sem dúvida esperava o filho pródigo, pois o reconhece em seguida. Abre-lhe os braços; o jovem diante dele se ajoelha e, tapando o rosto com um dos braços, exclama,  erguendo  a  mão  direita  ao perdão:

— Meu pai! meu pai! pequei gravemente contra o céu e contra vós; já não sou digno de ser chamado de filho; mas deixai pelo menos que eu, como um de vossos servidores, possa viver num canto qualquer de nossa casa . . .

O  pai,  erguendo-o, abraça-o:

— Meu  filho!  bendito  o  dia  em  que  voltaste  para mim!. — e chora na alegria  que lhe transborda  do cora­ção; ergue a cabeça que havia  inclinado  sobre  a fronte do filho para  beijá-lo  e volta-se  para  os servos:

— Trazei  a mais bela  das vestes; calçai de sandálias os  seus  pés  e  ponde-lhe   um  anel precioso  no  dedo. Buscai  em  nossos  estábulos  a  mais  gorda  das  reses  e matai-a; preparai  um  festim de júbilo,  pois  o filho que eu julgava  morto reviveu.

E vendo que a notícia já se espalha, corre; não quer que  seja  outro  a dizer:

— Mãe, o filho que chorávamos nos foi restituído.

A alegria de todos, que se ergue como um cântico torna o primogênito pesaroso. Se se sentou à mesa comum, foi porque o pai, ao convidá-lo, insistiu com ele e obrigou-o a isso. Entre todos os convivas, pois até o mais humilde  servidor foi convidado,  ele é o  único a mostrar o cenho franzido: Por que mais honrarias ao pecador que se arrepende do que a ele, que jamais, pecou? Prefere a boa ordem ao amor. Se consentiu em comparecer ao festim foi porque,  dando  crédito  ao irmão, pode lhe dispensar a alegria de uma noite,· e tam­bém  porque o pai e a mãe lhe prometeram morigerar o pródigo na manhã seguinte, além de ele próprio se preparar para repreendê-lo gravemente.

As tochas fumegam para o  céu.  O festim terminou. Os servidores levaram as travessas. Agora, na noite em que nem um sopro de brisa se  eleva,  a  casa fatigada, alma após alma, vai-se recolher. Contudo, no quarto ao lado do filho pródigo,  sei de um menino,  seu irmão  ca­çula, que a noite inteira até de madrugada em vão procurará  dormir.

 

A REPRIMENDA  DO PAI

Meu Deus, como um filho à vossa frente eu hoje me prosterno, o rosto de lágrimas coberto. Se rememoro e se transcrevo aqui vossa opressiva parábola, é por saber quem era o vosso filho pródigo; é que nele me reconheço; é que ouço em mim às vezes e repito em segredo aquelas palavras que, do fundo de sua grande miséria, vós o fizestes gritar:

— Quantos mercenários em casa de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a perecer de fome!

Imagino o amplexo do Pai; no calor de um  tal afeto o coração me funde. Imagino até mesmo a penúria precedente;  ah!  imagino  tudo  o  que  quiserem. Eu  creio em tudo  isso; sou aquele  cujo  coração  palpita  quando, do alto da colina, revê os telhados  azuis  da  casa que deixou. Que aguardo então para me lançar rumo à morada; para entrar? — Esperam-me. Já posso ver o novilho gordo que preparam…Parai! Não prepareis tão depressa o festim! — Filho pródigo, penso em ti; dize­-me primeiro o  que te falou o Pai, no dia seguinte ao festim de teu regresso. Ah! Pai, embora o primogênito vos sussurre, possa eu ouvir às vezes vossa voz através de suas próprias palavras!      .

— Meu  filho, por  que me  abandonaste?

— Ter-vos-ei  de  fato  abandonado?  Pai!  não  estais em  toda  parte?  Jamais  vos  deixei  de amar.

— Não porfiemos. Eu tinha uma casa que te abrigava.­ Ela foi erguida para ti. Para que tua alma nela pudesse encontrar abrigo, um luxo digno dela, e confor­to, e um emprego, muitas gerações trabalharam. Tu, o her­deiro, o filho, por que te havias de evadir da Casa?

— Porque Ela me encerrava. A Casa não sois vós, meu Pai.

— Fui eu quem a construiu, e para ti.

— Ah! Vós não haveis dito isto, mas meu irmão. Vós, sim, haveis construído toda a terra, a Casa e tudo o que não é a Casa. A Casa, outros que não vós a construíram; em vosso nome, eu sei, mas outros que não vós.

— O homem tem necessidade de um teto sob o qual repousar a cabeça. Orgulhoso! Pensavas poder dormir ao relento?

— Será preciso tanto orgulho para isso? outros mais pobres do que eu o conseguiram.

— Mas isso são os pobres . Pobre tu não és. Nin­guém pode abdicar de sua riqueza. Eu te havia feito o mais rico de todos.

— Meu pai, bem sabeis que ao partir levei comigo o quanto pude de riquezas. Que me importam os bens que não se podem carregar?

— Toda essa fortuna que levaste foi dilapidada lou­camente.

— Mudei vosso ouro em prazer, vossos preceitos em fantasias, minha castidade em poesia, e minha aus­teridade em desejos.

— Seria para isso que teus pais previdentes porfiaram em destilar em ti tantas  virtudes?

— Para que eu ardesse de uma chama  mais  bela, um novo fervor me iluminava.

— Pensa nessa pura chama que Moisés viu sobre a sarça ardente: ela brilhava mas sem se consumir.

— Eu conheci o amor que nos consome.

— O amor que te quero ensinar reconforta. Ao cabo de algum tempo, que te restou, ó filho pródigo?

— A lembrança desses prazeres.

— E  a  privação  que vem depois.

— Nessa  privação,  eu me  sentia  perto  de  vós, meu Pai.

— Era  preciso  a  miséria  para  te  forçar  a  voltares a mim?

— Não sei; não sei. Foi na aridez do deserto que mais amei a minha sede.

— Tua miséria te fez sentir melhor o preço das ri­quezas.

— Não, isso não! Não me compreendeis, meu pai? Meu coração, vazio de tudo, encheu-se de amor. Ao preço de todos os meus bens, adquiri o fervor.

— Estavas então feliz longe de mim?

— Eu  não  me  sentia  longe  de vós.

— Então, que te fez voltar? Fala.

— Não  sei.  A  indolência, talvez.

— A indolência, meu filho! Então, não foi o amor?

— Pai,  já  vos  disse,  jamais  vos  amei  tanto quanto no deserto. Mas estava cansado, cada manhã, de prover minha subsistência. Em casa, pelo menos,  se come bem.

— Sim, os servidores provêm todo o necessário.

—  Com que então, o que te trouxe de volta foi a fome.

— É possível também que a enfermidade, a covar­dia…afinal,  essa  alimentação  fortuita me  enfraquecia: pois me alimentava de frutos silvestres, de gafa­nhotos e de mel. Cada vez suportava menos o descon­forto que, a princípio, me atiçava o fervor. De noite, quando tinha frio, pensava em minha  cama arrumada em casa de meu pai; quando estava em jejum, lembrava que, em casa de meu pai, a abundância dos pratos sempre excedia a minha fome. Cedi; já não me sentia com coragem bastante para lutar mais tempo, com a força suficiente, e no entanto…

— Então gostaste do gordo vitelo de ontem?

O filho  pródigo  arroja-se  soluçando  de  rosto contra a  terra:

— Meu pai! meu pai! O gosto selvagem das bolotas de carvalho perdura ainda assim em minha boca. Nada conseguirá apagar-lhes o sabor.

— Pobre filho! — retoma o pai, que o ergue pelo braço. —Talvez te tenha falado com dureza. Foi teu irmão que o quis; é ele quem dita a lei aqui. Foi ele quem me intimou a dizer-te: “Fora da Casa não há salvação para ti.” Mas escuta: Fui eu que te formei; sei o que há em ti. Sei o que te impulsionava para os caminhos; eu te esperava ao fim. Se me chamasses… eu estaria lá.

— Meu pai! teria podido então encontrar-vos sem voltar? . . .

— Se te sentiste fraco, fizeste bem em vir. Agora, vai; volta para o quarto que mandei preparar para ti. Chega por hoje; repousa; amanhã poderás falar com teu irmão.

A REPRIMENDA  DO IRMÃO MAIS VELHO

O filho pródigo trata a princípio de encará-lo com orgulho.

— Meu irmão mais  velho  — começa  por  dizer — , já  nem  nos parecemos. Não  nos  parecemos  mais.

O irmão mais velho:

— A culpa é  tua.

— Minha, por quê?

— Porque eu permaneci na ordem; tudo o que nos distingue é fruto ou semente do orgulho.

— Só posso ter de diferente os meus defeitos?

— Não tomes por qualidade  senão o que  te atém à ordem, e submete tudo o mais.

— Essa mutilação é que eu temia. Tudo isso que queres suprimir vem igualmente do Pai.

— Espera lá, não disse suprimir, mas submeter.

— Eu te compreendo bem. Foi exatamente assim que acabei subjugando as minhas virtudes.

— E é por isso que agora volto a encontrá-las em ti. Mas é preciso que as amplies. Compreende-me bem: não se trata de diminuição,  mas  de  uma  exaltação de teu ser o que proponho, na qual os elementos mais diversos e insubordinados de tua carne e de teu espírito devam sinfonicamente se integrar, na qual o pior de ti deva alimentar o melhor, e em que o melhor deva submeter-se a . . .

— Era uma exaltação também que eu procurava, que eu encontrei lá no deserto — e talvez não muito diversa da que agora me propões.

— Na  verdade,  o que pretendo  é impô-la.

— Nosso pai não me falou com tal dureza.

— Bem sei o que te disse o Pai. É . Ele já não se explica muito claramente; de modo que é possível fazê-lo dizer o que se desejar. Mas eu conheço bem seu pensamento. Dentre os servidores sou seu único intér­prete e quem  quiser  compreender  o Pai  deve  escutar a mim.

— Eu o ouvia tão bem sem tua ajuda.

— É o que pensas; compreendias mal. Não há várias maneiras de se compreender o Pai; não há várias ma­neiras de ouvi-lo. Não há várias formas de  amá-lo;  a fim de estarmos unidos em seu amor.

— Em sua Casa.

— Este amor conduz a ela; aliás bem viste isto pois estás de retorno. Dize-me, agora: que te levou a partir?

— Sentia demais que a Casa não abarcava o uni­verso inteiro . Eu próprio não me continha no ser que queríeis que eu fosse. Apesar de mim mesmo, imaginava outras culturas, outras terras, e caminhos a per­correr para chegar a elas — caminhos não traçados; imaginava em mim o novo ser que sentia lançar-se em direção  a  eles. Por  isso me  evadi.

— Pensa no que teria acontecido se eu, como tu, abandonasse a Casa do Pai. Os servidores e os bandidos iriam pilhar todos os nossos bens.

— Pouco importava então, pois vislumbrava outros bens . . . .

— Quanto exagerava o teu orgulho. Irmão, a indisciplina passou. Se ainda não sabes, logo conhecerás o caos de que o homem saiu.  Ou  antes:  mal  saiu; com sua carga natural, ele volta a tombar nele se o Espírito não o mantiver erguido. Não aprendas  às tuas  custas: os elementos bem ordenados que te compõem esperam apenas uma aquiescência, uma fraqueza qualquer de tua parte para retornarem à anarquia… Mas o que não saberás nunca será o tempo que o homem levou para chegar ao Homem. Agora que o modelo está concluído, mantenhamo-nos fiéis a ele. “Guarda firmemente o que possuis”, diz o Espírito ao Anjo  da  Igreja,  e  acrescen­ta: “a fim de que ninguém usurpe a tua coroa .” O que possuis é a tua coroa, e essa realeza sobre os demais e sobre ti mesmo . Tua coroa, o usurpador a espreita; ele está em toda parte: ronda ao teu redor, em ti. Segura firme, meu  irmão!  Segura firme.

— Há muito tempo que a larguei de mão, já não posso agarrar-me aos bens.

— Podes, sim; eu te ajudarei. Cuidei de teus bens durante a tua ausência.

— E, além do mais, essa palavra do Espírito, eu a conheço; não a citaste por inteiro…

— Na verdade, ela continua assim: “O que vencer, farei dele uma coluna no templo de meu Deus, e  dali não sairá.”

— “E dali não sairá.” É isso precisamente que me assusta.

— Mas se é para a tua felicidade.

— Oh! compreendo bem. Mas nesse templo eu já estava…

— Fizeste  mal  em  sair,  já   que  quiseste  regressar.

— Bem sei, bem sei. Eis-me de volta, admito.

— Que bens poderás buscar lá fora que não  haja aqui em abundância? ou melhor: somente aqui encon trarás teus bens .

— Já sei que guardaste minhas posses.

— A parte de teus bens que não conseguiste dilapidar, ou seja, a parte que nos é comum:  os  bens  de raiz.

— Não possuo então nada de exclusivamente meu?

— Possuis; aquela parte especial de bens que o Pai consinta ainda em conceder-te.

— Isto  é  tudo  o  que  eu  quero;  aceito  não  querer mais  do que  isso.

— Orgulhoso! -Não serás consultado a propósito. Essa parte entre nós é muito incerta: aconselho-te antes a que renuncies a ela.    Esta  parte  de  bens  pessoais  já te  levou  à perdição;  seriam  outros  bens  que  dilapida rias em seguida.

— Os outros, eu  não  podia levar.

— Por isso irás encontrá-los intatos. Mas chega por hoje. Entra no repouso da Casa.

— Vem a propósito, pois me sinto fatigado.

— Bendita seja a tua fadiga, então! Agora, dorme. Amanhã  a mãe  te falará.

A MÃE

Pródigo filho, cujo espírito recalcitra ainda com os argumentos do irmão, deixa agora teu coração falar. Como te sentes bem, reclinado aos pés de tua mãe sentada, com o rosto apoiado nos joelhos dela, a sen­tir-lhe  a  mão  que  te  acaricia  a nuca rebelde!

— Por que ficaste tanto tempo longe  de mim?

E como respondes apenas com tuas lágrimas:

— Para  que chorar  agora, meu  filho?  Foste-me  de­volvido. À  tua espera verti todas  as minhas  lágrimas.

— Sempre estivestes à minha espera ?

— Jamais deixei de te esperar. Antes de dormir, pensava, a cada noite: se ele voltar ainda hoje, saberá como  abrir a porta ? e  levava  muito  tempo  a dormir. Cada manhã, antes mesmo de levantar-me, pensava: Será hoje que ele voltará? Depois rezava. Rezei tanto, que tinhas  certamente  de  vir.

— Vossas  preces  forçaram  meu retorno.

— Não te rias de mim, meu filho.

— Ó mãe! eu volto com humildade. Vede como ponho minha fronte abaixo de vosso coração! Não há nem  um só  de meus pensamentos  de  ontem  que  não se tenha  hoje tornado vão.  Só agora compreendo, perto de  vós,  por  que  abandonei  a  casa.

— Não partirás  mais?

— Não posso mais partir.

— Que então  te  atraía  lá  fora?

— Não quero mais pensar nisto: Nada . . . Eu mesmo.

— Achavas que podias ser feliz longe de nós?

— Não era a felicidade o que eu buscava .

— Que buscavas então? Buscava . . .  quem  eu  era.

— Oh! filho de teus pais  e  irmão  de  teus  irmãos.

— Eu  não me parecia  com meus  irmãos.  Não falemos mai disto: eis-me aqui de volta.

— Sim, falemos ainda: Achas teus irmãos assim tão diferentes de ti?

— Meu único anseio daqui por  diante  é parecer-me a vós todos.

— Dizes isto com uma espécie de resignação.

— Nada é mais fatigante que perceber nossa dessemelhança . Esta viagem ao fim de contas me cansou.

— É verdade que voltaste envelhecido.

— Sofri muito.

— Pobre filho! Sem dúvida não tinha cama feita todas as noites, nem tua comida posta à mesa?

— Comia o que encontrava pelo caminho e às vezes não era mais que frutos verdes ou podres com que alimentava a minha fome.

— Mas não sofreste, pelo menos, nada além da fome!?

— O sol do  meio-dia,  o  vento  frio  do  fundo  da noite,  a  areia  vacilante  do  deserto,  as  sarças  em  que meus  pés  se  ensanguentavam,  nada  disso  me  deteve, mas — não disse a meu  irmão — eu tive de servir…

— Por que não lhe contaste?

— A maus senhores que me maltrataram o corpo, exasperaram meu orgulho e me deram apenas de comer. Foi então que pensei: Ah! servir por  servir! . . . Revi em sonhos a casa; resolvi voltar.

O filho pródigo baixa de novo a fronte, que sua mãe ternamente acaricia.

— Que irás fazer agora?

— Já vos disse: farei por me parecer com meu irmão mais velho; administrarei meus bens; como ele, toma­rei esposa…

— Sem  dúvida  pensas  em  alguém,  quando   dizes isso.

— Oh! não importa qual seja a preferida, desde que vós a escolhais. Fazei como fizestes com meu  irmão.

— Gostaria de escolhê-la de acordo com teu co­ração.

— Que importa! Meu coração já escolheu. Abdico de um .orgulho que já me levou para longe de vós. Orientai a minha escolha. Submeto-me a ela, afirmo­-vos. Da mesma forma submeterei meus filhos; e minha tentativa assim não me parecerá tão vã.

— Ouve; há um menino aqui do qual já te podias ocupar.

— Que quereis dizer ?  De quem falais?

— De teu irmão caçula, que tinha  apenas dez anos, quando tu partiste, e que mal reconheceste ao voltar, mas que no entanto…

— Concluí, mãe; de que vos inquietais agora?

— E em quem no entanto tu te podias reconhecer, pois ele se parece em tudo com o que eras ao partir …

— Parece-se comigo?

— Com o que eras, já disse; ai, não  ainda com este em que agora  te tornaste.

— E em que ele se tornará em seguida.

— Em que é força evitar que se torne. Fala-lhe; ele sem dúvida te ouvirá, a ti, o pródigo. Dize-lhe do dis­sabor que encontraste no caminho; poupa-lhe…

— Mas por que vos alarmais assim por meu irmão? Talvez não passe de mera semelhança…

— Não a semelhança entre vós dois é mais profunda. Hoje inquieto-me com ele por não me ter a princípio inquietado o bastante por ti. Ele lê muito, e nem sempre prefere os bons  livros.

— Então é isto apenas?

— Está sempre trepado nas árvores mais altas do pomar, de onde se pode ver, como sabes, o campo aber­to, para além dos muros da casa.

— Eu me lembro bem. E isto é tudo?

— É mais fácil encontrá-lo rondando pelas terras do que ao nosso lado.

— E que faz por aí?

— Nada de mau. Acontece que em vez de buscar a companhia dos meeiros, ele prefere estar com os traba­lhadores mais broncos, principalmente com os vindos de outras regiões. Há um, em particular, que lhe conta casos.

— Ah! o tratador de porcos.

— Este. Também o conhecias?… Teu irmão segue-o até o chiqueiro todo dia, só pelo prazer  de ouvi­-lo; volta a casa à hora do jantar, sem apetite, com as roupas emporcalhadas. As repreensões de nada adian­taram; teima em ir apesar das ameaças. Às vezes, de madrugada, antes que algum de  nós  tenha  acordado, ele corre a acompanhar aos portões  esse  homem  que leva os porcos a pastar.

— Ele sabe que não deve ir além dos portões.

— Também tu o sabias! Um dia escapará , estou segura disto. Um dia, há de partir…

— Não, mãe; irei falar com ele. Não vos preo­cupeis.

— Sei que, vindo de ti, ele ouvirá bastante. Viste como te observava na primeira noite? Que prestígio havia para ele em teus farrapos! e em seguida, no man­to de púrpura com que o pai te recobriu. Temo que em seu espírito confunda uma coisa com a outra, e esteja mais atraído pelos farrapos do que mesmo pelo manto. Essa intuição, porém, agora me parece tola; pois, enfim, se tu, meu filho, pudesses prever tantas misérias, não te terias evadido, não é mesmo?

— Nem sei como pude deixar-vos, minha mãe.

— Pois  bem!  dize-lhe  tudo isto.

— Amanhã certamente eu lhe  direi. Dai-me  agora um beijo na fronte como o fazíeis quando eu  era  criança  e  vínheis  ver-me  dormir.  Estou  com sono.

— Vai, dorme bem, meu filho. Vou para o meu quarto rezar por todos vós.

 

DIALOGO COM O IRMÃO MAIS NOVO

Ao lado de seu quarto há outro, também amplo e de paredes nuas. O pródigo, uma candeia à mão, por ele entra até o leito onde repousa o irmão mais novo, rosto voltado em direção à parede. Começa a falar em voz baixa para, se é que ele dorme, não lhe perturbar o sono.

— Meu irmão, quero falar-lhe.

— Pois fale; quem o impede?

— Pensei que você estivesse dormindo.

— Não é preciso dormir para sonhar.

— Ah! estava sonhando; com quê?

— Não importa! Se eu próprio já não compreendo meus sonhos, não há de ser você agora quem me vai explicá-los.

— Serão tão sutis assim? Mas, me contando, tal­vez pudesse tentar.

— Você, por acaso, podia escolher seus sonhos? Olha  que os meus  são como  querem  ser, mais  livres do que eu . . . Que foi que veio fazer aqui? Por que per­turbou meu sono?

— Você não estava dormindo, e vim para falar-lhe com carinho.

— Que me  tem  a dizer?

— Nada, se o toma nesse tom.

— Então, adeus.

O pródigo sai em direção à porta,  mas  apóia  no chão a candeia que alumia debilmente o quarto, e, voltando, senta-se à beira da cama e afaga  longamente,  no escuro, a fronte do irmão,  que está  voltada  contra  ele.

— Você me responde com uma dureza com que eu jamais respondi a seu irmão. No entanto, eu também protestava contra ele.

O irmão rebelde ergueu-se de repente.

— Diga:  foi o irmão  quem  o mandou?

— Não, menino; não foi ele, foi nossa mãe.

— Ah! você não teria vindo por si mesmo.

— No  entanto,  eu  venho  como amigo.

Semi-erguido no leito, o menino encara fixamente o pródigo.

— Como um  dos meus  poderia  ser  meu amigo?

— Você se engana quanto a nosso irmão…

— Não  me fale dele!  Odeio-o!… Meu  coração  inteiro  se  impacienta  contra  ele.  Por  causa  dele  foi  que lhe respondi  asperamente .

— Como assim?

— Você não compreenderia.

— Fale, mesmo assim . . .

O pródigo aperta-o contra o peito e o irmão adoles­cente deixa  abrir  seu coração:

— Na noite em que você voltou, não consegui dormir. ­ Fiquei o tempo todo pensando: Tinha outro irmão, e não sabia… Foi por isso que meu coração bateu mais forte, quando o vi avançar pelo pátio  da casa, todo coberto de glória.

— Santo Deus! eu vinha então coberto de andrajos .

— Sim, eu o vi, e o achei glorioso. E vi também o que fez o pai: pôs em seu dedo um  anel,  um  anel que nem mesmo nosso irmão  tem igual. Eu não  quis pergun­tar nada a ninguém a seu  respeito:  sabia  apenas  que você vinha de muito longe, e seu olhar, à mesa . . .

— Então você estava no festim?

— Oh! bem sei que não me reparou; durante o tempo todo do banquete olhava para longe, sem ver nada. Que fosse, na segunda noite, falar com o pai, ainda compreendo, mas que na terceira…

— Termine.

— Ah! ao menos uma palavra de carinho bem me podia ter dito!

— Você me esperava então?

— E como! acha que eu odiaria  assim  nosso irmão se você não tivesse ido falar com ele e demorasse tanto aquela noite? Que poderiam dizer? Se você se parece comigo, bem sabe que nada tem em comum com ele.

— Cometi  graves  faltas  contra  nosso  irmão.

— Será possível?

— Pelo menos para com nosso pai e nossa mãe. Você  sabe que  eu fugi de  casa.

— Bem sei. Isto foi há muito tempo, não?

— Mais ou menos quando tinha a sua  idade.

— Ah!… Ê isso que você chama de erros?

–Sim, este foi meu erro, meu pecado.

— Quando você partiu, achou que procedia  mal?

— Não;  sentia-me  como  na  obrigação  de partir.

— Que aconteceu depois, para que sua verdade de então  se  transformasse  em erro?

— Sofri muito.

— E é isto que o faz dizer: estava errado?

— Não, não é bem isso: foi isto que me fez  refletir.

— Então não havia refletido antes?

— Havia, mas a debilidade de minha razão se deixava impor por meus desejos.

— Como mais tarde pelo sofrimento. De sorte que, hoje então, você volta … vencido?

— Não  é bem  assim:  resignado.

— Ou seja, renunciou a ser como queria.

— Que meu orgulho me persuadiu a ser.

O menino permanece um instante em  silêncio,  de­pois  de súbito soluça e  exclama:

— Irmão! eu sou igual a você quando partiu. Oh! diga-me: só encontrou decepções pelo caminho?  Tudo o que pressinto existir lá fora, diferente daqui, não passa de miragem? Tudo o que sinto em  mim  de novo não é mais que fantasia? Fale: que havia de desespera­dor em seu caminho? Oh! que foi que o fez regressar?

— Perdi a liberdade que buscava; cativo, fui obri­gado a servir.

— Aqui eu me sinto cativo.

— Sim, mas tive que servir a maus senhores; aqui, pelo menos, servimos nossos pais.

— Ah! servir por servir, não se tem pelo menos a liberdade de escolher a servidão?

— Eu achava que sim. Tão  longe  quanto  puderam ir meus  pés,  como  Saul  a buscar  suas jumentas,  andei a perseguir o meu desejo; mas, onde esperava um rei­no  só encontrei miséria . Contudo…

— Não se enganou de caminho?

— Fui caminhando sempre em frente.

— Tem certeza? Todavia, há outros reinos, ainda, e terras sem rei, a serem descobertas.

— Quem lhe disse?

— Eu sei. Pressinto. Parece até que já as conquistei.

— Orgulhoso!

— Ah! ah! foi isso o que nosso irmão lhe disse. Por que me vem agora repeti-lo? Por que você não conservou esse orgulho? Decerto não teria regressado.

— E assim não o teria conhecido.

— Teria, sim; lá, onde iria a seu  encontro, decerto me reconheceria como irmão; mesmo agora, parece-me que é para encontrá-lo que eu sigo.

— Segue?

— Não percebeu? Não me encoraja igualmente a partir?

— Quisera poupar-lhe o retorno, dissuadindo-o da partida.

— Não, não, não me diga isto; não é isto  que quer me dizer. Foi como um conquistador que  você  também partiu.

— E foi isso que me fez sentir ainda mais a ser­vidão.

— Então, para que submeter-se? Já  estava  assim tão fatigado?

— Não, ainda não; mas tive dúvidas.

— Que quer dizer?

— Duvidava de tudo, de mim mesmo: quis parar, fixar-me enfim em qualquer parte; o conforto que esse patrão me prometia acabou tentando-me… sim, sinto-o perfeitamente agora: fracassei.

O pródigo inclina a  cabeça  e  oculta  os  olhos  com as mãos.

— Mas, e a princípio?

— Caminhei por muito tempo pela imensa terra inóspita.

— O deserto?

— Nem sempre era o deserto.

— E que buscava?

— Eu próprio  não  sei bem.

— Levante-se da cama. Olhe o que está ali na mesa de cabeceira, junto a esse livro em frangalhos.

— Uma romã partida.

— Foi  o tratador  de porcos  que  a  trouxe  numa  tarde, depois  de passar  três dias fora.

— Sim, é uma  romã  silvestre.

— Bem sei; é de uma acidez quase insuportável; sinto, no entanto, que a morderia, se estivesse com bas­tante sede.

— Ah! agora eu lhe posso dizer: foi  essa  sede que eu buscava no deserto.

— Uma sede que só este fruto amargo consegue aplacar . . .

— Não:  mas  nos faz  amar  essa sede.

— Sabe onde colhê-lo?

— Num pequeno pomar abandonado, aonde se chega quase ao anoitecer. Já nenhum muro o separa do deserto. Ali corria um regato; alguns frutos, quase ma­duros, pendiam das ramagens.

— Que frutos?

— Os mesmos de nosso pomar, porém silvestres. Fizera calor o dia inteiro.

— Ouça; sabe por que o esperava esta noite? É que partirei esta noite. Hoje, de madrugada, ao clarear . . . Estou disposto a tudo e já tenho as sandálias calçadas.

— Como!  pensa  fazer  o que eu não  consegui? . . .

— Você me abriu o caminho, e me sustentarei de pensar em você.

— E eu em admirá-lo; mas trate  de  esquecer-me, em vez disso. Que vai levar daqui?

— Bem sabe que, sendo o último, não tenho direito à partilha.  Vou  sem levar nada.

— É melhor.

— Que está o1hando pela janela ?

— O horto onde repousam nossos mortos.

— Irmão . . . (e o menino, erguendo-se do leito, passa o braço em torno ao pescoço do pródigo, num gesto que se faz tão doce  quanto  a  sua voz)  — Venha comigo.

— Deixe-me! deixe-me! ficarei para consolar nossa mãe. Sem mim, você será mais corajoso. A hora está chegando. O céu empalidece. Parta sem ruído. Vamos! Abrace-me, meu caro irmão: você leva todas as minhas esperanças. Tenha força: esqueça-nos: esqueça-me. Que você possa nunca mais voltar… Saia, sem ruído. Eu seguro a candeia…

— Ah!  dê-me  a mão  até a porta.

— Cuidado com os degraus do patamar …

                                                                                          *

BREVE NOTA SOBRE ‘‘FARÓIS’’, O LIVRO PÓSTUMO DE CRUZ E SOUSA, 
NUMA TENTATIVA DE LANÇAR ALGUMA LUZ SOBRE ESTE GRANDE 
POETA QUASE DESCONHECIDO

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Sou de uma geração de poetas que aprenderam a metrificar. Sabíamos contar as sílabas nos dedos e distinguir um decassílabo de um alexandrino, palavras que não só parecem como na verdade são grego para os poetas e poetinhas das novas gerações. Tínhamos uma cartilha (a bíblia mesmo para alguns) em que aprendíamos a técnica do verso e os rudimentos da arte de poetar. Era o Tratado de Versificação, de Olavo Bilac e Guimarães Passos, título que o humorista Bastos Tigre havia gozado ao dizer que o livro era “de leitura imprescindível para um poeta fraco ver se fica são”. Era o tempo dos trocadilhos, cacoete retomado hoje pelos nossos poetas de vanguarda. O livro fora publicado (em inúmeras edições) pela Livraria Francisco Alves que, naqueles gordos e saudáveis tempos, ficava na rua do Ouvidor, por onde passavam as mulheres mais elegantes do Rio, seguindo para o footing da Colombo. [Tudo aqui está soando tremendamente saudosista e fin-de-siècle, mas garanto que isso aconteceu ontem. Como o tempo passa…]

Olavo e Guimarães eram parnasianos, cultores da forma e da elegância do verbo, defensores ferrenhos do vernáculo, e, por essas razões (lá deles) não demonstravam muito apreço pela nova corrente poética de seu tempo, o Simbolismo, que definiam como uma escola empenhada em explorar assonâncias e aliterações, sem grandes desvelos para com as ideias áticas e alcandoradas que deviam perlustrar as composições poéticas. [O vocabulário da época serve aqui de colorido cronológico.]

E exemplificavam essas tendências com um verso de Cruz e Sousa: “Vozes veladas, veludosas vozes”, que para eles não dizia nada, embora atendesse à preocupação do prógono internacional da escola, Paul Verlaine, que recomendava de la musique avant toute chose.

Era fatal que a restrição incitasse a curiosidade pela escola simbolista à medida que íamos achando aquele culto da forma um tanto artificial e pernóstico. Um dia a gente descobre que Ismália enlouqueceu e pôs-se na torre a sonhar, que um poeta encravado lá no interior de Minas, com um nome latino, Alphonsus de Guimaraens, produzia versos que, além de musicais, entravam num clima penumbrista, muito diverso das luzes meridianas do Parnasianismo, e talvez por isso mesmo agradasse mais ao nosso romantismo incipiente, regado a farras de cerveja (oh! que belos companheiros, como viram tão ligeiros) e ao som de serenatas de província (dia virá em que os lábios meus esmagarão a flor dos lábios teus). [Estamos descambando para uma insuportável hora da saudade. mas as modernas duplas caipiras são muito piores!] E a gente parte para conhecer outros poetas da mesma escola, já então chamados desprezivelmente de nefelibatas, pelos seus sonhos místicos, pelo seu vocabulário litúrgico e anseio de angelitude, como se de fato andassem e vivessem nas nuvens. Além de Alphonsus, havia nomes, alguns estranhos, como Emiliano Perneta; Mário Pederneiras, irmão do caricaturista Raul, crítico severo dos regimes ditatoriais; Marcelo Gama, que se chamava antiliterariamente Possidônio Machado; Tristão da Cunha, a quem devemos uma bela tradução do Hamlet; Félix Pacheco, hoje só lembrado nas carteiras de identidade; José Albano, maluco genial, autor dos mais belos tercetos da língua (“Triunfo”); Da Costa e Silva (“Saudade! Asa de dor do Pensamento!”); Álvaro Moreyra, Eduardo Guimaraens e Onestaldo de Pennafort, que se distinguiu como tradutor de Verlaine e Shakespeare. Mas o grande vulto mesmo, a eminência negra do movimento, era o poeta de Florianópolis, João da Cruz e Sousa, autor daquelas criticadas veladas vozes veludosas. Conhecer-lhe a obra completa foi uma experiência tão impactante quanto a leitura dos primeiros versos de Augusto dos Anjos. O seu “Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro” era uma badalada que iria retinir no “Escarra nessa boca que te beija”! Tínhamos a impressão de estar cometendo pecado, saboreando alguma coisa proibida, praticando um sadomasoquismo intelectual.

Cruz e Sousa parece ter invertido o quadro clássico: nasce bem e morre mal. Filho de escravos negros puros alforriados, foi adotado pelo senhor destes, o então coronel e mais tarde marechal-de-campo Guilherme Xavier de Sousa, de quem recebeu o nome de família; o João da Cruz veio por conta do santo do dia de seu nascimento, 24 de novembro (de 1861), o grande místico e poeta espanhol. [Excelente começo para um futuro poeta.] O menino foi criado com carinho, principalmente pela mãe de adoção, que lhe ensinou as primeiras letras. Teve educação primária e secundária esmerada, e aprendeu grego, latim, francês e inglês, matemática e ciências naturais. Com pouco escreve versos, leciona e colabora nos jornais da província. De repente, resolve percorrer o país “de Norte a Sul”, e a melhor forma que encontra é ingressando como “ponto” numa companhia de mambembes. Com a morte dos pais adotivos, que o protegiam, vê-se alvo de preconceitos raciais: em 1884, aos 22 anos, nomeado promotor público de Laguna-SC, não chega a tomar posse, sendo o cargo impugnado pelos chefes políticos locais, por se tratar de uma pessoa de cor. Daí para a frente vai conhecer a miséria dos 3ps: poeta, preto e pobre.

 Para enfrentar a sina, assume a direção de um jornal intitulado O Moleque, num desafio ao preconceito. Em 1886, quase dá uma de Pelé: conhece a pianista loura da Praia de Fora, a quem dedica várias poesias, mas quando vem em seguida para o Rio de Janeiro, onde arranja seu primeiro emprego, graças à generosidade de seu conterrâneo Emiliano Perneta, vê Gavita Rosa Gonçalves, também negra e bela como ele, e com ela se casa em 1893, depois de ter publicado, quase simultaneamente, seus dois livros Missal (poemas em prosa) e Broquéis (poesia). Funcionário público modesto, arquivista da Central do Brasil, recebe em 1894 a visita do poeta Alphonsus de Guimaraens, que vem ao Rio especialmente para conhecê-lo: é seu momento de glória, seus 15 segundos de televisão! O resto da vida vai ser um folhetim de desgraças: a esposa enlouquece, ela e os filhos ficam tuberculosos, dois deles morrem ainda em vida do poeta; e ele próprio expira com essa doença a 19 de março de 1898, em Sítio-MG, onde fora em busca de melhores ares. Num fim à la Edgar Allan Poe, que ele tanto admirava, tem o corpo transladado para o Rio num vagão de transporte de cavalos e é enterrado no Cemitério do Caju, tendo José do Patrocínio se encarregado dos funerais. O amigo de sempre, Nestor Vítor, que falou à beira do túmulo, irá encarregar-se da divulgação de sua obra publicando em 1900 o livro Faróis, onde consta o poema Violões que choram, escrito em janeiro de 1897, e do qual faz parte o famoso verso Vozes veladas, veludosas vozes [longo demais para ser aqui reproduzido]. 

Esnobado pelos literatos preconceituosos de seu tempo e incompreendido pelo público, Cruz e Sousa custou a ser reconhecido como um dos grandes nomes da poesia brasileira. José Veríssimo e Sílvio Romero, os luminares da crítica da época, trataram os simbolistas com casca e tudo, chamando-os de turbamulta iletrada. Só muito mais tarde, Romero iria nele reconhecer, “a muitos respeitos, o melhor poeta que o Brasil tem produzido”. Mas a verdade é que a poesia simbolista acabou por influenciar o parnasianismo, que se obstinava em não morrer, e pode ser rastreada em poetas como Raimundo Correa, Alberto de Oliveira, Emílio de Menezes, Luiz Delfino e Vicente de Carvalho. Entre os modernos, há traços evidentes em Raul de Leôni, Ribeiro Couto, Cecília Meireles e Manuel Bandeira. Os grandes críticos do Modernismo e do Pós-Modernismo são unânimes em ressaltar as qualidades literárias do poeta, que teve em Nestor Vítor seu grande divulgador e em Andrade Muricy o estudioso exemplar.

As novas gerações de leitores brasileiros certamente não o conhecem, já que ele não se apresenta no programa do Sílvio Santos nem canta em parceria nos pagodes regionais. Mas resta a esperança de que os universitários venham a conhecer-lhe a obra rica de modulações ainda capazes de entusiasmar. Um passo de Armstrong foi dado nesse sentido pelo cineasta Sílvio Back em sua “revisão” cinematográfica de Cruz e Sousa, cujo script se fundamenta em trechos da obra do poeta. À falta de TV, viva o cinema!

 Grandemente influenciado por Baudelaire, Allan Poe e Mallarmé, Cruz e Sousa utilizava o vocabulário litúrgico e arcaizante dos simbolistas para sublimar seus sentimentos. Queria superar a sua negritude pela pureza de ideais. Daí sua insistência em recorrer a palavras como alva, neve, nívea, clara em seus poemas, embora isso não significasse um repúdio à sua condição de negro, mas uma clarificação da poesia.

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