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TEMPO DE QUALIDADE

Jair Ferreira dos Santos

Breviário de Afetos é um paradigma de memorialismo afetivo.  O livro homenageia nada menos que 27 personalidades entre mestres também amigos e conhecidos alinhavados pela concorrência ou pela admiração mútua, sem omitir Guimarães Rosa, objeto de uma entrevista jamais realizada porque, à frente do escritor, Ivo acabou emudecido pela timidez e os dois nunca mais se viram. Já os trabalhos de anos em enciclopédias com Antônio Houaiss geraram uma amizade calorosa, profícua, mesmo se as funções que Ivo desempenhou no Banco do Brasil e no Itamaraty o levassem do Rio de Janeiro para Haia, para Londres ou a Costa do Marfim, embora semestres depois o trouxessem de volta.

Esse elenco de figuras totêmicas se estende a Drummond e sua carta, escrita no limiar dos anos 1950, para aconselhar o jovem poeta a ignorar ferozmente a opinião alheia, em favor “do próprio trabalho interior”, e integra, em 1998, um João Cabral já quase cego, concedendo-lhe uma entrevista em que parte considerável da mitologia de reclusão e aspereza, construída em torno do poeta pernambucano, desaba por absoluta falta de provas: ele fala abertamente sobre autores, pintores, a sua querida Espanha, o almoço com Eliot, a admiração por Baudelaire e Valéry e, de quebra, revela uma percepção arredia do que seja o Nobel. Claro, no campo imantado pela inteligentsia que era o Rio não faltavam talentos extraclasse: estava ali, com seu despojamento, ninguém menos que o crítico Otto Maria Carpeaux, intelectual austríaco autor de uma impressionante História da Literatura Ocidental, entre outros trabalhos de porte. A ele recorre com frequência o tradutor iniciante, e quando se separam é para mais tarde, precisamente em 1977, se reencontrarem na casa de Ivo em Lisboa, Carpeaux já doente. Eles se despedem sem nenhum clima pré-elegíaco, porque parecem agir como se a amizade desautorizasse a morte, a qual no entanto sobrevém ao mestre um ano depois.

Ao percorrer Breviário de Afetos, não estamos propriamente numa passarela de amenidades. Há toda uma discussão eivada de complexidades quando se analisam as traduções do poema O Torso de Apolo, de Rainer Maria Rilke, por exemplo. É constante, ainda, a alusão à história literária como o contexto mais denso onde se movem os protagonistas. Atenção especial merece o texto de Ivo. Para além da clareza, da fluência, seu domínio da língua tem um teor expressivo que se manifesta na propriedade verbal, no ritmo lógico das frases ou ainda no recurso eventual a um vocabulário um tom acima do estilo mesclado – a fusão entre o erudito e o oral – cultivado pelo modernismo.  Certamente, em sua prosa, o impulso original para o lírico se faz sentir aqui e ali, como quando descreve Silvia, a mulher com a qual se casaria, com o verso “um grito verde no olhar vazio da paisagem”, ao evocar determinado cenário marinho.

Mas a rigor, enfim, que papel teria este breviário, com sua gama de tributos e sentimentos, no prodigioso mundo digital à nossa volta? Não muitos, provavelmente. Estamos confinados num presente contínuo, o agora da próxima informação, com o consequente esvaziamento da História e das visões antecipativas. Bom para nos remeter a alguma origem, o livro de Ivo Barroso desafia o presenteísmo renitente da nossa época para redespertar o interesse pelo passado, onde estão as fontes silenciosas do presente.

(Trecho de uma resenha ainda inédita, enviada à Gaveta por e-mail. O livro pode ser adquirido no Rio na Livraria da Travessa e em São Pulo na Acadêmica)

 


ANTOLOGIA DOS POETAS ESDRÚXULOS (4)


SOSÍGENES COSTA (1900-1968) – poeta baiano 

Sosígenes (pronuncia-se sozígenes) Marinho Costa, poeta de cunho modernista, deve o arrevesado de seu nome à homenagem que seu pai, versado nos clássicos, quis prestar provavelmente ao astrônomo Sosígenes de Alexandria, citado por Plínio, o Velho, como sendo o astrônomo consultado por Júlio César quando da concepção do calendário Juliano. Dono de estilo personalíssimo e de temática inusual, conquistou com sua “Obra poética” o prêmio Jabuti de 1960. Seu poema, que transcrevemos a seguir, segundo o crítico Massaud Moysés, não pode ficar de fora de nenhuma antologia da poesia brasileira que se queira representativa.

 

O pavão vermelho

Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.

Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.

É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.

Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.

 

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Recebo a nova edição do JB em papel como quem abre a porta a um parente querido que esteve em viagem por terras distantes. Membro de nossa família literária, participou da minha formação e foi meu  momento de glória com a estreia no jornalismo da capital. Lembro-me do tempo em que era feito só de anúncios nas primeiras páginas, com pouco material jornalístico ou literário nas outras. Mas eis que em 1958 houve um dia em que dois jovens, Reynaldo Jardim e Amilcar de Castro, tiveram carta branca para transformá-lo num veículo de comunicação dinâmico e atuante. No corpo do jornal modernizado, surgiu, pouco depois, um Suplemento Dominical, inteiramente aberto à literatura, que veio preencher o lugar amorfo antes tomado por receitas culinárias ou notícias de espetáculos de balé. Passou a ser leitura obrigatória, não só para mim como para todos os jovens escritores da minha geração, tornando-se imediatamente o veículo cultural de maior circulação no país. Nele pontificavam, além do Reynaldo, os jovens poetas e críticos Mário Faustino e Ferreira Gullar, grandes divulgadores de poesia e artes plásticas. Um banho de arte, cultura, ensinamentos e provocações que nos era proporcionado aos sábados, por esse suplemento inusitado que se dizia dominical. Faustino se tornara o grande divulgador da poesia séria, das grandes traduções, do conhecimento teórico da arte de escrever, além de dar oportunidade aos jovens numa seção denominada “O Poeta Novo”, em que divulgava trabalhos de qualidade que lhe eram enviados pelos leitores.   Mas havia também “O Poeta Traduzido”, em que nos trazia poemas de grandes escritores franceses, ingleses, alemães, em geral traduzidos por ele próprio. Um dia, meu entusiasmo conseguiu superar minha timidez e mandei para ele a tradução de um soneto de Rilke, que eu fizera a duras penas, catando as palavras no dicionário. Para minha surpresa, Faustino publicou meu trabalho na própria seção “Poeta Novo”, afirmando ver numa tradução o mesmo trabalho de criatividade patente num poema original. Claro, corri à redação para agradecer o elogio e a honra e acabei me tornando colaborador permanente do Suplemento. Por indicação de Reynaldo, passei  a frequentar diariamente a redação, participando da escolha da pauta e tendo poemas meus estampados na primeira página. Pouco tempo depois, surgiu o movimento concretista que provocou grande celeuma intelectual em todo o país, mas havia igualmente uma espécie de revolta por parte dos antigos (idosos) colaboradores do jornal, que faziam permanente pressão para que o suplemento voltasse ao seu ramerrame do passado…

Depois disso, o jornal passou por várias fases, mudou de direção algumas vezes, andou fora do ar, até que em 2005 teve uma sobrevida (que infelizmente durou pouco) durante a qual mantive uma coluna de crônica semanal. Com poucos meses, suspiramos e expiramos juntos.

Pois, ei-lo agora de volta, potente e glorioso, prometendo uma vida longa e próspera, digna de suas glórias do passado. Que assim seja!


ANTOLOGIA POÉTICA DA GAVETA (3)

(1872-1948)

poeta friburguense

 

Este era um poeta que não faltava nunca em nossas antologias: Júlio Salusse, conhecido como “o poeta dos cisnes”, em função do soneto admirável, que transcrevemos abaixo. Verdadeira obra-prima do romantismo brasileiro, estes versos acabaram por obscurecer toda sua obra poética igualmente importante.

 

Os Cisnes

A vida, manso lago azul algumas

vezes, algumas vezes mar fremente,

tem sido para nós constantemente

um lago azul, sem ondas nem espumas.

 

Sobre ele, quando, desfazendo as brumas

matinais, rompe um sol vermelho e quente,

nós dois vogamos indolentemente

como dois cisnes de alvacentas plumas.

 

Um dia um cisne morrerá, por certo.

Quando chegar esse momento incerto,

no lago, onde, talvez, a água se tisne,

 

que o cisne vivo, cheio de saudade,

nunca mais cante, nem sozinho nade,

nem nade nunca ao lado de outro cisne.

 

Nota: Em quase todas as transcrições que encontramos deste soneto, o segundo verso diz “sem ondas, sem espumas”; acreditamos, contudo, que a forma “sem… nem”, por ser mais eufônica, haveria de agradar ao ouvido sensível do poeta. Também, no sétimo verso, aparece o tempo verbal “vagamos”, o que é certamente um erro de imprensa, já que, em se tratando de um lago, o verbo adequado será sem dúvida “vogar”.

 

OS POETAS ‘ESDRÚXULOS’

Em 15.03.2014 prometi aos leitores da Gaveta criar uma antologia poética para a divulgação de versos que, no meu tempo, eram considerados de “primeira linha”, e já na semana passada comecei a cumprir o prometido. Mas queria também divulgar o trabalho daqueles que poderíamos denominar “poetas esdrúxulos”, não pelo teor de suas composições, mas por causa dos nomes estranhos ou pseudônimos com que assinavam seus versos. Entre estes, arrolamos logo de saída, Judas Isgorogota, Sosígenes Costa, Euríclides Formiga, Cleômenes Campos, Junquilho Lourival, Emiliano Perneta, Otoniel Beleza, Pethion de Villar, Petrarca Maranhão, Pretextato da Silveira, Segundo Wanderley… Se Judas Isgorogota e Pethion de Villar eram evidentes pseudônimos, respectivamente de Agnelo Rodrigues de Melo, alagoano, e de Egas Muniz Barreto de Aragão, baiano, todos os outros – pasmem! — são nomes verdadeiros, Aliás, o Egas Moniz nem precisava daquele Pethion de Villar, pois seu próprio nome já soa como pseudônimo. Todos esses estranhos/esquecidos compuseram versos considerados “de primeira linha” em seu tempo e figuram em várias antologias e florilégios até hoje. Quanto aos temas, eram em geral versos de amor, de conquista ou de saudade, vez por outra apelando para uma filosofia ingênua. Mas há o caso daquele Segundo Wanderley (1860-1909), poeta abolicionista norte-rio-grandense, que escreveu um incrível soneto intitulado “Amor de Filha”, dedicado a Pedro Avelino (?), personagem que deu nome a uma cidade do Rio Grande do Norte, mas sobre o qual ainda não consegui nenhum dado. Voltaremos a ele no futuro.

Vamos começar nossa antologia dos poetas “esquisitos” com

 

JUDAS ISGOROGOTA (1901-1979) – poeta alagoano

Chamava-se Agnelo Rodrigues de Melo e adotou o pseudônimo nas seguintes circunstâncias, conforme consta de uma entrevista: Autor de versos humorísticos numa revista em que desancava todo mundo, principalmente seus desafetos, resolveu adotar um nome literário para se livrar das represálias. “Judas”, na tragédia bíblica, simboliza o “homem possível”, da mesma maneira que Jesus representa o “homem perfeito”. Judas bem poderia servir de nome de guerra para um poeta que queria “judiar” com as pessoas. Assinei, por isso, Judas Isgorogota. O Isgorogota nada mais é do que simples corruptela de “Iscariotes”.

(Judas Iscariotes, como se sabe, era o nome do discípulo que traiu Jesus Cristo; Cariotes o de sua cidade natal). Conceituadíssimo como poeta e escritor no meio literário da capital paulista onde vivia, Agnelo Rodrigues teve vários livros publicados e seus versos traduzidos para mais de oito línguas.

 

 

DIVINA MENTIRA

 

Pobrezinha da mãe que teve um filho poeta

E o viu cedo partir para as bandas do mar…

Nunca mais que ele volte à mansão predileta,

Nunca mais que ela deixe, um dia, de chorar…

 

É como a água de um lago, inteiramente quieta,

A alma de toda mãe que vive a meditar:

O mais leve sussurro é-lhe um toque de seta,

A mais leve impressão basta para a assustar…

 

Eu, por sabê-la assim, quando lhe escrevo, digo:

“– Minha querida mãe, não se aflija comigo.

Eu vou passando bem… Jesus vela por mim…”

 

É que assim, ela – a humana expressão da bondade –

Contente por saber que vou sem novidade

Jamais há de pensar que eu vá mentir-lhe assim…


CAROS LEITORES

Esta antologia é um velho projeto meu e gostaria que vocês participassem dele. Mas posso estar enganado quanto ao interesse que ela possa despertar em vocês, meus leitores, principalmente entre os jovens, se é que os tenho.

Preciso  saber claramente se esta seção (que seria permanente) lhes despertou interesse, se devo continuar publicando aqui os versos que me entusiasmaram no passado, ou se o que era “primeira linha” para mim já não faz sentido para vocês.

Por favor, deixem uma nota, curta que seja, um sim ou não já basta, mas não posso ficar na dúvida.

 

IVO BARROSO

 

O ROMANCE DE MILTON

Meu conterrâneo de Ervália-MG, Milton Rezende, já produziu cerca de dez livros de poesia, dois ou três de ensaios e pesquisas, enfrentou a morte que o ameaçava com cirurgias malogradas e dela ressurgiu já pronto para enfrentar novos desafios, como este de escrever um romance. E não um romance comum, desses que contam uma história do começo ao fim, com personagens e diálogos definidos. Milton escolheu a mais sofisticada forma de narrativa que é o romance minimalista. Que vem a ser isto? Em miúdos, um texto em que nada acontece no sentido habitual de descrever um fato existente ou imaginado, leitura em que não se fica sabendo com clareza onde está o narrador nem o que está ocorrendo em seu redor, ou o que ocorrera antes ou poderá vir a ocorrer depois. Sabe-se, vagamente, que o autor da narrativa é um escritor que se considera fracassado, às voltas com um livro que não chega a terminar nem muito menos imprimir; que vive na dependência de um telefonema que não consegue dar nem receber e por isso se embebeda de inúmeras doses de cachaça que toma prosaicamente em xícaras de café. Mas aí é que está a grandeza do texto: esse solilóquio de um homem em busca de amor, a perseguir duas ou três (nomes de) mulheres, que não são descritas nem se sabe bem que papel representam na vida do narrador: esposa? ex-esposa? namorada? idealização? meros fantasmas?

É preciso ser um exímio prosador, ter-se um extenso domínio da língua para manter o leitor preso a esse desdobrar de um acontecimento que não acontece, ouvindo o monólogo de alguém que parece fora da realidade e cuja existência se resume num permanente estado de espírito de espera de não se sabe o quê. O leitor fica na expectativa permanente de que de súbito o telefone toque, que o poeta atenda, que identifique a interlocutora, que se saiba o que ela representa (ou representou) na vida do autor – enfim, aquele happy end que se espera dos livros, das novelas televisivas e mesmo da vida real. Mas Milton segura o pião na unha: nada de aberturas, de intimidades; tome divagação, tédio, indecisão, voltas e mais voltas sobre si mesmo.

O leitor chegado à literatura vai pensar logo em Camus ou num outro mestre da narrativa desintegrada; mas posso dizer que Milton foi além disso: conseguiu escrever todo um romance, numa excelente linguagem, sem recorrer aos acidentes e incidentes peculiares das narrativas. A “história” está toda, inteira, na elaboração da frase, no anti-fato, na negação do acontecimento. Um caminhar permanente no fim da navalha. Você não pode deixar de ler esse livro. É claro, acompanhado de inúmeras xícaras de… café!

Ivo Barroso

 

 

 

LITERATURA

BREVIÁRIO DE AFETOS

Conhecido como poeta e crítico literário, Ivo Barroso é essencialmente tradutor. Sua tradução da Poesia completa e da Prosa poética de Rimbaud está, sem favor algum, entre as realizações mais perfeitas de um autor francês para o português, e contam com a vantagem – que para outros seria descrédito – de figurarem numa edição bilíngue, extremamente vantajosa para o leitor comum. Não há dúvida que esse trabalho de tradutor teve diversos desdobramentos, a tal ponto que seu nome, além dos prêmios recebidos, é geralmente apreciado pelos teóricos da tradução, como Paulo Rónai. Aqui, porém, cuidaremos de outra faceta de Ivo Barroso. Breviário de afetos (São Paulo: SESI-SP editora 2107) compreende crônicas, entrevistas e postagens escritas com simplicidade e que, em alguns casos, surpreendem pelas “revelações” que contêm. O livro fala dos conhecimentos do autor, sobretudo os escritores brasileiros mais ilustres ou destacados, como Alceu Amoroso Lima, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, Ferreira Gullar, etc., mas também do tradutor francês Didier Lamaison (que publicou, em dois volumes, traduções de poemas de Drummond) e se refere a outros tradutores, como o alemão Curt Meyer-Clason, e os brasileiros, Onestaldo de Pennafort e Milton Amado, que traduziu “ O corvo” de Edgar Poe.

Todos os textos de Ivo Barroso são redigidos sem a preocupação de exibir conhecimentos, o que aumenta o interesse que despertam. Seja nas recordações sobre escritores já falecidos, como Antônio Houaiss, Otto Maria Charpeaux, João Cabral de Melo Neto, (uma entrevista), Paulo Rónai, Melo Nóbrega, Antônio Carlos Villaça, Mário Faustino, Anísio Teixeira, seja quando aborda amigos e parentes fora da literatura, Ivo Barroso alcança um nível de empatia extraordinário, quase como se o leitor estivesse sentindo, ou até “vendo” a figura retratada. Em todos os tipos desenhados e/ou revividos, distinguem-se o perfil de Edgard de Vasconcellos Barros, incentivador do adolescente Ivo e o de seu tio Pedro, outro que também incentivava o jovem Ivo. E, acima de tudo, o belo texto sobre a namorada – e depois esposa – Sílvia, verdadeiro exemplo de prosa poética, no qual comemora o fato de já estarem casados há 60 anos! Ademais, convém igualmente referir os textos sobre Karlos Rischbieter, cuja devoção ao poeta Rilke o levou a traduzi-lo. A propósito, notem-se reproduções de textos seus ou alheios, sejam traduções de poesia, seja o prefácio redigido para um livro de Gullar. De todo modo, um volume de leitura imprescindível.

FERNANDO PY (Tribuna de Petrópolis, 19.01.2018)

***

                 ANTOLOGIA POÉTICA DA GAVETA

Quando eu era jovem (isto é coisa dos anos ’50), tínhamos a mania das coleções: grandes álbuns com marcas de cigarro, artistas de cinema, selos estrangeiros, etc. Os mais sensíveis, no entanto, costumavam carregar também um “Caderno de Poesias”, onde colecionavam os versos (românticos!) que mais apreciavam. Lembro-me que na folha de rosto do nosso havia a frase: Só poemas de primeira linha”. Lá estavam, seguramente, o Alceu Wamosy, com o seu “Ó tu que vens de longe, ó tu que vens cansada”; o Aníbal Teófilo, autor de um único soneto, “A Cegonha”, que terminava em “Ver a dúvida humana debruçada/ Sobre a angústia infinita de si mesma!”; o indefectível Júlio Salusse com os seus cisnes, “A vida manso lago azul algumas/ vezes, algumas vezes mar fremente”; sem faltar o Padre Antônio Tomaz, filosofando : “Quando partimos no vigor dos anos/ Da vida pela estrada florescente” e o sempre declamado Nilo Bruzzi a lamentar “Pobre de quem, como eu, vê que, infeliz,/ Teve todas aquelas que o quiseram,/ Mas nunca teve aquela que ele quis!…” Eram os nossos poetas exemplares, só mais tarde desbancados pelo Guilherme de Almeida e o Menotti Del Picchia, e finalmente esquecidos quando Manoel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade se impuseram. Quem hoje, com menos de 50 anos, ainda se lembra daquele (imortal?) “Nascemos um para o outro, dessa argila/ de que são feitas as criaturas raras?” Ah, fugit irreparabile tempus!

De primeira linha… Que vinha a ser isto? O senso estético já nos permitia, à época, afirmar que Menotti del Picchia era melhor que J. G. de Araújo Jorge e que Raul de Leoni e Olavo Bilac eram os grandes nomes da poesia sentimental. Mas, o que será, para a gente de hoje, um poeta de primeira linha? Com o advento da Internet bagunçou-se o conceito de poesia e qualquer semianalfabeto enche hoje as redes sociais com seus versos de pé quebrado ou mesmo versos sem pé nem cabeça alguns. Com isso os mais jovens vão perdendo a noção clássica do belo e do estético, ignorando os grandes poetas brasileiros do passado, mesmo os de um passado recente representado pelas correntes modernistas.

Nosso intuito aqui é o de trazer aos leitores da Gaveta aqueles versos que no passado nos encantaram e considerávamos  “de primeira linha”. Serão apenas amostras, sem grandes comentários, meras transcrições dos poemas em si. No máximo acrescentaremos, após o nome do poeta, as suas datas extremas, nascimento e morte, para que o leitor tenha uma noção de época. Sem biografia ou crítica literária, o poema valerá por si só e o gosto do leitor será o juízo final.

 

RAUL DE LEONI (1895-1926)

EUGENIA

 

Nascemos um para o outro, dessa argila

De que são feitas as criaturas raras;

Tens legendas pagãs nas carnes claras

E eu trago a alma dos faunos na pupila…

 

Às belezas antigas te comparas

E em mim a luz olímpica cintila.

Gritam em nós todas as nobres taras

Daquela Grécia esplêndida e tranquila…

 

É tanta a glória que nos encaminha

Em nosso amor de seleção, profundo,

Que (ouço ao longe o oráculo de Elêusis).

 

Se um dia eu fosse teu e fosses minha,

O nosso amor conceberia um mundo,

E de teu ventre nasceriam deuses…

 

Nota: O título do poema é paroxítono (nía) e diz respeito à ciência que trata das condições mais propícias à reprodução e melhoramento genético da espécie humana. (Aurélio). Se você já conhecia o poema, ótimo; se não, sai correndo e vá comprar a obra completa de Leoni (um único volume denominado “Luz Mediterrânea”). Não é possível falar de poesia brasileira sem conhecer essa obra, inteira. Há duas edições confiáveis: a 4ª. edição da Livraria Martins Editora (1946), belíssima em papel encorpado, azul, raridade bibliográfica, e a edição da Topbook, de 2000, criteriosamente organizada por Pedro Lyra).

Devo dizer que a influência de Raul de Leoni, sobre mim, era tamanha que lhe imitava, além do vocabulário e ambientação (Grécia, Roma), até mesmo o vezo de deixar a sexta sílaba sem icto, como se fosse um verso de pé quebrado. Eis um dos meus sonetos da época:

 

EGRESSO

Venho de longe… Sou daqueles dias

Em que se ergueu a Acrópole de Atenas.

Fui discípulo amado nas serenas

Peripateses das Academias.

 

Com Epicuro provei das alegrias

E do prazer das bacanais helenas

E Platão me ensinou, nas horas plenas,

A mais sublime das filosofias.

 

Formei entre os estetas das ideias,

Talhei com Fídias as panatenéias,

Fui sacerdote oracular de Elêusis…

 

Mas, seguindo da Sorte os maus caprichos,

Hoje vivo entre uns homens que são bichos,

Eu, que nasci no tempo em que eram deuses!

 

(Por favor, desculpem)

Desculpem os leitores se repito este ano as palavras que escrevi em 2016 para lhes desejar um Feliz Natal. Reli-as agora e senti que me invadia uma emoção antiga, a volta ao aniversariante que sofria nas noites de chuva do Herval com a ausência dos amigos, sofrimento que as compensações caseiras e as alegrias gustativas não conseguiam minorar. Repito-as agora por me fazerem bem e por sentir que aquela ausência é hoje compensada pelo convívio virtual com as dezenas de amigos que adquiri ao longo destes anos em que venho mantendo esta Gaveta. Que todos tenham, pois, como, eu um Natal repleto de calor humano (mesmo quando virtual).

Como sempre no Natal, a Gaveta entrará em recesso por uns tempos, devendo regressar depois do Carnaval. Mas sem fechar as portas, que continuarão abertas de par em par aos nossos leitores que poderão escarafunchar à vontade e aproveitar para ler os artigos mais longos. Também este ano ilustramos o post com uma pintura a óleo de um dos componentes da associação “Pintores com a Boca e os Pés”, que todos os anos editam uma série de belíssimos cartões postais executados por eles. Merecem o seu apoio pelo esforço e a qualidade de seus trabalhos (tel. (11) 5053-5100 ou www.apbp.com.br).

 

JÁ É NATAL!

Já é Natal porque a gente ouve uns sinos que tocavam longe na nossa infância, na noite que estava sempre enevoada, as pessoas indo para a missa do galo que procurávamos em nosso quintal onde nunca tinha havido um galo. E um certo corre-corre dos lados da cozinha, a preparação da ceia, as velas que estavam escondidas no étager, a presença indefectível de Geralda, pronta para se vestir de Papai Noel.  Sim, tudo já eram prenúncios, mas temíamos pelo dia 25, o do aniversário pois todo ano chovia, chovia forte e as mães não deixavam os meninos vir à festa. Ficávamos sozinhos, eu e meus irmãos, olhando o tempo através da vidraça, imaginando a possibilidade de aparecer alguém vindo embaixo daquele guarda-chuva, que passava sem no entanto entrar no prédio.

Já é Natal porque muitos natais já se passaram, os da infância se arrastando, ah meu Deus agora só no ano que vem, os da juventude tão depressa, as férias voaram num minuto, e os da velhice, esse sopro que passa veloz, mas deixa sempre a ameaça de parar um dia.

Sim, já é Natal pois vultos de anjos que adejam, magos que seguem o rastro de uma estrela, e o presepe, o burro, a manjedoura, os indícios materiais do evento. Não há como fugir desse menino-símbolo, desse deus que criamos e sacrificamos, desse apelo ao invisível, desse desesperado aceno ao inalcançável.

Já é Natal porque em meio a tanta incerteza, decepção, angústia, desse grito agudo da miséria humana, dessa incapacidade de um gesto, de uma ação, só nos resta a esperança de um milagre, e tudo nos projeta em direção do divino transcendente. Uma luz há de nascer. Natal é luz.

FELIZ NATAL! E ANO NOVO MAIS AINDA!

 

***

 PROMESSAS DE FIM DE ANO

Como havíamos prometido num quase esquecido post de 15.03.2014 (’Poetas Esquecidos”), estamos planejando, para a volta definitiva da Gaveta, logo após o Carnaval, a criação de um setor permanente destinado à divulgação da poesia brasileira. Entendemos que a atual facilidade dos meios de comunicação ensejou uma certa barafunda entre os leitores quanto ao que se deva (ou possa) entender como sendo poesia. Não queremos bancar o sabereta, o magister dixit, mas a ideia é apresentar aqui exemplos do que, a nosso ver, consideramos poemas dignos de ser conhecidos ou reconhecidos dentro dos padrões habituais e conceptuais da arte. Já imaginamos duas seções diferentes: uma em que procuraremos trazer aos leitores de hoje aqueles poetas que, em nossa formação literária, eram considerados padrões do bom gosto    estético e do bem fazer poético; outra, será uma curiosidade: apresentar aos leitores poetas cujos nomes extravagantes de certa forma os tornaram “casos especiais” de nossa literatura. Referimo-nos por exemplo a vates  como Zeferino Perneta ou Judas Isgorogota, cujos nomes estranhos não os impediram de produzir belos momentos poéticos, os quais iremos mostrar em nossas duas antologias permanentes (ou seja, elas sairão em todos os posts seja como matéria principal seja como simples anexo.)

BRIGHT FRIDAY

ÚLTIMO AVISO: SEXTA FEIRA, DIA 1º DE DEZEMBRO ÀS 19 HORAS NA

LIVRARIA DA TRAVESSA DO SHOPPING CENTER DO LEBLON

Caro Amigo/Amiga,

Se você é leitor da Gaveta e mora no Rio, esta é uma bela oportunidade de nos conhecermos: estou lançando meu livro de memórias, Breviário de Afetos, no dia 1º de dezembro, a partir das 19 horas, na Livraria Travessa, do Shopping Center do Leblon. Estou certo de que muitos de meus amigos e parentes irão prestigiar o evento, e nessa ocasião poderei rever alguns e me confraternizar com eles. Seria, no entanto, uma bela surpresa se, entre as pessoas que lá estiverem, surgir você, que até então eu não conhecia, dizendo: Eu sou fulano, leitor da Gaveta, vim conhecê-lo pessoalmente.  E eu lhe agradeceria com um abraço, prometendo que a Gaveta vai continuar.

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