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DESPOJAMENTO

Eliminei o excesso de paisagem

simplifiquei toda a decoração

retirei quadros flores ornamentos

apaguei velas copos guardanapos

e a música

Bani a inutilidade do discurso

Na mesa de madeira

nua

apenas dois pratos brancos

sem talheres

O banquete será tua presença

***

 

Este poema foi originalmente publicado no “Ilustríssima”, do Estado de S. Paulo em 2012 com uma ilustração (no alto, acima) de JÁRED DOMÍCIO, que, traçando somente os pés da mesa e as bordas dos dois pratos, soube captar todo o espírito do poema.

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sauvas

   Quando em 1982, o lexicógrafo José Augusto Fernandes lançou o seu “Dicionário de Rimas da Língua Portuguesa”, o poeta Carlos Drummond de Andrade saudou a obra como sendo “a salvação da lavoura poética”. A expressão “salvação da lavoura” era largamente conhecida do público rural, principalmente dos mineiros, por ter sido veiculada durante uma campanha que visava à extinção da formiga saúva,  uma praga então comum no interior.. Havia até a frase: “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”, atribuída ora a Saint Hilaire, ora a Monteiro Lobato. E para combater a praga, logo apareceu um formicida oportunista que se anunciava como “a salvação da lavoura”. O termo passou logo a compreender qualquer panaceia, qualquer dispositivo ou estratagema que resolvesse dificuldades, efeito milagroso capaz de reverter situações penosas. De fato, o dicionário de rimas de José Augusto Fernandes veio a facilitar sobremodo, aos nossos vates e menestréis, essa busca, às vezes    laboriosa, e o poeta-mineiro Carlos Drummond, que não precisava de modo algum de tal dicionário, fez muito bem em divulgar a obra valendo-se da expressão interiorana.

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   Talvez pudéssemos plagiá-lo dizendo que o “VocabuLando”, de Isa Mara Lando é o livro a que deveríamos chamar de “a salvação da lavoura tradutória”. Diferentemente de outros vocabulários da língua inglesa, em que o consulente encontra apenas o significado imediato da palavra procurada, este aqui é feito para “quebrar os galhos” da tradução inglesa, dada a sua riqueza de sinônimos e a exemplificação da pertinência de cada um deles conforme o sentido da frase. O profissional que se dedica a esse muito elogiado, mas pouco rentável ofício de viajar de uma língua para outra, vai encontrar aqui, de fato, a “salvação” de seus problemas, pois a autora não apenas dá o significado ou significados da palavra, mas alerta para erros comuns de vocabulário, identificando os chamados ”falsos amigos”, além de corrigir velhos hábitos, alguns já enraizados na prática tradutória. Para tanto, a autora não se poupa de dizer um sonoro NÃO aos tradutores. Vejamos alguns exemplos:

EVENTUALLY, adv. Eventually NÃO  é “eventualmente” (OCCASIONALLY): He got very sick and eventually died = Ficou muito doente e por fim morreu,acabou morrendo. (NÃO “eventualmente     

PEOPLE s. Note o plural peoples no sentido de “povos”, NÃO “pessoas”.

ENHANCE v. Qual a diferença entre enhance e improve? Improve denota melhorar algo insatisfatório, ao passo que enhance significa aperfeiçoar, refinar algo que já é bom.

UNDERMINE v. Undermine conota 1) atacar os alicerces ou 2) sabotar, especialmente o poder, a autoridade ou as chances de sucesso de alguém.

AGAIN adv. Usar “voltar”: He never saw her again = Não voltou mais a vê-la ou usar o prefixo “re”: Let’ s start again = Vamos recomeçar

   Durante mais de trinta anos, a autora Isa Mara Lando vem coletando material para este livro com base nas mais de 100 traduções feitas por ela de livros de vário teor literário e das aulas de tradução que tem administrado. Ela passou por todos os percalços por que passam os tradutores de inglês, as dúvidas de como traduzir este ou aquele verbo alterado pela preposição, a frase que não fazia sentido porque certa palavra não correspondia à sua tradução imediata e era preciso encontrar a equivalência adequada, etc. Pacientemente foi anotando ao longo do tempo as armadilhas que surgiram no seu caminho e o modo de evitá-las, o uso arraigado de determinadas traduções que na verdade não correspondiam ao sentido do original e, principalmente, a adequação da linguagem traduzida em relação ao nível cultural ou social de seu elocutor (ex. uma simples palavra como shit pode ter vários equivalentes em português dependendo “daquele” que a pronuncia). Quem saiu ganhando foram os tradutores que agora podem dispor facilmente de sua experiência. Livro que em inglês se chamaria “compagnion” (companheiro, guia, guru) e que nós, sem-cerimoniosamente, chamamos de “quebra-galho”.

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No dia 3 de janeiro de 1973, quando o táxi chegou à porta do Hotel Tivoli, em Lisboa, saltei ansioso do carro para ajudar minha mulher a descer. E, antes de entrarmos no hotel, puxei-a para mim num abraço e lhe disse eufórico: Conseguimos, Silvia! Estamos de volta! O milagre aconteceu.

Essa volta era de fato milagrosa. Nos anos 1968 a 1970 tínhamos vivido na Holanda, na capital Haia, onde exerci as funções de adido comercial junto à Embaixada do Brasil. Oportunidade de ampliarmos nossa visão de mundo, nossos conhecimentos artísticos principalmente quanto à música e as artes plásticas. A temporada foi tão marcante em nossas vidas que, mal regressamos ao Brasil, já alimentávamos o desejo de viver outra experiência no Exterior. Durante dois anos, de volta ao Banco do Brasil e trabalhando na Cacex, inscrevi-me em todas as bolsas de estudo que surgiam por lá, principalmente as do IRI (Istituto per la Riconstruzione Industriale), que propiciava a permanência do bolsista, por até seis meses na Itália, para o estudo de técnicas de promoção comercial. Certa vez, com vários colegas se candidatando, achei que a minha chance havia chegado, pois o IRI exigia sólidos conhecimentos da língua italiana, o que não era evidentemente o caso dos demais participantes. Para minha surpresa, o escolhido foi um colega que, dotado de qualidades profissionais, não tinha o menor conhecimento da língua. Fui então ao consulado para retirar meus papéis de inscrição e vi que eles permaneciam na mesma gaveta e na mesma posição em que foram deixados naquela época. Ao ficar ciente de que a escolha se dera exclusivamente por indicação da Gerência da Carteira, concluí que eu não tinha nem teria a menor chance. A volta não seria por aí…

Então deu-se o milagre. Vejo um dia, no Jornal do Brasil, que a firma Seleções do Reader’ s Digest estava procurando um candidato para exercer as funções de diretor da revista em Portugal, onde era então editada. Alain de Lyrot, um dos principais executivos da firma em Pleasantville, viajaria ao Brasil logo depois do Natal para entrevistar os candidatos e escolher o editor. Corri a fazer minha inscrição e soube que já havia vários “candidatos de peso”.

Em casa, meu tom não era muito animador: um desses candidatos tinha vínculos familiares com a cúpula do poder; outro era conceituado artista plástico que dirigia então uma revista de arte e, um terceiro, velho jornalista conhecido por suas demissões de todos os jornais em que atuou. Sem quaisquer apoios, somente um milagre poderia nos ajudar…

Depois de uma semana, ou mais, de silêncio, comunicaram-me por fim que o senhor de Lyrot me receberia para um almoço no Hotel Ouro Verde, em Copacabana. Mr. de Lyrot provinha de família nobre francesa (soube depois que era conde), usava anel blasonado e era apreciador da boa mesa e dos bons vinhos. O Ouro Verde, famoso por ser um dos melhores representantes da gastronomia carioca de então, fora escolhido pessoalmente por ele para se hospedar durante sua curta permanência no Rio. Eu intuí que o almoço tinha não só a finalidade de entrevistar um candidato quanto às suas habilitações profissionais, mas igualmente a de avaliar seu desempenho social. De Lyrot fora informado de minha atividade de tradutor e jornalista free-lancer, mas  desconhecia minha atuação no setor de enciclopédias, ficando bem impressionado quando lhe falei a respeito e de minha anterior experiência fora do Brasil. O almoço foi rápido mas não corrido, e nos despedimos após o café com sua advertência de que estava entrevistando várias pessoas, sem ter ainda uma escolha definitiva. Novo silêncio seguido de um segundo convite, desta vez para um café, no Ouro Verde. Depois de algumas frases protocolares, de Lyrot me disse que eu era um de seus candidatos, mas que ele teria grande dificuldade de convencer a Sede em Pleasantville de que ele estava contratando um bancário e não um experiente profissional da área. Expliquei-lhe que no Brasil de então, com uma inflação desregrada, praticamente todo mundo tinha um segundo emprego, no meu caso vários, todos eles ligados a livros e editoração, e que meu ideal de emprego único sempre fora o de dirigir uma edição de livro ou de revista. Já prevendo uma pergunta dessa natureza, eu vira no dicionário que o equivalente em inglês do nosso “ter um bico” era o incrível verbo “moonlight”, já que essas atividades suplementares eram em geral exercidas à noite. Mas na hora, parti mesmo para o mais expressivo “sideline job” e detalhei a série de atividades correlatas ao jornalismo que eu exercera ou vinha até então exercendo. Saí de lá meio desesperançado, mas ao mesmo tempo satisfeito em saber que a minha candidatura tinha sido, desta vez, levada em consideração.

O desfecho foi rápido, na véspera de seu regresso a Nova York, o “chief-editor” me disse pelo telefone que a TAP me forneceria duas passagens de primeira classe para Lisboa, e que eu teria de estar lá nos primeiros dias de janeiro – isto a apenas uma semana do final do ano. O milagre havia acontecido.

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Na manhã seguinte, fui à redação da revista que ficava bem próxima do hotel. Fiquei conhecendo o então redator-chefe, Tito Leite, que estava de regresso ao Brasil. Tito, figura simpaticíssima: cordial e tranquilo, era adorado por toda a “equipa” da revista (quatro mulheres e três homens). Disse-me que estava deixando o cargo por várias razões, inclusive pela idade: “Beware the sixties!”, advertiu-me. O Digest nos tratava com tapete vermelho, cartão de crédito, bônus anual enquanto estávamos na ativa, mas nos demitia inexoravelmente ao chegarmos aos sessenta. Evidentemente não era o meu caso, acrescentou, e disse que, na verdade, estava com sérios problemas de saúde: fumante inveterado, não raro durante a conversa tinha assustadores ataques de tosse, mas se recuperava com galhardia e voltava à conversação fluente e colorida. Inteirou-me das funções que eu iria exercer: a leitura dos originais de artigos enviados pela Sede, a seleção do material que comporia o próximo exemplar em língua portuguesa, a elaboração da chamada “table of contents” a ser submetida a Pleastville e a revisão das traduções de artigos feitas no Brasil e em Lisboa.

Uma das tarefas a que logo nos entregamos, juntos, foi a da seleção de “fillers”. Quando os artigos impressos não cobriam toda a página final, o espaço resultante devia ser preenchido por frases filosóficas ou humorísticas adequadas. Esses enchimentos vinham em grandes folhas impressas que líamos, recortávamos e mandávamos traduzir os que achávamos adequados à nossa edição. Da primeira vez em que tomei uma dessas páginas para recortar, dei com o seguinte pensamento que me surpreendeu:

 To most men only the cessation of the miracle would be miraculous, and the perpetual exercise of God’s power seems less wonderful then its withdrawal would be.

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que tentei logo traduzir: Para a maioria dos homens, apenas a cessação do milagre seria milagrosa, e o perpétuo exercício do poder de Deus parece menos maravilhoso de que seria a sua retirada. Uma primeira versão literal que requeria aprimoramento. Mas o que me chamara atenção fora precisamente aquela “permanência do milagre”: eu e minha mulher havíamos vivido num milagre permanente e, de súbito, ei-lo que se interrompe e ficamos mais surpresos com a sua cessação do que com o fato de que vínhamos vivendo permanentemente nele.  Agora, de súbito, o milagre voltara a acontecer, a cadeia se reestabelecera, era preciso louvar “o perpétuo exercício do poder de Deus”.

Henry Wordsworth Longfellow (1807-1882), poeta e pensador norte-americano, autor de uma infinidade de “wittcisms” e de uma epopeia exaltando os primitivos habitantes da América (Song of Hiawatha), foi um dos primeiros tradutores da Divina Comédia  e – sim, senhor! – amigo de D. Pedro II. Pedi ao nosso calígrafo que escrevesse a frase em letra de forma e mandei emoldurar o pergaminho. Esse quadro, nossa perene lembrança do milagre, nos acompanhou durante os mais de 20 anos que vivemos fora do Brasil e ainda hoje está ali, bem visível, no alto de minha estante.

Frase 1

P.S. A história mais detalhada de minha atuação na revista Seleções do Reader’ s Digest pode ser lida aqui na Gaveta nos artigos  Minha carreira jornalística-I (17.09.2010)  e II (18.09.2010).

JÁ É NATAL

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A GAVETA DESEJA AOS SEUS AMIGOS E VISITANTES UM NATAL
TRANQUILO E UM ANO NOVO CHEIO DE ESPERANÇAS E BELAS
REALIZAÇÕES. ESTAREMOS, COMO DAS OUTRAS VEZES , EM RECESSO TEMPORÁRIO, MAS A GAVETA CONTINUARÁ SEMPRE ABERTA AOS VISITANTES,
VOLTAREMOS NO DIA 13 DE FEVEREIRO, APÓS O CARNAVAL.

(Este belo cartão de Natal acima foi pintado com a boca por Carlos Fernando Ayala Moreno, membro da associação Pintores com a Boca e os Pés, que congrega artistas deficientes dos membros superiores.
Eles editam todos os anos belos calendários e cartões de Natal.
Ajude-os adquirindo seus produtos:
Rua Tuim, 426 – CEP 04514-101 – São Paulo-SP)
(11) 5053-5100 e fax 5051-0797

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PRECE AO NEY

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Querido irmão, seja onde quer que estejas, no céu, numa galáxia além no espaço, ouve meu pranto, sente meu abraço; quero que me vejas e sintas o vazio em que às vezes me encontro na procura de um sentido para as glórias da vida e seus revezes. Que pena teres desaparecido: é natal e não tenho o teu amparo, os teus votos de feliz aniversário, o teu sorriso claro mesmo ao telefone (algo que me foi sempre necessário). Falta-me a tua voz, o timbre amigo, algo que acione em mim uma esperança, algum empenho que já não trago mais comigo. Mais um natal sem tua voz, mais um natal que não te tenho. Éramos dois, éramos nós. Hoje sou eu, um só que espera, um só que insiste em que ouças minha voz numa outra esfera onde o teu claro espírito resiste.

O MEU DEMIAN

Jair Ferreira dos Santos e Ivo Barroso durante a palestra de 08.12.2015.

 

O meu Demian

          Este livro mudou minha vida. Tive-o nas mãos pela primeira vez no início dos anos ’50, quando saiu sua tradução espanhola feita no México. Li-o muitas e muitas vezes, sabia alguns trechos de cor. Passei a considerá-lo um presente mediúnico, pois ele falava de problemas que afetavam diretamente a minha personalidade. Senti uma imediata semelhança entre o frágil Emil Sinclair e o ainda mais frágil rapazote que havia chegado de Minas para a grande cidade, logo no fim da II Guerra, depois de passar um ano interno num colégio de orientação religiosa. Como ele, eu também provinha de uma família superprotetora, que resolvia todos os meus problemas e não deixava que nada me faltasse. Acabei caindo numa confortável, mas depressiva dependência, em que até meus telefonemas eram dados por minha mãe. Tinha medo de tudo, uma inibição constrangedora que me impedia até de falar ao telefone.

         Diversamente de Sinclair, eu não sofria nenhuma chantagem, nenhuma ameaça externa. Meu problema estava dentro de mim mesmo: eu era o meu inimigo, ou seja, nascera com uma terrível inibição, um acanhamento inexplicável, uma timidez doentia, que me levavam ao afastamento social, à solidão, a refugiar-me na leitura e na poesia. Morava numa rua residencial, só casas de um lado e do outro, e por ela me deslocava toda manhã para tomar o bonde numa avenida próxima. Minha timidez era tal que não ousava falar com pessoas estranhas ou até mesmo conhecidas. Não ousava olhar ninguém de frente, me encabulava com facilidade, me envergonhava estranhamente diante das mulheres, não conseguia entrar num elevador lotado. Na minha caminhada matinal, sempre que vinha alguém na minha direção, eu cruzava a rua para não ter de encarar a pessoa ou cumprimentá-la. A minha solidão estava ficando cada vez mais avassaladora.

          Com a leitura de Demian percebi que era possível modificar a minha personalidade. Assim como ele ensinou Sinclair a se libertar de seu algoz, Franz Kromer, a mim me dava forças para romper as barreiras que me constrangiam. Eu precisava libertar-me de mim mesmo. Para nascer, era preciso destruir um mundo, como faz a ave ao romper a casca do ovo que a abriga. Era preciso ousar – ser é ousar ser. E passei sistematicamente a fazer tudo quanto temia: a cumprimentar sistematicamente os vizinhos, a frequentar as festinhas da rua, a dirigir a palavra às mocinhas conhecidas ou não. E também a exercitar-me fisicamente, largar um pouco os livros, participar das brincadeiras do colégio. E, aventura final, tentar pegar o bonde andando, algo que sempre me fascinara quando via os garotos da minha idade pulando no estribo dos carros ainda em movimento. Tentei várias vezes, cada vez aumentando a velocidade, até que um dia caí para valer, mas aprendendo que tudo tinha seu limite.

          Essa minha vitória sobre a inibição me levou ao firme intento de traduzir este livro, pois sabia da existência de um número infinito de Sinclairs que estavam à espera do aparecimento de um Demian. Quis me transformar de vítima em salvador, até que um dia as circunstâncias me permitiram encontrar um editor que, também fascinado por Hesse, se prontificou a editar o livro. A primeira edição saiu em 1965 e, portanto, esta de agora, inteiramente revista, vem para comemorar o meio século de publicação da obra no Brasil. Certa vez, eu estava num ônibus para a Tijuca e sentei-me ao lado de um jovem que estava lendo um livro. Era o Demian. Num impulso, e já na obrigação de vencer as minhas inibições, perguntei ao leitor se estava gostando do que lia. Ele me pareceu desinibido, pôs-se a falar sobre o livro e disse que sua leitura era de molde a influenciar nossas vidas. Concordei satisfeito. Naquele momento, senti-me totalmente recompensado por todo o trabalho que tive na tradução.

          (Os leitores interessados poderão ler algo mais sobre o assunto acessando aqui no blog os artigos “Du musst dein Leben ändern – Tens que mudar tua vida”, de 24.04.2014 e “Ainda o Demian”, de 29.04.2014. As narrativas ali apresentadas foram resumidas nesta palestra de 08.12.2015, de maneira bastante sintética).

Capa Demian V3 MF

A Editora Record patrocinou, no dia 8 de dezembro, uma palestra na Livraria da Travessa (Shopping Center do Leblon), para comemorar o lançamento de uma nova tradução do DEMIAN, de Hermann Hesse, que completava neste ano meio século de sua publicação inicial, em 1965. O escritor Jair Ferreira dos Santos, autor do premiado livro de contos “Kafka na Cama e do ensaio “Em Breve, o pós-moderno” falou sobre a importância da obra de Hesse, e o tradutor da obra, Ivo Barroso sobre a influência que o livro exerceu em sua vida e a necessidade que sentiu de traduzi-lo para o grande público.

Eis, em síntese, as palavras de apresentação do Jair:

 

          Perto de comemorar os cem anos de sua primeira edição alemã, em 1919, o romance Demian, de Hermann Hesse, está sendo relançado pela editora Record em nova tradução de Ivo Barroso. As várias linhas de força que compõem a obra de Hesse, com cerca de 50 títulos entre romances, contos, poesia, ensaios, artigos para jornais e revistas, deram origem a uma singularidade avant la lettre do que hoje denominamos “autoficção”.

          O conceito carece ainda de uma definição menos porosa, mas a extensão e a profundidade com que vida e texto se fundem, se trabalham mutuamente na literatura de HH tornam o seu caso único, porque forjaram uma lógica inflexível calcada sobretudo na coerência.

          Hermann Hesse nasceu no pequeno burgo de Calw, na Alemanha, em 1877, e faleceu em 1962 na Suíça. Sua adolescência, que aliás inspira Demian, ostenta um número apreciável de rebeliões e fugas no âmbito da família e da escola, à época focos do rigorismo protestante que levou seus avós a serem missionários cristãos na India, enquanto, em casa, preparava-se o suicídio de seu irmão devido aos maus tratos, supõe-se, dos professores.

          O destino de Hesse também passaria, cumprindo um rito famíliar, pela India, em missão religiosa, mas a fuga de um colégio o levou a trabalhar como livreiro, depois como relojoeiro em Tubingen, o que o pôs na estrada que o conduziria, felizmente, para o autodidatismo. Aos dezesseis anos, edita um livro de poemas sem grandes consequências, mas em 1904 vem a público o romance Peter Camezind, best seller recheado de conflitos familiares e amorosos que inaugura de fato sua carreira literária. Como para pagar um tributo ao clã, viaja para a India em 1911, experiência que será narrada no livro, estranho em toda linha, Viagem ao Oriente, em 1932.

          O dinheiro significará para Hesse antes de mais nada casamento, oportunidade de fracassos que enfrentará mais duas vezes ao longo da vida, até estabilizar-se na relação com Ninon Dolbin, cujo pai doa uma casa para o escritor na Suiça, país para onde se transferiu em 1916, por conta de sua postura pacifista, e cuja cidadania adotou em 1923. 

          Filhos em série, problemas psicológicos que o levaram a ser analisado por um discípulo de Jung, não inteferiram significativamente na consolidação da sua personalidade literária e intelectual nos anos 1910 e 1920. Neste lapso HH realizou suas três obras primas – Demian (1919), Sidarta (1922), O Lobo da Estepe (1927) – todas elas às voltas com o drama existencial da autodescoberta e da autocriação num mundo  espiritualmente devastado.

          Em Hesse a fusão entre literatura e autobiografia não elide de modo algum, antes implica, um claro envolvimento com a História então contemporânea. Em seus 85 anos de vida ele foi testemunha das duas grandes guerra mundiais, contra as quais se insurgiu, das revoluções russa e chinesa, da ascensão das massas proletárias e urbanas com o  desenvolvimento industrial capitalista, do intenso debate intelectual em curso na Europa.

          A grande efusão social visível em toda parte forçou-o a refugiar-se num individualismo fortemente influenciado por Nietzsche, ao qual se associaram os pensamentos nada otimistas de Freud e Jung. Mestres, época e uma inclinação romântica por temperamento e gosto literário delineiam a via antimoderna que pretende trilhar.

          Em 1946, recebe o Prêmio Nobel. Traduções de seus principais romances em língua inglesa preparam, nos anos 1950, a insurreição cultural que explodirá nos 1960 sob o rótulo de “movimento hippie” ou “contracultura”. Implícita nessas denominações está a rejeição à cultura ocidental como um todo, a seu racionalismo, seu materialismo vulgar, seu consumismo, sua destruição da natureza, sua repressão sexual, sua consciência enlatada, seu coletivismo anônimo. Para lutar contra todas essas forças, especialmente no front juvenil, nenhum artista ou intelectual oferecia uma obra com armas tão eficazes quanto a de Hermann Hesse, que se tornou o guru da sociedade alternativa.

          Assistiu-se, naqueles anos, com marcas ainda longe de estarem extintas, a introdução e expansão das religiões e saberes orientais no ocidente, do budismo ao Tai Chi Chuan. Aguardava-se ansiosamente o despertar de uma nova consciência individual, grupal ou cósmica, e para isto mobilizaram-se as drogas psicoativas e seu elenco de revelações anímicas. Os mantras, as cores, as batas, os véus levaram para as ruas traços de uma paisagem e uma esperança diferentes. Um outro olhar, entre o cuidado e o lirismo, dirigiu-se à natureza. Deuses arcaicos integraram-se à cultura pop, já que Abraxas foi título de álbum do guitarrista Carlos Santana, e um grupo de rock adotou o nome Steppenwolf, que traduzimos por O Lobo da Estepe, significantes com forte presença em obras de Hesse. 

            

 

          Mas por que seria importante, hoje, editar e ler Demian?  

          Romance, genericamente, de formação, trata da passagem do adolescente Emil Sinclair para a juventude nas vizinhanças da vida adulta, percurso em que o personagem deixa o universo ordeiro, protetor, luminoso da família para ganhar o mundo e suas zonas de sombra, de perversidade, de trevas. Como dizia o escritor americano John Barth, “o autoconhecimento é sempre má notícia”. Sinclair, no entanto, receberá a ajuda do impressentível e inefável Demian, um colega de classe furtivo, principesco, dono de  conhecimentos iniciáticos invejáveis, que efetivamente se tornará seu guia numa jornada cheia de perigos e transgressões.. É também a relação imprevisível entre os dois, a partir de dado momento apoiada por Eva, a mãe de Demian, uma figura solar e altiva, que encaminha Sinclair para as sendas da autonomia, da identidade como construção pessoal e de novos poderes como “a arte de adivinhar pensamentos”. O entorno dos protagonistas é permeado por sonhos, coincidências, intuições e sinais esotéricos com significados à espera de interpretação. Eles se movem num mundo que não se restringe á experiência factual, mas gravita igualmente num plano, certamente para poucos, no qual se pode ter uma visão mais profunda da existência do ponto de vista moral e espiritual. 

          Não é preciso uma grande reflexão para constatar que passamos por um período de alta taxa de desencanto, o que pode ser traduzido também por uma irremediável pobreza simbólica. Desde o Renascimento, com a ascensão das ciências, as religiões declinam, os deuses se retiraram, as bandeira nacionais nada significam, a cruz intimida bem menos, os heróis escasseiam. Essa modesta listagem assinala um processo de dessimbolização cultural que respondia, e em grande parte ainda hoje responde, pelos dados fundamentais da existência – o tempo, o amor, a morte, a amizade, a angústia – áreas sobre as quais a ciência e a tecnologia quase nada tem a dizer. São campos onde os símbolos imperaram com saberes não conceituais, porém altamente eficientes porque o simbólico vive da reverência que enseja, da emoção em que sua presença nos envolve, da interpelação que nos faz, do peso e profundidade que dá ao momento. Crentes ou não, não circulamos por uma igreja do mesmo modo em que batemos perna num shopping.

          Ora, Demian, se atentamos para o essencial em seu enredo, visa à reintrodução do simbolismo no tecido do nosso cotidiano, desfigurado pela vulgaridade embutida da mercantilização total da existência. O romance apresenta até mesmo um símbolo, o deus grego e egípcio Abraxas, a quem a tradição concedeu o dom de fundir numa só entidade o bem e o mal, o masculino e o feminino, a luz e a sombra. É preciso assinalar, ainda, que nas condições atuais tais símbolos não remetem a sujeitos ao mesmo tempo transcendentes e reais com poderes superiores, nosso modelo midiático para naturezas, digamos, não naturais, mas solicitam para elas a vigência de um regime poético de existência e funcionamento, na medida em que poemas, como figuras poéticas, podem veicular saberes psicológica e pragmaticamente reveladores em circunstâncias diversas.

          Por fim, o apelo de Hermann Hesse em Demian não é estranho à tragédia ocorrida recentemente com o menino sírio que morreu nas praias da Turquia. A foto simbolizou, no sentido genuíno de emoção, reverência, interpelação, envolvimento, toda a nossa tolerância com a insanidade e toda a nossa implicação em um crime por omissão, por alienação voluntária. Tanto é assim que no dia seguinte Angela Merkel, a chanceler alemã, abriu as fronteiras da Alemanha para os imigrantes árabes. É dessa potência simbólica que Hermann Hesse nos ensinou a não abrir mão. 

 

A preleção do tradutor será apresentada na próxima semana

 

CONTEMPLAÇÃO DA CHUVA

idoso

Já fui poeta e escrevi versos de amor.

Hoje contemplo a chuva e espero a chegada do correio.

 

É certo que os anos alteram muitas coisas,

Mas não é só a idade, a desgastar o exterior;

Algo mais fundo nos envelhece também a alma

Que contempla o vazio e não espera a salvação.

 

Acreditei em deuses, pensei que escrever

Fosse a minha aventura, meu barco embriagado,

Mas a viagem de volta era sempre consciente

De que não existe um destino a perseguir.

 

Devia ter um saldo positivo qualquer,

Um livro de versos, momentos de evidência,

O desfrute de paragens e de mesas estreladas,

Mas só tenho ressentimentos e lembranças tristes.

 

Não poder simular uma mensagem de esperança

Mesmo sabendo que a chuva irá passar,

Que talvez amanhã chegue uma carta do correio.

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