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Os Watsons são uma narrativa deliciosa, aliciante, muito bem realizada, que teria sido sem dúvida igual aos outros romances de Jane Austen, se ela a tivesse simplesmente terminado. Nela, Jane retoma a história preferida de todos nós e dela própria – a história da moça pobre cortejada por um príncipe e que, apesar de todos os obstáculos, acaba por esposá-lo e viver feliz com ele até a morte. No caso presente, a história se complica pelo fato de a heroína, Emma Watson, ser igualmente uma herdeira frustrada em suas esperanças, de ser órfã desde o início da novela, além de recusar abertamente seu príncipe em favor de um partido de condição inferior. É uma situação que oferece mil possibilidades e a heroína promete muito, por ser uma mistura feliz de Elizabeth Bennet (constrangida por uma família vulgar), de Fanny Price (órfã no exílio) e de Emma Woodhouse (herdeira desdenhosa). Tudo teria podido se arranjar de maneira maravilhosa e ficamos nos perguntando porque Jane resolveu abandonar o projeto depois de haver escrito apenas uma meia centena de páginas.

JSL.

Novela começada por volta de 1803-1805

Primeira edição: 1871

 SANDITON

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Sanditon, a última obra de ficção escrita por Jane Austen, tem, sob certas aspectos, diferenças marcantes em relação aos seus livros anteriores. Pode-se facilmente imaginar o que poderia vir a ser Os Watsons, se ela o tivesse terminado, ao passo que Sanditon admite pensar que ela poderia tender a novas direções perfeitamente inesperadas.
A redação desta novela pode ser rastreada com enorme precisão. Jane começou a escrevê-la em janeiro de 1817 e ela própria datou o manuscrito: a última página tem a data de 18 de março de 1817, A autora morreu em julho desse mesmo ano. Havia pelo menos um ano que sofria do mal de Addison, uma afecção na época incurável e desconhecida, com a saúde declinado rapidamente durante o tempo em que escrevia Sanditon. Não é de se admirar, portanto, que os problemas de saúde encontrem tão grande relevância nesta novela – o que pode surpreender é a maneira com que ela trata o assunto.

JSL

Novela iniciada em janeiro-março de 1817

Primeira edição: 1925

SANDITON

O  Prato principal – Novelas Inacabadas – será servido na próxima quinta-feira, dia  25 de abril, às 18:OO, no CCBB

 

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Momento em que o palestrante fazia a entrega oficial da Coleção Rimbaud ao Centro Cultural Banco do Brasil, representado na cerimônia pelo seu diretor Luiz César Rossato.

TEOR DA PALESTRA

Para os leitores da Gaveta que não puderam comparecer ao evento e para aqueles que residem fora do Rio reproduzimos aqui as linhas gerais da palestra que ensejaram várias complementações de improviso.

A entrega oficial que faço nesta solenidade ao CCBB de minha coleção de livros de e sobre Rimbaud, e sobre os quais tecerei algumas considerações nesta palestra, foi precedida de outra manifestação que merece registro.

Precisamente neste mesmo dia 22 de novembro, em 1998, o CCBB abria suas portas para um evento que se denominou “Semana Rimbaud”, em homenagem ao 140º aniversário da data de nascimento do poeta de Charleville. Um belo estandarte com a imagem estilizada do poeta descia do topo da abóbada até quase o chão da pérgula deste Centro Cultural. Houve uma exposição bioiconográfica, documentando a trajetória de Rimbaud, desde suas primeiras incursões literárias até sua ida para o continente africano, incluindo reproduções de manuscritos, fotografias e livros; uma sala de exibição de slides e declamação de poemas em francês e em português, e duas conferências sobre a obra-vida do poeta e a experiência de traduzi-lo em português. Houve também o lançamento do segundo volume de suas obras completas – o Prosa Poética – editado naquele ano pela Topbooks, que já havia lançado dois anos antes o volume primeiro, das Poesias Completas. O CCBB resgatava, assim, de forma brilhante uma das figuras mais icônicas da poesia francesa – para não dizer universal –, afirmando com isto sua condição de divulgador cultural em todas as áreas.

Agora, transcorridos catorze anos daquele evento, o CCBB volta a festejar a figura do Poeta no momento em que coloca à disposição dos leitores em sua biblioteca a coleção de livros sobre a vida e obra de Rimbaud, que seu tradutor aqui presente vem de doar a esta instituição. São livros amealhados num espaço de tempo que remonta ao ano de 1954, quando levei ao editor do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil uma tradução do Soneto das Vogais, que eu achara numa revista. Ele argumentou que o soneto já havia sido traduzido diversas vezes em português e que era melhor eu traduzir outro poema que fosse menos conhecido. Encontrei na livraria franco-italiana que funcionava na Faculdade de Filosofia, onde eu estudava, e onde é hoje a Maison de France, esta pequena antologia de suas obras organizada por Claude Edmonde-Magny, na coleção poètes d´aujourdhui, editada pela Pierre Seghers em 1952. Este livro foi a porta mágica que me introduziu ao mundo de Rimbaud. O achado, nele, de Une Saison en Enfer me transtornou de tal forma que passei a ler sistematicamente tudo o que pudesse encontrar sobre o poeta e sua obra. Quinze anos depois, em minha primeira ida a Paris, corri para as margens do Sena em busca dos famosos bouquinistas para adquirir, por 5 francos, aquela edição que era considerada a bíblia rimbaldiana dos estudantes pobres: o Poesies, das edições Aux Quais de Paris, de 1966, livro que me acompanhou por quase 50 anos em todos os lugares em que morei, até esta data em que irá ocupar uma estante da biblioteca deste Centro Cultural Banco do Brasil.

Em 1973 eu já me considerava um cultor da poesia de Rimbaud e possuía uma boa dezena de livros, inclusive a Obra Completa, editada por Antoine Adam para a Bibliothèque de la Pléiade em 1972. Então fui procurado pelo editor da Civilização Brasileira para que eu traduzisse a Saison. Ora, já havia duas traduções anteriores, publicadas no Brasil cerca de vinte anos antes. Mas o editor queria uma NOVA tradução e fazia questão de que os poemas entremeados na prosa do Poeta fossem traduzidos em versos equivalentes, rimados e metrificados, o que não ocorrera nas versões anteriores. E mais, que a tradução ficasse pronta naquele mesmo ano de 1973 para ser lançada em 1974, por ocasião do centenário de nascimento de Rimbaud. Em circunstâncias pouco favoráveis, pois me preparava naquele ano para ir morar no Exterior, acabei passando realmente por um inferno para traduzir, em pouco mais de um mês, aquele livro perturbador, definitivo, que inaugurava uma nova linguagem na poesia universal.

Aguardei em Lisboa, onde então morava, o lançamento da obra que estranhamente só ocorreu em 1977, quatro anos depois… Com uma segunda edição saída em 1983, animei-me com a boa acolhida daquela e convenci-me de que devia traduzir as poesias completas de Rimbaud, mas ainda que tivesse sérias hesitações quanto às Iluminações, que considerava intraduzíveis. E toca a comprar, a ler, a anotar tudo quanto era livro de e sobre Rimbaud que me aparecia pela frente.

Minha longa permanência no Exterior permitiu-me adquirir praticamente as obras fundamentais de que necessitava, tais como todas as edições das obras completas em francês: a da Pléiade, a da Garnier, Oeuvre-vie, de Alain Borer, 1991, e até a de Pierre Brunel, do Livre de poche. Mas não fiquei nas francesas, adquiri todas as edições completas italianas (quatro), as de línguas inglesa e espanhola, e até mesmo um volume Lyrik och prosa, traduções de Gunnar Ekelöf, em sueco, quando morei em Estocolmo, de 1983 a 1988. Aqui um intermezzo curioso: eu queria saber como o tradutor sueco tinha resolvido a famosa questão do “Je est un autre”, que tanto perturba os tradutores das línguas latinas. O impacto da frase está exatamente na violentação da conjugação verbal, com o sujeito na primeira pessoa e o verbo na terceira, como se Rimbaud quisesse dizer, na sua linguagem inédita e pessoal: Eu não sou eu, o que chamam de eu é um outro ser. Pois bem: minha decepção com o sueco é que naquela língua o verbo não tem flexão e tanto Je suis (eu sou) Je est (eu é) são equivalentes Ik är, ham är, como se conjugássemos eu é, tu é, ele é, nós é… (bom, os mineiros às vezes dizem assim).

Em seguida passei a me interessar pelas biografias: tinha todas as francesas (a mais importante das quais é a de Jean-Jacques Lefrère, que só saiu em 2001 pela Fayard), a pioneira da estudiosa irlandesa Enid Starkie, a primeira a tratar o assunto com técnicas bibliográficas atuais, ou seja, valendo-se de documentos e não da tradução oral, e bem assim a mais recente, Graham Robb, publicada em 2000. A biografia de Enid Strakie, que saiu originalmente em 1947, permaneceu por muito tempo a fonte biográfica mais rigorosa de Rimbaud para despeito dos estudiosos franceses que só foram traduzi-la 35 anos depois. Mas não abri mão das anteriores, a de Paterne Berrichon, cunhado de Rimbaud,; a do coronel Godchot (obra raríssima) que fará um verdadeiro panegírico ao pai de Rimbaud, e não ao filho, que vê com grandes restrições; as de Rolland de Renéville, a fantasiosa Vie aventureuse de Rimbaud, bem como as memórias de seu amigo Delhaye e de seu professor Izambard. No campo da crítica analítica comprei desde logo as obras de Etiemble, Le mythe de Rimbaud, em vários volumes, bem como as da chamada “crítica psicanalítica”, responsável pela decodificação dos significados ocultos de Rimbaud. Interessei-me pela personalidade de Vitalie Cuif, a mãe de Rimbaud, figura polêmica sobre a qual adquiri os três livros então existentes.

Quando morei na França em 1989-94, já estava decidido e começara a traduzir a poesia completa de Rimbaud. Vasculhava as livrarias e bouquinistas à cata de livros sobre a obra, não raro me embaralhando com os argumentos às vezes conflitantes que os críticos teciam a propósito de seus trabalhos. Um dia, na Société des Amis de Rimbaud, que eu freqüentava para ler as revistas especializadas e as críticas mais recentes, fiquei conhecendo Alain Borer, um dos maiores estudiosos da obra do infernal garoto de Charleville. Sabendo de minhas constantes pesquisas e de minha intenção de traduzir a obra completa de Rimbaud, deu-me um conselho: “Pare de ler, procure esquecer o que já leu, concentre-se no texto pois ali está a palavra final e vá em frente. Se não, você jamais traduzirá essa obra sobre a qual todos os dias sai alguma nova interpretação.” Assim fiz, em 1992 vim ao Rio com a poesia completa traduzida e acabei encontrando o editor da Topbooks, que com entusiasmo se prontificou a editá-la, o que fez em 1994, insistindo para que eu continuasse com a obra completa, o que fiz lançando o segundo volume – Prosa Poética – na Semana Rimbaud deste CCBB, quatro anos depois.

Faltava o terceiro e último volume – A Correspondência. Rimbaud, depois de compor as Iluminações, deve ter percebido, com sua aguda consciência crítica, que havia atingido o ápice da poesia, que não havia nada mais além senão a repetição, o espelho de si mesmo. E abandona definitivamente a poesia para tentar enriquecer-se comerciando na África. Há cerca de 25 cartas que escreveu durante a sua “vida literária” e mais de uma centena que da África dirigiu a seus “familiares”, estas totalmente destituídas de qualquer nuance estilística. Aos seus “Chers amis” (caros amigos), como chamava a mãe e a irmã, relata suas atividades comerciais, seus deslocamentos, suas explorações de territórios virgens, seus problemas financeiros, funcionais e seu desesperado esforço em amealhar ouro para voltar rico à França a fim de viver de rendas. São aparentemente cartas de pouco interesse mas muito reveladoras da personalidade de Rimbaud. Muni-me de vasto material livresco para bem traduzi-las: todos os livros existentes sobre sua permanência na África (a Correspondence 1888-1891, de Jean Voellmy, o Rimbaud – l´heure de la fuite, de Alain Borer, as Lettres de la vie littéraire, de Jean-Marie Carré, Rimbaud da Arábia, Rimbaud na Abissínia, Rimbaud à Aden, Rimbaud ailleurs, Un sieur Rimbaud se disant négociant (obra raríssima de Alain Borer). Mas a tradução se arrastava, interrompida, eu queria ler mais e mais, esquecido da lição que antes tivera. Mas eu sabia o porquê. Conhecendo bem a biografia (as biografias) de Rimbaud, sabia que mais cedo ou mais tarde haveria de chegar no momento dramático em que lhe amputam a perna cancerosa no Hospital de la Concepcion, em Marselha. E sua angônica travessia do Harar a Warambot numa liteira, transportado por dezesseis carregadores por 300 quilômetros de deserto. Como voltar a essas cartas e à que sua irmã escreve à mãe Vitalie narrando a agonia do poeta?!

O livro saiu finalmente em 2009, perfazendo a trilogia, no mesmo ano em que se publicava na França pela primeira vez a edição integral dessas cartas, organizada por Jean-Jacques Lefrère.

A partir de então, toda vez que me sentava diante do computador, eu tinha à minha frente duas longas prateleiras de livros de e sobre Rimbaud, a maior parte deles trazendo sua imagem na lombada. Eu ainda não estava isento de sua presença mesmo depois de ter, ao longo de tantos, anos me dedicado à missão de traduzir-lhe a obra integral.

Alguns daqueles livros eram verdadeiras raridades: o de Paterne Berrichon, o cuhado, com o título Jean-Arthur Rimbaud, Le Poete, trazia a data de 1912, ou seja tinha um século de existência e provavelmente já estava comigo havia meio século. O Album Zutique, fac-simile do famoso caderno em que os Villains Bonshommes, amigos de Rimbaud e Verlaine, consignavam seus improvisos sob a forma de versos ou desenhos e no qual Rimbaud colaborou inúmeras vezes, com suas iniciais e pseudônimos, atribuindo essas produções aos seus desafetos. A tiragem desse álbum foi reduzidíssima, o que representa além de sua importância eminentemente artística um inestimável valor pecuniário. O que seria feito deles quando os meus olhos já não os pudessem ver? Temendo por um destino menos glorioso, resolvi em bom momento doá-los à biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil. Foi no Banco que fiz minha carreira profissional, nele passei 37 anos de minha vida, em nenhum outro lugar os livros estariam mais seguros e desempenhando um melhor papel cultural, já que sua leitura seria franqueada a outros que, como eu, se interessassem pela obra sem par desse Jean-Arthur Nicolas Rimbaud. Neste momento, faço a entrega oficial de todos os meus livros, revistas especializadas, publicações várias, tapes, manuscritos, os originais datilografados de minha tradução, e vários outros documentos no total de 170 itens ao Centro Cultural Banco do Brasil, onde sei que serão guardados com o mesmo zelo com que até hoje os conservei.

Surpreendeu o número de jovens que acorreram à palestra, dela participando ativamente com perguntas que se prolongaram por cerca de 45 minutos após a locução.

Os leitores que assim desejarem poderão fazer perguntas sobre a obra de Rimbaud como se estivessem presentes à palestra. As respostas serão dadas aqui mesmo na Gaveta.

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MEU LEGADO DE LIVROS-II

No dia 15/04/2011, declarei aqui neste blog minha intenção de deixar à biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil, na rua Primeiro de Março, no Rio de Janeiro, a minha “rimbaldiana”, ou seja, os 170 livros sobre Rimbaud e sua obra que andei colecionando ao longo da vida. O primeiro foi naquele longínquo 1952 quando adquiri na Livraria da Maison de France o ARTHUR RIMBAUD – POÈTES D´AUJOURDHUI, de Claude Edmonde Magny, das edições Pierre Sehghers, responsável por minha descoberta da prosa revolucionária de UNE SAISON EM ENFER. Em 1966, quando fui pela primeira vez à França, adquiri nos bouqinistes do Sena as POÉSIES, edição popular de Aux Quais de Paris, de capa amarela, que passou a acompanhar-me por todas as residências que tive no Brasil e no Exterior. Ao longo dos anos fui amealhando tudo o que podia sobre Rimbaud e sua criação literária, desde as obras completas nas várias edições francesas, bem como as italianas e de língua inglesa; e uma infinidade de estudos, ensaios, edições críticas, facsimiles, sem falar nas biografias e documentação iconográfica. Agora, dei por concluída a tradução integral da obra de Rimbaud, com o terceiro volume, CORRESPONDÊNCIA, editado pela Topbooks em 2009. Esse trabalho  me tocou profundamente,  pois de novo acompanhei, naquelas cartas, todo o sofrimento de Rimbaud até seu lastimável fim no Hospital de la Concepcion, em Marselha, a 10 de dezembro de 1891. O câncer no joelho, a amputação da perna, toda  essa desgraça, mais que a luminosa trajetória do poeta, me vinha à lembrança cada vez que tirava os olhos da tela de meu computador e via logo atrás, dispostos em duas longas prateleiras da estante, esses livros que amei, que li e reli, que anotei, que percorri página a página em busca de esclarecimentos, comprovações e argúcias críticas que me pudessem ajudar a melhor penetrar a sua obra. Pois acabo de realizar esse meu grande intento.

Ontem, dia 17 de novembro de 2011, a bibliotecária do CCBB veio recolher os volumes doados que passarão a integrar uma estante denominada BIBLIOTECA IVO BARROSO na seção de obras raras daquela instituição. À minha frente agora, só duas longas prateleiras vazias, à espera de hóspedes mais felizes, mas certamente menos geniais. A relação dessas obras vai transcrita abaixo com a informação de que os leitores interessados em compulsar aqueles volumes poderão fazê-lo no âmbito da biblioteca, estando contudo vedado o empréstimo a domicílio. O CCBB pretende fazer um pequeno ato público de entrega desses livros com uma curta palestra sobre o conteúdo deles e sua importância no conhecimento da obra de Rimbaud. A data será oportunamente fixada.

RELAÇÃO DOS LIVROS DOADOS AO CCBB-RIO

1) Rimbaud – Oeuvres Complètes – Rolland de Renéville et Jules Mouquet – Bibliothèque de la Plêiade – 1954

2) Rimbaud – Oeuvres Complètes – Antoine Adam – Bibliothèque de la Plêiade – 1972

3) Oeuvres de Rimbaud – Suzanne Bernard – Éditions Garnier – 1960

4) Oeuvres de Rimbaud – S. Bernard e A. Guyaux – Classiques Garnier – 1991

5) Arthur Rimbaud – Oeuvres Completes – Pierre Brunel  – Le Livre de Poche – 1999

6) Arthur Rimbaud – Oeuvres Completes / Correspondence – Louis Forestier – Robert Lafont – 2004

7) Arthur Rimbaud – Oeuvre-Vie – Alain Borer – arléa – 1991

8) Rimbaud – Opere complete – Mario Richter – Einaudi-Gallimard -1992

9) Arthur Rimbaud – Opere – Diana Grange Fiori – Arnaldo Mondadori – 1975

10) Arthur Rimbaud – Opere – Ivos Margoni – Feltrinelli – 1988

11) Rimbaud – Opere in verso e in prosa – Dario Bellezza – Garzanti – 1989

12) Rimbaud – Tutte le poesie – G. Nicoletti / Laura Mazza – Tasccabili Newton – 1989

13) Arthur Rimbaud – Le Illuminazioni e Uma Stagione all´Inferno – Anna Luisa Zazo – Biblioteca Universale Rizzoli – 1961

14) Arthur Rimbaud – Illuminazioni – Ivos Margoni / Cesare Colletta – Rizzoli – 1988

15) Rimbaud – la vita la poesia i testi esemplari – Ruggero Jacobbi – Edizioni Accademia – 1974

16) Rimbaud – Complete Works, Selected Letters – Wallace Fowlie – University of Checago Press – 1966

17) Arthur Rimbaud – Complete Works – Paul  Schmidt – Harper Colophon Books – 1976

19) Arthur Rimbaud – Collected Poems – Oliver Bernard – Penguin Books – 1987

20) Rimbaud – A Season in Hell / The Illuminations – Enid Rhodes Peschel – Oxford Paperbacks – 1974

21) A Season in Hell & Illuminations – Poems by Arthur Rimbaud – Bertrand Mathieu – BOA Editions – 1991

22) A Season in Hell and The Drunken Boat – by Arthur Rimbaud – Louise Varèse – New Directions Paperbook – 1961

23) Rimbaud – Illuminations and other prose poems – Louise Varèse – New Directions Paperbook – 1957

24 ) Baudelaire / Rimbaud / Verlaine – Selected Verse and Prose Poems – Joseph M. Bernstein (Norman Cameron) – The Citadel Press – s/d

25) Arthur Rimbaud – Poesía completa – Alberto Manzano – Edicomunicación.S.A. – 1994

26)Arturo Rimbaud – Obra Poética –E. M. S. Danero – Librería Perlado – 1959

27) A. Rimbaud – Iluminaciones – Cintio Vitier – Visor Madrid – 1980

28) J. Arthur Rimbaud – Una Temporada en el Infierno – Gabriel Celaya – Visor Madrid – 1985

29) Arthur Rimbaud – Una temporada en el infierno – Oliverio Girondo y Enrique Molina – General Fabril Editora – 1959

30) J. A. Rimbaud – Una temporada en el infierno – J. Farrel – Editorial Sêneca – s/d

31) Arthur Rimbaud – Lyrik och prosa –  Gunnar Ekelöf – Fórum Pocket – 1972

32) Arthur Rimbaud – une saison en enfer – collection ouroboros – s/d

33) Poesies Rimbaud – Patrick Olivier – Hatier – 1977

34) Arthur Rimbaud – Poesies – Aux Quais de Paris – 1966

35) Rimbaud – oeuvres poétiques – Michel Décaudin – Garnier-Flammarion – 1964

36) Rimbaud – Jean-Baptiste Baronian – L&PM pocket – 2011

OBRAS RARAS E VALIOSAS 

37) Colonel Godchot – Arthur Rimbaud ne varietur 1854-1871 – Chez l´auteur – 1936

38) A. Rolland de Renéville – Rimbaud le voyant – Denoël et Steele – 1929

39) Rolland de Renéville – Rimbaud le voyant – La Colombe – 1947

40) Jean Teulé – Rainbow pour Rimbaud – Julliard – 1991

41) Delahaye témoin de Rimbaud – F.Eigeldinger/André Gendre – A la Baconnière – 1974

Biografias

42) Arthur Rimbaud – Enid Starkie – A New Directions Paperbook – 1968

43) Enid Starkie – Rimbaud – tr. Francesa de Alain Borer – Flammarion – 1982

44) Pierre Petitfils – Rimbaud – Biographie – Julliard – 1982

45) Jean-Luc Steinmetz – Arthur Rimbaud – une question de presence – Tallandier – 1991

46) Jean-Jacques Lefrère – Arthur Rimbaud – Fayard – 2001

47) Jean-Jacques Lefrère – Arthur Rimbaud – Correspondance – Fayard -2007

48) Graham Robb- Rimbaud, a biography – W. W.Norton & CO. – 2000

49) Charles Nicholl – Rimbaud na África – Nova FRonteira – 2007

50) Claude Edmonde Magny – Arthur Rimbaud – poetes d´aujourd´hui –  Pierre Seghers – 1952

51) Yves Bonnefoy – Rimbaud par lui-même – éditions du seuil- 1970

52) Jacques Rivière – Rimbaud – Dossier 1905-1925 – Gallimard – 1977

53) Benjamin Fondane – Rimbaud le voyou –Éditions Complèxe – 1990

54) Madeleine Perrier – Rimbaud: Chemin de la creation – Gallimard – 1973

55) Alain Jouffroy – Arthur Rimbaud et la liberté libre – Éditions do Rocher – 1991

56) StanilasFumet – Rimbaud mystique contrarié – Plon – 1966

57) Michel Butor – Improvisations sur Rimbaud – Éditoons de la Différence – 1889

58) P.Petitfils – L´Oeuvre et le visage d´Arthur Rimbaud – Nizet – 1949

59) Etiemble – Le mythe de Rimbaud – Genèse du mythe – 1869-1949 – Gallimard – 1968

60) Etiemble – Le mythe de Rimbaud – Structure du myrhe – Gallimard -1961

61) Etiemble – Le mythe de Rimbaud – L´année du centenaire – Gallimard – 1967

62) Etiemble – Rimbaud, système solaire ou trou noir? – Puf écrivains – 1984

63) Etiemble et Yassu Gsauclère – Rimbaud – Gallimard – 1950

64) Etiemble – Le sonnet des voyelles – Gallimard – 1968

65) Charles Henry L. Bodenham – Rimbaud et son père – Les Belles Lettres – 1992

66) Victor Segalen – Le Double Rimbaud – A Fontfroide – 1986

67) Steve Murphy – Rimbaud et la menagerie impériale – Editions du CNRS – 1991

68) Steve Murphy – Le Premier Rimbaud ou l´apprentissage de la subversion – Editions du CNRS – 1990

69) Antoine Fongaro – Rimbaud: texxte, sens et interpretations – Presses Universitaires du Mirail – 1994

70) Pierre Brunel – Arthur Rimbaud ou l´éclatant desastre – Champ Vallon – 1978

71) André Guyaux – Duplicités de Rimbaud – Champions-Slatkine – 1991

72) Revue d´histoire littéraire de la FRance – Rimbaud et son temps – Sarmand Colin – 1992

73) L´ABCdaire de Rimbaud – Pierre Chavot – Flammarion – 2001

74) Henning Boëtius – El corazón robado – Seix Barral – 1996

75) Charles Mauras – Barbarie et poésie – Arthur Rimbaud – Nouvelle Librairie Nationale – 1925

76) Rimbaud por ele mesmo – Martin Claret – s/d

77) Rimbaud – Um Estação no Inferno – tr. Xavier Placer – M.E.S – 1952 – quatro exemplares

78) Arthur Rimbaud – Uma Estadia no Inferno – tr. Ivo Barroso – Civilização – 1977 – quatro exemplares

79) Idem- 2ª. edição – 1983 – 2 exemplares

80) Uma época no inferno – tr. Mário Cesariny de Vasconcelos – Portugália Editora – 1960

81) Iluminações / Uma cerveja no inferno – tr. Mário Cesariny – Assírio & Alvim – 1989

82) Iluminações  Uma temporada no inferno – tr. Lêdo Ivo – Civilização – 1957

83) Uma estadia no Inferno – Poemas escolhidos – A Carta do Vidente – tr. Daniel Fresnot – Martin Claret – 2005

84) Uma temporada no inferno & Iluminações – tr. Ledo Ivo – Francisco Alves – 1982

85) Uma temporada no inferno – tr. Paulo Hecker Filho – L&PM – 1997

86) O Rapaz Raro – iluminações e poemas – tr. Maria Gabriela Llansol – Relógio d´Água – 1998

87) 35 poemas de Rimbaud – tr. Gaëtan Martins de Oliveira – Relógio d´Água – 1991

88) Rimbaud da América e outras iluminações – Maurício Salles Vasconcelos – Estação Liberdade – 2000

89) Rimbaud – Illuminations – GF Flammarion – 1989

90) Rimbaud – Dominique Rincé – Nathan – 1992

91) Autour de Rimbaud – C. A. Hackett – Librairie C. Klincksieck – 1967

92) Madame Rimbaud – Suzanne Briet – Lettres modernes – 1968

93) Vitalie Rimbaud – Claude Jeancolas – Flammarion – 2004

94) Madame Rimbaud – Françoise Laland – Presses de la Ranaissance – 1987

95) A Correspondência de Arthur Rimbaud – tr. Alexandre Ribondi – L&PM – 1983

96) Rimbaud en son temps – Marcelin Pleynet – Gallimard – 2005

97) Rimbaud – Verlaine – Graças e desgraças – António Moura – Hiena Editora – 1993

98) La vie aventureuse de Jean-Arthur Rimbaud – Jean-Marie Carré – Plon – 1926 OBRA RARA   

99) Correspondance – 1888-1891 – ed. Jean Voellmy – Gallimard – 2004

100) Rimbaud – l´heure de la fuite – Alain Borer – Gallimard – 1991

101) Les Femmes de Rimbaud – Jean-Luc Stinmetz – Zulma – 2000

102) I promise to be good – tr. Wyatt Mason – Modern Librry – 2004

103) Lettres de la vie littérarire – ed. Jean-Marie Carré – Gallimard – 1931

104) Rimbaud au fil des ans – Pierre Petifils – Musée Rimbaud – 1984

105) The Poetry of Rimbaud – Robert Greer Cohn – USCarolina Press – 1999

106) Jean-Arthur Rimbaud – Le poète – Paterne Berrichon – d. Brunel – Klincksieck – 2004

107) Carnet Rimbaud – Mille et une nuits – 1998

108) Rimbaud – M.-A. Ruff – Hatier – 1968

109) Paul Verlaine – Confissões – e Arthur Rimbaud – tr. Cabral do Nascimento – Relógio d´Água – 1994

110) Rimbaud da Arábia – Alain Borer – tr. Antônio Carlos Viana – L&PM – 1991

111) Rimbaud tel que je l´ai connu – Georges Izambard – Le Passeur – 1947 – OBRA RARA

112) Rimbaud na Abissínia – Alain Borer – tr. Antônio Carlos Viana – L&PM – 1987

113) Bonheur – Paul Verlaine – Mercure de France – 1949 – OBRA RARA

114) Rimbaud no Brasil – org. Carlos Lima – UERJ – 1993 (dois exemplares)

115) Rimbaud Livre – Augusto de Campos – Perspectiva – 1993

116) O tempo dos assassinos – Henry Miller – tr. George Cardoso Ayres – Record – 1968

117) Le Bateau Ivre – Augusto Meyer – Livraria São José – 1955

118) Arthur Rimbaud — Ernest Pignon-Ernest – Editions J.C. Lattès – 1991

119) Rimbaud – Calender – Agenda – Edition Aragon – 1991

120) O barco ébrio – Jayro Schmidt – Bernúncia – 2006

121) Rimbaud le fils – Pierre Michon – Folio – Gallimard – 1991

122) Rimbaud, o filho – Pierre Michon – tr.Juremir Machado da Silva – Ed. Sulina – 2000

123) Arthur Rimbaud para Alain Borer – narrativa em 2 cassetes

124) Os três volumes das obras completas tr. de Ivo Barroso – Topbooks – 1994/2009

125) Uma caixa com revistas francesas sobre Rimbaud

126) Uma caixa contendo os originais da tradução de Une Saison em Enfer.

127) Une Saison em Enfer – Edition critique – Pierre Brunel – José Corti – 1987

128) Un Coeur sous une soutane – ed. Steve Murphy – Bibliothèque sauvage – 1991

129) La Prose de Rimbaud – Gilles Marcotte – Boréal – 1989

130) Essais de sémiotique poétique – A. J. Greimas – Larousse – 1972

131) Le Code dantesque dans l´ouevre de R. – Margherita Frankel – Nizet – 1975

132) Rimbaud Projets et Réalisations – Pierre Brunel – Champion – 1983

133) EUROPE – revue littéraire mensuelle – Rimbaud  – 1991

134) Revue des letters modernes – Rimbaud-1 – images et témoins – 1971

135) idem – Une saison en enfer – poétique et thématique – 2 – 1973

136) idem – problèmes de langue – 3 – 1976

137) idem – autour de Villes et Génie – 4 – 1980

138) Conférence – revista – Rimbaud Enluminures´- M. Martineau – 1995

139) Conférence – número dois – printemps 1996

140) SUD – revista – Arthur Rimbaud – Bruits neufs – 1991

141 – revista avan-siècle – 1 – études rimbaldiennes – 1968

142) idem – 2 – les manuscrits de Rimbaud – 1970

143) idem – 3 – études rimbaldiennes – 1972

144) Parade sauvage – études rimbaldiennes – nº 13 – 1996

145) idem – nº14 – mai 1997

146) Circeto – études rimbaldiennes – oct. 1983

147) idem – fev. 1984

148) EUROPE – revista – Rimbaud – 1973

149) La Bataille Rimbaud – Bruce Morrissette – Nizet – 1959

150) L´Herne – documentário Rimbaud – André Guyaux – 1993

151) Le banquet de Rimbaud – Anne-Em. Berger – Champ Vallon – 1992

152) Rimbaud au Japon – Jacques Perrin – Presses univ. de Lille – 1992

153) Le Dictionnaire Rimbaud – Claude Jeancolas – Balland – 1991

154) Dix études sur Une Saison en Enfer – À la Baconnière – 1994

155) Les Deux visages de Rimbaud – Mario Matucci – idem – 1986

156) L´Adolescent Rimbaud – Robert Montal – Le Écrivains réunis – 1954 obra rara

157) Rimbaud and Jim Morrison – Wallace Fowlie – Duke University Press – 1993

158) Rimbaud e Jim Morrison – Wallace Fowlie – Editora Elsevier – 2005

159) Illuminations – edição crítica – André Guyaux – Braconnière – 1985

160) Poétique du fragment – André Guyaux – Baconnière – 1985

161) Le vertige de Rimbaud – Paule Lapeure – Baconnière – 1981

162) Um sieur Rimbaud se disant n[egociant – Alain Borer – Lachenal & Ritter – 1983/84

163) Rimbaud à Aden – Jean-Jacques Lefrère – Fayard – 2001

164) Rimbaud Ailleurs – fotos de Jean-Hugues Berrou – Fayard – 2002

165) Arthur Rimbaud – Oeuvres – René Char – Club français du livre – 1957 OBRA RARA 

166 ) ALBUM ZUTIQUE  – edi;’ao facsimilada – Pascal Pia – Jean-Jacques Pauvert  – 1962 EDIÇÃO RARÍSSIMA DE APENAS 1.500 EXEMPLARES PARA O CERCLE DU LIVRE PRÉCIEUX

167) A E I U O – Rimbaud – vários autores – Hachette – 1968 (iconografia)

168) Rimbaud – l´oeuvre intégrale manuscrite – Claude Jeancolas – Textuel – 1996 (3 volumes)

TOTAL 170 ITENS

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Uma preocupação vem me assaltando ultimamente: que será de meus livros?  quem ficará com eles? Serão vendidos a peso, doados a uma instituição de caridade, conservados por algum parente que goste de leitura?

Escrevo num quarto calafetado de livros: pelas quatro paredes, eles vão do rodapé ao teto e se espalham ainda pela cimeira da porta. Dispostos nas estantes sem nenhum critério, às vezes tenho dificuldade de encontrar algum, mas posso dizer que conheço a maioria pela lombada, sou capaz de “sentir” a presença de um deles mesmo quando espremido nas prateleiras mais altas. Já sonhei uma vez que as estantes se desmoronaram sobre mim, soterrando-me nos livros, por isto não ouso “pescar” nenhum do alto, puxando-o pela lombada. Há alguns que estão comigo há mais de cinco décadas, tenho certamente outros ainda mais antigos. Quantas lembranças me trazem quando reencontro um desses velhos companheiros e o tomo nas mãos para abri-lo ao acaso: este foi Fulano que me deu, aquele outro ganhei num concurso, o Casimiro tem uma dedicatória de meu pai, simples, direta, “Ao Ivo Salve  25-12-44 Oferenda s/ pae, Ormindo”, presente de aniversário dos meus 15 anos! Amo-os, é claro, como se fossem filhos de papel, os filhos de sangue que não tive. Recentemente um jornal de São Paulo me pediu um poema de Natal e escrevi:

PAPAI, NOEL

Pelo Natal eu só ganhava livros

Eu pedia carrinhos de brinquedo

e ele me dava livros no Natal

Durante o ano eu lhe pedia livros

que ele me dava mesmo sem pedir

Anos sem que eu pudesse reverter

o sentido do dar e receber

Eu sonhava lhe dar uma alegria

algo de mim que o fosse contentar

Ele sonhava que eu gerasse um filho

e nem meus livros eu lhe pude dar.

Eu quis dizer, neste verso final, que não cheguei a dar a meu pai a alegria de ver publicados os meus próprios livros, pois ele morreu antes que  a Caça Virtual e meus outros opúsculos viessem a lume. Mas sabia das minhas traduções e ficava feliz quando via meu nome nos jornais.

Outra dedicatória, ainda mais sucinta, e dessa mesma data, dizia: “Do Pedro, ao Ivo. Rio, 25/12/44”. O ofertante, no caso, era meu tio materno, Pedro Pimentel, que morou por uns tempos em nossa casa na rua Pontes Correa. Autodidata, escrevia num português correto, estribado em duas ou três gramáticas e dicionários que integravam sua pequena biblioteca pessoal. Era funcionário graduado do Lloyd Brasileiro e redigia longos relatórios sobre as viagens de inspeção que fazia pelos portos do país. Numa delas, a mais demorada, voltou noivo de uma cearense, e como devia em seguida fazer outra viagem, dessa vez para o Sul do Brasil, pediu à minha mãe que fosse a Fortaleza “resgatar” a noiva. Acompanhei minha mãe nessa viagem e acabamos nos casando (por procuração) com a moça que trouxemos conosco, depois de uma cerimônia privada, certamente para satisfação da família cearense que não podia vir ao Rio. Nos tempos de solteiro que passou conosco, foi meu grande inspirador e roommate (adoro esta palavra), sabatinando-me com frequência sobre questões de português, ortografia, colocação de pronomes, significado de palavras, etc. Era poeta, compunha sonetos bem rimados e metrificados, e foi com ele que aprendi métrica, a escandir versos e a gostar realmente de poesia. Tínhamos um caderno-álbum em que transcrevíamos os poemas que julgávamos “de primeira classe”, e certa vez me censurou por eu haver acolhido uns versos que ele considerava “inferiores”. Agastado com a restrição ao meu gosto literário, arranquei num rompante a folha do álbum, entreguei-o a ele e nunca mais falamos no assunto. Eu o admirava profundamente pela aura de suas viagens, pelas histórias que contava de sua experiência marítima; tinha sido oficial da marinha mercante e conhecera vários portos estrangeiros. Em Nova York visitou a Coney Island e almoçou no famoso restaurante do Jack Dempsey. Garantia, para mim incrédulo em meu incipiente inglês, que os americanos diziam “uóra” em vez de “water”. Vestia ternos de linho Taylor 120 e tinha sapatos feitos sob medida, que guardava em alvas sacolas de flanela; havia um par que me fascinava, de duas cores, marrom e branco,  cuja imponência era acentuada pela robustez do solado. Aos sábados entregava-se a uma longa rotina dedicada aos cuidados corporais: cortava as unhas, passava-lhes talco e as friccionava com uma escova própria, de camurça, que ele guardava num estojo certamente adquirido no exterior, no qual havia ainda uma tesourinha pontuda que servia para aparar as cerdas nasais e um minúsculo pincel com que enegrecia o bigode. Engraxava os sapatos e se preparava para sair à noite, quando ia “furar cartão” (dançar) nas boates da avenida Rio Branco. Era a única ocasião em que não o acompanhávamos, pois costumávamos passear juntos na baratinha descapotável que ele havia adquirido e na qual só carregava duas pessoas de cada vez, para não afetar as molas de suspensão. Nós, mais novos, ficávamos siderados quando ele e minha mãe se punham a lembrar fatos de sua juventude no Herval. “Cedinha, você lembra quando o Ti´Tatão, etc” e ela retrucava com outro caso desse tempo, e ambos diziam: “Lá se vão uns trinta anos!” Meus irmãos se entreolhavam, impossível alguém se lembrar do que havia acontecido a trinta anos passados. Ele e eu trocávamos impressões de leitura e costumávamos declamar juntos algum longo poema, o livro revezando em nossas mãos. De tanto lermos os “Poemas” de Menotti del Picchia, já sabíamos de cor quase todo o “Juca Mulato” e “O beijo de Arlequim”. Um dia, fizemos um desafio mútuo: ver quem escrevia o melhor soneto sobre “Vida”. Passados uns dias, depois do jantar, ele tirou do bolso um papel e leu sua composição que falava de nascimento, infância, juventude, maturidade e morte. Dei um sorriso sardônico, com ares de quem já estava saboreando as batatas da vitória. E declamei o meu bestialógico, onde as presenças de Augusto dos Anjos e de Raul de Leoni eram mais que flagrantes, atropeladas por imprecisas noções de biologia:

A vida é o resultante grau da orgânica

Evolução da célula. É energia

Que mais se apura, dia para dia,

Desde os tempos remotos da Era Oceânica.

É movimento, é força que se cria;

De potencial transforma-se em dinâmica.

Evolveu-se da Micro à Pterodâmica

Espécie em fecunda embriogenia.

(etc)

Meu tio conseguiu disfarçar sua perplexidade diante daquele despautério. Pegou o papel, leu-o com atenção, elogiou o emprego de “evolver” em lugar de “evoluir”, que o Cândido de Figueiredo (em quem costumava estribar-se para a elucidação de dúvidas gramaticais) considerava um galicismo. Sem dizer o que achava, falou que tinha uma dúvida: Não seria pterodáctila em vez de pterodâmica? Finquei pé no pterodâmica, sem o que lá se iria embora a minha rima rica (achava eu, rara e riquíssima).  O Lello Universal Ilustrado de sua estante particular não me abonava o termo, nem sequer trazia o pterodáctilo proposto. Meu professor de biologia é quem resolveria o caso. No dia seguinte, fui à aula (noturna, que eu costumava matar) e submeti meu mostrengo ao professor, a quem já havia mostrado outros escritos meus. “Do ponto de vista científico, não faz sentido; é confuso e incongruente. Mas os versos são bons e você deve insistir. Na sua idade, seria melhor escrever poemas de amor”.  Confessei ao tio o meu fracasso científico e minha vitória poética. Ele me incentivou dizendo que de fato eu seria um grande poeta. Ele, o meu guia, acreditava em mim, achava que eu podia caminhar sozinho. Fiquei determinado a não decepcioná-lo no futuro. Quando nos deixou para montar a própria casa, praticamente na mesma rua, senti um vazio indescritível: lá se foram as gramáticas, os sapatos ensacados, as tesourinhas de unha, além do encantamento mútuo com a leitura de nossas produções. Lá se fora o amigo, o companheiro, o roommate,  meu ídolo,  meu mestre. Ali tão perto e já tão distante, como se entre nós o tempo tivesse colocado uma barreira intransponível.

Vejam: abre-se um livro e de sua dedicatória, amarelecida e quase desfeita pela idade, surgem tantas lembranças, flashes-back de uma vida, viagem de regresso ao tempo nunca perdido da juventude. Então, digam-me lá: o que fazer dos meus livros já que me pesa tanto ter que deixá-los  sem destino,  sem definição? Estive pensando em várias soluções. Durante mais de trinta anos andei colecionando livros relativos a Rimbaud e à sua obra: edições integrais, biografias, ensaios, dicionários, revistas especializadas, etc. No fim do ano passado, quando editei o terceiro e último volume de minha tradução de sua obra completa, percebi que estava diante de um acervo bastante expressivo, não só quanto ao valor artístico mas igualmente quanto ao material, pois nele se incluem algumas obras raras, primeiras edições, livros fac-similados, etc. Depois de considerar cumprida a incumbência a que me autodeterminei de colocar ao alcance do leitor brasileiro tudo o que o gênio de Charleville havia escrito, a visão diária desses 120 volumes à minha frente na estante acaba sendo um pequeno suplício, pois me faz lembrar cada um dos momentos em que estive em combate ferrado com o Anjo. Resolvi, pois, doá-los a Biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil, onde eles poderiam continuar formando uma coleção especializada, e também ao alcance de minha vista em caso de me bater uma (inexplicável) saudade repentina.

Excelente ideia. Mas, e os outros? Que destino darei, por exemplo, àquele magnífico “Les Fleurs du Mal” da coleção Pastels, ilustrado por Jacques Roubille, Éditions du Panthéon, do qual só foram impressos 500 exemplares “sur pur fil Johannot” (o meu é o nº 318), em MCMXLVI, hoje considerado obra rara e fora do comércio? Comprei-o com o meu primeiro salário, na livraria francesa que havia no térreo da Faculdade de Filosofia, onde eu cursava Línguas Neolatinas, ali onde é hoje a Maison de France. Preciosidade que eu guardava numa caixa de charutos e em cujas páginas comecei a acumular algumas notas graúdas, talvez para novas e temerárias aquisições.

Assim como ocorreu em relação a Rimbaud, também quando organizei em 1995 para a Nova Aguilar o volume ”Poesia e Prosa”, de Charles Baudelaire, acabei formando uma coleção com as dezenas de livros que tive de ler para selecionar o material existente em português, além de várias edições francesas que eu já tinha ou que vim a adquirir. Lá estão eles ocupando toda uma prateleira da estante. Também os livros de e sobre Rilke, arrecadados para uma edição quase completa de sua obra, que a Nova Aguilar pretendia fazer logo depois do Baudelaire; são ainda 34 volumes, mesmo depois da devolução de cerca de mais 20, emprestados pelo Dr. Rischbieter. Mais em cima, a minha paixão da juventude, o romantíssimo Edmond Rostand, com todas as belas edições do “Cyrano de Bergerac” e do “L´Aiglon”, inclusive a famosa edição da Impremerie Nationale de 1983, sem falar na raríssima biografia escrita por sua mulher, Rosemonde Gérard, em 1935, e com uma dedicatória da própria “pour Jacques Chabanne, très sympathiquement” (peça de colecionador, de 1935). Falar de Rostand seria falar de todos os sonhos, vitórias e decepções de amor que sagraram os meus anos juvenis, arroubos, versos ardentes, lágrimas contidas, coração convulso…

Da parte superior da estante, ocupando mais de duas prateleiras, Shakespeare me observa através de ricas edições de suas obras completas e uma porção de traduções em várias línguas. Não, não o esqueci, foi meu primeiro cometimento, minha “glória” maior de quando o vi (em minha tradução) sob o formato de imponente coffee-table book, ilustrado por Isolda Hermes da Fonseca e editado por Carlos Lacerda, a quem eu assessorava na redação da Enciclopédia Século XX. Que será destes tesouros sentimentais, desses pedaços líricos de mim? Talvez o melhor será deixá-los também para o Banco do Brasil, onde trabalhei por 37 anos, para o seu CCBB cuja biblioteca saberá guardá-los com cuidado, ainda que não lhes possa dispensar o mesmo carinho que lhes dediquei. Mas, você, o que faria em meu lugar?

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