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(uma historinha divertida só para variar)

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        A senhora estava na fila do supermercado e quando chegou sua vez começou a colocar as compras sobre o balcão da caixa que, tendo atendido o cliente anterior, estava agora num papo animado com sua colega que fazia os embrulhos. A senhora esperou um pouco, olhou insistente tentando marcar presença, mas a caixa (Josenilda? Odicléia? Marinalva?) continuava a narrar, com detalhes explícitos, a festinha de que havia participado no dia anterior. A senhora empurrou as compras para frente, limpou afetadamente a garganta, e disse:

— Está tudo aí.

        Josenilda (?) nem por isso. Ou melhor, pegou a primeira compra e levou algum tempo tentando fazer com que o clique da leitura ótica acertasse no alvo magnético do queijo de Minas. E o papo continuava. Até que – previsível – enganou-se na digitação e teve que chamar o gerente para corrigir a entrada absurda em que o preço de um produto apareceu na telinha multiplicado por dez. Ele veio, enfiou um cartão na faixa de leitura e digitou, sem olhar para os circunstantes, seu código mágico que apaga os peccata mundi.

        Quando Odicléia (?), cada vez mais empolgada com sua narrativa, que agora já era partilhada pela cliente seguinte à senhora da vez, enganou-se novamente e gritou:

— Caixa 1, correção,

a senhora, diante da chegada do mágico impassível com sua varinha de condão, acabou dizendo:

— Isto assim não vai acabar nunca. Também você não presta atenção ao que está fazendo; não para de falar o tempo todo…

        O miraculoso gerente acordou de seu mundo encantado e fez uma cara de quem, que chato! precisava tomar uma atitude diante da reclamação. Foi quando a senhora de trás, tomando as dores de Marinalda (?), disse:

— Que implicante! A moça também é gente, tem direito de falar, de rir, de brincar com os colegas. Não pense que ela é uma máquina que está aí só para atender as pessoas. A senhora está é com inveja da festinha dela…

        Como não estávamos presentes, nem o leitor nem eu, ficamos indecisos como reagir. De um modo geral, com a tendência de relaxamento a que estamos nos acostumando, certamente acabaríamos dando razão às duas: A caixa não precisa ficar em silêncio, mas por outro lado não pode deixar de prestar atenção ao que faz, pois é paga para isso. A senhora tem direito de reclamar, mas fazendo-o na frente do desperto gerente pode estar pondo em risco o emprego da moça, o que, nos dias atuais, etc. etc.

        Esse tipo de comportamento está nos levando a uma atitude cada vez mais passiva: não sabemos reclamar nossos direitos com medo de afetar os direitos alheios. Quando todo mundo está de acordo em reclamar alguma coisa, chamamos a isso protesto. Quando só alguns insistem em reclamar, a coisa passa a ser apenas implicância. Em se tratando de protesto, protesto coletivo, então, o fracasso é certo. Recentemente recebi por e-mail uma convocação para o Dia Nacional do Protesto. Devia vestir-me de preto ou colocar uma faixa preta na minha janela para atestar que eu, como milhares de cidadãos, estávamos completamente revoltados com a pouca vergonha de nossos políticos. Retransmiti o convite aos inscritos na minha lista de endereços. Todos estávamos de acordo em que devíamos protestar. No tal dia, me esqueci de colocar a faixa na janela e saí também vestido com uma cor qualquer. Quando me lembrei, na rua, percebi que não havia ninguém, ninguém, vestido de preto, que as janelas estavam livres de “fumos”, que nem os sapatos eram pretos, pois todos passavam de sandália havaiana a caminho do mar.

        Não escondo, porém, minhas implicâncias, que são todas de caráter linguístico. Implico solenemente com a generalização do emprego do “lhe” (eu lhe vi, posso lhe ajudar, etc.), que foi institucionalizado por uma novela da televisão. Como o grande público toma a TV como padrão de comportamento e adere imediatamente a qualquer imbecilidade que aparece na telinha, nossos “âncoras” e comentaristas deviam ter mais respeito com a língua e não confundir “este” com “esse”, por exemplo. Na linguagem falada, de todo dia, vá lá; mas numa apresentação televisiva, seria conveniente usar-se a linguagem padrão. Está em moda agora, suprimir-se a preposição em frases como “o livro que eu mais gosto”, modificando a regência do verbo, e já vi até mesmo “intelectuais” aderirem ao modismo só para posarem de modernos. De repente, passaram a dizer “acont´ceu”, suprimindo o “e”, como se no português do Brasil já tivéssemos o “e” mudo. É comum ouvir-se “trangênico” em vez de “transgênico”, dito até mesmo por autoridades do ramo agrícola. E chega a haver dirigentes que resolveram abolir o “s” plural da maioria das palavras, em homenagem ao supremo chefe… Mas isso são meras implicâncias…

 (Publicado no Jornal do Brasil – Caderno B – de 28 de maio de 2005)


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Por pura arte de Láquesis, fui parar na Holanda, onde atuei de 1968 a 1970 como Adido Comercial da Embaixada do Brasil na Haia (Den Haag, em neerlandês). Além do estimulante trabalho de divulgador de nossos produtos exportáveis, atividade que me levava a conhecer as várias regiões do país, tive a oportunidade de desfrutar de extenso leque cultural, abrangendo os famosos museus holandeses e suas magníficas orquestras sinfônicas. Foi quando ouvi pela primeira vez as sinfonias de Mahler, que o maestro Bernard Haitink estava revivendo no reconstruído (1966) teatro De Doelen, de Rotterdam, dotado da melhor acústica que havia na época. Em Amsterdam, além do Concertgebouw, havia o imperdível museu de Van Gogh, o Rijkmuseum e, ali perto em Otterlo, o Kröller-Müller, com a segunda maior coleção de obras desse gênio, tais os expressivos “Comedores de batatas” (Aardappeleters), de que adquiri algumas reproduções. Mas não precisava sair da Haia para me deparar com os grandes mestres da pintura holandesa. Lá estava o Gemeentemuseum (Museu municipal), onde se podiam ver os quadros de Piet Mondrian, e, enfileiradas em ordem cronológica, as várias transformações por que passou sua árvore impressionista até chegar à sua versão final, cubista, em quadradinhos. Mas o sumo do sumo era mesmo a Mauritshuis (Casa de Maurício de Nassau), onde, entre outras preciosidades, estava exposta a obra-prima de Jan Vermeer, “Vista de Delft” (Gesicht op Delft), que – obviamente como a todo mundo – me fascinou a ponto de ir visitá-la com frequência. Quando estava para voltar ao Brasil, adquiri uma bela reprodução (53X55cm) do quadro, que me acompanhou em todas as minhas deslocações e hoje adorna o hall de meu apartamento no Leblon.

Portanto, muito tempo antes de ler Proust – que li mal, fragmentariamente, e nunca ao todo, na verdade – eu já achava razão em sua célebre frase escrita numa carta a seu amigo Jean-Louis Vaudoyer (Correspondance, tome XX):“La vue de Delft est le plus beau tableau du monde”. E só voltei a me interessar por ele, Proust, quando surgiu, já em fins do século XX, o curioso debate sobre o que seria o “petit pan de mur jaune”, no quadro de Vermeer. O que deu origem a esse debate foi um trecho de “Em busca do tempo perdido”, encontrado no 5º tomo (La Prisonnière), que narra a morte do escritor Bergotte. Ei-lo no original e na tradução de Manuel Bandeira:

« … un critique ayant écrit que dans la Vue de Delft de Ver Meer (prêté par le musée de La Haye pour une exposition hollandaise), tableau qu’il adorait et croyait connaître très bien, un petit pan de mur jaune (qu’il ne se rappelait pas) était si bien peint, qu’il était, si on le regardait seul, comme une précieuse œuvre d’art chinoise, d’une beauté qui se suffirait à elle-même, Bergotte mangea quelques pommes de terre, sortit et entra à l’exposition. Dès les premières marches qu’il eut à gravir, il fut pris d’étourdissements. Il passa devant plusieurs tableaux et eut l’impression de la sécheresse et de l’inutilité d’un art si factice, et qui ne valait pas les courants d’air et de soleil d’un palazzo de Venise, ou d’une simple maison au bord de la mer. Enfin il fut devant le Ver Meer, qu’il se rappelait plus éclatant, plus différent de tout ce qu’il connaissait, mais où, grâce à l’article du critique, il remarqua pour la première fois des petits personnages en bleu, que le sable était rose, et enfin la précieuse matière du tout petit pan de mur jaune. Ses étourdissements augmentaient; il attachait son regard, comme un enfant à un papillon jaune qu’il veut saisir, au précieux petit pan de mur. « C’est ainsi que j’aurais dû écrire, disait-il. Mes derniers livres sont trop secs, il aurait fallu passer plusieurs couches de couleur, rendre ma phrase en elle-même précieuse, comme ce petit pan de mur jaune. » Cependant la gravité de ses étourdissements ne lui échappait pas. Dans une céleste balance lui apparaissait, chargeant l’un des plateaux, sa propre vie, tandis que l’autre contenait le petit pan de mur si bien peint en jaune. Il sentait qu’il avait imprudemment donné le premier pour le second. « Je ne voudrais pourtant pas, se disait-il, être pour les journaux du soir le fait divers de cette exposition. »
Il se répétait : « Petit pan de mur jaune avec un auvent, petit pan de mur jaune. » Cependant il s’abattit sur un canapé circulaire; aussi  brusquement il cessa de penser que sa vie était en jeu et, revenant à l’optimisme, se dit : « C’est une simple indigestion que m’ont donnée ces pommes de terre pas assez cuites, ce n’est rien. » Un nouveau coup l’abattit, il roula du canapé par terre, où accoururent tous les visiteurs et gardiens. Il était mort. »

Lendo, porém, num crítico, que na Vista de Delft de Ver Meer (emprestada pelo museu de Haia para uma exposição holandesa), quadro que ele apreciava muitíssimo e julgava conhecer em todos os por­menores, havia um panozinho de muro amarelo (de que não se lembrava) tão bem pintado que era como uma preciosa obra de arte chinesa, de uma beleza completa em si mesma, Bergotte comeu umas batatas, saiu de casa e entrou na expo­sição. Logo nos primeiros degraus que teve de subir sentiu umas tonteiras. Passou em frente de alguns quadros e teve a impressão da secura e da inutilidade de uma arte tão factícia, e que não valia as correntes de ar e de sol de um palazzo de Veneza, ou de uma simples casa à beira-mar. Enfim chegou diante do Ver Meer, de que se lembrava como sendo mais luminoso, mais diferente de tudo o que conhecia, mas onde, graças ao artigo do crítico, reparou pela primeira vez numas figurinhas vestidas de azul, na tonalidade cor-de-rosa da areia e finalmente na preciosa matéria do pequenino pano de muro amarelo. As tonteiras aumentavam; não tirava os olhos, como faz o menino com a borboleta amarela que quer pegar, do precioso panozinho de muro. “Assim é que eu de­veria ter escrito, dizia consigo. Meus últimos livros são de­masiado secos, teria sido preciso passar várias camadas de tinta, tornar a minha frase preciosa em si mesma, como este panozinho de muro”. Não lhe passava, porém, despercebida a gravidade das tonteiras. Em celestial balança lhe apare­cia, num prato a sua própria vida, no outro o panozinho de muro pintado de amarelo. Sentia Bergotte que im­prudentemente arriscara o primeiro pelo segundo. “Não gostaria nada, disse consigo, de vir a ser para os jornais da tarde a nota sensacional desta exposição”. Repetia para si mesmo: “Panozinho de muro amarelo com alpendre suspenso, panozinho de muro amarelo”. Nisso deixou-se cair subitamente, num canapé circular; subita­mente também, cessou de pensar que estava em jogo a sua vida e, recobrando o otimismo, disse consigo: “É uma sim­ples indigestão causada por aquelas batatas mal cozidas, não há de ser nada”. Nova crise prostrou-o, ele rolou do canapé ao chão, acorreram todos os visitantes e guardas. Estava morto.

Esta cena, atribuída por Proust a Bergotte, na verdade aconteceu com ele próprio, sem o final fatídico por sorte, mas provavelmente previsto por ele. Em fins de maio de 1921, de acordo com seu biógrafo George Painter, os jornais parisienses anunciaram a exposição no Jeu de Paume de uma coleção de quadros holandeses, cedidos pelo museu da Casa de Maurício, entre os quais estavam a “Vista de Delft” e “A moça com brincos de pérola”, de Vermeer (que Proust grafa Ver Meer). Seus amigos Leon Daudet e Jean-Louis Vaudoyer haviam escrito artigos laudatórios a respeito e, num deles, falava-se de um “pequeno lanço de parede amarelo” no quadro “Vista de Delft”, como sendo “um inestimável espécime de arte chinesa, de uma beleza completa em si mesma”. Proust ficara intrigado, pois julgava conhecer o quadro melhor do que ninguém e, angustioso, deu-se conta de nunca ter atentado para aquele “pedaço amarelo do muro”. Por isso, convocou seu amigo Vaudoyer a levá-lo à exposição e acordou naquele dia às 9 da manhã, hora em que habitualmente ia dormir. Logo à saída, no entanto, sentiu uma espécie de vertigem, mas logo se recuperou e, assistido por Vaudoyer, que lhe notou as mãos trêmulas, pôde ver toda a exposição e, mais ainda, almoçar fora com o amigo. Trabalhando na quinta parte de sua Recherche, Proust transpôs para seu personagem Bergotte não só a angústia da visita à exposição como a frustração de não ter localizado o dramático “pedaço de muro” (ou de parede, mur em francês).

Mas onde estaria localizado, no quadro, o misterioso fragmento amarelo ?

Ao longo do tempo, dezenas de críticos e comentaristas levantaram hipóteses ou preferências sobre sua localização. O quadro vai reproduzido aqui com algumas indicações para você escolher, em sua opinião, a mais provável.

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Traduzida por Ivo Barroso

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     John Keats (1795-1821), tido como o último poeta romântico inglês, escreveu sua famosa Ode on a Grecian Urn em 1819, dois anos antes de morrer, aos 26, de tuberculose, na Itália, onde fora em busca de melhores climas. Poesia não se explica, mas esta ode – considerada um dos momentos mais altos do Romantismo inglês — tem sido motivo de acaloradas discussões críticas, com ilustres adeptos tanto favoráveis como contrários aos seus méritos. Seus versos finais (“A beleza é verdade, a verdade beleza”), que a maioria dos comentaristas considera dos mais belos da língua, foram tidos por Eliot como o ponto mais fraco do poema (a blight). A propósito do título: o correto seria mesmo Ode sobre uma urna grega, pois, se Keats quisesse dedicá-la à urna, teria escrito Ode to (e não on). Mas a verdade é que logo nos primeiros versos o poeta fala diretamente a ela, chamando-a  de “Inviolada Noiva do Silêncio” e afirma que, mesmo sem falar (por ser um objeto), ela pode, com suas inscrições, relatar uma história floral mais bela que seus versos. Rigorosamente não se conhece um exemplar de urna grega autêntico, seja em museu ou em livros de arte, que corresponda às duas cenas principais descritas no poema: uma aldeia grega que se prepara para o sacrifício de um novilho e o tocador de flauta junto a um par de amantes no momento que antecede um beijo. Sabe-se do amor de Keats pela literatura e a mitologia gregas e tais cenas poderiam ser tanto frutos de sua imaginativa quanto colagens de fragmentos representativos daquela civilização. Quanto à tradução, fizemo-la em dodecassílabos brancos na tentativa de captar, tanto quanto possível, o sentido e o tom de cada verso.

+énfora - Grega Helen+¡stica

Ode on a Grecian Urn

Thou still unravish’d bride of quietness,

Thou foster-child of silence and slow time,

Sylvan historian, who canst thus express

A flowery tale more sweetly than our rhyme:

What leaf-fring’d legend haunts about thy shape

Of deities or mortals, or of both,

In Tempe or the dales of Arcady?

What men or gods are these? What maidens loth?

What mad pursuit? What struggle to escape?

What pipes and timbrels? What wild ecstasy?

 

Heard melodies are sweet, but those unheard

Are sweeter; therefore, ye soft pipes, play on;

Not to the sensual ear, but, more endear’d,

Pipe to the spirit ditties of no tone:

Fair youth, beneath the trees, thou canst not leave

Thy song, nor ever can those trees be bare;

Bold Lover, never, never canst thou kiss,

Though winning near the goal yet, do not grieve;

She cannot fade, though thou hast not thy bliss,

For ever wilt thou love, and she be fair!

 

Ah, happy, happy boughs! that cannot shed

Your leaves, nor ever bid the Spring adieu;

And, happy melodist, unwearied,

For ever piping songs for ever new;

More happy love! more happy, happy love!

For ever warm and still to be enjoy’d,

For ever panting, and for ever young;

All breathing human passion far above,

That leaves a heart high-sorrowful and cloy’d,

A burning forehead, and a parching tongue.

 

Who are these coming to the sacrifice?

To what green altar, O mysterious priest,

Lead’st thou that heifer lowing at the skies,

And all her silken flanks with garlands drest?

What little town by river or sea shore,

Or mountain-built with peaceful citadel,

Is emptied of this folk, this pious morn?

And, little town, thy streets for evermore

Will silent be; and not a soul to tell

Why thou art desolate, can e’er return.

 

O Attic shape! Fair attitude! with brede

Of marble men and maidens overwrought,

With forest branches and the trodden weed;

Thou, silent form, dost tease us out of thought

As doth eternity: Cold Pastoral!

When old age shall this generation waste,

Thou shalt remain, in midst of other woe

Than ours, a friend to man, to whom thou say’st,

“Beauty is truth, truth beauty,—that is all

Ye know on earth, and all ye need to know.” jogador-de-flauta-grego-5256280

ODE A UMA URNA GREGA

Tu ainda inviolada Noiva do Silêncio,

Filha adotiva do Sossego e a Lentidão,

Silvestre historiadora, que exprimir consegues

Um enredo floral mais doce que este canto;

Que lenda engrinaldada em teu redor perpassa

Tecida de deidades ou mortais, ou de ambos,

Junto ao vale de Tempe ou nos vergéis da Arcádia?

Que homens ou deuses são? Que virgens relutantes?

Que afoito perseguir? Que luta na escapada?

Que pífaros e adufes? Que êxtase bravio?

 

É doce ouvir-se a melodia, inda mais doce

A que não foi ouvida; assim, ó suaves frautas,

Plangei; não para o ouvido sensorial, mais caras

Tocai para a nossa alma as músicas sem som:

Ó jovem sob as árvores, não soltarás

Jamais teu canto e nem os ramos suas folhas.

Ousado amante, nunca, nunca hás de beijar

Embora rente de teu alvo — não lamentes;

Ela assim ficará, e embora sem fruí-la,

Amarás para sempre essa beleza eterna!

 

Ditosos ramos, sim, ditosos porque nunca

Ireis secar, nem dar adeus à Primavera;

E tu, afortunado melodista, isone

Hás de entoar canções eternamente novas.

Amor, feliz amor! Feliz mais do que tudo!

Sempre ardente e no entanto sempre indesfrutado,

Sempre à beira da entrega e sendo sempre jovem,

A exultar de paixão humana e transcendente

Que deixa o coração amargurado e opresso,

As têmporas em fogo e a boca ressequida.

 

Quem estes que chegando estão para o holocausto?

A que víride altar, ó sacerdote ignoto,

Conduzes um novilho para os céus mugindo

E o suave flanco inteiro de festões ornado?

Que povo ribeirinho ou junto ao mar que aldeia,

No monte que casal, tal um bastião tranquilo,

Vazio despertou nesta manhã piedosa?

Ah! vilarejo, as tuas ruas para sempre

Desertas estarão; viv’alma por dizer

De tal desolação há de tornar jamais.

 

Ática forma! Sóbria atitude! em guirlandas

De mármore, donzelas e varões enleias

Com ramos da floresta e o joio espezinhado;

Tu, forma silenciosa, abalas-nos a mente

Qual faz a eternidade: ó fria Pastoral!

Quando esta geração o tempo houver tragado,

Tu permanecerás em meio de outras queixas,

Amiga do homem, a quem dirás: “A beleza

É verdade, a verdade beleza” – isto é tudo

Que sabemos na terra e que importa saber.

Demian alemãoDemian alemão 001

     A primeira edição de “Demian” saiu em 1965 pela Civilização Brasileira. O livro obteve imediata aceitação e logo se esgotaria, permitindo à editora lançar novas edições nos anos sucessivos. Nesse ano em que saiu, o livro foi objeto de sensível análise feita pelo jornalista Carlos Menezes, que editava, à época, uma coluna em O Globo denominada Feira de Livros. O articulista – o que era raro nessa altura – além de comentar a tradução, não deixou de mencionar o nome do tradutor.

DEMIAN, UMA HISTÓRIA BELA E INESQUECÍVEL

     Foi assim: vários livros haviam-me sido entregues naquele dia. Ensaios, política, religião, poesia, ficção científica e um romance de Hermann Hesse. A jornada de trabalho fora penosa — como de rotina — e eu precisava de algo que me repousasse o espírito. Abri o livro de Hesse, “Demian”, do qual já  ouvira referências, passei por cima da nota do tradutor (que li depois, e vale ser lida) e mergulhei na magia do insigne escritor: “A vida de todo ser humano é um caminho em direção de si mesmo, o seguir de um simples rastro”.

     Deixei-me levar, totalmente entregue pela narrativa de Sinclair; suas angústias, seus temores infantis, suas noções distorcidas de crime, pecado, punição  e perdão; seu encontro maravilhoso com Demian; seus desencontros com Demian e consigo próprio; seus encontros com Beatrice (a doce e benfazeja miragem em forma de mulher) e com Pis­tórius, o sábio organista que o evangeliza nas doutrinas de Abraxas (deus e demônio); seus sonhos cheios de luz, de  ternura, de misticismo, de dualidade; seus reencontros com Demian e o conhecimento de Eva, como ele, portadora do indelével sinal de Caim.

     A noite transcorrera, para mim, como num dos maravilhosos sonhos de Sinclair, e a manhã já era menina  nova quando meus olhos, nem um pouco fatigados da longa mas deliciosa viagem noturna  por mundos de místicas magias, leram  o período final: “Tudo o que depois me aconteceu causou-me mal. Mas quando  vez por  outra encontro a chave e desço em mim mesmo, ali onde, no sombrio espelho, dormem as imagens do destino, basta-me inclinar sobre a negra superfície  acerada para ver em mim a minha própria imagem, semelhante já em tudo a ele, o meu guia e meu amigo”.

     Assim é  Demian, um livro belíssimo e inesquecível, obra capital do expressionismo alemão. Romance de uma geração — a do primeiro  pós-guerra — Demian conserva  a  mesma  indomável força, o mesmo e inarredável valor, atualíssimo, para esta geração jovem, que enfrenta um segundo após guerra (embora distante, mas de efeitos duradouros) e um ante guerra dilacerante, no qual os valores espirituais como que se pulverizam pelas emanações dos experimentos bélicos  atômicos, mergulhando todos e tudo  num  vórtice de  materialismo alucinante e desenfreado.

     DEMIAN, ainda hoje (foi escrito em 1919), é um livro do dia.  Que seja  lido pelos  adultos, mas principalmente pelos jovens. Nele, em Demian, encontraremos, e encontrarão,  algo de irreal mesclado de real, um pouco difuso, mas às vezes de uma clareza de sol a pino, agora  um  pouco   soturno  e  já gloriosamente jubiloso, numa sucessão saborosa  e inebriante de vida  e­ de morte; de amor e de abstinência; de luz e de sombras; de tormento e de paz, uma paz permanente, anestesiante, com a doçura da morte que é refrigério e sal­vação.

     DEMIAN é lançamento da Civilização Brasileira, em tradução esplêndida de  Ivo  Barroso,  que antecede a história de Hermann Hesse com um rápido mas ilustrativo estudo crítico da obra do eminente escritor expressionista.  Na “orelha”, Oto Maria Carpeaux dá sucinta aula sobre Hesse, sobre  Demian e sobre expressionismo. Assim, Demian é um livro completo, belo, inesquecível.

Carlos Menezes (Feira de Livros – O Globo – 16 de novembro de 1965)

     Mas, na maior parte dos casos, os comentaristas chegam a citar frases inteiras da tradução em seu artigo, sem sequer mencionar que se trata de uma tradução, como se aquelas palavras em português fossem as do próprio autor. Eu me agastava com isso, e cheguei a enviar ao Jornal do Brasil  uma nota a respeito, que acabou saindo na íntegra:

Hermann Hesse

     “Na matérIa sobre Hermann Hesse, recentemente  inserida no Caderno B, fala-se no au­tor mais lido no Brasil nestes últimos tempos, mas nenhuma referência é feita àqueles que, mal remunerados e laboriosa­mente, puseram a obra de Hesse ao alcance do leitor brasi­leiro.

     Além, da omissão – injusti­ficável em qualquer outro pais, mas comum entre nós, onde a atividade de tradutor, ainda que de alto gabarito, é siste­maticamente ignorada – o autor do texto usou, sob a for­ma de paráfrase, sinonímia ou mesmo transcrição literal, um pequeno estudo que acompa­nha minha tradução do Demian. Não quero me arvorar em dono do Hesse pelo sim­ples fato de haver traduzido dois de seus livros fundamentais (o outro foi O Lobo da Es­tepe), mas  parece-me questão de honestidade (para não solenizar a coisa, em prin­cípio ético) citar a fonte que nos permite, além da mera in­formação, esboçar uma opiníão crítica, e mesmo, como é o caso, abalançar afirmativas que são fruto de leitura, conhecímento e estudo da obra de um escritor. Dá uma certa frustração ver tudo isso transfor­mado depois numa notícia anônima e casual, como se as ideias ali expostas não passas­sem de meras notas biográfi­cas ao alcance de qualquer consulente que se dê ao trabalho de folhear uma encíclopédía. Assim como tive o cuidado, naquele estudo, de dizer que os dados biográficos de Hesse foram extraídos do li­vro de Hugo Bell, o Caderno B poderia, en passant, dizer em que se baseou para defen­der alguns conceitos que eu, até então, julgava meus.

Ivo Barroso – Rio.”

     Não era a primeira vez que reclamava dos jornais a omissão do tradutor nas resenhas de livros. De outra feita, mandei a um deles a seguinte nota:

A SITUAÇÀO DO TRADUTOR

     Há alguns anos, quando ainda morava no exterior, vi numa revista brasileira de grande circulação uma resenha literária sobre o Martin Fierro, de José Hernández, que acabara de sair em excelente tradução de Augusto Meyer. O resenhador deitava falação sobre o personagem e o autor, citava abundantemente os versos em português, falava da beleza das imagens — mas não dizia uma única palavra sobre a tradução ou o tradutor, cujo nome sequer aparecia no alto da página, com outros informes sobre a edição. Eu que morava num país onde se davam créditos até para as legendas dos filmes da televisão, escrevi uma carta à revista, reclamando contra tamanha negligência. “Não se esqueçam”, dizia-lhes, “que quando o resenhador fala na ‘beleza destes versos’ e os cita em português, o que está citando já não é Hernández mas Augusto Meyer, que conseguiu fazer com que eles ficassem igualmente belos em português”.  A revista naturalmente não deu importância à minha carta importuna: tradutores, entre nós, com raríssimas exceções, ainda não tinham seu lugar ao sol.

                                                                     ***

     É bem verdade que a história mudou (um pouco): hoje o nome do tradutor aparece devidamente no colofon do livro junto com o título original, o nome da editora e o ano da publicação. Alguns leitores já se preocupam, ao comprar um livro traduzido, em saber o nome de quem o traduziu. Alguns tradutores são até mesmo conhecidos do público e pesam na escolha de uma edição.

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MEA CULPA!

     Eu já havia traduzido dois os três livros sem importância antes de me aventurar na transposição do Demian. A edição que eu tinha, feita em 1930 por Luís López Ballesteros y Torres (conhecido tradutor espanhol de Freud e vários outros autores importantes) fora lida por mim tantas vezes que eu já a sabia quase de cor. Minha tradução de 1995 foi feita totalmente por ela, pois só vim a conhecer o original alemão muito depois (“Hermann Hesse – Demian – Die Geschichte Von Emil Sinclairs Jugend”, da Suhrkamp taschenbuch), quando então fiz o cotejo de palavra por palavra, emendando muita coisa. Tradutor bisonho, eu às vezes pensava estar “melhorando” as frases, quando as alongava para as tornar mais sonoras. O mesmo fazia o tradutor espanhol que, diante de um simples “Ja” (sim) do original, às vezes me vinha com um “Por supuesto que sí”, que, estou certo, lhe parecia mais natural em sua língua. Esses exageros, em sua maior parte, foram corrigidos quando da revisão, mas há dois momentos que persistiram sobre os quais quero hoje, diante dos leitores, fazer o “mea culpa!”

     Ambos ocorrem no primeiro capítulo: Sinclair conhece o fanfarrão Franz Kromer, garoto mais velho e mandão, diante do qual, para não bancar o fraco, admite ter roubado maçãs de um pomar vizinho. Kromer aproveita a confissão para chantagear o pobre do menino, dizendo-lhe que irá denunciá-lo ao dono do pomar, pois este teria prometido dois marcos a quem apontasse o culpado. É quando lhe pergunta se ele sabe de quem é o pomar. E Sinclair responde: “Não, não sei… Acho que é do Müller” . Claro que Sinclair disse, em alemão,  achar que o  dono do pomar era o moleiro (Müller). Mas eu (e bem assim o tradutor espanhol) repudiamos o moleiro, palavra horrível, provavelmente desconhecida para o leitor brasileiro… e lá tacamos o Müller, como se a palavra fosse nome próprio e não o substantivo comum que, em alemão, se escreve sempre com letra maiúscula (Numa das últimas revisões, sugeri fosse trocado o “Müller” por “o dono do moinho”, ficando assim fiel ao original mas fugindo ao mesmo tempo do abominável moleiro).

     A outra é mais engraçada: Sinclair, chantageado, não sabe o que fazer e, sob tensão emocional, acaba por cair de cama depois de ter vomitado. A falsa enfermidade lhe permite fugir ao compromisso com Kromer e ele banca o doentinho recebendo as atenções da mãe que lhe prepara um “Kamillentee” (chá de camomila, no original). Fiquei desolado. Na minha terra, chá de camomila era medicação exclusiva de parturientes em resguardo! Para mim era inconcebível que o meu herói Sinclair tomasse um chá de camomila. Então (– pasmem! como hoje eu também!) resolvi transformar o Kamillentee em suco de frutas! Salvei a honra de Sinclair mas cometi um erro de tradução, uma deformação do texto, que jamais hoje o faria, pois agora tenho a convicção de que o tradutor não pode e não deve alterar o texto do autor.

     Pagando os pecados: muitos e muitos anos depois, na década de ’80, passei umas férias em Badgastein, na Áustria, no Hotel Grüner Baum, uma maravilhosa estação de esqui que funciona igualmente no verão graças à beleza do vale alpino em que está localizada. Pois todos os dias, por falta de opções reconhecíveis, tomávamos de manhã, de tarde e à noite o famoso Kamillentee, diante do sorriso enigmático da Kellnerin no belo chalé de caça do hotel.

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     Sabe aquele livro cuja leitura muda a sua vida? O livro que  revela a nossa própria identidade que não conhecíamos inteiramente? E que nos obriga a tomar uma atitude, que era então para nós inconcebível – a de mudarmos nossa vida? Pois esse livro existiu para mim, tive-o nas mãos, li-o com a suspeita de que estava penetrando o segredo de minha própria personalidade, que ele era uma advertência, um toque de alarme. Explico: minha família mineira havia se mudado para o Rio de Janeiro nos anos da guerra (1944-45) e eu me sentia totalmente deslocado no novo meio ambiente; refugiava-me nas férias voltando ao interior, à minha cidade de Ervália, em Minas. Um dia, não sei exatamente como, tive nas mãos o livro Demian, de um autor para mim desconhecido, Hermann Hesse, em tradução do espanhol, língua que eu começava a estudar por conta própria mas que lia com afinco. Logo me identifiquei com a figura de Sinclair, menino tímido, superprotegido pela família burguesa que o defendia dos perigos da vida. Eu sofria de uma timidez agônica, que me levava a evitar as pessoas. O livro me convenceu a mudar minha atitude e enfrentar a vida real. Era preciso fugir um pouco da literatura em que eu mergulhara no anseio da fuga, fugir da música, da poesia, das artes – e encarar a vida na sua realidade brutal. Passei a exercitar-me, a fazer, aos poucos, o que temia, inclusive – façanha jovem da época – tomar o bonde andando. Puxava papo com pessoas desconhecidas, bancava o “rasgadão” (equivalente, à época, ao nosso “descolado”), me insinuava com as garotas auxiliado por uma lábia vocabular que então surtia efeitos benéficos.

    Poucos anos depois, já mais ambientado, frequentando jornais e livrarias, convenci o editor Enio Silveira a publicar o Demian, pois certamente o livro poderia fazer por outros o que fizera por mim: uma mudança correta de atitude, um novo enfoque da existência. Eu não sabia alemão. A primeira versão do Demian foi feita por mim do espanhol, mas como pretendia traduzir também o Lobo da Estepe, do mesmo autor, comecei meus estudos da língua com um grande amigo, Daniel Brilhante de Brito, que dominava o idioma por ter sido criado por uma babá alemã. Fiz depois uma revisão do Demian, e o texto corrigido que hoje está no comércio já ultrapassou a 50ª. edição. Essa tradução, bem como a de O Lobo da Estepe, que trouxeram grandes lucros para a Editora, foi vendida pelo equivalente atual a R$300,00. Pasmem! Em outro país, em que o tradutor tem participação nas vendas do livro, eu teria recebido até hoje uma considerável quantia. Mas ele me deu outras satisfações. Uma vez, no ônibus, voltando para a casa no Andaraí, vi um jovem lendo o livro. Lembrei-me da necessidade de vencer a timidez e perguntei a ele se estava gostando da leitura. Disse-me exatamente que o livro estava mudando sua vida. Sorri. Disse-lhe que o mesmo acontecera comigo. Mas não consegui dizer-lhe que eu era o tradutor do livro.
Leiam o texto que escrevi para a primeira edição de Demian e que até hoje faz parte da apresentação do livro.

demian

   DEMIAN, escrito em 1919, é o primeiro grande livro de Hermann Hesse no caminho que o conduz a DER STEPPENWOLF (O Lobo da Estepe) – sua indiscutível obra-prima de 1927 – e do qual SIDARTA, que aparece em 1922, constitui a etapa intermediária. Pode-se dizer que o Harry Haller, de O LOBO DA ESTEPE, é o Emil Sinclair, de DEMIAN, na matu­ridade.

     O arranque representado por DEMIAN é, entretanto, mais significativo se se tem em conta seu valor de quebra-diques na própria contenção formal e emotiva da obra de Hesse. Até então, a despeito dos gritos convencionais de revolta contra a educação coercitiva do novecentismo germânico, representados por PETER KAMENZIND (1904) e UNTERM RAD (Debaixo das Rodas – 1906), seus escritos estratificam o burilar correto e neoromânti­co de um mestre-escola provinciano, pontilhado de descrições de um gosto artífice, mas onde o olhar se coloca numa posição alpina, de contemplação para baixo, paisagística. É exatamente com DEMIAN que o enfoque se modifica: a contemplação se volta para si mesma e vai buscar no interior do próprio personagem a visão multilatitudinal do mundo; a perspectiva se intromete na própria vivência autobiográfica e o autor ousa ser ele e proclamar sua mensagem. Esse novo elemento, até então ausente da obra literária de Hesse, transforma por completo sua essência: de estilista requintado, mas restrito, se torna um dos valores mais originais e profundamente humanos da literatura alemã da primeira metade do século.

     “Quem quiser nascer tem que destruir um mundo” – eis a mensagem – destruir no sentido de romper com o passado e as tradições já mortas, de desvincular-se do meio excessivamente cômodo e seguro da infância para a consequente dolorosa busca da própria razão de existir: ser é ousar ser – o que Gide levaria às últimas consequências em sua obra, marcadamente em “Os Subterrâneos do Vaticano”. O conflito entre a dualidade “mundo luminoso” (ideal) e “mundo sombrio” (real) por que tem de passar Sinclair para o encontro ou a edificação de sua personalidade é o tema central do livro; tema que se teria prestado, como inúmeras obras românticas da época, a um estado sentimental de rebeldia, infrutífero e estanque, no qual essa dualidade de impulsos não conduz a qualquer síntese ou solução, mas que em Hesse, entretanto, se equaciona “na aceitação e na afirmação da própria personalidade em toda a sua humana plenitude de tendências antitéticas e inconciliáveis, inevitavel­mente coexistentes num trágico dinamismo psíquico”. E ainda mais que uma história ou romance de educação é o relato de um processo de deseducação, ou, preferindo-se, de reeducação, de laborioso apagar das pegadas que o puritanismo educacional deixa impressas na alma adolescente: a timidez, a humildade, o alheamento — armas obsoletas contra a hostilidade do mundo real — e que conduzem, mais tarde, inapelavelmente, à solidão e à inadaptabilidade, à surda revolta e ao amargo constrangimento.

     O livro reflete, obviamente, a tendência de introduzir na literatura a doutrina de Freud, que estava na ordem do dia, e da qual Hesse era um apaixonado estudioso, tendo-se posto inclusive aos cuidados do Dr. J. B. Lang, psicanalista de Luzerna, quando vítima de crise de neurastenia que lhe sobreveio após a Primeira Guerra Mundial. Daí a presença constante do oni­rismo na obra, de um certo entrevelado complexo de Édipo (aqui exposto através de um sutil mecanismo de transferência), de permeio com reminiscência de estudos de ciências antigas e herméticas, hauridos na intimidade da biblioteca do avô materno.

   No caso de Hesse, mais do que na maioria dos autores, um conhecimento biográfico se faz necessário à boa compreensão dos elementos surpreendentes de sua natureza. Descendente de família suábia, criado no mais rígido rigorismo religioso — o pai, erudito famoso de história religiosa; a mãe, filha de missio­nário, nascida e educada na Índia; o avô, Hermann Gundert, indianista de renome — Hermann Hesse nasce em 2 de julho de 1877, em Calw, pequena cidade do Wurtemberg, na Floresta Negra. Desde logo destinado à carreira eclesiástica, passa pela levedura espiritual e a constrição educativa de quatro seminários, donde egressa para tornar-se aprendiz de relojoeiro e, mais tarde, auxiliar de livraria, em Basiléia e Tübingen.

     Essa reação à vida religiosa e a firme obstinação de se tornar poeta (aos treze anos tinha por divisa: “serei poeta ou nada”) é explicada por seu biógrafo, Hugo Ball, como uma fixação pela poderosa personalidade de sua mãe, contista de sensibilidade, cuja figura (“bela voz clara e sonora”) imprime-se na alma do jovem de maneira tão marcante quanto a imagem da “mulher ideal”. O contato com o mundo livreiro proporciona­l-lhe a oportunidade de publicar, em 1899, seus ROMANTISCHE LIEDER, (Cantos Românticos) e, cinco anos mais tarde, sua primeira novela, PETER KAMENZIND, que logo alcançou nume­rosas edições, permitindo ao poeta libertar-se da ocupação burguesa para entregar-se exclusivamente à literatura. Nesse mesmo ano (1904), transfere-se com a primeira esposa para Gaenhofen, ás margens do lago Constança, na fronteira ger­mano-suíça. Data dessa época sua colaboração na revista März, de Munique, cujo diretor Theodor Heuss, combate o poder pessoal de Guilherme II; os artigos de Hesse, entretanto, corres­pondem mais a uma atitude democrática e liberal, do que a um compromisso partidário, que nunca teve.

     Em 1911, “por necessidade interior”, empreende uma viagem à India, berço de sua mãe, e que exerce sobre ele a atração de uma pátria espiritual e misteriosa; a viagem, entre­tanto, não lhe proporciona o esperado deleite. Em 1914, transfere-se para Berna, onde vai surpreendê-lo a declaração de guerra, em relação à qual Hesse assume, desde o início, uma atitude intelectual de absoluta neutralidade. O entusiasmo guer­reiro de seus compatriotas poetas leva-o a escrever o artigo “ó amigos, abstende-vos desse tom”, que lhe acarreta uma onda de incompreensão e repulsa semelhante à que avassalou Romain Rolland.

    Data dessa época sua crise nervosa, decorrente não só da conturbada situação mundial, mas ainda do agravamento da enfermidade psíquica da esposa. A separação do casal é ine­vitável. Hesse fixa-se ao sul dos Alpes e descobre em 1919 a Collina d’Oro, a sudoeste de Lugano. Nessa fase, excursiona pela pintura, fazendo aquarelas, e o trato com as cores vai impressio­nar vivamente sua obra, transparecendo inclusive nas páginas deste livro. Data dessa época também o encontro de sua segunda esposa, Ruth, vínculo que teve, aliás, breve duração. Em 1923, adota a cidadania suíça e encontra finalmente tranquilidade, junto à terceira esposa, para empreender a obra principal de sua vida, coroada com o aparecimento, em 1943, de DAS GLASPER­LENSPIEL (O Jogo das Contas de Vidro), onde expressa um apurado conhecimento musical.
Durante os anos da Segunda Grande Guerra, acolhe refu­giados do regime nazista e encontra as portas literárias da Alemanha novamente fechadas para a sua obra. Em 1946, obtém o prêmio Nobel de Literatura, principalmente em razão de sua obra poética, mas a saúde débil não lhe permite ir a Estocolmo recebê-lo pessoalmente. Falece em 1962, aos 85 anos de idade.

     De posse desses elementos, fácil nos é perceber quanto as figuras de Sinclair, Demian e Pistórius encerram do próprio Hesse, não passando de sínteses ou projeções de suas vivências: Sinclair, mais do que todos, é o êmulo real do autor: a mesma infância, o mesmo ambiente parental, a mesma inadaptabilidade ao mundo cotidiano. Demian será talvez o Hesse ideal, o que gostaria de ter sido, decisivo, homem do destino, marcado pelo sinal de Caim. Também Pistórius é um heterônimo de Hesse, organista na vida real, filho de teólogo, guia de outrem mas incapaz de encontrar o próprio caminho. Tudo indica, ainda, ter servido para o vigoroso retrato de Eva a significativa figura da própria mãe do poeta.

     Cabe uma palavra final sobre a atitude de Hesse em relação à guerra e à comunidade. Pode parecer hoje um tanto superado o desprezo pela coletividade demonstrado por Sinclair, passível de confundir-se com um sucedâneo da torre de marfim. Mas o que Hesse realmente ataca é a aceitação do rebanho, permeável a influências externas, capaz de ser levado à guerra na ilusão de estar praticando um ato heróico. A atitude não está certamente isenta de alguma aristocracia intelectual, mas formulada antes no sentido do culto do individualismo enquanto útil, capaz de encontrar o destino, do que no isolamento gratuito e inaplicável. Hesse rebela-se contra a uniformização; não é a massa que o impressiona, mas os processos de submissão, de estandardização a que ela se submete. Ergue um canto de glorificação ao indi­víduo consciente de si mesmo e de seu próprio caminho e execra o morticínio capaz de destruir com uma simples bala esse expe­rimento único e insubstituível da natureza: o homem.

 

Ivo Barroso
CONTINUA

Pascoa_Cordeiro_01

No ano passado, por ocasião da Páscoa (29.03.2013), tive a oportunidade de apresentar aos leitores deste blog alguns poemas referentes à data, belos sonetos de Djalma Andrade e de Alphonsus de Guimaraens, dois dos nossos maiores poetas litúrgicos. Desta vez, para que não passe totalmente em branco a efeméride religiosa de maior significado cristão, tudo que lhes posso oferecer é esta primeira estrofe da Canción a Cristo crucificado, do quase desconhecido poeta espanhol Miguel Sanchez. Ela consta do The Oxford Book of Spanish Verse (p. 169) que informa saber-se muito pouco sobre o poeta, provavelmente nascido em Valladolid e falecido em Plasencia, sem citar as datas. O poema é bem maior e, caso haja interesse dos leitores, poderei oportunamente transcrevê-lo na íntegra, em espanhol é claro.

 

Canção a Cristo crucificado

 

MIGUEL SANCHEZ

 

Inocente Cordeiro

Em seu sangue banhado

Com que do mundo tiras os pecados,

Desse forte madeiro

Suspenso pelos braços

Abertos, que me incitam a abraçar-te;

Já que humilde definhas

Com a cor e a formosura

Desse rosto divino

Tão próximo da morte

Antes que a alma soberana e pura

Parta para salvar-me

Volve teus mansos olhos para olhar-me.

 

(Tr. Ivo Barroso)

peixe voador 450

O PEIXE DE NERUDA

IVO BARROSO

 

Neruda pôs um peixe na bandeira

que desfraldava em frente à sua casa.

Talvez quisesse assim, desta maneira,

dizer que um peixe voa sem ter asa.

 

 

Dizer que nós podemos transformar

as coisas pela força da vontade:

que o mar pode ser céu, o céu ser mar,

dependendo do olhar, da intensidade.

 

 

Talvez quisesse nos dizer que a vida

é o exercício de enganar a morte;

que depende de nós uma saída,

parar os dados, reverter a sorte.

 

 

Que toda coisa é muito mais que a coisa

em si; que um nome pode ser trocado:

tudo consiste em ser a mariposa

que se transforma num milagre alado.

 

 

Assim, pensando bem, o que Neruda

buscou simbolizar com o peixe erguido

na flâmula, que agora se transmuda

em onda do mar, tem múltiplo sentido:

 

 

Antes do mais, é a pura imagem física

do peixe, o seu desenho, o seu traçado

geométrico, a linha elíptica, a risca,

o contorno preciso e elaborado;

 

 

a exatidão de meios, essa técnica

biológica que o torna a parte viva

da água em que ele vive, a chispa elétrica

que intensa o move, orienta, compulsiva.

 

 

O peixe de Neruda é mais que um peixe,

é uma bandeira, é mais que uma bandeira,

um conjunto de símbolos, um feixe

de acepções — a mitologia inteira.

 

 

É um peixe apostólico, sem dúvida,

a ser multiplicado quando há bodas;

mas é também um peixe só e único,

quando se forem as esperanças todas.

 

 

Pois é o peixe de Cristo e do infinito,

esse oito deitado e em si completo,

oracular, sinal na areia escrito,

signo zodiacal, moto perpétuo.

 

 

Por isso penso às vezes que Neruda

ao erguer de manhã aquele mastro,

com voz potente e ao mesmo tempo muda,

dizia versos ao seu peixe-astro:

 

 

‘Acorda, ó peixe inaugural, ó peixe matutino

Longe de teu reduto aquático, nos ares;

Deixa a esponja, o coral, o caramujo

— Teus amigos agora são as aves.

 

 

Deixa o reduto de imersões profundas,

Liberta-te de abraços isobáricos

E paira livre de teu peso em vôo silencioso e estático;

Nada nesse ondulante pavilhão que o vento do mar fustiga.

És agora o peixe em estado virtual, o peixe-pensamento, espadanando

A esbranquiçada metamorfose das escamas.

A ti entrego o destino de uma espécie

Marítima e volátil, a dupla vida

Que intentamos viver sem os recursos

Que ora te empresto da imaginação.

A ti confio o destino de todos estes seres

Que querem ser bem mais do que têm sido.

Mas que lhes falta o anseio de ter asas

Ou temem sempre mergulhar no abismo’.

 

 

E tarde, tendo os olhos seus imersos

no pôr-do-sol, descendo o pavilhão,

talvez Neruda lhe dissesse versos

— que o verso de Neruda é uma oração:

 

 

‘Volta, ó peixe vesperal, mergulhador do ocaso,

Ao seio original de onde saíste, entre líquenes e anêmonas;

Conta às algas o azul do céu quando os stratus

coroam as colinas,

Agora sabes os segredos dos que pairam acima do horizonte,

Mas dize-lhes também que aventura inaudita

É viver em dois mundos, é saber que estás aqui

Mas que podes pairar além do insuspeitado.

Sonda teu elemento com perícia mas denodo,

Não deixes o recôndito esquecido,

Nele há tesouros que ainda não fulguram

Por lhes faltarem olhos que os vejam.

Vai mais fundo, explora os teus recursos mais íntimos,

A força potencial que jaz nessas escamas

Que tatalaram como virgens rêmiges,

Um dia nas alturas.

Usa teus olhos oblíquos para veres na sombra

O que muitos não vêem em pleno dia,

Sê tu mesmo, sabendo bem que podes

Ser outro, muitos mais, ser legião, miríade

Sem trair o que de mais teu trazes contigo.

Amanhã, serás outro meu amigo.’

 

 

E ouvindo o Poeta descobri que havia

algo de mais recôndito na imagem:

Além de toda essa mitologia,

há no peixe uma última mensagem.

 

 

A de que é a Poesia um peixe-alado

e o Poeta um ser que busca o vir-a-ser.

Vive para dar vida ao Incriado,

pois que a missão do Poeta é transcender.

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