Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘Cybersezala’

Quando em 1980 o olheiro literário Mário da Silva Brito apresentava Jair Ferreira dos Santos como “um novo contista” (em vez de apenas “mais um”), não estava simplesmente fazendo prognósticos bem intencionados, mas confirmando seu espírito crítico de farejador de talentos: Kafka na Cama era um livro realmente inovador. Numa época em que o conto primava pela linearidade da narrativa e tinha o objetivo editorial de “entreter” o leitor com histórias banais (“sans ortographe”, como diria Rimbaud), aquelas sete narrativas surgiam como uma brusca mudança de tática, um drible no leitor passivo, que se via obrigado a encarar um texto que surpreendia pelos seus requintes invulgares, tais como o wittcism, o punch, a frase de impacto, que alcançavam não raro a condição de pedras de toque. Em Sextuor: o Pai — esse ponto zenital do livro — , salvo uma incauta escorregada no campo resvaladiço das fintas joyceanas (Cy: o sonho, a bandeira), o leitor se descobria diante de um lance de absoluta realização estilística (adequação vocabular, ironia, sarcasmo, até mesmo um travo de sádico acerto de contas), dificilmente encontrável nos plantéis anódinos e previsíveis da contística brasileira. Era forçoso admitir que até mesmo as reminiscências autobiográficas, quando bem elaboradas, podiam resultar em alta literatura.

Mas Jair, como concluía Mário da Silva, não acabava nesse livro. Três anos depois da estréia, resolve mudar de time com um volume de versos, A Faca Serena, que refletia leituras bem digeridas de Lorca, Montale, Hart Crane e René Char. Não que fosse apenas um hiato lírico, um treino de seleção ou uma afinação de instrumentos; os poemas estavam muito além e o livro arrebatou um prêmio de revelação da APCA [Associação Paulista de Críticos de Arte], nesse ano em que o Jabuti de poesia era outorgado a Orides Fontela.

Chamado outra vez a integrar novos escretes, em 1986 o contista se exercitava no campo da ensaística com O que é pós-moderno, livro de divulgação sociológica sem pretensões a tratado filosófico, que em 1994 estava na 10ª edição e hoje já deve ter vendido uns 100 mil exemplares. O jogo de corpo de Jair trocava em espertos passes curtos e diretos todo um aranhol que um Terry Eagleton, por exemplo, tentava teorizar para o público de língua inglesa em linguagem arrevesada e pseudocientífica. Demonstrando grande habilidade em transformar observações imediatas em projeções pessoais de longo alcance, esse gosto pelo ensaio traria a Jair novos troféus duas décadas depois, com o arremate definitivo de seu Breve, o pós-humano, um livro “hiper-ligado nas questões do contemporâneo”.

O retorno à sua praia particular se deu em 1996 com A Inexistente Arte da Decepção, título kunderiano que não faz jus ao conteúdo ainda mais compacto e ao mesmo tempo articulado dessa segunda incursão pelo gênero conto. Esses seis novos relatos expandem o campo de pesquisa da realidade em redor e se aprofundam por outras esferas, até chegar a esse cão-narrador que “adota o niilismo como filosofia de vida” (no dizer do analista Muniz Sodré, que faz a orelha (cabelo e bigode) do livro. O conto do título “revive” para o leitor a manhã-tarde-noite de uma criatura velha e solitária, uma vida perdida na mesmidão, com aquela amargura (a um passo da piedade) que perpassa não raro pelos escritos de Virginia Woolf.

O espaço de uma década nos dá agora um Jair Ferreira dos Santos ainda mais cirúrgico e preciso. Cybersenzala — esse título emblemático – nasceu da visita a uma firma de televendas, com suas baias minúsculas, dentro das quais criaturas-autômatos passam o dia telefonando para perspectivos clientes a oferecer planos de saúde, cartões de crédito ou assinaturas de jornais e revistas. Essa senzala cibernética é a nossa realidade imediata, povoada de consumistas escravizados pela propaganda da televisão, vivendo de sonhos irrealizáveis e bracejando para vencer o dia-a-dia tirânico. De novo, a prosa de Jair é erudita, sem ser chata; informativa, sem ser vulgar; profunda, sem ser obsessiva. Sua capacidade de retratar certos segmentos da sociedade (por exemplo, essa reunião melancólica de bancários e “zangões), não só dispara um flash momentâneo, mas leva o leitor a elaborar sobre a continuidade do flagrante. Ou, dessacralizando a morte, Jair, em http://www.joy&peacefuneraldesign.com, imagina um site de agência funerária (memento Em breve, o pós-humano) que oferece aos seus clientes a glamorização do “falecido”: a precisão da linguagem-prospecto-bula-manual do usuário só é excedida pelo arrojo da fabulação que se envereda pelos aspectos mais imprevisíveis do cerimonial.

Numa época de platitudes escrachantes, repetitividade tatibitate e erotismo grosseiro de sex-shop, o texto de Jair é um apelo à inteligência do leitor, oferecendo-lhe a ajuda da erudição, da informação precisa e preciosa, numa linguagem compassada com a modernidade, as novas formas de expressão, as conquistas diuturnas e avançadas do idioma, sem nunca resvalar para o vazio e a vulgaridade dominantes em nossa atual literatura.

(Fonte: Cultura – O Estado de São Paulo – 28.01.2007 – Jair Ferreira e a senzala cibernética)


Read Full Post »

%d blogueiros gostam disto: