Há 150 anos, precisamente no dia 3 de abril de 1872, publicava-se simultaneamente em Paris, Leipzig, Bruxelas, Bucareste, Milão, Roterdan, Varsóvia e… Rio de Janeiro, o romance “Os miseráveis”, do escritor francês Victor Hugo, que seria considerado daí por diante a maior obra literária do século XIX.
Adendo de Denise Bottmann
Consultando a internet em busca de referências a traduções assinadas por josé maria machado pelo clube do livro, encontrei um curto texto de ofir b. de aguiar, com um dado que eu desconhecia por completo: a tradução d’os miseráveis de victor hugo começou a ser publicada no brasil antes que saísse o original francês!
A história é a seguinte: victor hugo não queria de maneira nenhuma um roman-feuilleton, isto é, a publicação da obra em capítulos num jornal, como muito se fazia na época. ficou decidido com seu editor belga (pois naquela época ele estava exilado na bélgica) que les misérables seria lançado diretamente em formato de livro, em vários volumes. então ficou programado o lançamento para o dia 3 de abril de 1862, em várias cidades em simultâneo: paris, leipzig, bruxelas, budapeste, milão, roterdã, varsóvia e rio de janeiro.
Mas, no contrato que victor hugo tinha assinado com o editor, havia uma cláusula que autorizava este último a licenciar o direito de tradução em folhetim para jornais de língua estrangeira. em vista disso, o editor pôde negociar com o proprietário do jornal do comércio a publicação serializada d’os miseráveis. o jornal se antecipou 24 dias ao lançamento do livro e assim foi que, em 10 de março, os brasileiros já puderam começar a ler os capítulos iniciais em português. o jornal do comércio não citava o nome do tradutor, mas, segundo alguns estudiosos, teria sido justiniano josé da rocha – o qual, porém, morreu antes de terminar a tradução, que então teria sido concluída por antônio josé fernandes dos reis.

O HUGO-OCEANO VOLTA À TONA
A vida de Victor Hugo vale um de seus livros: é uma apoteose de esplendor e miséria, de atos sublimes e atitudes mesquinhas, de momentos de glória e instantes de ignomínia — enfim dos altos e baixos de que se compõe a existência dos gênios e heróis que surgem de tempos em tempos neste mundo insípido de cidadãos comuns. Porque ele, como escritor, soube utilizar-se da carregada paleta do Romantismo para criar em seus romances figuras que incarnavam a diversidade dos arquétipos humanos, fazendo de seus personagens exemplos icônicos que sobreviveriam para sempre no mundo da literatura. Seus livros foram comparados a catedrais góticas pelo compósito de seus elementos, nos quais o autor exibe exuberantes conhecimentos de arquitetura, pintura, história, filosofia, ciências, tudo versado num estilo grandiloquente que se sustenta à custa do maior vocabulário da literatura francesa desde Moliere. Mas o escritor não era apenas um romancista, era também o maior poeta da França, um político que mudou a história de seu país, um dramaturgo que estabeleceu cânones no teatro de seu tempo, um amante insaciável cuja concupiscência jamais decresceu com o avançar da idade — enfim, um desses monstros sagrados que parecem encerrar múltiplas vidas e conflitantes personalidades, um homem-oceano, como ele se referiu a Shakespeare, embora pensando em si mesmo.
É natural que este grande afresco sócio-cultural do século XIX despertasse o interesse dos biógrafos, a começar por sua própria esposa (a quem traía descaradamente com atrizes e criadas, e era traído por ela com seu melhor amigo, o crítico Sainte-Beuve), e se tornasse um baú sem fundo para os pesquisadores literários e os bisbilhoteiros das fraquezas humanas. Inúmeras são as biografias de Hugo em francês e outras línguas, destacando-se, entre as primeiras, uma vida romanceada escrita por André Maurois (Olympio, 1954) e o grandioso panorama de Alain Decaux, estabelecido 30 anos depois, em dois volumes, que sempre consideramos imbatível pela intimidade siamesa com a obra, a exaustão das pesquisas, o percorrer minucioso dos lugares todos em que o drama Hugo se desenrolou, a leitura paciente dos milhares de cartas que Juliette Drouet (a amante oficial de Hugo) escreveu ao poeta, o que somavam anos a fio na elaboração de um texto que procurou ser isento e apresentar o homem Hugo no lugar do busto convencional de Victor Hugo. Alain Decaux afirma em certa passagem de seu livro: “Sabemos tudo sobre Hugo. O que ele não nos disse sobre si mesmo, outros se encarregaram de fazê-lo. Sabemos de detalhes mesmo de suas noites de amor. A começar pela primeira, a de 12 para 13 de outubro de 1822. Estreitando contra o seu pela primeira vez o corpo da bem-amada, ele provou-lhe nove vezes seu desejo”. Não se veja naquele sabemos nenhuma jactância do autor; o que ele quer dizer é que a pletora de documentação sobre a vida de Hugo transcende os grandes momentos e os dados oficiais e pode ser rastreada até a intimidade das alcovas, os olhares furtivos e as aventuras picantes, graças aos diários secretos mantidos por ele, por sua amante Juliette e por sua esposa Adèle.
Mas eis que surge agora um novo Victor Hugo, tijolaço de seiscentas e cinquenta páginas, como convém à moda atual das biografias, assinado por um inglês, professor universitário e autor de outras biografias que já estiveram ou ainda estão nas listas de best-sellers lá fora. Graham Robb, o autor, leciona francês na Universidade de Oxford e consta, de sua própria e extremamente recatada biografia, que é casado com uma bibliotecária daquela universidade, o que talvez seja sintomático para explicar a seriedade e extensão que concede às bibliografias de seus livros: as 140 páginas finais deste volume são inteiramente dedicadas a permitir ao leitor universitário a localização da fonte de que ele se valeu para dizer ou supor algo, por mais insignificante que seja, em praticamente todos os parágrafos do livro. Não há dúvida de que Robb conhece bem seu ofício e o território da literatura francesa é seu jardin potager. Já publicou uma biografia de Balzac, um ensaio em francês Baudelaire lecteur de Balzac, traduziu a extensa biografia de Baudelaire, de Claude Pichois, escreveu um Unlocking (decifrando) Mallarmé e, mais recentemente, a biografia de Rimbaud que obteve o cobiçado título de O Livro do Ano na apreciação do New York Times. Mas não queremos manter nem mais um instante o leitor em suspense: o livro de Graham Robb sobre Victor Hugo é excelente, revelando um grande escritor capaz de analisar fatos e contar episódios da vida alheia com refinada elegância, entremeando-os com o requinte do humor, sem nunca perder a objetividade da narrativa. Seu livro é mais moderno, mais bem documentado pelos estudos e achados recentes, que o de seu antecessor francês. Fala ao leitor de hoje mais de perto, quase com a mão no ombro, mas sem querer cativá-lo de outra forma senão pelo brilho de seu talento e profundidade de sua análise. Se num trecho ou noutro ainda nos mostremos saudosos da encantadora prosa do francês, é impossível negar a probidade do inglês que, como a justificar a escolha de uma figura já exaustivamente biografada, afirma ter caminhado pela terra de ninguém entre os hugólatras fervorosos e os iconoclastas empenhados em derrubar o ídolo de pés de barro. No caso de Hugo, tal meio-termo é quase impossível de ser obtido com imparcialidade, e leva em geral um autor à tentação de, sempre que mencionar uma qualidade notável de seu biografado, contrapor-lhe uma segunda intenção menos nobre, com o que o retrato sempre sairá mais para Dorian Gray do que para o radioso Olympio. Tal técnica de uma-no-cravo-outra-na-ferradura não se aplica à análise de Robb, que é sempre equitativo, mormente no julgamento dos atos políticos de Hugo, em geral mostrados como oportunistas pelos seus detratores. O grande mérito deste biógrafo, diante de uma vida tão rica e exaustivamente documentada como a de Hugo, está em saber o que deixar de fora, por excedente, sem nunca sacrificar o detalhe, quando esclarecedor. Graham Robb usa a dosagem certa e se o livro atingiu o volume a que chegou é porque tinha material suficiente para escrever dez outros. Ele passou três anos mergulhado na obra de Hugo; leu tudo, romances, peças de teatro, artigos de jornal, noticiário da época, ensaios, todos os poemas, a infinidade de cartas… sem falar nas mais de quinhentas obras que consultou para escrever o livro. Fazê-lo foi para ele, segundo afirma, a justificativa do tempo que levou entregue a essas pesquisas e leituras. Mas nada disso bastaria para alcançar o resultado obtido se não fosse ele o grande escritor que aqui se mostra. Aquinhoado em 1997 com o prêmio Whitbread, Robb certamente não perdeu seu tempo e saíram ganhando igualmente os leitores que poderão conhecer agora, de corpo inteiro, uma das figuras mais representativas do século XIX.
Mas, poderão perguntar os leitores: para que conhecer Victor Hugo? Quem está a fim de o ler hoje em dia? Nos Estados Unidos já corre a piada do casalzinho que vendo o volume na vitrine de uma livraria, ele pergunta a ela: Isn´t that the guy who wrote Les Miz? (Não é esse o cara que escreveu Os Miseráveis?). E o mais sintomático é que não estava se referindo ao livro e sim ao musical, hoje tido como o de maior sucesso na Broadway, já há dez anos em cartaz somente nos Estados Unidos. Outra mostra do ostracismo de Hugo em nosso tempo seria a referência a O Corcunda de Notre Dame, mas na versão Disney, com seu Quasi simpático e bonachão. Com boa vontade e quase beirando o cult, algum jovem ainda se arriscaria a citar Adèle H., não propriamente a filha alienada de Hugo que morreu em 1915 numa luxuosa clínica de repouso em Suresnes, mas aquela misteriosa personagem que a beleza de Isabelle Adjani viveu no filme de Truffaut. O Hugo romancista e poeta não mais existe para o público da França e muito menos o daqui. Mas os leitores não sabem o que estão perdendo. Seus romances são muito mais que histórias digestivas, e não ter lido O último dia de um condenado, O corcunda de Notre Dame, Os miseráveis, O homem que ri e Os trabalhadores do mar é ter passado de olhos vendados pela juventude. Uma oportunidade de penetrar o grandioso em nosso tempo de mesquinharias. Quanto aos poemas, estes foram marcos inovadores, faróis determinantes das novas tendências da época e representaram o momento mais alto da Poesia de seu tempo. Mas é difícil admitir que algum colegial, mesmo francês, saiba hoje algum deles de cor. Sua importância no entanto foi tão grande , mesmo muito tempo depois, que imitadores ou discípulos surgiram em todas as partes do mundo. Em Portugal, houve Guerra Junqueiro, que era tão parecido com o mestre que chegou a escrever uma Arte de ser avô, cujo título copia servilmente L´Art d´être grand-père do poeta francês. No Brasil, a voz de Castro Alves teve ressonâncias hugoanas e suas apóstrofes e metáforas condoreiras se ombreiam com os vôos olímpicos do vate.
Quando André Gide, ao dar uma entrevista sobre a antologia poética que preparava para a Gallimard, perguntado sobre quem era o maior poeta francês de todos os tempos, respondeu: Victor Hugo, hélas! — essa lamentação ficou tristemente famosa a ponto de se tornar hoje em dia um dos poucos pontos de referência do leitor em relação a Gide. O desprezo ou insensibilidade pela poesia de Hugo prosperaram à solta até que os surrealistas resolveram restaurá-lo e Breton o incluiu entre os profetas do surrealismo. Em 1963, Georges-Emmanuel Clancier em seu Panorama Crítico da Poesia Francesa – de Chénier a Baudelaire, com que tornou famosas as antologias publicadas por Seghers, refutava a boutade de Gide: “Como se ousa denegrir ou ignorar este imenso, este maravilhoso, este poeta único? Como se pôde tratar de estúpido a esse gênio? Como André Gide achou que devia acrescentar um hélas, que acabou célebre, à sua resposta que dava Victor Hugo como o maior poeta francês? Mas é claro, o maior, sim, e não hélas mas hurra! mas bravo, mas bendito o céu! o céu que não é mais vasto nem mais diverso do que o gigante criador da Legenda dos Séculos, do Fim de Satã ou dos Miseráveis!” Palavras evidentemente de um torcedor vestindo a camisa, mas o inquestionável e marfínico Valéry também assim se exprimiu: ” Que versos prodigiosos, aos quais nenhum outro verso se compara em extensão, organização interna, em ressonância, plenitude, ele escreveu no último período de sua vida!” Aconselho aos leitores que nunca leram nenhum verso de Hugo que tentem pelo menos o Booz endormi, para se restaurarem no grande clima da poesia do Romantismo.
No ano que vem, 2002(*), teremos o bicentenário de nascimento de Hugo e certamente seus livros serão reeditados como aconteceu agora com Os Maias. Talvez então os leitores estejam a fim e não percam a oportunidade. Mas enquanto não chegamos lá, aqui está à mão esta biografia definitiva de Graham Robb que lhe contará a vida de Hugo, desde o momento de sua concepção (sabe-se perfeitamente o lugar onde foi gerado); a infância de menino genialmente precoce; a desagregação familiar dos pais; o romance com a vizinha Adèle, disputada com o irmão Eugène que acaba louco; a viagem à Espanha onde o pai, general, servia e que lhe ficará gravada no subconsciente a ponto de na velhice fazer anotações em seu diário secreto num espanhol paellônico, hoje devidamente decriptado; seu casamento, a esposa, as amantes, os filhos, a perda de Léopoldine, a dileta, que morreu afogada; seu sucesso de escritor a partir do primeiro livro; a extraordinária ascensão como poeta, pelo domínio do verso e a profusão de imagens faiscantes; a entrada para a Academia Francesa aos 39 anos; a atuação política, com a guinada de monarquista e fervoroso defensor de Napoleão, le grand a republicano e inimigo frontal de Napoleão, le petit; seu teatro de conotações político-sociais cujas estréias constituíam verdadeiras batalhas; o exílio de 18 anos nas ilhas de Guernsey e Jersey; a volta triunfal a Paris; os anos de glória na avenue du son nom; as aventuras amorosas da velhice, inclusive seu bisio (decriptado como cópula) em Mme. Baa, a senhora barbadiana que lhe trouxe de volta a fujona Adèle, já então em estado de afasia, e sobre a qual anota em seu diário secreto: A primeira negra de minha vida, o que além de demonstrar que os franceses são de fato chegados ainda atesta que são também otimistas. Finalmente a morte e o funeral, o maior que já se registrou na história da França. Mas não é só a novela Hugo que assistimos em G. Robb; ele também conta, analisa e interpreta os livros (em prosa e verso) instigando o leitor a melhor conhecê-los. Se não tivesse todos os outros méritos, seria este suficiente para recomendar o livro. Bom proveito.
(* Este artigo foi escrito para o Prosa & Verso em 2001, quando saiu a biografia de Graham Robb).

OS MISERÁVEIS E A TENTAÇÃO DO IMPOSSÍVEL
Nos dois suculentos volumes de sua “clássica” biografia de François Victor Hugo, o historiador Alain Decaux nos afirma: “Sabemos tudo sobre ele” e, para provar sua asserção, chega a ponto de nos revelar detalhes íntimos do grande gênio, como por exemplo seu trato erótico-senil com as criadas de Guernesey, às quais gratificava com miseráveis quantias para lhe mostrarem o pé, um trecho da perna ou (o mais caro) a curva de um seio. O intuito – louvável – de Decaux foi o de apresentar um Hugo humano, de carne e osso, com todas as virtudes e defeitos de um indivíduo comum, não obstante a auréola de supergênio, de Homem-Oceano, que oficialmente o acompanha. Mas, se investigações dessa natureza são apreciadas pelos fã-clubes de vária natureza, paira uma dúvida quanto à necessidade (e, mais ainda, quanto à utilidade) desse tipo de levantamento, desse escrutínio minidetalhista em relação a um autor cuja obra em si já lhe garante a perenidade sonhada pelos gênios. Não resta dúvida que o conhecimento de um escorço biográfico, de certos enfoques sobre o ambiente familiar e os componentes da formação de um escritor possam concorrer para a melhor apreciação de sua obra, mas, em nosso entendimento, seria bastante preferível que os analistas se debruçassem sobre as peculiaridades da obra, perscrutando-lhe o estilo e as intenções, a se deterem em aspectos mundanos e circunstanciais do cidadão-autor que em nada contribuem para o entendimento dela. A ênfase exagerada sobre os aspectos episódicos da vida de grandes autores não raro leva ao distanciamento ou ao desinteresse pela obra, e tenho disso experiência própria: muitos jovens que não leram sequer a Saison en Enfer, não se acanhavam em me perguntar se Rimbaud tinha sido traficante de armas…
Creio que nunca estaremos livres desses aspectos secundários que podem ser encontrados em biografias detalhistas nas quais um autor é tratado como verdadeiro popstar e em que são expostos todos os escaninhos de sua privacidade, a ponto de lhe descreverem os chinelos e abotoaduras. Recentemente, e contrariando a norma de a biografia de Hugo ser apanágio de acadêmicos em fim de carreira, o universitário Jean-Marc Hovasse, de 35 anos, vem de lançar o 2º volume (dos quatro previstos) de seu até agora imbatível trabalho, com 1300 páginas, 350 das quais só de notas; seu escopo é mais sério e os temas literários se sobrepõem às questiúnculas mundanas, a essa trívia que faz o deleite dos leitores de resumos. Mas…
Eis que, como um presente inusitado, por ser muito mais que uma biografia e englobar a vida e a obra de Hugo, chega-nos agora este ensaio que Vargas Llosa desenvolveu a partir de um curso de literatura europeia comparada, ministrado na Universidade de Oxford em 2004, e ao qual deu o título lamartiniano de “A tentação do impossível”. Nele, Vargas Llosa limitou-se a analisar em profundidade um único livro de Hugo, Os Miseráveis, mas, ao fazê-lo, é como se declarasse desde logo que tal livro representa o corpus de todo o pensamento do autor, o sentido de todas as suas ações, o alcance de todos os seus ideais. Chamando-o de “o divino estenógrafo”, Llosa mostra como o autor buscou criar uma “realidade” (que Hugo chama de dramática) mais abrangente do que a “realidade real”. Diz Llosa: “Os fatos que nos conta não são a verdade, a vida, a história; são ‘a verdade’, ‘a vida’, ‘a história’ do romance: [ou seja] de uma mentira” [...] “Uma recriação da vida tão infiel quanto persuasiva, não uma reprodução do real, mas uma transgressão da realidade que por seu poder de convicção nos é imposta como verdadeira” [...] A mentira radical que é a verdade da literatura”. E aqui ficaríamos citando indefinidamente todas as lúcidas frases deste ensaio, não fosse nosso intuito o de induzir o leitor a conhecê-lo em sua integralidade, a desfrutar da análise deste livro que chega a penetrar os recônditos das próprias intenções do autor. Llosa mostra como Hugo se faz onisciente e todo-poderoso, mas que se autocrítica a si próprio em seus arroubos, volta atrás, refaz o que lhe parece impróprio, arrepende-se às vezes do que fez, volta a fazê-lo como um deus atormentado em seu processo criativo. Hugo afirma na abertura do volume que seu livro é “uma passagem do mal ao bem, do injusto ao justo, do falso ao verdadeiro, da noite ao dia, do apetite à consciência, da podridão à vida, da bestialidade ao dever, do inferno ao céu, do nada a Deus. Ponto de partida: a matéria; ponto de chegada, a alma. A hidra no princípio e o anjo no final”. E Llosa esmiúça cada uma dessas “intenções”, dessas dicotomias maniqueístas, descobrindo-lhes as falhas, os exageros, as manipuladas coincidências, e também as suas grandiosas conclusões. Analisa o comportamento de cada um dos personagens – arquétipos do bem e do mal, da consciência e do dever, da pureza e da devassidão, etc. – desvendando-lhes o que têm de verossímil, de humano ou de meramente ficcional, sem deixar de concluir que Hugo, nesta obra, criou alguns dos tipos mais consistentes de toda a literatura mundial. Um dos momentos apiciais do livro – a batalha de Waterloo – cuja vitória Hugo atribui à providência divina (e não aos ingleses) encontra, nos comentários de Llosa, uma substancial digressão sobre “a prodigiosa habilidade do acaso”. Mas o ensaio não deixa de comentar igualmente as críticas desfavoráveis sofridas pelo livro logo após sua publicação, principalmente as de Alphonse de Lamartine, que, na base do politicamente correto, escreveu uma resenha acusatória que acabou se tornando o opúsculo A tentação do impossível, título de que Vargas Llosa se apropriou para designar este seu ensaio, no qual avalia, igualmente, os argumentos um tanto convencionais de Lamartine, que acreditava ser possível a um grande romance “subverter a ordem social”. Vargas Llosa consegue com este livro ser o maior resenhista que Victor Hugo poderia desejar para o seu livro. Confira. E, a propósito, você já leu Os Miseráveis? [A melhor tradução que conheço é a de Frederico Ozanam Pessoa de Barros, editada pela Cosac & Naify em 2002, correta e completa]
(Publicado em Prosa & Verso, em 21.01.2012, como o título “Victor Hugo por inteiro”)
Bom proveito.
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