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Maria das Pedras Pimentel

Quando hoje me sentei para escrever esta última crônica, veio-me ao pensamento a lembrança do dia em que me pus a escrever a primeira. E, nos caminhos sempre abertos da memória, desfilaram as várias sensações que me afagavam a cada novo artigo que escrevia, desde a vaidade pueril dos primeiros tempos até o sentido de frustração que vinha acompanhando os últimos: o orgulho do nome impresso com destaque… o anseio de dizer alguma coisa nova… o entusiasmo de que, ás vezes, me tomava ao defender um ideal político … depois o desencanto de não poder imprimir a cada um o que considerava o melhor de mim mesmo, e o tempo, cada vez mais escasso, me levando a produzir sem grande amor, como quem cumpre mera obrigação… Entretanto, não é por fastio que me sento para escrever este último artigo, nem seria a premência de tempo, o fechar do círculo das atividades imediatas, que me levaria a encerrar aqui as minhas atividades jornalísticas. O motivo é outro, e nem lhes quisera dizer por que desejara antes transformar estas últimas linhas numa simples nota, num comunicado lacônico que se presta, ás vezes sem precisão, aos nossos “caros leitores”….

Mas, entre os “caros leitores” há uma a quem não poderia dispensar estas palavras mais sentidas, ou uma certa explicação. Imaginem, amigos, uma velhinha, já bem idosa, de mais de 80 anos, que espera religiosamente este jornal cada semana, para lê-lo e relê-lo várias vezes à cata do artigo do neto, o qual irá saborear o tempo todo até que um outro venha substituir a emoção que aquele lhe causa! Imaginem a vovózínha, depois disso, pedindo ainda a vocês que o leiam outra vez em voz alta, bebendo cada uma das palavras que. ao findarem, serão acompanhadas de exclamações de alegria, de uma devoção que só as vovózinhas idosas ainda são capazes de guardar! Por isso, não poderia deixar essa minha querida leitora sem uma palavra de explicação final.

Eu escrevia, Vovó, não sei se por vocação, amor, vaidade ou satisfação pessoal; mas, em parte, escrevia pelo contentamento de vê-la contente, pelo tão pouco que me custava fazê-la tão feliz. E, ainda que não escrevesse especialmente PARA a senhora, escrevia bem POR sua causa. Pela palavra de carinho que iria ouvir ao fim da página; pelo gesto afetuoso. da mão enquanto ouvia essa leitura; pelo riso amável de quem julga o neto a pessoa mais inteligente deste mundo; para os seus 87 janeiros de amor; para aquela sua vocação para a bondade, para a sua ternura; para os seus olhos de um brilho já distante e angelical, para a doçura de sua presença tão leve; pela amável existência de santa que levava ao pé da gente; pela confiança inexcedível que a senhora depositava em cada um de nós… E a senhora, agora lá no céu, já não precisa mais de ler os meus artigos…

Publicado no Jornal do Povo de Ponte Nova-MG, em 23 de setembro de 1956, e transcrito em “O Poeta, o Tradutor e o Crítico”, organizado por Luciano Sheikk, em 2018, pg. 205.

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CONTO

 CEIA DE NATAL 

Madalena, saibam, era um pato. Trouxera-o algum cliente do Velho, talvez em paga de visitas profissionais ou em reconhecimento de alguma cura mais difícil. Dessa forma soem agradecer, no interior, aos médicos e farmacêuticos, e o presente, uma vez irrecusável pela sua estimativa e singeleza, foi solto no exíguo quintal, com seu destino traçado. O Natal se aproximava e de galináceo a palmípede ia pouca diferença… 

Frequentávamos raramente o quintal. Os brinquedos comprados e não sugeridos pelo nosso espírito de improvisação, já por si, pelo intrincado de suas molas e rodinhas, prendiam-nos mais à casa, às superfícies lisas, ao asseio dos quartos encerados. Mas, vez por outra, a escada do sobrado para o quintal nos era franqueada e, sob uma touceira reduzida, furávamos no barranco os caminhos sinuosos dos nossos “caminhãozinhos” de brinquedo. 

A surpresa de encontrar, assim tão próximo, tão nosso, tão livre de proibições, àquele bicho grasnante, prolongou-se num delicioso encanto através das minhas horas de brinquedo. Era uma coisa viva, independente ao locomover-se, rebelde aos meus propósitos, não condicionado aos caminhos que lhe impunha o meu desejo. Espreitava-o mover-se cauteloso e indeciso à beira da cerca; e eu, detrás dela, para melhor surpreendê-lo em sua vida íntima, deixava-me ficar por longos momentos, quase sem fôlego, evitando o menor ruído que denunciasse ao pato a minha presença inoportuna. Soldadinhos de chumbo, livros de histórias, folguedos e travessuras, tudo fora esquecido pela embevecida contemplação do animal que chegara. Curioso de seu bico oblongo, de seus pés membranosos, dos coleios gentis do pescoço esquisito, era raro o momento em que eu não estava, disfarçado, à socapa, de olhos postos no branco Madalena. 

Não sei que estranha associação de ideias em que entram a indumentária de moças em procissão e fragmentos de lembranças onomásticas, levaram-me a batizar assim o manso palmípede. Sei só que lhe assentei Madalena e Madalena ficou por causa de sua alvura inigualável. Nunca me passara pelos olhos nada tão branco, nada que ferisse tão profundamente a minha noção infantil de pureza. 

O bichinho aos poucos humanizava-se. Já não fugia mais á minha aproximação sorrateira, esvaindo o desencanto que me causara quando, a princípio, se afastava precipite de mim. A bem dizer, agora quase comia à ponta de meus dedos, e sua plumagem, estonteantemente branca, ficava a pouco de minhas mãos guardadas de carinhos. Acostumando-se a comer o que lhe dava, Madalena ingeria os “menus” mais estapafúrdios: pedaços de bola de borracha molhados no mel, castanhas, confeitos, migalhas e azeitonas. Certo, recusava alguns, mas isso servia apenas para que eu fosse buscar outra absurda guloseima, receoso de que ao patinho não lhe apetecessem aquelas. 

Supunha Madalena imperecível em razão de tamanha beleza. Já era como um pequeno ser humano a quem falava e a cujos grasnos desconexos atribuía, na minha doce hermenêutica, os mais reverentes sentidos. Creio, pela sua inquietação, que se ressentia um pouco da aridez de nosso quintal. Olhava atencioso para a torneira da pia escorrendo, e eu lhe adivinhei a nostalgia pelos banhos demorados, pelas águas dos ribeirões a que se acostumara em sua vida primitiva na roça. Quis, por isso, leva-lo comigo a passear, com a intenção flagrante de lhe permitir um banho, talvez no próprio tanque do jardim. No que fui impedido terminantemente por minha mãe, que além do mais argumentava a assustadora frequência com que eu emporcalhava as roupas, metido que estava sempre no quintal, como a pajear a ave. Confusamente ainda percebi, em frases veladas, que tudo aquilo acabaria em breve, que no Natal… 

No Natal, eu fazia seis anos e tinha em casa convidados. Pelas circunstâncias do dia e da hora, voltara momentaneamente aos brinquedos caseiros, à alegria dos novos presentes, dos amigos deslumbrados pela balbúrdia dos tambores e a precisão metralhante das espingardinhas de rolha. 

Súbito, chamaram-nos à ceia e os brinquedos foram também, por instantes, relegados. Mas quando entramos a comer de quanto havia em frutas e salgados do Natal, uma voz, mencionando a carne, fez parar-me quase gelado. 

– É de porco, Maria? 

– Não, mamãe; de pato. 

De pato! E eu, que comia daquilo, num relâmpago, estonteado, compreendi tudo. Lacrimejaram-me os olhos enquanto cuspia no pratinho os restos intragáveis do sacrilégio. Houve transtornos; alguém exprobrou a falta de ética, que não me deviam ter revelado; mas tudo inútil: os soluços já me irrompiam fortes e saí da mesa para me atirar a uma cama qualquer, convulsivo, lutando ainda internamente contra a repugnante ideia, a cada frase de consolo com que pretendiam empanar a realidade. 

Por fim, alguém me disse palavras que me pareceram sinceras: convidava-me a ir até  em baixo no quintal para verificar que lá estava, vivinho, o Madalena. E eu fui, junto desse alguém que levava à mão uma vela, apesar da noite e do medo que o escuro me infundia. Pela escada abaixo, os olhos ainda cheios de lágrimas ainda acreditavam ver o pato em cada desvão que a vela, bruxuleante, alumiava. 

– Está lá no canto da cerca, está vendo? 

Eu forçava os olhos, o coração ansioso por acreditar, a boca num quase a me sorrir. 

– Mas, onde?… Me leva até lá. 

A pessoa titubeou, querendo vencer-me pelo medo. 

– Está escuro agora. Amanhã você vê. 

Deixei levar-me, conformado, esquecendo quase o amargor das dúvidas, na esperança da verificação futura. Mas, ao subirmos as escadas, de volta, junto à porta da cozinha, no caixote de lixo repleto, bem por cima, brancas, desoladoramente brancas, estavam as penas do meu pato, como um clarão no escuro do quintal. 

Publicado no Jornal do Povo, de Ponte Nova-MG, em dezembro de 1953, e transcrito no livro “O Poeta, o Tradutor e o Crítico”, editado por Luciano Sheikk em 2018, às ps.47-48. 

 

A Gaveta andou emperrada por uns tempos em razão de ter seu provedor sofrido um desagradável acidente no qual quebrou o ombro esquerdo. Agora, passadas mais de cinco semanas, sem braço na tipóia e iniciando as sessões de fisioterapia, volta ele ao teclado para prometer que os leitores não ficarão sem os tradicionais artigos natalinos: um poema referente ao nascimento de Cristo, um conto de Natal e uma crônica (a última) para encerramento do ano.  Aguardem. 

 


HOMENAGEM

Amanhã, segunda-feira, dia 08 de outubro, já estarão seguindo pelo correio 8 dos dez livros sorteados.  A Gaveta  pede aos dois últimos que mandem seus endereços com urgência:

OCTAVIO FERRAZ e WALDIR LUQUES

Recado para Letícia Maloy: pode mandar  seu  endereço para ivo.barroso@infoloink.com.br, que será atendida desta vez.

ATENÇÃO: FERNANDO L. COSTA – informe se recebeu os Fünfzehn Gedichte, que consegui, depois de muita procura, lhe enviar. Foi para seu endereço em Curitiba. Aguardo retorno

 

Solicitamos aos dez leitores abaixo, contemplados com o livro “Antologia Poética da Gaveta”, que mandem, com urgência, seus endereços postais (completos) a fim de podermos enviar os prêmios. Foram reservados ainda outros cinco exemplares para futuro sorteio.

 

  • Wladimir Saldanha
  • Saulo von Randow Júnior
  • Octávio Ferraz
  • Jeferson Barbosa da Silva
  • Valdir Luques
  • Arthur de Siqueira Brahm
  • Fernando Neto
  • Maristela Pimentel
  • Luciano Sheikk
  • Pedro Maciel

OS ENDEREÇOS POSTAIS PODEM SER MANDADOS DIRETAMENTE PARA ESTE SITE.

ANTOLOGIA POÉTICA DA GAVETA

O mais precioso editor da Pauliceia, nosso caro amigo Cláudio Giordano, que já nos dera (a mim e a alguns felizardos leitores da Gaveta) a bela edição dos “Fünfzehn Gedichte” em 2016 e o maravilhoso “Meu Rubaiyat” em 2017, presenteia-nos agora com esta “Antologia Poética da Gaveta”, uma verdadeira joia de delicadeza gráfica e bom gosto editorial. Giordano recolheu os artigos que escrevi na Gaveta com o intuito de salvar, para o leitor de hoje, algumas das belas poesias que cultivávamos em meus tempos de jovem, e fez da colheita um opúsculo de sensível beleza, digno repositório das grandezas poéticas que ele encerra. Infelizmente o livro não está à venda, pois se trata de uma edição do autor, que teve a oportunidade de poder contar, mais uma (última?) vez com a mestria gráfica das edições Giordanus. Uns poucos exemplares, no entanto,  foram reservados para aqueles leitores que, sincera e decididamente interessados, desejarem guardar a lembrança de nossa Antologia. Basta enviar-nos seu endereço postal e aguardar o sorteio. Os dez primeiros solicitantes serão os que terão mais chances de serem contemplados.

Luhan Dias

 

Trôpega, mas risonha, a Gaveta chega hoje ao seu oitavo aniversário. Em 2018 ela andou perrengue, esteve em recesso algumas vezes, amarelou em outras e ameaçou trancar-se definitivamente em 12.04.2018, durante uma pseudocrise de suposto abandono (agora sei!). Samaritanos leitores ocorreram prestimosos para enaltecer as qualidades da Gaveta e estimular seu amanuense a mantê-la sempre aberta. Entre mortos e feridos, salvaram-se todos… E aqui vamos nós, sem estarmos ainda bem certos se os nossos esforços (pesquisas sem conta, leituras exaustivas) para manter uma divulgação (antologia poética) que julgamos necessária – estariam sendo correspondidos pelo interesse daqueles que nos leem (dúvida geradora da pseudocrise).  Como sempre, após os brindes de aniversário, pernas pro ar que ninguém é de ferro (como dizia o nosso velho Ascenso Ferreira aqui). Estaremos fora do ar em agosto, entregues a leituras e buscas para, na volta, apresentar aos leitores uma nova Antologia Poética, cobrindo a produção de vates nascidos nos 27 estados das 5 regiões do Brasil:

NORTE (Tocantins, Acre, Pará, Rondônia, Roraima, Amapá e Amazonas) …

CENTRO-OESTE (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal) …

NORDESTE (Bahia, Sergipe, Alagoas, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão) …

SUDESTE (Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo)

SUL (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul).

 

Até breve!


O tradicional Curso de Especialização de Tradutores DBB (Daniel Brilhante de Brito) tem agora o premiado shakespeariano Erick Ramalho como professor de tradução, que dará aulas na sede do curso, em Copacabana, às sextas-feiras, das 9:30h às 12:30h. Aos sábados, pela manhã, o DBB oferece o mesmo curso com a professora Lia Bittencourt, no horário das 9:30h às 12:30h. O segundo semestre se inicia em 10 de agosto, mas o curso tem matrículas contínuas, de modo que alunos novos podem iniciar as aulas a qualquer momento durante todo o ano. Para informações e inscrições: info@dbb.com.br, ou pelos telefones(21) 2549-5151 /  (21) 99762-1895.

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