Feeds:
Posts
Comentários

Convite


 

niver25/07/2015, 5º Aniversário da Gaveta.

4 anos

 

QUARTO ANIVERSÁRIO

A Gaveta estaria completando quatro anos hoje. Habitualmente após cada aniversário, costumávamos entrar num período de recesso cuja extensão variava de acordo com as conveniências. Eram paradas extemporâneas, sem outros motivos que a preguiça literária ou alguma pequena indisposição de espírito. Mas nunca tinham uma causa específica e sempre acabávamos voltando. Desta vez, no entanto, um profundo pesar nos levou a encerrar as postagens cerca de um mês antes do aniversário. E a parada de agora está nos parecendo um tanto definitiva…

Durante quatro anos fomos visitados por mais de 120 mil leitores e sabemos que boa parte deles continuará nos acessando, relendo postagens antigas ou pesquisando assuntos que a princípio lhes teriam passado despercebidos. Esperamos que essas visitas continuem sem a necessidade de novas publicações, permitindo assim que a Gaveta ainda sobreviva por um tempo…

ney 001

Meu querido irmão, o Prof. Ney Julião Barroso, hoje estaria completando 82 anos. Lutando com problemas coronarianos e ansioso por sobreviver, submeteu-se a uma operação cirúrgica (ponte de safena) à qual não resistiu, vindo a falecer no dia 15 de junho passado, para consternação de quantos o conheciam.

Por ocasião da missa de 7º dia, li, para os familiares e amigos, a oração que deixo aqui consignada:

ORAÇÃO PELO NEY

 O poeta-filósofo disse que diante da Morte a única atitude cabível é o silêncio.

Mas eu quero quebrar este silêncio e mandar uma mensagem aos Anjos do Senhor, que pairam acima e além do mistério da Morte:

Ó legião de Anjos do Senhor, recebei em vossas alas a alma de meu irmão Ney Julião Barroso que nos deixou quando buscava prolongar sua existência em nossa companhia, tanto que ele queria viver e com isto nos dar a satisfação e o conforto de seu convívio. Quis um desígnio inapreensível que, apesar de toda a sua energia vital, de seu entusiasmo de sempre, de sua firmeza de vontade, ele não resistisse à derradeira luta.

Agora tendes, ó Anjos, em vossa companhia aquele que era o irmão amado, o confidente de todos os instantes, o vínculo familiar mais estreito, a lembrança da infância e da terra natal, o exemplo de todos os passos dados em direção à sua brilhante carreira e ao seu projeto de vida. Aos vossos olhos também está o cônjuge dedicado, o companheiro de todas as horas, as felizes e as amargas, e o pai ardoroso cujos filhos foram a mais alta razão de sua existência. Nós da família só poderíamos ceder esse espírito se fosse para alguma entidade mais alta e por isso tomai-o convosco, ó Anjos, para alívio de nossa dor e de nossa perda.

Também decerto os seus amigos, que eram muitos e fiéis, que se congraçavam com frequência para ouvi-lo e usufruir de sua jubilosa companhia, estes sentirão como nós a sua ausência, a graça de sua conversa, seus casos inesgotáveis, sua exuberante alegria de viver. Eles também gostariam de romper o bloqueio do silêncio e enviar-vos o pedido de que o Ney saiba o quanto sua presença nos faz falta.

E, por fim, grande professor que foi, que ilustrou as cátedras do Colégio Pedro II, seus ex-alunos que se transformaram também em seus amigos, que dele guardam a lembrança da eficiência, do seu dom de ensinar, de seu carisma de mestre amigo e conselheiro, seus ex-alunos se unem à minha voz para vos pedir, ó Anjos do Senhor, que guardeis com carinho e reverência a sua voz, a sua face e o seu sorriso.

A nós todos restará a saudade, além dessa sensação de que perdemos com ele um pouco de nós mesmos.

POR TEMPO INDETERMINADO

 

portao-trancado
            Nossos portões estarão fechados para novas postagens
            mas a Gaveta permanecerá aberta para a sua consulta.
            Obrigado pela visita e saiba que seu comentário sobre
            qualquer dos assuntos será sempre bem-vindo. INB.

CRISTO NA CRUZ

cruci

– um poema de

JORGE LUIS BORGES,

 traduzido por Ivo Barroso

 

Cristo na cruz. Os pés tocam a terra.

Os três madeiros são de igual altura.

Cristo não é o do meio. É o terceiro.

A negra barba pende sobre o peito.

O rosto não é este das gravuras.

É áspero e judeu. Mas não o vejo

E vou buscá-lo sempre até o dia

De meu último passo sobre a terra.

O homem alquebrado sofre e cala.

A coroa de espinhos o castiga.

A chacota da plebe não o alcança

tantas vezes viu sua agonia.

A sua ou a desse outro. Dá no mesmo.

Cristo na cruz. Desordenadamente

Pensa no reino que talvez o espera,

Pensa numa mulher que não foi sua.

Não lhe foi dado ver a teologia,

A Trindade indecifrável, os gnósticos,

As catedrais, a navalha de Occam,

Nem a púrpura, a mitra, a liturgia,

A conversão de Guthum pela espada,

A Inquisição, o sangue de seus mártires,

As atrozes Cruzadas, Joana d´Arc,

O Vaticano que bendiz exércitos.

Sabe que não é deus e que é um homem.

Ele morre com o dia. Não lhe importa.

Importa o duro ferro desses cravos.

Não é romano. Não é grego. Geme.

A nós deixou esplêndidas metáforas

E uma doutrina de perdão que pode

Anular o passado. (Esta sentença

Escreveu-a um irlandês no cárcere.)

Sua alma busca o fim, impaciente.

Escureceu um pouco. Já está morto.

Anda uma mosca pela carne quieta.

De que vale saber que tenha esse homem

Por mim sofrido, se eu sofro agora?

 

 

Você pode ler o original espanhol de Borges aqui

em http://www.lainsignia.org/2005/marzo/cul_054.htm

Eu conto minha experiência infantil com a imagem

do Senhor Morto no post Regresso do Recesso

(15.03.2011) que você pode consultar aqui.

congresso eucaristico II

 

Eu me lembro, eu me lembro, era menino e não brincava na praia nem o mar bramia porque ainda estava em Ervália, no interior de Minas, na sacristia da igreja, atento à lição de catecismo. A catequista – uma versão feminina de Anchieta pregando aos tupiniquins – está empenhada em ministrar-nos (?) instrução religiosa e continua a nos surpreender com perguntas enigmáticas: Quem é Deus? Quantos deuses há? Então há três deuses? E depois de nos maravilhar com os mistérios da fé, eis que nos propõe, radiosa: Vamos cantar o hino do congresso?!

Quatro anos antes, em 1936, fora realizado em Belo Horizonte o II Congresso Eucarístico Brasileiro, que reuniu não só na capital mineira, mas em todas as cidades do Estado, verdadeiras multidões de devotos. Naqueles tempos sem televisão, as pessoas se congregavam nas praças e igrejas para cantar o famoso hino, tão famoso, aliás,  que, muitos anos depois (aqui no caso, quatro) ainda era cantado toda vez que havia uma festividade religiosa.   Todos os anos, por ocasião do aniversário do Congresso, o pároco local, Monsenhor Rodolfo, convocava as Filhas de Maria, os Congregados Marianos, as cantoras do coro da igreja e os fiéis em geral para cantar, em altas vozes, o hino eucarístico. Todos o sabiam de cor, tanto os moradores da cidade quanto os que viviam no campo, talvez ainda mais devotos e chegados a uma cantoria.

O catecismo era frequentado maciçamente pelos meninos da roça, que, além de devotos, viam nas aulas uma espécie de recreio para os seus trabalhos agrícolas. Todos eles sabiam cantar o hino sem titubeios:

 

Tuske Rei e nos pobres de Minas

Finca aqui seu tronco, ai Jesus,

E nas pragas famosas de Minas   

O Brasil para a grória com luz.

 

Era um hino que de certa forma me perturbava: quem seria aquele rei Tuske (ou turco?), certamente um tirano que torturava os pobres pedintes mineiros fincando-lhes um tronco (empalação? não, porque na época eu nem conhecia a palavra), que lhes fazia gritar ai Jesus! E porque pragas famosas? Famosas eram, segundo o catecismo, as do Egito. Quais seriam as nossas: pobreza, miséria, doença, analfabetismo? E porque esse miserável déspota iria iluminar o Brasil para a “grória”? Seria uma alusão a Getúlio Vargas que gozava as regalias do poder? Impossível, a Igreja estava em paz com o governo ditatorial.

Mas a douta coadjuvante que nos fora capaz de explicar que o deus trino era de fato uno, que Padre não era o Monsenhor Rodolfo mas uma forma genérica de dizer Pai (no caso o Pai do Filho), que o Filho era na verdade Deus (que é Pai) e que o Espírito Santo não era o nosso estado limítrofe mas uma pomba, que na verdade não era uma pomba mas o espírito de Deus – pressurosa  correu para o quadro negro e lá caligrafou:

 

Tu, que és Rei, e que aos povos dominas,

Firma aqui teu trono, ó Jesus!

E, das plagas formosas de Minas,

O Brasil para a glória conduz!

 

Ficamos transtornados com o texto, embora as palavras escritas nos servissem de alívio. Sim, senhor, então o terrível rei turco não era outro senão o próprio Jesus que na verdade era Deus?! Um Deus benigno que não obstante dominava os povos?! E que não fincava nada em ninguém, mas pelo contrário devia estabelecer seu trono (foi difícil explicar que não se tratava realmente de um trono, mas da vontade todo poderosa de Deus), e que ninguém havia gritado ai Jesus! e sim invocado a sua condição de Deus. Não, não havia pragas em Minas, embora os meninos da roça achassem que sim; o que havia eram plagas, estranha palavra desconhecida tanto para nós, os da cidade, quanto para os trabalhadores do campo. E ficamos sabendo afinal que a suposta “glória com luz”, que nos soava tão prometedora, não passava do nosso conhecido  e cotidiano ato de levar alguém para algum lugar.

De qualquer forma, foi um alívio: o Tuske Rei nascera de um defeito de pronúncia (“Tu, que és rei”), embora nos parecesse um desrespeito chamar Jesus por tu, já que chamávamos nossos pais de Senhor e Senhora. Mas foi bom livrar os pobres daquele martírio de serem espetados por um tronco. Também ficamos livres das pragas, embora sobrecarregados com aquelas plagas que ninguém sabia o que eram. Como para nós condução fosse apenas a pirua, o único veículo coletivo da cidade, saímos leves, certos de que o nosso Rei, fosse ele quem fosse, levaria o Brasil de automóvel para a glória…

O curioso é que, décadas e décadas depois, eu às vezes ainda me surpreendo a cantar na memória: Tuske rei e que os pobres de Minas

 

(outra historinha divertida só para variar)

%d blogueiros gostam disto: