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Archive for novembro \27\UTC 2010

Testemunho de um fingidor (continuação)

No final de setembro, chega ás mãos da polícia portuguesa (talvez por intermédio do jornalista Ferreira Gomes) uma cigarreira e um misterioso bilhete encontrados no local denominado Boca do Inferno, uma escarpa que termina em gruta em pleno mar, na região balneária de Cascais. O bilhete dava a entender que o enigmático visitante inglês se havia suicidado, escolhendo um local que se tornara emblemático para essa espécie de desporto:

L.G.P.

Ano 14, Sol em Balança

Não posso viver sem ti.

A outra Boca do Inferno

Apanhar-me-á – não será

Tão quente como a tua.

Hisos.

Tu Li Yu

 

Chamado a depor na qualidade de amigo da suposta vítima, Fernando Pessoa, conforme se pode ler no “Notícias ilustrado”, de 5 de outubro, contribuiu largamente para a intensificação do mistério: “Em 18 de setembro – depõe – recebi uma carta de Crowley, escrita do Hotel Miramar, no Estoril. Dizía-me que miss Jaeger tivera, na noite de 16, um violentíssimo ataque histérico, que havia sobressaltado o Hotel Paris inteiro: que em virtude disso tinha vindo para o Hotel Miramar, mas que, na manhã de 17, miss Jaeger havia desaparecido, deixando apenas duas linhas a lápis, dizendo que voltaria em breve. No mesmo dia 18, Crowley apareceu em Lisboa, visivelmente preocupado com o desaparecimento de miss Jaeger. Disse-me que o que sobretudo o preocupava era a hereditariedade carregadíssima dela, a sua tendência proclamada para o suicídio e sua convicção de estar sendo perseguida por um mago negro chamado York. Achava, pois, urgentíssimo descobrir seu paradeiro”.

Tudo fazia crer que Crowley se suicidara por ter sido abandonado por miss (ou Fraulein?) Jaeger. Não só a polícia portuguesa envolveu-se na busca de ambos; também de Londres vieram dois agentes do “Intelligence Service”, talvez por Crowley ter feito parte dessa organização durante a I Guerra Mundial. Após intensa especulação jornalística em Lisboa, saborosamente transcrita na imprensa inglesa, descobre-se finalmente que a jovem deixara o país no dia 20 daquele mês a bordo do navio “Werra” com destino à Alemanha, e que era americana e não alemã, tendo até pedido auxílio monetário ao consulado dos Estados Unidos. Em posteriores declarações à imprensa, Pessoa insinua que Crowley na verdade se suicidara, mas seu fantasma continuava rondando pelas ruas de Lisboa: “Despediu-se de mim às 10:30 do dia 23, à porta do Café Arcada, no Terreiro do Paço – diz ele em outra. entrevista. Nunca mais lhe falei. Quero crer que ainda o vi. No dia 24, de manhã, vi Crowley ou o seu fantasma dobrar a esquina do Café La Gare para a Rua 1° de Dezembro. Nesse mesmo dia, ao atravessar a Praça Duque da Terceira, vi Crowley ou o seu fantasma, entrar com outro indivíduo na Tabacaria Inglesa”. A razão (?) que Pessoa alegava para acreditar no suicídio era a data exata da mensagem cabalística: “Ora – enfatizava – o que nenhum astrólogo, por motivos que não me é lícito revelar, ousaria fazer é falsear uma carta escrita em sinais de astros”. E explicava que a assinatura “Tu Li Yu” era o nome de um sábio chinês que viveu a uns três mil anos antes de Cristo “e de quem Crowley dizia ser a reencarnação”. Falando ao jornal lisboeta, “O Girassol”, dias depois, Pessoa, além de sustentar a sua história, acrescentava: que, em Londres, o médium Dr. A. V. Peters, entrara em transe e revelara “que o mágico desaparecido fora assassinado nos arredores de Lisboa, em rochas ao pé da água”. Mas a farsa – com ou sem a conivência de Pessoa, que certamente, pelo seu gosto acentuado pelo fingir, poderia a ela se prestar perfeitamente – foi, pouco depois, desfeita. A Polícia portuguesa descobriu que “na fronteira de Vilar Formoso fora registrada a passagem do famoso mago a caminho da França. terminadas suas férias em Portugal”.

Qual teria sido a finalidade da mistificação? Acrescentar “mistério” à figura do mago? Ou Crowley “armou” o “suicídio” simplesmente para poder sair à socapa sem pagar o hotel? Para os que defendem a lisura de Pessoa neste caso, há a hipótese de ter o jornalista Augusto Ferreira Gomes participado do golpe sensacionalista. Quanto a Pessoa, fingidamente ou não, nunca deixou de sustentar a “morte e ressurreição” de Crowley, tanto assim que, no ano seguinte, escreve a João Gaspar Simões, que dirigia a revista “Presença”: “O Crowley, que depois de se suicidar passou a residir na Alemanha, escreveu-me há dias e perguntou-me pela tradução – ou antes, pela publicação da tradução… veja lá agora; não me deixe mal com o Mago!” A tradução do poema foi finalmente publicada na revista Presença, editada em Coimbra e dirigida por João Gaspar Simões, José Régio e outros, em seu nº 33, de julho/outubro de 1933.

Aleister Crowley viveu mais 16 anos, falecendo depois da II Guerra Mundial;  segundo seus biógrafos, se drogava com frequência e abusava do hipnotismo para manter uma pequena mas fiel clientela de fanáticos. Escreveu cerca de 80 livros, inclusive de poesia esotérica, e é personagem fartamente mencionado no romance O Pêndulo de Foucauld, de Umberto Eco. Além dessa referência literária mais recente,  e ainda do tempo em que Crowley estava vivo, o escritor britânico Somerset Maugham escreveu em 1907 uma novela intitulada The Magician (“O Mágico”) em que traça um retrato de Crowley, compatriota que conhecera em Paris. Segundo o romancista, “Crowley fazia e publicava versos em edições luxuosas que ele próprio custeava, e andava metido com o satanismo, a magia e o ocultismo, o que era então uma espécie de moda em Paris, nascida, sem dúvida, do interesse que ainda despertava o livro de Huysmans, Là-Bas.” Embora Maugham declarasse que “Crowley tenha servido de modelo para Oliver Haddo [o personagem principal de O Mágico], este não é em absoluto um retrato dele. Crowley, no entanto, reconheceu-se na criatura de minha invenção – pois não era outra coisa – e escreveu uma crítica da novela que ocupou uma página inteira da revista Vanity Fair, assinando-se Oliver Haddo”.

(Artigo publicado na revista Dicta&Contradicta, junho, 2009, pags. 123/131)

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FERNANDO PESSOA: O TESTEMUNHO DE UM FINGIDOR

 Quando leu a autobiografia de Aleister Crowley – “místico” inglês já então mundialmente conhecido como astrólogo, cabalista, mágico, etc. – Fernando Pessoa, que também era dado a estudos esotéricos, exultou. Encontrara um erro no mapa astrológico que Crowlev (pronuncia-se crôuli) estampara no livro e, corrigindo-lhe a hora de nascimento para 11:16 pm,  resolveu escrever-lhe. Crowley reconheceu o erro numa carta dirigida a Pessoa, com isto estabelecendo  uma correspondência entre ambos. Pessoa aproveitou para enviar-lhe os seus “English Poems”, com vistas a publicação na Inglaterra. Crowley retrucou oferecendo-lhe o poema “Io, Pan”, que o poeta português viria, mais tarde, a traduzir, hoje integrado à sua obra completa  e já mencionando a necessidade de um encontro entre eles. O poema era assinado por Mestre Therion, pseudônimo de Crowley, que também se autointitulava Besta 666. Como se vê, os dois tinham muitos traços em comum.

A história dessa autodenominação é interessante: Crowley, nascido em 1875 em Leamington Spa, na Inglaterra, estudou no Trinity College da Universidade de Cambridge, mas não chegou a se formar. Interessou-se antes pelos estudos ocultísticos e, pouco depois, tornou-se membro da Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn), sociedade secreta que praticava a magia, a cabala, a alquimia, o tarô, a astrologia e outras atividades esotéricas, Em 1903, aos 28 anos, casa-se com Rose Kelly e, no Egito, onde o casal passava a lua-de-mel, a esposa, que até então não demonstrara qualquer interesse pelos assuntos mediúnicos, começa a entrar em transes sucessivos, insistindo em afirmar ao marido que o deus Horus queria estabelecer contato com ele. Crowley – segundo sua própria narrativa – para testá-la, leva-a ao Museu Bulak, pedindo a ela que lhe aponte a imagem do deus. Rose Kelly passa diante de várias imagens conhecidas daquela divindade e vai parar diante de uma estela funerária de madeira pintada, da 26ª dinastia, que representava Horus recebendo o sacríficio do morto ali mumificado, um sacerdote de nome Ankh-f-n-khonsu. Chamou a atenção de Crowley o fato de aquela peça do museu estar catalogada sob o número 666, com o qual se identificava desde a meninice. Passando a ouvir os conselhos de Rose, encerra-se num quarto e escreve o Livro da Lei (Liber Al vel Legis or The Book of the Law), que lhe teria sido ditado por uma sombra (Aiwaz).

 A partir dai, passa a desenvolver um sistema pessoal de filosofia, na tentativa de conjugar a magia negra com a magia rubra (ou sensual). Inspirando-se na gnose, na tantra e no sufismo, elabora uma doutrina refinada, mas ao mesmo tempo pervertida e provocante. Crowley achava que todos os desejos do homem eram lei e se definia como “um santo de Satan”, ou antes “a grande Besta Selvagem”, dizendo que a purificação (ou ascese) só podia ser obtida através da prática do pecado e de sua posterior abjuração. Para tanto, promovia rituais orgiásticos, inspirados em cerimônias demoníacas. A fim de praticar seus ensinamentos, funda uma ordem oculta,  a Argenteum Astrum, na abadia de Thelema, na Sicília, de onde acaba sendo expulso em 1923, em decorrência dos excessos “holóficos a que chegara. Todavia, não deixou de escrever e em 1929 publicou sua teoria e prática da magia, verdadeira suma de sua doutrina esotérica, que lhe trouxe então fama urbi et orbi.

Foi esse amor de pessoa que desembarcou nas docas de Lisboa no dia 2 de setembro de 1930, a fim de conhecer em pessoa o próprio que o esperava no cais e vinha acompanhado do jornalista português Augusto Ferreira Gomes, também interessado em assuntos ocultísticos. O inglês era alto, corpulento, sanguíneo, de rosto arredondado, trajava uma capa preta e, com olhar indagativo e irônico, foi logo perguntando: “Por que diabos você me arranjou este nevoeiro?” O navio “Alcântara” em que viajara havia atrasado a partida de Vigo, na Espanha, por cerca de 24 horas, devido a um epesso nevoeiro que se abatera sobre o litoral português. Segundo João Gaspar Simões, o primeiro biógrafo a abordar  as relações dos dois “místicos”, Crowley era “um estranho homem, verdadeiro Cagliostro dos tempos modernos, em cuja complexidade e desenvoltura se acusam os traços típicos desse misto de carlatão e de inspirado que o nosso tímido mistificador debalde procurou ser”. Chegava acompanhado não da esposa, mas de uma jovem alemã, Annie L. Jaeger, e ambos se instalaram no Hotel Europa, no alto do Chiado, mas logo se transferiram para Sintra e Cascais. A permanência do casal estrangeiro foi de cerca de um mês. porém marcou profundamente a biografia do poeta, já, a essa época bastante conhecido nos meios intelectuais portugueses.

(Continua amanhã)

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A DANÇA DAS HORAS

Fugìt irreparabile tempus

VIRGÍLIO, Geórgicas

 

Dançando as horas se vão

Pelos caminhos do Tempo

Numa leveza de pluma…

Quem vedes na marcação

Do compasso e contratempo ?

– Uma.

 

Dançando se vão as horas

Sob os véus de fina gaze

Dançarinas semi-nuas…

Quem dança, das mais sonoras,

Esta belíssima frase?

– Duas.


Rapidamente bailando,

Cada qual mais erradia,

Desfila por sua vez.

E aquela, aos poucos finando

Nos horizontes do dia ?

– Três.

 

Vão dançando a tarantela…

– Mas, da última, o perfil

Me parece horrível e atro.

Ah! não falemos daquela;

Esta aqui é mais gentil.

– Quatro.

 

Sabeis acaso do nome

Da de vestido de faile

Que lhe queda como um brinco ?

Que pena! Logo se some …

A mais ligeira do baile!

– Cinco.

 

E aquela, de azul vestida,

Tão triste no seu bailar,

Seu nome acaso sabeis?

Parece o adeus da partida

Para nunca mais voltar…

– Seis.

 

E esta, bailando qual fronde

Ao vento que vem do mar

Em que a lua se reflete ?

Trajada como o “gran’ monde”;

Esbelta no seu bailar ?!

– Sete.

 

Vós me enganais no bailar:

Sei que passais sem demora

(Quisera ser tão afoito

Que vos pudesse parar).

Mas, e esta que dança agora ?

– Oito.

 

Sob os vestidos de gazes

Trazeis convosco a ruína;

Vosso olhar não me comove,

Falazes horas, falazes…

Mas, e aquela bailarina ?

– Nove.

 

Dançou o rápido “allegro”;

Nem sequer o rosto olhou-me

E eu mal notei os seus pés.

E esta, vestida de negro,

Sabeis acaso o seu nome ?

– Dez.

 

Agora passam mais lentas:

Vede aquela que aí vem

Dando passadas de bronze

Pelas horas sonolentas…

Que nome será que tem ?

– Onze.

 

Aquela outra que se arrasta

Custando tanto a passar,

Que eternamente repouse

Já de tão velha e tão gasta.

Como se deve chamar?

– Doze.

 

Fechando o ciclo fugace

A de perfil atro vem

E nos leva em seu transporte.

Pois dessa, de horrenda face,

Dizei-me o nome, se tem?!

– MORTE.

(1948)

 

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L’Homme et la Mer

Homme libre, toujours tu chériras la mer!
La mer est ton miroir; tu contemples ton âme
Dans le déroulement infini de sa lame,
Et ton esprit n’est pas un gouffre moins amer.

Tu te plais à plonger au sein de ton image;
Tu l’embrasses des yeux et des bras, et ton coeur
Se distrait quelquefois de sa propre rumeur
Au bruit de cette plainte indomptable et sauvage.
Vous êtes tous les deux ténébreux et discrets:

Homme, nul n’a sondé le fond de tes abîmes,
O mer, nul ne connaît tes richesses intimes,
Tant vous êtes jaloux de garder vos secrets!

Et cependant voilà des siècles innombrables
Que vous vous combattez sans pitié ni remords,
Tellement vous aimez le carnage et la mort,
O lutteurs éternels, ô frères implacables!

O Homem e o Mar
Homem livre, hás de sempre estremecer o mar!
O mar é teu espelho, e assim tu’alma sondas
Nesse desenrolar das infinitas ondas,
Pois também és um golfo amargo e singular.

Apraz-te mergulhar ao fundo de tua imagem!
Nos braços e no olhar a tens; teu coração
Às vezes se distrai da interna agitação
Ouvindo a sua queixa indômita e selvagem.

Sempre fostes os dois reservados e tredos:
Homem – ninguém sondou as tuas profundezas;
Mar – ninguém te conhece as íntimas riquezas;
Tão zelosos que sois de guardar tais segredos.

Já séculos se vão, contudo, inumeráveis
Em que lutais sem dó um combate de fortes;
E como vós amais os massacres e as mortes,
Ó eternos rivais, ó irmãos implacáveis!

 

 

[Novas postagens a partir do dia 22.]

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No seu eruditíssimo Le Poème en Prose – de Baudelaire jusqu´à nos jours, Suzanne Bernard, embora remontando a origem desse gênero à Idade média, verifica que muito contribuíram para o seu desenvolvimento as antigas traduções literais de poesia, nas quais os tradutores largavam mão da rima e da métrica para captar apenas o “teor narrativo” dos poemas. O próprio Baudelaire (bem como, mais tarde, Mallarmé) traduziu The Raven (“O Corvo”), de Edgar Allan Poe, sem qualquer preocupação com esses elementos essenciais à estrutura daquele grandioso poema, que, no entanto, respondem pela manutenção de sua alta densidade dramática, toda ela desenvolvida num ritmo majestoso, amparado em rimas profusas, que chegam a ser tríplices num mesmo verso. Claro que a eliminação desses elementos inerentes à estrutura do verso acaba por desfigurar suas qualidades poéticas, transformando-o inapelavelmente em prosa, ou, em casos excepcionais, como nos dois citados, em prosa poética. Mas, mesmo assim, tais traduções facilitadas permitiram aos leitores de língua francesa conhecer, ainda que de modo incompleto, a obra de poetas estrangeiros que lhes era até então inacessível.

Seja como for, o poema em prosa propriamente dito, como gênero literário, veio firmar-se sem dúvida com a publicação sucessiva de uma série de peças curtas, não metrificadas nem rimadas, mas de teor poético, que o mesmo Baudelaire começou a escrever concomitantemente com As Flores do Mal a partir de 1855. Inspirando-se no Gaspar de la nuit, de Aloysius Bertrand, esses fragmentos eram uma combinação de narrativas curtas (diríamos hoje mini-contos), diário íntimo, aforismos, tiradas anedóticas, descrições, anotações para futuros poemas, etc. feitos para publicação em jornais e revistas, postumamente recolhidos em livro (1869) por seus executores testamentários Théodore de Banville e Charles Asselineau. Numa carta a Arsène Houssaye (que serviu de prefácio ao livro), Baudelaire confessa ter-se afastado de seu modelo*, acabando por realizar uma obra bem diversa da de Bertrand, seja pela extensão dos textos, seja por sua profundidade psicológica. E consegue definir a excelência do gênero com estas palavras: “Qual de nós, em seus dias de ambição, não sonhou com o milagre de uma prosa poética, musical sem ritmo e sem rima, bastante maleável e bastante rica de contrastes para se adaptar aos movimentos líricos da alma, às ondulações do devaneio, aos sobressaltos da consciência?”. Tendo encontrado a chave do segredo com a criação desse novo gênero literário, Charles Baudelaire acabou influenciando toda a literatura universal e abrindo caminho para a poesia moderna.

O título Pequenos poemas em prosa foi dado pelos editores em função de haver Baudelaire se referido a ele em várias ocasiões. Mas parece que havia por parte do poeta uma grande indefinição quanto ao título desses trabalhos, pois chamou-os igualmente, em outras passagens, de Poemas noturnos, O caminhante solitário, O vagabundo parisiense, O clarão e a fumaça, e mesmo Pequenos poemas licantropos, antes de  se tornarem Le Spleen de Paris e Petits poèmes en prose. Em 1863, Baudelaire assinou com o editor Hetzel um contrato para a publicação da coletânea que tinha em mente. Mas os originais iam e vinham das oficinas repletos de emendas, causando grandes inconvenientes ao editor, que finalmente o desobrigou do contrato, sem publicar o trabalho. O poeta tenta negociar com a Garnier, sem êxito. O jornal Le Figaro começa em 1864 a divulgar os excertos com o nome de Spleen de Paris, mas não lhes dá continuidade após a primeira publicação; outros iriam aparecer sucessivamente nas revistas La Vie Parisienne, L´Artiste, La Revue de Paris e na Revue du XIXe Siècle. Nesse mesmo ano, Baudelaire refugia-se na Bélgica, acossado pelos credores e a moléstia que irá se abater sobre ele. Lá tenta editar seu livro com Poulet-Malassis, que também ali se refugiara, mas logo põe em leilão os direitos autorais de toda a sua obra, adquiridos pelo editor Michel Lévy, que será quem finalmente editará o livro após a morte do poeta, ocorrida a 31 de agosto de 1867.

É muito variada a impressão que se tem da leitura desses fragmentos poéticos. Houve quem visse neles o esboço de futuros poemas rimados e metrificados que Baudelaire escreveria. Há pelo menos um que traz o mesmo título de uma peça incluída nas Flores do Mal, e que é “Convite à Viagem”. No entanto, a versão em prosa ficou atestada como sendo posterior, o que levou alguns comentaristas a crer que Baudelaire se aproveitara do “teor narrativo” dos poemas para criar equivalentes em prosa a fim de vendê-los aos jornais. Outro aspecto curioso: parece que o poeta se vale deles às vezes para lavar sua roupa suja com Jeanne Duval, a mulata sua amante, que muito o atormentou e foi atormentava por ele. É o caso típico de “A Mulher Selvagem e a Pequena Amante”. Há, igualmente, páginas de anotações tipo “diário íntimo”, em que não se furta a criticar acerbamente seus editores e amigos letrados. Entre esses amigos, cumpre distinguir Arsène Houssaye, a quem o livro é dedicado, autor de alguns livros sem importância, mas que se julgava grande escritor; uma de suas canções (“O Vidraceiro”), bastante convencional, fazia sucesso no teatro de variedades.                                                             Tem-se a impressão que Baudelaire quis mostrar-lhe o que era possível fazer com o mesmo tema, em outra e muito mais alta dimensão; daí teria resultado esse espantoso fragmento “O Mau Vidraceiro”, característico do tom sarcástico e impiedoso do autor de As Flores do Mal.

Também a sensualidade, que levou os juízes literários da época a condenarem algumas páginas daquele livro, não está ausente dos poemas em prosa: “A Bela Dorotéia”, descrição do passeio de uma ex-escrava (em muitas partes inspirada na própria Jeanne Duval), é um exemplo marcante desse tom e chegou  a ser censurada em sua primeira tentativa de publicação em jornal.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         Mas estes exemplos esparsos estão longe de sintetizar toda a grandeza poética desta obra que alguns críticos julgaram (talvez um tanto precipitadamente) como sendo a obra-prima de Baudelaire. Ela é, na verdade, um autêntico calidoscópio em que o virar das páginas equivale às sutis evoluções que no canudo óptico vão produzir luminosas imagens fragmentadas: um pensamento ousado aqui, uma frase brilhante ali, um panorama irreal além – cada novo título é uma surpresa que perdurará na mente e na sensibilidade do leitor.

(*) O leitor curioso, que desejar comparar os textos de Baudelaire e Aloysius Bertrand, pode agora recorrer à excelente tradução que José Jeronymo Rivera fez do Gaspar de la Nuit, editada pela Thesaurus, de Brasília, em 2003.

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No eruditíssimo prefácio que escreve para o “Dicionário de Provérbios – Inglês-português – Português-inglês”, de Roberto (e Helena da Rosa) Cortes de Lacerda, agora editado pela Campus/Elsevier, o lexicógrafo Agenor Soares dos Santos discorre sobre a abrangência do conceito de provérbio, mostrando as áreas limítrofes com seus afins: os adágios, as frases feitas, as máximas, os anexins, as expressões idiomáticas, os símiles e as metáforas. Mesmo ignorando-se as sutis distinções entre esses termos, a verdade é que, para o leitor de língua estrangeira e mais ainda para o tradutor, é preciso que a campainha do desconfiômetro funcione sempre ao surgir um deles, para que não se entenda ao pé da letra tudo o que vem escrito, e se encontre um equivalente, um substituto, uma correspondência em nossa língua, que restitua ao termo ou frase o verdadeiro tom e sentido com que se apresenta no original. O sábio Antônio Houaiss chamava de “isotopias” a essas substituições às vezes audaciosas para se criar ou encontrar, em outra língua e sob outra forma, a correspondência tradutória perfeita de uma frase, conceito ou expressão.
Assim como nos manuais didáticos os tradutores aprendem que as citações bíblicas não devem ser traduzidas diretamente, mas transpostas segundo uma edição autorizada da Bíblia, também no caso dos provérbios incumbe encontrar um referencial compatível para essas transposições. Cabe dizer que esse manual de consulta se tornou agora disponível, ficando o problema da tradução de provérbios em inglês amplamente resolvido com a ferramenta indispensável deste dicionário. Sua origem, ou talvez sua sequência lógica, pode ser encontrada em outra obra dos mesmos autores (coadjuvados por Estela dos Santos Abreu e Didier Lamaison): o Dicionário Francês-Português-Inglês de Provérbios, lançado em 1999 pela Lacerda Editores, e ampliado em 2004 numa edição da UNESP. A reformulação ou a criação desta nova estrutura lexical, no entanto, ganhou momentum para quem lida apenas com o idioma inglês – “a língua predominante do mundo moderno”, nas palavras do prefaciador — ao propiciar maior agilidade e objetividade na forma de dicionário reversível. Com o campo linguístico circunscrito a um único idioma — decerto não pelo vezo itamaratiano de “eliminar” o francês — a consulta se faz no caso imediata, dispensando o passeio inicial pelo espantoso elenco levantado por Dider Lamaison ou a prévia consulta aos índices complementares, que dão às outras edições um caráter de abrangência compatível com trabalhos de maior envergadura.
Além do minucioso esforço de pesquisa e compilação, louve-se nos autores a capacidade de ter criado provérbios “semelhantes” em português sempre que não encontravam uma equivalência preexistente, o que permitirá aos tradutores manter o tom proverbial das citações em vez de transcrevê-las literalmente, o que em geral só empobrece o texto. É o caso, por exemplo, de better the devil you know than the devil you don´t know, que o prefaciador viu traduzido por um inexpressivo “melhor o diabo conhecido que o diabo desconhecido”, e para o qual os autores conseguiram cunhar o belo símile: “mais vale estrada velha que vereda nova”. A ele, pois, tradutores e leitores em geral: mais vale um dicionário de provérbios à mão que dez suposições voando.

***

O aliciante mercado que se escancarou para os tradutores brasileiros com a multiplicação dos canais de TV a cabo — pelos quais transitam cerca de 1.500 filmes por mês, fora documentários, entrevistas, séries cômicas e quejandos – provocou, a princípio, uma onda de ofertas de mão-de-obra não-qualificada que por uns tempos empulhou e confundiu os telespectadores. Oferecendo-se a preços de liquidação, estudantes e aposentados, com sumárias noções de inglês, passaram a traduzir para esse novo mercado, que lhes parecia pouco exigente, o que provocou uma inundação de impropriedades, traições, absurdos, que atestavam o grau de incapacidade desses tradutores e o nível de aceitação pacífica do público. A velha Birmânia desapareceu do mapa dando lugar a Burma; Gênova, a terra de Colombo, aparecia então como Gennes; o rio Reno tornou-se o Rhin, e até o velho Platão aplastou-se num anônimo Plato. Sem falar nos descalabros da tradução de frases idiomáticas ou em construções semânticas mais rebuscadas que eram transpostas ao pé da letra ou simplesmente omitidas ou massacradas pelos tradutores. Nas legendas dos filmes passou de repente a “chover gatos e cachorros” no Brasil e, numa peça de Shakespeare, por ex., a palavra “subject” (súdito) surgia como “um sujeito”, pouco faltando para ser transposta como “um cara”.
Por sorte, houve a reação de telespectadores mais exigentes e da crítica especializada de televisão em geral, e hoje pode-se dizer que o nível das traduções (de filmes, por ex.) é bastante boa e em, alguns casos, até mesmo elogiável. E louve-se a iniciativa (prática que já vinha sendo utilizada na Europa a decênios) de colocar nos créditos o nome do tradutor das respectivas produções, o que lhe atribui ao mesmo tempo o mérito e a responsabilidade do que foi traduzido.
Um problema, no entanto, persiste: o da gradação ou tom do vocábulo empregado. Como andamos numa onda de liberação geral, os nossos “legendários” resolveram pegar pesado e traduzir, com todas as letras, palavras que eram antes consideradas tabus. É claro que não estamos mais nos tempos em que precisávamos grafar m… ou nos referirmos a Cambronne para traduzir a “shit” que aparece na linguagem vulgar do cinema. Mas há que atentar para a adequação do termo no contexto em que é empregado, pois em muitos casos esse “shit”, por exemplo, corresponderá simplesmente a “droga!” e não à hoje (de)liberada merda. Carregar de propósito nas tintas, engrossar as falas mais do que se comportam na língua original é incorrer nos grosseiros deslizes dos tradutores que chovem cachorros ou fazem vênias aos sujeitos reais.
O “Dicionarinho do Palavrão & Correlatos – inglês-português/português-inglês”, de Glauco Mattoso, que acaba de sair em edição revista e aumentada, é um laborioso trabalho de pesquisa num terreno no mínimo escorregadio e pegajoso, e sem dúvida um prato feito para os tradutores de filmes apimentados. Seguramente todos os palavrões de ambas as línguas foram ali arrolados, com suas dezenas e mesmo centenas de sinônimos e variantes. Seu manuseio, no entanto, requer algum cuidado. O tradutor dispõe ali de um fornecimento, por assim dizer, no atacado, mas compete à sua experiência e sensibilidade proceder à necessária triagem e seleção para encontrar a equivalência de tom compatível com o que traduz. Não se trata de puritanismo démodé, mas nada é mais desagradável do que se ouvir um personagem dizer uma palavra quase banal em inglês e encontrar na legenda uma tatarana flamejante. Um dicionário sem dúvida útil aos tradutores, já que em geral essas palavras não se encontram compendiadas nos léxicos tradicionais. Mas, cautela! diante dessa ampla varredura de Mattoso, vocês podem escorregar em ouriços que nem os mais desbocados Millers e Bukowiskis ousariam cultivar.

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CANTO NUPCIAL

Agora que estás amadurecida para o amor
e em teu sexo a peregrinação das luas se sucede,
escuta, Amada, o meu canto nupcial.

De tua fronde penderão corimbos,
anêmonas e as últimas pervincas dilatadas em maio;
teus seios recenderão a malvas adormecidas
no sereno das madrugadas suspensas;
uma orquídea equatorial, grande como um símbolo,
cingirás ao ventre
e, em teu sexo nu, a flor estonteante
de tua própria pureza conservada.

Quero-te assim — floral, assim meio bárbara,
que o nosso amor contém um pouco da força dionisíaca
da terra,
e teu ventre redondo — abrigo de sóis —
palpita na esperança genital da espécie.

No chão, tomando-te os cabelos, ansiosa de meu amor de esposo,
gritarás aos caules que nos cercam, para as frondes que nos cobrem,
que propício é o tempo de tua flor esmagada
se tornar em fruto.

E rolaremos nos rituais sagrados da progênie:
teus seios — como duas luas gêmeas — crescerão em suas fases;
teu ventre, penetrado de vida, se distenderá na lenteza das horas
e o próprio chão em torno se gretará pelas raízes
que emergem sôfregas de ser!

HOCHZEITSLIED
Jetzt da du gereift bist für die Liebe
und in deinen Geschlecht die Wallfahrt der Monde abläuft,
höre, Geliebte, meinen Hochzeitsgesang.

An deinem Laubwerk werden Kletterpflanzen hängen,
Anemonen und die letzten im Mai verstreuten Immergrünen;
deine Brüste werden nach schlummernden Malven duften
im Abendtau der schwebenden Morgenröten;
eine Äquatorialorchidee, gross wie ein Sinnbild,
wirdt du um den Leib gürten
und um dein nacktes Geschlecht die betäubende Blüte
deiner eigenen behüteten Reinheit.

Ich will dich so – blütenhaft, so halb barbarisch,
denn unsere Liebe enthält ein wenig von der olympischen
Kraft der Erde,
und dein runder Bauch _ Obdach von Sonnen –
bebt in der Zeugungshoffnung des Geschlechts.

Auf dem Erdboden,
während ich dich an den Haaren fasse, begierig auf meine Gattenliebe,
wirst du den Grashalmen zuschreien die dich umgeben,
zu den Zweigen die uns bedecken,
dass die Zeit günstig ist damit deine erdrückte Blüte
zur Frucht werde,

Und wir werden durch die heiligen Rituale des Geschlechtes rollen:
deine Brüste – wie zwei Zwillingsmonde –
werden in ihren Entwicklungsstufen wachsan;
dein Bauch, von Leben durchdrungen, wird sich
mit der Langsamkeit der Stunden dehnen
und die Erde selbst ringsum wird durch die Wurzeln
aufgerissen werden die seinsgierig auftauchen!

Tradução de Curt MEYER-CLASON

(Curt Meyer-Clason é o tradutor alemão dos livros de Guimarães Rosa. Sua correspondência com o escritor brasileiro foi publicada pela Nova Fronteira em convênio com a Academia Brasileira de Letras e é livro indispensável para quem se dedica à tradução da língua alemã.INB)

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