Feeds:
Posts
Comentários

Demian alemãoDemian alemão 001

     A primeira edição de “Demian” saiu em 1965 pela Civilização Brasileira. O livro obteve imediata aceitação e logo se esgotaria, permitindo à editora lançar novas edições nos anos sucessivos. Nesse ano em que saiu, o livro foi objeto de sensível análise feita pelo jornalista Carlos Menezes, que editava, à época, uma coluna em O Globo denominada Feira de Livros. O articulista – o que era raro nessa altura – além de comentar a tradução, não deixou de mencionar o nome do tradutor.

DEMIAN, UMA HISTÓRIA BELA E INESQUECÍVEL

     Foi assim: vários livros haviam-me sido entregues naquele dia. Ensaios, política, religião, poesia, ficção científica e um romance de Hermann Hesse. A jornada de trabalho fora penosa — como de rotina — e eu precisava de algo que me repousasse o espírito. Abri o livro de Hesse, “Demian”, do qual já  ouvira referências, passei por cima da nota do tradutor (que li depois, e vale ser lida) e mergulhei na magia do insigne escritor: “A vida de todo ser humano é um caminho em direção de si mesmo, o seguir de um simples rastro”.

     Deixei-me levar, totalmente entregue pela narrativa de Sinclair; suas angústias, seus temores infantis, suas noções distorcidas de crime, pecado, punição  e perdão; seu encontro maravilhoso com Demian; seus desencontros com Demian e consigo próprio; seus encontros com Beatrice (a doce e benfazeja miragem em forma de mulher) e com Pis­tórius, o sábio organista que o evangeliza nas doutrinas de Abraxas (deus e demônio); seus sonhos cheios de luz, de  ternura, de misticismo, de dualidade; seus reencontros com Demian e o conhecimento de Eva, como ele, portadora do indelével sinal de Caim.

     A noite transcorrera, para mim, como num dos maravilhosos sonhos de Sinclair, e a manhã já era menina  nova quando meus olhos, nem um pouco fatigados da longa mas deliciosa viagem noturna  por mundos de místicas magias, leram  o período final: “Tudo o que depois me aconteceu causou-me mal. Mas quando  vez por  outra encontro a chave e desço em mim mesmo, ali onde, no sombrio espelho, dormem as imagens do destino, basta-me inclinar sobre a negra superfície  acerada para ver em mim a minha própria imagem, semelhante já em tudo a ele, o meu guia e meu amigo”.

     Assim é  Demian, um livro belíssimo e inesquecível, obra capital do expressionismo alemão. Romance de uma geração — a do primeiro  pós-guerra — Demian conserva  a  mesma  indomável força, o mesmo e inarredável valor, atualíssimo, para esta geração jovem, que enfrenta um segundo após guerra (embora distante, mas de efeitos duradouros) e um ante guerra dilacerante, no qual os valores espirituais como que se pulverizam pelas emanações dos experimentos bélicos  atômicos, mergulhando todos e tudo  num  vórtice de  materialismo alucinante e desenfreado.

     DEMIAN, ainda hoje (foi escrito em 1919), é um livro do dia.  Que seja  lido pelos  adultos, mas principalmente pelos jovens. Nele, em Demian, encontraremos, e encontrarão,  algo de irreal mesclado de real, um pouco difuso, mas às vezes de uma clareza de sol a pino, agora  um  pouco   soturno  e  já gloriosamente jubiloso, numa sucessão saborosa  e inebriante de vida  e­ de morte; de amor e de abstinência; de luz e de sombras; de tormento e de paz, uma paz permanente, anestesiante, com a doçura da morte que é refrigério e sal­vação.

     DEMIAN é lançamento da Civilização Brasileira, em tradução esplêndida de  Ivo  Barroso,  que antecede a história de Hermann Hesse com um rápido mas ilustrativo estudo crítico da obra do eminente escritor expressionista.  Na “orelha”, Oto Maria Carpeaux dá sucinta aula sobre Hesse, sobre  Demian e sobre expressionismo. Assim, Demian é um livro completo, belo, inesquecível.

Carlos Menezes (Feira de Livros – O Globo – 16 de novembro de 1965)

     Mas, na maior parte dos casos, os comentaristas chegam a citar frases inteiras da tradução em seu artigo, sem sequer mencionar que se trata de uma tradução, como se aquelas palavras em português fossem as do próprio autor. Eu me agastava com isso, e cheguei a enviar ao Jornal do Brasil  uma nota a respeito, que acabou saindo na íntegra:

Hermann Hesse

     “Na matérIa sobre Hermann Hesse, recentemente  inserida no Caderno B, fala-se no au­tor mais lido no Brasil nestes últimos tempos, mas nenhuma referência é feita àqueles que, mal remunerados e laboriosa­mente, puseram a obra de Hesse ao alcance do leitor brasi­leiro.

     Além, da omissão – injusti­ficável em qualquer outro pais, mas comum entre nós, onde a atividade de tradutor, ainda que de alto gabarito, é siste­maticamente ignorada – o autor do texto usou, sob a for­ma de paráfrase, sinonímia ou mesmo transcrição literal, um pequeno estudo que acompa­nha minha tradução do Demian. Não quero me arvorar em dono do Hesse pelo sim­ples fato de haver traduzido dois de seus livros fundamentais (o outro foi O Lobo da Es­tepe), mas  parece-me questão de honestidade (para não solenizar a coisa, em prin­cípio ético) citar a fonte que nos permite, além da mera in­formação, esboçar uma opiníão crítica, e mesmo, como é o caso, abalançar afirmativas que são fruto de leitura, conhecímento e estudo da obra de um escritor. Dá uma certa frustração ver tudo isso transfor­mado depois numa notícia anônima e casual, como se as ideias ali expostas não passas­sem de meras notas biográfi­cas ao alcance de qualquer consulente que se dê ao trabalho de folhear uma encíclopédía. Assim como tive o cuidado, naquele estudo, de dizer que os dados biográficos de Hesse foram extraídos do li­vro de Hugo Bell, o Caderno B poderia, en passant, dizer em que se baseou para defen­der alguns conceitos que eu, até então, julgava meus.

Ivo Barroso – Rio.”

     Não era a primeira vez que reclamava dos jornais a omissão do tradutor nas resenhas de livros. De outra feita, mandei a um deles a seguinte nota:

A SITUAÇÀO DO TRADUTOR

     Há alguns anos, quando ainda morava no exterior, vi numa revista brasileira de grande circulação uma resenha literária sobre o Martin Fierro, de José Hernández, que acabara de sair em excelente tradução de Augusto Meyer. O resenhador deitava falação sobre o personagem e o autor, citava abundantemente os versos em português, falava da beleza das imagens — mas não dizia uma única palavra sobre a tradução ou o tradutor, cujo nome sequer aparecia no alto da página, com outros informes sobre a edição. Eu que morava num país onde se davam créditos até para as legendas dos filmes da televisão, escrevi uma carta à revista, reclamando contra tamanha negligência. “Não se esqueçam”, dizia-lhes, “que quando o resenhador fala na ‘beleza destes versos’ e os cita em português, o que está citando já não é Hernández mas Augusto Meyer, que conseguiu fazer com que eles ficassem igualmente belos em português”.  A revista naturalmente não deu importância à minha carta importuna: tradutores, entre nós, com raríssimas exceções, ainda não tinham seu lugar ao sol.

                                                                     ***

     É bem verdade que a história mudou (um pouco): hoje o nome do tradutor aparece devidamente no colofon do livro junto com o título original, o nome da editora e o ano da publicação. Alguns leitores já se preocupam, ao comprar um livro traduzido, em saber o nome de quem o traduziu. Alguns tradutores são até mesmo conhecidos do público e pesam na escolha de uma edição.

grüner-baum2

MEA CULPA!

     Eu já havia traduzido dois os três livros sem importância antes de me aventurar na transposição do Demian. A edição que eu tinha, feita em 1930 por Luís López Ballesteros y Torres (conhecido tradutor espanhol de Freud e vários outros autores importantes) fora lida por mim tantas vezes que eu já a sabia quase de cor. Minha tradução de 1995 foi feita totalmente por ela, pois só vim a conhecer o original alemão muito depois (“Hermann Hesse – Demian – Die Geschichte Von Emil Sinclairs Jugend”, da Suhrkamp taschenbuch), quando então fiz o cotejo de palavra por palavra, emendando muita coisa. Tradutor bisonho, eu às vezes pensava estar “melhorando” as frases, quando as alongava para as tornar mais sonoras. O mesmo fazia o tradutor espanhol que, diante de um simples “Ja” (sim) do original, às vezes me vinha com um “Por supuesto que sí”, que, estou certo, lhe parecia mais natural em sua língua. Esses exageros, em sua maior parte, foram corrigidos quando da revisão, mas há dois momentos que persistiram sobre os quais quero hoje, diante dos leitores, fazer o “mea culpa!”

     Ambos ocorrem no primeiro capítulo: Sinclair conhece o fanfarrão Franz Kromer, garoto mais velho e mandão, diante do qual, para não bancar o fraco, admite ter roubado maçãs de um pomar vizinho. Kromer aproveita a confissão para chantagear o pobre do menino, dizendo-lhe que irá denunciá-lo ao dono do pomar, pois este teria prometido dois marcos a quem apontasse o culpado. É quando lhe pergunta se ele sabe de quem é o pomar. E Sinclair responde: “Não, não sei… Acho que é do Müller” . Claro que Sinclair disse, em alemão,  achar que o  dono do pomar era o moleiro (Müller). Mas eu (e bem assim o tradutor espanhol) repudiamos o moleiro, palavra horrível, provavelmente desconhecida para o leitor brasileiro… e lá tacamos o Müller, como se a palavra fosse nome próprio e não o substantivo comum que, em alemão, se escreve sempre com letra maiúscula (Numa das últimas revisões, sugeri fosse trocado o “Müller” por “o dono do moinho”, ficando assim fiel ao original mas fugindo ao mesmo tempo do abominável moleiro).

     A outra é mais engraçada: Sinclair, chantageado, não sabe o que fazer e, sob tensão emocional, acaba por cair de cama depois de ter vomitado. A falsa enfermidade lhe permite fugir ao compromisso com Kromer e ele banca o doentinho recebendo as atenções da mãe que lhe prepara um “Kamillentee” (chá de camomila, no original). Fiquei desolado. Na minha terra, chá de camomila era medicação exclusiva de parturientes em resguardo! Para mim era inconcebível que o meu herói Sinclair tomasse um chá de camomila. Então (– pasmem! como hoje eu também!) resolvi transformar o Kamillentee em suco de frutas! Salvei a honra de Sinclair mas cometi um erro de tradução, uma deformação do texto, que jamais hoje o faria, pois agora tenho a convicção de que o tradutor não pode e não deve alterar o texto do autor.

     Pagando os pecados: muitos e muitos anos depois, na década de ’80, passei umas férias em Badgastein, na Áustria, no Hotel Grüner Baum, uma maravilhosa estação de esqui que funciona igualmente no verão graças à beleza do vale alpino em que está localizada. Pois todos os dias, por falta de opções reconhecíveis, tomávamos de manhã, de tarde e à noite o famoso Kamillentee, diante do sorriso enigmático da Kellnerin no belo chalé de caça do hotel.

foto-juntas

     Sabe aquele livro cuja leitura muda a sua vida? O livro que  revela a nossa própria identidade que não conhecíamos inteiramente? E que nos obriga a tomar uma atitude, que era então para nós inconcebível – a de mudarmos nossa vida? Pois esse livro existiu para mim, tive-o nas mãos, li-o com a suspeita de que estava penetrando o segredo de minha própria personalidade, que ele era uma advertência, um toque de alarme. Explico: minha família mineira havia se mudado para o Rio de Janeiro nos anos da guerra (1944-45) e eu me sentia totalmente deslocado no novo meio ambiente; refugiava-me nas férias voltando ao interior, à minha cidade de Ervália, em Minas. Um dia, não sei exatamente como, tive nas mãos o livro Demian, de um autor para mim desconhecido, Hermann Hesse, em tradução do espanhol, língua que eu começava a estudar por conta própria mas que lia com afinco. Logo me identifiquei com a figura de Sinclair, menino tímido, superprotegido pela família burguesa que o defendia dos perigos da vida. Eu sofria de uma timidez agônica, que me levava a evitar as pessoas. O livro me convenceu a mudar minha atitude e enfrentar a vida real. Era preciso fugir um pouco da literatura em que eu mergulhara no anseio da fuga, fugir da música, da poesia, das artes – e encarar a vida na sua realidade brutal. Passei a exercitar-me, a fazer, aos poucos, o que temia, inclusive – façanha jovem da época – tomar o bonde andando. Puxava papo com pessoas desconhecidas, bancava o “rasgadão” (equivalente, à época, ao nosso “descolado”), me insinuava com as garotas auxiliado por uma lábia vocabular que então surtia efeitos benéficos.

    Poucos anos depois, já mais ambientado, frequentando jornais e livrarias, convenci o editor Enio Silveira a publicar o Demian, pois certamente o livro poderia fazer por outros o que fizera por mim: uma mudança correta de atitude, um novo enfoque da existência. Eu não sabia alemão. A primeira versão do Demian foi feita por mim do espanhol, mas como pretendia traduzir também o Lobo da Estepe, do mesmo autor, comecei meus estudos da língua com um grande amigo, Daniel Brilhante de Brito, que dominava o idioma por ter sido criado por uma babá alemã. Fiz depois uma revisão do Demian, e o texto corrigido que hoje está no comércio já ultrapassou a 50ª. edição. Essa tradução, bem como a de O Lobo da Estepe, que trouxeram grandes lucros para a Editora, foi vendida pelo equivalente atual a R$300,00. Pasmem! Em outro país, em que o tradutor tem participação nas vendas do livro, eu teria recebido até hoje uma considerável quantia. Mas ele me deu outras satisfações. Uma vez, no ônibus, voltando para a casa no Andaraí, vi um jovem lendo o livro. Lembrei-me da necessidade de vencer a timidez e perguntei a ele se estava gostando da leitura. Disse-me exatamente que o livro estava mudando sua vida. Sorri. Disse-lhe que o mesmo acontecera comigo. Mas não consegui dizer-lhe que eu era o tradutor do livro.
Leiam o texto que escrevi para a primeira edição de Demian e que até hoje faz parte da apresentação do livro.

demian

   DEMIAN, escrito em 1919, é o primeiro grande livro de Hermann Hesse no caminho que o conduz a DER STEPPENWOLF (O Lobo da Estepe) – sua indiscutível obra-prima de 1927 – e do qual SIDARTA, que aparece em 1922, constitui a etapa intermediária. Pode-se dizer que o Harry Haller, de O LOBO DA ESTEPE, é o Emil Sinclair, de DEMIAN, na matu­ridade.

     O arranque representado por DEMIAN é, entretanto, mais significativo se se tem em conta seu valor de quebra-diques na própria contenção formal e emotiva da obra de Hesse. Até então, a despeito dos gritos convencionais de revolta contra a educação coercitiva do novecentismo germânico, representados por PETER KAMENZIND (1904) e UNTERM RAD (Debaixo das Rodas – 1906), seus escritos estratificam o burilar correto e neoromânti­co de um mestre-escola provinciano, pontilhado de descrições de um gosto artífice, mas onde o olhar se coloca numa posição alpina, de contemplação para baixo, paisagística. É exatamente com DEMIAN que o enfoque se modifica: a contemplação se volta para si mesma e vai buscar no interior do próprio personagem a visão multilatitudinal do mundo; a perspectiva se intromete na própria vivência autobiográfica e o autor ousa ser ele e proclamar sua mensagem. Esse novo elemento, até então ausente da obra literária de Hesse, transforma por completo sua essência: de estilista requintado, mas restrito, se torna um dos valores mais originais e profundamente humanos da literatura alemã da primeira metade do século.

     “Quem quiser nascer tem que destruir um mundo” – eis a mensagem – destruir no sentido de romper com o passado e as tradições já mortas, de desvincular-se do meio excessivamente cômodo e seguro da infância para a consequente dolorosa busca da própria razão de existir: ser é ousar ser – o que Gide levaria às últimas consequências em sua obra, marcadamente em “Os Subterrâneos do Vaticano”. O conflito entre a dualidade “mundo luminoso” (ideal) e “mundo sombrio” (real) por que tem de passar Sinclair para o encontro ou a edificação de sua personalidade é o tema central do livro; tema que se teria prestado, como inúmeras obras românticas da época, a um estado sentimental de rebeldia, infrutífero e estanque, no qual essa dualidade de impulsos não conduz a qualquer síntese ou solução, mas que em Hesse, entretanto, se equaciona “na aceitação e na afirmação da própria personalidade em toda a sua humana plenitude de tendências antitéticas e inconciliáveis, inevitavel­mente coexistentes num trágico dinamismo psíquico”. E ainda mais que uma história ou romance de educação é o relato de um processo de deseducação, ou, preferindo-se, de reeducação, de laborioso apagar das pegadas que o puritanismo educacional deixa impressas na alma adolescente: a timidez, a humildade, o alheamento — armas obsoletas contra a hostilidade do mundo real — e que conduzem, mais tarde, inapelavelmente, à solidão e à inadaptabilidade, à surda revolta e ao amargo constrangimento.

     O livro reflete, obviamente, a tendência de introduzir na literatura a doutrina de Freud, que estava na ordem do dia, e da qual Hesse era um apaixonado estudioso, tendo-se posto inclusive aos cuidados do Dr. J. B. Lang, psicanalista de Luzerna, quando vítima de crise de neurastenia que lhe sobreveio após a Primeira Guerra Mundial. Daí a presença constante do oni­rismo na obra, de um certo entrevelado complexo de Édipo (aqui exposto através de um sutil mecanismo de transferência), de permeio com reminiscência de estudos de ciências antigas e herméticas, hauridos na intimidade da biblioteca do avô materno.

   No caso de Hesse, mais do que na maioria dos autores, um conhecimento biográfico se faz necessário à boa compreensão dos elementos surpreendentes de sua natureza. Descendente de família suábia, criado no mais rígido rigorismo religioso — o pai, erudito famoso de história religiosa; a mãe, filha de missio­nário, nascida e educada na Índia; o avô, Hermann Gundert, indianista de renome — Hermann Hesse nasce em 2 de julho de 1877, em Calw, pequena cidade do Wurtemberg, na Floresta Negra. Desde logo destinado à carreira eclesiástica, passa pela levedura espiritual e a constrição educativa de quatro seminários, donde egressa para tornar-se aprendiz de relojoeiro e, mais tarde, auxiliar de livraria, em Basiléia e Tübingen.

     Essa reação à vida religiosa e a firme obstinação de se tornar poeta (aos treze anos tinha por divisa: “serei poeta ou nada”) é explicada por seu biógrafo, Hugo Ball, como uma fixação pela poderosa personalidade de sua mãe, contista de sensibilidade, cuja figura (“bela voz clara e sonora”) imprime-se na alma do jovem de maneira tão marcante quanto a imagem da “mulher ideal”. O contato com o mundo livreiro proporciona­l-lhe a oportunidade de publicar, em 1899, seus ROMANTISCHE LIEDER, (Cantos Românticos) e, cinco anos mais tarde, sua primeira novela, PETER KAMENZIND, que logo alcançou nume­rosas edições, permitindo ao poeta libertar-se da ocupação burguesa para entregar-se exclusivamente à literatura. Nesse mesmo ano (1904), transfere-se com a primeira esposa para Gaenhofen, ás margens do lago Constança, na fronteira ger­mano-suíça. Data dessa época sua colaboração na revista März, de Munique, cujo diretor Theodor Heuss, combate o poder pessoal de Guilherme II; os artigos de Hesse, entretanto, corres­pondem mais a uma atitude democrática e liberal, do que a um compromisso partidário, que nunca teve.

     Em 1911, “por necessidade interior”, empreende uma viagem à India, berço de sua mãe, e que exerce sobre ele a atração de uma pátria espiritual e misteriosa; a viagem, entre­tanto, não lhe proporciona o esperado deleite. Em 1914, transfere-se para Berna, onde vai surpreendê-lo a declaração de guerra, em relação à qual Hesse assume, desde o início, uma atitude intelectual de absoluta neutralidade. O entusiasmo guer­reiro de seus compatriotas poetas leva-o a escrever o artigo “ó amigos, abstende-vos desse tom”, que lhe acarreta uma onda de incompreensão e repulsa semelhante à que avassalou Romain Rolland.

    Data dessa época sua crise nervosa, decorrente não só da conturbada situação mundial, mas ainda do agravamento da enfermidade psíquica da esposa. A separação do casal é ine­vitável. Hesse fixa-se ao sul dos Alpes e descobre em 1919 a Collina d’Oro, a sudoeste de Lugano. Nessa fase, excursiona pela pintura, fazendo aquarelas, e o trato com as cores vai impressio­nar vivamente sua obra, transparecendo inclusive nas páginas deste livro. Data dessa época também o encontro de sua segunda esposa, Ruth, vínculo que teve, aliás, breve duração. Em 1923, adota a cidadania suíça e encontra finalmente tranquilidade, junto à terceira esposa, para empreender a obra principal de sua vida, coroada com o aparecimento, em 1943, de DAS GLASPER­LENSPIEL (O Jogo das Contas de Vidro), onde expressa um apurado conhecimento musical.
Durante os anos da Segunda Grande Guerra, acolhe refu­giados do regime nazista e encontra as portas literárias da Alemanha novamente fechadas para a sua obra. Em 1946, obtém o prêmio Nobel de Literatura, principalmente em razão de sua obra poética, mas a saúde débil não lhe permite ir a Estocolmo recebê-lo pessoalmente. Falece em 1962, aos 85 anos de idade.

     De posse desses elementos, fácil nos é perceber quanto as figuras de Sinclair, Demian e Pistórius encerram do próprio Hesse, não passando de sínteses ou projeções de suas vivências: Sinclair, mais do que todos, é o êmulo real do autor: a mesma infância, o mesmo ambiente parental, a mesma inadaptabilidade ao mundo cotidiano. Demian será talvez o Hesse ideal, o que gostaria de ter sido, decisivo, homem do destino, marcado pelo sinal de Caim. Também Pistórius é um heterônimo de Hesse, organista na vida real, filho de teólogo, guia de outrem mas incapaz de encontrar o próprio caminho. Tudo indica, ainda, ter servido para o vigoroso retrato de Eva a significativa figura da própria mãe do poeta.

     Cabe uma palavra final sobre a atitude de Hesse em relação à guerra e à comunidade. Pode parecer hoje um tanto superado o desprezo pela coletividade demonstrado por Sinclair, passível de confundir-se com um sucedâneo da torre de marfim. Mas o que Hesse realmente ataca é a aceitação do rebanho, permeável a influências externas, capaz de ser levado à guerra na ilusão de estar praticando um ato heróico. A atitude não está certamente isenta de alguma aristocracia intelectual, mas formulada antes no sentido do culto do individualismo enquanto útil, capaz de encontrar o destino, do que no isolamento gratuito e inaplicável. Hesse rebela-se contra a uniformização; não é a massa que o impressiona, mas os processos de submissão, de estandardização a que ela se submete. Ergue um canto de glorificação ao indi­víduo consciente de si mesmo e de seu próprio caminho e execra o morticínio capaz de destruir com uma simples bala esse expe­rimento único e insubstituível da natureza: o homem.

 

Ivo Barroso
CONTINUA

Pascoa_Cordeiro_01

No ano passado, por ocasião da Páscoa (29.03.2013), tive a oportunidade de apresentar aos leitores deste blog alguns poemas referentes à data, belos sonetos de Djalma Andrade e de Alphonsus de Guimaraens, dois dos nossos maiores poetas litúrgicos. Desta vez, para que não passe totalmente em branco a efeméride religiosa de maior significado cristão, tudo que lhes posso oferecer é esta primeira estrofe da Canción a Cristo crucificado, do quase desconhecido poeta espanhol Miguel Sanchez. Ela consta do The Oxford Book of Spanish Verse (p. 169) que informa saber-se muito pouco sobre o poeta, provavelmente nascido em Valladolid e falecido em Plasencia, sem citar as datas. O poema é bem maior e, caso haja interesse dos leitores, poderei oportunamente transcrevê-lo na íntegra, em espanhol é claro.

 

Canção a Cristo crucificado

 

MIGUEL SANCHEZ

 

Inocente Cordeiro

Em seu sangue banhado

Com que do mundo tiras os pecados,

Desse forte madeiro

Suspenso pelos braços

Abertos, que me incitam a abraçar-te;

Já que humilde definhas

Com a cor e a formosura

Desse rosto divino

Tão próximo da morte

Antes que a alma soberana e pura

Parta para salvar-me

Volve teus mansos olhos para olhar-me.

 

(Tr. Ivo Barroso)

peixe voador 450

O PEIXE DE NERUDA

IVO BARROSO

 

Neruda pôs um peixe na bandeira

que desfraldava em frente à sua casa.

Talvez quisesse assim, desta maneira,

dizer que um peixe voa sem ter asa.

 

 

Dizer que nós podemos transformar

as coisas pela força da vontade:

que o mar pode ser céu, o céu ser mar,

dependendo do olhar, da intensidade.

 

 

Talvez quisesse nos dizer que a vida

é o exercício de enganar a morte;

que depende de nós uma saída,

parar os dados, reverter a sorte.

 

 

Que toda coisa é muito mais que a coisa

em si; que um nome pode ser trocado:

tudo consiste em ser a mariposa

que se transforma num milagre alado.

 

 

Assim, pensando bem, o que Neruda

buscou simbolizar com o peixe erguido

na flâmula, que agora se transmuda

em onda do mar, tem múltiplo sentido:

 

 

Antes do mais, é a pura imagem física

do peixe, o seu desenho, o seu traçado

geométrico, a linha elíptica, a risca,

o contorno preciso e elaborado;

 

 

a exatidão de meios, essa técnica

biológica que o torna a parte viva

da água em que ele vive, a chispa elétrica

que intensa o move, orienta, compulsiva.

 

 

O peixe de Neruda é mais que um peixe,

é uma bandeira, é mais que uma bandeira,

um conjunto de símbolos, um feixe

de acepções — a mitologia inteira.

 

 

É um peixe apostólico, sem dúvida,

a ser multiplicado quando há bodas;

mas é também um peixe só e único,

quando se forem as esperanças todas.

 

 

Pois é o peixe de Cristo e do infinito,

esse oito deitado e em si completo,

oracular, sinal na areia escrito,

signo zodiacal, moto perpétuo.

 

 

Por isso penso às vezes que Neruda

ao erguer de manhã aquele mastro,

com voz potente e ao mesmo tempo muda,

dizia versos ao seu peixe-astro:

 

 

‘Acorda, ó peixe inaugural, ó peixe matutino

Longe de teu reduto aquático, nos ares;

Deixa a esponja, o coral, o caramujo

— Teus amigos agora são as aves.

 

 

Deixa o reduto de imersões profundas,

Liberta-te de abraços isobáricos

E paira livre de teu peso em vôo silencioso e estático;

Nada nesse ondulante pavilhão que o vento do mar fustiga.

És agora o peixe em estado virtual, o peixe-pensamento, espadanando

A esbranquiçada metamorfose das escamas.

A ti entrego o destino de uma espécie

Marítima e volátil, a dupla vida

Que intentamos viver sem os recursos

Que ora te empresto da imaginação.

A ti confio o destino de todos estes seres

Que querem ser bem mais do que têm sido.

Mas que lhes falta o anseio de ter asas

Ou temem sempre mergulhar no abismo’.

 

 

E tarde, tendo os olhos seus imersos

no pôr-do-sol, descendo o pavilhão,

talvez Neruda lhe dissesse versos

— que o verso de Neruda é uma oração:

 

 

‘Volta, ó peixe vesperal, mergulhador do ocaso,

Ao seio original de onde saíste, entre líquenes e anêmonas;

Conta às algas o azul do céu quando os stratus

coroam as colinas,

Agora sabes os segredos dos que pairam acima do horizonte,

Mas dize-lhes também que aventura inaudita

É viver em dois mundos, é saber que estás aqui

Mas que podes pairar além do insuspeitado.

Sonda teu elemento com perícia mas denodo,

Não deixes o recôndito esquecido,

Nele há tesouros que ainda não fulguram

Por lhes faltarem olhos que os vejam.

Vai mais fundo, explora os teus recursos mais íntimos,

A força potencial que jaz nessas escamas

Que tatalaram como virgens rêmiges,

Um dia nas alturas.

Usa teus olhos oblíquos para veres na sombra

O que muitos não vêem em pleno dia,

Sê tu mesmo, sabendo bem que podes

Ser outro, muitos mais, ser legião, miríade

Sem trair o que de mais teu trazes contigo.

Amanhã, serás outro meu amigo.’

 

 

E ouvindo o Poeta descobri que havia

algo de mais recôndito na imagem:

Além de toda essa mitologia,

há no peixe uma última mensagem.

 

 

A de que é a Poesia um peixe-alado

e o Poeta um ser que busca o vir-a-ser.

Vive para dar vida ao Incriado,

pois que a missão do Poeta é transcender.

EN LA NOCHE

UM CONTO DE RAY BRADBURY TRADUZIDO POR IVO BARROSO

senhor 002
AA Señora Navárrez passou a noite inteira chora­migando e seus lamentos repercutiam pela casa toda, como uma lâmpada acesa em cada quarto, de modo que ninguém pôde dormir. A noite inteira, a morder o travesseiro branco, retorcendo as magras mãos e lamentando-se: — «Ai! mi pobre Juan! Ai! mi pobre Juan!» Os moradores dos cômodos vizinhos, ali pelas três da madrugada, já perdendo as esperanças de que ela viesse um dia a calar a borroscada boca de batom, e sentindo o corpo áspero e aquecido, resolve­ram levantar-se, mudar a roupa e pegar uma condu­ção para a cidade, onde se meteram num cinema de sessões ininterruptas. Lá dentro, Roy Rogers perse­guia bandidos através de viciadas nuvens de fumaça e trocava palavras um pouco mais alto que o ressonar da negra noite da plateia.

Nas primeiras horas da manhã, a Señora Navár­rez ainda gemia e soluçava.                                                                                                                        Durante o dia, a coisa melhorou um pouco. O coro maciço da gritaria dos meninos soava desta vez como a graça redentora de uma quase harmonia por todos os quartos da habitação comum. Ouvia-se ainda o trovejante chacoalhar das máquinas de lavar roupa, e mulheres vestidas de chenile procuravam os lugares mais secos da área comum, inundada e úmida, para continuar sua veloz tagarelice mexicana. Mas agora, de novo, mais alto que o estridente vozerio, do que as máquinas e os meninos, podia ouvir-se a Señora Na­vârrez a berrar como um rádio ligado: « Mi Juan! Ai! mi pobre Juan!»

Já de tarde, os homens chegavam com o suor do trabalho a escorrer das axilas. Refestelados nas mor­nas banheiras de todos os quartos da habitação, onde o jantar ia ser preparado, todos eles maldiziam a infe­liz mulher e tapavam os ouvidos para abafar os seus lamentos.
— Mas ela ainda não parou! — diziam eles, da­nados da vida. Um foi bater à porta da Señora Na­várrez:  — Cala a boca, mulher! — Mas isso só serviu para fazê-la chorar ainda mais alto: «Ai! Ai! Ai! Juan! Juan!»

–Hoje vamos jantar fora — disseram os maridos às esposas. Por toda a casa, os utensílios de cozinha voltavam às prateleiras e as portas se fechavam à me­dida que os homens desciam as escadas conduzindo pelo braço pálido as esposas perfumadas.

O Señor Villanazul, quando voltou a abrir a velha  e descascada porta de seu quarto, à meia-noite, cerrou os olhos castanhos e parou na entrada por um momento, vacilante. Tina, a mulher, esperou a seu lado, junto com os três garotos e as duas meninas, a me­norzinha vinha carregada ao colo.

— Oh! meu Deus! — murmurou o Señor Villanazul. — Meu Jesus Cristo, desce dessa cruz e faz essa mulher calar a boca!

Entraram no sombrio apartamento e olharam acma da lampadazinha bruxuleante que alumiava um singelo crucifixo. O Señor Villanazul abanou filosofi­camente a cabeça:

— Qual! Ele continua lá na cruz!

Deitados, revolviam-se na cama como churrascos no espeto, a noite de verão a untá-los com o molho de seu próprio suor. A casa inteira flamejava com o choro que vinha lá de cima.

— Isto aqui está muito abafado! — O Señor Villa­nazuI desceu rapidamente pelas escadas da habitação, levando a esposa para a varanda da rua, sem se preo­cupar com as crianças, detentoras dessa miraculosa capacidade de dormir sob as mais desfavoráveis condi­ções.

A varanda estava tomada por figuras opacas, uma dezena de homens silentes, sentados, cigarros lu­zindo e fumegando entre os dedos morenos, mulheres envoltas em xales de chenile aproveitando o que ainda restava da viração noturna. Moviam-se como imagens de sonho, como roupas fantasmagóricas dependuradas em varais inflexíveis. Tinham os olhos inchados e a língua espessa.

— Vamos lá no quarto estrangular essa mulher? — sugeriu um dos homens.

— Não, isso não fica bem — disse uma das mu­lheres. — O melhor é irmos lá em cima e atirá-la pela janela.

Todos riram fatigadamente.

O Señor Villanazul encarava os demais com olhos piscantes e sonolentos. A esposa movia-se preguiçosa­mente a seu lado.

— Até parece que o Juan foi o único homem do mundo a se alistar no Exército — disse um, meio irri­tado. — Essa Dueña Navárrez, Deus me livre! Cho­rando como se o marido estivesse em combate, ele que vai descascar batata o tempo todo, o homem mais se­guro de toda a infantaria!

— Precisamos fazer alguma coisa. — Foi a voz o Señor Villanazul. Ele próprio espantou-se com a firme asperidade de sua voz. Todos olharam em sua direção. — Não podemos aguentar outra noite como essa — continuou ele, decidido.

— Quanto mais esmurramos a porta, mais alto ela grita — esclareceu o Señor Gómez.

— O padre veio aqui de tarde — disse a Señora Gutiérrez.  — Mandamos chamá-lo porque já estávamos desesperadas. Mas a Señora Navárrez não o deixou entrar por mais que ele procurasse acalmá-la. Depois veio o Delegado Gilvie, deu os maiores berros, mas ela não ligou a mínima importância.

–O negócio é tentarmos outro meio – considerou o Señor Villanazul. — Alguém precisa ser… digamos. afável com ela.

— Mas… de que jeito? — perguntou o Señor Gómez.

– Ah! se pelo menos, – ficou sonhando o Señor Villanazul – se pelo menos um de nós fosse solteiro!…

A frase caiu como uma pedra dentro dágua. Ele deixou que os respingos se levantassem no ar e que os círculos fossem crescendo lentamente.

Houve um suspiro geral.

Foi como o soprar de uma aragem de verão. Os homens se endireitaram um pouco; as mulheres se puseram mais animadas.

— Mas – replicou o Señor Gómez, esmorecendo – o caso é que todos nós somos casados. Não há ninguém solteiro por aqui.

— É mesmo — reconheceram todos, e se reacomodaram no leito quente e seco da noite, a fumar, silenciosamente.

— Neste caso, — retornou o Señor Villanazul, erguendo os ombros, comprimindo os lábios – neste caso tem que ser um de nós!

De novo soprou o vento da noite, fazendo aquela gente estremecer de pasmo.

— Estamos numa situação que requer desprendimento – declarou o Señor Villanazul. – Um de nós tem que fazer a coisa. É fazer ou penar outra noite neste inferno!

Os homens começaram a afastar-se da varanda, esquivos,temerosos.

— Você não toparia o negócio? — perguntou, insinuantemente, um deles.

Señor Vilanazul empertigou-se de repente. O cigarro quase lhe ia tombando dos dedos.

— Espera aí, eu… — objetou ele.

— Você, sim! Topa ou não topa?

O homem agitou as mãos, exaltado:

— Mas eu tenho mulher e cinco filhos, o menorzinho ainda de colo!

— É o jeito! Já que nenhum de nós é solteiro, e a ideia foi sua, você precisa ter coragem de pôr em prática as suas convicções, argumentaram todos.

O Señor Villanazul mostrava-se muito assustado, pensativo, silencioso. Ao volvê-los em direção da esposa, seus olhos tinham lampejos de susto.

Ela fitava distante e extenuada o ar da noite, procurando vê-lo.

– Ai meu Deus! como eu estou cansada! – lamentou-se.

— Tina! – admirou-se ele.

— Acho que vou morrer se não dormir esta noite – disse ela.

— Mas, Tina!… insistiu ainda.

— É, vou morrer, haverá muitas flores e um belo enterro, se eu não conseguir dormir um pouco – murmurou ela.

— Sua mulher está morrendo – ajudaram todos.

O Señor Villanazul hesitou  ainda um breve instante. Tomou as lânguidas e suadas mãos da esposa e tocou-lhe com os lábios a face esbraseada.

E em silêncio afastou-se da varanda.

Os que aí ficaram podiam ouvir seus passos subindo as escadas mal iluminadas, subindo e subindo, agora já na altura do terceiro andar, onde a Señora Navárrez gemia e choramingava. Os homens esperavam silenciosos na varanda. Alguns acendiam trêmulos fósforos que adejavam em direção dos cigarros. Quando falavam eram como sussurros do vento, as mulheres rondando em torno da Señora Villanazul, que se apoiara no corrimão da varanda, as pálpebras arenosas de sono.

— Ele agora — informou sussurrante um dos homens — está chegando ao alto das escadas.

Todos se imobilizaram.

— Agora – segredava o homem numa voz es­tranha- – o Señor Villanazul vai bater à porta. Pronto! Está batendo.

Todos escutavam, a respiração em suspenso. Lá no alto, ouvia-se o som delicado de alguém batendo à porta.

— Agora, a Señora Navárrez, percebendo a intrusão, desata novamente a chorar mais forte!

Do alto da casa veio um grito de choro.

— Agora — continuou o homem, acocorado. imaginando, a mão a adejar delicadamente no ar da noite — ele está pedindo para entrar, suavemente, maneirosamente, junto à porta trancada.

Os que estavam na varanda ergueram os olhos numa tentativa desesperada  de enxergar, através de três lanços de madeira e de cal, o que se passava lá no alto, cheios de ânsia.

O grito foi desvanecendo aos poucos.

— Agora, ele deve estar conversando-a com carinho, sussurrando, prometendo — murmurava o homem, quase num gemido.

O gemido foi se transformando num soluço, e o soluço num leve fungar, e finalmente em respiração opressa, em coração pulsando forte na expectativa.

Após dois minutos de tensão, suor, espera, a gente que estava na varanda ouviu o ranger longínquo de uma porta que se abria, para, um instante depois  fechar-se com um suspiro.

A casa ficou imersa no silencio.

O silêncio habitava cada quarto como uma lâmpada apagada. O silêncio transbordava como um vi­nho refrescante pelo túnel dos corredores. O silêncio entrava através dos postigos abertos como um sopro de brisa úmida que viesse do sótão. Todos estavam demoradamente aspirando o seu frescor.

— Ah- – suspiravam.

Os homens atiravam fora os cigarros e se encaminhavam sem ruídos para os quartos em calma. As mulheres seguiam-nos. Moviam-se em aprazíveis corredores  de quietude. A varanda esvaziou, de súbito.

A Señora Villanazul, num estupor de sono, meteu a chave na porta.

— Vamos dar um banquete a seu marido – uma voz sussurrou-lhe.

— Vou acender uma vela por intenção dele — disse outra.

As portas todas se fecharam.

Na cama fresca, a Señora Villanazul repousa. Que homem inteligente, vai sonhando ela. Por essas e por outras é que eu amo o meu marido.

E o silêncio era assim como uma fria mão a conduzi-la para o sono.

(Publicado na revista Senhor, nr. 1, de março de 1959. Ilustração de Jaguar)

cecilia

A CONQUISTA DOS CÉUS PELA PASTORA DE NUVENS

Cecília Meireles publicou O Aeronauta em 1952 como uma espécie de adendo aos Doze Noturnos da Holanda. Numa carta datada de 21 de fevereiro daquele ano, endereçada a seu amigo o poeta Abgar Renault, ela anuncia o livro: “os poemas da Holanda vão ser editados logo após o carnaval, junto com uma outra coisa [grifo nosso] inspirada pela viagem aérea; vocês verão como perdi aquele famoso medo”. Por quê motivo a autora teria juntado num único volume esses dois livros de poemas aparentemente tão diversos em seu significado e em sua feitura? E como definir essa “outra coisa” que a própria Cecília hesita em chamar de poema? De nossa parte, acreditamos que O Aeronauta seja bem mais que um simples complemento poético dos Noturnos. Seria mesmo o seu antípoda, a outra face, exprimindo uma nova dimensão espacial da autora, egressa de um outro mundo, vivendo em novo estado de espírito. Daí julgarmos que os editores atuais tenham agido com propriedade ao optar por fazer dele um livro autônomo, um volume à parte, cuja edição lhe permite existir por si mesmo sem estar vinculado, geminado, jungido a outra importante obra da Autora. Isso porque O Aeronauta revela uma conquista ao mesmo tempo pessoal e poética da autora, no sentido de atingir uma poesia ainda mais sutil, mais etérea do que a encontrada em seus livros anteriores, como em especial Viagem, cuja intenção temática é semelhante à deste. A oposição que existe entre os Doze Noturnos da Holanda está ainda no tom dos poemas, pois se Cecília confessa que os primeiros foram escritos à noite (daí o título escolhido), embora reflitam a luminosidade da paisagem holandesa que ela então descortinava, já os poemas de O Aeronauta procuram captar uma fosforescência espacial, entre nuvens e abismos, como se escritos em pleno voo, durante uma de suas inúmeras viagens de avião.

cecilia 001

Era notório o medo que Cecília tinha às viagens aéreas. Suas primeiras deslocações foram marítimas, mas para vencer as grandes distâncias e as configurações geográficas de seus itinerários pela América Latina, Europa (principalmente os Açores) e a viagem à Índia teria necessariamente de utilizar o transporte de avião. “Por muito tempo o mar foi o meu verdadeiro país”, diz ela numa entrevista concedida a Domingos Carvalho da Silva. Mas, por necessidade e por espírito de aventura, ela toma o gosto pelas viagens aéreas e perde o medo de avião. Vai além: nelas encontra uma nova identidade até então desconhecida. “Com certa saudade vejo-me obrigada a confessar que nos ares me vi como em país ainda mais íntimo”. Se nos Doze Noturnos da Holanda ela se sente “dentro de gravuras”, presa à paisagem que a circunda, experimentando uma simbiose da vivência ambiental com sua elaboração poética interior, em O Aeronauta ela vivencia um novo país, totalmente desligado da realidade, um mundo surrealista, em que sua poesia reflete um estado de alma estratificado, de visitante estrangeiro que vem de regiões remotas e implausíveis.

Ao comparamos os versos dos Noturnos com os de O Aeronauta, vemos uma oposição até na forma em que foram lavrados. No primeiro, embora haja versos curtos e metrificados (como o belo hendecassílabo de abertura), Cecília dá preferência ao tipo “versículo bíblico”, ou seja, ao verso longo, de grande fôlego, alheio à métrica e à rima, guardando apenas seu ritmo pessoal, aquela “vaga música” que iria caracterizar seus poemas não rimados. Mas em O Aeronauta, escrito ao que tudo indica ao mesmo tempo em que ela compunha os Noturnos, temos onze poemas de forma quase fixa, ou seja, compostos de quatro estrofes de sete e quatro sílabas terminadas por uma coda de três ou quatro versos (com exceção dos poemas “Dois”, “Três” e “Cinco”, sem coda), estrofes essas em geral de cinco ou seis versos, exceto nos dois últimos poemas em que se alongam em sete e oito, e no poema “Dez”, que apresenta uma coda em duas quadras. Essa volta às formas fixas (versos curtos, isométricos) tem grande significação aqui, principalmente se a considerarmos concomitante ou subsequente à experiência transbordante do verso livre usado nos Noturnos. É que a temática de O Aeronauta exige – ousamos dizer – uma unidade, um uniforme, um traje especial que caracterize essa viagem de volta de dentro de si mesma depois de experimentar uma nova dimensão existencial. Cecília domou seu medo e, mais que isso, transformou-o em fruição, em experiência, em mergulho e emersão, fazendo tudo isto espelhar num verso cada vez mais trabalhado, mais técnico, mais submisso à sua capacidade de exprimir condições especiais de existência.

Podemos dizer que O Aeronauta é a apresentação de um novo ser poético que teve seu embrião em Viagem, de 1939. Pois ali havia um percurso metafórico, subjetivo, um passeio por sentimentos e ansiedades, uma investigação interior à procura do conhecimento total de si mesmo:

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Já em O Aeronauta, o ser não se importa com o tratamento que lhe deem; extravasa de sua condição humana e sua busca fica “livre de imagens” e de si mesmo:

Agora podeis tratar-me
como quiserdes:
não sou feliz nem sou triste,
humilde nem orgulhoso,
– não sou terrestre.

Por ter conseguido então permanecer (ainda que precariamente) no espaço, desligado da terra, esse Aeronauta como que se desfaz do próprio corpo e atinge a condição etérea de espírito:

Agora sei que este corpo,
insuficiente, em que assiste
remota fala,
mui docemente se perde
nos ares, como o segredo
que a vida exala.
E seu destino é ir mais longe,
tão longe, enfim, como a exata
alma […]

Essa sublimação do corpo, sua transmutação em estado anímico, se reflete na poesia de Cecília, que atinge aqui momentos de absoluta cristalinidade, de autêntica “poesia pura”, ainda que, ao fim, venha sentar-se à nossa mesa, “pesada e presa,/ por limite e densidade”.

O leitor versado em arte poética certamente admirará a consumada técnica de Cecília no manejo das rimas toantes, na perícia com que corta (divide) o verso que ameaçava alongar-se, sem com isso perder a harmonia e o equilíbrio da frase ainda que subjetiva ou hermética.

O leitor alheio a essas preocupações formais, porém, será envolvido pela melodia quase diáfana que emana de cada verso e que contrapõe à sua leveza uma densidade de significados que irão facilmente impressionar sua sensibilidade.

Ivo Barroso

* * *

*  *  *

OS POETAS ESQUECIDOS

Nos meus tempos de estudante eram comuns os chamados “cadernos de versos” em que transcrevíamos aqueles sonetos que considerávamos “de primeira linha”. Lá estavam, seguramente, o Alceu Wamosy, com o seu “Ó tu que vens de longe, ó tu que vens cansada”; o Aníbal Teófilo, autor de um único soneto, “A Cegonha”, que terminava em “Ver a dúvida humana debruçada/ Sobre a angústia infinita de si mesma!”; o indefectível Júlio Salusse com os seus cisnes, “A vida manso lago azul algumas/ vezes, algumas vezes mar fremente”; sem faltar o Padre Antônio Tomaz, filosofando : “Quando partimos no vigor dos anos/ Da vida pela estrada florescente” e o sempre declamado Nilo Bruzzi a lamentar “Pobre de quem, como eu, vê que, infeliz,/ Teve todas aquelas que o quiseram,/ Mas nunca teve aquela que ele quis!…” Eram os nossos poetas exemplares, só mais tarde desbancados pelo Guilherme de Almeida e o Menotti Del Picchia, e finalmente enterrados quando Manoel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade se impuseram. Quem hoje, com menos de 50 anos, ainda se lembra daquele (imortal?) “Nascemos um para o outro, dessa argila/ de que são feitas as criaturas raras?” Ah, fugit irreparabile tempus!

E OS POETAS ESQUISITOS

E havia também poetas com nomes extravagantes, como Judas Isgorogota, Sosígenes Costa, Euríclides Formiga, Cleômenes Campos, Junquilho Lourival, Emiliano Perneta, Otoniel Beleza, Pethion de Villar, Petrarca Maranhão, Pretextato da Silveira, Segundo Wanderley… Se Judas Isgorogota e Pethion de Villar eram evidentes pseudônimos, respectivamente de Agnelo Rodrigues de Melo, alagoano, e de Egas Muniz Barreto de Aragão, baiano, todos os outros – pasmem! — são nomes verdadeiros, Aliás, o Egas Moniz nem precisava daquele Pethion de Villar, pois seu próprio nome já soa como pseudônimo. Todos esses estranhos/esquecidos compuseram sonetos considerados “de primeira linha” em seu tempo e figuram em várias antologias e florilégios até hoje. Quanto aos temas, eram em geral versos de amor, de conquista ou de saudade, vez por outra apelando para uma filosofia ingênua. Mas há o caso daquele Segundo Wanderley (1860-1909), poeta abolicionista norte-rio-grandense, que escreveu um incrível soneto intitulado “Amor de Filha”, dedicado a Pedro Avelino (?), personagem que deu nome a uma cidade do Rio Grande do Norte, mas sobre o qual ainda não consegui nenhum dado. Com sorte, voltarei ao assunto.

 

%d blogueiros gostam disto: