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Posts Tagged ‘Antônio Houaiss’

Fiquei em Lisboa até dezembro de 1982.

Em 1983 fui transferido para a Agência do Banco do Brasil em Londres e lá encontrei o José Guilherme Merquior no cargo de ministro conselheiro de nossa Embaixada. Eu conhecera  Merquior nos anos 50, em Teresópolis, onde morava sua família, quando ainda meninote de uns catorze anos, mas já frequentando aos saraus literários da Pensão do Celso, onde se ouviam declamações de versos de espécies heterogêneas. Minha então namorada, e logo noiva, passava uma temporada em casa do irmão que se tornara vereador daquela cidade e por isto eu subia a serra com frequência nos gostosos tempos do trenzinho a cremalheira. O poeta local, Gastão Neves, de voz altissonante, declamava habitualmente o seu “Maria cheia de graça”, e Celso,  o proprietário, sempre instado a dizer seus versos, acabava elaborando umas frases penumbristas e hesitantes, que arrancavam longos aplausos dos velhos hóspedes com mensalidades em atraso. Eu mesmo cheguei a dizer uns versos para agradar a namorada, e creio que até Merquior, uma vez, declamou a contragosto uma quadrinha que fizera para sua orgulhosa mamãe, também presente. Anos depois já estava ele no Rio dando conferências estudantis e escrevendo adoidado e, como eu colaborasse com o Suplemento Literário do Jornal do Brasil na época, apresentei-o ao Reynaldo Jardim, que deslumbrado com sua inteligência logo o incorporou à Redação. José Guilherme estreou com fogosos artigos de crítica literária, não poupando os medalhões da época e se envolvendo em acirradas polêmicas. Agora em Londres, no ápice de uma bem sucedida carreira diplomática, foi com prazer que reatamos uma velha amizade. Pudemos curtir juntos o Festival de Ópera de Glyndebourne (vendo o Intermezzo, de Richard Strauss),  fazer um belo passeio ao campo e almoçarmos no (famoso) The Compleat Angler, em Marlow, às margens do Tâmisa, e flanar pela Belgravia onde morávamos. Em certa ocasião fomos ver juntos o musical Cats, de Andrew Lloyd Weber, que lá andava em cartaz desde a estreia em 1981. Nossa preocupação era saber se o compositor havia respeitado os poemas de Eliot ou se havia feito alterações, cortes ou encaixes. Para nossa surpresa, vimos que os versos estavam intactos, enriquecidos então por uma música contagiante e emotiva. Foi José Guilherme que me desafiou a fazer a tradução desses poemas em português. Aceitei o desafio, dias depois mandei-lhe uma primeira amostra e, a partir daí, ele me telefonava perguntando pelos gatos, como ia a ninhada, se já havia nascido mais algum. Os bichanos levaram alguns anos para crescer e completar a família. De Londres fui dirigir o Escritório de Representação do Banco em Estocolmo, na Suécia, onde passei 5 anos até me aposentar em 1989, quando, já por conta própria, fui morar em Paris. Lá, por coincidência, chegou, no ano seguinte (1990), o José Guilherme para assumir o cargo de embaixador na Unesco. Embora papeássemos com frequência à mesa do nosso restaurante preferido para almoço, o Divellec (na Esplanade des Invalides) e nos víssemos nos eventos oficiais, infelizmente nosso convívio foi.muito curto, pois ele veio a falecer prematuramente, vítima de um câncer terminal, um ano depois,  Nesse mesmo ano, vim ao Brasil trazendo Os gatos e procurei a  Nórdica do editor português Jaime Bernardes, que eu sabia ser o detentor dos direitos de tradução dessa obra de Eliot. O livro saiu, ganhou o Jabuti de tradução do ano, trazendo na folha de rosto esta homenagem: Dedico esta tradução à memória de José Guilherme Merquior, que tanto me incentivou a fazê-la.

Além de Os Gatos eu trazia outro livro comigo: uma antologia de meus poemas traduzidos, O Torso e o Gato. Fui logo mostrá-lo a Houaiss, que, amigo entusiasta como sempre, achou que as traduções mereciam uma apresentação. O livro saiu com seu aval nesse mesmo ano pela Editora Record e teve em seguida uma edição especial em capa dura feita pelo Círculo do Livro Ltda.

***

Em 1992 regressei definitivamente ao Brasil e nosso relacionamento se intensificou com a minha volta. Falávamo-nos com frequência e tivemos um jantar como sempre memorável em seu belo apartamento na Lagoa Rodrigo de Freitas. Foi nessa ocasião que ele me falou en passant sobre o exemplar defeituoso dos Sonetos que lhe fora enviado pela Nova Fronteira, e ele agradeceu numa carta certamente elegante mas com uma pitada de  ironia… Em novembro desse ano, Houaiss foi nomeado Ministro da Cultura pelo Presidente Itamar Franco e teve que se mudar para Brasília, onde permaneceu por pouco mais de um ano, esforçando-se, com risco da própria saúde, para levar a termo o andamento de seus inúmeros projetos para a dinamização da Pasta, a trabalhar inutilmente sem poder, por falta de recursos governamentais, realizá-los. Debilitado, despachando incansável até no leito, mesmo quando esteve hospitalizado em Brasília, Houaiss viu-se forçado a deixar o Ministério. E recusou as embaixadas da Unesco em Paris e a de Lisboa, que a Presidência lhe queria atribuir como uma espécie de compensação

***

Em 1994, resolvi desovar os trabalhos produzidos na França, principalmente a obra de Rimbaud, que eu me determinara a traduzir inteira. Tinha o primeiro volume pronto – a Poesia Completa – e comecei a procurar editor. A primeira sondagem foi junto à Nova Fronteira, que já havia editado minhas traduções de Marguerite Yourcenar: Golpe de misericódia (1992) e O denário do sonho (1994) e ia lançar em 1996 O tempo, esse grande escultor. Mas não chegamos a  um acordo quanto aos direitos autorais. Fui a São Paulo, em busca da Companhia das Letras, para a qual eu traduzira A vida, modo de usar, de Georges Perec em 1991 e quatro livros de Ítalo Calvino: Seis propostas para o próximo milênio (1990), O castelo dos destinos cruzados (1991), As cosmicômicas (1992) e Palomar (1994). Numa entrevista com Luiz Schwarcz, o editor, tive que cortar curto quando ele me pediu para deixar os originais que seriam examinados por sua equipe de leitura. Achei isso um capitis diminutio e trouxe o livro de volta para o Rio. Aqui acabei encontrando o editor José Mário Pereira, que eu não conhecia, e que se mostrou exultante logo com as primeiras amostras do trabalho. E me ofereceu uma inesperada participação nas vendagens do livro. Em nossas conversas, ele demonstrou ser um editor no mais avançado sentido da palavra: conhecia tudo, lera tudo, lembrava-se de tudo e debruçou-se sobre Rimbaud com a mesma obstinação que eu tivera ao traduzi-lo. Escreveu para o livro uma “orelha” altamente profissional, demonstrando estar em dia com a mais avançada crítica rimbaldiana. E tive a satisfação de, no lançamento do livro, que ocorreu numa semana inteira de festejos no CCBB, do Rio, ver na folha de rosto a dedicatória com que eu tinha sonhado por tanto tempo:

                                                               A 

                                                               Antônio Houaiss

                                                               Mestre

                                                               Mago

                                                               Amigo

                                                                                          I.B.

Um pálido tributo a quem tanto fizera por mim.

Em 15 de outubro de 1995 ele fazia 80 anos. Seus amigos, encabeçados pelo diplomata e cantor lírico Vasco Mariz, organizaram um volume gratulatório para marcar a data,  com depoimentos sobre os vários aspectos de sua vida e de suas inúmeras atividades. Tive a honra de nele colaborar com um capítulo sobre o Houaiss tradutor. Ei-lo:

Houaiss, o tradutor
(Sob a invocação de Santo Antônio)

Antônio Houaiss é nosso Valéry Larbaud! — disse num ímpeto, para logo corrigir:

— É mais, é o nosso “Saint Jérome”.

Pois se em o compararmos ao tradutor exemplar da língua francesa lhe prestamos a homenagem certa, invo­car o seu nome ao lado e em pé de igualdade com o do santo padroeiro dos tradutores será um ato de inegável justiça. Isso porque em Houaiss não se poderia ver apenas aquele que superou o grande desafio de reescrever o Ulis­ses em português; seu mérito maior, que supera mesmo a montanha mítica dessa tradução, é o de ter servido de (e nos servir o) exemplo de que as tarefas impossíveis podem ser finalmente realizadas, se a elas nos atacamos com ta­lento e amor. Duas qualidades, dois atributos, duas sagra­ções, reconheçamos, não fáceis de coabitar em muitos com frequência, mas que nele coexistem em conúbio indisso­lúvel, permanentemente.

Convivi com Antônio Houaiss desde a segunda meta­de dos anos 60, quando ele dirigia a estiva literária que era a preparação da Grande Enciclopédia Delta-Larousse. E, a propósito desse labor magno, nunca um topos clássico seria mais apropriado que a metáfora de Sísifo para re­presentar aquele Houaiss-carregador-de-pedras-morro-acima, trabalhando dia e noite, atolado atrás de monta­nhas de fichas que a nossa equipe lhe colocava sobre a mesa e que ele ia triturando, emendando, sintetizando, enrique­cendo com o escalpelo de sua crítica, o diamante de sua cultura, a sensibilidade de seu saber. E nesse convívio, nesse assistir diário de tantas lições de como resolver (e não criar) problemas, foi aumentando por ele a nossa admiração. Ali estava um intelectual que era capaz de não só gerar idéias (brilhantes), mas de brilhantemente executá-las. De ter­minar uma obra já com outra, ainda mais ousada, a engatilhar-se no cérebro e a lhe coçar as mãos na vontade de levá-la a termo. e tudo isso em meio a mil e uma outras solicitações e interesses vários, porquanto Houaiss é um ser multifacetado que emite seus brilhos e reflexos por diversíssimas áreas do saber, que vão da culinária à lexicografia, da poesia às ciências sociais.

A admiração do discípulo logo se transformaria em afeto de amigo. E Houaiss, durante muito tempo, foi aquele porto seguro da cultura e da apreciação do quadro nacional onde ancorávamos a nau do viajante ausente, do expatriado voluntário que fomos por uma larga temporada, e que ao voltar anualmente ao país se agiornava social, política e culturalmente na fonte Houaiss, que não raro transbordava sabedoria e witticism. em frente a um badejo saboreado à vista do Albamar.

Devemos a ele nossa apresentação ao mundo literário: por duas vezes prefaciou livros nossos, que ele lia e anotava escrupulosamente, num atestado de que seu visto em nosso passaporte literário decorria de convicção crítica e não apenas se inspirava nos ditames da amizade. Ao dedicar nossa tradução da obra de Rimbaud, prestamos ao mestre, ao mago e ao amigo um tributo acanhado e muito diluído da grande, imensa admiração que por ele sem­pre tivemos. Por Antônio Houaiss, esse frágil Davi que acor­da todas as manhãs para abater o seu Golias, esse homem que não sabe dizer não às tarefas mais impossíveis e indi­gestas, a mão sempre estendida aos seus amigos e a todos os que buscam seu conselho e seu auxilio.

Nobre, como sempre, Houaiss agradeceu a todos os que lhe prestaram a homenagem:

Quatro anos depois, a 7 de março de 1999, já bastante debilitado por um enfisema pulmonar e sofrendo de pneumonia, nosso  Mestre faleceu, infelizmente sem ver realizado o seu grande sonho, que era a publicação do  Dicionário Antônio Houaiss da Língua Portuguesa.

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O 2º andar estava vivendo aquela euforia que reinara na Editora quando foi invadida pela horda da Senhor. Mas, desta vez, longe da agitação nervosa das redações jornalísticas que vemos no cinema – com pessoas passando de um lado para o outro em frente às câmeras – o que se observava era um ordenado grupo de jovens à espera do momento de falar com Antônio Houaiss.

Graças à ação jurídica dos advogados Vítor Nunes Leal, Luiz Gonzaga Nascimento Silva e Evandro Lins e Silva as acusações contra ele (e três outros diplomatas) tinham sido julgadas improcedentes e o processo fora arquivado com a reintegração dos réus em seus respectivos cargos, embora tivessem que permanecer por algum tempo no Brasil (na condição de suspeitos), enquanto aguardavam novas designações para o Exterior. Houaiss acabou voltando como ministro de segunda classe à delegação permanente do Brasil junto à ONU em Nova York, onde ficaria de 1960 a 1964. Mas a ação que ali desenvolvera – até mesmo ao arrepio da posição oficial da diplomacia brasileira, em favor da descolonização dos países africanos e sua integração nas Nações Unidas – comprometeu seu nome na lista negra do movimento que em 1964 tomara à força o comando do País. Manu militari, sendo-lhe vedado desta vez o recurso jurídico, Antônio perdeu seu cargo diplomático, foi sumariamente cassado em seus direitos políticos e ficou reduzido a cidadão sem emprego.

De volta ao Brasil, encontrou apoio em vários amigos que não tiveram dificuldades em lhe arranjar meios de sustento compatíveis com sua alta inteligência e formação cultural. As portas do Correio da Manhã e da Revista da Civilização Brasileira estavam abertas à sua colaboração literária. O editor Ênio Silveira incumbiu-lhe a tradução do Ulisses, de Joyce, que ele faria no espaço de um ano (1966) sem querer prolongar o tempo remunerado que lhe era concedido. Já no ano seguinte apareceria com a também monumental obra Elementos de Bibliologia, em 2 volumes, considerada até hoje a mais completa referência do assunto. Agora, ali estava ele como redator-chefe do maior projeto gráfico jamais assumido por uma empresa brasileira, a feitura da Grande Enciclopédia Delta-Larousse, que iria abranger uma equipe de mais de 100 membros de editoração, entre datilógrafos, secretárias, controladores, padronizadores, tradutores, revisores, documentadores, indexadores, diagramadores, iconógrafos, redatores e co-editores, reunindo o que havia de mais atuante no mundo intelectual brasileiro da época. Aparentemente franzino, distinguindo-se pela proeminência do crânio, Houaiss entrevistava, escolhia e contratava aqueles cujos trabalhos e currículos lhe eram apresentados, enquanto trocava com os candidatos palavras de cordialidade e boas-vindas. Além de contar com um conselho consultivo de respeito, a obra fora dividida em seções (geografia, cinema, assuntos militares, belas-artes, assuntos domésticos, agricultura, medicina, química, história natural, heráldica, tecnologia, física, assuntos navais, direito, história, economia, música, literatura, teatro, antropologia, matemática), chefiadas por nomes da representatividade de um José Honório Rodrigues (história) e de um Otto Maria Carpeaux (literatura).

Todos os integrantes sabiam da seriedade e responsabilidade do empreendimento, pois antes do início dos trabalhos Houaiss havia redigido um robusto manual de instruções, especificando a função de cada um e os critérios que presidiam a tradução ou a redação dos verbetes. Segundo os mais íntimos, embora aquelas instruções já constituíssem, elas sós, uma obra de fôlego, sua execução não fora nada para Houaiss, que, quando no início de carreira no Itamaraty, conseguira coligir, classificar e uniformizar num Manual de Serviço os milhares de leis, portarias e ordens de serviços sobre o dia-a-dia daquela atividade, que se constituiria num verdadeiro vade-mécum para os diplomatas de todos os níveis.

Mauro de Salles Villar, sobrinho de Houaiss, era quem se incumbia de selecionar os tradutores e distribuir-lhes as matérias de acordo com a capacidade ou especialidade de cada um. Todo um contingente de jovens redatores, jornalistas, free-lancers estava no momento desempregado, pois as redações e empresas, temerosas com a Revolução, faziam verdadeiras limpezas em seus corpos funcionais para esvaziá-los de “esquerdistas”. Ocorrendo em massa ao saberem da Enciclopédia, esses profissionais sem funções logo inflacionaram o quadro de tradutores, e Mauro achava conveniente dispor de material em estoque para “alimentá-los” por um período razoável, enquanto arranjavam outros meios de subsistência. Não há vagas, parecia escrito em todas as paredes. Mas certamente Antônio teria algum trabalho para mim, reconsiderou Mauro, que iria se encarregar da trabalhosa seção de iconografia.

Generosamente, o Prof. Houaiss disse que já me conhecia do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil [Em 1957, enquanto aguardava o encerramento do processo que o afastara provisoriamente de suas funções diplomáticas, ele exercera a crítica literária exatamente quando da efervescência do movimento concreto, e participara do agitado debate com os concretistas em 10 de fevereiro daquele ano. O Jornal do Brasil era uma espécie de porta-voz carioca das atividades do grupo e é possível que Houaiss tenha visto minhas colaborações dessa época e até mesmo alguns de meus poemas concretos que saíam no jornal]. Paulo Francis (então incorporado à Enciclopédia como chefe da seção de Teatro) também fizera referências às minhas traduções para a revista Senhor e Ênio Silveira lhe falara do sucesso editorial de “Demian”, de Hermann Hesse, que saíra pela Civilização Brasileira, em 1965. e Houaiss conhecia inclusive os livros que eu fizera para a Coleção Nobel. Com tantas e tão abalizadas credenciais, senti que não me seria impossível um lugar na Enciclopédia.

A Larousse original fora retalhada em uma infinidade de verbetes, colados em fichas tamanho ofício para serem entregues aos tradutores. Sobre a mesa de trabalho, havia duas imensas pilhas de verbetes já traduzidos e passados por uma primeira revisão. Depois de ler, sem exceção, todos eles, Houaiss não raro tinha que reescrever uma boa parte, seja para lhes acrescentar um dado, corrigir um nome ou cortar alguma informação desnecessária ao leitor brasileiro. Um tipo de reescrita que ele já fazia necessariamente com os verbetes produzidos no Brasil, em geral bastante longos e que exigiam dele a chancela da padronização. No momento, estava pensando em criar um “funil de convergência”, que descarregasse em sua mesa os verbetes traduzidos e revistos, mas igualmente submetidos a uma última leitura crítica com autonomia de emendas. Isto poderia aliviá-lo um pouco para se dedicar mais demoradamente aos verbetes originais. Durante algum tempo – certamente mais de um ano – fui um desses “funis” e trabalhava na parte da manhã. À tarde, Zazi Corrêa da Costa se incumbia das mesmas funções. Zazi era altamente eficaz e, com satisfação, reconheço até hoje que o editor-chefe apreciava o nosso esforço conjunto.

Como Houaiss trabalhasse incansavelmente o dia inteiro, sempre estávamos em contato com ele, e ouvi-lo – sobre qualquer assunto – era um desfrute pelo qual tínhamos até vontade de pagar. Nosso convívio resultou numa proximidade que nos permitia falar ao Mestre também de nossos trabalhos pessoais. A tradução de um soneto de Shakespeare que lhe mostrei ensejou-lhe palavras de estímulo tão convictas e sinceras que me levaram a prometer-lhe, decidido, que continuaria a fazer outras mais. Éramos premiados com sua atenção especial e nos sentíamos enaltecidos quando alguns dos nossos “achados” eram transmitidos ao conhecimento do grupo.

 

Mas nosso Sternstunde aconteceu no dia em que ele convidou um pequeno grupo para almoçar em sua companhia. Na curta caminhada até o “Rio Minho”, na rua do Ouvidor, ouvíamos Houaiss discorrer sobre o preparo de comidas com o mesmo entusiasmo com que falava da origem e evolução das palavras. Minha sensação era a de estar na companhia de alguém que me levava para o Olimpo. Sentamos os quatro, e ele anunciou que iríamos comer um haddock – preparado por ele. Esclareceu que se tratava de um peixe defumado, que ele cozia na água de coco para amenizar os efeitos da fumigação. Já havia instruído o cozinheiro no preparo do petisco e iria à cozinha apenas para os retoques finais. À maneira do Mestre, eu diria que o ad hoc latino me era familiar mas pela primeira vez eu palatava o seu homófono. Saboreei-o, encantado com a souplesse com que Houaiss manejava o garfo com a mão esquerda. Meu deslumbramento era tal que penso ter bancado o idiota naquela ocasião com meu silêncio persistente…

Houve outros momentos estelares e talvez o maior deles, já beirando o milagre, vou relatar em seguida:

Apesar de minha devoção enciclopédica, eu não me descurara da carreira bancária, que – oportunamente – merece um capítulo à parte. De simples escriturário letra A em 1954, quando entrei no Banco, eu havia passado a assistente do administrador do Edifício da Agência Centro (hoje o CCBB) – cargo em comissão – e dali atingido o ideal de todos nós funcionários, que era o de trabalhar na Direção Geral (que reunia as Carteiras de Câmbio, de Redescontos, etc), usufruindo as regalias de um gabinete com direito a contínuo e cafezinho. Fui trabalhar na Cacex (Carteira de Comércio Exterior), onde acabei me especializando em café e cacau, e na qualidade de representante do Banco, participei de várias reuniões no Exterior (Londres, Gana, Costa do Marfim, Togo, etc.). Essa representatividade me punha em contato com diplomatas de vários níveis (embaixadores, ministros, secretários), com alguns dos quais fiz amizade. O Itamaraty e a Cacex trabalhavam em conjunto no incentivo de nossas exportações e acabaram por assinar um convênio em que o Banco cedia alguns funcionários para trabalhar diretamente junto às embaixadas no Exterior. Fui um dos escolhidos e passei a frequentar um curso de adequação no então Ministério (da Rua Larga), enquanto aguardava a designação oficial. Mas quando ela veio, afinal, foi um desastre. No ofício dirigindo ao Banco solicitando a cessão dos funcionários, o meu nome apareceu como Ivo Barroso (pois eu era assim conhecido) e não Ivo do Nascimento Barroso, como eu existia no civil. Resultado: o Banco cedeu os funcionários menos o Ivo Barroso (que alegaram não ser do quadro) e enviaram o ofício para o então criado Banco Central, onde havia, de fato, um Ivo Barroso, altamente comissionado na Inspetoria de Bancos. O xará ficou surpreso (mas altamente envaidecido) com a indicação, atribuindo-a ao fato de que em certa vez fornecera àquele Ministério informações sobre as atividades de seu departamento.

Que fazer? Contei o ocorrido a Houaiss, que conhecia os meandros da Casa. “Um caso complicado, meu dileto. O Itamaraty não vai admitir que errou, logo seu xará vai acabar indo em seu lugar”. Mas…

Por sorte, a outra “convergente”, Zazi Correa da Costa – disse-me Houaiss – era filha do Sérgio Correa da Costa, então Secretário Geral do Itamaraty.”Quem sabe ele poderá arranjar uma solução”. Zazi teve a gentileza de me levar um dia à sua casa e pude expor meu problema ao pai dela. Ele também via um nó górdio na situação, mas que eu procurasse seu chefe de gabinete, o então primeiro secretário Alberto da Costa e Silva, que ele talvez pudesse sugerir alguma coisa. Alegrei-me: Alberto era poeta, escrevia nos jornais como eu; além disso fora meu professor de literatura quando, numa segunda tentativa, andei frequentando outro cursinho (então acessível) para o Itamaraty. Alberto achou por fim a solução: de fato, o Itamaraty não iria admitir o erro mas o Ivo Barroso tout court “poderia” abdicar em favor do Nascimento.

Parece que o próprio xará se deu conta do engano e, numa entrevista no Gabinete do Ministro, disse que não estava em condições, no momento, de residir no Exterior. E foi assim que embarquei para a Holanda em 1968 para ficar um ano como Adido Comercial junto à Embaixada do Brasil na Haia (Den Haag). Minha alegria se ofuscava apenas pela tristeza de deixar a companhia de alguém que me erguera ad astra e ir-me embora sem ver a conclusão da obra.

TOT ZIENS                    CONTINUA

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Meu primeiro encontro com Antônio Houaiss foi em 1957 ou 58, na aula de português de um cursinho para candidatos ao Itamaraty, que funcionava à noite na Avenida Almirante Barroso. Na época eu não sabia quem era ele, mas admirei a verve do professor que perguntava aos alunos seu nome de família e discorria longamente sobre seu significado, suas origens, seus membros importantes, etc. Dada a minha timidez, não me lembro se chegou a abordar o meu Barroso, que nada tinha a ver com o Almirante da avenida onde estávamos. Mas lembro-me claramente do encanto que me proporcionou sua digressão sobre a ave que para nós provinha da América do Sul (peru), para os ingleses da Turquia (turkey) e para os franceses da Índia (poule d´Inde). Hoje sei que um processo administrativo absurdo o afastara de suas funções diplomáticas — sem remuneração – e, para se manter, lecionava e escrevia nos jornais. Agora estava ali no curso Barata, que na verdade era bem caro e destinado a jovens da elite que se candidatavam ao corpo diplomático. Sem recursos para tanto, deixei o curso naquela primeira aula, e só vim a saber de Houaiss muitos anos depois.

Em fins de 1958 eu dava meio expediente de manhã na Editora Delta, na travessa do Ouvidor, enquanto trabalhava à tarde no Banco do Brasil, onde entrara por concurso em 1954. Não me lembro bem como fui parar nesse outro emprego (sem carteira assinada), mas na época procurávamos por todo canto quem nos desse verbetes ou artigos para traduzir. Um dos sócios da firma, Dr. Pedro Lorch, estava preparando uma enciclopédia infanto-juvenil “Nosso Mundo Maravilhoso” com base na edição americana do “World Book”. Fui trabalhar diretamente com ele e atuava sozinho na biblioteca da editora, que ocupava um lugar de prestígio no 4º andar, com ar refrigerado e tudo. Minha função: secretariar as reuniões dos conselheiros da enciclopédia – Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Péricles Madureira de Pinho, Otto Maria Carpeaux e outros cinco figurões, que rodeavam a mesa de trabalho presidida pelo editor-mor, Abraão Koogan. Cada capítulo do original americano era analisado por eles, que o consideravam apto para tradução ou sujeito a adaptação para o público brasileiro. Eu tomava nota das resoluções (de início sem saber para que), me sentindo no topo da glória em meio ao que havia de mais representativo da cultura brasileira de então. Lembro-me bem que um dos capítulos iniciais estampava trechos dos diários de Colombo e ficava evidente que deveriam ser substituídos por equivalentes da carta de Caminha. “Anote aí”, me disseram e anotei. Depois é que senti de fato qual era o gosto (ou o preço) da glória. No caso, competia a mim encontrar na carta de Caminha os trechos correspondentes, copiá-los e equacioná-los de modo a cobrirem o espaço substituído. De outra vez, sobrara uma página em que no original havia um poema sobre a América. Como não houvesse sugestões, arrisquei propor: Que tal a Ladainha, de Cassiano Ricardo: “Brasil cheio de graça / Brasil cheio de pássaros/ Brasil cheio de luz”. “Anote aí”, disse sr. Abraão, e corre o Ivo para a Biblioteca Nacional copiar do Martim Cererê o poema inteiro. Bem feito! Mas havia também a redação dos lides para todos os artigos brasileiros, a busca das gravuras, a cata dos trechos indicados nos livros de história e suas respectivas condensações. Com minhas idas e vindas ao ISEB em busca de esclarecimentos e orientações, acabei me tornando familiar de Anísio Teixeira, que mais tarde me honrou com demonstrações de amizade. [Anísio morreu tragicamente em 1971: seu corpo foi encontrado no poço do elevador da casa de Aurélio Buarque de Holanda, onde fora em visita protocolar de postulante à Academia. Com seu desaparecimento por 3 dias, a família supôs que tivesse sido sequestrado pela Ditadura, já que Anísio era considerado de esquerda e fora cassado pela Revolução. A hipótese de que teria sido silenciado criminosamente me horrorizou por muito tempo, até que. mais tarde, seu genro à época (Paulo Alberto M. Monteiro de Barros, o Artur da Távola) me garantiu que a família estava finalmente convencida de que fora de fato um acidente.]

Também (re)corri muito ao Darcy Ribeiro, principalmente para cobrar as matérias que prometia sobre Lund e a gruta de Maquiné, sobre os quais, segundo o sr. Abraão, eu tinha que dar conta nos prazos estabelecidos. Carlos Scliar, que fazia a diagramação da obra, chegou certa vez lá e disse que precisava de uma foto das Furnas da Tijuca para fechar o caderno. “Hoje!” falou, e o sr. Abraão, em vez do “Anote aí” me disse apenas “Dá um jeito”. E lá fui eu com o fotógrafo e duas funcionárias da firma ao Alto da Boa Vista para conseguir a foto; nela apareço, no livro, magrinho, de costas, apontando ao que parece para alguma hipotética estalactite. Hoje, no ócio elástico da aposentadoria, fico pensando como era possível fazer tanta coisa em tão pouco tempo. O triste é que a enciclopédia não vingou. De repente, tudo parou: cessaram as reuniões, o poderoso comando, as terríveis anotações no bloco. E a presença impositiva de Scliar, que chegara a montar meia dúzia de cadernos que guardo como preciosidades junto à doce/amarga lembrança daqueles tempos afanosos. Num deles ainda posso ver o momento em que o anotador se extrapola em redator por necessidade de serviço: faltava a página de rosto do capítulo “A Terra Dadivosa”, não havia tempo para encomendas ou pesquisas, e em vez do “Anote aí” houve um “Escreva você”. Ei-lo aqui:

Eu ia ficar sem o “bico” que, confesso, graças à proteção de (são) Pedro Lorch, era bem remunerado. Por isso, vibrei quando me garantiu que eu não sairia da editora, talvez apenas da biblioteca. E a minha catedral refrigerada e silenciosa, onde eu fazia as minhas pesquisas e condensações, se viu um dia, de repente, invadida por uma turma ruidosa e descontraída que vinha criar a revista Senhor. O redator-chefe era Nahum Sirotsky que fumava cachimbo e dizia okie dokie para o Ivan Lessa, o Luiz Lobo e o Paulo Francis, todos empolgadíssimos como que antevendo a revolução gráfica que iriam causar no mundo editorial. Diferentemente do que ocorrera na enciclopédia, eu agora me sentia de todo sem função no meio daqueles rapazes agitados que se comportavam como estrangeiros (ou pelo menos com a ideia que eu fazia de estrangeiros). Continuei a ter uma mesinha com máquina de escrever que era, quando necessário, também compartilhada com os dinâmicos redatores. Mas antes de sair o primeiro número, em março de 1959, eu já tinha sido “reconhecido” pelo Francis que me encomendou a tradução de “As Neves do Kilimanjaro”, de Hemingway, para sair no lançamento da revista. Ele gostou da tradução e até escreveu uma nota de abertura dizendo que o tradutor havia propositadamente usado os tratamentos tu e você na mesma frase para dar aos diálogos maior fluência e naturalidade. Ei-la:

Aos poucos me integrava na equipe da Senhor e passei a traduzir sistematicamente todas as novelas e também alguns contos esparsos. Nahum chegou a me encomendar um artigo “Para inglês ver”, que saiu no número de abril de 1959. A revista era bancada por dois dos sócios da Delta, os irmãos Sérgio e Simão Waismann; Sérgio, que também fumava cachimbo, era entusiasmado com a dinâmica de Nahum e gostava de circular pela redação conversando com as figuras importantes que nos visitavam ou vinham trazer suas colaborações. Mas as finanças não andavam bem e os demais sócios resolveram estabelecer um dead line para saírem do vermelho. Contrataram então Ivan Meira e Edeson Coelho para comandar a publicidade e eles apareceram à frente de um grande séquito com a aura de trazerem consigo as contas publicitárias mais gordas do país. Contudo a vinda resultou apenas em acréscimo da folha de pagamento e a consequente redução do dead line antes imposto. Em fins de 1962, Reynaldo Jardim, que já havia assumido o lugar de Nahum, e o Edeson Coelho, o corifeu do gigante publicitário, assumiram o patrimônio da revista. Minha última colaboração foi a novela “Amor no trem”, de Mary Mac Carthy, em setembro de 1962, já com a nova direção da revista, que em seguida mudaria de endereço, deixando a travessa do Ouvidor.

E assim fiquei de novo sozinho na biblioteca, de volta ao trono, mas sem saber o que fazer.

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O capítulo seguinte já é do conhecimento daqueles que leram meu post de 06.03.2012 intitulado Três Mementos,veja aqui. Em resumo: quando estava para deixar a firma, dr. Pedro Lorch me disse para ir ao 2º andar e procurar o prof. Rónai, pois talvez ele tivesse algum trabalho para mim na obra que estava dirigindo para a Delta. Fui, tivemos uma conversa de sondagens iniciais da qual acabaram resultando as duas obras abaixo:

     Não sei bem como me mantive à sombra da Delta entre 62 e 66. Lembro-me que havia em curso na editora uma Enciclopédia Judaica, dirigida pelo dr. Elias Davidóvitch, o man for all seasons do sr. Abraão. A redação funcionava num prédio ao lado da Delta e eu ia lá com frequência apanhar verbetes para traduzir. O dr. Elias, que usava suspensórios, era uma figura singular: educadíssimo e modestíssimo, um dos maiores intelectuais que já encontrei, destes que sabem tudo, já leram tudo, nos ajudam na solução de problemas ensinando sem soberba e corrigindo sem reproche. Tradutor de Freud e de Stefan Zweig, de Goethe e Pierre Louÿs, foi o primeiro no Brasil a reivindicar seus direitos quando trabalhos seus apareceram com a nota “tradução revista por Fulano de Tal” e o pagamento passava a ser feito ao pseudo revisor e não a quem havia de fato traduzido. Muito aprendi com ele, com suas revisões, pois só admitia corrigir algo quando tinha uma solução melhor ou mais adequada para apresentar.

Em 1965, encontrei o sr. Abraão por lá, que ficou surpreso por me ver na Judaica. Queria saber se eu ainda estava na Delta, quanto ganhava, etc. Respondi que aprendera com ele a atuar em várias frentes. Mas ele me disse que dessa vez meus dias estavam contados porque a Delta se associara a uma grande editora francesa para levar a cabo um projeto monumental.

Em 1966, o dr. Pedro Lorch confirmou a informação. No segundo andar do prédio formava-se uma equipe totalmente independente para realizar um novo projeto sobre o qual ele não tinha qualquer injunção. Mas que eu desse um pulo até lá, procurasse a pessoa encarregada, me apresentasse como tradutor ou redator. Foi quando, pela segunda vez, me deparei com a figura messiânica de Antônio Houaiss.

(CONTINUA)

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[Homenagem ao Bloomsday que se comemora hoje.  Esse evento foi criado para festejar o dia 16 de junho de 1904, em que transcorre toda a ação do romance “Ulisses”, de James Joyce, considerado um dos marcos da literatura mundial. Nele é relatada a odisseia do personagem Leopold Bloom durante 16 horas desse dia. A comemoração, inicialmente restrita à Irlanda, pátria de Joyce, foi depois adotada por seus admiradores de todo o mundo, inclusive do Brasil, onde é celebrada não só no Rio e em São Paulo, mas igualmente em outras cidades como Natal e Curitiba.]

O much ado que se vem fazendo a propósito de uma nova  tradução do Ulisses suscita de imediato a pergunta: é melhor que a anterior? ou — mais categoricamente — vale a pena fazer-se uma nova tradução do Ulisses?

Quanto à última, a resposta será sempre positiva: toda grande obra merece ser retraduzida de tempos em tempos, atendendo-se à própria evolução da língua, à modernização do entendimento do tradutor em face dos novos estudos e análises que surgem entre uma e outra tentativa. Em benefício do leitor, sonha-se que a nova tradução deva ser sempre melhor, superior à antecedente, por um motivo ou outro. Tal é a expectativa que vem ocorrendo em relação ao trabalho de Bernardina da Silveira Pinheiro, que a Objetiva acaba de lançar [2005] em comemoração do 101º aniversário do Bloomsday.

A tradução anterior do Ulisses, feita por Antônio Houaiss, deveu-se a uma série de circunstâncias que se conjugaram: a um gesto mecênico de Ênio da Silveira, que procurou assegurar ao tradutor num momento difícil um estipêndio condigno (Houaiss tinha sido cassado do Itamaraty e passava por problemas de saúde na família); ao fato de ser este, na ocasião, o único escritor com uma “linguagem adequada” para a transposição do texto joyciano; e à necessidade editorial de se lançar no Brasil um livro reconhecidamente fundamental para todas as literaturas e que nos chegava com um atraso de 43 anos.

Momento estelar na história da tradução brasileira, o Ulisses foi um trabalho pioneiro em que o erudito professor Antônio Houaiss desbastou, ao longo de um ano, a “pedreira joyciana”, criando em português uma linguagem-padrão, equivalente às ousadias semânticas do original. Quando de sua publicação, o crítico e tradutor paulista Augusto de Campos — seguramente uma das maiores autoridades na obra de Joyce no Brasil — escreveu uma série de artigos, posteriormente reunidos no livro Panaroma do Finnegans Wake (editora Perspectiva, 1971) em que analisava minuciosamente as soluções apresentadas por Houaiss, apontando passagens ou palavras para as quais sugeria outras soluções. O trabalho de Augusto de Campos vinha reforçar a assertiva de que a única maneira honesta de se criticar uma tradução é mostrando como se faria no caso específico. Houaiss, de bom  grado, incorporou várias de suas sugestões em edições posteriores da obra. Também o tradutor Millor Fernandes contestou, em especial, a tradução da palavra final do monólogo de Molly (yes), que Houaiss traduzira por “sins”, no plural, e que para Millor deveria ser algo como “É!” ou “Eu vou!”, por entender que a palavra ali representava um grito de orgasmo.

Sobre a importância da obra há quase unanimidade nos meios intelectuais; chega-se mesmo a considerá-la um divisor de águas, a conquista de um patamar inultrapassável na técnica narrativa, o modelo-princeps a que estaria submetida toda a produção ficcional que viesse depois. Em 1956, a 34 anos de seu aparecimento inicial na França, surge no Brasil um fenômeno estilístico semelhante: João Guimarães Rosa, que já surpreendera a crítica em 1937 com a coleção de contos intitulada Sagarana, lança o romance Grande sertão: veredas que parecia, em termos nacionais, destinado a marcar, como Ulisses, o modelo absoluto da prosa vindoura. Mas a verdade é que, passado o efeito devastador da  tsunami joiciana (bem como o da pororoca vimaranense), as populações ribeirinhas da literatura mundial (e nacional) voltaram a construir seus enredos com os destroços do mesmo material que haviam herdado das literaturas clássicas, não-revolucionárias. E hoje, em parte alguma do mundo (ou do Brasil) pode-se encontrar quem esteja escrevendo à Joyce ou à Rosa, não obstante a contribuição de ambos para a renovação dos estilos literários.

Quanto à adequação do trabalho transpositivo de Houaiss, não obstante ter sido considerado o right man para um feito daquela envergadura, houve certa ironia subjacente por parte de alguns que já se arrepiavam com seu “estilo cipó”, vendo no texto em português uma extrapolação das dificuldades do original. É certo que Houaiss, após dominar a técnica joyciana da “palavra-amálgama”, aplicou-a em muitos trechos em que ela não aparecia em inglês, mas que se prestavam para aquele tipo de “sanfonamento” em nosso idioma, lançando mão de uma técnica compensatória de que se valem não raro os bons tradutores, talvez para enfatizar o “stil nuovo” joyciano. Seu Ulisses foi bem-vindo por todos os apreciadores de Joyce que não sabiam inglês e chegou mesmo a alcançar uma parte do público acostumado a ler tudo o que está na moda. Tornou-se um “sucesso de estima”, prerrogativa dos “unhappy few”, auto-flagelação dos sísifos literários capazes de carregar esta pedra até a página 846, embora o “leitor da moda”, como é sabido, não tenha conseguido ultrapassar uma trintena delas.

A nova tradução, devida à professora Bernardina da Silveira Pinheiro, a que vinha se dedicando há 9 anos, profunda conhecedora da vida e da obra de James Joyce, de quem já traduzira O Retrato do Artista Quando Jovem — chegou precedida das informações de que ela se divertira muito enquanto executava seu trabalho e nele havia preservado o coloquialismo e a musicalidade que permeia a obra joyciana.   A leitura comparada das duas traduções revela, desde o início, que a linguagem de Bernardina é menos erudita, menos rebuscada que a de Houaiss, e seu coloquialismo procura estar a passo com o linguajar atual. Isso não quer dizer que a obra se tenha tornado menos complexa, mais compreensível. O perigo dessa facilitação seria transformar o texto numa espécie de “livro condensado”, à maneira Digest, com todas as arestas devidamente polidas para atender à ignorância do leitor. Felizmente, isso não acontece, e se, em muitas passagens parece que o texto de Houaiss sofreu apenas um copidesque, com a mudança ocasional de uma palavra arrepiada por outra mais lisa — afirma a tradutora que teve o critério de traduzir de costas voltadas para o precedente: as soluções são dela própria, por mais que se possa arguir contra sua asserção ou funcionalidade. No prefácio, há de fato uma insistência quanto à musicalidade da prosa joyciana (não esquecer que ele começou como poeta, num sintomático Música de Câmara). Essa musicalidade dificilmente poderia ser preservada em português na transposição de monossílabos sequenciais que não temos, aliterações que não podemos fazer, etc. Em alguns trechos é possível dizer-se que Houaiss foi mais feliz em captar essa “música”  ao submeter a frase quase a uma contagem métrica. Mas, a nova tradutora também se esforçou para obter efeitos à sua maneira. Intraduzíveis são os jogos de palavra, os trocadilhos, as deformações léxicas, que não funcionam quando transpostos à risca ou se alheiam inteiramente do contexto quando substituídos por improváveis equivalências. Desta forma, grande parte do divertimento da tradutora teria que ficar na leitura do original, prática recomendável àqueles que conhecem inglês. Na tentativa de permanecer fiel ao texto, preservando-lhe supostamente todas as nuances, a tradutora chegou a afirmar que em certas passagens errou de propósito na composição da frase em português para corresponder aos intencionais deslizes de Joyce que constavam do original. Contudo, aqui parece que Bernardina incidiu na mesma tentação de Houaiss em criar mais do que lá estava, pois seria pouco provável que Joyce, se escrevesse em português, cometesse frases como “Parado, ele perscrutou”, “Solenemente ele avançou”, “ele se inclinou a ele”, “Ele raspou”, “ele esbravejou” [capítulo inicial], em que o pronome, indispensável em inglês, é de praxe omitido em português, em proveito da elegância da frase, por estar subentendido na flexão verbal. Igualmente, na escolha de certas palavras (como “fazer um banzé”, para traduzir give him a ragging), é de crer que Joyce tivesse usado sinônimos mais em sintonia com o tom da frase (como, por exemplo, “dar um pito” “passar um sabão”), igualmente coloquiais, mas não tão pés-na-cozinha.

Haverá inúmeros trechos, sem dúvida, em que a nova tradutora terá sido mais legível que o antigo mestre, seja pela solução vocabular mais imediata, menos arcaizante, seja buscando uma expressão mais próxima da forma léxica empregada por Joyce e não de suas intenções estilísticas. Também é certo, como já previa Houaiss, que outras traduções venham a surgir depois desta. A de João Palma Ferreira, em Portugal, data de 1989. Sabe-se que o professor Caetano Galindo, da Universidade do Paraná, já tem a sua em adiantado estado de gestação.  É possível até mesmo que, na tentativa de popularização do Ulisses, surja mais tarde uma tradução cheia de plebeísmos como “cara”, “eu lhe vi”, “o livro que eu mais gosto”, “essa semana”, etc. [sem falar no “nóis vai” que nossas autoridades culturais estão querendo nos impor!] Contudo, o problema não está na tradução, mas no livro em si: eis uma obra a ser lida por escritores, não para lhe imitarem o estilo, mas para conhecerem as audácias estilísticas que um autor de gênio pode conceber. Nenhuma publicidade ou facilitação será capaz de transformar Ulisses em um novo Código da Vinci.

(Fonte: Mais! – Folha de São Paulo – 26.06.2005 – mesmo título)

 

[A Companhia das Letras anuncia uma nova tradução de Ulisses, por Caetano Galindo, a ser publicada na coleção Penguim, em janeiro de 2012, quando, ocasionalmente voltaremos ao cotejo das três.]

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