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SAIU EM LIVRO

Meu amigo, Luciano Esteves Mendes, mais conhecido como o poeta Luciano Sheikk, membro da Academia de Letras, Ciências e Artes de Ponte Nova-MG, levantando a história do jornalismo local, teve a paciência de recolher todos os artigos que escrevi para a imprensa daquela cidade mineira, no período 1951/1962. Minha primeira experiência jornalística, ou seja a primeira vez em que vi meu nome em letras de forma num jornal, foi num soneto intitulado “O Pássaro Cego”, que meu padrinho Dr. Edgard de Vasconcellos Barros fizera publicar na  Gazeta de Viçosa em 13.04.1947. Pois foi o próprio Edgard quem me encaminhou ao Antônio (Tony) Brant Ribeiro, que estava editando um Suplemento Literário no Jornal do Povo, de Ponte Nova. Folha modestíssima, mas de alto valor intelectual, o Suplemento já estava sendo conhecido fora da área urbana e chegara mesmo a algumas pessoas no exterior. Tony deu excepcional acolhida aos meus versos e presenteou-me como uma série de cartas-guia, que me nortearam no fazer poético, em cujos labirintos eu me enredava. Infelizmente de breve duração, eis que, com o fim daquela folha literária, passei a escrever semanalmente para o mesmo Jornal do Povo uma crônica sob a insígnia de Bilhete do Rio. Era o ano de 1952, acabara de conhecer milagrosamente a minha musa com quem pretendia casar e me preparava para o concurso do Banco do Brasil, para o qual entrei dois anos depois. As tais crônicas, a bem dizer “politiqueiras”, marcavam minha posição, na época, de ferrenho getulista e feroz defensor do “petróleo é nosso”, mas vez por outra deixava extravasar o gosto literário e publiquei uma com o título “Sylvia” (era um grito verde no olhar vazio da paisagem) que me garantiu o título de literato local.  Junto comigo, levei para a imprensa ponte-novense, três outros amigos e colegas de Banco (Albertus Marques, Arildo Salles Dória e Geraldo Marques), com os quais escrevíamos outra seção semanal intitulada Os Três Mosqueteiros. Além do Jornal do Povo, havia na cidade outra publicação semanal, A Gazeta da Mata, semi-dirigida pelo brilhante Jamil Santos, a quem não pude negar colaboração, passando a publicar ali semanalmente os meus sonetos:

Venho de longe… Sou daqueles dias
Em que se ergueu a Acrópole de Atenas…

(…)

Ah! Se estivesse agora lá em Minas
A tarde chegaria lentamente
Como nuvem de sombra nas colinas…

(…)

e traduções, como estas de Miguel Ângelo e Shakespeare:

Quisera, ó Deus, querer o que não quero:

(…)

Não lamentes por mim quando eu morrer
Senão enquanto o surdo sino diz

Logo depois, o incansável Jamil Santos deixa a Gazeta e abre um novo jornal, A Tribuna da Mata, com o qual passei a colaborar com algo realmente temerário, seguindo sugestão do próprio editor: a crítica aos articulistas dos jornais da terra, o que só poderia ser feito sob pseudônimo. Foi assim que surgiu A Correspondência de Fradique Mendes, que supostamente chegava às mãos de Jamil vinda de uma fazendola, a Quinta do Furquim, viajando nas costas de uma ‘alimária’ conduzida pelo ‘almocreve’ Adezílio. A escrita das cartas era um pastiche do estilo de Eça de Queiroz e ensejava a criação de termos como “alóites”, que funcionava como uma espécie de grito de guerra do escrevinhador. As críticas (hoje considero até mesmo insensatas) que despenquei sobre os articulistas provincianos, sempre na ilusão de que com elas estaria concorrendo para a elevação da qualidade jornalística da terra, causaram desmedido rebuliço local, com impropérios e ameaças inclusive ao editor. Pax Mineira, tratei de montar no burro e me evadir… Mas não nego que o Fradique foi o meu grande momento jornalístico, cujo anonimato consegui preservar por algum tempo; quando o revelei aos amigos e familiares, houve quem achasse que o Ivo Barroso não tinha cacife para escrever como o Fradique! Era a glória! Numa de suas bravatas, Fradique chegara a atacar Os Três Mosqueteiros e deixara mesmo o D’Artagnan em cheque. Era interessante, pelo menos para mim, ver esse duelo meu contra mim mesmo e ser advertido por um tio que acompanhava empolgado essas lides jornalísticas: “Cuidado! Se esse Fradique te pega, você está perdido!”.

Havia dois leitores em particular para os quais eu escrevia comovido: meu pai, Ormindo T. Barroso, farmacêutico em Ervália, cujo aniversário em 25 de novembro eu sempre comemorava no jornal, e Dona Maria das Pedras Pimentel, minha avó portuguesa, da ilha do Corvo, capaz de ler duzentas vezes o mesmo artigo (o meu, é claro!) sempre que recebia o jornal. Quando ela morreu, achei de bem escrever a minha Última Crônica (última mesmo, pois encerrei com ela a minha atividade de cronista, ficando apenas com Os Mosqueteiros).

Pois o operoso, dadivoso, incansável amigo Luciano Sheikk recolheu, um por um, todos esses artigos e mais as crônicas, poesias, etc., acrescentando ao acervo uma coleção das críticas recebidas por Fradique além de missivas que troquei com amigos ponte-novenses. Desse exaustivo garimpo nasceu o belo livro que tenho agora “O Poeta, o Tradutor e o Crítico”, que tanta alegria me trouxe como se com ele viesse um pouco daquele entusiasmo com que eu escrevia as crônicas de outrora.

Não creio que ele possa interessar a ninguém mais do que aos amigos íntimos e parentes aos quais distribuí os poucos exemplares que me chegaram. Mas, se houver algum leitor persistente que se interesse de fato por essas velharias, sempre será possível conseguir-se um exemplar.

 

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CORPUS CHRISTI

 

Ó divino banquete onde foi dada
Toda a glória do Céu por iguaria,
Nunca aparteis desta alma o santo dia
Da morte de meu Deus por mim causada.

Pagando em Cruz o amor, sem dever nada,
Tudo lhe pareceu que nos devia,
No tempo em que de nós se despedia,
Ir-se e ficar numa hóstia consagrada.

Finos toques de amor, raros extremos,
Se os anjos não vos podem entender,
Os que somos humanos que faremos?

Contento-me, Senhor, basta-me crer
Que nessa hóstia sagrada, onde vos vemos,
Mais nem menos no Céu não podeis ser.

 

Fr. MARTIM DE CASTRO DO RIO — (c. 1548-1613)

Poeta dito “minor”, português, do século XVI, sem dados  biográficos


LEIA MAIS SOBRE CORPUS CHRISTI E EUCARISTIA (aqui)


ANTOLOGIA POÉTICA DA GAVETA – A série voltará em junho com os nomes finais (mais oito) na série “de primeira linha” e outros tantos dos chamados “esdrúxulos”. Depois disso, pretendemos fazer uma outra denominada “Grandes Poetas do Brasil”, com informações mais extensas sobre os biografados e uma seleção mais ampla de seus poemas comentados.

Como já ocorrido, a Gaveta completará aniversário (o 8º) em 25 de julho, entrando em seguida em recesso até setembro, isto quer dizer que vamos ter ainda sete postagens semanais até lá.

traduzido por Ivo Barroso

James Tate nasceu em 1943 em Kansas City, no Missouri. Diplomado pelo “The Writers’ Workshop”da Universidade de Iowa, lecionou ultimamente na Universidade de Massachusetts (MA). Prêmio Pulitzer de poesia do ano de 1992.

Peggy in the Twilight

Peggy spent half of each day trying to wake up, and
the other half preparing for sleep. Around five, she
would mix herself something preposterous and ’40s-ish
like a Grasshopper or a Brass Monkey, adding a note
of gaiety to her defeat. This shadowlife became her.
She always had a glow on; that is, she carried an aura
of innocence as well as death with her.

I first met her at a party almost thirty years ago.
Even then it was too late for tragic women, tragic
anything. Still, when she was curled up and fell asleep
in the corner, I was overwhelmed with feelings of love.
Petite black and gold angels sat on her slumped shoulders
and sang lullabies to her.

I walked into another room and asked our host for
a blanket for Peggy.

“Peggy?” he said. “There’s no one here by that name.”
And so my lovelife began.

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PEGGY  AO CREPÚSCULO

Peggy passava a metade do dia tentando acordar e a outra
metade preparando-se para dormir. Lá pelas 5, fazia
para si mesma um desses  coquetéis extravagantes dos anos 40,
como um Grasshopper ou um Brass Monkey, acrescentando uma nota
de alegria ao seu fracasso. Tornou-se uma sombra de vida,
ela que sempre havia luzido, ou seja, que carregava uma aura
de inocência e bem assim de morte por onde fosse.

Conheci-a há quase trinta anos numa festa.
Então já havia passado a moda das mulheres trágicas, das coisas
trágicas. Mesmo assim, quando a vi encolher-se e adormecer
a um canto,  senti-me esmagado por sensações de amor.

Anjinhos negros e dourados sentavam-se em seus ombros caídos
e lhe cantavam canções de ninar.

Fui até a outra sala e pedi ao dono da casa um cobertor
para Peggy.

“Peggy?” estranhou. “Não há ninguém aqui com este nome”.

E assim minha vida amorosa começou.

 

OS NOSSOS PEQUENOS PRÍNCIPES

Em 1907, o editor Jorge Schmidt, que já publicava duas revistas semanais a Kosmos e A Careta, decidiu lançar uma terceira, que seria, segundo ele, mais dinâmica, mais em consonância com a modernidade de então. E nada mais adequado para uma publicação com tal escopo que o nome FON-FON, uma espécie de representação gráfica da buzina dos automóveis, símbolo ímpar da agitação das grandes cidades modernas.

A revista cativou o público já no primeiro número, pois conclamava os leitores a participar de um concurso que logo despertou grande celeuma: a eleição do “príncipe dos poetas brasileiros”, a ser escolhido por votação popular. O primeiro, proclamado ainda naquele ano de 1907, foi Olavo (Brás Martins dos Guimarães) Bilac, poeta que desfrutava de enorme prestígio literário em razão de sua obra poética, amplamente divulgada em livros e jornais, e mais ainda por sua atuação patriótica como propagandista do serviço militar obrigatório e do culto à bandeira nacional. O reinando de Bilac durou até 1924, quando novas eleições, igualmente patrocinadas pela FON-FON, consagraram o nome de (Antônio Mariano) Alberto de Oliveira, farmacêutico, pintor e poeta parnasiano que desfrutava de enorme popularidade entre as classes leitoras, membro representativo da Academia Brasileira de Letras. Alberto de Oliveira conservou o título até 1938, quando nova eleição popular, ainda sob a égide da FON-FON, eleva ao principado o poeta, político e diplomata Olegário Mariano (Carneiro da Cunha), que viria a ser conhecido como “o poeta das cigarras”. Em 1958, já agora por iniciativa do jornal CORREIO DA MANHÃ, o concurso popular proclama a figura do modernista Guilherme (de Andrade) de Almeida, grande jornalista, crítico de cinema e conceituado tradutor de poesia, membro da Academia Brasileira de Letras.

O atual detentor do título, sem que tenhamos referência sobre o concurso popular que o teria elegido, é Paulo (Lébeis) Bomfim, poeta, membro da Academia Paulista de Letras, nascido em 1926 (atualmente com 92 anos). Em sua homenagem a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo instituiu, em 2016, um concurso que tem precisamente esse nome: “O Secretário de Educação do Estado de São Paulo, considerando a importância de homenagear o Decano da Academia Paulista de Letras, PAULO BOMFIM o “Príncipe dos Poetas Brasileiros” que completou 90 anos dia 30 de setembro de 2016, institui o Concurso: Paulo Bomfim o “Príncipe dos Poetas Brasileiros” como forma de incentivar a pesquisa e a leitura; valorizar a produção literária de alunos e alunas da rede estadual de ensino; e resgatar o legado do poeta para a literatura brasileira.”

 

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Olavo Bilac (1865-1918) – poeta carioca – príncipe de 1907 a 1924

Via-Láctea
XIII

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

 

Alberto de Oliveira (1857-1937) – poeta carioca – Príncipe de 1924 a 1938

 

VASO CHINÊS

 

Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.

Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.

Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?… de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura;

Que arte em pintá-la! a gente acaso vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.

 

Olegário Mariano (1889-1958) –  pernambucano – Príncipe de 1938 a 1958

O enterro da cigarra

As formigas levavam-na… Chovia…
Era o fim… Triste Outono fumarento…
Perto, uma fonte, em suave movimento,
Cantigas de água trêmula carpia.

Quando eu a conheci, ela trazia
Na voz um triste e doloroso acento.
Era a, cigarra de maior talento,
Mais cantadeira desta freguesia.

Passa o cortejo entre árvores amigas…
Que tristeza nas folhas.., que tristeza
Que alegria nos olhos das formigas!

Pobre cigarra! Quando te levavam,
Enquanto te chorava a Natureza,
Tuas irmãs e tua mãe cantavam…

 

Guilherme de Almeida (1890-1969) – poeta paulista – Eleito em 1951

Nós

Fico – deixas-me velho. Moça e bela,
partes. Estes gerânios encarnados,
que na janela vivem debruçados,
vão morrer debruçados na janela.

E o piano, o teu canário tagarela,
a lâmpada, o divã, os cortinados:
– “Que é feito dela?” – indagarão – coitados!
E os amigos dirão: – “Que é feito dela?”

Parte! E se, olhando atrás, da extrema curva
da estrada, vires, esbatida e turva,
tremer a alvura dos cabelos meus;

irás pensando, pelo teu caminho,
que essa pobre cabeça de velhinho
é um lenço branco que te diz adeus!

 

Paulo Bonfim – poeta paulista  – considerado o nosso príncipe atual

Soneto

Não busco especiarias, sou apenas
Um corpo transformado na paisagem,
Barco de amor e morte, céu de penas,
Voo tinto de rumos e ancoragem.
Se pastoreio estas contradições
Que são agora carne e pensamento,
É porque trago a noite e seus violões
A percorrer os quarteirões do vento.
Dos passos estrangeiros crio o mapa
E a bússola escondida na lapela,
O resto é chuva desenhando a capa
Que jogo sobre o corpo da procela.
Não busco especiarias sou somente
A mesa posta e o convidado ausente.

 

Existe uma mulher que tem algo de Deus pela imensidade de seu amor, e muito de anjo pela incansável solicitude de seus cuidados; uma mulher que, embora jovem, tem a reflexão de uma anciã, e na velhice trabalha com o vigor da juventude; mulher que, sendo ignorante, descobre os segredos da vida com mais acerto que um sábio, e, se instruída, se amolda à simplicidade das crianças; mulher que, sendo rica, daria com prazer todo um tesouro para não sofrer no seio a ferida da ingratidão; mulher que, sendo fraca, se reveste às vezes da bravura de um leão; mulher que, enquanto vive, não a sabemos estimar porque a seu lado todas as dores se esquecem, mas que depois de morta daríamos tudo o que somos e tudo o que temos para poder vê-la de novo um só instante, dela receber só um abraço,  ouvir um só latejar de seu coração. Dessa mulher não me exijam o nome se não querem que eu inunde de lágrimas este seu álbum, porque eu a vi passar em meu caminho. Quando seus filhos crescerem, leiam-lhes esta página, e eles, cobrindo-lhes de beijos a fronte, lhes dirão que um humilde viajante, em retribuição à suntuosa hospedagem que recebeu, lhes deixou aqui, para vocês e para eles, um esboço do Retrato de sua própria Mãe.

Tradução de Ivo Barroso

Mons. RAMÓN ÁNGEL JARA (1852-1917) – prelado chileno, considerado o maior orador sacro de língua espanhola de seu tempo.

 

OUTRAS HOMENAGENS AO DIA DAS MÃES

Veja também:

— Mãe em dobro – post de 08.05.2016 – AQUI

— Poema testamento – post de 08.05.2011 – AQUI

— Homenagem ao dia das Mães – 12.05.2012 – AQUI


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ANTOLOGIA POÉTICA DA GAVETA
NÚMERO ESPECIAL

Dois poetas à parte: Machado de Assis e Coelho Neto

MACHADO DE ASSIS – poeta carioca

Joaquim Maria MACHADO DE ASSIS (1839-1908) foi o maior estilista da língua portuguesa, autor de inúmeros romances, contos, crônicas, peças de teatro e traduções. Mas gostava que seu nome fosse igualmente citado como poeta e chegou a publicar em vida quatro volumes de versos (Crisálidas, 1864; Falenas, 1870; Americanas, 1875 e Ocidentais, 1880), longos relatos em prosa rimada, hoje devidamente esquecidos. De sua produção poética, salvam-se uns dez poemas realmente apreciáveis, entre os quais o célebre “A mosca azul”, sobre os quais pretendemos falar mais tarde. Entra hoje aqui por causa de seu poema de exaltação materna, “Minha Mãe”, sobre o qual, numa epígrafe (os poetas da época adoravam as epígrafes!) diz ser uma “Imitação de Cowper”. Contudo, lendo On receipt of my mother’s picture (1798), de William Cowper (1731-1800),quase nada pudemos encontrar ali que justificasse a referência.

MINHA MÃE

Quem foi que o berço me embalou da infância
Entre as doçuras que do empíreo vêm?
E nos beijos de célica fragrância
Velou meu puro sono? Minha mãe!
Se devo ter no peito uma lembrança
É dela que os meus sonhos de criança

Dourou: — é minha mãe!

Quem foi que no entoar canções mimosas
Cheia de um terno amor — anjo do bem
Minha fronte infantil — encheu de rosas
De mimosos sorrisos? — Minha mãe!
Se dentro do meu peito macilento
O fogo da saudade me arde lento

É dela: minha mãe.

Qual anjo que as mãos me uniu outrora
E as rezas me ensinou que da alma vêm?
E a imagem me mostrou que o mundo adora,
E ensinou a adorá-la? — Minha mãe!
Não devemos nós crer num puro riso
Desse anjo gentil do paraíso

Que chama-se uma mãe?

Por ela rezarei eternamente
Que ela reza por mim no céu também;
Nas santas rezas do meu peito ardente
Repetirei um nome: — minha mãe!
Se devem louros ter meus cantos d’alma
Oh! do porvir eu trocaria a palma

Para ter minha mãe!

 

COELHO NETTO (1864-1934) – poeta maranhense

Henrique Maximiano COELHO NETTO é outro prosador brasileiro, autor de inúmeros romances e contos, e que se celebrizou poeticamente com um único poema, o soneto abaixo, SER MÃE, até pouco tempo a única referência lírica evocada por ocasião do Dia das Mães. Mas seu nome, um tanto peculiar, justificaria sua inclusão entre os poetas ‘esdruxulos’, mormente se lembrarmos a curiosa passagem relatada pelo poeta italiano Giuseppe Ungaretti (1888-1970), que veio para o Brasil em 1936 como professor de literatura da USP. Relata Ungaretti em suas memórias que foi “recebido pelo presidente da Academia Brasileira de Letras “um pequeno senhor que atendia pelo estranho nome de Cuelhonetto”, que o poeta italiano ouvia como sendo cuglionetto, cujo significado em sua língua é testículo, no diminutivo.

Ser mãe

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo!  É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!

Depois de ler na Gaveta a análise que fizemos de um soneto de Shakespeare, AQUI, o leitor Felipe (?) enviou-nos cópia de sua tradução do XC – 90, pedindo que a avaliássemos AQUI. Este não será nosso procedimento habitual, mas vamos abrir uma exceção dada a qualidade do trabalho.

Eis o envio:

Soneto 90

Odeia-me, portanto, desde agora,
Que o mundo os meus feitos contraria.*
Alia-te à fortuna sem demora;
Não aguardes o fim desta agonia.
Não venhas, quando já meu coração
Estiver são, reabrir suas chagas;
Não deixes que à noite de trovão *
Suceda uma chuvosa madrugada.
Não esperes o fim, para deixar-me,
Da mesquinha sequência destas dores;
Faze-o agora, e deixa provar-me *
Da Fortuna o poder e os horrores. *
Então outras formas de dor, amada, *
Perante tua perda serão nada.

 

Eis a avaliação:

Pontos positivos:

Conhecimento adequado dos idiomas fonte/alvo.

(Caro Felipe, você escolheu um dos mais difíceis sonetos do Vate e embora não tenha chegado (ainda) a uma grande tradução, conseguiu alguns efeitos que demonstram seu pendor para a ingrata arte de traduzir poesia. Uma boa tradução – como sabe – deve tentar reproduzir “o que está dito da forma como foi dito”, ou seja: aquilo que antigamente se chamava de fidelidade. Sua capacidade de compreensão/reprodução é bastante apurada, salvo em um caso ou outro em que você acaba, como a maioria dos tradutores, por “passar por cima”. Esse soneto começa com aquele terrível “if ever”, que tem necessariamente de ser mantido, algo como “desde já, já agora, que seja agora”, que você soube muito bem enfatizar. Bastava isto para qualificá-lo.)

Deficiências:

É necessário melhorar sua prática da metrificação: os versos apontados com *são deficientes, com uma sílaba a menos (ditos de pé quebrado) devido a hiatos não recomendáveis neste tipo de tradução (ex. ‘Não/ dei/xes /que// à/ noi/te/ etc.) A contagem habitual neste caso seria /que à/ constituindo uma única sílaba. É fácil consertar: Não/ per/mi/tas/ que à/ etc. Tente acertar metricamente os outros assinalados. O 11º verso tem icto na 5ª. sílaba, o que é incomum no decassílabo; melhor seria: Outras formas de amor, então, amada.

Parabéns:

Pela fluência dos versos, coisa difícil de se conseguir em tradução. Sua versão do icônico Give not a windy night a rainy morow por Não deixes que a uma noite de trovão / Suceda uma chuvosa madrugada é galardão de futuro grande tradutor. Você deve ser muito jovem; vá em frente; tem todo o resto do ano para conseguir a tradução nota dez.
Go ahead!

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ANTOLOGIA POÉTICA DA GAVETA

DOIS CASOS ESPECIAIS

Nosso álbum de poemas escolhidos acolhia de preferência os poetas parnasianos; só muito mais tarde descobrimos os grandiosos Cruz e Souza e Augusto dos Anjos (Simbolistas). Os poemas em geral eram versos de amor, idealistas, sonhadores ou sofredores, queixando-se dos infortúnios da vida, da solidão, do abandono. Mas havia duas exceções curiosas: um devaneio espiritual (“Ilusões da vida”, de Francisco Otaviano) e um soneto filosófico (“A Cegonha”, de Aníbal Teófilo), que todos achávamos grandiosos e sabíamos de cor.

FRANCISCO OTAVIANO (1825-1889) – poeta carioca (17)

Francisco Otaviano de Almeida Rosa, advogado, jornalista, diplomata, político, membro da ABL, sempre se queixou de nostalgia literária, arrebatado pela política a que chamava de “Messalina impura”. Como poeta ficou famoso com os versos abaixo:

ILUSÕES DA VIDA

Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem – não foi homem,
Só passou pela vida – não viveu.

 

ANTOLOGIA DOS ‘ESDRÚXULOS´

ANÍBAL TEOFILO (1873-1915)–poeta brasileiro nascido no Paraguai-(18)

Só pelo nome já se justificaria sua inclusão nos ‘esdrúxulos’: Aníbal Teófilo de Ladislau y Silva Figueiredo de Girón de Torres y Espinosa, mas além disso o nosso poeta nasceu em Humaitá, no Paraguai, durante a campanha cisplatina em que o pai, militar, servia. Ele também militar e político, era de porte atlético, belicoso, rixento. Numa disputa com o deputado federal Gilberto Amado foi por este assassinado com dois tiros de pistola pelas costas, no salão do Jornal do Comércio, no dia 19.06.1915. Seu poema que abaixo transcrevemos garantiu-lhe celebridade literária:

A CEGONHA

Em solitária, plácida cegonha,
Imersa num cismar ignoto e vago,
Num fim de ocaso, à beira azul de um lago,
Sem tristeza, quem há que os olhos ponha?

Vendo-a, Senhora, vossa mente sonha
Talvez, que o conde de um palácio mago,
Loura fada perversa, em tredo afago,
Mudou nessa pernalta erma e tristonha.

Mas eu, que em prol da Luz, do pétreo, denso
Véu do Ser ou Não Ser, tento a escalada
Qual morosa, tenaz, paciente lesma,

Ao vê-la assim mirar-se na água, penso
Ver a Dúvida Humana debruçada
Sobre a angústia infinita de si mesma.

O MÁRTIR DA INDEPENDÊNCIA

 

Imagem do infortúnio e da desgraça,
no escarmento ao rebelde prisioneiro,
da cidade do Rio de Janeiro. armara-se um patíbulo na praça

Com sua veste tala, dos pés aos ombros,
e entregue aos seus algozes inclementes,
numa cena de lágrimas e escombros,
ao cadafalso assoma Tiradentes.

Os pés desnudos, sobre o grande estrado,
a fronte erguida, a longa cabeleira,
é o réu altivo, o herói predestinado,
a face imperturbável e altaneira.

Vinte eum de abril, de mil e setecentos
e noventa e dois. Onze horas são dadas.
É a vítima, em seus últimos momentos.
no adeus àsilusões ambicionadas.

Epopeia de um trágico fracasso,
eis, na forca, a figura destemida:
seu corpo, inerte, agita-se no espaço,
no supremo holocausto de uma vida.

Na história apoteótica de um drama,
imolouse no altar da eternidade,
lição que nos exorta e nosconclama,
glória imortal da nossa liberdade.

 

ASSIS ABRAHÃO (publicado na revista O Verde Oliva, editada pelo Exército Brasileiro em 21 de abril de 1982). Não encontramos quaisquer referências à vida ou a obra do poeta.

 

Nota: Para homenagear a data comemorativa da morte de Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), o Tiradentes, andei procurando nos meus alfarrábios algum poema alusivo à data ou, mais especificamente, ao martírio desse herói nacional.Um clássico do gênero, é sem dúvida o “Romanceiro da Inconfidência”, livro de Cecília Meireles, editado em 1953, em que se destaca o “romance” do Animoso Alferes, cuja transcrição fragmentária, no entanto, desfiguraria o poema. Aos interessados, aconselhamos a leitura integral da obra. Há referências, ainda, a poemas do mineiro Dantas Mota, que não conseguimos infelizmente localizar.

***

Para obviar nossa indigência de citações, veio a nosso auxílio o excelente amigo poeta-crítico Alexei Bueno que conseguiu localizar este outro soneto de Raimundo Correa, poeta parnasiano sobre o qual iremos falar em seguida:

A CABEÇA DE TIRADENTES     

Da ideia que engendrou pendia a sorte
Da pátria, a sorte a que ela, ávida, anseia;
Mas o músculo férreo, o punho forte
Comprime-lhe do déspota a cadeia.

Sela-lhe a morte os lábios e os roxeia,
E anuvia-lhe o largo e altivo porte —
Morre esmagado pela grande ideia!
Morre — e morrendo isenta-se da morte!

Do moribundo a mártir e divina
Cabeça fulge sobre o poste imundo,
Onde grasnam as aves de rapina;

Da luz sangrenta que, a morrer, derrama,
Em torno, o sol — esse outro moribundo —
Tece-lhe um largo resplendor de chama…

 

RAIMUNDO CORREA 

****

 ANTOLOGIA POÉTICA DA GAVETA

 

RAIMUNDO CORREA (1859-1911) – poeta maranhense (15)

Raimundo da Mota Azevedo Correia (conhecido como Raimundo Correa) foi um dos mais célebres poetas brasileiros da escola parnasiana (1850), figura de destaque em nossos álbuns de poemas. Diplomata, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, estreou em 1897 com seu livro Sinfonias. No tempo em que um belo soneto era considerado um verdadeiro galardão, e sua publicação na primeira página dos jornais equivalia ao que hoje são “os quinze minutos de glória na televisão”, Raimundo Correa ficou célebre com o soneto “As Pombas”, que foi reproduzido em boa parte da imprensa. A este seguiram-se outros que ficaram igualmente célebres como “Mal Secreto”, “A Cavalgada” e “Anoitece”, que o leitor fica na obrigação de conhecer. De sua vasta obra poética, impecável na metrificação, na escolha das rimas, na fluência e colorido do verso – itens que distinguem um soneto “de primeira linha” – escolhemos o significativo “Ouro Preto”, que evoca  a antiga e decadente Vila Rica, quando o poeta a visitou pela primeira vez, e que guarda estreita relação com nosso tema de hoje.


SAUDADE

Aqui outrora retumbaram hinos;
Muito coche real nestas calçadas
E nestas praças, hoje abandonadas,
Rodou por entre os ouropéis mais finos…

Arcos de flores, fachos purpurinos,
Trons festivais, bandeiras desfraldadas,
Girândolas, clarins, atropeladas
Legiões de povo, bimbalhar de sinos…

Tudo passou! Mas dessas arcarias
Negras, e desses torreões medonhos,
Alguém se assenta sobre as lájeas frias;

E em torno os olhos úmidos, tristonhos,
Espraia, e chora, como Jeremias,
Sobre a Jerusalém de tantos sonhos!…
 

ANTOLOGIA DOS POETAS ‘ESDRÚXULOS’

 

EMILIANO PERNETA (1866-1921) – poeta paranaense (16)

Filho de um cristão-novo (judeu português convertido ao Cristianismo) e de uma afrodescendente, Emiliano David adotou o esdrúxulo nome de Perneta em alusão ao pai,  que era deficiente físico. Nome fundamental do Simbolismo brasileiro (Sec. XIX) no Paraná, originalíssimo e excêntrico, seus poemas são de extrema originalidade, como este

 

CORRE MAIS QUE UMA VELA…

Corre mais que uma vela, mais depressa,
Ainda mais depressa do que o vento,
Corre como se fosse a treva espessa
Do tenebroso véu do esquecimento.

Eu não sei de corrida igual a essa:
São anos e parece que é um momento;
Corre, não cessa de correr, não cessa,
Corre mais do que a luz e o pensamento…

É uma corrida doida essa corrida,
Mais furiosa do que a própria vida,
Mais veloz que as notícias infernais…

Corre mais fatalmente do que a sorte,
Corre para a desgraça e para a morte…
Mas eu queria que corresse mais!

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