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Já cheguei a declarar numa entrevista que sonhava traduzir um livro de Colette chamado “L´envers du music-hall”. A verdade é que, de um modo geral, nunca apreciei muito a literatura dessa Sidonie, controversa, embora tenha ajudado muitos judeus a fugir quando da ocupação da França pelos nazistas.  Sempre achei que a biografia de um autor não devia interferir com sua obra e que, afinal, o que conta mesmo é esta última. Mas o conjunto da obra de Colette também não me atraía muito, mesmo depois de sua divulgação pelo cinema. No fundo, o que esse livro tinha para mim era um apelo sentimental.

Cheguei a traduzir alguns capítulos depois das inúmeras tentativas de encontrar o título. O equivalente português à expressão inglesa music hall, usada em francês, seria algo como “musical”, esse espetáculo da Broadway que hoje tem seu equivalente no Brasil. Mas sei que Colette não se referia a esse tipo de diversão; o que ela de fato praticava era o que chamamos vulgarmente de “mambembe”, esse teatro popular, sem pouso fixo, que excursiona por todo o país. Outro problema era o “l´envers”: o avesso, a outra face, o reverso, o outro lado, a parte oculta? Ou ainda: as coxias, os bastidores, o atrás-do-pano, que mais? Acabei, um dia me decidindo por “O avesso da ribalta”, depois de encontrar essa última palavra que me parecia, além de sonora e rara, se ajustar perfeitamente ao sentido do livro. Os poucos capítulos que cheguei a traduzir foram publicados no suplemento “Ilustríssima”, da Folha de São Paulo, em xxxxx, na esperança de que algum editor se interessasse pelo livro e me encomendasse a tradução. Mas fiquei satisfeito por não receber nenhuma oferta: o estilo de Colette, sobrecarregado de adjetivos, já estava fora de moda havia muito e suas histórias de mambembes tinham um interesse restrito e localizado.

E voltei a me indagar o motivo de ter querido tanto traduzir esse livro. Pois foi assim: no princípio dos anos ´50, eu fazia o curso de línguas e literaturas neolatinas na Faculdade Nacional de Filosofia (FNF), na Avenida Antônio Carlos com a Beira Mar, no antigo prédio da embaixada italiana, ao lado da atual Maison de France. Os professores eram todos geniais. Tínhamos em espanhol José Carlos Lisboa e Hélcio Martins, em italiano a Luce Ciancio (que traduziu dois poemas meus, aqui), o sonolento Padre Lucas (que não saía da fíbula prenestina) e a professora Marcella Mortara, que embora de origem italiana era a nossa catedrática de francês. Em geral os professores traziam folhas mimeografadas com trechos para serem lidos e traduzidos em aula, aproveitando-os para mostrar não só os aspectos linguísticos mas igualmente as belezas de estilo. Marcella um dia trouxe uma página de Colette intitulada “Amour”, que era um capítulo do livro “L´Envers du music-hall”. A leitura e tradução sequencial era feita por todos os alunos, cada qual acrescentando um novo sentido, um outro sinônimo, um terceiro ajuste naquele trabalho de equipe. Ela queria muito saber como traduziríamos as palavras “parigote” e “angliche”, que apareciam no seguinte trecho: “Avec une copine, une “parigote” de music-hall, il serait déjà fixé… mais cette angliche, il ne sait comment la prendre…” Explicou-nos que “parigote” era uma gíria para “parisiense” e o “angliche” uma forma popular equivalente a “inglesa”. Era a história de um jovem casal de atores mambembes, ela, Glory, uma girl de teatro de revista, de nacionalidade inglesa, trabalhando pela primeira vez na França; ele, Marcel, o jovem ator francês, carreirista e conquistador, decidido a vencer na vida. Fiquei encantado com o texto e, em casa, procurei traduzi-lo por completo. Em outra aula, mostrei a tradução à professora Marcella, que elogiou a linguagem em geral e gostou das soluções que eu apresentava para a parigote e a angliche. Disse-me que eu tinha jeito para a tradução e que devia cultivar essa minha tendência. Foi meu primeiro elogio profissional e possivelmente o momento que determinou o meu direcionamento nesse sentido. Isto aconteceu há mais de 60 anos e durante todo esse tempo guardei esta tradução que irão ler, agora revista e um tantinho melhorada.

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AMOUR

– de “L´ENVERS DU MUSIC-HALL” de COLETTE

Por ser jovem e loura, magricela e de olhos azuis, ela preenche exatamente todas as condições que se exigem de uma “dançarina inglesa”. Fala um pouco de francês, com uma voz vigorosa de patinho novo, e gasta, para articular algumas palavras de nossa língua, uma força inútil que lhe faz enrubescer as faces e brilhar-lhe os olhos.

Quando sai do camarim que ocupa com outras colegas, ao lado do meu, e desce em direção ao palco, maquiada, vestida, não a distingo das outras girls, pois ela se esmera, o quanto possível, para não passar de uma inglesinha de teatro de revista, impessoal e agradável. A primeira que desce, e a segunda, e a terceira e até a nona, todas me lançam ao passar o mesmo sorriso, o mesmo mover de cabeça balançando os mesmos cachos postiços de um louro rosado. As nove faces estão pintadas com a mesma maquiagem, habilmente violácea em torno dos olhos, as pálpebras carregadas, em cada olho, de uma gota de “perlé” tão densa que não se vê mais a tonalidade do olhar.

Mas quando se vão, à meia-noite e dez, as faces limpas com um lencinho de papel e empoadas de talco, os olhos ainda selvagemente ampliados – ou ainda quando vêm ensaiar de tarde, à uma hora — reconheço imediatamente a pequena Glory, de um louro autêntico, dois pompons de cabelo encaracolados ajustados às têmporas por uma presilha de veludo negro, oculta no fundo de seu horrível chapéu como um pássaro metido num balaio velho. Dois incisivos elevam seu lábio superior: em repouso, tem o ar de alguém que deixa derreter na boca uma bala muito branca.

Não sei por que a observei. Ela é menos bonita que Daisy, a morena demoníaca, sempre chorando ou furiosa, dançando como um demônio, ou refugiada num degrau da escada, donde vomita abomináveis palavrões ingleses. Agrada menos que a sonsa Edith, que exagera o sotaque para fazer rir e profere em francês, ingenuamente, barbaridades que ela compreende muito bem… .

Mas Glory, que dança pela primeira vez na França, atrai minha atenção. É gentil e terna, anonimamente. Jamais chamou o mestre de balé de “maldito idiota”, e seu nome não figura no quadro das multas. Grita, ao subir e descer os dois andares, mas grita como as outras, mecanicamente, porque uma trupe de girls, que mudam de trajes quatro vezes entre as nove e a meia-noite, não pode subir e descer as escadas sem lançar uivos de peles-vermelhas e cantos desordenados . Glory ajunta a esse tumulto necessário sua jovem voz falsa e cômica e desempenha seu papel igualmente no camarim comum, separado do meu por um reles tapume de madeira.

As girls viajantes fizeram desse gabinete retangular um acampamento de saltimbancos. Os lápis vermelhos e pretos rolam sobre a prancheta de maquiagem, ora coberta por um papel de embrulho, ora por um guardanapo esburacado. Uma lufada de ar arrancaria das paredes os cartões-postais, presos apenas por alfinetes espetados de viés. O estojo de ruge, o batom Leichner, a esponja de lã. Tudo isto é transportado dentro de um lenço, e essas meninas, que irão embora dentro de um mês, deixarão menos traços do que um acampamento de ciganos que assinalam seu trajeto por queimadas redondas do capim, pelos flocos de cinza das fogueiras.

 

***

 

— … ´k you, diz Glory, com uma voz educada.

 — De nada, replica polidamente o nosso companheiro Marcel, no momento tenor, mas que dançará talvez no mês que vem, e é também capaz de representar no drama em Gobelins e no musical em Montrouge.

 Marcel espera no patamar, como por acaso, a trupe tumultuosa das girls. Como por acaso, Glory passa por último e se demora um minuto, só o tempo de vasculhar, com graciosa sem-jeiteza, o saquinho de bombons acidulados que lhe oferece o nosso gentil companheiro.

Observo o progresso, lento, desse idílio. Ele é jovem, famélico, ardente, decidido a não “morrer de fome”, lembrando em tudo, apesar das roupas batidas e da flor artificial da lapela, um belo operário oportunista. Mas Glory o desconcerta com seus modos de pequena estrangeira. Com uma colega qualquer, uma garota da ribalta “nacional”, ele já teria resolvido – a coisa vai ou não vai… Mas essa “gringa”, ele não sabe como tratá-la… Mesmo ao sair de cena, esbaforida e despenteada, desabotoando às pressas o corpete, isto não a impede de aceitar um bombom e agradecer dignamente: “… ´k you”, como se estivesse vestida a rigor.

Ela lhe agrada. Ela o irrita. Às vezes, ele dá de ombros vendo-a afastar-se, mas sei bem que ele zomba é de si mesmo. Um dia destes, atirou dentro do chapelão de Glory, que ela segurava pelas abas, uma meia-dúzia de tangerinas, logo arrebatada pela horda de selvagens louras aos gritos apavorantes, risadas e arranhões…

O demorado flerte impacienta esse francesinho vivo e volúvel, ao passo que Glory se deleita com isto. Ela se comove lentamente, à la mocinha sentimental. Chama Marcel pelo nome: “Márs´l . e lhe deu uma foto em cartão postal – não aquela da menina segurando o arco ou do tipo menino de calças furadas, oh não – mas a sua mais bela, a que mostra Glory como dama medieval, com chapéu de corneta, uma Glory totalmente rainha!

Não se aborrecem por não poderem conversar um com o outro. O jovem, flexível, finge uma solicitude, uma humildade. Vi-o beijar uma pequena mão que não se retirava, uma mãozinha magra, gretada pela água fria e o alvaiade; mas, de viés, ele fixa Glory com insistência e precisão, como se estivesse vendo por antecipação os lugares em que a beijaria. Ela, por trás da porta do camarim, que voltou a fechar, canta para que ele ouça e lhe atira seu nome : “Márs´l !” como se atirasse flores…

A coisa vai bem, em suma. Vai até bem demais… O idílio, quase mudo, se desenrola como um mimodrama. Nenhuma outra música senão a voz exuberante de Glory, e quase nenhuma palavra além do nome : “Márs´l ” , matizado pelo amor… Depois dos “Márs´l !” estridentes e alegres, um tanto anasalados, ouvi “Márs´l !” longos, sestrosos e ternos, suplicantes — e, de repente, certo dia, um “Márs´l ” tão trêmulo, tão desfeito, que já era uma súplica…

… Esta noite, eu o ouço, creio, que pela última vez. Porque, lá no alto da escada, refugiada no último degrau, encontro a pequena Glory sozinha, a cabeleira de través, a chorar humildemente sobre a maquiagem, repetindo baixinho:

— Márs´l!…

 

Em dezembro de 1998 fiz várias visitas ao poeta João Cabral de Melo Neto a fim de entrevistá-lo para o Suplemento Prosa & Verso de O Globo. Durante quatro quintas-feiras estive em conversa com ele em seu apartamento da praia do Flamengo, um belo prédio de estilo francês com pé-direito alto e amplas janelas dando para o Aterro. A aproximação com o poeta fora feita por sua esposa Marly de Oliveira, nossa antiga colega no Clube dos Doze, nos idos de ´50, quando todos queríamos ser poetas editados. João Cabral não passava por momentos favoráveis: com o agravamento de seus problemas visuais estava quase cego, atormentado ainda pelo velho estigma de uma dor de cabeça (enxaqueca) que o perseguia desde sempre. Logo no primeiro instante afastou a ideia de entrevista e disse que podíamos conversar à vontade pois queria saber muita coisa a respeito do que os leitores achavam de sua poesia. Chegou mesmo a me perguntar numa das vezes se ele seria lembrado depois de morto. Eu lhe disse, com toda a sinceridade, que sua obra era um divisor de águas da poesia brasileira: AC (antes de Cabral) e DC (depois dele). E tive de lhe mostrar o quanto nós, os poetas mais jovens, devíamos à sua estética seca e destituída de pieguismo. Mas creio que ele não gostou muito (pelo rictus da face) quando lhe disse que o considerávamos o nosso Ezra Pound. Certa vez, com dificuldade, levantou-se da sala e foi buscar os dois volumes de seus versos que tinham saído pela Nova Fronteira, no ano anterior: “Serial e antes” e “A educação pela pedra e depois”. Neles conseguiu escrever dedicatórias muito simpáticas, embora com letra irregular. Numa delas: “A Ivo Barroso, seu já amigo, João Cabral de Melo Neto”. Durante as conversas, que transformei em entrevista (com sua aquiescência) fiz-lhe uma pergunta que todos queriam saber naquela altura; se ele, apesar de não ter tratado do tema amor em seus livros, havia feito um retrato poético da esposa em “Sevilha andando”, um de seus últimos livros. A resposta está nesta entrevista que saiu no Prosa & Verso de 9 de janeiro de 1999, encimada pelo mesmo retrato que aqui reproduzimos.

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─ João, como foi sua infância? Você era um menino triste?

JOÃO CABRAL DE MELO NETO: Tive uma infância feliz. Fui menino de engenho e lia muito desde criança. Havia livros em casa, meu pai era advogado e gostava de Eça de Queirós. Minhas primeiras leituras de poesia deixavam-me insensível, achava aquilo tudo muito chato. Só fui gostar de poesia depois que conheci os poetas modernos, principalmente Drummond e Bandeira, já então no Recife, quando meu pai vendeu o engenho e se mudou para a capital. Foi lá que fiz os primeiros estudos e encontrei duas pessoas que marcaram minha formação: Willy Lewin, que me iniciou na literatura, e Vicente do Rego Monteiro, nas artes plásticas. Lewin me emprestava livros franceses, e Vicente, que estava voltando de Paris, onde fora estudar pintura, trouxe uma coleção de livros sobre pintores. Também com relação à pintura, só fui achá-la interessante depois que conheci os pintores modernos. Quando morei na Espanha, conheci Miró, de quem fiquei amigo. Embora não os conhecesse pessoalmente, convivi com a pintura de Dali, que achava um charlatão, e a de Picasso, que considero o gênio das artes plásticas.

─Por falar em Espanha, acha que sua poesia teria sido a mesma se, em vez de ter passado ali uma grande temporada, tivesse sido designado para a França ou a Inglaterra?

JOÃO CABRAL: A literatura espanhola ajudou-me a fixar alguns objetivos a que eu me predispunha, deu-me coragem para prosseguir no caminho da concretude. Minha ida para a Espanha como primeiro posto e voltando a servir ali em várias outras ocasiões fez com que me identificasse com aquele país. Sevilha é das minhas admirações mais profundas, o que fez talvez com que não me importasse muito com outras paisagens culturais do mundo. Além disso, conheci em profundidade a literatura espanhola antes de conhecer bem a portuguesa e acho-a superior, mais rica que esta. Dentre os poetas portugueses, costumo destacar Cesário Verde, um dos poucos que me parece isento de sentimentalismos. Na verdade, sem a influência da poesia espanhola eu não teria feito o mesmo tipo de poema.

─ E quanto à literatura inglesa, quais são suas preferências?

JOÃO CABRAL: Quando fui servir em Londres, em 1950, comecei a ler os poetas ingleses desde Chaucer e me interessei principalmente pelos metafísicos, que de metafísicos não têm nada. Dos posteriores, os que mais me chamaram a atenção foram George Crabbe (1754-1832) e Wilfred Owen (1893-1918). Depois me interessei por W H. Auden (1907-¬1973), mas não posso dizer que os ingleses tenham concorrido significativamente para o rumo da minha poesia.

─ Além da poesia e da pintura, que outra atividade artística o atraía?

JOÃO CABRAL: 0 cinema, por exemplo. Em Londres, filiei-me a uma meia dúzia de clubes de cinéfilos, de modo que podia ver um filme importante por dia, variando de clube. Foi assim que vi todos os clássicos russos, franceses e ingleses que me interessavam. Depois disso, o cinema perdeu muito para mim, pois sempre tinha a sensação do déjà vu.

─ Quem ligado às artes você conheceu na Inglaterra?

JOÃO CABRAL: Estive num almoço literário em homenagem a Eliot, mas não houve uma aproximação entre nós. Fui lá a convite e levado por Beata Vettori, que era minha colega no consulado e conhecia muitas pessoas no mundo das letras inglesas. À porta havia um aboyeur que anunciava aqueles que chegavam, geralmente dizendo-lhes o nome, a atividade exercida ou a função que ocupavam. Pude observar que Eliot permanecia imóvel mesmo diante de nomes importantes da poesia inglesa, mas se levantava solícito e corria ao beija-mão de qualquer dama do society inglês que chegava. Claro que isso não diminuiu em nada a admiração que tenho por sua obra. Considero “‘The Waste Land” e os “Four Quartets” os livros fundamentais da poética de nosso século. Já suas peças, como “Murder in the Cathedral”, por exemplo, me parecem grandes discursos poéticos destituídos de dramaturgia.

─ Quais são os seus poetas franceses preferidos?

JOÃO CABRAL: Gosto principalmente de Baudelaire, e de Valéry, sobretudo o Valéry teórico, pois o poeta me parece um tanto preso à tradição melódica. E de Mallarmé, por seu cuidado com a construção do verso.

─E no Brasil, quem destacaria?

JOÃO CABRAL: Sempre achei Drummond, Murilo, Joaquim Cardozo e Bandeira grandes poetas. Sobre os vivos, é difícil opinar, pois se esqueço algum me sinto mal.

─Quando diplomata, gostava da vida social, teatros, restaurantes?

.JOÃO CABRAL: Frequentava os tablaos na Espanha. Nunca fui um “gourmand” e muito menos um “gourmet”. Nunca me preocupei com comida no sentido seletivo ou esnobe do termo, de bons restaurantes, cozinheiros famosos. Na Espanha, vez por outra, ia a Cádiz comer mariscos, mas sempre em função de algum convite ou dever de ofício. O mesmo em relação a bebidas. Não sou apreciador de vinhos de mesa. Além do uísque dos coquetéis diplomáticos. sempre preferi o xerez e a manzanilla, vinhos que se tomam para conversar.

─Você que é o poeta mais premiado do Brasil, qual sua atitude diante dos prêmios literários?

JOÃO CABRAL: Acho bom recebê-los. Um prêmio literário dá satisfação a quem o recebe. Mas nunca andei “cavando” nada para isso. Minha única interveniência na consecução de um prêmio — o que recebi com o poema “O Rio” — foi inscrevê-lo no concurso, o que era obrigatório. Os outros vieram por via natural.

─ E o que pensa do Nobel?

JOÃO CABRAL: Nunca pretendi recebê-lo. Creio que a Academia Sueca não tem acesso direto à língua portuguesa, lendo seus autores (se os lê) por meio de traduções. Pelo pouco que li da tradução de meus livros acho que as perdas são grandes e sempre achei que havia outros brasileiros que o mereciam mais que eu. Desconfiei da possibilidade de ele vir a ser dado a um escritor de língua portuguesa, mas agora que foi concedido a Saramago, certamente levará outro século para que se lembrem novamente de nossa língua.

─Que significa para você a poesia? Se não fosse poeta, o que seria?

JOÃO CABRAL: A poesia é um trabalho, uma função, um ofício. Sempre quis ser um crítico literário, mas nunca me senti com capacidade suficiente para exercer a crítica. Passei a escrever, a fazer, a construir poesia, aquela poesia que eu, como crítico literário, gostaria de ver que alguém fizesse. Se não tivesse sido poeta, talvez fosse um diplomata melhor.

─Qual o sentido da vida ?

JOÃO CABRAL: Não gosto dessas questões metafísicas. Posso dizer apenas que com a idade nossas certezas ficam um tanto duvidosas.

─Em sua poesia, como você próprio já disse, o tema do amor está ausente. Mas, “Sevilha andando” não será um grande poema de amor à Marly? Em outras palavras, Sevilha=Marly?

 JOÃO CABRAL: É. Os críticos têm dito muita coisa sobre a minha poesia que jamais me passou pela cabeça. Mas você acertou. “Sevilha andando” é ela mesma.

E podemos esperar outro livro, que você estaria ditando, já que não consegue mais escrever?

JOÃO CABRAL: Não, estes dois foram meus últimos livros. Escrever poesia era para mim um ato visual, de trabalho quase manual com a palavra. Sem isto não consigo fazer poemas. Nunca os fiz na mente, a não ser uma ou outra ideia, que em seguida guardava no papel. Também não consigo “ouvir” poesia, que só se concatenava em meu espírito mediante sua forma no papel. No entanto, todos os dias minha mulher lê algo para mim, sempre uma releitura de meus livros. Há alguns meses, minha filha Inez tem passado por aqui de manhã e sempre lhe peço também que me leia alguma coisa. Mas abandonei o fazer poético porque, além da vontade, também as forças me vão faltando com o tempo e o sofrimento.

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To the Evening Star

Thou fair-hair’d angel of the evening,

Now, whilst the sun rests on the mountain, light

Thy bright torch of love; thy radiant crown

Put on, and smile upon our evening bed!

Smile on our loves, and while thou drawest the

Blue curtains of the sky, scatter thy silver dew

On every flower that shuts its sweet eyes

In timely sleep. Let thy west wind sleep on

The lake; speak silence with thy glimmering eyes,

And wash the dusk with silver. Soon, full soon,

Dost thou withdraw; then the wolf rages wide,

And the lion glares thro’ the dun forest.

The fleeces of our flocks are cover’d with

Thy sacred dew: protect them with thine influence.

William Blake

À Estrela Vésper

Louro anjo vespertino, agora enquanto o sol

Repousa na montanha, acende o teu brilhante

Facho de amor; na fronte, a lúcida coroa

Cinge, e sorri à nossa alcova adormecida.

Sorri ao nosso amor! e enquanto descerrares

O cortinado azul do céu, derrama o argênteo

Orvalho em cada flor, cujos olhos se fecham

Ao sono. Faze o vento adormecer no lago.

Pede silêncio com teus olhos bruxuleantes

E lava a escuridão com tua prata. Em breve,

Em breve partirás: feroz já uiva o lobo

No descampado e ronda o leão na mata escura.

O velo do rebanho está coberto com

Teu santo rorejar: protege-o com teu fluxo.

 Tradução de Ivo Barroso

SAIU EM LIVROS

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O FURIOSO MAR DE ALÍPIO
                Por IVO BARROSO

O leitor desta exuberante transposição brasileira do poema Vênus & Adônis, de William Shakespeare, feita pela  mestria tradutória de Alípio Correia de Franca Neto, terá um duplo motivo para apreciar o livro: uma abrangente e esclarecedora apresentação, em que são perquiridos não só os significados mas ainda as circunstâncias em que o poema foi escrito, e em seguida um texto poético em que a proficiência excepcional do tradutor enfrenta a quase impossibilidade de transladar em decassílabos brasileiros esses versos  intencionalmente sintéticos, já por si compactados pelo caráter  monossilábico do idioma inglês.

Inspirado nas Metamorfoses, de Ovídio, o poema narra a tentativa de sedução amorosa exercida pela deusa Vênus, que procura por todos os meios, principalmente pela convicção retórica, possuir carnalmente (ou fazer-se possuir) pelo belo jovem Adônis, cujo único interesse na vida é a caçada. Mas  tal foi o ardor das frases, encontradas pelo Poeta para expressar os argumentos da deusa, que o livro adquiriu, em sua época, a reputação de “erótico”, de um verdadeiro “manual de cantadas femininas”, em que há passagens de um “realismo” que ainda nos soa atual em sua descrição das manobras amorosas que antecedem o ato não consumado. Alcançando inúmeras edições em período relativamente curto, o livro ajudou decerto a minorar as necessidades pecuniárias por que passava o autor nesse período.

Sabe-se que Shakespeare compôs o poema numa época de recesso dos teatros ingleses, obrigados a fechar as portas para impedir  a disseminação da peste bubônica que grassava em Londres, e ameaçava a bem dizer toda a Europa. Sem os proventos que auferia com suas representações teatrais, o Bardo, seguindo um costume da época, procura então um sponsor, um mecenas que lhe possa auxiliar materialmente; para tanto, escreve longos poemas que dedica ao Conde de Southampton, então notório protetor das artes. Ao que tudo indica, o tributo ao nobre surtiu efeito, pois em seguida Shakespeare lhe dedica outro longo poema, A Violação de Lucrécia, com palavras já afetuosas e  assinando-se Your lordship´s in all duty, que pode ser entendido como alguém “para todo e qualquer serviço”. Com esses dois livros, e mais alguns sonetos que começam a circular poucos anos depois, Shakespeare conquista um lugar de respeitabilidade entre os poetas ingleses de seu tempo, algo que ainda não havia conseguido com sua produção teatral.

Esquematicamente, Vênus e Adônis é um poema de 1194 versos dispostos em 199 sextilhas (estrofes de seis versos), compostas por uma quadra acrescida de um dístico. As rimas são alternadas nas quadras (1º verso com o 3º, 2º verso com o 4º)  e em parelha (5º com o 6º) nos dísticos. Usando tais arcabouços tão constritos, o Bardo no entanto consegue milagres de síntese vocabular, jogos de palavras, aliterações recorrentes, além de um ritmo dialogal que dá ao leitor a sensação de presenciar as investidas da deusa e os recuos estratégicos do moço inseduzível. Shakespeare abusa dos adjetivos geminados, com que, pelo acasalamento de duas qualidades, reforça o significado do termo, acrescentando-lhe novas assonâncias associativas. E seu vocabulário concreto (substantivos) é dos mais ricos da língua inglesa.

Pois foi neste furioso mar de genialidades que Alípio Correia de Franca Neto teve a coragem de navegar sem recorrer a estratagemas facilitadores. Seria lícito usar, na tradução, versos alexandrinos (de 12 sílabas), mas ele se manteve na camisa-de-força do decassílabo (de dez), para acompanhar mais de perto o original. O texto inglês que antecede cada estrofe permitirá ao leitor versado em línguas apreciar os milagres de transposição conseguidos por Alípio, sem prejuízo do sentido e utilizando quase as mesmas palavras do original. Admirável é sua capacidade de sintetizar o verso sem deixar de obter um correspondente efeito poético em português. E lá onde o Vate enfileira duas ou três aliterações, Alípio, num passe de mágica, comparece com sua equivalência sonora em português. Mas são tecnicalidades dispensáveis para quem simplesmente aprecia um texto sem entrar nos pormenores de sua feitura. Sem cogitar de que se trata de uma das obras-primas da poesia internacional, o leitor desfrutará este poema como alguém que lê uma história romântica ou assiste a um filme de amor.

Prefácio escrito para o livro “Vênus e Adônis”, de William Shakespeare, com tradução, introdução e notas  de Alípio Correia de Franca Neto, editado pela Cosac & Naify, 2013

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MEU JORNALISMO EM PONTE NOVA
                               Por IVO BARROSO

Em Ponte Nova, por volta dos anos ´50, iniciei minha carreira jornalística, impulsionado pelo Dr. Edgard de Vasconcellos Barros, que foi meu padrinho literário (e, depois, também de casamento). Antes, em 1947, quando eu tinha 18 anos, ele fez publicar na “Gazeta de Viçosa”, meu soneto “O Pássaro Cego”, quando pela primeira vez vi meu nome impresso num jornal. Mas a “estréia” só teve seguimento quando, anos mais tarde, ele me incentivou a mandar colaborações para o “Jornal do Povo”, de Ponte Nova, editado pelos irmãos Lopes, que eu não conhecia. Nesta altura, eu já morava no Rio e mandava meus artigos pelo correio. A partir daí, a coisa andou rápido, pois,  já em 1951, após a publicação de alguns artigos, eu já via meus poemas estampados  com ilustrações  em páginas inteiras do “Suplemento Literário” daquela folha. Esse Suplemento foi uma ousadia do avançadíssimo Antônio Brant Ribeiro que, reunindo um grupo de articulistas de Ponte Nova e adjacências, criou um encarte de teor literário que circulava com número de páginas superior às do próprio jornal. Tony Brant, como era chamado, revelava-se, apesar de viver e trabalhar na província, um crítico literário de abrangência internacional. Formado no mais recente espírito do new criticism, servia-nos a todos com seus ensinamentos e nos orientava quanto aos rumos literários pelos quais avançávamos sem qualquer embasamento teórico. Suas cartas, comentando os poemas que eu lhe remetia e ele publicava, são verdadeiros parágrafos de um compêndio de crítica literária que ele necessariamente deveria ter escrito.   O suplemento circulou de setembro de 1950 a janeiro de 1953 e chegou a publicar cerca de 11 números, perecendo à falta de recursos como era e tem sido a sorte da maioria dos jornais interioranos.

Enquanto isto, minha colaboração para o Jornal do Povo propriamente dito aumentava. Depois de atuar solo, resolvi criar uma coluna “Os três mosqueteiros”, na qual, com os devidos retratinhos, meus amigos cariocas Albertus da Costa Marques (Athos), Arildo Salles Dória (Porthos), Geraldo Marques (Aramis) e eu (D´Artagnan) escrevíamos cada semana sobre um assunto comum. Falávamos sobre tudo, desde “o primeiro beijo” até “os porcos de Ponte Nova”, que estavam na ordem do dia com a campanha sistemática que o Dr. José Lopes fazia no sentido de erradicar-lhes a criação no perímetro urbano. Nesse entretempo, surgiu um novo jornal em Ponte Nova: a Gazeta da Mata, dirigido por Jamil Santos, que igualmente nos pediu colaborações. Os “mosqueteiros” passaram a atuar também na base do “cada um por si” e mantiveram suas colunas individuais mesmo depois da dissolução do grupo nas páginas do Jornal do Povo.

De repente, nas colunas da Gazeta surge um colaborador anônimo, ou melhor, com o pseudônimo de Fradique Mendes, que de sua hipotética quintarola. situada na pseudo Conceição do Furquim. fazia chegar ao jornal sua “correspondência” no lombo do burro Adezílio, conduzido pelo carteiro Orozimbo. Usando um estilo que tentava arremedar a linguagem castiça, Fradique “desancava” sem piedade não só os colaboradores dos jornais de Ponte Nova (chamada por ele ironicamente de “a douta”), como também “mexia” com os figurões notórios da cidade. Houve grande alvoroço em trono de sua identidade, que permaneceu incógnita praticamente até o fim. Mas era evidente que, apesar de se mostrar como testemunha ocular dos acontecimentos semanais,  não se tratava de ninguém da terra. A seção devia ser escrita com base em  informações que lhe eram transmitidas provavelmente pelo diretor do jornal, a quem chamava de “escriba”, e reformuladas por ele, daí a defasagem entre os acontecimentos e a publicação dos comentários. Com pouco,  Fradique passou a ser o assunto do dia na cidade e a despertar a acrimônia de todos os envolvidos. Além das críticas “sociais”, muito papel foi gasto em duelos léxico-ortográficos, com réplicas e tréplicas, sobre colocação de pronomes ou regências verbais. O clima esquentou com as desavenças provocadas por esses comentários e algumas pessoas se enfureceram contra o pobre Jamil, que chegou a ser ameaçado de agressão. Podem-se imaginar os sacrifícios e canseiras a que se submeteu: idas e vindas ao correio, a escassez de papel, noites inteiras de revisão, o assédio dos criticados, os problemas de saúde..,   Em face disso, Fradique recuou, deixando seu adeus numa carta, desta vez realmente útil, em que delineava o que seria a estrutura condizente de um jornal da província. Mas antes de se calar em definitivo, enfrentou os mosqueteiros, derrubando-os um a um numa espécie de duelo-balada à la Cyrano de Bergerac. Um tio, que morava conosco no Rio, acompanhava pelos jornais que eu recebia de Ponte Nova as estocadas de Fradique. E me aconselhava, na condição de mosqueteiro, a que não me metesse com o “zoilo do Furquim”. No dia em que chegou o jornal com a balada de Fradique, ele não se conteve: “Eu não disse! Esse Fradique acabou com vocês”. E foi inútil, mesmo com provas nas mãos, que o tentássemos convencer de que o Fradique era eu.

Artigo escrito especialmente para o livro “A História da Literatura em Ponte Nova”, editado pela Academia de Letras, Ciências e Artes – ALEPON, daquela cidade mineira.

ADENDOS:

FRADIQUE

Correspondência de Fradique Mendes
(Transcrição da última carta de Fradique Mendes)

Conceição do Furquim, 27 de abril de 1957.

Palavras de um moribundo, Escriba, são estas que aí vão; as de um moribundo, porém cuja morte não significa o término da vida, mas o regresso à rotineira insipiência desta. Morro à existência de crítico para renascer à minha condição de criticado. Deserto à originalidade para me a­plastar no ramerrão cotidiano. Mas, deixemos de frases bombástìcas, de rapapés inúteis com os quais me arrisco a assumir ares de gravidade, eu que sempre dei asilo ao cô­mico de preferência às coisas venerandas ou em demasia cerimoniosas. Dispamo-nos também dos véus diáfanos (?!) da excessiva presunção, da vaidade  ingente, que nos serviam de máscara ao natural recato e discreção –atitudes, estas, no íntimo, tão presumíveis e vaidosas quanto aquelas — e falemos francamente, Escriba, como se deve falar nas cartas, espelho do que se diz e não caricatura do que se deveria dizer.

Que não me venha, nestes, momentos finais, aquela atitude postiça altamente criticável de certos indivíduos, que decoram, durante a vida, frases lapidares pura as dizer, depois, à hora da morte, dando aos pósteros aimpressão de que foram sábios até no duro instante da partida. Há sentenças, meu Douto, atribuídas, in articulo mortis a determinados figurões, tão cheias de retórica, de figuras de sintaxe, etc., que, ou servem de atestado a que a Morte é o pórtico da sabedoria, ou — e para a hipótese me inclino – a que o falecido  não passava de refinado canastrão. Esse negócio de dizer frases bonitas no  momento de bater as botas não passa de rematada hipocrisia. Morrer é morrer, Escriba, e urge que morramos com dignidade. Um cálculo nos rins não pede frases, pede gemidos, e mais digno é  gemer que recitar hosanas cretiníssimas à vida. Fiquemos no pão, pão; queijo, queijo.

  Sejam apenas estas nossas palavras finais um apelo aos escribas dessa douta no sentido de que participem de maneira concreta no desenvolvimento e melhoria de nosso jornalismo. Ponte Nova possui os elementos necessários à formaçào de uma excelente pléiade jornalística, a qual.possibilitaria a projeção de nossas folhas extra muros, com proveito para os leitores das cidades circunvizinhas que carecem de jornais. Para que se atinja essa maioridade jornalística, entretanto, faz-se necessária a conjugação de dois esforços: um por parte dos redatores de nossas folhas, outro por parte dos colaboradores esquivos ou mal orientados. Geralmente os diretores de     jornais “à margem”, como os nossos, se deixam levar pela rotina, pelo comodismo, pela facilidade, esquecendo-se de que um jornal – mesmo do interior — é uma coisa viva, palpitante, feita com o objetivo primacial de atingir o leitor. Cada número deverá ser diverso e mais interessante que seu antecedente, e, em se tratando de publicações semanais, é mister que os :as­suntos explorados contenham uma dose necessária de in-. terësse, que possam resistir aos impactos destruidores de uma semana de elaboração.

Não se explica, por ex., a ausência de uma seção es­portiva nos jornais modernos, considerando-se o número de leitores que esta forçosamente atinge; mas, diga-se logo, para que uma tal seção surta efeito em ,publicações hebdomadárias, há de ser ela bem redigida, mais puxada ao comentário esportivo (local ou nacional), que à mera consignação de fatos ou lances já vistos ou sabidos. Quanto ao registro de acontecimentos socíais – seção igualmente indispensáve1 — somente agora começa este a ser feito com certo cunho pessoal, como é o caso da nova coluna de Dom Mark, motivo de frequentes críticas de nossa parte, não porque a condenássemos, mas porque ansiávamos pela sua perfeição; e, conquanto essa perfeiçao ainda esteja longe de ser atingida, constitui a coluna uma experiência vencedora, infinitamente superior ao registro convencional utilizado pelas demais folhas, onde se conservam todos os inconvenientes de um estilo ultrapassado, v. g., “colheu mais uma primavera…”, “acha-se enriquecido o lar…”, etc.

Falta-nos um ágil comentarista político; é verdade que temos o Dr. Rubens Grossi, mas seu partidarismo não lhe permite ver os fatos com a isenção requerida ao bom desempenho dessa atividade. Ainda: falta um cronista ­local, que registre o fato mais interessante da semana ocorrido em Ponte Nova; falta uma seção de crítica cinematográfica, não com o intuito de recomendar filmes ao leitor, mas para ilustrá-lo  sobre os vários aspectos da sétima arte; falta uma seção literária que procure despertar o gosto do leitor pela  verdadeira e proveitosa literatura moderna; jornalisticamente falando, falta bom gosto na paginação, faltam recursos tipográficos, falta… Seria interessante, por outro lado, que se formasse uma equipe de colaboradores-correspondentes, recrutados entre elementos de valor das cidades mais próximas, com o compromisso de enviarem às folhas os sucessos semanais de suas terras.

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Escriba, adeus! Muito obrigado pelo acolhimento que me foi dispensado nas já vitoriosas colunas da TRIBUNA DA MATA. Agradeço-lhe o silêncio a que se impôs por minha causa e o silêncio que por sua causa a mim me impus. Peço-lhe que continue a enviar-me os jornais da terra, não mais frumento para o meu jejum espiritual, mas esperança de que não tenha pregado no deserto. Vou-me embora para algures. O Furquim já não satisfaz às minhas ânsias de liberdade e de sossego. Encontrei uma pasárgada, outra maracangalha do sonho, a poucas léguas daqui, onde as cartas do amigo levarão menos tempo para chegar. Já ouviu falar em Cachoeira Torta? Portentoso nome, pois não? Fica a duas dezenas de quilômetros de Abre Campo e deve o apelido a uma queda dágua que sofre inclinação ao escorrer entre os rochedos. Clima salubérrimo, ali, naquela nova fonte de Castália, hei de dessedentar meu espírito ávido de saber. Dizem que os habitantes de lá, só pelo fato de beberem dessa água, são, por natureza, inteligentes.

 FRADIQUE

duelo

BALADA DE FRADIQUE CONTRA OS TRÊS MOSQUETEIROS

Arremedos de heróis e caricatos

Resumos para gostos infantis,

Das histórias de Dumas sois relatos

Em forma de quadrinhos de Gibis;

Se agora desfazeis antigos pactos

E vindes, cada qual por sua vez,

— Rezai por alma do defunto Athos:

Na semana que vem serão só três!

Os vossos golpes tímidos suporto-os

À ponta de bengala e sem afã;

Vossos floretes vão ficando tortos

Cada novo domingo de manhã.

Se fugistes de serdes todos mortos

De uma só vez, que aconteceu depois?

— Rezai por alma do defunto Porthos:

Na semana que vem serão só dois.

A maneira banal com que esgrimis

A vossa condição trai, de novatos.

Em vez de vos fazerdes varonis

Melhor seria dardes nos sapatos.

Em desdenhando o aviso que vos fiz,

Fostes o pão melhor do meu jejum.

— Rezai por alma de vosso Aramis:

Na semana que vem será só um!

OFERTA

Aviso ao mosqueteiro D´Artagnan:

Tratai de ser perito em vossa espada,

Que, a seis dias, contando de amanhã,

É bem possível que não sobre nada!

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Vida Boa

Um bancário com alma de poeta

Devo meu casamento à minha entrada no Banco do Brasil. Explico. Em 1953, a Sílvia, minha então namorada, me deu um ultimato: disse que eu precisava ter um emprego fixo, que me permitisse seguir uma carreira, para que pudéssemos enfim nos casar. Não me adiantou argumentar que não tinha temperamento ou habilidade para ser bancário, já que pretendia me tornar jornalista e poeta e estudava línguas e literaturas neolatinas na Faculdade Nacional de Filosofia. Mas o amor foi maior e segui a orientação dela: fiz cursinho, passei no concurso e, em janeiro de 1954, aos 24 anos, tomei posse no BB.

Ah, o casamento aconteceu em 1956, e ainda bem que dei ouvidos à Sílvia. Depois de 35 anos de uma auspiciosa carreira, aqui e no exterior, me aposentei em 1989 com a sensação do dever cumprido e com a felicidade de ter sido um bom profissional, que soube aproveitar todas as oportunidades que lhe foram oferecidas ao longo dos anos. Depois de aposentado, intensifiquei minha atividade literária escrevendo para jornais, publicando meus próprios livros e traduzindo cerca de 30 autores consagrados do inglês, francês, espanhol e italiano.

Comecei a traduzir por curiosidade. Ao longo da vida, fiz traduções por desafio, para ganhar dinheiro e para minha satisfação pessoal. Algumas, no entanto, foram feitas por amor, ou seja, por dedicação absoluta – sem pensar na publicação e muito menos na remuneração –, e me trouxeram aquela euforia inigualável própria do ato criativo. . Fui um dos selecionados pelo Prof. Paulo Rónai para traduzir trabalhos da Coleção dos Prêmios Nobel de Literatura; auxiliei Antônio Houaiss na Grande Enciclopédia Delta-Larousse e Carlos Lacerda na Enciclopédia Século XX. Por alguns trabalhos recebi prêmios, como o Jabuti, pela tradução de Os Gatos, de T. S. Eliot, outro pela Novela do Bom Velho e da Bela Mocinha, de Ítalo Svevo  e o da Academia Brasileira de Letras, pelo Teatro Completo, igualmente de  Eliot, Também traduzi Shakespeare, Rimbaud, Hermann Hesse, Calvino, Kazantzakis, Umberto Eco e vários outros.

Minha carreira bancária teve início na seção de Imposto Sindical da agência Centro, no Rio de Janeiro. Trabalhei depois em Cobranças no Interior, Cadastro e na Administração do Edifício Sede (todos onde hoje funciona o CCBB). Já comissionado fui servir na Gerência de Exportação da Cacex, onde me especializei em política do cacau, tendo representado a Carteira em várias reuniões internacionais. Em função desse trabalho, fui indicado, num convênio entre o Banco do Brasil e o Itamarati, para exercer as funções de adido comercial do Brasil na Holanda, de 1968 a 1970. Por esse trabalho de promoção comercial recebi a condecoração de Cavaleiro da Ordem de Oranje-Nassau.  Em 1973, tirei licença sem vencimentos e fui para Portugal como redator da revista Seleções do Reader’s Digest. Em 1978, voltei ao Banco como subgerente da agência de Lisboa, onde permaneci por cinco anos. Em 1983 fui transferido para a agência do BB em Londres, realizando assim o meu grande sonho de morar naquela cidade incrível. Em 1985, fui designado  para a Suécia, como primeiro gestor do escritório de representação do Banco em Estocolmo, onde me aposentei em 1989.

Antes de voltar definitivamente ao Brasil, eu e Sílvia, que é cantora lírica, realizamos outro sonho e vivemos mais quatro maravilhosos anos na França, onde pudemos desfrutar de toda a cultura europeia, que tanto amamos, e pude me dedicar ainda mais ao estudo dos autores que ia traduzindo.

Comprava e colecionava todos os livros, revistas e recortes que podia sobre a vida/obra do diabólico Arthur e cheguei a ter umas três centenas de livros correlatos. Quando regressei ao Brasil, em 1993, encontrei no editor José Mário Pereira, da Topbooks, um entusiasta pela obra de Rimbaud e com ele vim a editar os três volumes, Poesia Completa, Prosa Poética e, finalmente, a Correspondência, que saiu em 2009. Para fugir à tentação de voltar a rever a obra do poeta, doei todos os 180 livros de minha coleção “rimbaldiana” à biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil.

Aos poucos, fui publicando minhas próprias obras. Os livros de versos Nau dos Náufragos (1982) e Visitações de Alcipe (1991) foram editados em Portugal. No Brasil, publiquei A Caça Virtual e Outros Poemas (2001, finalista do Prêmio Jabuti de poesia daquele ano), editado pela Record. Organizei os livros Poesia e Prosa, de Charles Baudelaire (Nova Aguilar, 1995) e À Margem das Traduções, de Agenor Soares de Moura (Arx Editora, 2003). Escrevi o ensaio O Corvo e Suas Traduções (Nova Aguilar, 2000 – 3ª edição, 2012, pela LeYa-SP) e o manual Poesia Ensinada aos Jovens (Tessitura-BH, 2010). Para o Banco do Brasil, especificamente, escrevi o livro A Moeda no Brasil, que vem sendo periodicamente reeditado desde 2000, e traduzi o extenso catálogo da Exposição Paris 1900, realizada no CCBB em maio/junho de 2002.

Atualmente, vivo no Rio de Janeiro dedicado exclusivamente aos meus trabalhos literários e jornalísticos, e claro, a acompanhar de perto e a me maravilhar com as apresentações líricas da Sílvia, cuja voz permanece a mesma de quando me apontou o caminho glorioso do Banco do Brasil.

Saiu na revistinha da PREVI (Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil) em seu número de maio de 2013.

trem

Um Senhor em meu lugar

Em 1959, embora já trabalhasse no Banco do Brasil, eu dava meio expediente na Editora Delta, à travessa do Ouvidor, 66 – 3º andar, no Rio de Janeiro. Não consigo me lembrar como fui parar nessa empresa, provavelmente porque a essa altura, já colaborando com o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil e com dois livros traduzidos para a Civilização Brasileira, eu andasse buscando trabalhos extras onde quer que fosse. Soube que a Delta estava preparando uma enciclopédia e lá havia verbetes para tradução. Creio que comecei por aí, mas acabei indo trabalhar com o Dr. Pedro Lorch, um dos sócios da firma, na edição, para o público jovem brasileiro, de uma adaptação da enciclopédia juvenil norte-americana, Our Wonderful World. Toda semana, no  4º andar da editora, reunia-se um grupo de intelectuais (um brain storm, como dizia o Dr. Pedro) para opinar sobre as matérias que deviam entrar em tradução no livro e sobre as que precisavam ser adaptadas ou suprimidas. Eu devia atuar como uma espécie de secretário silencioso, anotando as sugestões. De posse delas, competia a mim encontrar os livros em que tais sugestões apareciam, copiá-las e conformá-las ao espaço a elas destinado no livro. Onde aparecia no original inglês, por exemplo, o diário de navegação de Colombo, a sugestão óbvia era trocá-lo pela carta de Caminha, e eu devia examinar o livro e achar os trechos correspondentes para depois adequá-los às páginas de nossa enciclopédia. Esse trabalho era feito na biblioteca do 3º andar, onde eu trabalhava sozinho, pesquisando os livros que lá havia e outros que eu podia encomendar à vontade às livrarias associadas da Delta. Nesse verdadeiro paraíso, sonho dourado do jovem poeta e escritor que então eu era, além de conviver com grandes intelectuais como Anísio Teixeira, Otto Maria Carpeaux, Aurélio Buarque de Holanda, Antônio Houaiss, Darcy Ribeiro, Péricles Madureira de Pinho e outros, eu ficara conhecendo o Carlos Scliar, que tratava das ilustrações e da paginação do livro, e chegou a montar seis cadernos da nossa enciclopédia (que guardo até hoje como relíquia). Mas quando estava mais me deleitando com aquele banho lustral, apesar das dificuldades crescentes para encontrar as fontes sugeridas nas reuniões, Scliar me informou que a obra ia ser descontinuada para dar lugar a um novo projeto que acabara de ser aprovado pela  Delta: a criação de uma revista. Senti-me ameaçado e mesmo despedido e fui falar com o Dr.Pedro, que me disse ser verdade, que a enciclopédia entraria em recesso e eu devia desocupar a biblioteca para a nova turma que chegava. Mas não estava despedido, apenas perderia a exclusividade da sala, pois ela seria transformada em redação. Sem dúvida teriam um lugar de tradutor para mim na futura revista. O mal é que  eu  ia  ficar  sem   o  “ bico ” que , confesso, graças à proteção de (são) Pedro Lorch, era bem remunerado. Mas vibrei quando me garantiu que eu não sairia da editora, talvez apenas da biblioteca. E a minha catedral refrigerada e silenciosa, onde eu fazia as minhas pesquisas e condensações, se viu um dia, de repente, invadida por uma turma ruidosa e descontraída que vinha criar a revista Senhor.

Quando cheguei de manhã, já encontrei a sala ocupada. À mesa, que eu considerava minha, estava sentado um senhor forte, de terno e gravata e fumando cachimbo, uma gravata dessas coloridas de entrevista na televisão. Ao lado dele, na mesinha onde eu escrevia à máquina, uma jovem senhora, com todos os clichês de secretária do chefão. Tratava-se de Nahum Sirotsky, jornalista da pesada, que estava vindo da Manchete depois de passar por vários jornais e revistas de prestígio e ter sido jornalista acreditado junto à ONU, em Nova York. É possível que tenha trazido de todos esses postos avançados uma certa pinta de americano, pois só aprovava os trabalhos ou sugestões de seus auxiliares com um  okie dokie, que era também correspondido por eles. E eles eram: Paulo Francis, Ivan Lessa, Luís Lobo, Adirson Barros, e na parte gráfica, além naturalmente do Scliar (que como eu já estava na casa), Glauco Rodrigues e Jaguar. Com a presença dos irmãos Weissmann (Simão e Sérgio), os sócios da Delta mais diretamente ligados à revista, Nahum fez um briefing sobre os objetivos da publicação que seria destinada a homens mas dirigida às mulheres de bom gosto; trataria de política e literatura em pé de igualdade; primoroso apuro gráfico; um estudo de fotógrafos premiados, mostrando moças bonitas e descoladas; muito humor, escrito e desenhado; ensaios sérios ao lado de dicas frívolas e maneirosas. Enfim, uma revista que pretendia ser uma New Yorker ou uma Esquire  mas com a nossa sem-cerimônia tropical. E apresentou um “boneco” do que seria o primeiro número: artigos de Carlos Lacerda, Otto Maria Carpeaux, Anísio Teixeira, Odilo Costa Fº, Reynaldo Jardim, Clarice Lispector,  Flávio Rangel, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos,  além de poemas e uma novela completa.

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Nahum, com seu cachimbo, juntamente com os okie dokies Ivan Lessa, Luiz Lobo e  Paulo Francis, pareciam todos empolgadíssimos como que antevendo a revolução gráfica que iriam causar no mundo editorial. Diferentemente do que ocorrera na enciclopédia, eu agora me sentia de todo sem função no meio daqueles rapazes agitados que se comportavam como estrangeiros (ou pelo menos com a ideia que eu fazia de estrangeiros). Continuei a ter uma mesinha com máquina de escrever que a bem dizer não usava, já que era continuamente compartilhada com os dinâmicos redatores. O mais lépido e trepidante deles,  Ivan Lessa, havia recém-chegado de Londres, onde morava, e produzia ideias em cascata,  parecendo estar ao mesmo tempo em todos os cantos e banheiros da editora. Luiz Lobo , mineiro já aclimatadamente carioca, distribuía seu sorriso matreiro mesmo tratando dos assuntos mais sérios, nos quais sempre introduzia um viés malicioso. Francis chegara na base do low profile, pois dias antes tinha sido o protagonista de um episódio então comentado a sottovoce pelos redatores da revista: ele fizera a crítica de um espetáculo teatral da companhia Tônia, Celi, Autran, e marcara a bobeira de insinuar que seus componentes formavam “um trio amoroso”. Dias depois, numa apresentação pública, Celi encontrara Francis na plateia, tirara-lhe os óculos e lhe aplicara um tabefe no rosto. Eu, que   já o conhecia dos tempos do Suplemento do JB e sabia de sua ampla cultura literária, logo me aproximei dele e antes de sair o primeiro número, em março de 1959,  ele já me “distinguia” com a encomenda da tradução de “As Neves do Kilimanjaro”, de Hemingway, para sair no lançamento da revista, onde acabei aparecendo em dose dupla, pois, nesse número inaugural, saiu também a minha tradução de um conto de Ray Bradbury, En la noche, apropriadamente ilustrado por Jaguar. Francis gostou tanto do trabalho que até escreveu uma nota de abertura dizendo que eu havia propositadamente usado os tratamentos tu e você na mesma frase para dar aos diálogos maior fluência e naturalidade.

Eu logo me integrava na equipe da Senhor e passei a traduzir sistematicamente todas as novelas e também alguns contos esparsos e poemas. Nahum chegou a me encomendar um artigo  “Para inglês ver”, que saiu no número de abril de 1959. Passei a “viver” o clima de agitação da revista, indo lá todos os dias, mesmo quando não tinha trabalhos para receber ou entregar. Um de seus financiadores, o jovem Sérgio Waismann, que também fumava cachimbo, entusiasmado com a dinâmica de Nahum, gostava de circular pela redação conversando com as figuras importantes que nos visitavam ou vinham trazer suas colaborações, e me tratava como um velho funcionário da casa. Tudo cheirava a sucesso. Grande foi a euforia dos patrocinadores e maior ainda a dos redatores com o lançamento dos primeiros números, largamente elogiados pela imprensa, embora as vendas ainda fossem inexpressivas e as firmas se mostrassem arredias diante dos altos padrões de qualidade exigidos para a colocação de anúncios.    Mas, ao fim de três meses, as finanças começaram a andar mal e os demais sócios resolveram estabelecer um dead line para saírem do vermelho. Contrataram então Ivan Meira e Edeson Coelho para comandar a publicidade e eles apareceram à frente de um grande séquito com a aura de trazerem consigo as contas publicitárias mais gordas do país. Contudo a vinda deles implicou apenas em acréscimo da folha de pagamento e a consequente redução do dead line antes imposto. Em fins de 1962, Reynaldo Jardim, que já havia assumido o lugar de Nahum, e o Edeson Coelho, o corifeu do gigante publicitário, assumiram o patrimônio da revista. Fui mantido em meu cargo de tradutor oficial e minha última colaboração neste setor foi a novela “Amor no trem ”, de Mary Mac Carthy, em setembro de 1962. Reynaldo, não podendo pagar os altos direitos autorais exigidos pelas editoras estrangeiras das novelas, resolveu substituí-las por uma seção chamada “Balaio”, que era uma espécie de suplemento literário com notas sobre livros, teatro, cinema, etc. Nela publiquei, no mês seguinte, um texto sobre Hermann Hesse, que havia falecido em agosto daquele ano.   Com a nova direção, a revista em seguida mudaria de endereço, deixando a travessa do Ouvidor. Seriam ainda editados alguns números, com novo rumo editorial, que dava maior ênfase aos assuntos econômicos. Acabou encerrando definitivamente suas atividades em janeiro de 1964.  E assim fiquei de novo sozinho na biblioteca, de volta ao trono, aguardando que um novo milagre viesse a acontecer…

Saiu no jornal (papel e JPG) O TREM ITABIRANO em setembro de 2013.

Nota: Se querem saber como acabou a história, é só ler a parte final do post de 27.05.2012 (Lembrança de Houaiss) aqui

fábulas

POR FIM, AS VERDADEIRAS FÁBULAS DE LA FONTAINE

Jean de La Fontaine (1621-1695) não escondia o jogo e informava desde o início a origem  de sua inspiração: “canto aqueles heróis cujo pai foi Esopo” e “me sirvo de animais para   instruir os homens”. Essa declaração consta do prólogo de sua primeira coletânea de fábulas (124) dedicadas a Monseigneur Le Dauphin, o filho mais velho do rei Luís XIV, o qual, naquele ano de 1668 contava apenas 8 anos e 5 meses de idade. Era essa a maneira notória com que os escritores da época buscavam a proteção de um mecenas para poder exercer seu ofício literário sem se aterem às preocupações domésticas. A oferta surtiu efeito e La Fontaine foi agraciado pelo rei com uma pensão anual de mil francos, além de fazer amizade com Nicolas Fouquet, superintendente das finanças reais, que lhe arranjou um emprego para o ajudar em sua obra poética. Certamente as coisas seriam ainda melhores se o delfim tivesse ascendido ao trono, mas ele morreu antes do pai e a coroa terminou cabendo a um bisneto de Luís XIV. Por outro lado, Fouquet se indispôs com o rei, perdeu o emprego, e quase arrasta nas más graças  La Fontaine, cuja sorte no entanto  permitiu com que duas  damas da corte, as duquesas de Bouillon e a de Orleãs, o hospedassem em suas mansões. Como não podia deixar de ser, o escritor acabou sendo recebido na Academia Francesa em 1684, apesar de certa oposição que o rei fazia ao seu nome, por ver, em suas Fábulas, alusões desagradáveis aos procedimentos da Corte

Ao longo de 25 anos (1668-1693), La Fontaine produziu e editou um total de 243 historietas,  divididas em 12 tomos, que se tornaram dos livros mais lidos da literatura francesa, e, no dizer de um de seus antigos editores, lhe asseguraram o lugar de “o mais francês de nossos poetas, o que embala nossa infância e cujas fábulas sugamos, de certa forma, junto com o leite materno”

Essas fábulas, apesar de lidas por crianças de todo o mundo, não se limitam a ser especificamente um livro infantil; os ensinamentos morais que delas derivam se aplicam não só aos homens comuns, mas aos governantes e poderosos. Além disso, a livre expressão de seu estilo, a recorrência a termos técnicos de diferentes artes e ofícios, suas alusões à história, à mitologia e aos costumes populares exigem uma leitura adulta e, em alguns casos, até mesmo inquiridora. Eis a razão porque certas edições aparecem pontuadas de notas, algumas bastante curiosas, como a do entomólogo Jean-Henri Fabre (1823-1915) que apontou erros científicos no comportamento dos insetos da fábula A Cigarra e a Formiga.  Certamente o cientista não soube ler o poeta que, desde o início, dando vozes aos animais, pretendeu criar uma feérie, uma fantasia, e não escrever um tratado zoológico…

As fábulas de La Fontaine atraem principalmente pelo “descompromisso” de sua leitura, pela liberdade de seus versos de metros variados e rimas não pretensiosas, recheados de expressões familiares, fazendo da linguagem animal um pastiche da humana. Era natural que o texto viesse a exercer fascínio sobre os tradutores de todas as línguas e, em português, temos inúmeros exemplos, desde os clássicos Manuel Barbosa du Bocage, Filinto Elísio, Curvo Semedo, Jaime de Séguier e Gonçalves Crespo aos nossos Machado de Assis, Raimundo Correa e o quilométrico Barão de Paranapiacaba. De tempos em tempos, o livro é revisitado, a linguagem atualizada, como aconteceu em nossos dias com as traduções de Milton e Eugênio Amado em 1989 e a do poeta Ferreira Gullar em 1997. E agora nos chega a boa surpresa neste volume das Fábulas Selecionadas de La Fontaine, edição encadernada em cor azul da Cosac Naify, com ilustrações do artista norte-americano Alexander Calder e tradução (como sempre impecável) do nosso Leonardo Froes. Como alguns de seus predecessores famosos (Jean de Granville, Karl Girardet, Gustave Doré, Marc Chagall, etc), Calder, o famoso criador dos móbiles e das esculturas monumentais, também se apaixonou pelas fábulas e selecionou 36 delas para ilustrar. O resultado foi a criação de desenhos um tanto cômicos e bem arejados que diferem das concepções macambúzias de seus antecessores. E exibem uma dinâmica gestual que se casa perfeitamente com a naturalidade da exposição poética de La Fontaine. Em pé de igualdade,notórios são os acertos do tradutor: sem se afastar uma sílaba que seja da métrica original, Leonardo Froes consegue traduzir integralmente sem adaptar, sem reescrever, sem copidescar. O texto francês posto em cotejo permite ao leitor seguir a habilidade com que ele translada não só o sentido, mas as mesmas palavras, ditas na mesma forma em que  estão no original. As múltiplas adaptações de todo gênero, que inundaram o mercado de livros infantis, só serviam para falsear o texto, descaracterizar o estilo do autor. Felizmente com esta bela edição da Cosac Naify, as crianças poderão conhecer o que lhes vinha quase sempre adulterado, os leitores adultos reavaliar um texto que lhes parecerá inteiramente novo e, aqueles que se interessam diretamente pela exaustiva arte da tradução, aplaudir a segurança com que Froes vai assimilando e reproduzindo cada verso do francês.#

Saiu no  Prosa & Verso (O Globo) em 17.08.2013 com o título “Cálder, Fróes e as Fábulas de La Fontaine”

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Lembrança: Souvenir, souvenir, que me veux-tu ? (Verlaine). Eu saía de casa no square (espécie de rua particular) du Trocadéro e descia  pela rue Sheffer à esquerda em direção da rue du Passy. E era só continuar pela rue du Passy que se chegava à Chaussée de la Muette já na entrada do parque  Ranelagh onde se encontra o excelente museu Marmottan com suas 65 telas de Monet, doadas por seu filho Michel em 1971. O parque é dedicado às crianças e tem um teatro de marionetes (guignol) e um carrossel. Mas antes,  logo à entrada, está a enorme estátua de La Fontaine com o indefectível corvo trazendo en son bec un fromage. Voilà!

ADOÇA A BOCA

UM POEMA DE GEORG TRAKL TRADUZIDO POR IVO BARROSO

Nova Imagem

AO JOVEM ÉLIS

Élis, quando o melro chamar na escuridão do bosque,

Será teu ocaso.

Teus lábios ainda bebem o frescor azul das fontes da montanha.

Mas logo, em tua fronte irão sangrar suavemente

As lendas remotíssimas

E a obscura interpretação do revoar dos pássaros;

E então irás com leves passos pela noite adentro

Em meio aos pendentes racimos cor de púrpura

Movendo teus braços ainda mais belos nesse azul.

Uma sarça estala

Em que teus olhos lunares se concentram.

Desde quando, ó, Élis, estás morto.

Teu corpo é um jacinto

No qual um monge mergulha os dedos lívidos.

Nosso silêncio é uma caverna escura,

Donde sai às vezes uma fera mansa

Que abaixa lentamente as pálpebras pesadas.

Um orvalho negro roreja em tuas têmporas.

O ouro extremo de uma estrela extinta.

Nova Imagem (1)

GEORG TRAKL (1887-1914)

AN DEN KNABEN ELIS

Elis, wenn die Amsel im schwarzen Wald ruft,

dieses ist dein Untergang.

Deine Lippen trinken die Kühle des blauen Felsenquells.

Lass, wenn deine Stirne leise blutet

Uralte Legenden

Und dunkle Deutung des Vogelflugs.

Du aber gehst mit weichen Schritten in die Nacht,

Die voll purpurner Trauben hängt,

Und du regst die Arme schöner im Blau.

Ein Dornenbusch tönt,

Wo deine mondenen Augen sind.

O, wie langs bist, Elis, du verstorben.

Dein Leib its eine Hyacinthe,

In die ein Mönch die wächsernen Finger taucht.

Eine shwarze Höhle ist unser Schweigen,

Daraus bisweilen ein sanftes Tier tritt

Und langsam die schweren Lider senkt.

Auf deine Schläfen tropft schwarzer Tau,

Das letzte Gold verfallener Sterne.

Considerado por André Breton “um dos maiores poetas do princípio do século [XX]”, Georg Trakl nasceu em Salzburg (Áustria) e teve uma juventude tormentosa, tendo morrido aos 27 anos de uma overdose (ocasional?) de ópio, em que se viciou acidentalmente. Vocês podem se informar extensamente sobre sua biografia no Google, bem como ver e ouvir no youtube este poema declamado em alemão por vários atores. A melhor tradução em português para o título seria Ao moço Elis, mas a cacofonia remete logo para almoço, o que estraga a linguagem elegíaca do poema.

ATENÇÃO: Esta tradução é para anunciar a volta da Gaveta no próximo dia 25 de outubro.

Até lá.

ANIVERSÁRIO

-bolo_aniversario+3

A Gaveta está completando três anos hoje. Sujeita a ausências intempestivas, a férias sabáticas e a retiros sparituais é curioso que tenha sobrevivido ao desencanto, ao tédio ou à sensação de inutilidade de seu autor. De outras vezes a volta foi salva pela conclusão de que este é o local perfeito para depositar o lixo que guardo nas minhas estantes. Satisfaz-me a idéia de que posso mandar tudo que escrevo para a estratosfera ou para um espaço indefinido de nosso mundo cibernético. A Internet é a eternidade do presente, o lixão da história contemporânea em que tudo, absolutamente tudo pode ser jogado ali sem que haja montanhas de detritos aparentes ou malcheirosos.

Faremos a parada habitual por tempo indeterminado. Das outras vezes, os leitores continuaram consultando o blog, vasculhando a gaveta e encontrando, conforme o gosto, algum poema antigo ou uma borbulhante taça de champagne — autônomos, despreocupados, sem dar por nossa falta pessoal. Estamos certos de que a gaveta tem vida própria, não necessita de nossos aportes periódicos. Vez por outra um amigo ou mesmo um leitor desconhecido deixa um comentário num dos artigos e vibramos com a ilusão de que esteja havendo uma comunicação nossa com o público, a sensação de não estarmos falando sozinhos. Mas há momentos em que o silêncio dos leitores (amigos ou desconhecidos) em relação a assuntos que nos tocam mais de perto nos deixa sem ânimo, mergulhados numa desolação de auditório vazio. O comentário do leitor, inclusive e principalmente o supletivo, é a razão de termos ido até aqui, aos 3 anos, e a esperança de que ele se manifeste, até mesmo em nossa ausência, será sem dúvida uma razão para voltarmos.

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