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Meu querido irmão, o Prof. Ney Julião Barroso, hoje estaria completando 82 anos. Lutando com problemas coronarianos e ansioso por sobreviver, submeteu-se a uma operação cirúrgica (ponte de safena) à qual não resistiu, vindo a falecer no dia 15 de junho passado, para consternação de quantos o conheciam.

Por ocasião da missa de 7º dia, li, para os familiares e amigos, a oração que deixo aqui consignada:

ORAÇÃO PELO NEY

 O poeta-filósofo disse que diante da Morte a única atitude cabível é o silêncio.

Mas eu quero quebrar este silêncio e mandar uma mensagem aos Anjos do Senhor, que pairam acima e além do mistério da Morte:

Ó legião de Anjos do Senhor, recebei em vossas alas a alma de meu irmão Ney Julião Barroso que nos deixou quando buscava prolongar sua existência em nossa companhia, tanto que ele queria viver e com isto nos dar a satisfação e o conforto de seu convívio. Quis um desígnio inapreensível que, apesar de toda a sua energia vital, de seu entusiasmo de sempre, de sua firmeza de vontade, ele não resistisse à derradeira luta.

Agora tendes, ó Anjos, em vossa companhia aquele que era o irmão amado, o confidente de todos os instantes, o vínculo familiar mais estreito, a lembrança da infância e da terra natal, o exemplo de todos os passos dados em direção à sua brilhante carreira e ao seu projeto de vida. Aos vossos olhos também está o cônjuge dedicado, o companheiro de todas as horas, as felizes e as amargas, e o pai ardoroso cujos filhos foram a mais alta razão de sua existência. Nós da família só poderíamos ceder esse espírito se fosse para alguma entidade mais alta e por isso tomai-o convosco, ó Anjos, para alívio de nossa dor e de nossa perda.

Também decerto os seus amigos, que eram muitos e fiéis, que se congraçavam com frequência para ouvi-lo e usufruir de sua jubilosa companhia, estes sentirão como nós a sua ausência, a graça de sua conversa, seus casos inesgotáveis, sua exuberante alegria de viver. Eles também gostariam de romper o bloqueio do silêncio e enviar-vos o pedido de que o Ney saiba o quanto sua presença nos faz falta.

E, por fim, grande professor que foi, que ilustrou as cátedras do Colégio Pedro II, seus ex-alunos que se transformaram também em seus amigos, que dele guardam a lembrança da eficiência, do seu dom de ensinar, de seu carisma de mestre amigo e conselheiro, seus ex-alunos se unem à minha voz para vos pedir, ó Anjos do Senhor, que guardeis com carinho e reverência a sua voz, a sua face e o seu sorriso.

A nós todos restará a saudade, além dessa sensação de que perdemos com ele um pouco de nós mesmos.

POR TEMPO INDETERMINADO

 

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            mas a Gaveta permanecerá aberta para a sua consulta.
            Obrigado pela visita e saiba que seu comentário sobre
            qualquer dos assuntos será sempre bem-vindo. INB.

CRISTO NA CRUZ

cruci

– um poema de

JORGE LUIS BORGES,

 traduzido por Ivo Barroso

 

Cristo na cruz. Os pés tocam a terra.

Os três madeiros são de igual altura.

Cristo não é o do meio. É o terceiro.

A negra barba pende sobre o peito.

O rosto não é este das gravuras.

É áspero e judeu. Mas não o vejo

E vou buscá-lo sempre até o dia

De meu último passo sobre a terra.

O homem alquebrado sofre e cala.

A coroa de espinhos o castiga.

A chacota da plebe não o alcança

tantas vezes viu sua agonia.

A sua ou a desse outro. Dá no mesmo.

Cristo na cruz. Desordenadamente

Pensa no reino que talvez o espera,

Pensa numa mulher que não foi sua.

Não lhe foi dado ver a teologia,

A Trindade indecifrável, os gnósticos,

As catedrais, a navalha de Occam,

Nem a púrpura, a mitra, a liturgia,

A conversão de Guthum pela espada,

A Inquisição, o sangue de seus mártires,

As atrozes Cruzadas, Joana d´Arc,

O Vaticano que bendiz exércitos.

Sabe que não é deus e que é um homem.

Ele morre com o dia. Não lhe importa.

Importa o duro ferro desses cravos.

Não é romano. Não é grego. Geme.

A nós deixou esplêndidas metáforas

E uma doutrina de perdão que pode

Anular o passado. (Esta sentença

Escreveu-a um irlandês no cárcere.)

Sua alma busca o fim, impaciente.

Escureceu um pouco. Já está morto.

Anda uma mosca pela carne quieta.

De que vale saber que tenha esse homem

Por mim sofrido, se eu sofro agora?

 

 

Você pode ler o original espanhol de Borges aqui

em http://www.lainsignia.org/2005/marzo/cul_054.htm

Eu conto minha experiência infantil com a imagem

do Senhor Morto no post Regresso do Recesso

(15.03.2011) que você pode consultar aqui.

congresso eucaristico II

 

Eu me lembro, eu me lembro, era menino e não brincava na praia nem o mar bramia porque ainda estava em Ervália, no interior de Minas, na sacristia da igreja, atento à lição de catecismo. A catequista – uma versão feminina de Anchieta pregando aos tupiniquins – está empenhada em ministrar-nos (?) instrução religiosa e continua a nos surpreender com perguntas enigmáticas: Quem é Deus? Quantos deuses há? Então há três deuses? E depois de nos maravilhar com os mistérios da fé, eis que nos propõe, radiosa: Vamos cantar o hino do congresso?!

Quatro anos antes, em 1936, fora realizado em Belo Horizonte o II Congresso Eucarístico Brasileiro, que reuniu não só na capital mineira, mas em todas as cidades do Estado, verdadeiras multidões de devotos. Naqueles tempos sem televisão, as pessoas se congregavam nas praças e igrejas para cantar o famoso hino, tão famoso, aliás,  que, muitos anos depois (aqui no caso, quatro) ainda era cantado toda vez que havia uma festividade religiosa.   Todos os anos, por ocasião do aniversário do Congresso, o pároco local, Monsenhor Rodolfo, convocava as Filhas de Maria, os Congregados Marianos, as cantoras do coro da igreja e os fiéis em geral para cantar, em altas vozes, o hino eucarístico. Todos o sabiam de cor, tanto os moradores da cidade quanto os que viviam no campo, talvez ainda mais devotos e chegados a uma cantoria.

O catecismo era frequentado maciçamente pelos meninos da roça, que, além de devotos, viam nas aulas uma espécie de recreio para os seus trabalhos agrícolas. Todos eles sabiam cantar o hino sem titubeios:

 

Tuske Rei e nos pobres de Minas

Finca aqui seu tronco, ai Jesus,

E nas pragas famosas de Minas   

O Brasil para a grória com luz.

 

Era um hino que de certa forma me perturbava: quem seria aquele rei Tuske (ou turco?), certamente um tirano que torturava os pobres pedintes mineiros fincando-lhes um tronco (empalação? não, porque na época eu nem conhecia a palavra), que lhes fazia gritar ai Jesus! E porque pragas famosas? Famosas eram, segundo o catecismo, as do Egito. Quais seriam as nossas: pobreza, miséria, doença, analfabetismo? E porque esse miserável déspota iria iluminar o Brasil para a “grória”? Seria uma alusão a Getúlio Vargas que gozava as regalias do poder? Impossível, a Igreja estava em paz com o governo ditatorial.

Mas a douta coadjuvante que nos fora capaz de explicar que o deus trino era de fato uno, que Padre não era o Monsenhor Rodolfo mas uma forma genérica de dizer Pai (no caso o Pai do Filho), que o Filho era na verdade Deus (que é Pai) e que o Espírito Santo não era o nosso estado limítrofe mas uma pomba, que na verdade não era uma pomba mas o espírito de Deus – pressurosa  correu para o quadro negro e lá caligrafou:

 

Tu, que és Rei, e que aos povos dominas,

Firma aqui teu trono, ó Jesus!

E, das plagas formosas de Minas,

O Brasil para a glória conduz!

 

Ficamos transtornados com o texto, embora as palavras escritas nos servissem de alívio. Sim, senhor, então o terrível rei turco não era outro senão o próprio Jesus que na verdade era Deus?! Um Deus benigno que não obstante dominava os povos?! E que não fincava nada em ninguém, mas pelo contrário devia estabelecer seu trono (foi difícil explicar que não se tratava realmente de um trono, mas da vontade todo poderosa de Deus), e que ninguém havia gritado ai Jesus! e sim invocado a sua condição de Deus. Não, não havia pragas em Minas, embora os meninos da roça achassem que sim; o que havia eram plagas, estranha palavra desconhecida tanto para nós, os da cidade, quanto para os trabalhadores do campo. E ficamos sabendo afinal que a suposta “glória com luz”, que nos soava tão prometedora, não passava do nosso conhecido  e cotidiano ato de levar alguém para algum lugar.

De qualquer forma, foi um alívio: o Tuske Rei nascera de um defeito de pronúncia (“Tu, que és rei”), embora nos parecesse um desrespeito chamar Jesus por tu, já que chamávamos nossos pais de Senhor e Senhora. Mas foi bom livrar os pobres daquele martírio de serem espetados por um tronco. Também ficamos livres das pragas, embora sobrecarregados com aquelas plagas que ninguém sabia o que eram. Como para nós condução fosse apenas a pirua, o único veículo coletivo da cidade, saímos leves, certos de que o nosso Rei, fosse ele quem fosse, levaria o Brasil de automóvel para a glória…

O curioso é que, décadas e décadas depois, eu às vezes ainda me surpreendo a cantar na memória: Tuske rei e que os pobres de Minas

 

(outra historinha divertida só para variar)

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A Gaveta presta uma homenagem ao Dia dos Namorados (St Valentine´s Day em inglês) transcrevendo um belo poema em prosa de Carlos Drummond de Andrade

 

NÃO DEIXE O AMOR PASSAR

Carlos Drummond de Andrade

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida. Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.

Se o toque dos lábios fôr intenso, se o beijo fôr apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba que existe algo mágico entre vocês. Se o primeiro e o último pensamento do seu dia fôr essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Algo do céu te mandou um presente divino — o Amor

Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro por algum motivo e, em troca, receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras, entregue-se: vocês foram feitos um para o outro. Se por algum motivo você estiver triste, se a vida lhe deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento, chorar as suas lágrimas e enxugá-las com ternura, que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida.

Se você conseguir, em pensamento, sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado… Se você achar a pessoa maravilho- samente linda, mesmo ela estando de pijamas velhos, chinelos de dedo e cabelos emaranhados… Se você não consegue trabalhar o dia todo, ansioso pelo encontro que está marcado para a noite… Se você não consegue imaginar, de maneira nenhuma, um futuro sem a pessoa ao seu lado…

Se você tiver a certeza que vai ver a outra envelhecendo e, mesmo assim, tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela… Se você preferir fechar os olhos, antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida. Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida, poucas amam ou encontram um amor verdadeiro. Às vezes encontram e, por não prestarem atenção nesses sinais, deixam o amor passar, sem deixá-lo acontecer verdadeiramente.

É o livre arbítrio. Por isso, preste atenção nos sinais. Não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o Amor!!

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Como contribuição nossa, aí vai o original e a tradução de um dos mais belos e famosos sonetos de Shakespeare sobre o tema.

 

 

WILLIAM SHAKESPEARE 

Sonnet CXVI

Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Nor bends with the remover to remove:
Oh, no! it is an ever-fixed mark,
That looks on tempests and is never shaken;
It is the star to every wandering bark,
Whose worth’s unknown, although his height be taken.
Love’s not Time’s fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle’s compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But hears it out even to the edge of doom.
If this be error, and upon me prov’d,
I never writ, nor no man ever lov’d.

 
SONETO 106

Que eu não veja empecilhos na sincera
União de duas almas. Não amor
É o que encontrando alterações se altera
Ou diminui se o atinge o desamor.
Oh, não! amor é ponto assaz constante
Que ileso os bravos temporais defronta.
É a estrela guia do baixel errante,
De brilho certo, mas valor sem conta.
O Amor não é jogral do Tempo, embora
Em seu declínio os lábios nos entorte.
O Amor não muda com o dia e a hora,
Mas persevera ao limiar da Morte.
E, se se prova que num erro estou,
Nunca fiz versos nem jamais se amou.

Tradução de Ivo Barroso

 

 

– um conto (ensaio) de GEORGE ORWELL traduzido por Ivo Barroso

Shooting an Elephant George Orwell

 Em Moulmein, na baixa Birmânia, eu era odiado por um número considerável de pessoas – única vez em minha vida que cheguei a ser importante ao ponto de isso acontecer comigo. Desempenhava na cidade as funções de oficial de polícia de uma subdivisão, e o sentimento antieuropeu ali, embora de uma forma inobjetiva e secundária, era de fato muito virulento. Ninguém tinha coragem suficiente para provocar distúrbios, mas se por acaso uma senhora europeia saía a percorrer sozinha os bazares da cidade, provavelmente um nativo qualquer lhe espirraria suco de bétel no vestido. Como oficial de polícia, eu estava na mira permanente da população e era ludibriado em todas aquelas situações que me pareciam plausíveis de inspirar confiança. Quando um daqueles ágeis birmaneses cometia uma falta contra mim no futebol e o juiz (outro birmanês) fingia não ter visto o lance, a assistência delirava em gritos hediondos de prazer. Isso acontecia com frequência. Até que por fim, as fisionomias zombeteiras da gente moça que eu via por todos os cantos (os insultos e apupos começavam quando eu já estava a uma distância segura), acabaram por me causar mal aos nervos. Os jovens sacerdotes budistas eram os piores. Havia alguns milhares deles na cidade e todos pareciam estar unicamente empenhados em se postar nas esquinas para ridicularizar os europeus.

Tudo isso era bastante desagradável e perturbador. Pois àquela altura eu me havia convencido de que o imperialismo era uma coisa má e, quanto mais cedo deixasse o meu serviço e caísse fora, tanto melhor seria para mim. Teórica e secretamente – é claro – eu abraçava a causa dos nativos e desdenhava os ingleses que os oprimiam. E quanto às funções que exercia, eu as odiava com muito mais rancor do que talvez possa expressar aqui. Numa função como aquela, o indivíduo pode observar a cada passo os malefícios do Império. A miserabilidade dos prisioneiros amontoados nas infectas celas das casas de detenção, as faces desoladas e temerosas dos condenados a penas muito longas, o lombo marcado daqueles que haviam sido açoitados com bambus – tudo isso me oprimia com um sentimento de culpa intolerável. Mas eu não não tinha nada em perspectiva. Era muito moço e de poucos estudos e fora forçado a resolver meus problemas dentro daquele absoluto silêncio que é imposto a todo inglês que se encontra no Oriente. Não sabia nem mesmo que o Império britânico estava prestes a agonizar, nem muito menos que esse mesmo Império era em grande parte muito melhor do que os outros mais novos que estavam caminhando para suplantá-lo. Tudo que sabia era que estava indeciso entre a aversão pelo Império a que eu servia e a minha ira contra aqueles pequenos animais endemoninhados que tudo faziam para tornar o meu trabalho impossível. Uma parte do meu pensamento considerava o protetorado inglês como uma ferrenha tirania, como algo assentado definitivamente, per saecula saeculorum, acima da vontade dos povos submissos; a outra parte ficava pensando que a melhor coisa do mundo seria enterrar uma baioneta na pança de um daqueles sacerdotes budistas. Sentimentos como esses constituem os subprodutos normais do imperialismo; pergunte a qualquer oficial anglo-indiano, se conseguir apanhá-lo fora de seu posto. Certo dia, aconteceu uma coisa que, embora de maneira indireta, foi reveladora para mim. O incidente em si era de somenos importância, mas servia para me dar uma visão melhor sobre a verdadeira natureza do imperialismo — sobre os motivos reais que determinam a ação dos governos despóticos. Às primeiras horas da manhã, o subinspetor de um posto policial, localizado no outro extremo da cidade telefonou-me informando que um elefante estava destruindo o bazar. Poderia eu por acaso dar um pulo por lá e fazer alguma coisa?

Não tinha ideia do que poderia fazer, mas queria presenciar o que estava acontecendo e então montei num pônei e segui para lá. Levei meu rifle, uma velha Winchester 44, fraca demais para matar um elefante, mas achava que o estampido da mesma seria útil em caso de pânico. Vários nativos fizeram-me parar no caminho para relatar as proezas do animal. Em verdade, não se tratava de um elefante selvagem, mas de um animal domesticado que fora acometido de frenesi. O dono do elefante o havia acorrentado, como é de hábito fazer com os animais frenéticos, mas na noite anterior o bicho conseguira arrebentar as cadeias e fugir. Seu condutor, o cornaca que era a única pessoa capaz de controlá-lo quando ele estava assim, partira em sua perseguição, mas como tomara um rumo errado, achava-se naquele momento a vinte horas de caminhada dali, e justamente naquela manhã o elefante reapareceu subitamente na cidade. A população birmanesa não possuía armas e nada podia fazer contra ele. O animal já havia destruído uma cabana de bambu, matado uma vaca e derrubado alguns tabuleiros de frutas, devorando-lhes o conteúdo; além do mais, encontrara na estrada a carroça de lixo da municipalidade e, quando o chofer pulou fora e deu nos calcanhares, o paquiderme tombou a carroça e infligiu violências ao veículo.

O subinspetor birmanês e alguns guardas indianos estavam à minha espera nas imediações do local onde o elefante fora visto. Era um quarteirão miserável, verdadeiro labirinto de fragilíssimas cabanas de bambu cobertas com folhas de palmeira, coleando ao longo de uma colina escarpada. Recordo-me que foi numa dessas manhãs abafadas, com o céu coberto de nuvens, já na entrada da estação chuvosa. Começamos interrogando os nativos para onde teria ido o elefante e, como de hábito, não conseguimos obter nenhuma informação definitiva. Isso é regra geral no Oriente; um relato qualquer nos soa claro e preciso à distância, mas quanto mais vamos nos aproximando do local dos acontecimentos, tanto mais vago ele se torna. Alguns disseram que o elefante havia tomado um certo rumo, outros asseguravam que seguira para rumo oposto, outros ainda fingiam nunca terem ouvido falar de qualquer elefante. Eu estava quase achando que aquela história toda não passava de um amontoado de mentiras quando ouvimos gritos que vinham das proximidades. Em seguida, vozes altas e amedrontadas que diziam. “Vai pra dentro, menino! Vamos logo pra dentro”; e nisso apareceu uma velha com uma vara na mão, vindo de trás dos casebres, a enxotar um bando de crianças nuas. Algumas outras mulheres vinham logo após, dando muxoxos e se lamentando; decerto ali havia alguma coisa que as crianças não deviam ter presenciado. Contornei o casebre e deparei com o cadáver de um homem estatelado na lama. Era um cule indiano, um negro drávida, praticamente nu, cuja morte havia ocorrido nada mais do que a poucos minutos. Os nativos disseram que o elefante, vindo de trás dos casebres surpreendera-o, agarra-o com a tromba, atirara-o ao chão e com a pata enterrara-o na lama. Como era na estação chuvosa, o terreno estava muito macio e a cara do homem havia cavado um buraco de uns trinta centímetros de fundura por cerca de meio metro de comprimento. Estava de barriga para baixo, com os braços abertos em cruz e a cabeça acentuadamente torcida para um dos lados. A cara coberta de lama, os olhos arregalados, os dentes à mostra e apertados numa expressão de insuportável agonia. (A propósito, não me venham falar que os mortos têm aparência tranquila. A maioria dos cadáveres que  vi tinham uma expressão demoníaca.) A fricção da enorme pata do animal arrancara-lhe a pele das costas com tanta facilidade com que tiramos a pele de um coelho. Logo que vi o cadáver mandei um ordenança à casa de um amigo meu que morava por perto a fim de me trazer emprestado um rifle maior, próprio para a caça de elefantes. Também o pônei, já o havia mandado de volta, não querendo que ele se enfurecesse e ao pressentir o cheiro do elefante e me derrubasse da sela.

O ordenança regressou dali a poucos minutos trazendo o rifle que eu havia pedido, juntamente com cinco cartuchos e, nesse ínterim, alguns birmaneses que chegaram foram nos informando de que o elefante estava lá embaixo, nas plantações de arroz, a poucas centenas de metros dali. Tão logo me encaminhei para lá, praticamente a totalidade da população do bairro abandonou as casas e veio atrás de mim. Tinham visto o rifle e foram logo propalando que eu ia matar o elefante. Enquanto o animal estava destruindo as suas cabanas não lhes havia despertado o menor interesse, mas agora que ia ser caçado a coisa mudava de figura. O fato constituía numa pequena dose de divertimento para eles, da mesma forma como o teria constituído para uma população inglesa; além do mais, estavam pensando na carne do animal. Isso me pôs um tanto sem jeito. Não tinha a menor intenção de matar o elefante -– mandara buscar o rifle para me defender, caso necessário — e não há coisa mais enervante que sermos seguidos por uma verdadeira multidão. Fui caminhando pelo morro abaixo, parecendo (e me sentindo) um tolo, com o rifle apoiado ao ombro e um sempre crescente exército de pessoas se acotovelando aos meus calcanhares. Lá embaixo do morro, tendo deixado para trás o aglomerado das cabanas, corria uma estrada de cascalhos e, além dela, numa extensão aproximada de um quilômetro, as alagadas plantações de arroz, ainda não inteiramente mergulhadas na água, mas já inundadas pelas primeiras chuvas e salpicadas por touceiras de capim comum. O elefante estava a uns dez metros da estrada, de costas para nós. Não deu a mínima para a chegada da multidão. Estava arrancando moitas de capim com a tromba, batia-as de encontro aos joelhos para limpá-las do barro e socava-as para dentro da boca.

Ao chegar à estrada, detive-me. Assim que vi o elefante, percebi com a mais perfeita certeza que não tinha de matá-lo. É uma coisa muito séria isto de matar um elefante operativo -– seria o mesmo que destruir um maquinário possante e de alto valor industrial — e ninguém decerto iria chegar àquele extremo caso fosse possível evitá-lo. E, à distância, tranquilamente se alimentando, o elefante não parecia encerrar maior periculosidade do que uma simples vaca. Pensei logo, naquele momento, e continuo achando até hoje, que o ataque frenético do animal já havia passado por completo; nesse caso, ele ficaria meramente passeando por ali sem causar maiores danos, até que o cornaca aparecesse para capturá-lo. Além de tudo, eu não estava com a mínima vontade de matá-lo. Decidi comigo, então, que o observaria por alguns instantes para me certificar de que não se enfureceria novamente, para em seguida voltar para casa.

Nesse preciso momento, olhei para trás em direção da turba que me havia seguido. Era uma multidão imensa, umas duas mil pessoas pelo menos, e aumentando à medida que passavam os minutos. Perfilavam-se por um longo trecho da estrada afora, postados na outra margem do caminho. Vi um mar de faces amarelas a encimar aquela imensidade de roupas espalhafatosas — fisionomias felizes e excitadas diante daquela imprevista diversão, todos absolutamente seguros de que o elefante ia ser morto. Estavam de olhos fitos em mim, como se eu fosse um prestidigitador de feira, prestes a executar um passe de mágica. Habitualmente não tinham a menor simpatia por mim, mas com aquele rifle encantado nas mãos passei momentaneamente a ser digno de atenção. E de repente dei por mim que teria de matar o elefante apesar de tudo. Os nativos esperavam que eu o fizesse e eu tinha de fazê-lo; podia sentir aqueles dois mil desejos iguais empurrando-me para a frente, irresistivelmente. E foi naquele exato momento, enquanto estava ali de pé com um rifle na mão, que pela primeira vez eu me dei conta do vazio e da inutilidade do domínio do homem branco no Oriente. Pois lá estava eu, o homem branco de arma na mão, defronte da turba de nativos desarmados — o aparente ator principal de alguma peça; mas, na realidade, eu não passava de um absurdo títere manipulado pela vontade daquelas faces amarelas à minha retaguarda. Percebi naquele momento que quando o homem branco se torna tirano o que ele destrói é a sua própria liberdade. Torna-se numa espécie de boneco oco e afetado, na figura convencional de um sahib. Pois sua própria lei de domínio o condiciona a passar a vida tentando impressionar os “nativos”, de modo que nas circunstâncias criticas terá de fazer o que os “nativos” esperam dele. Usa uma máscara, e sua face acaba por se adaptar a ela. Assim, eu tinha de matar o elefante. Havia-me comprometido a fazê-lo desde quando mandei buscar o rifle, Um sahib tem que agir como um sahib, tem a obrigação de apresentar-se resoluto, saber o que quer e agir de maneira concreta. Chegar àquele ponto, já com o rifle nas mãos, com duas mil pessoas caminhando a meu encalço, para depois voltar frouxamente, sem ter feito nada — não, tal coisa não era mais possível. A multidão iria rir-se de mim. E a minha vida inteira, a vida de cada homem branco no Oriente, era uma luta tenaz para não ser motivo de riso.

Mas eu não queria mesmo matar o elefante. Via-o batendo o punhado de mato contra os joelhos, com aquele ar preocupado e avoengo que os elefantes têm. Pareceu-me que matá-lo seria um crime. Naquela idade eu não tinha melindres em matar animais, mas nunca tinha matado um elefante nem jamais queria fazê-lo. (De qualquer forma, sempre parece pior matar um animal de grande porte). Além do mais, era necessário pensar no dono do animal. Vivo, o elefante valia pelo menos umas cem libras; morto, não valeria mais do que o preço de suas presas, umas cinco libras, se muito. Mas tinha que agir com rapidez. Voltei-me para alguns birmaneses que me pareciam traquejados e que já estavam por ali quando chegamos, e perguntei-lhes o que achavam do procedimento do animal. Todos disseram a mesma coisa; se o deixassem em paz, ele não perturbaria ninguém, mas atacaria decerto se alguém se aproximasse dele.

Eu sabia perfeitamente o que devia fazer, Tinha que andar, digamos, uns vinte e cinco metros em direção do elefante, a fim de pôr à prova as suas reações. Se ele atacasse, eu poderia matá-lo; se permanecesse tranquilo, era só deixá-lo ali e aguardar a chegada do cornaca. Mas embora soubesse disso, acabei não fazendo tal coisa. Eu não atirava lá muito bem de rifle e o terreno ali era lama pura, onde a gente se afundaria a cada passo. Se o elefante atacasse e eu errasse o tiro, minha chance não seria maior do que a de um sapo sob um rolo compressor. Mas até então não estava pensando particularmente em minha própria pele, mas naquelas faces amarelas que me observavam à retaguarda. Pois naquele momento, com aquela multidão me observando, eu não sentia medo, na acepção ordinária da palavra, como teria sentido se estivesse sozinho. Um homem branco não pode mostrar-se amedrontado diante dos “nativos’; e assim, de um modo geral, ele não se sente amedrontado. A única ideia que me passava pela cabeça era a de que, se alguma coisa desse errado, aqueles dois mil birmaneses me veriam ser perseguido, agarrado, atirado ao chão e reduzido a um cadáver com os dentes arreganhados como o do indiano lá no alto do morro. E se isso acontecesse era muito provável que muitos deles haveriam de rir. Isso não podia acontecer.

Só havia uma alternativa. Introduzi os cartuchos no cano do rifle e estendi-me na estrada para uma posição melhor de tiro. A multidão fez um profundo silêncio, e um suspiro baixinho e contente, como o de uma plateia que vê o pano subir afinal, desprendeu-se de inúmeras gargantas. Iam ter por fim a diversão que esperavam. O rifle era uma bela arma alemã, com visor de precisão. Nessa época eu não sabia que para matar um elefante é necessário ter-se em mira uma linha imaginária que corta de um ouvido ao outro do animal. Eu devia, portanto, já que o elefante estava meio de lado, fazer a mira diretamente dentro do ouvido; mas na verdade apontei a alguns centímetros à frente, pensando que os miolos do bicho ficassem localizados naquela direção frontal.

Quando puxei o gatilho, não ouvi o estampido nem senti o coice — nunca se percebem essas coisas quando o tiro acerta — tudo o que ouvi foi o diabólico uivo de regozijo que se levantou da multidão. Naquele instante, numa fração brevíssima de tempo, ter-se-ia julgado, embora sabendo-o atingido pela bala, que uma terrível e misteriosa mudança estava ocorrendo com o elefante. Ele não se moveu nem tombou, mas cada linha de seu corpo sofrera uma transformação. Parecia arriado, encolhido, imensamente velho, como se o terrível impacto da bala o tivesse paralisado sem o deitar por terra. Por fim, depois do que pareceu um tempo imenso — deve ter sido uns cinco segundos, se tanto — ele derreou as pernas frouxamente. A baba saía-lhe da boca. Uma senilidade desmedida parecia ter-se abatido sobre ele. Dava a impressão de contar centenas de anos. Atirei de novo no mesmo lugar. Ao segundo tiro, ainda não sucumbiu, mas ergueu-se nos joelhos com desesperada lentidão e ficou molemente de pé, com as pernas bambas e a cabeça descaída. Dei um terceiro tiro. Foi esse que o liquidou. Podia ver-se a agonia sacudir-lhe o corpo inteiro e arrancar-lhe das pernas o último resquício de forças. Ao cair, pareceu por um momento erguer-se no ar, pois à medida em que as patas traseiras vergavam sob ele, o corpo salientava-se para o alto, como uma rocha enorme que tombasse, a tromba erguendo-se para o céu como um tronco de árvore.

Soltou um barrido, pela primeira e última vez. E então veio caindo, com a pança voltada em direção a mim, provocando um estrondo que pareceu tremer o solo até o lugar onde eu me achava.

Levantei-me. Os birmaneses passaram correndo por mim em direção do charco. Era óbvio que o elefante já não se ergueria mais, embora não estivesse ainda morto. Estava respirando forte e ritmicamente em longos e estrepitosos arquejos, o grande volume lateral do ventre erguendo-se e baixando dolorosamente. A boca estava arreganhada — podia ver-se lá dentro cavernas de uma goela rosa-claro. Esperei longamente para ver se ele morria; mas a respiração não esmoreceu. Por fim disparei os dois últimos tiros na altura do lugar em que julguei devia estar seu coração. Um sangue grosso jorrou-lhe das entranhas como se fora um veludo vermelho, mas mesmo a assim ele não morreu. Seu corpo nem estremecia ao receber os tiros, e a tortuosa respiração prosseguia sem pausa. Estava morrendo, lentamente, numa grande e vagarosa agonia, mas num mundo remoto, longínquo de mim, onde nenhuma bala poderia causar-lhe maior dano. Senti-me no dever de acabar com aquele estertor angustioso Era desagradável ver-se aquele animal imenso caído ali sem forças para mover-se, condenado à morte, e ficar-se incapaz de fazer algo para acabar com ele. Mandei buscar de volta o meu rifle menor e comecei a disparar tiros e mais tiros no coração e na garganta do animal. Não pareciam causar o menor resultado. Os arquejos angustiados continuavam regulares como as batidas de um relógio.

Por fim não pude aguentar mais e fui embora. Mais tarde soube que o elefante levou meia hora para morrer. Os nativos começaram a trazer cestas e alguidares mesmo antes de eu me haver retirado, e mais tarde me disseram que haviam descarnado o bicho quase aos ossos, até pouco antes de cair a noite.

Posteriormente, é claro, travaram-se discussões intermináveis a propósito da morte do elefante. O dono do animai estava furioso, mas como não passava de um simples indiano, ficou sem poder fazer coisa alguma. Além do mais, eu havia procedido de maneira inteiramente legal, pois um elefante frenético deve ser morto, assim como um cão danado, se o dono não consegue controlá-lo. Entre os europeus, as opiniões se dividiam. Os velhos achavam que eu havia procedido com acerto; os mais jovens, que era uma grande estupidez matar um elefante só porque ele havia massacrado um cule imigrante, já que um elefante vale infinitamente mais do que um miserável cale drávida. E a bem dizer eu estava muito alegre pelo fato de o cule haver sido morto; isso me colocava dentro dos preceitos legais e oferecia-me pretexto suficiente para matar o elefante. E não raro eu me perguntava  se os outros tinham percebido que eu só fizera aquilo para não passar por imbecil. (1936)

(Publicado originalmente na revista SENHOR, número 7, de agosto de 1959)

 

 

(uma historinha divertida só para variar)

 mercado4

        A senhora estava na fila do supermercado e quando chegou sua vez começou a colocar as compras sobre o balcão da caixa que, tendo atendido o cliente anterior, estava agora num papo animado com sua colega que fazia os embrulhos. A senhora esperou um pouco, olhou insistente tentando marcar presença, mas a caixa (Josenilda? Odicléia? Marinalva?) continuava a narrar, com detalhes explícitos, a festinha de que havia participado no dia anterior. A senhora empurrou as compras para frente, limpou afetadamente a garganta, e disse:

— Está tudo aí.

        Josenilda (?) nem por isso. Ou melhor, pegou a primeira compra e levou algum tempo tentando fazer com que o clique da leitura ótica acertasse no alvo magnético do queijo de Minas. E o papo continuava. Até que – previsível – enganou-se na digitação e teve que chamar o gerente para corrigir a entrada absurda em que o preço de um produto apareceu na telinha multiplicado por dez. Ele veio, enfiou um cartão na faixa de leitura e digitou, sem olhar para os circunstantes, seu código mágico que apaga os peccata mundi.

        Quando Odicléia (?), cada vez mais empolgada com sua narrativa, que agora já era partilhada pela cliente seguinte à senhora da vez, enganou-se novamente e gritou:

— Caixa 1, correção,

a senhora, diante da chegada do mágico impassível com sua varinha de condão, acabou dizendo:

— Isto assim não vai acabar nunca. Também você não presta atenção ao que está fazendo; não para de falar o tempo todo…

        O miraculoso gerente acordou de seu mundo encantado e fez uma cara de quem, que chato! precisava tomar uma atitude diante da reclamação. Foi quando a senhora de trás, tomando as dores de Marinalda (?), disse:

— Que implicante! A moça também é gente, tem direito de falar, de rir, de brincar com os colegas. Não pense que ela é uma máquina que está aí só para atender as pessoas. A senhora está é com inveja da festinha dela…

        Como não estávamos presentes, nem o leitor nem eu, ficamos indecisos como reagir. De um modo geral, com a tendência de relaxamento a que estamos nos acostumando, certamente acabaríamos dando razão às duas: A caixa não precisa ficar em silêncio, mas por outro lado não pode deixar de prestar atenção ao que faz, pois é paga para isso. A senhora tem direito de reclamar, mas fazendo-o na frente do desperto gerente pode estar pondo em risco o emprego da moça, o que, nos dias atuais, etc. etc.

        Esse tipo de comportamento está nos levando a uma atitude cada vez mais passiva: não sabemos reclamar nossos direitos com medo de afetar os direitos alheios. Quando todo mundo está de acordo em reclamar alguma coisa, chamamos a isso protesto. Quando só alguns insistem em reclamar, a coisa passa a ser apenas implicância. Em se tratando de protesto, protesto coletivo, então, o fracasso é certo. Recentemente recebi por e-mail uma convocação para o Dia Nacional do Protesto. Devia vestir-me de preto ou colocar uma faixa preta na minha janela para atestar que eu, como milhares de cidadãos, estávamos completamente revoltados com a pouca vergonha de nossos políticos. Retransmiti o convite aos inscritos na minha lista de endereços. Todos estávamos de acordo em que devíamos protestar. No tal dia, me esqueci de colocar a faixa na janela e saí também vestido com uma cor qualquer. Quando me lembrei, na rua, percebi que não havia ninguém, ninguém, vestido de preto, que as janelas estavam livres de “fumos”, que nem os sapatos eram pretos, pois todos passavam de sandália havaiana a caminho do mar.

        Não escondo, porém, minhas implicâncias, que são todas de caráter linguístico. Implico solenemente com a generalização do emprego do “lhe” (eu lhe vi, posso lhe ajudar, etc.), que foi institucionalizado por uma novela da televisão. Como o grande público toma a TV como padrão de comportamento e adere imediatamente a qualquer imbecilidade que aparece na telinha, nossos “âncoras” e comentaristas deviam ter mais respeito com a língua e não confundir “este” com “esse”, por exemplo. Na linguagem falada, de todo dia, vá lá; mas numa apresentação televisiva, seria conveniente usar-se a linguagem padrão. Está em moda agora, suprimir-se a preposição em frases como “o livro que eu mais gosto”, modificando a regência do verbo, e já vi até mesmo “intelectuais” aderirem ao modismo só para posarem de modernos. De repente, passaram a dizer “acont´ceu”, suprimindo o “e”, como se no português do Brasil já tivéssemos o “e” mudo. É comum ouvir-se “trangênico” em vez de “transgênico”, dito até mesmo por autoridades do ramo agrícola. E chega a haver dirigentes que resolveram abolir o “s” plural da maioria das palavras, em homenagem ao supremo chefe… Mas isso são meras implicâncias…

 (Publicado no Jornal do Brasil – Caderno B – de 28 de maio de 2005)

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