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Ainda há pouco, quando ia iniciar este post, estive a ponto de partir para um daqueles meus antigos RECESSOS, ou seja, aquela paradinha que eu me impunha na Gaveta sempre que me sentia sem ânimo de continuar, na dúvida de estar escrevendo para leitores inexistentes. O assunto do post de hoje seria a apresentação de dois grandes poetas, ambos paulistas, que desfrutaram da nossa maior admiração nos tempos da juventude: Guilherme de Almeida e Menotti del Picchia. Mas aí bateu a indagação:  para que seguir com esta Antologia se ela já surge ultrapassada ao falar   quase sempre   em “coisas do meu tempo” ou “nos jovens da minha geração”? Que interesse poderia ter para os leitores de hoje, adeptos do WhatsApp, do Google e do telefone celular, essas velharias que lhes quero impor?

A cada semana, dou uma olhada (demorada, diga-se) nas estatísticas do blog e verifico que os assuntos, que de mim exigiram o maior desvelo, foram os menos consultados. O grosso das visitas se concentra sistematicamente numa tradução que fiz do poema “O Corpo Elétrico”, de Walt Whitman, acessado pelo menos por 30 visitantes-dia? E já que estou aqui “chorando” por uma comunicação maior com os leitores, não seria melhor que eu fizesse a tradução de algum outro poema do Whitman, para assegurar, dessa forma, um maior número de visitações. Correto?

Andei uns tempos empolgado com a Antologia, ou melhor, com as antologias, já que havia conseguido introduzir uma pequena dose de humor naquele assunto específico (poesia). A pesquisa do motivo de algum pai ter dado a seu filho o nome de Eurícledes me fez recorrer a enciclopédias, nominatas, chatear amigos, e até mesmo escrever à família do falecido Dr. Zerbini, que era o outro (além do Formiga) a carregar esse nome. Tempo e esforço perdidos. Ninguém se manifestou a respeito, embora, curiosamente, eu tenha conhecimento de que há muitos outros “Eurícledes” no Facebook. No caso do poeta “esdrúxulo’ Junquilho Lourival, depois de procurar por uma foto sua, esgotei as fontes imediatas de consulta e cheguei a recorrer à Academia Norte Rio-grandense de Letras, sem obter êxito, mesmo assim…

Naquele entusiasmo inicial, estive mesmo a pensar em fazer uma espécie de adendo ou separata em que desse aos leitores iniciantes algumas noções do que era um soneto, o porquê de chamarmos “de primeira linha” a uns e de defeituosos a outros. Daí se seguiriam noções sobre a arte da metrificação, etc. Se o entusiasmo crescesse, pensávamos até em contar a história do soneto baseada na obra-prima do nosso Mello Nóbrega. E um desfile de sonetos famosos, em várias línguas, é claro, com suas respectivas traduções. Mas…

Confesso que esperava uma participação maior de meus leitores em relação às Antologias; que falassem algo sobre os poemas, se já os conheciam, se a leitura deles lhes havia despertado alguma lembrança ou sentimento agradável. Enfim essas conversas de “velho”. Agradeço, vivamente, àqueles amáveis leitores que, logo no princípio, elogiaram o empreendimento, considerando-o útil mesmo para as jovens gerações. Mas – insisto – foram tão poucos que já agora não sei se algum deles continuou a consultar os posts.

Pedindo desculpas por essa choradeira, fico, à espera de um sinal que me permita continuar ou então pendurar definitivamente a lira nos salgueiros (aí vai mais uma expressão antiga…)

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Nosso amigo André Ladeia, de Varginha-MG, acaba de lançar pela  Oito e Meio um livro híbrido de poemas e contos, cujo título Mordaça vem, na capa, ampliado pela ameaça de uma guilhotina. A primeira parte é quase toda constituída de haicais ou wittcisms, vez por outra entrecruzados por poemas de estruturas  mais amplas. Termina com três  contos, todos chegados à literatura fantástica, com destaque para o primeiro (Nihil), que é uma espécie de autobiografia imaginária. A qualidade do estilo de André é inquestionável e em vez de indecisão mostra, com essa variedade, o perfeito domínio de uma pletora de possibilidades. Daí esperamos futuros gritos escancarados.

 

Deixei de ser lírico no dia em que me tornei poeta.
Certa vez /Conheci um homem tão bom/ Mas tão bom/
Que quase era um cachorro.
O universo inteiro/ Na palma das mãos; /As estrelas /Na ponta dos dedos.
A infância / Corre tanto /Que se perde /Da gente.
Depois de algum tempo no exterior, /Você passa a agir como os nativos. /
Você passa a andar, a falar e a se vestir como eles /
Você passa a cheirar como eles.

***

ANTOLOGIA POÉTICA DA GAVETA (11)

Voltemos à nossa Antologia, agora com dois nomes de peso, que sempre figuravam entre os poetas de “primeira linha” dos nossos velhos álbuns de poemas: Nilo Bruzzi e Onestaldo de Pennafort.

NILO BRUZZI (1897-1976) – poeta mineiro –

De nome completo Nilo de Freitas Bruzzi, este poeta nascido no Pomba-MG, jornalista militante, ficou famoso com o soneto abaixo, verdadeira coqueluche dos antigos declamadores de salão.

 

ÚNICA

No turbilhão da vida cotidiana
Há sempre um rosto oculto de mulher.
Há no tumulto da existência humana
Alguém que a gente quis e ainda quer.

E numa sede de paixão insana,
Cego e humilhado, aceita outra qualquer,
Mas, no íntimo ardor, de alma profana
Porque a alma nem acordará sequer.

E vão passando, assim, uma por uma,
Mulheres e mulheres , como vieram,
Sem depois despertar saudade alguma…

Pobre de quem, como eu, vê que, infeliz,
Tive todas aquelas que o quiseram
Mas,nunca teve aquela que ele quis.

*** *** ***

ANTOLOGIA DOS POETAS ‘ESDRÚXULOS’ 

ONESTALDO DE PENNAFORT (1902-1987) – poeta carioca (12)

Onestaldo de Pennafort Caldas figura aqui entre os ‘esdrúxulos’ não por seu nome que poderíamos classificar no máximo de “invulgar” ou “único” (não encontramos nenhum homônimo seu em nossas pesquisas), mas pela oportunidade de fazermos um paralelo temático entre o seu célebre Soneto (abaixo) e a composição anterior, de Nilo Bruzzi.  A grande fama literária de Onestaldo lhe veio principalmente por sua obra de tradutor de poesia, um de nossos maiores, ao trazer para a nossa língua toda a lírica de Verlaine e o verbo dramático de Shakespeare.

 

SONETO DA ESCRAVA

Ela chegou, chegou-se a mim e disse
Que tinha vindo para ser escrava…
E eu respondi-lhe que era uma tolice
Aquela frase que ela murmurava.

Lembrei-lhe a triste história de Belkiss…
E ela, sem dar ouvido ao que escutava,
Fechou os olhos e, num beijo, disse
Que tinha vindo para ser escrava…

E eu, num gesto de pura maluquice,
Ao vê-la assim, tão cheia de meiguice,
Abri os braços para a que chegava…

Sem pressentir que, por desgraça minha,
Do meu destino ia ficar rainha
Quem tinha vindo para ser escrava…

 

Nota sobre o soneto acima:

É curioso notar que, quando da publicação deste soneto numa revista semanal da época, houve um crítico-leitor que aconselhou o poeta a modificar o 1° verso para: Ela chegou-se para mim e disse, a fim de evitar a repetição do verbo. Ora, uma das sutilezas deste verso está precisamente na repetição do verbo chegar, com duas regências distintas: chegar, intransitivo, no sentido de vir, e chegar-se, pronominal, no sentido de aproximar­-se — com o que toda a frase adquire uma dinâmica de manobras sutis nas quais se pode vislumbrar a felinidade e a envolvência dessa nova Rainha de Sabá (a Belkiss do 4° verso), que surge e se encaminha para o poeta e, só bem junto dele, lhe segreda a frase “que tinha vindo para ser escrava”. Verso que sugere um verdadeiro travelling cinematográfico.  Além do mais, Onestaldo, como purista que era, certamente não admitiria a construção chegou-se para e a alternativa chegou-se a quebraria a contagem decassilábica do verso. Além desse efeito repetitivo, porém amplificador de significâncias, o reaparecimento dos dois versos iniciais no fecho da segunda quadra, longe de empobrecer o soneto, dá-lhe um caráter de harmoniosas recorrências que corroboram a duplicação inicial. Louve-se ainda a sutileza da rima dos 4° e 6° versos (Belkiss com disse), que poderia parecer imperfeita, mas cuja leitura em enjambement, ou seja, com o extravasamento da linha para ligá-la ao início do verso subsequente (Belkiss e ela), restaura todo o seu valor consonântico, toda sua integralidade fônica (Belkis-se). Este soneto ficaria nos florilégios nacionais ao lado de grandiosas obras-primas da sonetística brasileira, tais como Os cisnes, de Julio Salusse (“A vida, manso lago azul, algumas”), Contraste, do Pe. Antônio Tomaz (“Quando partimos, no vigor dos anos”), e Duas almas, de Alceu Wamosy (“O tu, que vens de longe, ó tu que vens cansada”), e é o responsável por seu autor ser lembrado ainda hoje também como poeta autônomo, além do inesquecível tradutor que foi.

 

A Semana Santa nos permite recorrer aos tesouros da poesia sacra para o enriquecimento de nossa Antologia. O mais famoso poema de caráter religioso que conhecemos é o denominado “Anônimo Espanhol do Século XVI”, cuja autoria vem sendo atribuída a vários poetas cristãos, como a Santa Teresa de Jesus, a São Francisco Xavier e a Santo Inácio de Loyola. A crítica atual, com grande fundamento, consigna sua autoria ao Doutor da Igreja San Juan de Ávila (1499-1569). O tema do soneto é o ideal cristão da abnegação sem retribuição alguma (o amor de Deus por amor a Deus mesmo) e sua feitura poética é de tal forma acabada que nos leva a considerá-lo o “soneto perfeito” (ao lado de “Sete Anos de Pastor”, de Luís de Camões)

No me mueve, mi Dios, para quererte
el cielo que me tienes prometido,
ni me mueve el infierno tan temido
para dejar por eso de ofenderte.

Tú me mueves, Señor, muéveme el verte
clavado en una cruz y escarnecido,
muéveme ver tu cuerpo tan herido,
muévenme tus afrentas y tu muerte.

Muéveme, en fin, tu amor, y en tal manera,
que aunque no hubiera cielo, yo te amara,
y aunque no hubiera infierno, te temiera.

No me tienes que dar porque te quiera,
pues aunque lo que espero no esperara,
lo mismo que te quiero te quisiera.

Sua tradução em português parece facílima, pois todos os termos são em nossa língua praticamente os mesmos, o que enseja a possibilidade da manutenção das rimas (querete=querer-te, prometido=prometido, etc), com exceção do 4º verso do 2º quarteto em que a palavra muerte não tem o mesmo som em português (morte). A tradução brasileira consagrada é a do nosso grande poeta Manuel Bandeira:

 

A CRISTO CRUCIFICADO

Não me move, meu Deus, para querer-te
O céu que me hás um dia prometido;
E nem me move o inferno tão temido
Para deixar por isso de ofender-te.

Tu me moves, Senhor, move-me o ver-te
Cravado nessa cruz e escarnecido
Move-me no teu corpo tão ferido
Ver o suor de agonia que ele verte.

Moves-me ao teu amor de tal maneira,
Que a não haver o céu ainda te amara,
E a não haver o inferno te temera.

Nada me tens que dar porque te queira;
Que se o que ouso esperar não esperara,
O mesmo que te quero te quisera.

 

Em 1991, quando publicamos nossa antologia de poemas traduzidos (O Torso e o Gato), incluímos uma versão desse poema, cujo intuito era somente o de preservar a frase “afrentas y tu muerte”, de alta significação no contexto do poema (o corpo sofrendo afrontas moribundo).   Ei-la:

 

Não me move, meu Deus, para querer-te
O céu que me deixaste prometido
E nem me move o inferno tão temido
Para deixar, por isso, de ofender-te.

Tu me moves, Senhor, move-me ver-te
Pregado numa cruz e escarnecido;
Move-me ver teu corpo tão ferido
Sofrer afrontas e jazer inerte.

Move-me, enfim, o teu amor eterno
Que, em não havendo céu inda te amara
E te temera não houvesse o inferno.

Nada por teu amor minh’alma espera,
Pois se o que espero achar não esperara,
O mesmo que te quero te quisera.

 

ANTOLOGIA POÉTICA DA GAVETA (9)

GREGÓRIO DE MATOS Guerra (1633-1695) – poeta barroco baiano

Primeiro grande poeta do Brasil e o maior do nosso período barroco (século XVII), dono de vastíssima obra, compreendendo gêneros como o satírico, o lírico, o sacro e até mesmo o pornográfico, certamente não figurava em nosso Caderno de Poesias que dava preferência aos românticos e, em especial, aos parnasianos.

Entra hoje aqui em homenagem à data religiosa e por ser um ícone da poesia sacra brasileira, sobre cujo valor e significância pretendemos em breve fazer um pequeno estudo, com destaque para seus vultos mais importantes.

BUSCANDO A CRISTO

A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p’ra chamar-me

A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.

 

 

ANTOLOGIA DOS POETAS ‘ESDRÚXULOS’ (10)

JUNQUILHO LOURIVAL (1895-XXXX) – poeta norte-riograndense

O curioso nome floral deste poeta, Francisco Junquilho Lourival, se deve certamente ao fato de o pai, também poeta, cujo nome completo era Joaquim Edwiges de Mello Açucena (1827-1904), ter querido agraciar um de seus (ditos) 34 filhos com esta referência a uma espécie vegetal. Figura emblemática de Natal-RN, poeta, conquistador, violeiro, herói, etc. este senhor Edwiges Açucena merece uma pesquisa no Google (não deixem de ver). Quanto ao filho, além de poeta, repórter, advogado, era funcionário público e teve o mérito de recolher e publicar toda a obra poética do pai, até então inédita. Seu soneto que transcrevemos é um dos mais belos de nossa poesia religiosa. Infelizmente não conseguimos, mesmo recorrendo à Academia Norte-Riograndense de Letras, uma foto do poeta para ilustrar esta matéria. Mas o soneto dele, belíssimo, vale por tudo isto.

 

JESUS

Senhor, ao teu desejo elevo a taça
Transbordante de fel do meu tormento!
Tua vontade sobre mim se faça
E seja o teu amor meu pensamento!

Que a minha fé, Jesus, não se desfaça,
Das perversões ante o deslumbramento!
Por mim passe a maldade como passa
O grão de poeira no fragor do vento!

Mártir da Cruz, ó símbolo da Mágoa!
Dá-me a cumprir sereno a minha pena
— Chagado o corpo e os olhos rasos d’água.

E faze que esta boca humilde e boa
Nunca maldiga ao que disser — Condena!
Mas beije os pés ao que disser — Perdoa!

Incentivado por uma série de mensagens em apoio a esta nova seção, continuamos hoje a tratar daqueles poetas que, em nosso tempo, eram tidos como “de primeira linha” e cujos versos até sabíamos de cor. Entre eles, em primeiro plano, estava quase sempre o gaúcho Alceu Wamosy, provindo de uma família de origem húngara, autor de um soneto famoso. Esses versos eram por nós considerados “tiro certo” quando os recitávamos  para as nossas namoradas, dando ênfase àquele “Ó tu que vens de longe…), mesmo quando as garotas não passavam de nossas vizinhas.

ALCEU WAMOSY (1895-1923) – poeta gaúcho                                

DUAS ALMAS

Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,

entra, e, sob este teto encontrarás carinho:

Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,

vives sozinha sempre, e nunca foste amada…

 

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,

e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.

Entra, ao menos até que as curvas do caminho

se banhem no esplendor nascente da alvorada.

 

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,

essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,

podes partir de novo, ó nômade formosa!

 

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:

Há de ficar comigo uma saudade tua…

Hás de levar contigo uma saudade minha…


 

ANTOLOGIA DOS POETAS ‘ESDRÚXULOS’ (8)

CLEÔMENES CAMPOS (1895-1968) – poeta sergipano

Poeta pré-modernista, deve seu nome a uma referência a vários personagens históricos, principalmente a Cleômenes I, rei de Esparta. Fez carreira pública em S. Paulo e é autor de um dos sonetos mais estranhos de nossa literatura.

 

COR CORDIUM

 

Quando eu morrer, procura uma árvore florida,

E cava-lhe no tronco, amada, o meu caixão:

Quero que aí repouse o meu corpo sem vida,

Longe do humano olhar, dentro da solidão

 

Cante-me o réquiem triste a voz da água perdida…

Reze por mim o vento a sua alta oração…

E seja-me o silêncio a lápide escolhida:

— Que vale, neste mundo, a maior inscrição?

 

E, um dia, quando tu, minha doce Querida,

Fores ver-me (talvez o tronco esteja são),

Para que aches, sem custo, a árvore preferida,

 

Farei cair da altura um fruto em tua mão,

Fruto que, ao roçar a palma comovida,

Irá tomando a forma e a cor de um coração…

 

NOTA IMPORTANTE: Recebemos carinhosas palavras de incentivo de alguns leitores amáveis, mas voltamos a insistir com os demais frequentadores destas páginas, principalmente junto aos cultores de poesia, para que não deixem de se manifestar quanto aos poemas aqui apresentados. E continuo aguardando algum esclarecimento sobre a origem do nome Eurícledes ou Eurycledes, dados a um poeta e a um cirurgião, e sobre cuja origem nada conseguimos encontrar até agora.

 

Em recente entrevista com um grupo de aeromoças de várias companhias nacionais, o repórter de um jornal que está nas “últimas horas” foi surpreendido por uma declaração espontânea, vivaz e curiosa, que logo transcreveu.

Perguntava ele àquelas eficientes auxiliares das tripulações de voo, se o aparecimento de seu “príncipe encantado” não viria colocá-las em choque com a profissão que escolheram, porquanto umas das exigências básicas das companhias empregadoras é  que a funcionaria seja e permaneça solteira durante seu tempo de serviço. Aquelas que se casam e querem continuar trabalhando são geralmente removidas para serviço de terra, como recepcionistas ou despachantes de aeroporto.

Algumas das pequenas entrevistadas, quer por excesso de idealismo ou porque se iniciassem agora nas travessias aéreas, responderam que não trocariam as nuvens e as tormentas por nenhum homem deste mundo. Outras, bastante veteranas, já não saberiam fazer outra coisa e nem cogitavam mais do aparecimento do “príncipe”, apagando em si, apesar do contato diário com o etéreo, todas as cambiantes multicoloridas da fantasia humana.

Houve uma, entretanto, que sem o otimismo iridescente dos primeiros voos, nem o pessimismo tormentoso de anos e anos de serviço, respondeu ao moço do jornal ali na enxuta, sem titubeios, mais ou menos o seguinte:

“ Estou farta de voar. Esta, como qualquer outra profissão, acaba entrando numa rotina insuportável e um ou mais dois milhões de quilômetros voados faz qualquer uma odiar o pôr-do-sol mais belo do planeta. Meu sonho é uma fazendinha no interior de Minas. E o dia em que o meu “príncipe” (também desencantado como eu) se decidir, lá viveremos bem alegres a ordenhar vaquinhas, de olhar perdido no verde das montanhas”.

A frase foi transcrita em vários jornais do Rio, ao pé das declarações mais importantes da semana. E os leitores de Minas, tendo às mãos aquele sonho da moça, talvez se tenham perguntado, meditativos, porque aquela frase tão simples, tão discordante das outras, conseguira alcançar tamanha repercussão.

Acontece que os desejos da aeromoça Léa sintetizam aqueles de mais da metade da população do Rio. Esmagados pelo cotidiano de fronteiras cerradas, desiludidos com a falsidade e na angústia da vida que levamos, quem de nós não idealiza o recanto de paz e de vida autêntica com que sonhou aquela pequena visitadora dos espaços? Estamos cercados pela sordícia e pela impunidade, e embora a vida no campo não seja mais aquela solitude bucólica dos tempos de Lucrécio e de Virgílio, é pelo menos o refúgio de um mundo apodrecido em suas bases. Viver sem dar conta dos desmandos do Governo, do que pactua a Justiça, das mil canalhices diárias que presenciamos nesta pobre Capital, é um ideasonho tão grande  quanto o que Platão sonhou em sua “República” ou Thomas Morus ao escrever sua “Utopia”.

NOTA: Este artigo foi publicado originalmente, há 65 anos, em 17 de março de 1953, no JORNAL DO POVO, de Ponte Nova-MG, em que eu mantinha uma coluna semanal denominada Bilhete do Rio. Republico-o hoje no aniversário de minha irmã Therezinha Léa, que está completando 90 anos, e informo que ela realizou, em parte, seu anseio bucólico (sem, no entanto, criar as sonhadas vaquinhas), administrando um pequeno sítio em Rio das Flores, no Estado do Rio de Janeiro. Parabéns para ela!

O que mais me espanta neste artigo, além da brutal passagem do tempo, é verificar que a situação política do país, naquela época totalmente caótica, permanece a mesma, agravada pelo fato de termos exponencialmente multiplicado os valores da corrupção. Salva-nos a esperança de vermos, agora, vários políticos “famosos” (inclusive um ex-presidente) sujeitos às malhas da Justiça.

 

 


ANTOLOGIA POÉTICA DA GAVETA (5)

Outro poema, que figurava sempre em nossos álbuns, era este soneto do

PADRE ANTÔNIO TOMÁS (1868-1941) –  poeta cearense 

Contraste

Quando partimos no verdor dos anos,
Da vida pela estrada florescente,
As esperanças vão conosco à frente
E vão ficando atrás os desenganos.

Rindo e cantando, célebres, ufanos,
Vamos marchando descuidosamente;
Eis que chega a velhice, de repente,
Desfazendo ilusões, matando enganos.

Então, nós enxergamos claramente
Como a existência é rápida e falaz,
E vemos que sucede, exatamente,

O contrário dos tempos de rapaz:
— Os desenganos vão conosco à frente,
E as esperanças vão ficando atrás.

Notas: Muitos eclesiásticos brasileiros se notabilizaram igualmente como poetas, sendo os mais conhecidos o Pe. Antônio Tomás e o bispo D. Aquino Correa (1885-1956). Padre Antônio foi um fervoroso pároco em sua terra natal durante 30 anos e só depois de jubilar-se deu a público as suas poesias, com as quais conquistou o título de “Príncipe dos Poetas Cearenses” (1925). Seu soneto é um belo exemplo da chamada “poesia filosófica”, que procurava se sobrepor à então dominante “poesia lírica” (ou amorosa).


ANTOLOGIA DOS POETAS ‘ESDRÚXULOS’ (6)

EURÍCLEDES FORMIGA (1924-1983) – poeta paraibano 

José Eurícledes Ferreira adotou o nome literário de Eurícledes Formiga, substituindo o patronímico Ferreira pelo nome de família de sua genitora, Da. Anna Ferreira Formiga.  Conhecido como o poeta-espírita por ter revelado desde cedo grande atividade mediúnica, era dotado de prodigiosa memória (fotográfica), capaz de repetir oral e fielmente toda uma página de livro após observá-la por alguns minutos. Repentista conceituado, improvisava sonetos e cordéis com motes que lhe eram apresentados em reuniões sociais.

Não consegui referência (histórica, geográfica ou mitológica) sobre o nome Eurícledes que pensei fosse uma espécie de hápax (palavra usada uma única vez), mas acabei me defrontado com o nome do Dr. Eurycledes de Jesus Zerbini, o famoso cirurgião que fez o primeiro transplante cardíaco no Brasil. Quem teria sido esse Eurícledes ou Eurycledes?Algum leitor saberia me informar algo a respeito ? Agradeço.

POEMA PARA A TUA PRESENÇA

Amanheceu de amor meu coração:

Ninguém me trouxe tanta luz assim,

Nem recordo jamais ter assistido

A uma aventura igual dentro de mim!

Esta alegria que por tudo impera

Devo à tua presença redentora,

Porque veio contigo a Primavera

Que inundou minh’alma sonhadora.

Agora que chegaste, há nos meus olhos

Uma canção de amor que te convida.

Cantarei o teu nome na alvorada

Em que há de ser tua alma colorida

Uma benção floral na minha estrada,

Um arco-íris sobre a minha vida!

Quero escutar a tua voz de pássaro

E aprisioná-la, intacta, em meu destino,

Beber toda a harmonia do teu canto,

E se dos olhos me rolar o pranto

Que te pareça o orvalho matutino

Deslizando de um céu interior…

Tens a alma das manhãs presa nos lábios,

Fruto partido, rubro e desejado,

Umedecido de palavras doces,

Na ânsia de ser colhido e ser provado.

Reencontrei-me na paisagem lírica,

Povoada de asas, árvores, canções…

No roteiro do amor só nascem músicas

E flores verdes – flores de esperança,

Em que palpita um coração de criança,

Ébrio de cores, tonto de si mesmo,

Na sensação de ter criado o mundo…

E dentro d’alma, concha misteriosa,

Formada entre os corais de um mar profundo,

Um som de águas viajeiras te reclama…

Todo o deslumbramento que ora trago

No olhar é puramente de quem ama!

Eu te agradeço esta felicidade,

O anseio de cantar que me domina.

Sinto que renasci na claridade

De um novo sonho em plena floração.

Hoje a minha alma tem um ar de festa:

Amanheceu de amor meu coração!!!

 

 

TEMPO DE QUALIDADE

Jair Ferreira dos Santos

Breviário de Afetos é um paradigma de memorialismo afetivo.  O livro homenageia nada menos que 27 personalidades entre mestres também amigos e conhecidos alinhavados pela concorrência ou pela admiração mútua, sem omitir Guimarães Rosa, objeto de uma entrevista jamais realizada porque, à frente do escritor, Ivo acabou emudecido pela timidez e os dois nunca mais se viram. Já os trabalhos de anos em enciclopédias com Antônio Houaiss geraram uma amizade calorosa, profícua, mesmo se as funções que Ivo desempenhou no Banco do Brasil e no Itamaraty o levassem do Rio de Janeiro para Haia, para Londres ou a Costa do Marfim, embora semestres depois o trouxessem de volta.

Esse elenco de figuras totêmicas se estende a Drummond e sua carta, escrita no limiar dos anos 1950, para aconselhar o jovem poeta a ignorar ferozmente a opinião alheia, em favor “do próprio trabalho interior”, e integra, em 1998, um João Cabral já quase cego, concedendo-lhe uma entrevista em que parte considerável da mitologia de reclusão e aspereza, construída em torno do poeta pernambucano, desaba por absoluta falta de provas: ele fala abertamente sobre autores, pintores, a sua querida Espanha, o almoço com Eliot, a admiração por Baudelaire e Valéry e, de quebra, revela uma percepção arredia do que seja o Nobel. Claro, no campo imantado pela inteligentsia que era o Rio não faltavam talentos extraclasse: estava ali, com seu despojamento, ninguém menos que o crítico Otto Maria Carpeaux, intelectual austríaco autor de uma impressionante História da Literatura Ocidental, entre outros trabalhos de porte. A ele recorre com frequência o tradutor iniciante, e quando se separam é para mais tarde, precisamente em 1977, se reencontrarem na casa de Ivo em Lisboa, Carpeaux já doente. Eles se despedem sem nenhum clima pré-elegíaco, porque parecem agir como se a amizade desautorizasse a morte, a qual no entanto sobrevém ao mestre um ano depois.

Ao percorrer Breviário de Afetos, não estamos propriamente numa passarela de amenidades. Há toda uma discussão eivada de complexidades quando se analisam as traduções do poema O Torso de Apolo, de Rainer Maria Rilke, por exemplo. É constante, ainda, a alusão à história literária como o contexto mais denso onde se movem os protagonistas. Atenção especial merece o texto de Ivo. Para além da clareza, da fluência, seu domínio da língua tem um teor expressivo que se manifesta na propriedade verbal, no ritmo lógico das frases ou ainda no recurso eventual a um vocabulário um tom acima do estilo mesclado – a fusão entre o erudito e o oral – cultivado pelo modernismo.  Certamente, em sua prosa, o impulso original para o lírico se faz sentir aqui e ali, como quando descreve Silvia, a mulher com a qual se casaria, com o verso “um grito verde no olhar vazio da paisagem”, ao evocar determinado cenário marinho.

Mas a rigor, enfim, que papel teria este breviário, com sua gama de tributos e sentimentos, no prodigioso mundo digital à nossa volta? Não muitos, provavelmente. Estamos confinados num presente contínuo, o agora da próxima informação, com o consequente esvaziamento da História e das visões antecipativas. Bom para nos remeter a alguma origem, o livro de Ivo Barroso desafia o presenteísmo renitente da nossa época para redespertar o interesse pelo passado, onde estão as fontes silenciosas do presente.

(Trecho de uma resenha ainda inédita, enviada à Gaveta por e-mail. O livro pode ser adquirido no Rio na Livraria da Travessa e em São Pulo na Acadêmica)

 


ANTOLOGIA DOS POETAS ESDRÚXULOS (4)


SOSÍGENES COSTA (1900-1968) – poeta baiano 

Sosígenes (pronuncia-se sozígenes) Marinho Costa, poeta de cunho modernista, deve o arrevesado de seu nome à homenagem que seu pai, versado nos clássicos, quis prestar provavelmente ao astrônomo Sosígenes de Alexandria, citado por Plínio, o Velho, como sendo o astrônomo consultado por Júlio César quando da concepção do calendário Juliano. Dono de estilo personalíssimo e de temática inusual, conquistou com sua “Obra poética” o prêmio Jabuti de 1960. Seu poema, que transcrevemos a seguir, segundo o crítico Massaud Moysés, não pode ficar de fora de nenhuma antologia da poesia brasileira que se queira representativa.

 

O pavão vermelho

Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.

Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.

É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.

Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.

 


Recebo a nova edição do JB em papel como quem abre a porta a um parente querido que esteve em viagem por terras distantes. Membro de nossa família literária, participou da minha formação e foi meu  momento de glória com a estreia no jornalismo da capital. Lembro-me do tempo em que era feito só de anúncios nas primeiras páginas, com pouco material jornalístico ou literário nas outras. Mas eis que em 1958 houve um dia em que dois jovens, Reynaldo Jardim e Amilcar de Castro, tiveram carta branca para transformá-lo num veículo de comunicação dinâmico e atuante. No corpo do jornal modernizado, surgiu, pouco depois, um Suplemento Dominical, inteiramente aberto à literatura, que veio preencher o lugar amorfo antes tomado por receitas culinárias ou notícias de espetáculos de balé. Passou a ser leitura obrigatória, não só para mim como para todos os jovens escritores da minha geração, tornando-se imediatamente o veículo cultural de maior circulação no país. Nele pontificavam, além do Reynaldo, os jovens poetas e críticos Mário Faustino e Ferreira Gullar, grandes divulgadores de poesia e artes plásticas. Um banho de arte, cultura, ensinamentos e provocações que nos era proporcionado aos sábados, por esse suplemento inusitado que se dizia dominical. Faustino se tornara o grande divulgador da poesia séria, das grandes traduções, do conhecimento teórico da arte de escrever, além de dar oportunidade aos jovens numa seção denominada “O Poeta Novo”, em que divulgava trabalhos de qualidade que lhe eram enviados pelos leitores.   Mas havia também “O Poeta Traduzido”, em que nos trazia poemas de grandes escritores franceses, ingleses, alemães, em geral traduzidos por ele próprio. Um dia, meu entusiasmo conseguiu superar minha timidez e mandei para ele a tradução de um soneto de Rilke, que eu fizera a duras penas, catando as palavras no dicionário. Para minha surpresa, Faustino publicou meu trabalho na própria seção “Poeta Novo”, afirmando ver numa tradução o mesmo trabalho de criatividade patente num poema original. Claro, corri à redação para agradecer o elogio e a honra e acabei me tornando colaborador permanente do Suplemento. Por indicação de Reynaldo, passei  a frequentar diariamente a redação, participando da escolha da pauta e tendo poemas meus estampados na primeira página. Pouco tempo depois, surgiu o movimento concretista que provocou grande celeuma intelectual em todo o país, mas havia igualmente uma espécie de revolta por parte dos antigos (idosos) colaboradores do jornal, que faziam permanente pressão para que o suplemento voltasse ao seu ramerrame do passado…

Depois disso, o jornal passou por várias fases, mudou de direção algumas vezes, andou fora do ar, até que em 2005 teve uma sobrevida (que infelizmente durou pouco) durante a qual mantive uma coluna de crônica semanal. Com poucos meses, suspiramos e expiramos juntos.

Pois, ei-lo agora de volta, potente e glorioso, prometendo uma vida longa e próspera, digna de suas glórias do passado. Que assim seja!


ANTOLOGIA POÉTICA DA GAVETA (3)

(1872-1948)

poeta friburguense

 

Este era um poeta que não faltava nunca em nossas antologias: Júlio Salusse, conhecido como “o poeta dos cisnes”, em função do soneto admirável, que transcrevemos abaixo. Verdadeira obra-prima do romantismo brasileiro, estes versos acabaram por obscurecer toda sua obra poética igualmente importante.

 

Os Cisnes

A vida, manso lago azul algumas

vezes, algumas vezes mar fremente,

tem sido para nós constantemente

um lago azul, sem ondas nem espumas.

 

Sobre ele, quando, desfazendo as brumas

matinais, rompe um sol vermelho e quente,

nós dois vogamos indolentemente

como dois cisnes de alvacentas plumas.

 

Um dia um cisne morrerá, por certo.

Quando chegar esse momento incerto,

no lago, onde, talvez, a água se tisne,

 

que o cisne vivo, cheio de saudade,

nunca mais cante, nem sozinho nade,

nem nade nunca ao lado de outro cisne.

 

Nota: Em quase todas as transcrições que encontramos deste soneto, o segundo verso diz “sem ondas, sem espumas”; acreditamos, contudo, que a forma “sem… nem”, por ser mais eufônica, haveria de agradar ao ouvido sensível do poeta. Também, no sétimo verso, aparece o tempo verbal “vagamos”, o que é certamente um erro de imprensa, já que, em se tratando de um lago, o verbo adequado será sem dúvida “vogar”.

 

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