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DOIS GRANDES POETAS

SOLHAWJ SOLHA é um grande poeta, autor de um grande poema. Mas chamá-lo de grande poeta, apenas, seria omitir muitas de suas outras (múltiplas) qualidades: grande romancista, grande contista, grande ensaísta, grande pintor e grande ator e por isso consumado artista da tela (nos dois sentidos), grande roteirista, grande libretista, grande crítico de cinema, artes e livros – além de muitos outros grandes grande Falando apenas do Poeta, seu mais recente livro, Esse é o Homem (2013), completa uma trilogia de poemas longos iniciada com Trigal com Corvos (2004) e seguida de Marco do Mundo (2012). Em todos esses livros e marcantemente neste último a poesia flui em catadupas (desculpem o gongorismo mas é o único termo que se aplica devidamente ao fluxo turbilhonário de suas frases) que trazem em si os detritos (ou os diamantes) de sua erudição cósmica e os épaves de rimas flutuantes que ajudam o leitor a se manter à tona no avassalador redemoinho das idéias, conceitos, invenções, descobertas, ilações, comparações, parâmetros e mais mil e uma palavras que facilmente brotariam do vocabulário enciclopédico de Solha.

O leitor acostumado a poemas sentimentais, ou mesmo aquele que já tenha trafegado pelos poetas metafísicos, sentirá sem dúvida um impacto ao navegar nesta poesia feita ao mesmo tempo de sentimentos e idéias, teses e gritos de alerta, loas e paradoxos, hipotenusas e colcheias, semifusas e quiálteras, e todo tipo de aportes líricos ou científicos ou filosóficos ou histórico-geográficos ou mitológico-litúrgicos.. Claro que há um fio de Ariadne, uma lógica discursiva que se desenvolve à procura da conclusão, mas em sua viagem (diria na voragem) esse tsunami literário vai arrancando e agregando e desenvolvendo pensamentos em série, palavras que puxam palavras, mudanças bruscas de sentido e de tonalidade, registros familiares ou hermeticistas, teses que são suas próprias antíteses – enfim um caos, um mundo, uma utopia, uma babel que não raro arranha aquele céu contra o qual se volta.

E não bastasse tudo isto, o autor é um ser afável e bem-portante, de sorriso lhano, que se dispõe a lhes mandar gratuitamente seu livro por sabê-los interessados em poesia. Pedidos pelo e-mail wjsolha@superig.com.br.

                                     ***                                       ***

Quando saiu, em 1999, a 1ª edição de Muitas Vozes pela José Olympio, Ferreira Gullar pediu à editora que encomendasse a mim a orelha do livro.

Sai agora pela mesma editora sua 11ª edição, passando o texto inicial a Apresentação do livro. Aqui vai:

Nova ImagemApresentação

MUITAS VOZES

Ferreira Gullar começou por onde a maioria dos poetas acaba: pelo impasse linguístico. O poema “Roçzeiral”, constante de seu livro de estreia, A lutacorporal, é uma espécie de aviso de “trânsito impedido” num final de estrada em construção. O poeta, depois de passar por todos os processos poéticos formais – do soneto camoniano ao poema em prosa, do verso livre ao poema pré-concreto – verifica, de repente, que esgotou suas possibilidades de compor e que dali por diante só seria possível repetir-se, o que estava definitivamente contrário à sua índole criativa. Pareceu-lhe então que o concretismo seria a lateral de escape do impasse, mas logo, verificando um sinal de stop na boca de um túnel sem saída, resolve dar a volta por dentro, cria o neoconcretismo, o livro-poema, o poema-espacial e o poema-enterrado, todos na vã tentativa de reencontrar a linguagem perdida.

Julgando esgotada sua atividade poética, fica algum tempo sem escrever poesia, até que a busca de uma linguagem não conceitual o leva a encontrar nas raízes populares do verso repentino e cantado, na chamada poesia de cordel, a possibilidade de exprimir o seu ideário que, no contexto político dos anos 1960, sinalizava uma participação integrada no desenvolvimento da cultura popular. O movimento militar de 1964 veio pôr fim a este comprometimento espontâneo de Gullar e ao sonho de que uma linguagem popular – a antítese de sua arte poética adquirida ao longo de uma estratificação cultural – pudesse efetivamente mudar o mundo, corrigir os desníveis sociais pelo simples fato de denunciá-los. O poeta conhece então os caminhos constrangedores do degredo, e longe da pátria se sente cada vez mais ligado a ela, cada vez mais empenhado na busca de sua identidade.

E quando brota de seu interior esse urro de brasilidade que é o Poemasujo, esse homólogo poético de O grito, do pintor norueguês Edvard Munch, que bem poderia lhe servir de capa. Nele, o poeta extravasou toda sua angústia, o desespero do só, do perseguido, do expatriado, do terceiro-mundista humilhado e ofendido, mas que bota para fora as vísceras em forma de poesia. Ao despejar uma linguagem que era a sedimentação de um aprendizado cultural, contaminada pelo prosaísmo rude da arte popular, o poeta conseguiu como que o milagre da ressurreição poética. Apesar de sujo, de conter todos os detritos, as enxúndias e os dejetos de sua experiência vital, o poema se torna, ao mesmo tempo, a água lustral de uma nova linguagem, aquela que o poeta buscava desde o princípio e da qual o afastavam os descaminhos da arte.

Gullar readquiriu uma linguagem viva como quem chega de novo ao mundo, linguagem destituída de artifícios, mas tensa de emoção. É a descoberta de que a poesia está nas palavras simples e diuturnas, aquelas que constituem nosso vocabulário de troca e comunicação, o código da espécie. Agora sabe que elas são todas prosaicas em seu estado de palavra e que depende da alquimia do poeta, de sua conjugação, de sua dosagem, de sua articulação para que se transformem num poema capaz de comover. Pois não há poema sem emoção, não há poema sem que uma corda íntima e insuspeitada do leitor vibre de repente percutida pela colocação estratégica de um verso, uma parada súbita que tanto pode ser uma dúvida quanto um abismo de significâncias. Esses momentos de milagre alquímico, no entanto, transcendem o poeta. Ele daria tudo para ser receptivo o tempo todo, mas esse estado larval da criação – seja lá que nome tenha – é imprevisível e só acontece nos momentos de grande espanto e perplexidade.

Em seus últimos trabalhos, Gullar começou a demonstrar uma preocupação com a morte, com os amigos que se foram, mas ao mesmo tempo conseguiu equacionar-lhe o sentido profundo sem fazer dela uma angústia existencial. Com este Muitas vozes, depois de um silêncio de doze anos, Gullar volta a nos oferecer a melhor poesia do Brasil, num estilo transparente e despido de qualquer pedantismo universitário, fruto da cristalização de suas experiências e linguagens.

Lista dos artigos publicados no Caderno B do Jornal do Brasil                           entre maio/outubro de 2005:

07.05 – Uma lembrança de Drummond *
14.05 – A paixão da leitura – Em louvor da Bienal *
21.05 – Lula, uma vocação contrariada
28.05 – Protestos e implicâncias
04.06 – O nariz de Villaça *
11.06 – A bandeja da abjeção *
18.06 – Está faltando um nome para a Presidência *
25.06 – Corrupção e/ou incompetência
02.07 – U arraiá di Lula e a maratona de ridículos *
09.07 – Brasil, o país da cultura esférica *
16.07 – Um pouco mais de pão, senhores do destino
25.07 – A outra margem do rio
30.07 – A enganosa ilusão do Eldorado
06.08 – Brasil de duas faces
13.08 – Esperando Erwartung *
20.08 – Depois do Muro de Babel
27.08 – Lições de culinária parlamentar
03.09 – Vim do Norte Severino
10.09 – Bastou um vento para a desfolhar *
17.09 – ‘Passons au déluge’
24.09 – Briga de cachorro grande
01.10 – Fim do Bolo Brasil
08.10 – Esta arma nós não podemos depor
15.10 – A generalização do mineirismo
22.10 – O verdadeiro plebiscito
29.10 – Ainda resta uma esperança *

(Os assinalados com asterisco foram republicados aqui no blog)

 JB 004

Talvez para amenizar a visão depressivamente ridícula dos” espetáculos populares” que integram em geral nossas representações oficiais no exterior, a televisão francesa (canal TV5) apresentou na semana passada um documentário de quase duas horas sobre a cidade mineira de Diamantina, considerada patrimônio da humanidade. Em geral, toda vez que os estrangeiros documentam alguma coisa sobre o Brasil, é fatal que o foco da reportagem recaia sobre os aspectos mais deprimentes do nosso país: favela, miséria, doenças, pauperismo, indigência, ignorância, extermínio de índios, folclore mambembe, exotismo primitivista. Desta vez, foi um tanto diferente: embora fossem registrados demoradamente aspectos da procissão de Notre-Dame des Douleurs, a ênfase recaiu sobre 1.700 alunos (disseram), uniformizados e bem-portantes, que se dedicam ao aprendizado da música instrumental naquela cidade.

Por algum tempo, ficava-se na dúvida se a cena se passava realmente na terra do futebol e do carnaval. Em vez de estarem na rua jogando pelada ou batendo tamborim, os meninos de Diamantina empunhavam com seriedade seus violinos, seus instrumentos de sopro, de percussão, etc. e se dedicavam ao estudo da música barroca. Qual seria a entidade pública capaz de criar em Minas um projeto tão avançado e tão benéfico? Que sociedade progressista e instruída estaria por trás desse milagre brasileiro? A objetiva dos franceses não permitia dúvidas: a garotada local estava levando a sério aquela atividade pelo fato de nela reconhecer os benefícios desse aprendizado na formação de sua personalidade.

É sabido que a música estimula a capacidade mental, que age como uma espécie de matemática sonora, enriquecendo o raciocínio e a criatividade. Não é sem razão que os povos civilizados da Europa e do continente norte-americano investem nas escolas de música, nos orfeões, nos corais, incluindo esse aprendizado mesmo nos currículos primários. Bastante diferente aqui da terra em que os nossos dirigentes, sempre antenados na demagogia mais rendosa e eleitoreira, só pensam em criar campos de futebol e terreiros de capoeira. Não que se tenha algo contra o esporte, igualmente necessário para a eugenia da raça; nem contra os ritmos populares, a alegria do povo; o que se gostaria de ver é a não exclusividade deles em detrimento de quaisquer outras atividades que poderiam ser úteis ao desenvolvimento intelectual da nossa juventude

Recentemente o governo do Rio de Janeiro anunciou, em campanha publicitária, que estava liberando verbas para a construção de duas centenas de campos de futebol. Seria mais construtivo se parte dessa verba pudesse ser aplicada em outros tipos de educação de massa, no auxílio às entidades culturais falidas por falta de recursos oficiais, na manutenção de orquestras sinfônicas que se estiolam pela ausência de interesse particular ou público, pela criação de mais bibliotecas. Mas falar em cultura no Brasil desperta o escárnio daqueles que vêem na atividade cultural um ato de elitismo. O povo tem que ter é bola; bater bola na rua, nas calçadas, nos pátios, nos playgrounds, na praia, no saguão dos prédios, e até nos elevadores de edifícios (já vimos!). A bola é o nosso deus, nosso futuro, nosso único momento de glória. Músicos, pintores, escultores, artistas plásticos, arquitetos, escritores, tudo isto é frescura. Se a fome-zero não deu certo, a bola­-milhão certamente dará: 120 milhões de bolas para serem distribuídas por todo o país e seremos os invencíveis campeões do mundo. A cabeça não nasceu para pensar, mas para poder cabecear.

JB 005

Na maratona de ridículos à qual estamos assistindo, surge, a cada semana, um fato mais grotesco para superar a marca anterior. Só que desta vez tivemos um empate. Que será mais hilariante: o prefeito de Campinas proibindo o uso de “roupas típicas” na festa de São João ou o presidente Lula editando mais um de seus “arraiá” nos jardins do Palácio do Planalto? No caso de Campinas, o ato é tão absurdo como seria um desfile de carnaval sem escolas de samba. E, quanto à festa junina do Planalto, ela nos parece redundante, já que o governo vive num permanente forró caipira, em que o mais lamentável provincianismo se alia ao que de pior existe no folclore (cultural) brasileiro. Animados pelo quentão, certamente irão ouvir o mestre-de-cerimônias Dr. Dirceu, com impecável sotaque caipira, dizer: “0 PT não róba nem deixa róbar”, e já talvez por força do hábito roubando um “u” na conjugação verbal.

Enquanto isso, fogos, foguetes, foguetões, bombinhas, traques, girândolas, busca-pés, rojões estarão pipocando, explodindo, espiralando pelos salões do Congresso nas mil e uma CPIs que se instalam, se enroscam, se desfazem ou se multiplicam, sempre gerando ainda a ilusão ingênua de que veremos alguns fogos-de-bengala luzindo no céu da esperança de que algo vai mudar com essas movimentações. Mas, até agora, pelo rolar da carruagem, ou melhor, pelo rinchar preguiçoso dos fueiros dos carros-de-boi, a única vítima certa e previsível é o deputado Roberto Jefferson, que será, nas linhas do atual clima folclórico, impiedosamente malhado como um Judas de sábado da Aleluia.

O mais triste de tudo é que essa maratona de ridículos representa apenas uma parte ínfima do descrédito nacional. Desmotivada pelos exemplos negativos que vêm de seus governantes e das elites apodrecidas, a classe média– a verdadeira espinha dorsal da nação, na frase estereótipo — só pode sofrer as artroses do arrocho, os entorses do achatamento. Sem acesso à cultura, que foi escamoteada, varrida dos ideogramas nacionais como uma doença que tem de ser erradicada; sem possibilidades de ascender na escala de conhecimentos imprescindíveis à vida moderna; e intoxicada pelo mau gosto das artes populares, que lhes são impostas como o supra-sumo da criatividade humana, as gerações atuais estão sofrendo um processo de catarata progressiva, de otite obstrutora. de olfação degenerante em que os odores mefíticos são confundidos com aromas transcendentes.

A televisão, a propaganda martelante, o consumismo pé-de-chinelo, tudo puxa para baixo, para o inferior; para a falta de classe, de bom gosto, de cultura, de civilização. Entregue a uma governança sem programa, sem meta, cujo único objetivo é o de salvar a própria pele (e a de seus familiares, segundo Severino), a população brasileira está chegando aos mais baixos níveis de alfabetização, de desempenho cultural, de atividade criadora de que se tem notícia. Em vez de música séria, tome forró. Em tez de, espetáculos enriquecedores da mente, as baboseiras da vulgaridade rastaquera.

Enquanto os outros povos se aculturam, avançam no domínio da técnica, progridem no campo das artes, constroem países mais ricos e mais poderosos, nós vamos aqui — com a ajuda dos de cima, que pisam sobre as nossas costas — cada vez nos afundando mais na ignorância, na grossura e, daí para baixo, no crime e na devassidão. Chega de forró, chega de folclore esclerosante, chega de cultuar o que temos de pior e de mais preguiçoso. Está na hora de um governo decente e progressista nos dar educação, cultura, tecnologia e arte, que são os instrumentos garantidores da verdadeira liberdade.

Há oito anos, de 7 de maio a 29 de outubro de 2005, mantive no Jornal do Brasil uma coluna semanal, aos sábados, de conteúdo predominantemente político. Os artigos vinham ilustrados por grandes caricaturistas da época, mas, para atender a uma bossa editorial de então, as ilustrações não se referiam necessariamente ao assunto do texto. Diante das lídimas reivindicações que hoje alcançam as ruas, voltei a ler algumas daquelas crônicas em que, como toda a imprensa da época, gritávamos contra os mesmos escândalos e esperávamos pelas sempre frustradas providências.  Ao transcrever aqui alguns deles, fazemos votos para que, desta vez, algo de concreto seja feito, pois esta é a nossa última esperança. Vejam em A bandeja da abjeção que já naquela época havia no nosso legislativo um movimento semelhante ao PEC 37!

 JB

Todos sabemos que em 1513, há quase 500 anos, o lobista florentino Niccolò Machiavelli dedicava seu tratado de bem governar ao poderoso príncipe da época, Giuliano de Médicis, e, perfeitamente familiarizado com o jogo do poder, já três anos depois aggiornava a dedicatória para o sobrinho daquele, Lorenzo de Médicis, que passara a assumir o comando da situação. Redigido por um chicaneiro de talento, a lição do tratado não podia ser mais direta: o poder se obtém à força ou através do ludíbrio e da vilania.

Em todos esses anos que rolaram de lá para cá, viu-se que não só o príncipe florentino, mas toda a camarilha política da maioria dos países, andou pondo em prática os ensinamentos de Nicollò, às vezes de maneira velada (a sottocapa, como diriam os italianos), às vezes de maneira ostensiva (de barriga de fora, como diríamos nós). Com isto acostumou-se a aceitar a política como sendo um teatro de hipocrisias e promessas falsas com atores cujo objetivo único é o de alcançar o poder e nele permanecer.

Aqui em nosso Reino tropical, tanto nos tempos do império, da República, da ditadura, do parlamentarismo ou do neoliberalismo, nossa vista foi se habituando à máscara multifronte dos chamados representantes do povo, empenhados em salvar seus interesses, mesmo (e quase sempre) em detrimento dos interesses da nação. Alguns desses representantes se tornaram emblemáticos: acostumamo-nos com a hipocrisia de hiena de um Maluf, a astúcia camaleônica de um ACM, a demagogia destrutiva de um Brizola – para só ficarmos no panteão da mais alta hierarquia no manuseio individualista do poder.

No entanto, observado agora do mirante da atualidade, essa perspectiva nos parece longínqua e desfocada, quase irreal, pois o ludíbrio foi substituído pela desfaçatez franca e agressiva, com um presidente da Câmara dos Deputados declarando-se a favor do nepotismo e dizendo que o papel do político é fazer barganhas e atender a todos os pedidos dos colegas, sem qualquer indagação quanto ao mérito ou à canalhice da solicitação.

Incentivado pelo despudor reinante, o deputado Jatahy Magalhães, do PFL da Bahia, resolveu mesmo sacramentar a ignomínia propondo uma lei que institucionaliza a corrupção no país, excluindo de processo os governantes. Sem que haja qualquer tipo de coerção – seja por uma decência interna que não existe mais na Câmara, seja pelo protesto externo, público, que pouco pode fazer de concreto, e face às explosões atômicas de escândalos que sobem como cogumelos putrescentes – tapamos a vista com a peneira das denúncias e esperadas punições que não se concretizam, abafadas pelas conivências e conveniências partidárias. E diante da inação governamental, as declarações do presidente de que os fatos serão apurados, que os responsáveis serão punidos doa a quem doer (lembram-se do duela a quien duela?), de que será cortada no próprio corpo a porção de carne apodrecida – acabam soando como meros ribombos de uma retórica de palanque, outros lugares-comuns de uma eloquência de jaquetão.

As poucas figuras que se salvavam pelo seu comportamento não escrachado nem circense – diverso do que se têm visto em muitos componentes do governo – e que vinham resistindo com tenacidade ao conluio e ao descalabro, acabam também elas, diante da força do código maquiavélico (este best-seller da política atual), tendo de participar diretamente em áreas de exposição de todo alheias ao seu reduto, talvez forçadas pelo impositivo máximo de manutenção no poder. Foi com grande pesar que o Brasil esperançoso de uns últimos laivos de decência viu o ministro Palocci expondo-se ao deprimente beija-mão da visita ao Poderoso Brucutu (em mangas de camisa)* para levar-lhe na bandeja da vergonha o dinheiro da acomodação.

[* Referência a Severino Cavalcanti, então presidente da Câmara dos Deputados, hoje cassado]

JB 001

Se o príncipe Hamlet fosse brasileiro teria de mudar sua célebre frase “há qualquer coisa de podre no Reino da Dinamarca” para “há podridão total na casa da Mãe Joana”. O descalabro apossou-se de Brasília e os catilinas já abusaram demais de nossa paciência.

As tribos africanas, para afugentar a fera predadora que lhes ronda os rebanhos, usam lançar mão de tudo quanto possa provocar ruído e percutem tambores, troncos ocos, paus, panelas para dar a impressão de que os poucos habitantes são milhares de guerreiros dispostos à caçada. Parece que o nosso presidente, em suas andanças pela África, aprendeu essa técnica de causar ilusões para ocultar a verdade. Nunca, em governo algum, pipocaram tantos escândalos, vieram a furo tantas denúncias, configuraram-se tantas acusações; mas, passado o foguetório inicial do encher-a-vista, as coisas voltam à impunidade de sempre e ninguém é punido, ninguém devolve o dinheiro.

Sem querer repisar nem reprisar as maracatuias de Brasília, seus despudorados e comprovados atos de compra-e-venda partidária, com membros do governo filmados metendo no bolso o gordo dinheiro do suborno, temos, na área cível, um caso típico de impunidade flagrante. Um deputado (logo,impune por definição) constrói com material inadequado   (de seu conhecimento) um edifício que rui matando pessoas e deixando uma centena de famílias desabrigadas. O caso rola na Justiça, ele ganha a causa e vai brindar a vitória com champanhe em Miami num luxuoso hotel de sua propriedade. Os novos sem-teto continuam a briga e o magnata volta a julgamento, mas, possuidor de alguma varinha de condão, é novamente ilibado e certamente terá desta vez consumido, com o champanhe de praxe, uma boa lata de caviar do Irã.

E se juízes vendilhões são presos em flagrante, com seus computadores confiscados; membros do governo apanhados com a mão na grana; contas na Suíça com os nomes de seus depositários divulgados – nada disso faz com que alguma medida possa garantir ao cidadão de que tais atos sejam condenáveis e puníveis. Que passará na cabeça do ingênuo trabalhador que procede honestamente, que paga imposto, que acredita num Brasil futuramente grande onde seus filhos poderão viver com dignidade?

Lula, na oposição, uivava contra o adversário, alegando que o governo anterior protegia os banqueiros, que era um roubo um banco apresentar num trimestre um lucro de bilhões. Agora, no governo, o PT parece o Protetor dos Todo-Poderosos, em alegre conúbio com aqueles que considerava criminosos exploradores da miséria do povo. E ainda embarca na onda criando na Caixa Econômica uma ardilosa maneira de explorar os velhinhos aposentados.

A verdade é que Lula não governa, refugiado nas nuvens, acionado pelos cordéis da Casa Civil, da presidência do PT e de seus líderes parlamentares. Ele é hoje a nossa rainha da Inglaterra, só que mais semostrador, sem o mesmo recato. Em seus pronunciamentos bombásticos, chega a assumir ares de ditador com aqueles “eu fiz”, “eu faço” “eu vou fazer”, que acabam em nada fazendo e em não fazendo nada.

Não é o caso de corrermos à passeata pelo impeachment – isso arriscaria desestabilizar o país, que já não vai lá muito além das pernas, cambaleante em sua política de improvisos. Mas já é hora de pensarmos na sucessão presidencial. Outro mandato seria a reprise da incompetência, o remake da incapacidade petísta de governar segundo as diretrizes que preconizava quando na oposição.

O problema todo está em quem votar, em quem seria o braço capaz de corrigir o rumo e não deixar o Brasil-Titanic soçobrar. Até agora não pintou ninguém a quem pudéssemos confiar esse comando. Falta um nome capaz de encarnar a decência, assumindo de fato o compromisso da honestidade.*

* [De repente surge uma luz com o nome de Barbosa]

CONTINUA

 

MUSEU NAB (todo)

No princípio deste ano, o grupo ultraconservador Cossacos de São Petersburgo atacou a sede do museu Nabokov, na rua Bolshaya Morskaya, 47, naquela cidade, pichando uma das paredes com a palavra “pedófilo”. O museu, inaugurado em 1998, funciona na casa em que nasceu o escritor cerca de um século antes e onde ele viveu até 1917, quando se exilou com a família após a Revolução de Outubro. O protesto visava ao romance Lolita, em que Nabokov descreve a paixão de um professor quarentão por sua enteada, uma menina de 12 anos, livro que lhe trouxe fama mundial e lhe permitiu libertar-se de suas atividades universitárias para se dedicar exclusivamente à literatura. Enriquecido, o escritor foi viver com a mulher Vera e seu filho único, Dmitri, no 4º andar do hotel Montreaux Palace, na Suíça, onde faleceu em 1977.

 NAB BORB

Perfeitamente trilingue (russo, inglês e francês), ele já havia publicado cerca de dez novelas em russo quando chegou em 1940 aos Estados Unidos, empreendendo aí uma carreira de professor e conferencista no Wellesley College e nas universidades de Cambridge e Cornell, ao mesmo tempo em que desenvolvia seus estudos e paixão pela lepidopterologia. Seu primeiro livro escrito em inglês foi A verdadeira vida de Sebastian Knight (1941), em que já revelava as características literárias que o distinguiriam pouco depois como um dos maiores estilistas da língua inglesa.

LOLITA

Essas qualidades se evidenciaram no grande escândalo literário que foi Lolita (1955), livro que começa com uma espécie de poema aliterativo, verdadeiro inferno de frustrações para os tradutores de todo o mundo: “Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta.” Acusado desde o princípio de ter escrito um romance pornográfico e indutor à pedofilia – acusações que vêm recrudescendo agora como demonstra o pichamento do museu de São Petersburgo – Nabokov sempre se defendeu alegando que o personagem do romance, Humbert Humbert, é de fato um mau caráter, a quem ele, autor, denuncia no livro por suas atividades ilícitas e o condena à morte na prisão. Abstraindo-se julgamentos de ordem comportamental, não há como negar a capacidade descritiva do autor em analisar os meandros de uma personalidade doentia invadida por uma paixão avassaladora,

FOGO PALIDO

Seu livro seguinte, Fogo pálido (1962), apresenta o ineditismo de ser um romance policial extraído da análise de um poema, uma espécie de transposição factual de sugestões meramente esboçadas pelo jogo sonoro-vocabular da poesia. Originalidade que se prolonga em Ada ou o Ardor (1969), seu livro mais longo e abrangente, ao qual Nabokov consagrou um tempo maior de elaboração. Em todos eles, no entanto, o leitor fica fascinado com a complexidade de seus enredos, a sutileza de seus jogos de palavras, suas imbricações linguísticas e a microscopia de sua capacidade de observador. Amante de enigmas, palavras cruzadas, xadrez, adivinhas, acrósticos e trocadilhos, o texto de Nabokov se distingue pela busca obcecada de um vocabulário preciso e funcionalmente multiplicativo trazendo às suas descrições a impressão de que as lemos sob a mesma lupa com que ele estudava as entranhas de suas borboletas.

NABOKOV

Autor de centenas de poemas, de dezoito romances, de um livro de memórias, inúmeras cartas a escritores e editores e de elaboradas traduções, Nabokov ainda escreveu ao longo de sua vida quase uma centena de contos, 68 dos quais chegam agora ao público brasileiro numa compacta edição da Alfaguara, através do profissionalismo tradutório de José Rubens Siqueira. Boa parte deles foi publicada ainda em vida do autor, cabendo a seu filho Dmitri, igualmente poliglota e exaustivo tradutor da obra do pai, selecionar mais treze dos que se achavam sob a rubrica “raspa do tacho”, referindo-se isto não à sua qualidade, mas ao fato de que eram no momento os únicos dignos de publicação. Tais contos encontraram em Siqueira o que se poderia designar de tradutor integral, aquele que não deixa nenhuma palavra sem tradução, que busca não equivalências mas o mot just, a palavra exata para transpor a calidoscópica riqueza vocabular de Nabokov, sem perder com isto a naturalidade da frase, a precisão de seu significado e a preciosa cadência de seus tons. Em contos, como por exemplo, A primeira namorada, Nabokov descreve a viagem ferroviária que fez quando criança, em férias, de Moscou a Biarritz, e as suas observações visuais do deslocamento para cima e para baixo das linhas telegráficas que bailavam, através da janela, ao ritmo dos movimentos do trem; o leitor fica maravilhado com os efeitos sinestésicos do original e a capacidade do tradutor em reproduzi-los.

Capa Contos reunidos Nabokov.indd

Essa capacidade se evidencia no arqui-notório As Irmãs Vane, em que Nabokov usa (e abusa) de trocadilhos e acrósticos. O conto tem uma espécie de overture mozartiana, toda delicadeza e acordes mágicos, em que o narrador descreve os pingentes de gelo (estalactites) que se formam nas calhas do telhado de uma casa de madeira e a sombra alongada de um parquímetro sobre a qual incide um estranho tom avermelhado. É em meio dessas divagações que ele encontra seu colega-professor D. que tem um caso com Sybil, uma das irmãs Vane, enquanto o narrador, por sua vez, irá se relacionar com a outra irmã, de nome Cynthia. Obrigada a renunciar à sua ligação com D., Sybil, acaba suicidando-se, após deixar um bilhete ambíguo, e Cynthia, que era chegada ao espiritismo, tenta comunicar-se com ela, acabando por morrer de um ataque cardíaco depois de manter um curto affaire com o narrador. Este acha que ela lhe mandará uma mensagem de além-túmulo. Embora fosse impossível, na tradução, reproduzir o trocadilho inglês do bilhete de Sybil (D minus e minus D.) em que o nome do personagem se confunde com a notação musical , e a expressão minus possa significar tanto maior como menos, a solução apresentada pelo tradutor preserva no entanto o substrato da narrativa (“a Morte não era melhor que D menos, mas era definitivamente melhor que a Vida menos D”.) Mas onde a perspicácia e a pertinácia do tradutor fica mais à prova é no famoso epílogo em que Nabakov, depois de aludir a uma novela inglesa (sem mencionar diretamente O Retrato de Dorian Gray, cuja personagem feminina se chama Sybil Vane, como em seu conto), deixa a entender que nela, em seu parágrafo final, há uma mensagem oculta representada pela primeira letra de cada palavra. O leitor corre logo para o livro de Wilde, mas nada encontra. Só depois percebe que tal mensagem existe sim, mas no último parágrafo do próprio conto As Irmãs Vane — Icicles by Cynthia Meter from me Sybil –, que o tradutor conseguiu reproduzir em Estalactites de minha irmã Parquímetro meu Sybil.

Creio que o reconhecimento de um excepcional trabalho de tradução é a melhor recomendação que se possa fazer de um grande livro.

Publicado no suplemento Prosa & Verso, de O Globo, em 08.06.2013 sob o título Nabokov em ótima versão brasileira.

navio nas ondas (1)

SEGUNDA PARTE

E onde andava Enoch? prosperamente engajado

No barco “Boa Sorte”, que embora deitando velas

No rumo de Biscaia, sulcou ásperas ondas para o leste,

Abaulou, quase submergiu; contudo, indene,

Deslizou no longo mar das terras quentes

E após grande avaria nas imediações do Cabo

E frequ1entes alternâncias de bom e de mau tempo,

Passou mais uma vez pelo mundo dos trópicos;

E com a brisa do céu soprando de contínuo

Foi levado suavemente para as ilhas douradas

Até o silêncio de seu porto oriental.

Ali Enoch negociou por conta própria, adquiriu

Estranhos animais para os mercados da época,

E um lagarto dourado, também, para as crianças.

Menos auspiciosa a viagem de volta: no início de fato

Ao longo de uma bela circunavegação, dia após dia,

No fraco embalo, a figura da proa mantinha a cabeça

Acima da crista das ondas em todos seus corcovos:

Depois a calmaria, seguida de ventos variáveis,

Após desconcertantes, uma grande série deles; por fim,

A tempestade, a ponto de arrastar, sob céus sem lua,

O navio tão fortemente, que após se ouvir o grito “vagalhões”,

Veio o fragor do choque e a ruína, e a perda de todos

Naufr+ígio (2)

Exceto a de Enoch e de mais dois. Em meio à noite,

Boiando sobre destroços e partidas vergas,

Os náufragos foram dar de manhã à praia de uma ilha,

Rica, mas a mais solitária na solidão do mar.

N+íufragos (3)

(partitura)

Mas todo dia

o sol surgia em raios escarlates

entre palmeiras, juncos, precipícios:

— um clarão sobre as águas do levante;

— um clarão  sobre a ilha à sua frente;

— um clarão sobre as águas do oriente…

Vinha depois a noite em céu de estrelas;

o cavo uivo do mar; e novamente

o sol raiava – mas nenhuma vela.

Enoch s+¦ (4)

Às vezes, de vigia ou se tal fosse,

Silente, qual lagarto de ouro imóvel,

um fantasma gerado de fantasmas

vinha assombrá-lo, ou punha-se ele próprio

a assombrar gente, coisas e lugares

que o julgavam em negra ilha distante:

os filhos a falar, Annie, a casa,

a subida da rua, o moinho, as trilhas,

fícus podados de pavões, a igreja,

o barco que vendeu, as madrugadas

frias de novembro, orvalhados campos,

a chuva fina, o odor das folhas mortas

e o murmúrio do plúmbeo mar mugindo.

E de outra vez, tangendo em seus ouvidos

em som festivo — embora bem distante —

ouviu planger os sinos de seu porto;

sem saber a razão, estremeceu…

E quando a bela e malfadada ilha

voltou-lhe à mente, se seu coração

não tivesse falado com Aquele

que estando em toda a parte nunca vemos,

certo iria morrer de solidão.

Vela (5)

(declamação)

Viu Enoch, sobre a  precoce prata dos cabelos,

Ano após ano, chuvosas e ensolaradas estações

Se sucederem. As esperanças de rever os seus

E palmilhar de novo os sacros campos familiares,

Não perecera ainda, quando a sua solitária sina

Chegou abruptamente ao fim. Outro veleiro,

(Em busca de água) desviado por ventos imprevistos,

Como foi o “Boa Sorte”, de seu curso de destino,

Se acercou da ilha, sem noção de onde estava.

Quando o contramestre vislumbrou de madrugada,

Por um rasgo na névoa que envolvia a ilha,

A cascata silente que escorria das montanhas,

Mandou uma equipagem a terra que, ali precipitando

Em busca de um regato ou fonte, logo alvoroçou a praia

Com seus clamores. Descendo pela encosta da montanha

Lá vinha o solitário de longos cabelos e comprida barba,

Queimado, mal parecendo humano, calçado estranhamente,

Gaguejante e trôpego, com ares de idiota

E inarticulada fúria, fazendo-lhes sinais

Que não podiam compreender; mas mesmo assim levando-os

Para onde estavam os riachos de água doce;

E embora se misturasse aos tripulantes

E os ouvisse falar, sua língua há muito entorpecida

Se havia perdido, até que os fez compreender.

A ele trouxeram, com seus pipotes de água, para bordo;

Ali então a história que ele engrolou indistintamente,

A princípio pouco acreditada, mas que o foi sendo aos poucos,

Assombrou e comoveu quantos que ouviram.

Deram-lhe roupas e passagem livre para a terra.

Amiúde laborava em meio deles, conseguindo

Quebrar o isolamento. Nenhum dos tripulantes

Vinha de seu país, ou podia esclarecer

Suas perguntas, mormente aquelas que lhe interessavam.

E a viagem seguiu monótona e com grandes tardanças,

O barco sem condições de navegar; cada vez mais, contudo,

Sua imaginação corria à frente do indolente vento

Nesse retorno, até que sob uma lua encoberta pelas nuvens,

Ele, tal um amante no último resquício de suas forças,

Aspirou o hálito matinal das campinas orvalhadas

Da Inglaterra, soprado para além de sua espectral escarpa.

E naquela manhã oficiais e a marujada em peso

Penalizados com a sorte desse homem

Fizeram uma coleta e deram o recolhido a ele.

E manobrando ao longo da costa então deixaram-no

Naquele mesmo porto donde partiu um dia.

ENOCH SALVO 6

Ali Enoch não trocou palavra com ninguém,

Mas a caminho de casa… casa?… que casa?… teria uma casa?

De sua casa ele seguiu. Clara estava a tarde,

Ensolarada mas fria; então se embrenhou por outra ravina,

Em cujo fim em baixo um outro porto se encontrava

Imerso na névoa do mar que a tudo envolvia de cinzento.

Foi andando ao longo da estrada à sua frente,

Deixando à esquerda e à direita pequenos vestígios

De ressequidos bosques, de lavouras e pastagens.

Numa árvore desnuda um triste tordo piava

Desconsolado, e através da névoa umedecida

O peso morto de uma folha morta se abatia.

Quanto mais densa a névoa, mais fundo o desconsolo

Ia ficando, até que um pequeno clarão borrado pela bruma

Pareceu-lhe cintilar à sua frente. Chegara ao seu lugar.

Então, percorrendo a passo lento a longa rua,

O coração prenunciando só calamidade,

De olhos fitos nas pedras do chão, chegou à casa

Onde Annie vivia e o amava, a ele e aos seus filhos,

Que nasceram naqueles sete anos felizes e distantes;

Mas não achando ali nem luz nem um murmúrio

(Um anúncio de venda luzia através da névoa) arrastou-se

Mais para baixo pensando: “Mortos ou mortos para mim!”

Descendo mais chegou às águas do acanhado porto,

Buscando uma taberna que outrora  conhecia

Cujo frontão de madeira que era uma antigüidade,

Cheio de escoras, carcomido, ruinosamente velho,

Pensou que já se fora; porém quem tinha ido

Era o dono; e a viúva, Miriam Lane, mantinha

A casa com os minguados tostões de cada dia.

Refúgio de ruidosos marujos no passado, agora

Mais calmo, com quartos de aluguel aos forasteiros.

Enoch, silencioso, lá ficou por muitos dias.

ENOCH e Miriam 7

Mas Miriam Lane era alegre e tagarela,

Não o deixava falar, porém se intrometendo,

Contou-lhe, assim como outros anais do porto,

Sem saber — Enoch tão queimado, tão cabisbaixo,

Tão abatido — a história inteira de sua própria casa.

A morte do filho, a penúria crescente,

Como Philip levou os filhos dela para a escola

Ali mantendo-os, a longa corte que lhe fez,

A lenta aquiescência dela, o casório, o nascimento

Do filho de Philip: mas em seu semblante não passou

Nenhuma sombra, nenhuma contração: qualquer pessoa

Que o visse, pensaria que a narração lhe tocara menos

Que ao próprio narrador; só no fim quando ela disse:

“O pobre Enoch ficou perdido e abandonado”,

Ele, balançando pateticamente a cabeça grisalha,

Repetiu murmurando “perdido e abandonado”,

E de novo num suspiro mais fundo murmurou “perdido!”

Mas Enoch ansiava por ver-lhe novamente a face:

“Preciso ver de novo aquele rosto amado

Para saber se está feliz”. E de tal forma o pensamento

O exasperava e exauria, que o impeliu à colina,

Certa vez quando o dia triste de novembro

Num crepúsculo ainda mais triste se fazia.

Lá sentou-se a olhar tudo o que havia embaixo.

Mil lembranças voltaram-lhe à mente

Na tristeza indizível. Pouco a pouco,

O esquadro róseo de uma luz reconfortante,

Brilhando ao longe nos fundos da casa de Philip,

Fascinou-o, como a luz do farol fascina

A ave migradora, até que enlouquecida

Se choca contra ele, e põe um fim à fatigada vida.

A casa de Philip dava frente para a rua,

A última casa do terreno; atrás dela,

Com uma cancela que abria para um ermo,

Medrava um pequeno jardim quadrangular, murado,

E nele brotava um antigo pé de sempre-viva,

E mais um fícus, em torno do qual havia um corredor

De cascalho, que uma passagem dividia.

Mas Enoch evitou a passagem do meio e esgueirou-se

Ao comprido do muro, por trás do fícus, e dali — do lugar

Que melhor fora se tivesse evitado, se um sofrimento

Como este pode saber o que é melhor ou não — ele viu:

Copos e talheres na lustrosa mesa brilhavam

E luziam, tão acolhedor que era o lar.

E à direita da lareira viu

Philip, o desprezado pretendente de outros tempos,

Rosado e robusto, com seu filho ao colo;

E inclinada sobre seu segundo pai a moça,

Uma  Annie Lee porém mais nova e mais altiva,

Loura e bem alta, de cuja mão erguida

Pendia a extensão de uma fita e um anel

Para tentar a criança, que erguia os pregueados braços

Naquele pega e não pega, enquanto riam.

E à esquerda da lareira viu

A mãe a olhar insistentemente para o filho,

Mas vez por outra se voltando para falar com aquele

Que era também seu filho, que ao lado dela, esguio e forte,

Lhe dizia algo agradável, pois que riam.

ENOCH V+¬ a casa 8

Quando o morto que volta à vida viu

a esposa não mais sua esposa, e o filho

dela, não dele, entre os joelhos do pai,

tanto calor e paz, tanta ventura,

seus próprios filhos altos e bonitos,

e aquele outro, reinando em seu lugar,

tendo os direitos dele e o amor dos filhos,

então ele, a quem Miriam já contara

— pois ver é bem mais forte do que ouvir —

tremeu de medo e se agarrou ao galho

para não dar agudo e horrível grito,

que num momento, qual clarim do Juízo,

destroçaria a paz daquele lar.

Então, voltando qual ladrão furtivo,

silenciando o cascalho sob os pés,

tateando ao longo o muro do jardim,

temendo desmaiar, cair, ser visto,

chega ao portão, abre de leve e o fecha

como a porta do quarto de um doente,

atrás de si, e sai nas sombras do ermo.

E quis se ajoelhar, mas seus joelhos

fraquejaram, e então caiu de bruços

e os dedos enterrou no chão, pregando:

“Quem há-de suportar! por que fui salvo?

Ó Todo-poderoso Salvador,

que me amparastes na deserta ilha,

sustentai-me, meu Pai, na solidão

mais um pouco! valei-me, dai-me forças

de não dizer-lhe, nem deixar que o saiba.

Ajudai-me a manter aquela paz.

Também meus filhos! não falar com eles?

Não me conhecem. Eu me trairia.

Nunca: adeus beijo de pai… minha filha

tão semelhante à mãe… o outro meu filho”.

Então a voz e a mente se acalmaram

mantendo-o em transe, mas quando se ergueu

de volta à nova solidão de agora,

descendo veio a longa e estreita rua,

martelando no cérebro cansado

como o estribilho de uma cruel canção:

“Não lhe dizer, nem lhe deixar que o saiba”. Nunca!

(PIANO SOLO)

Não se sentia infeliz. Sua resolução

Fizera-o renascer, e a firme fé, e mais ainda

A prece que, de uma fonte viva em seu desejo,

Brotava, atravessando a amargura do mundo

Como torrentes de água doce sob o mar,

Mantinha-o vivo. “A mulher do moleiro”,

Disse ele a Miriam, “cuja história me contou,

Não teme que o primeiro marido dela esteja vivo?”

“Ai, ai, pobre coitada”, disse Miriam, “temeu muito!

Se você lhe pudesse dizer que o viu morto,

Isso lhe serviria de consolo”, e ele pensou:

“Quando Deus me chamar, há-de sabê-lo,

O porto 9

Vou esperar que me chame”, e Enoch pôs-se então,

Recusando caridade, a trabalhar por seu sustento.

Suas mãos sabiam fazer de tudo um pouco.

Carpinteiro, fazia barcos, e sabia igualmente

Tecer redes para os pescadores; ajudava a carregar

E descarregar os altos barcos empenhados

No restrito comércio que havia nesses tempos.

Assim ganhava o seu magro sustento,

Mas como só trabalhasse para si, labutava

Sem futuro; não havia no labor aquela vida

Pela qual um homem quer viver; e como o ano

Girou em torno de si mesmo até de novo o dia

Em que Enoch voltara, uma tristeza veio

Como uma enfermidade amena, gradualmente

Abatendo-o, até que ele não pôde mais agir

E ficava em casa, numa cadeira, e ao fim na cama.

Mas Enoch suportava sua fraqueza alegremente:

Decerto nenhum náufrago na praia

Vê com mais júbilo no abrir-se de uma névoa

O barco que lhe traz a esperança aproximar-se

Para salvar do desespero a vida, do que Enoch via

A morte vir ao seu encontro, e tudo ter um fim.

Pois nesse encontro luzia uma esperança cara

Quando Enoch pensava: “Talvez depois que eu for

Ela venha a saber que a amei até meu último dia”.

Chamou então em voz alta por Miriam e lhe disse:

“Dona, tenho um segredo… porém quero que jure,

Antes de lhe contar… que jure sobre a Bíblia

Não revelá-lo a ninguém antes que eu morto esteja”.

“Morto”, clamou a taberneira, “olha quem fala!

Eu lhe garanto, homem, que em breve está de pé.”

“Jure”, repetiu firme Enoch, “sobre a Bíblia”.

E sobre a Bíblia, meio assustada, ela jurou.

Enoch voltando-lhe então seus olhos cinza:

“Você conhece o Enoch Arden desta vila?”

“Conheço?!” disse ela, “eu o conheci há muito tempo.

Ah, lembro-me dele descendo pela rua,

Tendo a cabeça erguida, sem se importar com ninguém.”

Vagarosa e tristemente Enoch respondeu-lhe:

“A cabeça baixou e ninguém se importa com ele.

Penso não ter mais que três dias de vida;

Sou esse homem.” Diante do que a mulher lançou

Um grito meio incrédulo, meio histérico.

“Você, Enoch, você! não… ele era decerto

Mais alto que você.” Enoch retrucou-lhe:

“Deus me reduziu  a isto que hoje sou;

A dor e a solidão acabaram comigo;

Saiba contudo que eu sou bem aquele

Que se casou com… mas seu nome mudou…

Que me casei com quem se casou com Philip.

Sente-se e ouça.” Então lhe contou toda a viagem,

O naufrágio, a vida solitária, o seu retorno,

Como foi espreitar Annie, a decisão que tomou

E como a havia mantido. Enquanto a mulher ouvia,

Logo fácil correu-lhe a torrente do pranto

Enquanto no seio ansiava ardentemente

Sair lá fora e dizer a toda a gente do porto

Que Enoch estava vivo e contar seu infortúnio;

Mas respeitando a promessa a que se achava presa,

Disse apenas: “Veja ao menos os seus filhos antes de ir!

Deixe-me buscá-los, Enoch”, e levantou-se

Ansiosa por trazê-los.  Enoch se deteve

Um momento nessas palavras, mas por fim lhe disse:

 

(Partitura)

Enoch velho 10

“Não venha confundir meu pensamento,

Quero morrer com a minha decisão.

Sente-se aí de novo. Olhe-me e escute

enquanto tenho força ainda — incumbo-a

de, quando a vir, dizer-lhe que morri

abençoando-a, a rezar de amor por ela,

e que em minha desgraça muito amei-a

como no tempo em que estivemos juntos.

E diga à minha filha Annie, que vi

tão semelhante à mãe, que eu expirei

dando-lhe a bênção e a rezar por ela.

A meu filho que, ao morrer, o abençoei.

Diga a Philip também que eu o bendisse;

ele só fez o bem a todos nós.

Se meus filhos quiserem ver-me morto,

que em vida pouco viram, pois que  venham,

eu fui seu pai; Annie não deve vir,

Pois minha face a espantaria para sempre.

Agora só me resta um de meu sangue

e que há de me abraçar lá noutro mundo;

este cabelo é dele; ela cortou-o,

deu-me e o guardei por todos esses anos.

para o levar comigo para a cova.

Mas mudei de pensar, pois hei de vê-lo

em sua glória; assim, quando eu me for,

dêem-no a ela, ser-lhe-á de algum conforto;

além de lhe servir também de prova

de que sou eu.

(declamação)

Emudeceu; e Miriam Lane

Lhe pareceu tão hesitante prometendo

Que ele mais uma vez pousou-lhe os olhos

Repetindo-lhe as últimas vontades, e ela

De novo prometeu.

Então, na terceira noite depois disto,

Enquanto Enoch jazia entorpecido e pálido,

E Miriam a intervalos velava e dormitava,

Veio do mar um chamado em voz tão alta

Que todas as casas do porto despertaram.

Ele acordou, ergueu-se, abriu os braços amplos

Gritando a toda voz: “a vela! a vela!

Estou salvo”, e caiu sem nada mais dizer.

pausa

(partitura)

Finou-se assim a brava e heróica alma.

Quando foi seu enterro, raras vezes

o porto viu tão rico funeral.

Fim

Enoch livro 1

ADENDOS

Consta que a canadense Florence Nightingale Graham, inspirada no poema de Tennyson, adotou o nome de Elizabeth Arden como trade mark para seu império cosmetológico.

Nos Estados Unidos, a Lei Enoch Arden permite o divórcio ou a separação do casal de modo  que uma das partes possa voltar a casar-se se o cônjuge ausente  permanecer desaparecido após sete anos, quando poderá ser declarado legalmente morto.

Esta tradução do poema Enoch Arden está protegida pela lei dos direitos autorais. Para sua apresentação em público é necessária a autorização do tradutor e o pagamento de um fee.

Já relatei em parte a história do poema romântico Enoch Arden, de Lord Alfred Tennyson (1809-1892) no post de 07/09/2010 (vide aqui), mas não custa agora completá-la.

ENOCH 1 (Alfred-Tennyson)

ENOCH 2 (livro)

O poema foi escrito quando Tennyson era o Poeta Laureado da Inglaterra e foi publicado pela primeira vez em 1864. Trata-se de uma narrativa em versos, muito ao gosto da época, com grandes exemplos de firmeza de caráter, nobres propósitos e extrema abnegação. Não resumo a história aqui, pois espero que vocês venham a ler o poema na íntegra.

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     Richard Strauss                                        Ernst von Possart

Em 1896, o compositor alemão Richard Strauss (1864-1949), para ajudar seu amigo o ator e diretor de teatro Ernst Von Possart (1841-1921), que estava em dificuldades financeiras, criou um melodrama para piano e declamação com base na tradução alemã do poema de Tennyson, feita pelo poeta Adolf Strodtmann (1829-1879). Era o que hoje se chamaria de música incidental, com partes características assinalando a presença de cada personagem (leitmotiven), seguidas de longos trechos apenas declamados. O espetáculo, classificado musicalmente como o opus 38 da criação straussiana, obteve enorme sucesso e foi a principal fonte de renda da dupla durante um bom período.

Inúmeras foram as traduções que se seguiram, principalmente italianas, e várias adaptações para o cinema, desde a clássica de D. W.Griffith (1875-1948), de 1911, ainda em filme mudo.

final2

Modernamente várias duplas (declamador+pianista) gravaram em CD o espetáculo criado por Strauss, sendo as mais famosas Claude Rains e Glenn Gould e Michael York e John Bell Young.

enoch arden

Traduzido por mim por encomenda da Interart, de São Paulo, o melodrama foi representado por Fernanda Montenegro e Jean-Louis Steuerman em duas ocasiões: em 2001, nos concertos BankBoston, e em 2006, no projeto Care Brasil, ambas naquela capital.

RECIFE 8

Mais recentemente, a pianista Ana Lúcia Altino e o declamador Germano Haiut apresentaram o espetáculo no Teatro Eva Herz, de Recife, na significativa data de 12/12/2012.

Mas vamos ao poema:

ENOCH ARDEN – I

ENOCH 3 (mar)

   

ENOCH ARDEN — Lord Alfred Tennyson

 

Tradução de Ivo Barroso

primeira parte

Prelúdio – Piano solo

 

(declamação)

A longa linha dos penhascos ao quebrar-se deixa um claro

E nesse claro vê-se a espuma que se espraia sobre areias amarelas;

Além, telhas vermelhas avançam para o estreito cais

Como um cardume; logo, uma igreja derruída; mais acima

Comprida a rua alonga-se até um moinho acastelado;

Erguendo-se no alto céu por trás dele uma encosta escura

Onde há escombros daneses; e um bosque de avelãs,

Freqüentado no outono pelos apanhadores de nozes,

Floresce verdejante numa concavidade da colina.

 

(pausa – piano solo)

Ali naquela praia há centenas de anos,

Três crianças de três famílias,

 

(partitura)

                                                Annie Lee,

a mais bela garotinha do porto

Phillip Ray, filho único do moleiro,

e Enoch Arden, cujo pai, marinheiro,

o deixou órfão num naufrágio,  brincam

em meio à escória e os gravetos da praia.

 

ENOCH 4 (os três)

(declamação}

Embaixo do rochedo havia uma caverna estreita:

Nela as crianças brincavam de casinha.

Um dia Enoch era o dono, no dia seguinte Philip,

Enquanto Annie era sempre a dona; vez por outra

Enoch tomava posse por uma semana inteira:

“Esta casa é minha e de minha mulherzinha.”

“Minha também”, dizia Philip, em todas essas vezes.

Se acaso brigavam, Enoch mais robusto

É quem vencia; então Philip, com seus olhos azuis,

Afogado no impotente enfurecer das lágrimas,

Gritava: “ Eu te odeio, Enoch”.

 

 (partitura)

                                    Annie então

chorava por faltar-lhe companhia,

que não fossem brigar por sua causa

pois seria a mulher de todos dois.            

 

(piano solo)

(declamação)

Mas quando se esvaiu a rósea aurora da infância,

E o novo ardor do ascendente sol da vida foi

(partitura)

 

por ambos sentido, ambos se apaixonaram

pela moça. 

 

(declamação)

Enoch declarou-lhe amor,

Enquanto Philip amava em silêncio; mas a moça

Parecia gostar mais de Philip que dele;

No entanto amava Enoch, embora o não soubesse,

E se lhe perguntassem negaria. Enoch firmou

Consigo mesmo um propósito de vida

Que era o de poupar o quanto que pudesse

Para comprar seu barco, e construir um lar

Para Annie; e de tal forma prosperou que enfim,

Nenhum mais feliz nem audaz pescador,

Mais cauteloso no perigo, mourejou

Pelas longas léguas daquela costa vergastada

Do que Enoch.

E quando completou seus vinte-e-um janeiros

Comprou seu próprio barco, e construiu um lar

Para Annie, simples como um ninho, a meio da subida

Da estreita ruela que galgava em direção do moinho.

 

(entra piano – quatro compassos)

(partitura)             

Então, na tarde de um dourado outono,

festejando o feriado, os jovens foram

com sacas, cestas, grandes e pequenas,

colher as avelãs. Phillip ficou

(para cuidar do pai que estava doente)

uma hora para trás; subindo a encosta,

lá onde o íngreme bosque começava

a afundar na planura, viu os dois,

 

Annie e Enoch, sentados de mãos dadas,

os grandes olhos dela e a face dele

ardendo com a sagrada e quieta flama,

que brilha num altar. Philip olhou,

e nos olhos e faces leu seu fim;

e quando as faces se encontraram, e ai!

deitaram juntas, qual ferida fera

ele embrenhou no coração do bosque;

e, enquanto os outros davam-se aos folguedos,

teve sua hora amarga; ergueu-se e foi,

levando infinda angústia no seu peito.

 

(declamação)

Então enfim se casaram, felizes os sinos tangeram

E felizes os anos passaram, sete anos bem felizes,

Sete felizes anos de saúde e de abastança,

De sentimento mútuo e de labor honrado,

Com filhos; primeiro uma menina. E despertou-se nele,

Com o primeiro gemido do primeiro filho, o nobre anseio

De guardar até a mínima parcela de seus ganhos

Para dar à criança uma formação mais adequada

Do que a sua, ou a dela; desejo renovado

Quando dois anos depois um menino chegou,

O ídolo rosado das solidões da esposa,

Quando Enoch navegava em mares tormentosos

Ou quando retornava para terra.

 

 Então algo mudou, como as coisas humanas todas mudam.

Dez milhas ao norte daquele estreito porto

Abriu-se um novo ancoradouro; a ele às vezes

Enoch costumava ir por mar ou pela terra;

E uma vez, lá estando, ao escalar um mastro

Na enseada, por desgraça despencou por terra;

Tinha partido um membro quando o levantaram;

E enquanto esteve um tempo a recompor-se, a esposa

Lhe deu um outro filho, que nasceu doente:

Outra mão teve que ampará-lo em seu ofício

Para ganhar o pão, o dela e das crianças; e sobre ele,

Embora homem de fé, temente a Deus,

Porque se achava inválido, a dúvida tombou.

Parecia-lhe,  num pesadelo de alta noite,

Ver os filhos caminhando doravante

Para uma vida miserável, de penúria,

Com a mãe, a quem amava, a mendigar: então rezou

“Que se salvem, não importa o que me ocorra”.

E enquanto assim rezava, o capitão do barco

Em que Enoch serviu, conhecendo-lhe o infortúnio,

Veio, pois sabia que homem era e o seu valor,

Dizer-lhe que aprestava um navio para a China,

E que ainda não tinha imediato. Quem sabe ele viria?

Muitas semanas ainda faltavam para o embarque,

Para fazerem vela. Enoch aceitaria?

E Enoch sem titubear aquiesceu,

Jubiloso por ver sua prece atendida. 

 

Agora então a sombra do infortúnio já não parecia

Mais grave do que quando uma pequena nuvem

Se interfere no glorioso caminhar do Sol,

E se torna uma ilha no mar largo: contudo a esposa…

Se ele zarpar…as crianças… que fazer?

Então Enoch quedou-se longamente a ponderar seus planos;

Vender o barco… mas, se o amava tanto!…

Quantos mares bravios enfrentou em seu bojo!

Conhecia-o bem, como um cavaleiro conhece seu cavalo…

Mas devia vendê-lo… e com o dinheiro da venda

Comprar comida e roupa … mandar Annie vender de tudo

Quanto os marinheiros e as esposas lhes quisessem comprar…

Poderia assim manter a casa em sua ausência.

 

Dessa forma Enoch no coração dispôs de tudo:

Mas voltando a casa foi encontrar Annie pálida,

Ninando o filho doente, seu último rebento.

De um salto o recebeu com um grito de alegria

E depôs o frágil infante nos seus braços;

Enoch tomou-o, apalpou-lhe os pobres membros,

Aquilatou-lhe o peso e o tratou paternalmente,

Mas não teve coragem de revelar seus propósitos

A Annie, senão pela manhã, quando lhe disse.

 

Pela primeira vez desde que o anel de ouro de Enoch

Cingiu-lhe o dedo, Annie contrariou sua vontade:

Não com uma oposição alvoroçada,

Mas com reiteradas súplicas, muita lágrima,

Muitos beijos amargos dia e noite renovados

(Certo que alguma desgraça adviria disso)

Implorou-lhe, suplicante, caso se preocupasse

Com ela ou com seus filhos, que não fosse.

Ele sem se preocupar consigo mas com ela,

Ela e os filhinhos, deixou-a ali rogando em vão;

E contristado levou a cabo a decisão.

 DESPEDIDA 11

 

Enoch enfrentou a manhã da despedida

Com bravura e brio. Todos os temores de sua Annie,

Exceto a sua própria Annie, eram sorrisos para ele.

Contudo Enoch como homem bom temente a Deus

Se prosternou, e naquele mistério

Em que o Deus-no-homem é o mesmo que o homem-em-Deus,

Rogou por uma graça para a mulher e os filhos,

Acontecesse o que lhe acontecesse; então falou: “Annie, esta viagem pela graça de Deus

Há-de nos trazer bonança para todos.

Vamos Annie, vamos, anima-te com a partida.”

                                   Mas quando dirigiu

A corrente de sua fala para coisas mais sérias

À maneira dos marinheiros rudemente sermonando

Sobre a providência divina e a fé em Deus, ela ouviu,

Ouviu e não ouviu; como a jovem da aldeia,

Que depõe o cântaro sob o jorro da fonte

Sonhando com aquele que o enchia por ela,

Ouve e não ouve, e o deixa derramar.

 

Com pouco ela falou:

 

(partitura)

                                   “Ó Enoch, és sensato,

mas sinto que, apesar da sensatez,

a tua face nunca mais verei.”

 

(declamação)

“Pois bem”, disse-lhe Enoch, “verei a tua.

Annie, o navio em que velejo há-de passar aqui

(disse-lhe o dia); arranja uma luneta,       

foca na minha face que eu rirei de teus temores.”

 

Mas chegado o último dos últimos momentos:

“Annie, querida, anima-te, fica conformada,

Cuida das crianças, e até a minha volta,

Mantém tudo em boa ordem, pois eu tenho que ir.

E não temas por mim, ou se temeres

Confia a Deus os teus cuidados; é a âncora segura.

Não está Ele além nas mais longínquas

Partes da manhã? se eu fugir para elas

Eu O estarei deixando? o mar é d’Ele, 

É d’Ele. Foi Ele quem o fez.”

 Enoch ergueu-se,

Lançou os fortes braços em redor da esmorecida esposa,

E beijou as espantadas criancinhas;

Mas quanto ao terceiro, o doentinho, que dormia

Depois de uma noite de febril vigília,

Quando Annie ia acordá-lo, Enoch disse

“Não o levantes, deixa-o dormir; como esse pobre

Iria depois lembrar-se disto?” e no berço beijou-o.

Mas Annie cortou da testa da criança

Um pequenino cacho, e deu-lhe: que ele guardaria

Por todo o seu futuro, mas que agora na pressa

Botou na trouxa, acenou-lhes com a mão e foi-se embora.

(PIANO SOLO)

(partitura)

ENOCH luneta

No dia mencionado por Enoch

arranjou a luneta mas em vão

talvez por não sabê-la manejar,

talvez seu olho úmido, a mão trêmula,

mas não o viu, e enquanto ele acenava

no deque, o barco… o momento passou.

 

O último topo da distante vela

sumiu-se ao longe, e ela chorou por ele.

 

(declamação)

Após um longo espaço — embora ela estivesse atenta —

Como o pássaro cativo que escapa de repente.

A alminha do inocente adejou para o além.

(PIANO SOLO)

Na mesma semana em que Annie o enterrara,

O nobre coração de Philip, que ansiava pela paz da moça

(Desde a partida de Enoch que nunca mais a vira),

Reprovou-o por estar tanto tempo afastado.

“É verdade”, disse Philip, “devo agora visitá-la,

Talvez lhe dê algum conforto”; e assim foi,

Chegou defronte à solitária casa,

Duas vezes bateu, e, como não abrissem,

Entrou; mas Annie, ainda imersa em seu pesar,

Mal refeita do enterro do menino,

Não se dispunha olhar nenhuma face humana,

Mas voltou contra a parede a sua própria, e soluçou.

Então Philip, ali de pé, começou hesitante:

“ Annie, vim te pedir um favor,

Vim te falar sobre coisas que ele próprio queria,

Ele, Enoch, seu marido;

Eu te suplico pelo amor que tu dedicas

A ele e a seus filhos, que não me digas não…

Pois, se aceitares, quando Enoch regressar

Aí então pode pagar-me… se aceitares, Annie,

Pois sou rico e vivo na prosperidade.

Então deixa-me pôr os meninos na escola:

Este é o favor que aqui te vim pedir.”

 

Então Annie, tendo a fronte apoiada na parede,

Respondeu: “Não te posso olhar de frente;

Sinto-me tão tola e tão acabrunhada.

Quando entraste minha dor me acabrunhava 

Agora foi que tua bondade que me acabrunhou.

Mas Enoch está vivo; sinto isto dentro de mim:

Ele irá pagar-te: dinheiro sempre se pode pagar,

Mas não uma bondade como a tua”.

 

                              E Philip perguntou:

“Então, vais me deixar que o faça?”

 

Philip pôs as crianças na escola,

Comprou os livros, e, em todos os sentidos,

Agiu como quem cumpre o seu dever consigo mesmo,

Fazendo-o pelos outros.

Correndo vinham desde longe pela rua

Para alegres responder à sua alegre saudação;

Eram os senhores de sua casa e do moinho;

Atormentavam-lhe o paciente ouvido com suas queixas

Ou alegrias, agarravam-se a ele, com ele brincavam

E o chamavam Pai Philip. Philip ganhava à proporção

Que Enoch perdia; pois Enoch lhes parecia agora

Distante e incerto como uma visão ou um sonho,

Vago como um vulto visto ao despertar do dia

No mais remoto fim da última avenida,

Indo para não se sabe onde.

 

(partitura)

                                               Então dez anos

se passaram desde que deixou Enoch

o lar e o chão natal, sem dar notícias.

(piano solo)

 

(declamação)

Aconteceu um dia que as crianças desejaram

Ir com as outras colher as avelãs do bosque;

Annie iria com elas; então foram pedir

Ao pai Philip (como o chamavam) que também viesse.

Foram achá-lo, qual abelha-operária no pólen de uma flor,

No moinho, coberto de farinha; e ali ao lhe pedirem

“Pai Philip, venha conosco” ele negou;

Mas quando as crianças insistiram para que viesse,

Ele sorriu e aquiesceu bem rápido ao pedido:

Pois Annie não virá também? — e lá se foram.

 

 

Mas a meio escalar da íngreme colina,

Logo ali onde a orla do bosque começava

A pender para o côncavo, Annie sentiu as forças

Lhe falharem; ofegante pediu: “Queria descansar”.

 

Mas Philip sentando-se a seu lado esqueceu

Sua presença e se lembrou daquela hora amarga

Que um dia passou naquele bosque, um animal ferido

Rastejando nas sombras. Por fim falou,

Erguendo o nobre cenho: “Olha só, Annie,

Como estão alegres as crianças no bosque.

Exausta, Annie?”

 

(partitura)

Ela nada falou.

“Exausta?”

 

mas o rosto caíra-lhe

nas mãos.

(piano solo)

 

(declamação)

Então Philip aproximando-se um pouco mais lhe disse:

“ Annie, tenho algo que guardo na cabeça

E há tanto tempo que trago isso na mente,

Que embora não saiba como começou

Sei que por fim vai acabar agora. Ó Annie,

Está além da esperança, acima de qualquer possibilidade

Que esse alguém que a deixou nesses dez longos anos

Ainda esteja vivo; pois então… deixa-me falar…

Sofro por ver-te tão pobre a precisar de ajuda;

Não posso ajudar-te da maneira que eu queria

A menos que… dizem que as mulheres são argutas…

Talvez já saibas o que eu queria que soubesses…

Quero casar contigo.

 

Então Annie falou, ternamente respondendo:

“Tens sido como um anjo bom de Deus em nossa casa,

Deus te abençoe por isso, que Deus te recompense,

Philip, com alguém que seja mais alegre do que eu.

Podemos viver duas vezes? poderás ser amado

Como Enoch o foi? O que me estás pedindo?”

“Ficarei contente”, respondeu, “em ser amado

Um pouco depois dele.” “Ó”, exclamou ela

Assustada como estava, “caro Philip, espera um pouco.

Se Enoch voltar… mas ele não vai voltar…

Porém espera um ano, um ano passa rápido:

Sem dúvida estarei mais segura em um ano.

Ó espera um pouco”. Philip disse tristemente:

“Annie, já que esperei a minha vida inteira

Posso esperar mais um pouco.” “Não”, exclamou,

“Eu me comprometo, te dou minha palavra… em um ano.

Não podes esperar teu momento como esperei o meu?”

E Philip respondeu: “ Vou esperar um ano.”

 

ENOCH Phillip

E como se fosse num momento,

Aquele outono noutro outono outra vez reluziu,

E lá estava ele de novo à sua frente,

Cobrando-lhe a promessa. “Já tem um ano?”, ela indaga.

“Acho que sim! As amêndoas de novo estão maduras.

Vem aqui para ver”. Mas ela o descartou:

Tinha tanto que fazer… Tal mudança…Um mês

Lhe desse mais um mês… sabia que fizera uma promessa…

Mais um mês… só um. Então Philip com os olhos cheios

Daquele anseio de uma vida inteira, e com a voz

Tremendo um pouco como a mão de um bêbedo,

“O tempo que quiseres, Annie, o tempo que quiseres”.

 

A essa altura, as manhosas intrigas do porto,

Inconformadas com a prudência obstrutiva,

Começaram a irromper qual se tivessem fundamento.

Alguns achavam que Philip se aproveitava dela;

Outros, que ela resistia para melhor atraí-lo;

Outros zombavam de Annie e  Philip igualmente,

Que eram gente simplória que não sabe o que faz;

E um, que reunia em si todas as maldosas cismas

Como ovos de serpente no ninho, escarnecendo

Via em cada um deles o pior. Seu próprio filho

Em silêncio ficava, deixando transparecer às vezes;

Mas a filha cada vez mais insistia com ela 

Para que se casasse com aquele a quem todos queriam

Salvando assim a casa da pobreza extrema.

A rosada face de Philip, agora contraída, se tornava

Preocupada e pálida; e tudo isto sobre Annie recaía

Como censura aguda.

 

Por fim, numa noite aconteceu

Que Annie, sem conseguir dormir, rogava veemente

Por um sinal de Enoch: “ Será que ele morreu?”

Então rodeada pelo cego paredão da noite

Não suportou o expectante terror do coração,

Saltou da cama, correu para acender um lume

E desesperada agarrou a santa Bíblia,

Abrindo-a de par em par em busca de um sinal.

De repente botou o dedo sobre um texto 

“Sob a palmeira”. Isto nada lhe dizia;

Não fazia sentido: fechou o livro e foi dormir.

 

(partitura)

Mas ei-lo,  ali sentado numa encosta

sob a palmeira tendo ao alto o sol:

“Lá se foi”, pensa, “está feliz e canta

hosana nas alturas; além brilha

o Sol da Retidão, e são as palmas

que os eleitos espalham proclamando

“Hosana nas alturas!” Ela acorda

e resoluta o chama e diz-lhe abrupta: “Não há razão para não nos casarmos”.

“Pois pelo amor de Deus,” diz ele, “e de ambos,

Se nos vamos casar que seja agora.”

(PIANO SOLO)

E se casaram, repicaram sinos,

alegres sinos quando se casaram.

Mas nunca o coração bateu-lhe alegre:

Um passo a perseguia no caminho,

mas de onde vinha? uma voz no ouvido,

mas a de quem? não ficava sozinha

em casa nem queria andar sozinha.

O que a afligia, pois, se quando entrava

sua mão hesitante na tramela

temia abrir?

                         Philip julgou saber:

são dúvidas comuns ao seu estado,

espera um filho; e ao lhe nascer o filho,

foi como se ela própria renovasse,

novo instinto de mãe pulsou-lhe o peito.

Philip tornou-se tudo para ela

E o instinto misterioso se esvaiu.

(PIANO SOLO – FIM DA 1ª PARTE)

A SEGUNDA PARTE SERÁ APRESENTADA

NA PRÓXIMA SEMANA. NÃO PERCAM.

tabuada (1)menino burro

Sempre fui péssimo aluno de matemática. Na escola pública, embatucava na tabuada de sete e até hoje fico meio em dúvida nas multiplicações desse número. Nos concursos que fiz em busca de emprego ou profissão sempre tirava boa nota em português e me afundava nos cálculos. A palavra Álgebra, com sua origem árabe, tinha para mim conotações de alfanje, deserto, simum, camelos e miragens, e a busca de uma incógnita me parecia peripécia das Mil e Uma Noites. A invenção da máquina calculadora foi como uma vingança, uma alforria, uma desforra da minha incapacidade aritmética. Fiquei livre da tabuada, nunca mais fiz cálculos mentais, contando nos dedos.

Mas houve um momento em que abençoei a ciência dos números. Foi quando, ainda muito moço, descobri o livro O Homem que Calculava, de Malba Tahan.

O homem que calculva 3

O autor do livro (com este pseudônimo) encontra em suas andanças pelo Oriente um peregrino parado à beira de uma estrada. Ao cumprimentá-lo, conforme as regras de cortesia daqueles povos, ouve o desconhecido pronunciar um número fabuloso: “Dois milhões, trezentos e vinte um mil, oitocentos e sessenta e seis”. Sua curiosidade é satisfeita quando o desconhecido informa chamar-se Beremís Samir e estar acostumado, desde a infância, a calcular visualmente, digamos, um bando de pássaros ou o número de ramos de uma árvore. Admirado de tais habilidades, o viajante decide arranjar um posto de trabalho adequado para o calculista na grande cidade para onde vai. E o solícito Malba Tahan o transporta para Bagdá na garupa de seu próprio camelo, já que o andarilho não tinha montaria.

O HOMEM q calculava 4

Eis que a meio caminho encontram três irmãos em acirrada disputa. O pai lhes deixara 35 camelos para serem por eles divididos nas seguintes proporções: o filho mais velho devia receber a metade (ou seja 35/2), o irmão do meio a terça parte (isto é 35/3) e o caçula a nona parte (35/9). A divisão era impossível, pois daria 17 camelos e meio (17,5) para o primeiro, 11 camelos e 66 décimos para o segundo e 3 camelos e 88 décimos de camelo para o terceiro. Nenhuma outra divisão satisfazia o desejo dos jovens pois sempre estava em desacordo com o estabelecido pelo pai. É aí que entra a mágica do Homem que Calculava: Beremis pede ao seu protetor o camelo emprestado, assegurando-lhe que sabe o que está fazendo. Em seguida agrega esse camelo aos 35 outros da herança e diz ao mais velho: “Devias receber a metade de 35, isto é, 17 e meio. Agora receberás a metade de 36, e portanto, 18. Nada tens a reclamar, pois é claro que saíste lucrando com a divisão, que além disso atende perfeitamente os desígnios de seu pai. Tu, irmão do meio, devias receber um terço de 35, isto é, 11 e pouco. Vais receber um terço de 36, ou seja, 12. Não podes protestar pois também sais com visível lucro da transação. E por fim, ó caçula, segundo a vontade de teu pai devias receber uma nona parte de 35, isto é, 3 e tanto. Vais receber uma nona parte de 36, ou seja, 4. O teu lucro foi igualmente notável. Só tens a agradecer-me pelo resultado”.

 camelos

ANTES                                                                               DEPOIS

35/2 = 17,5                                                                         36/2 = 18

35/3 = 11,6                                                                          36/3 = 12

35/9 = 3,8                                                                            36/9 = 4

                               36-34=2 (camelos restantes)

Nota-se que, tendo feito a divisão segundo a vontade do falecido pai dos jovens, Beremis os beneficiou com partes supletivas a fim de conseguir um número inteiro. Dos 36 iniciais, acabou distribuindo 34 camelos (18+12+4) e sobraram dois (36-34), um dos quais foi devolvido ao seu protetor por ser o animal em que tinham viajando, cabendo-lhe (como recompensa) o camelo que restou. E o calculista termina dizendo: “Poderás agora, meu amigo, continuar a viagem no teu camelo manso e seguro! Tenho já um outro, especialmente para mim!”

Malbaimages

Malba Tahan foi o pseudônimo escolhido pelo matemático e professor brasileiro Júlio César de Mello e Souza (1895-1974) para divulgar de maneira divertida e curiosa alguns famosos problemas de matemática. Em suas aulas na Escola Normal conseguia cativar os alunos ensinando as intrincadas fórmulas matemáticas e algébricas mediante jogos e passatempos capazes de tornar atraentes as arestas difíceis daquelas matérias. Escreveu mais de 100 obras sobre lendas árabes ou maneiras de descomplicar a matemática, entre elas “Amor de beduíno” e “O homem que calculava” , livro este que recomendo a todos os que amam as ciências numéricas e principalmente àqueles que, como eu, tinham verdadeira ojeriza por cálculos matemáticos, teoremas e equações.

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