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Posts Tagged ‘Enciclopédia Britânica’

O convênio previa a permanência por um ano, eventualmente renovável por igual período, mas acabei ficando três na Holanda (1968-70), experiência  diplomática que pretendo registrar num capítulo à parte. Por agora, digo apenas que durante minha estadia na Haia fiz estudos, a pedido da minha Diretoria, para a eventual instalação de uma agência do Banco nos Países Baixos. De regresso ao Brasil, apresentei-me ao Diretor do Pessoal, a quem logo pleiteei minha volta ao Exterior, sob alegação de que me havia adaptado à vida no Estrangeiro e poderia ser de utilidade na efetivação do projeto de abertura da agência. O Diretor me disse friamente que eu já fora “premiado” no convênio e não teria a menor chance de voltar. Que me apresentasse na Cacex, para onde retornei em condições precárias, sem as regalias do passado.

Minha primeira preocupação foi procurar Antônio Houaiss. A Enciclopédia Delta Larousse, na qual eu trabalhara de “funil” e tivera meu nome inscrito como chefe da seção de tecnologia pela dura revisão que fizera de alguns verbetes específicos,  havia saído em fins de 1968, quando eu estava fora; publicada em 12 volumes, já se falava em sua ampliação para 15 (que sairiam em 1976). O incansável Antônio estava em vésperas de embarcar num novo e arrojado projeto editorial, a Enciclopédia Mirador, à espera das negociações que se desenvolviam no âmbito da Enciclopédia Britânica do Brasil, que iria patrocinar o empreendimento.

Graças ao clima frio e à monotonia da vida na Holanda, eu rascunhara por lá uma vintena de novas traduções dos sonetos de Shakespeare, as quais mostrei a Antônio. Sempre entusiasta, ele considerou “editáveis” muitos deles e indicou-me outros que careciam de um tratamento mais rigoroso para adquirirem o padrão de qualidade dos primeiros. Sem a necessidade de uma especial dedicação às minhas novas funções na Cacex, pude me debruçar sobre o trabalho com imediato afinco. Em pouco tempo achei que havia conseguido a unidade qualitativa preconizada por Houaiss e voltei a mostrar-lhe o caderno com os sonetos. Sua satisfação foi tão grande que se prontificou não só a prefaciá-los como em lhes arranjar um editor.

Enquanto isto, na Cacex, trabalhando na redação de um boletim de incentivo às exportações, não me cansava de pensar num meio de voltar ao Exterior. Candidatava-me a todas as bolsas de estudo que eram oferecidas à Carteira, principalmente pelo IRI italiano (Istituto per la Ricostruzione Industriale) e, embora fosse meu objetivo voltar de fato a morar na Europa, as bolsas de 3 ou 4 meses já podiam ser um meio de me aproximar desse ideal. Houve um momento em que achei estar a sorte do meu lado. Entre as condições impostas ao candidato à bolsa estava o primordial conhecimento da língua italiana. Nenhum dos colegas que se candidatavam podia afirmar isto em seu currículo. Corri a apresentar meus papeis ao Istituto Italiano di Cultura, em Laranjeiras, onde eu havia estudado, e vi que o secretário, sem examinar os documentos, os guardou numa gaveta. Semanas depois, chegou na Cacex a notícia de que outro colega tinha sido o escolhido. Não me conformei (intimamente) pois sabia de seu total desconhecimento da língua italiana. Voltei ao Istituto para reaver meus papeis, que estavam intactos na mesma gaveta em que tinham sido guardados semanas antes, e soube que o colega vencedor fora indicado pela própria gerência da Carteira. Desisti das bolsas. Minha volta não seria por ali…

[Entra aqui um intermezzo interessante cujos lances precisarei contar mais tarde e de maneira mais detalhada. Logo no primeiro ano de minha permanência na Holanda (1968), Maria Thereza, uma amiga e parente-afim, me escreveu dizendo que o ex-governador Carlos Lacerda, de quem era uma das secretárias, estaria de passagem por lá e que seria portador de uma encomenda que ela nos enviava.  A lembrancinha era pretexto para eu conhecer o político que acabara de ser cassado pelo AI-5 e iniciava uma longa viagem para refazer contatos políticos e comerciais.  Que eu fosse encontrá-lo no Hotel de l´Europe, em Amsterdam. Fui, eu era antilacerdista mas fui, talvez para conhecer em pessoa a figura que eu costumava ver com suspeita na televisão. Lacerda me deu uma acolhida impessoal, talvez por saber que eu trabalhava para o governo que o havia “neutralizado”, entregou-me o embrulhinho e convidou-me formalmente para almoçar em companhia de dois de seus assessores. Recusei por cerimônia, mas aceitei satisfeito a sobremesa.

Em 1970, quando voltei ao Brasil, a secretária Maria Thereza me disse que o Dr. Carlos estava dirigindo uma enciclopédia cujos trabalhos não avançavam por causa dos conflitos entre ele e os redatores. Ela própria havia sugerido a ele que me chamasse para uma conversa, dada a minha experiência no assunto. A história é bem mais longa e complexa, por isso fica para um outro capítulo. Mas posso adiantar que trabalhamos juntos por dois anos, com final feliz: também ele apreciou minha tradução dos sonetos shakesperianos e se propôs editá-los. Seu grande amigo, o advogado internacional Nehemias Gueiros, considerado o maior conhecedor da obra de Shakespeare entre nós, também se empolgara com a tradução e escreveria um erudito prefácio para ela.  Confessei ao editor que os sonetos só podiam sair com o prefácio de Antônio Houaiss, que já estava pronto e que eu tinha em mãos. Honestamente eu não sabia, na época, que havia um impasse entre Houaiss e Lacerda, e por alguns dias o assunto da edição esfriou.]

Meu compromisso funcional com Lacerda havia terminado em fins de 1972 quando o milagre aconteceu: vi no Jornal do Brasil o anúncio de que a revista Seleções do Reader´s Digest estava à procura de um editor para operar em… Portugal. Era a grande chance de voltar. E acabei voltando.

[A história completa está descrita aqui]. No ano seguinte, recebemos a visita do Dr. Carlos, que chegou trazendo em mãos um belíssimo coffee table book, de 30X40 cm, em papel Westprint 150g, com a minha tradução dos 24 Sonetos de Shakespeare, ilustrados por Isolda Hermes da Fonseca, com um definitivo estudo de Nehemias Gueiros sobre o mistério do soneto shakesperiano. E o sonhado prefácio de Antônio Houaiss, é claro.

De volta à Europa, passei cinco anos no Digest, onde enfrentei inclusive os problemas funcionais decorrentes da Revolução dos Cravos. Mas foi por tê-los enfrentando e resolvido satisfatoriamente que, em 1977, quando terminava a última prorrogação de minha licença no Banco do Brasil (e teria forçosamente de voltar para a Cacex),  recebi o convite do Gerente da Agência de Lisboa para retomar minha atividade bancária [Outra história que será contada mais à frente, devagar]. A agência estava enfrentando os mesmos problemas funcionais que eu havia equacionado no Digest, e ele achava que nesse ponto eu seria útil ao Banco que, afinal, era a minha Casa. E assim continuei em Lisboa, já então como Subgerente da agência local do Banco do Brasil.

Ao sair do Digest, recebi uma bela indenização com a qual consegui comprar um carro Mercedes Benz conversível, feito por encomenda e que fui buscar diretamente na fábrica em Stuttgart. Alémdisso, o salário do Banco me permitia alugar a ala de baixo do Palácio Fronteira, em Benfica, onde passamos a residir. Durante os anos que passei em Portugal, eu vinha periodicamente ao Brasil para rever os parentes e me pôr em dia com o que se passava no País, graças aos precisos relatos que me fazia Antônio Houaiss, em geral enquanto saboreávamos um robalo (ou uma cavaquinha) no restaurante Albamar, no antigo Mercado da Praça XV.  Em 1975, Ruy Castro, que viera comigo como Editor-assistente, resolveu regressar ao Brasil e à Manchete, onde trabalhava. O Digest me incumbiu, no ano seguinte, de vir ao Rio em busca de um substituto. Cheguei a sondar dois colegas do Banco, um da Cacex, outro do CCBB, mas vimos dificuldades no pedido de licença e na perda dos respectivos cargos, caso tivessem que regressar de improviso, o que não era improvável diante das reivindicações comunistas. Mas pude trazer para Lisboa o sobrinho de Antônio, Mauro Villar, cuja operosidade eu pudera comprovar quando trabalhamos juntos na Enciclopédia.

Nesse ano, encontrei Antônio Houaiss satisfeito com uma nova edição encadernada do Ulisses que tinha saído pelo Círculo do Livro, com a qual me presenteou apondo-lhe esta dedicatória que não podia ser mais encomiástica:

Minha felicidade se fez completa quando, meses depois, chegou a Lisboa o próprio Houaiss, acompanhado de seu inseparável amigo Abrão Koogan. Amizade surgida com a enciclopédia, os dois vinham todos os anos à Europa, mais precisamente a Paris, em outubro, para comemorar o aniversário de Antônio no restaurante Pharamond. Mauro Villar resolveu levá-los ao Palácio Fronteira onde os recebi para depois irmos jantar em Sintra. Sr. Abraão encantou-se com o Mercedes conversível, embora dissesse que não gostava da marca porque seus fabricantes ajudaram no extermínio de judeus durante a guerra. Tínhamos dois carros: o outro era um BMW que eu recebera como diretor do Digest. Antonio e Mauro seguiram nele, com Silvia, minha mulher, ao volante. E eu levei o Sr. Abraão que, sem maiores relutâncias, se aboletou na carona do conversível, que só dava para dois. Sorridente e descontraído, certamente nem se lembrava daqueles tempos do “Anote aí”.

CONTINUA (em breve, a 4ª e última destas Lembranças)

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