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Archive for abril \30\UTC 2012

VIENT DE PARAÎTRE-IV

À venda, afinal, na Livraria Cultura, a edição de luxo de Razão e Sentimento, comemorativa do bicentenário de publicação da obra. Esta edição especial ilustrada, de capa dura, da Nova Fronteira (2012), reproduz as gravuras originais de Hugh Thomson e traz, como adendo, capas coloridas de várias edições da obra pelo mundo afora.

A edição brasileira conta com uma apresentação de Leonardo Froes, a história da composição do livro escrita pela famosa janeite Raquel Sallaberry e o artigo O suposto formato epistolar de Razão e Sentimento, do crítico literário inglês, D.H. Harding, especialista em Jane Austen.

Seguem-se algumas gravuras coloridas (capas de edições estrangeiras da obra) entre as muitas publicadas como anexo nesta edição de luxo;

FIELDING: A INSPIRAÇÃO EM CASA

Para o público brasileiro, o nome de Henry Fielding (1707-1754) está definitiva (e quase exclusivamente) ligado ao seu romance “As Aventuras de Tom Jones”, que teve entre nós inúmeras traduções e edições sucessivas (identificáveis desde 1964, sendo que só do Círculo do Livro conseguimos arrolar 17 delas, a partir de 1980). É possível que essa aceitação do livro durante tantos anos seguidos tenha sido em parte alavancada pelo sucesso do filme de Tony Richardson, de 1963, com Albert Finney no papel principal, sendo que o take da ceia, em que este contracena com Joan Greenwood, acabou virando estereótipo, imitada até hoje por cineastas de várias escolas e países. Mas o primeiro romance de Fielding, que lhe garantiu um lugar de destaque na literatura inglesa, “A história das Aventuras de Joseph Andrews e seu Amigo o Senhor Abraham Adams”, que trazia originalmente o subtítulo de “Escrita à imitação da maneira de Cervantes, autor de Dom Quixote”, permanecia inédito entre nós, conforme apurou o tradutor e introdutor da obra, Roger Maioli dos Santos, na exuberante apresentação deste atraente volume da Ateliê Editora, associada à Unicamp, na Coleção Clássicos Comentados.

É possível que este aparente passar ao largo dos nossos editores em relação às aventuras de Joseph Andrews se devesse à falsa suposição de que o livro fosse apenas a mera transição para o Tom Jones, um simples exercício preparatório, facilmente descartável do ponto de vista editorial, já que seria logo eclipsando pelas bombásticas aventuras do segundo. Mas sabe-se hoje que a narrativa pretendia ser, e de fato acabou representando na história literária, muito mais do que um simples estágio de aquecimento para a obra principal. Depois de tentar o teatro com algum sucesso, interrompido pela Lei do Licenciamento Teatral, de 1737, que coibiria a apresentação de suas peças politicamente polêmicas, Fielding inicia em 1741 sua carreira literária com uma paródia (“An Apology for the life of Mrs. Shamela Andrews”), em que, tomando carona no êxito do romance “Pamela” (1740), de Samuel Richardson (1689-1761), critica de maneira contundente o puritanismo da época e a hipocrisia moral do autor. Vampirizando os personagens de “Pamela”, cujo procedimento ele contrasta e subverte, Fielding age de maneira simplesmente imitativa, sem qualquer laivo de criatividade. A heroína de Richardson, Pamela, é uma jovem criada que se defende heroicamente das investidas eróticas do patrão viúvo e acaba tendo sua “virtude recompensada” ao conduzi-lo ao casamento; Fielding põe em cena, em seu panfleto satírico, uma criaturinha matreira que namora o pároco local e simula virtude para seduzir o patrão, a fim igualmente de levá-lo a casar-se com ela. A sátira não teve o êxito editorial imaginado por Fielding, que esperava com ela sair-se das constantes dificuldades financeiras em que vivia. Talvez por isso, tenha voltado, menos de um ano depois, a reelaborar o tema de Pamela, desta vez criando um personagem próprio, Joseph Andrews, embora ainda não de todo desvinculado de Richardson, pois se trata do “irmão de Pamela”, igualmente virtuoso e que foge aos avanços sedutores de sua patroa, a sra. Booty, tia do fidalgo que se casara com Pamela. Mas neste caso as “apropriações” param por aí: as alusões a Richardson surgem apenas como referências identificáveis, pois os personagens de Fielding adquirem vida própria energizados pelo seu poder narrativo através da invenção de intrincadas aventuras, como que inaugurando o gênero “on the road” na literatura inglesa do século XVIII. Joseph Andrews extrapola as dimensões da crítica e da caricatura para assumir assim a forma de uma obra autônoma e criativa. Além disso, o mestre-mentor e companheiro de viagem de Joseph, o páraco Abraham Adams, dono de vasta cultura e não menor distração mental, propicia ao autor momentos de reflexão filosófica, com debates sobre a moral e o dever, a virtude da caridade, tema recorrente em Fielding, e demais pontos sensíveis à sua reflexão sempre aguda. Escrito, segundo o próprio autor, sob a inspiração de Cervantes, o livro deve muito ao autor de Dom Quixote pelo que tem de ironia, de autogozação, de gratuidade dos eventos e, principalmente, do comparecimento destacado de figuras singulares e da gente do povo – o que contrasta com os romances da época em que se distinguiam apenas os vultos principescos ou das classes abastadas.

Os leitores de Tom Jones certamente encontrarão nestas aventuras de Joseph Andrews algo do timing narrativo que se tornaria marca tradicional de Fielding, contrabalançado aqui pelas digressões do desligado pároco de província, Abraham Adams, que segue viagem para Londres a fim de vender seus volumes de sermões, mas se esquece de os levar consigo. O aparente desleixo da narrativa é largamente compensado pela precisa construção deste personagem que, em muitos trechos, ocupa a parte principal do livro. Seu otimismo ingênuo, diversamente do de Pangloss, diante dos percalços do mundo ou da ofensiva dos homens não hesita em valer-se da força dos punhos e da precisão de seu cajado de macieira.

Se o intuito de Fielding era o de ganhar algum dinheiro com seu Joseph Andrews as prospectivas desta vez se realizaram. Saindo em fevereiro de 1742, em dois volumes, em junho já via sua segunda edição e, em março do ano seguinte, a terceira, com seu nome agora figurando na capa. Era a primeira vez que, sempre levando vida desregrada, Fielding podia contar com algum dinheiro. Aos 11 anos, ao perder a mãe, entra com seus irmãos mais jovens na posse da fazenda que lhes coubera por herança, mas o pai, que logo volta a casar-se, em breve não só dissipa a sua parte como a dos filhos, daí resultando um processo judicial. Aos 18 anos, Fielding pretende dar um golpe do baú, mas vendo-se repudiado pela futura noiva, uma rica herdeira, tenta em vão sequestrá-la. Parte para estudar letras na Universidade de Leiden, na Holanda, mas tem de interromper o curso em função das dívidas ali contraídas. O pai, que se enviuvara pela segunda vez em 1727, volta a casar-se, agora com uma viúva rica (o viés de caça-dotes era certamente um traço de família). Em 1734, Fielding casa-se com Charlotte Cradock, com quem tinha fugido e, cerceado em sua atividade de autor teatral, inicia-se na carreira de rábula com variadas passagens pelo jornalismo. Em novembro de 1740 o pai é preso por dívidas e, enviuvando-se novamente, volta a casar-se na prisão, onde morre, meses depois, sem deixar ao filho nada senão algumas dívidas. É por essa época que surge o Joseph Andrews, livro que veio tirá-lo das dificuldades mais prementes. Em 1744, morre sua esposa Charlotte, e Fielding se casa, dois anos depois, com sua ex-criada Mary Daniel, num autêntico desfecho a la Ricardson. Por estes lances esquemáticos, pode-se admitir que Fielding tirava da própria vida (e principalmente da de seu pai) a inspiração para as aventuras de Joseph Andrews que prenunciaram as de Tom Jones. A partir daí sua vida começa a estabilizar-se, ele ganha prestígio como magistrado e atua de maneira eficiente no combate à criminalidade em Londres. Com a saúde abalada (provavelmente em decorrência de excessos), busca melhores ares em Portugal numa viagem narrada em “Journal of a Voyage to Lisbon”, que será postumamente editada, vindo a falecer a 8 de outubro em Junqueira, a 35 km da cidade do Porto, no norte de Portugal.

(Publicado em Prosa & Verso de 17.11.2011 com o título A boa ventura de Fielding)

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Quero cumprir agora uma promessa que fiz neste blog há muito tempo. Em 15.03.2011, numa rentrée intitulada Regresso do Recesso, eu acrescentava, com o título Dois Panfletos, um segundo capítulo às Minhas Incursões Literárias, começadas em 14.09.10, ao fim da qual eu prometia uma continuação. Também essa segunda acabou com um Continua – que não se havia concretizado até agora. Pois aqui vai a parte III, que desde já considero o encerramento da série, o The End definitivo, sem continuas.

RAPSÓDIA HERVALENSE

Em janeiro de 1951, pedi demissão de meu primeiro emprego (que eu havia exercido por um ano e pouco) e resolvi passar umas longas férias em Ervália (ex-Herval), minha terra natal, no interior de Minas. Nós já morávamos no Rio desde 1945, mas meu pai lá ficara com sua farmácia filantrópica, incapaz de deixar aquela população que tanto se beneficiava de seus serviços gratuitos e à qual fornecia (fiado) receitas e medicamentos sem a menor possibilidade de retorno. A idéia inicial era ajudá-lo um pouco a receber essas contas antigas e a organizar o estoque atual, além de poder passar algum tempo com ele, já que fracassara a tentativa de convencê-lo a vir também para o Rio.  Durante meses, fiquei dormindo em casa de minha Avó, e pretendia ir todas as manhãs ajudar na farmácia, atender os clientes, vender remédios, cuidar da caixa. Mas minha atividade mesmo acabou sendo a de escrever na velha máquina Remington, que permanecia a maior parte do tempo sem função. Até o Quidinho [prometo um artigo inteiro sobre ele], nosso prático, que tirava as contas para serem enviadas aos devedores “esquecidos”, preferia escrever à mão, com sua bela caligrafia de contador, a se utilizar da barulhenta máquina, que ficava escondida sob uma enorme tampa negra de metal. Pois foi nessa máquina que compus minha Rapsódia Hervalense, versos simplórios que exaltavam a cidade e seu povo, falava sobre o jardim e as retretas, o Santo Cristo, a Biquinha e o Cemitério. Depois de pronto o texto, que em parte eu havia composto no Rio, curtindo as saudades e antecipando a vagabundagem das férias, resolvi imprimi-lo por minha conta e risco. Na Casa Paroquial havia uma prensa rudimentar, usada para imprimir avisos fúnebres e propagandas comerciais, que o Sebastião do Tietre distribuía na rua, trombeteando uma corneta acústica. O proprietário da tipografia era o Juca Valente, pai do então vigário paroquial, Pe.Teófilo de Andrade, com quem eu mantinha boas relações intelectuais e me iniciava no mundo da ópera, pois a igreja recebia nessa época uns vinis de grandes dimensões (capazes de tocar uma boa meia hora de música sem interrupção) e ficávamos tentando saber o que era Noi siamo gente avvezza e Nella tua freda stanza (que ouvíamos como soando fredazansa – que seria?)…

Fugindo de bancar a impressão, seu Juca Valente me confiou a tipografia para que eu mesmo compusesse o livreto. Creio que estava certo de que eu iria desistir diante das dificuldades, pois nunca tinha visto aquelas caixas de tipos, nem sabia sequer como movimentar a prensa. Fui aprendendo a compor os tipos à medida que os manuseava, tirando-os um a um dos caixotins e os alinhando no componedor. Logo estava conhecendo as versais e os versaletes, as entrelinhas, os quadratins, a galé e o paquê, que ia amarrando e guardando nas prateleiras de granéis.  Para não me enganar, fiz um “boneco” do livreto: ele teria 24 páginas, equivalentes a três páginas A4 divididas ao meio e dobradas em duas. Isto facilitava a composição gráfica, pois cada impressão compreenderia 4 páginas do libreto, de modo que a primeira impressão devia incluir as páginas 24 – 01 e 22 – 03;  a segunda, as páginas 20 – 5 e 18 –7, e assim por diante. O cuidado maior seria quando da impressão do verso dessas páginas, que eu não podia me enganar pondo-as de cabeça para baixo, nem hesitar em sua correspondência numérica. Era um quebra-cabeças, e certamente devo ter me exasperado quando as páginas saíam trocadas ou viradas ao revés. Fiz o cálculo para a aquisição do material, que iria adquirir na casa do Sr. Pedro Lopes, cuja loja vendia fazendas mas dispunha também de um escolhido setor de papelaria: lá comprei trinta folhas de papel almaço (o nome antigo do A4) para o miolo e dez folhas de cartão alaranjado (a cor disponível) para a capa.. Eu pretendia fazer apenas dez exemplares do livrinho, dedicado naturalmente à minha Avó, que receberia  o primeiro, encabeçando uma lista de ofertas com os nomes de meu pai, o Quidinho, o Pe. Teófilo, o Sr. Pedro Lopes, duas de minhas antigas professoras e duas de minhas atuais namoradas, que já conheciam os versos de antemão. Minha Avó apelidou-o de “catecismo”, por causa do formato e da cor da capa, e o trouxe para o Rio, onde veio morar e onde faleceu. Passados 60 anos, o dela e o meu foram os únicos exemplares que restaram da “tiragem”.

Ainda hoje leio com certa emoção estas rimas ingênuas, a maioria delas em redondilha menor, salvo os sonetos que já eram decassilabos.  E A Biquinha continua sendo para mim um dos versos mais puros e sentidos que a minha juventude concebeu. Rio-me da pretensão do título, ou melhor, das “divisões” da “obra”. Se ficasse só em Rapsódia, tudo estaria bem, pois as rapsódias compõem-se em geral de um único movimento, explorando motivos folclóricos ou tradicionais. Mas me meti a sabichão e introduzi outros “movimentos” com nomes extraídos de uma terminologia sinfônica, incabíveis no caso. No entanto, o que mais me surpreende em tudo isto é a epígrafe, em latim, extraída do Gênesis XIX-17: Salve animan tuam: noli respicere post tergum, que o tipógrafo amador não conseguiu colocar à direita, e cuja tradução poderia ser: Salva a tua alma e não olhes para trás. Estranha maneira de homenagear a minha terra! Ou quem sabe eu quis, com o livreto, despedir-me dela?!…

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Acaba de sair o oitavo número da revista THE PRESIDENT relativo ao trimestre março/abril/ maio de 2012. Especialmente dirigida ao mundo empresarial, trazendo sempre uma entrevista com algum dos nossos grandes empreendedores da indústria ou do comércio, a revista acolhe ainda em suas páginas variadas seções culturais, entre elas a que aborda assuntos referentes aos sentidos humanos: visão, audição, olfato, paladar e tato. Neste número, em olfato, foi publicado o texto abaixo que escrevemos sobre o órgão olfativo de Pinóquio, encimado pela ilustração de Enrico Mazzanti, da primeira edição original italiana do livro de Carlo Collodi.

A ANOSMIA DE PINÓQUIO

Se perguntarem a um senhor de uns 50 anos qual o nariz mais famoso de seu conhecimento, ele certamente responderá que é o de Cyrano de Bergerac, personagem imortalizado na comédia heróica de Edmond Rostand, estreada em Paris em 1897, que permanece em cartaz até hoje, 115 anos depois. A peça relata a história de um narigudo romântico, exímio espadachim, amoroso de sua prima Roxane, que ele conquista para outro cadete gascão, por quem ela estava apaixonada. A petite histoire em torno dessa encenação conta que Constant Coquelin, ator escolhido para interpretar Cyrano, atuou mais de 400 vezes no papel e exigiu 50 modelos diferentes do nariz em cera para escolher o que mais lhe parecia condizente com sua figura na representação do personagem…

Mas se perguntarem às crianças de quaisquer idades, dos 8 aos 80 anos, qual o nariz mais famoso que lhes vem imediatamente à memória, podem estar certos de que a resposta será: o nariz de Pinóquio. E por quê? As aventuras de Pinóquio, uma obra-prima da literatura italiana, supostamente escrita para meninos de escola por Carlo Collodi em 1881 (ou seja há mais de 130 anos, portanto anterior ao Cyrano), relata as atribuladas peraltices de um boneco de madeira, cujo nariz cresce e cresce mais a cada vez em que ele prega uma mentira. Tal narrativa vem desafiando o tempo e os modismos literários, encantou os leitores de praticamente todos os países do mundo e sofreu versões, adaptações, cortes e acréscimos que a desfiguraram sem no entanto conseguir apagar seu encanto inicial latente. O cinema, pelos estúdios de animação de Walt Disney, incumbiu-se de glamourizá-la, de torná-la piegas, afastando, desta forma, a narrativa cada vez mais de seu texto original, Esta terá sido, certamente, a razão principal que me levou a traduzir, mantendo-lhe a integralidade e o estilo, esse livro em que o endiabrado Pinóquio aparece como um menino preguiçoso, aluno relapso, cujo ideal era o de não fazer nada na vida. A grandeza do livro está precisamente no “aprendizado” que leva à transformação do boneco de pau num menino de carne e osso, condição obtida graças à conscientização de que a verdadeira vida pressupõe o trabalho, a dedicação e às vezes até mesmo o sacrifício. O que Pinóquio não consegue, pelo menos a princípio, é perseverar em suas boas intenções: no capítulo XXIX, depois de quase ter sido frito no caldeirão do Pescador verde, ele regressa à casa da Fada e promete que será estudioso e se comportará bem; durante seis meses cumpre sua palavra e chega a ser o melhor aluno da classe, mas… (como diz o livro, há sempre um mas que estraga tudo na vida dos bonecos) o primeiro aceno da aventura o leva ao mais acerbo descaminho. De modo que o livro acaba sendo a história de um herói às avessas que só consegue dar a volta por cima depois de muito aprender com as dificuldades da vida.

Embora o nariz de Pinóquio tenha ficado famoso e faça parte até hoje do inconsciente coletivo, ele na verdade não cheirava; era totalmente destituído de olfato. Mesmo sendo de pau, Pinóquio tem uma visão acuradíssima e enxerga seu criador, Geppetto, a milhas de distância perdido num barquinho no mar; ouve bem, é sensível ao menor som, à distância ou ao seu redor, a ponto de perceber as palavras de um grilo que tenta lhe dar conselhos; seu paladar chega a ser requintado, pois mesmo em momentos de fome, recusa comer favas, de que a princípio não gosta. Mas e o nariz? O sentido do olfato? Talvez para acentuar outra qualidade – a de censor ético –, Collodi não atribui ao nariz de Pinóquio qualquer tipo de sensibilidade que lhe permita distinguir odores: não há fragrâncias de perfumes, cheiros de comida ou mesmo emanações mefíticas que impressionem o órgão olfativo do boneco. Ele parece movido principalmente pelo apetite, está sempre com fome e não se acanha mesmo de roubar para satisfazer seu estômago. Num dos capítulos mais aventurosos do livro (XXVIII), Pinóquio é atraído a uma gruta escavada numa escarpa que vai dar no mar; dentro dela, o Pescador Verde está preparando seu almoço de peixes fritos, mas Pinóquio é atraído a ela não pelo cheiro da fritura e sim pela fumaça que sai dali e onde ele, por isso, espera encontrar fogo para secar as suas vestes. 0 antro é descrito como “uma gruta escura e enfumaçada, no meio da qual frigia uma grande panela de óleo soltando um cheiro de pavio queimado que chegava a tirar a respiração”. Mas Pinóquio nada sente, muito menos agora que está se debatendo nas garras do Pescador que o toma por um peixe raro e vai comê-lo.

Durante a tradução do livro, fiquei me perguntando a razão pela qual o autor, Collodi, omite qualquer capacidade olfativa do nariz de Pinóquio, e exalta os seus demais sentidos, todos aguçados e sempre funcionando mesmo nas piores circunstâncias. A hipótese mais provável é a de que talvez quisesse acentuar outro tipo de sensibilidade desse traço fisionômico que acabou por se tornar a característica da identidade do boneco: um nariz acusador de mentiras. E este achado tornou-se um referencial, um recurso familiar até hoje, quando os pais advertem os filhos que o nariz deles vai crescer se disserem patranhas. Cheguei a insinuar acima que o nariz era uma espécie de “censor ético”, ou seja, que exercia uma censura moral sobre o boneco toda vez que ele mentia. Mas, além disso, esse nariz era também um “sensor físico”, pois lhe permitia avaliar o tamanho da mentira pelo crescimento da bicanca e, no caso da série de mentiras que tentou impingir à Fada (XVIII), cresceu tanto que foram necessários milhares de pica-paus para desbastá-lo até seu tamanho natural.

É possível que esta perda do olfato – que cientificamente atende pelo belo nome de anosmia – tenha vindo de berço, ou seja, ocorrido na própria confecção do boneco, pois lá está que o nariz “mal tinha sido feito, começou a crescer: e cresceu, cresceu, cresceu tanto que em poucos minutos se tornou um narigão que não acabava mais. O pobre Geppetto não se cansava de cortá-lo; mas, quanto mais cortava e encurtava, mais aquele nariz impertinente se encompridava”. Talvez Geppetto, em sua cirurgia escultórica, tenha afetado o epitélio olfativo do boneco e, sem querer, incidido no hipotálamo de tal forma que o tornou um sistema regulador de verdades e mentiras.

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     Há 150 anos, precisamente no dia 3 de abril de 1872, publicava-se simultaneamente em Paris, Leipzig, Bruxelas, Bucareste, Milão, Roterdan, Varsóvia e… Rio de Janeiro, o romance “Os miseráveis”, do escritor francês Victor Hugo, que seria considerado daí por diante a maior obra literária do século XIX.
Adendo de Denise Bottmann
     Consultando a internet em busca de referências a traduções assinadas por josé maria machado pelo clube do livro, encontrei um curto texto de ofir b. de aguiar, com um dado que eu desconhecia por completo: a tradução d’os miseráveis de victor hugo começou a ser publicada no brasil antes que saísse o original francês!

 

     A história é a seguinte: victor hugo não queria de maneira nenhuma um roman-feuilleton, isto é, a publicação da obra em capítulos num jornal, como muito se fazia na época. ficou decidido com seu editor belga (pois naquela época ele estava exilado na bélgica) que les misérables seria lançado diretamente em formato de livro, em vários volumes. então ficou programado o lançamento para o dia 3 de abril de 1862, em várias cidades em simultâneo: paris, leipzig, bruxelas, budapeste, milão, roterdã, varsóvia e rio de janeiro.

     Mas, no contrato que victor hugo tinha assinado com o editor, havia uma cláusula que autorizava este último a licenciar o direito de tradução em folhetim para jornais de língua estrangeira. em vista disso, o editor pôde negociar com o proprietário do jornal do comércio a publicação serializada d’os miseráveis. o jornal se antecipou 24 dias ao lançamento do livro e assim foi que, em 10 de março, os brasileiros já puderam começar a ler os capítulos iniciais em português. o jornal do comércio não citava o nome do tradutor, mas, segundo alguns estudiosos, teria sido justiniano josé da rocha – o qual, porém, morreu antes de terminar a tradução, que então teria sido concluída por antônio josé fernandes dos reis.

O HUGO-OCEANO VOLTA À TONA

A vida de Victor Hugo vale um de seus livros: é uma apoteose de esplendor e miséria, de atos sublimes e atitudes mesquinhas, de momentos de glória e instantes de ignomínia — enfim dos altos e baixos de que se compõe a existência dos gênios e heróis que surgem de tempos em tempos neste mundo insípido de cidadãos comuns. Porque ele, como escritor, soube utilizar-se da carregada paleta do Romantismo para criar em seus romances figuras que incarnavam a diversidade dos arquétipos humanos, fazendo de seus personagens exemplos icônicos que sobreviveriam para sempre no mundo da literatura. Seus livros foram comparados a catedrais góticas pelo compósito de seus elementos, nos quais o autor exibe exuberantes conhecimentos de arquitetura, pintura, história, filosofia, ciências, tudo versado num estilo grandiloquente que se sustenta à custa do maior vocabulário da literatura francesa desde Moliere. Mas o escritor não era apenas um romancista, era também o maior poeta da França, um político que mudou a história de seu país, um dramaturgo que estabeleceu cânones no teatro de seu tempo, um amante insaciável cuja concupiscência jamais decresceu com o avançar da idade — enfim, um desses monstros sagrados que parecem encerrar múltiplas vidas e conflitantes personalidades, um homem-oceano, como ele se referiu a Shakespeare, embora pensando em si mesmo.

É natural que este grande afresco sócio-cultural do século XIX despertasse o interesse dos biógrafos, a começar por sua própria esposa (a quem traía descaradamente com atrizes e criadas, e era traído por ela com seu melhor amigo, o crítico Sainte-Beuve), e se tornasse um baú sem fundo para os pesquisadores literários e os bisbilhoteiros das fraquezas humanas. Inúmeras são as biografias de Hugo em francês e outras línguas, destacando-se, entre as primeiras, uma vida romanceada escrita por André Maurois (Olympio, 1954) e o grandioso panorama de Alain Decaux, estabelecido 30 anos depois, em dois volumes, que sempre consideramos imbatível pela intimidade siamesa com a obra, a exaustão das pesquisas, o percorrer minucioso dos lugares todos em que o drama Hugo se desenrolou, a leitura paciente dos milhares de cartas que Juliette Drouet (a amante oficial de Hugo) escreveu ao poeta, o que somavam anos a fio na elaboração de um texto que procurou ser isento e apresentar o homem Hugo no lugar do busto convencional de Victor Hugo. Alain Decaux afirma em certa passagem de seu livro: “Sabemos tudo sobre Hugo. O que ele não nos disse sobre si mesmo, outros se encarregaram de fazê-lo. Sabemos de detalhes mesmo de suas noites de amor. A começar pela primeira, a de 12 para 13 de outubro de 1822. Estreitando contra o seu pela primeira vez o corpo da bem-amada, ele provou-lhe nove vezes seu desejo”. Não se veja naquele sabemos nenhuma jactância do autor; o que ele quer dizer é que a pletora de documentação sobre a vida de Hugo transcende os grandes momentos e os dados oficiais e pode ser rastreada até a intimidade das alcovas, os olhares furtivos e as aventuras picantes, graças aos diários secretos mantidos por ele, por sua amante Juliette e por sua esposa Adèle.

Mas eis que surge agora um novo Victor Hugo, tijolaço de seiscentas e cinquenta páginas, como convém à moda atual das biografias, assinado por um inglês, professor universitário e autor de outras biografias que já estiveram ou ainda estão nas listas de best-sellers lá fora. Graham Robb, o autor, leciona francês na Universidade de Oxford e consta, de sua própria e extremamente recatada biografia, que é casado com uma bibliotecária daquela universidade, o que talvez seja sintomático para explicar a seriedade e extensão que concede às bibliografias de seus livros: as 140 páginas finais deste volume são inteiramente dedicadas a permitir ao leitor universitário a localização da fonte de que ele se valeu para dizer ou supor algo, por mais insignificante que seja, em praticamente todos os parágrafos do livro. Não há dúvida de que Robb conhece bem seu ofício e o território da literatura francesa é seu jardin potager. Já publicou uma biografia de Balzac, um ensaio em francês Baudelaire lecteur de Balzac, traduziu a extensa biografia de Baudelaire, de Claude Pichois, escreveu um Unlocking (decifrando) Mallarmé e, mais recentemente, a biografia de Rimbaud que obteve o cobiçado título de O Livro do Ano na apreciação do New York Times. Mas não queremos manter nem mais um instante o leitor em suspense: o livro de Graham Robb sobre Victor Hugo é excelente, revelando um grande escritor capaz de analisar fatos e contar episódios da vida alheia com refinada elegância, entremeando-os com o requinte do humor, sem nunca perder a objetividade da narrativa. Seu livro é mais moderno, mais bem documentado pelos estudos e achados recentes, que o de seu antecessor francês. Fala ao leitor de hoje mais de perto, quase com a mão no ombro, mas sem querer cativá-lo de outra forma senão pelo brilho de seu talento e profundidade de sua análise. Se num trecho ou noutro ainda nos mostremos saudosos da encantadora prosa do francês, é impossível negar a probidade do inglês que, como a justificar a escolha de uma figura já exaustivamente biografada, afirma ter caminhado pela terra de ninguém entre os hugólatras fervorosos e os iconoclastas empenhados em derrubar o ídolo de pés de barro. No caso de Hugo, tal meio-termo é quase impossível de ser obtido com imparcialidade, e leva em geral um autor à tentação de, sempre que mencionar uma qualidade notável de seu biografado, contrapor-lhe uma segunda intenção menos nobre, com o que o retrato sempre sairá mais para Dorian Gray do que para o radioso Olympio. Tal técnica de uma-no-cravo-outra-na-ferradura não se aplica à análise de Robb, que é sempre equitativo, mormente no julgamento dos atos políticos de Hugo, em geral mostrados como oportunistas pelos seus detratores. O grande mérito deste biógrafo, diante de uma vida tão rica e exaustivamente documentada como a de Hugo, está em saber o que deixar de fora, por excedente, sem nunca sacrificar o detalhe, quando esclarecedor. Graham Robb usa a dosagem certa e se o livro atingiu o volume a que chegou é porque tinha material suficiente para escrever dez outros. Ele passou três anos mergulhado na obra de Hugo; leu tudo, romances, peças de teatro, artigos de jornal, noticiário da época, ensaios, todos os poemas, a infinidade de cartas… sem falar nas mais de quinhentas obras que consultou para escrever o livro. Fazê-lo foi para ele, segundo afirma, a justificativa do tempo que levou entregue a essas pesquisas e leituras. Mas nada disso bastaria para alcançar o resultado obtido se não fosse ele o grande escritor que aqui se mostra. Aquinhoado em 1997 com o prêmio Whitbread, Robb certamente não perdeu seu tempo e saíram ganhando igualmente os leitores que poderão conhecer agora, de corpo inteiro, uma das figuras mais representativas do século XIX.

Mas, poderão perguntar os leitores: para que conhecer Victor Hugo? Quem está a fim de o ler hoje em dia? Nos Estados Unidos já corre a piada do casalzinho que vendo o volume na vitrine de uma livraria, ele pergunta a ela: Isn´t that the guy who wrote Les Miz? (Não é esse o cara que escreveu Os Miseráveis?). E o mais sintomático é que não estava se referindo ao livro e sim ao musical, hoje tido como o de maior sucesso na Broadway, já há dez anos em cartaz somente nos Estados Unidos. Outra mostra do ostracismo de Hugo em nosso tempo seria a referência a O Corcunda de Notre Dame, mas na versão Disney, com seu Quasi simpático e bonachão. Com boa vontade e quase beirando o cult, algum jovem ainda se arriscaria a citar Adèle H., não propriamente a filha alienada de Hugo que morreu em 1915 numa luxuosa clínica de repouso em Suresnes, mas aquela misteriosa personagem que a beleza de Isabelle Adjani viveu no filme de Truffaut. O Hugo romancista e poeta não mais existe para o público da França e muito menos o daqui. Mas os leitores não sabem o que estão perdendo. Seus romances são muito mais que histórias digestivas, e não ter lido O último dia de um condenado, O corcunda de Notre Dame, Os miseráveis, O homem que ri e Os trabalhadores do mar é ter passado de olhos vendados pela juventude. Uma oportunidade de penetrar o grandioso em nosso tempo de mesquinharias. Quanto aos poemas, estes foram marcos inovadores, faróis determinantes das novas tendências da época e representaram o momento mais alto da Poesia de seu tempo. Mas é difícil admitir que algum colegial, mesmo francês, saiba hoje algum deles de cor. Sua importância no entanto foi tão grande , mesmo muito tempo depois, que imitadores ou discípulos surgiram em todas as partes do mundo. Em Portugal, houve Guerra Junqueiro, que era tão parecido com o mestre que chegou a escrever uma Arte de ser avô, cujo título copia servilmente L´Art d´être grand-père do poeta francês. No Brasil, a voz de Castro Alves teve ressonâncias hugoanas e suas apóstrofes e metáforas condoreiras se ombreiam com os vôos olímpicos do vate.

Quando André Gide, ao dar uma entrevista sobre a antologia poética que preparava para a Gallimard, perguntado sobre quem era o maior poeta francês de todos os tempos, respondeu: Victor Hugo, hélas! — essa lamentação ficou tristemente famosa a ponto de se tornar hoje em dia um dos poucos pontos de referência do leitor em relação a Gide. O desprezo ou insensibilidade pela poesia de Hugo prosperaram à solta até que os surrealistas resolveram restaurá-lo e Breton o incluiu entre os profetas do surrealismo. Em 1963, Georges-Emmanuel Clancier em seu Panorama Crítico da Poesia Francesa – de Chénier a Baudelaire, com que tornou famosas as antologias publicadas por Seghers, refutava a boutade de Gide: “Como se ousa denegrir ou ignorar este imenso, este maravilhoso, este poeta único? Como se pôde tratar de estúpido a esse gênio? Como André Gide achou que devia acrescentar um hélas, que acabou célebre, à sua resposta que dava Victor Hugo como o maior poeta francês? Mas é claro, o maior, sim, e não hélas mas hurra! mas bravo, mas bendito o céu! o céu que não é mais vasto nem mais diverso do que o gigante criador da Legenda dos Séculos, do Fim de Satã ou dos Miseráveis!” Palavras evidentemente de um torcedor vestindo a camisa, mas o inquestionável e marfínico Valéry também assim se exprimiu: ” Que versos prodigiosos, aos quais nenhum outro verso se compara em extensão, organização interna, em ressonância, plenitude, ele escreveu no último período de sua vida!” Aconselho aos leitores que nunca leram nenhum verso de Hugo que tentem pelo menos o Booz endormi, para se restaurarem no grande clima da poesia do Romantismo.

No ano que vem, 2002(*), teremos o bicentenário de nascimento de Hugo e certamente seus livros serão reeditados como aconteceu agora com Os Maias. Talvez então os leitores estejam a fim e não percam a oportunidade. Mas enquanto não chegamos lá, aqui está à mão esta biografia definitiva de Graham Robb que lhe contará a vida de Hugo, desde o momento de sua concepção (sabe-se perfeitamente o lugar onde foi gerado); a infância de menino genialmente precoce; a desagregação familiar dos pais; o romance com a vizinha Adèle, disputada com o irmão Eugène que acaba louco; a viagem à Espanha onde o pai, general, servia e que lhe ficará gravada no subconsciente a ponto de na velhice fazer anotações em seu diário secreto num espanhol paellônico, hoje devidamente decriptado; seu casamento, a esposa, as amantes, os filhos, a perda de Léopoldine, a dileta, que morreu afogada; seu sucesso de escritor a partir do primeiro livro; a extraordinária ascensão como poeta, pelo domínio do verso e a profusão de imagens faiscantes; a entrada para a Academia Francesa aos 39 anos; a atuação política, com a guinada de monarquista e fervoroso defensor de Napoleão, le grand a republicano e inimigo frontal de Napoleão, le petit; seu teatro de conotações político-sociais cujas estréias constituíam verdadeiras batalhas; o exílio de 18 anos nas ilhas de Guernsey e Jersey; a volta triunfal a Paris; os anos de glória na avenue du son nom; as aventuras amorosas da velhice, inclusive seu bisio (decriptado como cópula) em Mme. Baa, a senhora barbadiana que lhe trouxe de volta a fujona Adèle, já então em estado de afasia, e sobre a qual anota em seu diário secreto: A primeira negra de minha vida, o que além de demonstrar que os franceses são de fato chegados ainda atesta que são também otimistas. Finalmente a morte e o funeral, o maior que já se registrou na história da França. Mas não é só a novela Hugo que assistimos em G. Robb; ele também conta, analisa e interpreta os livros (em prosa e verso) instigando o leitor a melhor conhecê-los. Se não tivesse todos os outros méritos, seria este suficiente para recomendar o livro. Bom proveito.

(* Este artigo foi escrito para o Prosa & Verso em 2001, quando saiu a biografia de Graham Robb).

OS MISERÁVEIS E A TENTAÇÃO DO IMPOSSÍVEL

Nos dois suculentos volumes de sua “clássica” biografia de François Victor Hugo, o historiador Alain Decaux nos afirma: “Sabemos tudo sobre ele” e, para provar sua asserção, chega a ponto de nos revelar detalhes íntimos do grande gênio, como por exemplo seu trato erótico-senil com as criadas de Guernesey, às quais gratificava com miseráveis quantias para lhe mostrarem o pé, um trecho da perna ou (o mais caro) a curva de um seio. O intuito – louvável – de Decaux foi o de apresentar um Hugo humano, de carne e osso, com todas as virtudes e defeitos de um indivíduo comum, não obstante a auréola de supergênio, de Homem-Oceano, que oficialmente o acompanha. Mas, se investigações dessa natureza são apreciadas pelos fã-clubes de vária natureza, paira uma dúvida quanto à necessidade (e, mais ainda, quanto à utilidade) desse tipo de levantamento, desse escrutínio minidetalhista em relação a um autor cuja obra em si já lhe garante a perenidade sonhada pelos gênios. Não resta dúvida que o conhecimento de um escorço biográfico, de certos enfoques sobre o ambiente familiar e os componentes da formação de um escritor possam concorrer para a melhor apreciação de sua obra, mas, em nosso entendimento, seria bastante preferível que os analistas se debruçassem sobre as peculiaridades da obra, perscrutando-lhe o estilo e as intenções, a se deterem em aspectos mundanos e circunstanciais do cidadão-autor que em nada contribuem para o entendimento dela. A ênfase exagerada sobre os aspectos episódicos da vida de grandes autores não raro leva ao distanciamento ou ao desinteresse pela obra, e tenho disso experiência própria: muitos jovens que não leram sequer a Saison en Enfer, não se acanhavam em me perguntar se Rimbaud tinha sido traficante de armas…

Creio que nunca estaremos livres desses aspectos secundários que podem ser encontrados em biografias detalhistas nas quais um autor é tratado como verdadeiro popstar e em que são expostos todos os escaninhos de sua privacidade, a ponto de lhe descreverem os chinelos e abotoaduras. Recentemente, e contrariando a norma de a biografia de Hugo ser apanágio de acadêmicos em fim de carreira, o universitário Jean-Marc Hovasse, de 35 anos, vem de lançar o 2º volume (dos quatro previstos) de seu até agora imbatível trabalho, com 1300 páginas, 350 das quais só de notas; seu escopo é mais sério e os temas literários se sobrepõem às questiúnculas mundanas, a essa trívia que faz o deleite dos leitores de resumos. Mas…

Eis que, como um presente inusitado, por ser muito mais que uma biografia e englobar a vida e a obra de Hugo, chega-nos agora este ensaio que Vargas Llosa desenvolveu a partir de um curso de literatura europeia comparada, ministrado na Universidade de Oxford em 2004, e ao qual deu o título lamartiniano de “A tentação do impossível”. Nele, Vargas Llosa limitou-se a analisar em profundidade um único livro de Hugo, Os Miseráveis, mas, ao fazê-lo, é como se declarasse desde logo que tal livro representa o corpus de todo o pensamento do autor, o sentido de todas as suas ações, o alcance de todos os seus ideais. Chamando-o de “o divino estenógrafo”, Llosa mostra como o autor buscou criar uma “realidade” (que Hugo chama de dramática) mais abrangente do que a “realidade real”. Diz Llosa: “Os fatos que nos conta não são a verdade, a vida, a história; são ‘a verdade’, ‘a vida’, ‘a história’ do romance: [ou seja] de uma mentira” […] “Uma recriação da vida tão infiel quanto persuasiva, não uma reprodução do real, mas uma transgressão da realidade que por seu poder de convicção nos é imposta como verdadeira” […] A mentira radical que é a verdade da literatura”. E aqui ficaríamos citando indefinidamente todas as lúcidas frases deste ensaio, não fosse nosso intuito o de induzir o leitor a conhecê-lo em sua integralidade, a desfrutar da análise deste livro que chega a penetrar os recônditos das próprias intenções do autor. Llosa mostra como Hugo se faz onisciente e todo-poderoso, mas que se autocrítica a si próprio em seus arroubos, volta atrás, refaz o que lhe parece impróprio, arrepende-se às vezes do que fez, volta a fazê-lo como um deus atormentado em seu processo criativo. Hugo afirma na abertura do volume que seu livro é “uma passagem do mal ao bem, do injusto ao justo, do falso ao verdadeiro, da noite ao dia, do apetite à consciência, da podridão à vida, da bestialidade ao dever, do inferno ao céu, do nada a Deus. Ponto de partida: a matéria; ponto de chegada, a alma. A hidra no princípio e o anjo no final”. E Llosa esmiúça cada uma dessas “intenções”, dessas dicotomias maniqueístas, descobrindo-lhes as falhas, os exageros, as manipuladas coincidências, e também as suas grandiosas conclusões. Analisa o comportamento de cada um dos personagens – arquétipos do bem e do mal, da consciência e do dever, da pureza e da devassidão, etc. – desvendando-lhes o que têm de verossímil, de humano ou de meramente ficcional, sem deixar de concluir que Hugo, nesta obra, criou alguns dos tipos mais consistentes de toda a literatura mundial. Um dos momentos apiciais do livro – a batalha de Waterloo – cuja vitória Hugo atribui à providência divina (e não aos ingleses) encontra, nos comentários de Llosa, uma substancial digressão sobre “a prodigiosa habilidade do acaso”. Mas o ensaio não deixa de comentar igualmente as críticas desfavoráveis sofridas pelo livro logo após sua publicação, principalmente as de Alphonse de Lamartine, que, na base do politicamente correto, escreveu uma resenha acusatória que acabou se tornando o opúsculo A tentação do impossível, título de que Vargas Llosa se apropriou para designar este seu ensaio, no qual avalia, igualmente, os argumentos um tanto convencionais de Lamartine, que acreditava ser possível a um grande romance “subverter a ordem social”. Vargas Llosa consegue com este livro ser o maior resenhista que Victor Hugo poderia desejar para o seu livro. Confira. E, a propósito, você já leu Os Miseráveis? [A melhor tradução que conheço é a de Frederico Ozanam Pessoa de Barros, editada pela Cosac & Naify em 2002, correta e completa]

(Publicado em Prosa & Verso, em 21.01.2012, como o título “Victor Hugo por inteiro”)

Bom proveito.

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Jane Austen é, sem dúvida, a personagem literária que mais aparece neste blog. A preferência se explica, em parte, por eu ter traduzido dois de seus livros (Razão e Sentimento, Emma), e considerá-la um dos maiores escritores da língua inglesa, mas igualmente por saber que os assuntos relativos a ela despertam o interesse e o fascínio de uma legião de leitor(e)as.  A seu respeito, aqui já se encontram nove postagens, a primeira datando de 19/08/10 e a última de 29/02/12. Para acessá-las basta escrever na pesquisa: Jane Austen. Agora, em homenagem ao bicentenário de publicação de Razão e Sentimento, seguem abaixo os três prefácios que escrevi para as edições de bolso da L&PM (leia-se Caroline Chang), antecedidos das belas capas em que se apresentaram.

JANE AUSTEN, A “BOA TIA DE STEVENTON”

Ivo Barroso

 Em 1817, falecia em Winchester, no condado de Hampshire, no sudeste da Inglaterra, uma frágil solteirona de 43 anos, de parcos dotes físicos, mas desenvolta dançarina nos saraus da província, que, com o correr dos tempos, se tornaria conhecida como uma das mais importantes escritoras da língua inglesa. Chamava-se Jane Austen e começou a escrever histórias apenas para a distração de seus inúmeros sobrinhos, chegando mais tarde a publicar alguns livros, o primeiro deles sob pseudônimo. O que se tornou mais famoso, precisamente este “Orgulho e Preconceito” (Pride and Prejudice, em inglês), numa enquete organizada pela BBC de Londres, em 2003, sagrou-se como o segundo “Livro mais amado pelos leitores do Reino Unido”.

Com base em suas narrativas, têm sido feitas inúmeras adaptações cinematográficas, algumas bem recentes até, daí falar-se num revival de Jane Austen, mas a expressão é inadequada, pois a autora de “Razão e sentimento” (1811), “Orgulho e preconceito” (1813), “Mansfield Park” (1814) e “Emma” (1816) nunca esteve literariamente morta, embora tenha falecido para o mundo há quase dois séculos. Seus leitores – e não só os de língua inglesa – têm sido fiéis, constantes e crescentes em todos estes anos que viram a obra literária da “boa tia de Steventon” atingir fabulosas tiragens, comparáveis apenas com as da Bíblia e de Shakespeare.

Usando a narrativa como veículo para uma acerba crítica da sociedade em que vivia, defensora incontornável da moral mas sem arroubos moralistas, preferindo a ironia ao sermão, Jane Austen conseguiu criar personagens vivos e inesquecíveis com sua arte de pintar em subtons e nas entrelinhas o mundo provincial onde transcorreu sua pobre e curta existência. Somente através de uma observação vivida poderia essa “boa tia” transcender os parcos limites do serão familiar para projetar seus personagens na galeria dos grandes vultos criados pela tinta negra. E a despojada forma de seu estilo os preserva ainda hoje, saborosos e latentes, em meio aos milhares de poderosos vultos que nestes 190 anos vieram enriquecer a literatura mundial.

Mas, antes de mais nada, em que consiste esse famoso estilo? Jane Austen não está sozinha na galeria de mulheres escritoras da literatura inglesa de seu tempo: em 1847, Charlotte Bontë publica “Jane Eyre”, e sua irmã, Emily, “O Morro dos Ventos Uivantes”; em 1860, George Eliot (pseudônimo de Mary Ann Evans) lançará seu “romance novo” (The mill on the floss). São todas obras-primas da literatura romântica, sendo que o livro de Eliot inova o gênero com suas preocupações morais e psicológicas. No entanto, nenhuma delas conseguiu ser tão apreciada quanto Jane Austen, talvez por lhes faltar esse ingrediente que é das pedras de toque da literatura inglesa: o humor. Jane é espirituosa, é sarcástica, é gozadora. Os aspectos cômicos da pequena aristocracia inglesa são por ela expostos ao ridículo por meio das fraquezas vocabulares e das gafes. Em seus livros abundam as futricas e os mal-entendidos. Neles quase não há descrições; estão praticamente ausentes de paisagens, mesmo porque a autora muito pouco viajou. Toda a ação se passa no interior das residências, é induzida através dos diálogos ou das cartas. Mas que maneira espantosa de reproduzir tais diálogos ou de escrever tais cartas! Por eles, mesmo em tradução, Jane Austen nos permite avaliar o grau de educação ou a ignorância do personagem ou situá-lo na escala social. No romance “Razão e Sentimento”, por exemplo, quase todas as falas da Sra. Jannings são antológicas, meras tentativas frustradas de o personagem aparentar o que não é, deixando sempre escapulir, pela tangente, um termo, uma expressão menos adequada ou um cacoete vocabular, que denunciam sua real personalidade ou sua formação cultural. Outro recurso estilístico de que Jane Austen se valeu de maneira exemplar foi o da inclusão de cartas no decorrer da narrativa. Na época em que viveu, a correspondência desempenhava um papel de relevância na vida familiar, não só por serem o veículo transmissor das notícias, mas igualmente por determinar o caráter do signatário; nelas, o missivista punha à mostra o seu grau de instrução, seu conhecimento da língua e das boas maneiras sociais e, principalmente, a nobreza de seus sentimentos, que as convenções preconizavam fossem contidos ou dissimulados. Em Jane Austen, o trecho em que transcreve uma carta vale por uma longa descrição de fatos ou por uma demorada análise do comportamento do subscritor.

Tendo vivido no ambiente limitado de uma pequena paróquia de que seu pai era o rector (uma espécie de páraco-professor), Jane escreve sobre o que vê e conhece: as tentativas de ascensão na escala social, o valor das pessoas determinado pela sua renda anual (“considera-se gentleman todo aquele que se mantém sem recorrer ao trabalho manual”), o grau de ignorância dos falsos nobres, a maldade das pessoas boas, e, mais que tudo, a luta das mulheres para se casarem, única porta de saída para a modificação (ainda que precária) de seu status de animal doméstico. Mas o que ainda hoje mais nos surpreende nas deliciosas narrativas de Jane Austen – o atrativo estilístico que lhe tem proporcionado tamanha popularidade — é sem dúvida seu tom “moderno”, a agilidade, o suspense, e mesmo o “gancho”, que imprime à sua narrativa um sabor de novela de TV, naturalmente de alto nível. Apesar das anquinhas e das anáguas que revestiam todo o corpo das mulheres, os calções amarrados da cintura aos calcanhares; as blusas de punhos cerrados; as luvas, as golas altas; os amplos chapéus, as boinas e bonés, que transformavam a mulher num pacote de gesso ou porcelana, encouraçando-a contra qualquer tentativa de carícia, para nem pensar em algo mais – a mulher, a personagem feminina de Jane é uma explosão de vitalidade, e seus olhos – única possibilidade de comunicação – transmitem todos os sentimentos, todas as emoções, todo o grande frêmito de vida amorosa não realizada, que certamente foi o grande drama pessoal da novelista inglesa. Em sua contenção emotiva, determinada pelo puritanismo da época, as personagens femininas não deixam, no entanto, de ser criaturas vivas e vibráteis, e mesmo quando contrapostas aos seus modelos antitéticos, racionais, essa racionalidade sabe compreender e equacionar os anseios da paixão e os desvarios da mente. Seus personagens e diálogos parecem (pratos) feitos para o cinema: os textos dos romances são verdadeiros scripts. Não é de se admirar que tantos filmes já tenham transposto para as telas as suas histórias aparentemente ingênuas, dando vida a personagens que já eram, nos romances, a configuração de tipos inesquecíveis. Aqui, em “Orgulho e Preconceito”, a lenta caracterização da figura de Firzgerald Darcy, evoluindo de uma pessoa antipática e pretenciosa para, num timing perfeito, se mostar magnânimo e providencial  na reabilitação de Lydia (irmã mais nova de Elizabeth Bennet, a principal personagem feminina); a guinada transcendente que nos leva a reconsiderar sua atitude reservada e distante dos primeiros momentos, capaz de provocar em nós, como leitores, uma certa aversão por esse nobre afetado, ao sabermos finalmente que ele foi, desde o início, um enamorado precavido e respeitoso, compensando, no fim,  a heroína Elizabeth por todo o sofrimento e dúvidas que teve a seu respeito –todas essas fabulações e artimanhas de  Jane Austen, esses enredos e quiproquós que animam os seus relatos, e que foram, depois dela, utilizados milhares de vezes para movimentar as novelas e os folhetins – servem para evidenciar seu talento de escritora, seu espírito de observação, sua penetração psicológica, ou, reafirmamos, ainda que possa parecer paradoxal, sua “modernidade”. Embora tenha sido publicado em 1813 como seu segundo livro, “Orgulho e Preconceito” é, na verdade, a primeira tentativa de Jane para ver um manuscrito seu impresso. Com o título de “First Impressions” (Primeiras Impressões), a novela, composta entre outubro de 1796 e agosto de 1797, não chegou a realizar aquele sonho, tendo sido recusada pelo editor Thamas Cadell. Duramente retrabalhados, os originais, sob a nova denominação de “Pride and Prejudice”, foram finalmente vendidos ao editor Thomas Egerton, que os publicou em três volumes encadernados, dezesseis anos depois.

Mas, na verdade, esse primeiro livro já pode ser tido como a súmula do que seria a temática e a estilística pessoais de Jane Austen ao longo de sua criação literária: a apresentação minuciosa da vida corriqueira de uma cidadezinha interiorana , a organização das famílias na sociedade aristocrática da Inglaterra da virada do século XVII para o século XIX, as irmãs casadoiras cuja única esperança de realização é conseguir um casamento “confortável”, ou seja, com um militar ou um pastor anglicano (cujos rendimentosanuais eram públicos), já que os nobres (“amores impossíveis”), com suas posses e moradias senhoriais, só se casavam com pretendentes do mesmo nível econômico.Com base neste esquena simplista e simplório, Jane Austen, no entanto, povia seu mundinho com pessoas sensíveis e ardorosas, belas e bem dotadas intelectualmente, embora compense esse quadro idealístico também com personagens caricatois e alguns histriões de caráter duvidoso. Embora os críticos mais exigentes considerem “Persuasão” sua obra póstuma de 181, o seu melhor romance, e por mais distante que o cenário austiano possa parecer em relação à vida atual, a leitura de “Orgulho e Preconceito” tem conquistado a preferência dos leitores de todo o mund, talvez porque represente o núcleo gerador de todo um universo de sonho e de beleza.

Há críticos que estranham a inexistência, nos livros de Jane Austen, de quaisquer menções políticas relacionadas aos acontecimentos universais de sua época. Embora dois de seus irmãos pertencessem à Armada britânica durante as guerras napoleônicas, não há em toda a sua obra a mais leve referência a esses conflitos que perturbavam o mundo e atingiam inclusive (e de maneira significativa) a Inglaterra. Seu silêncio sobre a Revolução francesa pode, em parte, ser explicado pelo drama que sofreu sua prima Eliza, casada com um nobre francês, o conde de Feuillide. Ela costumava passar temporadas em Steventon com os Austen; quinze anos mais velha que Jane, devia ser para esta um motivo permanente de encanto pela alta posição que conquistara com o casamento (embora ela também tivesse posses) e um modelo perfeito para a observação estudiosa de uma jovem escritora. Eliza gostava de representar, e sua permanência em 1787 com os Austen ficou assinalada por ter movimentado os dotes dramático-amadorísticos  da família, ensejando frequentes encenações de esquetes de autoria das jovens no grande celeiro contíguo à propriedade rural. Durante sua estadia, a vida das irmãs Jane e Cassandra se animou com leituras em  voz alta e narração de histórias, não só em proveito das crianças da casa, mas igualmente de parentes e vizinhos que vinham se deleitar com as brincadeiras e a música. Mas em 1787, ocorreu o grande choque, que tornaria Eliza viúva e provocaria em Jane um estado de pânico toda vez que se pronunciava diante dela o nome da França. O conde de Feuillide, tendo corrido em defesa de seu amigo, o marquês de Marlboeuf, perseguido pela Revolução, acabou sendo igualmente incriminado e morreu na guilhotina em Paris. Tal acontecimento dramático na vida de uma escritora de grande sensibilidade pode ter criado em Jane Austen uma aversão ou temor pelos acontecimentos mundiais.

Jane Austen nasceu em Steventon, no Hampshire (Inglaterra) a 16 de dezembro de 1775, penúltima dos oito filhos do reverendo George Austen (1731-1805) e de sua mulher Cassandra Leigh Austen (1739-1827), que exerciam suas funções presbiteriais da Igreja Anglicana nas pequenas paróquias de Steventon e Deane. Dois anos depois dela, nasceria o último dos filhos, Charles John, que, como o irmão Francis William iria distinguir-se na Armada de Nelson, ambos chegando ao posto de almirante. Dois outros de seus irmãos, James e Henry, seguiram a carreira eclesiástica do pai;  George, o segundo filho, que viveu permanentemente afastado do lar, internado em casas de repouso talvez devido a seus distúrbios mentais, faleceu com a avançada idade de 72 anos; Edward, adotado por um longínquo parente abastado, conseguiu alcançar a nobreza como proprietário de terras herdadas do tutor, e será em sua propriedade de Chawton que as irmãs Austen irão residir depois da morte do pai; Cassandra Elizabeth, a irmã única, morreu aos 73 anos,  solteira, como Jane. Segundo o costume inglês, cabia-lhe o designativo de Miss Austen, por ser a mais velha, tratamento este que passaria a Jane caso Cassandra viesse a casar-se, e, como tal não aconteceu, Jane costumava brincar dizendo ser ela “a outra Miss Austen”. (Oportuno esclarecer que, segundo aquele costume, a escritora devia ser chamada por Miss Jane, omitindo-se o nome de família). Vítima de moléstia que hoje se supõe fosse a doença de Addison, um distúrbio hormonal, então fatídico, que destruía totalmente as glândulas supra-renais, a maioria das vezes por lesão tuberculosa, Jane veio a falecer aos 42 anos, na vizinha cidade de Manchester, para onde fora levada em tratamento. Todos os irmãos, exceto Edward, casaram-se duas vezes e tiveram muitos filhos. Jane e Cassandra adoravam os sobrinhos e é da primeira a frase “lt’s better to be a loving aunt than a famous writer” (é melhor ser uma tia amorosa que uma escritora de fama). Cassandra, foi sempre sua grande amiga e confidente; chegou a ficar noiva, aos 24 anos, do reverendo Thomas Fowie, que acabou morrendo de febre amarela, nas Índias Ocidentais, antes do casamento. Jane teve uma paixonite por Thomas Lefroy, seu primo longínquo, irlandês, que passava as férias em Hampshire; em seu regresso à Irlanda, ele se casou com outra, exerceu o alto cargo de Lord Chief Justice (uma  espécie de promotor público) e, na velhice, muitos anos depois do falecimento de Jane, confessou “ter amado a grande Jane Austen… mas que fora um amor de juventude” (a boy’s love). Sabe-se também que em 1802, durante umas férias em Marydown, Harris Bigg-Wither a pediu em casamento; Jane, que tinha 27 anos, assumiu na hora o compromisso, mas fugiu com a irmã nessa mesma noite, voltando para a casa dos pais em Bath, sem que se soubessem as razões tanto da aceitação quanto da recusa, certamente esclarecidas em cartas à irmã, que foram depois de sua morte destruídas por esta. No entanto, numa carta à sobrinha Fanny,  filha mais velha de seu irmão Edward, Jane fala a respeito de amor e conveniência no casamento: “voltando ao assunto, quero lhe suplicar para não se comprometer demasiadamente, e nem pensar em aceitá-lo a menos que realmente goste dele. Tudo pode ser suportado menos um casamento sem Afeto.”  Isto pode explicar sua ruptura com Harris Bigg-Wither, com quem, aliás, manteve amizade mesmo depois do desentendimento.

A família Austen era abastada; o pai, além dos estipêndios que usufruía de suas funções paroquiais, preparava alunos, às vezes na condição de internos, para os exames de Oxford. Jane passou os primeiros vinte e sete anos de sua vida em Steventon, ausentando-se em duas pequenas ocasiões: em 1782 foi com a irmã para o pensionato da Sra. Cowley, em Oxford, onde já estudava sua prima Jane Cooper. No pensionato, Jane contraiu crupe (difeteria), doença então conhecida na Inglaterra pelo nome de “ferida pútrida na garganta”. Se não fosse pela advertência aos pais de Jane e Cassandra, Jane teria morrido nessa ocasião. Posteriormente, em 1785/87, as irmãs Austen foram estudar no pensionato de Mme. Latournelle, em Reading. Mas a formação literária de Jane só se deu realmente quando, na volta de Reading, começa a estudar com o pai e os irmãos mais velhos. Ela escrevia abundantemente: cartas, peças de teatro, poesia, farças, novelas. Em novembro de 1797, o pai, cônscio do   talento da filha, enviou a um editor londrino (Cadell) o manuscrito de First impressions, cuja publicação foi recusada. Anos mais tarde, após o êxito de “Razão e Sentimento”, Jane retoca essa primeira novela, transformando-a em “Orgulho e Preconceito”. Quando em 1802, o pai se jubilou de suas atividades eclesiásticas e a família foi morar em Bath, Jane já havia composto as versões iniciais de três novelas que iria mais tarde reescrever e publicar. Em 1803, o sr. Seymor, empregado de seu irmão Henry, enviou seus manuscritos de Susan para os editores Crosby & Co., que os adquiriram por dez libras para publicação. No entanto, passados seis anos, a novela não havia saído; Jane, usando o pseudônimo de Mrs. Ashton Dennis, consegue recuperar os originais e os transforma em Northanger Abbey, publicado postumamente.

Em 1805, o pai, George Austen, morre. Jane e Cassandra assumem o papel de tias, vivendo sempre rodeadas de sobrinhos. Seu relacionamento maior é com o irmão mais velho, o rev. James Austen, cujo filho, James Edward iria publicar em 1870 sua Memória de Jane Austen. Em 1811, sai sua primeira obra impressa, Sense and Sensibility (Razão e sentimento), assinada By a Lady (por uma Senhora). Durante toda a sua vida Jane manteve o anonimato. Nos últimos anos, já enferma, escreveu Persuasion e reviu Northanger Abbey. Deixou inacabado o último livro, Sandition, ao morrer a 18 de julho de 1817. 0 irmão Henry foi quem revelou a identidade da autora e supervisionou a publicação destas duas últimas novelas em 1818.

Jane Austen e o real transfigurado

No dia 18 de julho de 1817, após um ano de invalidez, Jane Austen faleceu de uma enfermidade cuja etiologia nunca foi definitivamente estabelecida. A hipótese mais provável é que tenha definhado em consequência do “mal de Addison”, conforme diagnosticou o renomado cirurgião inglês, Sir Zachary Cope, num artigo publicado no British Medical Journal em 1964, precisamente no dia em que essa data mortuária completava 147 anos. Sua asserção se baseia principalmente nos sintomas descritos pela própria enferma em cartas aos seus amigos e parentes, no curso da doença, e corroborados pelas observações de seus irmãos Cassandra e Henry, e da sobrinha Caroline, após seu falecimento. Trata-se de doença degenerativa, ligada a uma deficiência da glândula suprarrenal, que acarreta debilidade física e perda progressiva dos movimentos.

Jane começou a sentir os primeiros sintomas no início daquele ano e em 14 de março escreve à sua sobrinha Caroline: “Não há dúvida de que há algum tempo não venho passando bem e cerca da última semana me senti muito fraca, com períodos de febre e noites mal dormidas, mas agora estou consideravelmente melhor, recuperando um pouco minha aparência, que andava bastante má, as faces ora muito pálidas, ora muito sombrias, com cores sempre desagradáveis. Não alimento a esperança de me recuperar de todo. A doença é uma Moratória perigosa na minha idade”. Mesmo assim, Jane ainda tinha ânimo de manter sua correspondência familiar, mas já pelo mês de março abandonou a ideia de prosseguir escrevendo sua novela (inacabada), Catherine, hoje conhecida como Sandition, colocando o manuscrito “por enquanto na gaveta”, conforme suas próprias palavras, às quais acrescentou: “e não sei se sairá dali um dia”.

A crescente dificuldade de caminhar leva-a a compor um “esquema” a fim de se “sentir mais atuante”: mandou fazer uma sela para o burrico que puxava a carrocinha das crianças (esta peça pode ser vista ainda hoje na casa-museu de Chawton), sobre a qual se deslocaria para percorrer os arredores e exercitar-se. Mas esses passeios, com sua sempre elogiada enfermeira Cass e o sobrinho Edward, vão ter pouca duração. Em abril, Jane piora, seu estado de saúde agrava-se com a depressão que lhe causa a notícia de que sua mãe, por um motivo qualquer, não fora contemplada no testamento de seu tio Leigh Perrot. Jane sempre temera a pobreza e os apuros de uma solteirona sem recursos, e essa herança era para elas a grande esperança de uma velhice segura. Durante a vida do pai, o reverendo George Austen, a situação econômica da família era bastante despreocupada; além dos rendimentos de seu cargo eclesiástico, o reverendo George dava aulas e mantinha uma espécie de pensionato para seus alunos em Steventon. Ao morrer, em 1805, o cargo passou para seu filho mais velho, James, e a sra. Austen e suas duas filhas foram morar em uma propriedade do filho mais velho do casal, em Chawton, pequena cidade a sudeste da Inglaterra, a cerca de cem quilômetros de Londres. Como as mulheres da época não tinham profissões remuneradas, elas se mantinham com as doações dos filhos mais velhos.

Jane, então, passa a guardar o leito, só se erguendo até o sofá, mas mesmo assim conservando um espírito firme e brincalhão nas cartas que continua a escrever, e nas quais enaltece o cuidado que seus familiares demonstram para com ela. Em breve, o farmacêutico de Chawton, sr. Alton, sente-se incapacitado para cuidar da enferma e sugere sua transferência para a cidade de Winchester, a cerca de trinta quilômetros de lá, onde ficaria sob a supervisão médica do cirurgião sr. Lyford. O irmão James, pároco de Steventon, manda sua carruagem transportá-la até a casa da sra. David, na College Street, onde ficará hospedada durante o tratamento. Seu outro irmão, Henry, e o sobrinho William Knight seguem a cavalo acompanhando a carruagem, e Jane assim descreve a jornada em carta a uma sobrinha: “Graças à bondade de seus pais em me mandarem sua carruagem, minha viagem de domingo transcorreu sem muita fadiga para mim, e, se o dia estivesse bonito, creio que eu nada teria sentido, mas entristeceu-me ver tio Henry e o filho William – que nos acompanharam a cavalo – fazerem praticamente todo o percurso sob a chuva”.

Jane Austen, que em vida adorava bailes e era excelente dançarina, via-se agora condenada a uma cadeira de rodas. Em sua enfermidade, alternava períodos de febre e profundo desânimo com momentos de euforia e de enganosa recuperação, sintomas assinalados pelo dr. Zachary Cope como sendo característicos da doença de Addison. Os frequentes ataques, a palidez crescente, a voz cada vez mais débil prenunciavam o fim. Eis como a irmã Cassandra descreve seus últimos momentos numa carta dirigida à sobrinha Fanny Knight no dia seguinte à morte de Jane: “Encontrei-a recuperando-se de uma imensa fraqueza e opressão, e ela ainda teve forças de me descrever com minúcia o ataque apoplético que sofrera e já às seis horas estava falando tranquilamente comigo. Mas não sei dizer exatamente quanto tempo depois foi novamente acometida da mesma debilidade. Seguiram-se dores indescritíveis, e quando o dr. Lyford chegou e aplicou-lhe algo para acalmá-la, ela permaneceu num estado de quieta insensibilidade quando muito até as sete. Daí até as quatro e meia, quando cessou de respirar, praticamente não moveu um músculo”. Sabe-se que, próximo do fim, quando indagada pelos que a atendiam se ela queria alguma coisa, sua resposta foi Nada além da morte.

Jane Austen foi enterrada na Catedral de Winchester, na mesma cidade onde faleceu. Uma longa lousa de mármore negro marca o local no pavimento da igreja [vide neste blog “Os epitáfios de Jane Austen]. Embora exaltando suas qualidades morais e sua grandeza de espírito, não há no epitáfio qualquer referência à sua condição de escritora. Embora Jane Austen em seus derradeiros anos já desfrutasse de um público leitor considerável, seus livros ainda eram editados sem assinatura ou, quando muito, mencionando tratar-se da “mesma autora de Orgulho e preconceito”. Seria em respeito à excessiva modéstia e determinação de Jane em se manter anônima, ou provavelmente nessa época não se considerasse de “bom tom” ter uma “mulher escritora” na família?… O lapso foi finalmente compensado em 1872, depois que seu sobrinho James Edward Austen-Leigh publicou as Memórias de Jane Austen, autenticando sua autoria.

***

Sabe-se que Jane Austen começou a escrever sua última novela, Persuasion, pouco depois de haver terminado Emma (março de 1815), para concluí-la em agosto de 1816, um ano antes de falecer, aos 42 anos incompletos. Não há nenhuma indicação segura de que tenha escolhido este rótulo para o livro, e mesmo alguns críticos julgam que sua intenção tenha sido o de chamá-lo “The Elliots” – mas a verdade é que Jane morreu sem ter dado nome à obra. No entanto, nenhum título poderia ser mais adequado e expressivo do caráter do romance do que Persuasão, palavra mencionada com frequência ao longo da narrativa e que soa como uma espécie de leitmotiv no desenvolvimento da ação. Depois de usar em seus livros títulos que expressam sentimentos, em geral dicotômicos (ou mesmo antagônicos), capazes de caracterizar as linhas mestras do enredo, tais como Orgulho e preconceito, Razão e sentimento, Jane utilizou topônimos e locativos (Mansfield Park e A abadia de Northanger) para finalmente concentrar a designação no nome do personagem principal: Emma. Tudo indica que seu último romance, escrito pouco depois deste percurso, seguiria a tendência com o antropônimo “The Elliots”, mas a escolha de “Persuasão”, na primitiva linha dos títulos designativos de sentimentos, revelou-se a opção perfeita, com ou sem a participação da autora.

Jane Austen certamente se inspirava nos acontecimentos de sua vida e dela retirava entrechos com os quais constituir suas novelas. Não que seus livros sejam meramente autobiográficos; seu talento literário lhe permitia transfigurar experiências vividas em deliciosas ficções, a ponto de se poder dizer que seus personagens são mais fortes do que os seres humanos e as situações que possivelmente os inspiraram. Não obstante seu exuberante talento criativo, sua especial capacidade de inventar tramas e situações imprevistas, cujo desdobramento se acompanhava de grandes tiradas de ironia e até mesmo de sarcasmo na descrição dos hábitos sociais de sua época, vez por outra os críticos puderam apontar, em seus romances, episódios ou circunstâncias que lembram fatos de sua própria vida. Em Razão e sentimento, por exemplo, logo no início do livro deparamo-nos com a sra. Dashwood e suas três filhas a enfrentarem problemas de subsistência com o falecimento do marido, já que a propriedade em que viviam, por força de testamento, ficara em poder de um meio-  irmão do falecido. Idêntica situação tinha sido vivida pela sra. Austen e suas filhas; no entanto, o – digamos – “entrecho novelístico” da narrativa supera de muito a situação real pelo desdobramento de seus imprevistos e consequências. Jane conseguia criar uma “realidade ficcional” que transcende a própria realidade vivida.

Em Persuasão esta capacidade atinge o ápice, pois no romance estão discutidas todas as implicações morais, sentimentais, sociais acarretadas pela responsabilidade de se induzir alguém a praticar um ato. Persuadir a outrem de fazer ou deixar de fazer algo, de tomar uma decisão ou renunciar a ela, quando isto pode ser vital e irretratável, é algo que deve ser encarado como uma interferência no próprio destino, no advento do futuro, no que virá ou viria a ser. E Jane em seu romance analisa não só as implicações do ato de persuadir em si, mas se detém igualmente nas consequências da abstenção de praticá-lo. Ao exercer, ainda que inintencionalmente, o poder de persuasão, quem o faz “modifica” o curso da história, altera – acelerando ou detendo – a marcha do tempo. Se consciente de seu papel de modificador de um momento existencial, o agente da persuasão enfrentará certamente a angústia de seu ato, na dúvida de ter procedido ou não com acerto até o desfecho final, que será irrecorrível.

De onde teria Jane Austen tirado um assunto tão complexo? Na verdade, ela vivenciou uma situação semelhante, que a fez, aliás, refletir sobre todas essas implicações. Pouco antes de começar a escrever o livro, sua adorada sobrinha Fanny Knight pediu-lhe conselhos sobre se devia romper seu já longo noivado ou esperar mais sete anos pela ascensão social e a independência do noivo. Antes, Jane já se mostrara favorável ao compromisso, enaltecendo as qualidades morais do pretendente, embora se sentisse em dúvida quanto à sua situação econômica. Ao ser instada pela sobrinha sobre o que devia fazer, Jane se vê em situação delicada. Em primeiro lugar, teme que a admiração que a sobrinha tem por ela possa, por si só, influir na decisão. Tia Jane é o retrato vivo do bom senso e das atitudes corretas; logo, o que ela disser determinará a resolução de Fanny. Jane não está segura da firmeza do amor da sobrinha. Resistirá a uma espera tão longa? E, se esse amor é de fato verdadeiro e capaz de resistir à longa espera, voltará o noivo em condições de assumir o compromisso?

Não estando certa de que a sobrinha resistiria à separação, nem persuadida da constância de seu amor, Jane envia-lhe uma carta em que se casam toda a compreensão de um ser humano com a clarividência de uma romancista de sua têmpera. “É melhor parecer volúvel e talvez nunca mais vir a conhecer um homem que seja igual a este do que comprometer-se prematuramente antes de provar a plenitude do amor. (…) Nada pode ser comparado a se estar comprometida sem Amor, comprometida com alguém e preferindo outro”. (Acresce ainda que Jane passou por situação semelhante, assumindo um compromisso de noivado e renunciando a ele no dia seguinte, talvez por se conscientizar de que de fato não amava o pretendente. Outro ponto de convergência está no fato de sua irmã Cassandra também ter tido um noivado prolongado com Thomas Fowle, que, não tendo condições financeiras para se casar, foi tentar a sorte no Caribe, onde faleceu de febre amarela em 1797. Jane e Cassandra morreram ambas solteiras).

Os críticos veem neste momento angustioso vivido por Jane Austen o embrião da história central de Persuasão, em que Anne Elliot desfaz seu compromisso com Frederick Wentworth, um oficial de marinha talentoso mas pobre, repudiado pela família dela, muito ciosa de seus bens e condição social. A figura de Frederick pode ser associada a experiências da vida familiar de Jane: dois de seus irmãos pertenceram à Armada britânica; Charles John, o irmão mais novo, foi feito capitão-de-mar-e-guerra, e Sir Francis chegou a almirante. Mas há outras semelhanças ou reminiscências em vários personagens secundários, que não vem ao caso mencionar. A mestria de Jane na elaboração de seus enredos se manifesta em especial na técnica da criação de núcleos e subnúcleos pelos quais a ação narrativa se desenvolve, a fim de compor um panorama final em que as histórias parecem atingir seu clímax, expediente do qual se utilizam até hoje os novelistas da televisão. (Embora não querendo insistir em paralelos entre suas criações literárias e fatos de sua própria vida, é curioso observar que, no caso especial de Persuasão, escrito quando a autora começava a sentir os efeitos da enfermidade que a vitimou, a “desprezada” Anne serve de enfermeira à sua “rival” Louisa Musgrove, que se acidentara, vítima de sua própria imprudência. A dedicação de Anne em cuidar de Louisa parece antecipar os desvelos que a enfermeira Cass teria durante a enfermidade da própria Jane…)

Persuasão foi publicado em 1818, um ano após a morte de Jane, em volume duplo com A abadia de Northanger, por iniciativa de seu irmão Henry, que sempre incentivou seus dotes de escritora e foi uma espécie de agente literário. No prefácio dessa edição, que ainda não traz o nome de Jane no frontespício, mas apenas a menção de que se trata da mesma autora de Orgulho e Preconceito, Henry, pela primeira vez, revela a identidade da novelista, ao mesmo tempo em que noticia seu recente falecimento. Tendo tomado ordens dois anos antes e se tornado vigário de Chawton, faz neste prefácio uma verdadeira homilia de exaltação ao sentimento religioso da irmã. Ao que tudo indica, foi ele também o autor da piedosa inscrição mortuária existente na Catedral de Winchester, já que oficiou como ministro nos funerais de Jane. Sabe-se que sempre foi seu desejo revelar ao público a identidade da autora de Orgulho e preconceito, Razão e sentimento, A abadia de Northanger e Emma; contudo, ao que parece, a modéstia da irmã (ou as conveniências sociais da época) só permitiram que essa revelação fosse feita post mortem, apesar de seus livros já serem então profusamente conhecidos.

A ABADIA DE NORTHAMBER OU A REJEITADA SUSAN

Jane Austen nasceu a 16 de dezembro de 1775 em Steventon, pequena cidade do condado de Hampshire, no sudeste da Inglaterra, a 90 km de Londres, sétima filha do reverendo George Austen (1731-1805) e de sua esposa, Cassandra Leigh Austen (1739-1827). A família, originária da burguesia rural, era formada por oito irmãos, sendo Jane e sua irmã mais velha, Cassandra (1773-1845), as  únicas mulheres. Durante a infância, Jane jamais se ausentou de sua cidade natal, cuja paisagem bucólica constituía para ela “a imagem do paraíso”. O pai era pastor anglicano em exercício no priorato de Steventon, funções eclesiásticas que acumulava com as de professor de alunos particulares. Para sustentar família tão numerosa, o reverendo Austen também criava e vendia animais domésticos (porcos, ovelhas, etc.), mas seus ingressos mais significativos talvez proviessem do pensionato que mantinha em casa para alguns de seus alunos mais aquinhoados,  e esta será talvez uma das razões que o levaram a mandar em 1783 as duas filhas para um educandário em Southampton, cerca de 30 km dali. Como educador, o reverendo Austen considerava necessárias à formação da personalidade dos jovens essas mudanças de ambiente e de convívio social; além disso, o deslocamento das filhas disponibilizaria mais dois quartos para acomodar seus alunos pagantes. As meninas (Jane estava com 8 anos e Cassandra com 10) ficariam sob os cuidados da Sra. Crawley, que era aparentada com sua mulher. O educandário estava voltado principalmente para o ensino das boas maneiras e das atividades domésticas femininas, visando à formação do que se chamava então de uma moça “prendada”. A permanência fora de casa, no entanto, resultou desastrosa, pois houve na cidade um surto de crupe (doença infecciosa da garganta, descrita então como putrid sore throat [infecção pútrida da laringe]) e as meninas foram gravemente infectadas, embora tenham  sido salvas a tempo, graças à intervenção de uma prima, Jane Cooper, ao comunicar o fato à família, que acorreu pressurosa.

Uma nova ausência do lar verificou-se entre 1785 e 1786, quando ambas foram alunas internas da Abbey School of Reading, cidade distante também uns 30 km de Steventon. Lá ficaram sob a égide de Mme. Latourelle, uma velha senhora que impressionava fisicamente por ter uma perna, não de pau, mas de cortiça.

A evocação desse tempo terá inspirado Jane a descrever, em seu romance Emma, o  internato ficcional da Sra. Goddard“onde as nossas jovens são enviadas para se formarem, para saberem abrir seu caminho na vida e adquirirem uma cultura média sem o perigo de voltarem gênios para casa”. No entanto, o que decerto terá calado mais fundo na sensibilidade e na imaginação de Jane será o fato de a escola funcionar na parte térrea das ruínas de uma antiga abadia, fundada em 1121 por Henrique I e praticamente destruída em 1538 com a dissolução dos mosteiros empreendida por Henrique VIII.  Já sonhadora com as leituras das novelas “góticas” da época, Jane terá imaginado tramas envolvendo o primitivo mosteiro do passado, com seus monges, cânticos e peregrinações. Além disso, nas proximidades da abadia, estava o imponente edifício da prisão de Reading, com seus dramas e mistérios [Lá, pouco mais de um século depois, Oscar Wilde, ali prisioneiro, estaria escrevendo seu poema famoso, a Balada do Cárcere de Reading].     

 Mas a formação cultural de Jane Austen não pode ser creditada a nenhuma dessas instituições educacionais que ela, aliás, frequentou muito esporadicamente, e que não teriam alicerçado seu gosto pela literatura; foi certamente em sua própria casa, no prazer que a família tinha pelas leituras conjuntas em voz alta, pelos ensinamentos do pai-professor e pelo acesso aos livros de sua ampla (para a época) biblioteca, que Jane se iniciou na leitura dos livros de Walpole, Fielding e Richardson,  embora também lesse os da autora Frances Burnay, de cujo romance Cecilia ela tirou o título para o seu Orgulho e Preconceito.  Crescendo nesse ambiente propício à leitura e aos estudos, aberto a discussões e ensinamentos, Jane logo desenvolveu seu pendor para a escrita, tornando-se profícua missivista e compositora de pequenos trechos em prosa, à guisa de diário, e divertidas peças de teatro, que interpretava com a irmã e os primos.

Entre 1795 e 1798, Jane Austen começou a redigir seus primeiros romances: Elinor and Marianne (que seria depois Razão e Sentimento), First Impressions (Orgulho e Preconceito) e Susan (A Abadia de Northanger). Os originais circulavam apenas no âmbito familiar, mas o Rev. Austen, com sua acuidade crítica, achou que a filha era de fato uma escritora digna de ser editada. Em novembro de 1797, escreveu a seguinte carta ao editor londrino George Cadell:

“Prezado Senhor,

Tenho em minha posse o manuscrito de uma novela, compreendendo 3 vols. com a extensão aproximada da “Eveline”, da Srta. Burnay. Por estar perfeitamente cônscio do significado que teria uma obra desse gênero se lançada por um editor de respeito, é que me dirijo ao senhor. Ficaria, portanto, muito agradecido se o senhor me informasse, caso esteja interessado nela, quais seriam os custos de publicação a expensas do autor, e qual seria o adiantamento que o senhor estaria propenso a pagar por sua aquisição, na hipótese de vir a ser ela aceita. Caso o senhor demonstre algum interesse, estarei pronto a lhe enviar a obra. De seu humilde servidor,

George Austen.”

O Sr. Cadell, ao rejeitar a oferta, não imaginava que seu nome ficaria perpetuado na história literária como o editor que recusou Orgulho e Preconceito!

Em fins de 1800, o Rev. Austen transferiu seu priorato ao filho mais velho, James, e se mudou com o restante da família para a cidade de Bath, a mais elegante estação balneária da Inglaterra. Segundo alguns biógrafos, a mudança tinha como objetivo principal proporcionar às filhas moças (Jane estava então com 25 anos) a oportunidade de encontrar um bom partido (para casar-se), já que a estação de águas era frequentada  por gente de posses e até mesmo pela aristocracia inglesa. Essa transferência não agradou muito a Jane, que amava o bucolismo de Steventon, sua paisagem rural e o convívio apenas das amigas chegadas ou de gente da família. Mas, ao mesmo tempo, morar num grande centro lhe permitiria expandir sua experiência de vida, com novos horizontes, diversidade de conhecimentos pessoais e a oportunidade dos bailes com que tanto sonhava e nos quais certamente se distinguiria como a exímia dançarina que era. Mas suas elaborações literárias não definharam com o novo ambiente mundano. Escrevia ativamente e em seus escritos ia registrando suas novas experiências. Contudo, foi ainda em Bath que lhe ocorreu uma nova frustração como autora: em 1803, um empregado de seu irmão Henry, um senhor de nome Seymour, escreveu aos senhores Crosby & Co., editores londrinos, para oferecer-lhes um manuscrito (Susan) que, para surpresa geral da família, foi aceito pela modesta soma de 10 libras. Tudo indicava que Jane seria finalmente editada e aquelas dez libras lhe garantiam que seus escritos, no futuro, seriam rentáveis. Mas, apesar de os editores terem anunciado o próximo aparecimento de Susan: uma Novela em Dois Volumes, o livro nunca saiu. Sem que se soubessem as razões da não publicação, o episódio permaneceu enigmático durante seis anos.   Em 1809, Jane reviu e reformulou seu antigo Elinor and Marianne (anteriormente em forma de cartas) dando-lhe o título Razão e Sentimento (Sense and Sensibility) e conseguiu publicá-lo, dois anos depois, a expensas próprias (ou seja, pagando os custos de impressão e recebendo o resultado das vendas menos um percentual atribuído ao editor). Tendo por autor Uma Senhora (by a Lady), e compreendendo 3 volumes, saiu pela casa Thomas Egerton, de Londres, e tendo grande aceitação do público, granjeou a Jane uma receita final de 140 libras (importância bastante considerável para a época), só na primeira edição.

Após o sucesso de Sense and  Sensibility em 1809, Jane Austen, sob o esplêndido pseudônimo de Sra. Asthon Dennis, escreveu aos editores Crosby & Co. a seguinte carta:

 “Prezados Senhores,

Na primavera de 1803 o manuscrito de uma novela em 2 vols. intitulada Susan lhes foi vendido por um Senhor de nome Seymour, e  a importância da venda L 10 recebida no ato. Seis anos se passaram, e esse trabalho do qual sou a própria Autora, tanto quanto eu tenha conhecimento, nunca foi editado, embora ficasse estipulado um prazo muito menor de publicação no momento da venda. Só posso admitir para tais extraordinárias circunstâncias que o manuscrito, por alguma negligência, tenha se extraviado; e se tal foi o caso, estou pronta a lhes fornecer uma nova cópia se estiverem dispostos a utilizá-la, e farei tudo para que não haja quaisquer atrasos em fazê-la chegar às suas mãos. Não estará a meu alcance, por motivos particulares, enviar-lhes esta cópia antes do mês de agosto, mas se aceitarem minha proposta podem contar que irão receba-la. Tenham a bondade de me enviar uma breve resposta tão cedo quanto possível, já que minha permanência nesta cidade não será superior a uns poucos dias. Caso não receba nenhuma informação neste endereço, tomarei a liberdade de assegurar a publicação de meu trabalho, oferecendo-o a outrem.

Enviar a correspondência para

Mrs. Ashton Dennis

Posta restante de Southampton”.

A carta surtiu efeito: os editores preferiram devolver o manuscrito à “Sra. Asthon Dennis” mediante o recebimento das dez libras com que tinham adquirido o livro seis anos antes. É de se imaginar a situação de profundo desconforto quando souberam, anos depois, que a autora de Susan era a mesma Lady que estava obtendo grande sucesso literário com os romances Razão e Sentimento e Orgulho e Preconceito. (Curioso notar que, na história literária, o editorial misjudgement (apreciação incorreta do valor de um livro) daqueles editores ingleses tem sido mais frequente do que se possa imaginar: André Gide, leitor da Gallimard, recusou Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust; e o best seller de Frederick Forsyth, O dia do chacal, foi devolvido ao autor em 1970 pela W. H. Allen & Company, de Londres, com as seguintes palavras: “Seu livro não interessa a ninguém”.)

A Abadia de Northanger só veio à lume em 1818, depois da morte de Jane Austen, num volume conjunto com Persuasão, editado por seu dedicado e entusiasta irmão Henry, no prefácio do qual finalmente revela ao público a identidade da novelista ao mesmo tempo em que noticia seu recente falecimento. O livro é uma paródia da chamada literatura “gótica”, expressão pela qual os historiadores literários designam as histórias de mistério e terror que transcorrem em ambientes lúgubres, em castelos arruinados com suas passagens secretas, seus fantasmas e entidades sobrenaturais. Jane Austen usa a personagem  Catherine Morland, uma jovem de dezessete anos, leitora assídua de tais novelas, para arquitetar sua crítica a esse estilo literário. Catherine vive duplamente entre a imaginação e a realidade, criando com isto às vezes grandes embaraços para si mesma e para os outros. A ação do romance transcorre em Bath, onde sua família e os amigos desta (Sr. e Sra. Allen) estão de visita e conhecem igualmente os Tilney, cujo patriarca, General Tilney, a convida a conhecer sua propriedade ancestral designada Northanger Abbey, uma velha abadia em ruínas, sobre a qual Catherine fará as mais absurdas elucubrações, povoando-a de mistérios e fantasmas. Pode-se dizer que o livro é também um processo educativo, de advertência às moças que se deixam empolgar pelo fantástico e o maravilhoso, esquecendo-se da realidade cotidiana. Com sua habitual ironia, Jane se vale do texto para criticar vários comportamentos sociais. A Abadia foi o primeiro romance escrito por ela e, a princípio, intentava ser apenas uma crítica, ou melhor, uma paródia ao livro de Ann Radcliffe, Os mistérios de Udolpho, cuja leitura Jane considerava exagerada e de mau gosto, daí ter  criado em seu romance uma personagem que é a perfeita antítese das “heroínas góticas”: sua Catherine Morland é feia, sem quaisquer encantos pessoais e com total inabilidade para atrair os interesses masculinos; embora se defronte com situações perfeitamente normais e corriqueiras, está sempre imaginando e fantasiando eventos sobrenaturais. A novela, após ter sido engavetada pelo editor e devolvida à autora, sofreu constantes reescritas, em várias ocasiões posteriores, ganhando com isso a experiência que Jane foi adquirindo ao longo do tratamento dos temas de suas outras novelas. Assim, se por um lado a narrativa parece diferir das outras novelas mais “trabalhadas” de Jane Austen, a Abadia, se conservou sua intenção inicial de ridicularizar a literatura gótica, teve, por outro lado, sua trama enriquecida com as observações características de seu retratar de certas figuras da sociedade em que vivia e o entrelaçamento de várias histórias ditas secundárias, sem deixar escapar o leit-motiv de suas novelas, que era a permanente conquista de um casamento. Incluindo vários tipos de narrativa e de investigação psicológica, a Abadia não deixa de ser igualmente um romance didático, já que nele a autora ensina e aconselha as jovens sobre o bom comportamento social e doméstico, além de discutir longamente o valor literário das leituras femininas da época.

Impossível, conhecendo-se os dias passados na Abbey School de Reading sob a tutela de Mme. Latourelle, com sua perna de cortiça, caminhando ritmicamente pelos corredores arruinados do antigo claustro, não pensar no quanto essa lembrança da juventude se impregnou em sua mente enquanto escrevia o livro que ora temos nas mãos.

Ivo Barroso – agosto de 2011.

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