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Publicado pela Gallimard em 1946, chega ao Brasil [2001], na competente tradução de Joana Angélica d’Ávila Melo, este livro que desde muito tem sido, senão a Bíblia dos tradutores, pelo menos um de seus mais frequentados breviários ou altares de culto. Invocando a figura de São Jerônimo, que institucionalizou em latim vulgar os antigos textos do velho e do novo testamentos, Valéry Larbaud — que por sua vez funcionou como uma espécie de São Jerônimo para a tradução francesa de qualidade — aproveita aqui para teorizar sobre os deveres e liberdades daqueles que se dedicam à arte nem sempre aleatória da tradução literária.

A primeira parte do livro é consagrada a comentários sobre a vida e a obra do Santo, mas Larbaud, preocupado em valorizar a produção original de Jerônimo, passa de leve sobre a história que, para os tradutores, teria sido mais didática, ou seja, de como foi feita por este a – digamos – copidescagem dos textos latinos antigos, hebreus e aramaicos que vieram a constituir a Vulgata, recriados numa linguagem que se tornaria a versão definitiva da Bíblia em latim. Larbaud justifica o en passant de sua atitude com a referência de que a enfatização do trabalho de tradutor de Jerônimo em detrimento de sua obra autônoma equivaleria a tratar Baudelaire tão somente como tradutor de Poe e não como o criador inigualável de “As Flores do Mal” — objurgatória improcedente, pois Jerônimo sem a Vulgata seria apenas um escritor menor, ao passo que a tradução para Baudelaire não passou de um “bico” circunstancial em momentos de penúria.

A história se repete em relação ao próprio Larbaud: embora sua obra original tenha certo interesse, mesmo vista do alto de nossa época, seu nome permanece referencial graças ao seu trabalho de tradutor, e sua obra magna nesse campo, à semelhança do mestre patronal Jerônimo, também foi mais um trabalho de copidescagem do que mesmo de tradução, pois embora muitos pensem que ele tenha traduzido o “Ulysses”, Larbaud na verdade foi o autor da apresentação do livro e incansável revisor do texto de Auguste Morel e Stuart Gilbert, de sua equipe, assessorado pelo próprio Joyce, que conhecia tão bem o francês quanto Larbaud o idioma inglês. A presença decisiva de Joyce certamente concorreu para que o texto francês adquirisse a “souplesse” que as condições tradutórias da época não teriam permitido, como ficou evidente no caso das traduções de Svevo, que chega a soar “flaubertiano” em francês e é totalmente “stiff” na pseudo “melhorada” que lhe emprestou o tradutor inglês Beryl de Zoete. [Esclareça-se que Larbaud traduziu apenas alguns capítulos de “A Consciência de Zeno”; a edição integral, embora com sua orientação, foi feita  por Paul-Henry Michel].

Não deixam de ser exemplares, no entanto, suas traduções de Samuel Butler, principalmente “The Way of All Flesh” (em francês “Ainsi va toute chair”) e alguns poemas de Walt Whitman, cujo estilo e vitalidade Larbaud conseguiu preservar em sua língua. Quanto à sua produção pessoal, são hoje poucos os leitores de seu romance  “Fermina Marquez” ou dos contos juvenis de “Amants, Heureux Amants”, mas resiste ao tempo, é certo, a figura de seu personagem alter-ego  Barnabooth, homem riquíssimo, cujas viagens são narradas com graça e sabedoria, reflexo da dedicação do autor pelo aprendizado de línguas e sua prática in loco, numa tentativa de não apenas falá-las mas também vivê-las. Não seria exagero, no entanto, dizer que Barnabooth é ainda hoje lembrado graças ao fato de o genial Georges Perec ter em “Vida, modo de usar” fundido essa personificação do delírio ambulatório, com o Bartleby, de Melville, o expoente máximo do maníaco-depressivo, daí resultando o excêntrico-terminal Bartlebooth, a encarnação do desprezo absoluto pelo poder aquisitivo do dinheiro, que para este se justifica apenas como a possibilidade de realizar um projeto de vida inteiramente gratuito. Bartlebooth dedica dez anos de vida a dominar a arte da aquarela; quinze anos a viajar pelo mundo pintando uma aquarela em cada um dos portos principais do planeta; aquarelas que são enviadas a Paris para serem transformadas em peças de quebra-cabeças, que ele armaria em sua volta das viagens. Finalmente, depois de armados, os quebra-cabeças, revertidos à condição de aquarelas, seriam reenviados aos portos de onde se originaram e ali submetidos a um tratamento químico para apagar a tinta, voltando ao estado de simples folhas brancas de papel Whatman de grão fino, para serem finalmente incineradas. A própria exacerbação da inutilidade do processo. Contudo, além do excêntrico Barnabooth, com suas poesias elitistas, gastronômicas e ferroviárias, Valery Larbaud tem a seu crédito outro grande livro que é “Ce vice impuni, la lecture”, cujo título exprime a mesma qualidade requintada dos comentários eruditíssimos com que analisa seus livros prediletos, lidos nos originais de várias literaturas.

A segunda parte deste “Sob a invocação de são Jerônimo” argui sobre os direitos e deveres dos tradutores, seus instrumentos de trabalho, as várias “filosofias” do ato tradutório. Seria assim a parte “prática” do compêndio. Mas ainda aqui os assuntos são tratados de  maneira um tanto  empírica, encaminhando-se para uma “filosofia da tradução” e não para o seu exercício efetivo. Larbaud escreve numa época em que o tradutor não era “reconhecido, sentando-se no último lugar, vivendo por assim dizer apenas de esmolas, aceitando preencher as mais ínfimas funções, os papeis mais apagados, quando  servir era a sua divisa, fiel ao aniquilamento de sua própria personalidade intelectual”.  Em que essa figura do amanuense na sombra se distingue do profissional de hoje, ansioso das evidências  da mídia? Nos dias de agora a tradução, além de ser mais que nunca necessária,  tem ainda um caráter “imediatista” e “nivelador”. Os grandes sucessos literários são às vezes lançados simultaneamente em várias línguas e a pressa em traduzir conduz com frequência à contrafação. Não lemos mais o autor, cujo estilo é manipulado pelo tradutor para atender aos cânones da divulgação. Por azar, essa prática não está circunscrita à televisão e ao livro de bolso, mas invade até mesmo as grandes editoras, quando se generaliza a tendência de “modernizar” os textos, de fazê-los  “falar” a linguagem de nossa época. Recentemente num livro de Natalia Ginzburg  podia-se encontrar, na versão brasileira, expressões  como paquerava, bituca, corneia, pegando no pé, um cara,  encher o saco, não esquenta, estar gamada, briga de foice — que pela sua gritante impropriedade numa narrativa dos anos ’40, surgiam como borrões na cristalina   superfície das frases, depuradas no original de qualquer artificialismo, porém nunca indulgentes com a vulgaridade. Esse vezo de “agilizar” e “nivelar” a frase mediante a transferência das falas e situações para o tempo presente do tradutor, de colocá-las sempre ao alcance de um leitor hipotético e ignorante, só pode ser influência da massificante profissionalização da categoria. Totalmente inútil indicar o livro de Larbaud a essa casta de tradutores. Ele se destina, como em geral se destinam os livros de teoria da tradução, àqueles que ainda encaram o ato tradutório como um exercício de amor, para aqueles que fazem da tradução uma “paixão” genuína, uma auto-realização, até mesmo uma co-autoria.

[Nota triste: Em agosto de 1935 um ataque cerebral deixou Valéry Larbaud paralisado e afásico -- estado em que permaneceu durante 22 anos até vir a falecer em 1957. Não pode haver agonia maior que essa de ficar tanto tempo em estado vegetativo, sem poder falar nem escrever!...]

Nos 55 anos que decorreram da publicação desta suma de Larbaud, cheia das mais criteriosas considerações, que continuam válidas para a maioria dos que se dedicam seriamente ao ofício de traduzir, muitos  foram os teorizadores que surgiram, nos especializados mercados acadêmicos, analisando a psicologia, a deontologia, a hermenêutica, etc. etc. da tradução. Desde o clássico Georges Mounin, com “Os problemas teóricos da tradução”, aos aspectos linguísticos do “After Babel” de George Steiner e os ensaios de Todorov, Walter Benjamin e Hans-Georg Gadamer — uma vasta literatura teórica está à disposição dos tradutores para esclarecê-los ou confundi-los ainda mais. O mais recente trabalho do gênero parece ser a “Poétique du traduire” (Verdier, 1999), de Henri Meschonnic, professor de literatura comparada da Paris-VIII, tradutor ele próprio além de autor de numerosos livros sobre os problemas da tradução.  Meschonnic é dos que não se contentam apenas em teorizar e dedica boa parte do livro à prática da tradução. E aí não sobra para ninguém: até mesmo aquelas consideradas exemplares,  como a da Bíblia, de Chouraqui, são por ele “fritadas” como ineptas. Como a crítica à tradução poética só é honesta quando o crítico é capaz de apresentar algo melhor em defesa de sua tese, Meschonnic analisa 9 traduções francesas do soneto 27 de Shakespeare (“Weary with toil, I haste me to my bed”), feitas em datas distintas, compreendendo um período de 115 anos (François-Victor Hugo, 1857; Charles-Marie Garnier, 1906; Pierre Jean Jouve, 1955; Jean Fuzier, 1959; Henri Thomas, 1961; Armel Guerne, 1964; Jean Rousselot, 1975; Jean-François Peyret, 1990; Jean Malaplate, 1992) e liquida inapelavelmente com todas essas “tentativas” (segundo ele) canhestras de reproduzir a riqueza semântica do original. E para mostrar o “bâton” com que castigou esses “tradutores ineptos”, apresenta a sua versão, que depois de tudo isso, teria que ser perfeita. Mas onde está em inglês, por exemplo, “To work my mind, when body’s work’s expired”, em que rebrilha o jogo de palavras com o verbo “to work” e o substantivo “work”, a solução de Meschonnic-tradutor é um anódino “Que le corps épuisé, l’esprit ravage”. Basta isto para acabar com a contenda crítico versus praticante, pelo menos no presente caso.

Se nos estendemos acima na análise de outra obra sobre os problemas da tradução foi para deixar claro ao leitor que a leitura deste Larbaud, apesar de mais de meio século decorrido, ainda é um proveitoso e despretensioso passeio pelas questões fundamentais do gênero sem a prosápia irritante dos teorizadores de hoje.

(Publicado no Mais! da Folha de S. Paulo (4.11.2001), sob o título Santo Forte)

 

 O DIA DAS MÃES

O dia de hoje é teu, ó minha mãe – de quantas
mulheres como tu que, do seio fecundo,
fizeram no milagre ideal das horas santas
uma vida surgir entre as luzes do mundo.

Tu, que sofres sorrindo e que, chorando, cantas,
recebe neste dia o meu louvor profundo,
embora eu não encontre em meio a frases tantas
nenhuma só que expresse o amor de que me inundo.

O dia de hoje é teu – nos diz o calendário;
no entanto sabes bem que este dia é arbitrário
– dias não há no amor que sinto dentro, aqui.

Desponta a cada instante e cresce a cada hora,
porque no coração do filho que te adora
todos os dias do ano ele os dedica a ti.

Ivo Barroso
(1950)

MÃE

Mãe – quer dizer: a que sabe; a que, vendo
O bem, se alegra e, vendo o mal, perdoa.
Mãe – é a que sente, a que sofre e, sofrendo,
Tem para tudo uma palavra boa.

Mãe – é a que chora em silêncio, temendo
Que alguém lhe veja o pranto e se condoa.
Mãe – é a que embarga o seu soluço e, erguendo
O rosto, diz: “Estou chorando à-toa…”

Mãe – é a que vê no coração da gente;
A que adivinha tudo em nós, e esquece
– Qual anjo que, fiel, nos acompanhe…

E eu que já fui em outros tempos crente
E que hoje me esqueci de toda prece,
Quando quero rezar, murmuro: MÃE!

Ivo Barroso

(1954)

Tiro do fundo da gaveta um esmaecido 16×11 “De Luxe” Nº 15 – Pautado, adquirido na antiga Casa Cruz do Rio de Janeiro em 1948, cuja capa me faz sorrir ante a pretensiosa inscrição: Cahier de Voyage.

Explico: meu pai achava que meu curso de Neolatinas (na então chamada Faculdade de Filosofia) era incompatível com as esperanças que a cidade nutria em relação à sua descendência; donde ele, farmacêutico, querer um filho médico, advogado ou militar.

Os militares estavam em alta (inclusive em termos salariais) e, para atender aos desígnios paternos, me inscrevi naquele ano nos vestibulares das Escolas Militar, Naval e de Aeronáutica.

Uma oportuna (?) miopia salvou-me dos quartéis, dos conveses ou das pistas de pouso – reprovando-me no exame médico das três. Até o novo ano letivo, lá estavam as sonhadas, as benditas férias no interior de Minas, onde meu pai continuava a manter sua farmácia apostolar, vocacional, beneficente. Parti, levando o caderninho.

Nele encontro, com data de Rio, 8 [1948]: Em grandes preparativos para embarcar. Vence o prazo do livro de Blake e tenho de copiar aqui seus provérbios para terminar a tradução em Minas. Seguem-se, numa letrinha caprichosa, que fui perdendo ao longo do tempo, os 70 “Provérbios do Inferno”, parte capital de The Marriage of Heaven and Hell, de William Blake. Como cheguei a esse livro? Por essa época, havia descoberto Gide (Trozos escogidos, em espanhol) e comecei a ler tudo dele numa edição de luxo, feita na Suíça, e existente na Biblioteca Nacional. Lá pelas tantas, Gide fala em Blake como sendo a quarta estrela de uma constelação composta por Nietzsche, Dostoiévsky e Browning, e cuja leitura o levou a traduzir  Le Marriage du Ciel et de l´Enfer, em 1922. Fui atrás do original, que encontrei na Biblioteca do IPASE (excelente à época, tinha todos os livros da Modern Library) e levei de empréstimo para casa, reformando o pedido várias vezes, pois meti-me na cabeça que o devia traduzir. Comecei a tentar com um ou outro dos provérbios, sem avançar muito, mas, como ia de férias, o recurso foi copiá-los para acabar a tradução em Minas.

Eis minha primeira tentativa de traduzir um livro completo; já havia conseguido traduzir sonetos e até pequenos poemas, do espanhol e do francês, mas nunca um livro inteiro, tarefa que me parecia impossível, principalmente do inglês. E foi mesmo, no caso de Blake, pois ficou apenas no caderno de viagem. O Casamento arrastou-se por muito tempo no namoro. Em fases sucessivas, fui tocando os provérbios até traduzi-los todos. Mas não conseguia vencer a barreira das “visões memoráveis” e o projeto adormeceu na comodidade dos rascunhos. Em 1956, apareceu a tradução de Oswaldino Marques, e achei que Blake tinha caído no “domínio do público” e não valia mais a pena ser tratado como “a quarta estrela” da constelação de Gide. Ao longo do tempo foram aparecendo As Núpcias, O Matrimônio, o Enlace, a Aliança, a União e até – em Portugal, é claro – O Conúbio (do Céu e do Inferno), o que me dava a impressão de que a prosa direta e visionária de Blake estava passando por  processos de retocagem gongórica, sofrendo um empolamento bombástico capaz de fazê-la perder seu impacto subversivo e contestador. Portanto, Good-Bye, Blake!

Por força do acaso, recebi em 2007, na pessoa de seu jovem editor Bruno Costa,  o convite da Editora Hedra, de S. Paulo,  para traduzir o Jerusalém, de William Blake. Desculpei-me, dizendo que, com o 3º volume da Obra Completa de Rimbaud (Correspondência), eu dava por encerrada minha “carreira” de tradutor e ia tratar de fazer um segundo livrinho de versos meus (o primeiro A Caça Virtual e outros poemas havia aparecido em 2001). Como alternativa, aceitei fazer o prefácio para Sagas, uma coleção de contos de Strindberg, autor da minha mais franca predileção. Mas o convívio com a Editora, que esperava ainda lançar uma tradução minha, fez com que, de pura brincadeira, eu lhes propusesse casamento. Sim, seria, desta vez, o Casamento sem rebuços, sem berloques, sem firulas. Blake restituído à sua prosa agressiva, contestatória, modernamente poética. Teríamos o fechar de um ciclo: o primeiro livro que sonhei traduzir seria o último a ser traduzido por mim. E assim foi.

O livro, Blake – O Casamento do Céu e do Inferno, saiu pela Hedra em 2008 e pode ser encontrado nas livrarias. Dele constam os famosos “Provérbios do Inferno” que copiei no caderninho e reproduzo aqui:

PROVÉRBIOS DO INFERNO

Na semeadura aprende, na colheita ensina, no inverno desfruta.

Conduz tua carroça e o arado sobre os ossos dos mortos.

O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.

A prudência é uma solteirona rica e feia cortejada pela incapacidade.

Quem deseja e não age, procria a pestilência.

O verme perdoa o arado que o cortou.

Enterre-se no rio aquele que ama as águas.

Um tolo não vê a mesma árvore que um sábio vê.

O homem cuja face não brilha jamais se tornará um astro.

A Eternidade está de amores com as produções do tempo.

A abelha diligente não tem tempo para lástimas.

As horas da insensatez são medidas pelo relógio, mas as da sabedoria relógio algum pode marcar.

Todo alimento sadio se consegue sem armadilha ou rede.

Pássaro algum voa alto demais se o faz com as próprias asas,

Um corpo morto não refuta injúrias.

O ato mais sublime consiste em colocar alguém antes de si.

A Loucura é o manto da velhacaria.

A Vergonha é o manto do Orgulho.

As prisões são erguidas com as pedras da Lei e os Bordéis com os tijolos da Religião.

O orgulho do pavão é a glória de Deus.

A luxúria do bode é a generosidade de Deus.

A fúria do leão é a sabedoria de Deus.

A nudez da mulher é a obra de Deus.

O excesso de tristeza, ri; o excesso de alegria, chora.

O rugir dos leões, o uivar dos lobos, o estrondo do mar tempestuoso, e o gládio destruidor são porções de eternidade grandes demais para o olhar humano.

A raposa condena a armadilha, e não a si mesma.

Alegrias fecundam, tristezas procriam.

Que o homem use os despojos do leão e a mulher o tosão das ovelhas.

Ao pássaro o ninho, à aranha a teia, ao homem a amizade.

O tolo egoísta e sorridente & o tolo carrancudo e triste serão ambos considerados sábios se servirem de exemplo.

O que hoje está provado não passava ontem de imaginação.

O rato, o camundongo, a raposa, o coelho espreitam as raízes; o leão, o tigre, o cavalo, o elefante espreitam os frutos.

A cisterna contém: a fonte transborda

Um pensamento enche a imensidade,

Fala sempre o que pensas e os vis te evitarão.

Tudo o que é crível é uma imagem da verdade.

A águia perdeu todo o seu tempo se deixando ensinar pela gralha.

A raposa provê para si, mas Deus provê para o leão.

De manhã, pensa; de dia, age; de tarde, come; de noite, dorme.

Quem permite que o imponhas é porque te conhece.

Assim como o arado obedece a palavras, assim Deus recompensa as preces.

Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução.

Espera veneno das águas paradas.

Só se sabe o que é bastante depois de se saber o que é demais.

Escuta a censura dos tolos! É um privilégio de reis!

Os olhos do fogo, as narinas do ar, a boca da água, a barba da terra.

O fraco em coragem é forte em astúcia.

A macieira nunca pergunta à faia como crescer, nem o leão ao cavalo como abater sua presa.

Quem recebe agradecido produz colheita abundante.

Se outros não tivessem sido tolos, nós é que o seríamos.

A alma do doce deleite jamais será maculada,

Quando vês uma Águia, vês uma porção do Gênio. Ergue tua cabeça!

Como a lagarta escolhe as folhas mais belas para lançar seus ovos, assim o padre lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.

Criar uma pequena flor exige o trabalho de séculos.

A blasfêmia, distende; a bênção, afrouxa.

O melhor vinho é o mais velho, a melhor água a mais nova.

As preces não aram! Os louvores não colhem.

As alegrias não riem! As tristezas não choram!

A cabeça Sublime, o coração Pathos, o sexo a Beleza, as mãos e os pés Proporção.

Assim como o ar ao pássaro e o mar ao peixe, seja o desprezo ao desprezível.

O corvo gostaria que tudo fosse preto, a coruja que tudo fosse branco.

Exuberância é Beleza.

Se o leão fosse aconselhado pela raposa, acabaria astuto.

O Progresso constrói estradas retas, mas as estradas tortuosas sem Progresso são os caminhos do Gênio.

Antes matar um infante no berço do que acalentar desejos reprimidos.

Onde o homem falta, a natureza é estéril.

A verdade não deve ser dita para ser apenas compreendida, e não acreditada.

Bastante! Ou demais

 

VIENT DE PARAÎTRE-IV

À venda, afinal, na Livraria Cultura, a edição de luxo de Razão e Sentimento, comemorativa do bicentenário de publicação da obra. Esta edição especial ilustrada, de capa dura, da Nova Fronteira (2012), reproduz as gravuras originais de Hugh Thomson e traz, como adendo, capas coloridas de várias edições da obra pelo mundo afora.

A edição brasileira conta com uma apresentação de Leonardo Froes, a história da composição do livro escrita pela famosa janeite Raquel Sallaberry e o artigo O suposto formato epistolar de Razão e Sentimento, do crítico literário inglês, D.H. Harding, especialista em Jane Austen.

Seguem-se algumas gravuras coloridas (capas de edições estrangeiras da obra) entre as muitas publicadas como anexo nesta edição de luxo;

FIELDING: A INSPIRAÇÃO EM CASA

Para o público brasileiro, o nome de Henry Fielding (1707-1754) está definitiva (e quase exclusivamente) ligado ao seu romance “As Aventuras de Tom Jones”, que teve entre nós inúmeras traduções e edições sucessivas (identificáveis desde 1964, sendo que só do Círculo do Livro conseguimos arrolar 17 delas, a partir de 1980). É possível que essa aceitação do livro durante tantos anos seguidos tenha sido em parte alavancada pelo sucesso do filme de Tony Richardson, de 1963, com Albert Finney no papel principal, sendo que o take da ceia, em que este contracena com Joan Greenwood, acabou virando estereótipo, imitada até hoje por cineastas de várias escolas e países. Mas o primeiro romance de Fielding, que lhe garantiu um lugar de destaque na literatura inglesa, “A história das Aventuras de Joseph Andrews e seu Amigo o Senhor Abraham Adams”, que trazia originalmente o subtítulo de “Escrita à imitação da maneira de Cervantes, autor de Dom Quixote”, permanecia inédito entre nós, conforme apurou o tradutor e introdutor da obra, Roger Maioli dos Santos, na exuberante apresentação deste atraente volume da Ateliê Editora, associada à Unicamp, na Coleção Clássicos Comentados.

É possível que este aparente passar ao largo dos nossos editores em relação às aventuras de Joseph Andrews se devesse à falsa suposição de que o livro fosse apenas a mera transição para o Tom Jones, um simples exercício preparatório, facilmente descartável do ponto de vista editorial, já que seria logo eclipsando pelas bombásticas aventuras do segundo. Mas sabe-se hoje que a narrativa pretendia ser, e de fato acabou representando na história literária, muito mais do que um simples estágio de aquecimento para a obra principal. Depois de tentar o teatro com algum sucesso, interrompido pela Lei do Licenciamento Teatral, de 1737, que coibiria a apresentação de suas peças politicamente polêmicas, Fielding inicia em 1741 sua carreira literária com uma paródia (“An Apology for the life of Mrs. Shamela Andrews”), em que, tomando carona no êxito do romance “Pamela” (1740), de Samuel Richardson (1689-1761), critica de maneira contundente o puritanismo da época e a hipocrisia moral do autor. Vampirizando os personagens de “Pamela”, cujo procedimento ele contrasta e subverte, Fielding age de maneira simplesmente imitativa, sem qualquer laivo de criatividade. A heroína de Richardson, Pamela, é uma jovem criada que se defende heroicamente das investidas eróticas do patrão viúvo e acaba tendo sua “virtude recompensada” ao conduzi-lo ao casamento; Fielding põe em cena, em seu panfleto satírico, uma criaturinha matreira que namora o pároco local e simula virtude para seduzir o patrão, a fim igualmente de levá-lo a casar-se com ela. A sátira não teve o êxito editorial imaginado por Fielding, que esperava com ela sair-se das constantes dificuldades financeiras em que vivia. Talvez por isso, tenha voltado, menos de um ano depois, a reelaborar o tema de Pamela, desta vez criando um personagem próprio, Joseph Andrews, embora ainda não de todo desvinculado de Richardson, pois se trata do “irmão de Pamela”, igualmente virtuoso e que foge aos avanços sedutores de sua patroa, a sra. Booty, tia do fidalgo que se casara com Pamela. Mas neste caso as “apropriações” param por aí: as alusões a Richardson surgem apenas como referências identificáveis, pois os personagens de Fielding adquirem vida própria energizados pelo seu poder narrativo através da invenção de intrincadas aventuras, como que inaugurando o gênero “on the road” na literatura inglesa do século XVIII. Joseph Andrews extrapola as dimensões da crítica e da caricatura para assumir assim a forma de uma obra autônoma e criativa. Além disso, o mestre-mentor e companheiro de viagem de Joseph, o páraco Abraham Adams, dono de vasta cultura e não menor distração mental, propicia ao autor momentos de reflexão filosófica, com debates sobre a moral e o dever, a virtude da caridade, tema recorrente em Fielding, e demais pontos sensíveis à sua reflexão sempre aguda. Escrito, segundo o próprio autor, sob a inspiração de Cervantes, o livro deve muito ao autor de Dom Quixote pelo que tem de ironia, de autogozação, de gratuidade dos eventos e, principalmente, do comparecimento destacado de figuras singulares e da gente do povo – o que contrasta com os romances da época em que se distinguiam apenas os vultos principescos ou das classes abastadas.

Os leitores de Tom Jones certamente encontrarão nestas aventuras de Joseph Andrews algo do timing narrativo que se tornaria marca tradicional de Fielding, contrabalançado aqui pelas digressões do desligado pároco de província, Abraham Adams, que segue viagem para Londres a fim de vender seus volumes de sermões, mas se esquece de os levar consigo. O aparente desleixo da narrativa é largamente compensado pela precisa construção deste personagem que, em muitos trechos, ocupa a parte principal do livro. Seu otimismo ingênuo, diversamente do de Pangloss, diante dos percalços do mundo ou da ofensiva dos homens não hesita em valer-se da força dos punhos e da precisão de seu cajado de macieira.

Se o intuito de Fielding era o de ganhar algum dinheiro com seu Joseph Andrews as prospectivas desta vez se realizaram. Saindo em fevereiro de 1742, em dois volumes, em junho já via sua segunda edição e, em março do ano seguinte, a terceira, com seu nome agora figurando na capa. Era a primeira vez que, sempre levando vida desregrada, Fielding podia contar com algum dinheiro. Aos 11 anos, ao perder a mãe, entra com seus irmãos mais jovens na posse da fazenda que lhes coubera por herança, mas o pai, que logo volta a casar-se, em breve não só dissipa a sua parte como a dos filhos, daí resultando um processo judicial. Aos 18 anos, Fielding pretende dar um golpe do baú, mas vendo-se repudiado pela futura noiva, uma rica herdeira, tenta em vão sequestrá-la. Parte para estudar letras na Universidade de Leiden, na Holanda, mas tem de interromper o curso em função das dívidas ali contraídas. O pai, que se enviuvara pela segunda vez em 1727, volta a casar-se, agora com uma viúva rica (o viés de caça-dotes era certamente um traço de família). Em 1734, Fielding casa-se com Charlotte Cradock, com quem tinha fugido e, cerceado em sua atividade de autor teatral, inicia-se na carreira de rábula com variadas passagens pelo jornalismo. Em novembro de 1740 o pai é preso por dívidas e, enviuvando-se novamente, volta a casar-se na prisão, onde morre, meses depois, sem deixar ao filho nada senão algumas dívidas. É por essa época que surge o Joseph Andrews, livro que veio tirá-lo das dificuldades mais prementes. Em 1744, morre sua esposa Charlotte, e Fielding se casa, dois anos depois, com sua ex-criada Mary Daniel, num autêntico desfecho a la Ricardson. Por estes lances esquemáticos, pode-se admitir que Fielding tirava da própria vida (e principalmente da de seu pai) a inspiração para as aventuras de Joseph Andrews que prenunciaram as de Tom Jones. A partir daí sua vida começa a estabilizar-se, ele ganha prestígio como magistrado e atua de maneira eficiente no combate à criminalidade em Londres. Com a saúde abalada (provavelmente em decorrência de excessos), busca melhores ares em Portugal numa viagem narrada em “Journal of a Voyage to Lisbon”, que será postumamente editada, vindo a falecer a 8 de outubro em Junqueira, a 35 km da cidade do Porto, no norte de Portugal.

(Publicado em Prosa & Verso de 17.11.2011 com o título A boa ventura de Fielding)

Quero cumprir agora uma promessa que fiz neste blog há muito tempo. Em 15.03.2011, numa rentrée intitulada Regresso do Recesso, eu acrescentava, com o título Dois Panfletos, um segundo capítulo às Minhas Incursões Literárias, começadas em 14.09.10, ao fim da qual eu prometia uma continuação. Também essa segunda acabou com um Continua – que não se havia concretizado até agora. Pois aqui vai a parte III, que desde já considero o encerramento da série, o The End definitivo, sem continuas.

RAPSÓDIA HERVALENSE

Em janeiro de 1951, pedi demissão de meu primeiro emprego (que eu havia exercido por um ano e pouco) e resolvi passar umas longas férias em Ervália (ex-Herval), minha terra natal, no interior de Minas. Nós já morávamos no Rio desde 1945, mas meu pai lá ficara com sua farmácia filantrópica, incapaz de deixar aquela população que tanto se beneficiava de seus serviços gratuitos e à qual fornecia (fiado) receitas e medicamentos sem a menor possibilidade de retorno. A idéia inicial era ajudá-lo um pouco a receber essas contas antigas e a organizar o estoque atual, além de poder passar algum tempo com ele, já que fracassara a tentativa de convencê-lo a vir também para o Rio.  Durante meses, fiquei dormindo em casa de minha Avó, e pretendia ir todas as manhãs ajudar na farmácia, atender os clientes, vender remédios, cuidar da caixa. Mas minha atividade mesmo acabou sendo a de escrever na velha máquina Remington, que permanecia a maior parte do tempo sem função. Até o Quidinho [prometo um artigo inteiro sobre ele], nosso prático, que tirava as contas para serem enviadas aos devedores “esquecidos”, preferia escrever à mão, com sua bela caligrafia de contador, a se utilizar da barulhenta máquina, que ficava escondida sob uma enorme tampa negra de metal. Pois foi nessa máquina que compus minha Rapsódia Hervalense, versos simplórios que exaltavam a cidade e seu povo, falava sobre o jardim e as retretas, o Santo Cristo, a Biquinha e o Cemitério. Depois de pronto o texto, que em parte eu havia composto no Rio, curtindo as saudades e antecipando a vagabundagem das férias, resolvi imprimi-lo por minha conta e risco. Na Casa Paroquial havia uma prensa rudimentar, usada para imprimir avisos fúnebres e propagandas comerciais, que o Sebastião do Tietre distribuía na rua, trombeteando uma corneta acústica. O proprietário da tipografia era o Juca Valente, pai do então vigário paroquial, Pe.Teófilo de Andrade, com quem eu mantinha boas relações intelectuais e me iniciava no mundo da ópera, pois a igreja recebia nessa época uns vinis de grandes dimensões (capazes de tocar uma boa meia hora de música sem interrupção) e ficávamos tentando saber o que era Noi siamo gente avvezza e Nella tua freda stanza (que ouvíamos como soando fredazansa – que seria?)…

Fugindo de bancar a impressão, seu Juca Valente me confiou a tipografia para que eu mesmo compusesse o livreto. Creio que estava certo de que eu iria desistir diante das dificuldades, pois nunca tinha visto aquelas caixas de tipos, nem sabia sequer como movimentar a prensa. Fui aprendendo a compor os tipos à medida que os manuseava, tirando-os um a um dos caixotins e os alinhando no componedor. Logo estava conhecendo as versais e os versaletes, as entrelinhas, os quadratins, a galé e o paquê, que ia amarrando e guardando nas prateleiras de granéis.  Para não me enganar, fiz um “boneco” do livreto: ele teria 24 páginas, equivalentes a três páginas A4 divididas ao meio e dobradas em duas. Isto facilitava a composição gráfica, pois cada impressão compreenderia 4 páginas do libreto, de modo que a primeira impressão devia incluir as páginas 24 – 01 e 22 – 03;  a segunda, as páginas 20 – 5 e 18 –7, e assim por diante. O cuidado maior seria quando da impressão do verso dessas páginas, que eu não podia me enganar pondo-as de cabeça para baixo, nem hesitar em sua correspondência numérica. Era um quebra-cabeças, e certamente devo ter me exasperado quando as páginas saíam trocadas ou viradas ao revés. Fiz o cálculo para a aquisição do material, que iria adquirir na casa do Sr. Pedro Lopes, cuja loja vendia fazendas mas dispunha também de um escolhido setor de papelaria: lá comprei trinta folhas de papel almaço (o nome antigo do A4) para o miolo e dez folhas de cartão alaranjado (a cor disponível) para a capa.. Eu pretendia fazer apenas dez exemplares do livrinho, dedicado naturalmente à minha Avó, que receberia  o primeiro, encabeçando uma lista de ofertas com os nomes de meu pai, o Quidinho, o Pe. Teófilo, o Sr. Pedro Lopes, duas de minhas antigas professoras e duas de minhas atuais namoradas, que já conheciam os versos de antemão. Minha Avó apelidou-o de “catecismo”, por causa do formato e da cor da capa, e o trouxe para o Rio, onde veio morar e onde faleceu. Passados 60 anos, o dela e o meu foram os únicos exemplares que restaram da “tiragem”.

Ainda hoje leio com certa emoção estas rimas ingênuas, a maioria delas em redondilha menor, salvo os sonetos que já eram decassilabos.  E A Biquinha continua sendo para mim um dos versos mais puros e sentidos que a minha juventude concebeu. Rio-me da pretensão do título, ou melhor, das “divisões” da “obra”. Se ficasse só em Rapsódia, tudo estaria bem, pois as rapsódias compõem-se em geral de um único movimento, explorando motivos folclóricos ou tradicionais. Mas me meti a sabichão e introduzi outros “movimentos” com nomes extraídos de uma terminologia sinfônica, incabíveis no caso. No entanto, o que mais me surpreende em tudo isto é a epígrafe, em latim, extraída do Gênesis XIX-17: Salve animan tuam: noli respicere post tergum, que o tipógrafo amador não conseguiu colocar à direita, e cuja tradução poderia ser: Salva a tua alma e não olhes para trás. Estranha maneira de homenagear a minha terra! Ou quem sabe eu quis, com o livreto, despedir-me dela?!…

Acaba de sair o oitavo número da revista THE PRESIDENT relativo ao trimestre março/abril/ maio de 2012. Especialmente dirigida ao mundo empresarial, trazendo sempre uma entrevista com algum dos nossos grandes empreendedores da indústria ou do comércio, a revista acolhe ainda em suas páginas variadas seções culturais, entre elas a que aborda assuntos referentes aos sentidos humanos: visão, audição, olfato, paladar e tato. Neste número, em olfato, foi publicado o texto abaixo que escrevemos sobre o órgão olfativo de Pinóquio, encimado pela ilustração de Enrico Mazzanti, da primeira edição original italiana do livro de Carlo Collodi.

A ANOSMIA DE PINÓQUIO

Se perguntarem a um senhor de uns 50 anos qual o nariz mais famoso de seu conhecimento, ele certamente responderá que é o de Cyrano de Bergerac, personagem imortalizado na comédia heróica de Edmond Rostand, estreada em Paris em 1897, que permanece em cartaz até hoje, 115 anos depois. A peça relata a história de um narigudo romântico, exímio espadachim, amoroso de sua prima Roxane, que ele conquista para outro cadete gascão, por quem ela estava apaixonada. A petite histoire em torno dessa encenação conta que Constant Coquelin, ator escolhido para interpretar Cyrano, atuou mais de 400 vezes no papel e exigiu 50 modelos diferentes do nariz em cera para escolher o que mais lhe parecia condizente com sua figura na representação do personagem…

Mas se perguntarem às crianças de quaisquer idades, dos 8 aos 80 anos, qual o nariz mais famoso que lhes vem imediatamente à memória, podem estar certos de que a resposta será: o nariz de Pinóquio. E por quê? As aventuras de Pinóquio, uma obra-prima da literatura italiana, supostamente escrita para meninos de escola por Carlo Collodi em 1881 (ou seja há mais de 130 anos, portanto anterior ao Cyrano), relata as atribuladas peraltices de um boneco de madeira, cujo nariz cresce e cresce mais a cada vez em que ele prega uma mentira. Tal narrativa vem desafiando o tempo e os modismos literários, encantou os leitores de praticamente todos os países do mundo e sofreu versões, adaptações, cortes e acréscimos que a desfiguraram sem no entanto conseguir apagar seu encanto inicial latente. O cinema, pelos estúdios de animação de Walt Disney, incumbiu-se de glamourizá-la, de torná-la piegas, afastando, desta forma, a narrativa cada vez mais de seu texto original, Esta terá sido, certamente, a razão principal que me levou a traduzir, mantendo-lhe a integralidade e o estilo, esse livro em que o endiabrado Pinóquio aparece como um menino preguiçoso, aluno relapso, cujo ideal era o de não fazer nada na vida. A grandeza do livro está precisamente no “aprendizado” que leva à transformação do boneco de pau num menino de carne e osso, condição obtida graças à conscientização de que a verdadeira vida pressupõe o trabalho, a dedicação e às vezes até mesmo o sacrifício. O que Pinóquio não consegue, pelo menos a princípio, é perseverar em suas boas intenções: no capítulo XXIX, depois de quase ter sido frito no caldeirão do Pescador verde, ele regressa à casa da Fada e promete que será estudioso e se comportará bem; durante seis meses cumpre sua palavra e chega a ser o melhor aluno da classe, mas… (como diz o livro, há sempre um mas que estraga tudo na vida dos bonecos) o primeiro aceno da aventura o leva ao mais acerbo descaminho. De modo que o livro acaba sendo a história de um herói às avessas que só consegue dar a volta por cima depois de muito aprender com as dificuldades da vida.

Embora o nariz de Pinóquio tenha ficado famoso e faça parte até hoje do inconsciente coletivo, ele na verdade não cheirava; era totalmente destituído de olfato. Mesmo sendo de pau, Pinóquio tem uma visão acuradíssima e enxerga seu criador, Geppetto, a milhas de distância perdido num barquinho no mar; ouve bem, é sensível ao menor som, à distância ou ao seu redor, a ponto de perceber as palavras de um grilo que tenta lhe dar conselhos; seu paladar chega a ser requintado, pois mesmo em momentos de fome, recusa comer favas, de que a princípio não gosta. Mas e o nariz? O sentido do olfato? Talvez para acentuar outra qualidade – a de censor ético –, Collodi não atribui ao nariz de Pinóquio qualquer tipo de sensibilidade que lhe permita distinguir odores: não há fragrâncias de perfumes, cheiros de comida ou mesmo emanações mefíticas que impressionem o órgão olfativo do boneco. Ele parece movido principalmente pelo apetite, está sempre com fome e não se acanha mesmo de roubar para satisfazer seu estômago. Num dos capítulos mais aventurosos do livro (XXVIII), Pinóquio é atraído a uma gruta escavada numa escarpa que vai dar no mar; dentro dela, o Pescador Verde está preparando seu almoço de peixes fritos, mas Pinóquio é atraído a ela não pelo cheiro da fritura e sim pela fumaça que sai dali e onde ele, por isso, espera encontrar fogo para secar as suas vestes. 0 antro é descrito como “uma gruta escura e enfumaçada, no meio da qual frigia uma grande panela de óleo soltando um cheiro de pavio queimado que chegava a tirar a respiração”. Mas Pinóquio nada sente, muito menos agora que está se debatendo nas garras do Pescador que o toma por um peixe raro e vai comê-lo.

Durante a tradução do livro, fiquei me perguntando a razão pela qual o autor, Collodi, omite qualquer capacidade olfativa do nariz de Pinóquio, e exalta os seus demais sentidos, todos aguçados e sempre funcionando mesmo nas piores circunstâncias. A hipótese mais provável é a de que talvez quisesse acentuar outro tipo de sensibilidade desse traço fisionômico que acabou por se tornar a característica da identidade do boneco: um nariz acusador de mentiras. E este achado tornou-se um referencial, um recurso familiar até hoje, quando os pais advertem os filhos que o nariz deles vai crescer se disserem patranhas. Cheguei a insinuar acima que o nariz era uma espécie de “censor ético”, ou seja, que exercia uma censura moral sobre o boneco toda vez que ele mentia. Mas, além disso, esse nariz era também um “sensor físico”, pois lhe permitia avaliar o tamanho da mentira pelo crescimento da bicanca e, no caso da série de mentiras que tentou impingir à Fada (XVIII), cresceu tanto que foram necessários milhares de pica-paus para desbastá-lo até seu tamanho natural.

É possível que esta perda do olfato – que cientificamente atende pelo belo nome de anosmia – tenha vindo de berço, ou seja, ocorrido na própria confecção do boneco, pois lá está que o nariz “mal tinha sido feito, começou a crescer: e cresceu, cresceu, cresceu tanto que em poucos minutos se tornou um narigão que não acabava mais. O pobre Geppetto não se cansava de cortá-lo; mas, quanto mais cortava e encurtava, mais aquele nariz impertinente se encompridava”. Talvez Geppetto, em sua cirurgia escultórica, tenha afetado o epitélio olfativo do boneco e, sem querer, incidido no hipotálamo de tal forma que o tornou um sistema regulador de verdades e mentiras.

     Há 150 anos, precisamente no dia 3 de abril de 1872, publicava-se simultaneamente em Paris, Leipzig, Bruxelas, Bucareste, Milão, Roterdan, Varsóvia e… Rio de Janeiro, o romance “Os miseráveis”, do escritor francês Victor Hugo, que seria considerado daí por diante a maior obra literária do século XIX.
Adendo de Denise Bottmann
     Consultando a internet em busca de referências a traduções assinadas por josé maria machado pelo clube do livro, encontrei um curto texto de ofir b. de aguiar, com um dado que eu desconhecia por completo: a tradução d’os miseráveis de victor hugo começou a ser publicada no brasil antes que saísse o original francês!

 

     A história é a seguinte: victor hugo não queria de maneira nenhuma um roman-feuilleton, isto é, a publicação da obra em capítulos num jornal, como muito se fazia na época. ficou decidido com seu editor belga (pois naquela época ele estava exilado na bélgica) que les misérables seria lançado diretamente em formato de livro, em vários volumes. então ficou programado o lançamento para o dia 3 de abril de 1862, em várias cidades em simultâneo: paris, leipzig, bruxelas, budapeste, milão, roterdã, varsóvia e rio de janeiro.

     Mas, no contrato que victor hugo tinha assinado com o editor, havia uma cláusula que autorizava este último a licenciar o direito de tradução em folhetim para jornais de língua estrangeira. em vista disso, o editor pôde negociar com o proprietário do jornal do comércio a publicação serializada d’os miseráveis. o jornal se antecipou 24 dias ao lançamento do livro e assim foi que, em 10 de março, os brasileiros já puderam começar a ler os capítulos iniciais em português. o jornal do comércio não citava o nome do tradutor, mas, segundo alguns estudiosos, teria sido justiniano josé da rocha – o qual, porém, morreu antes de terminar a tradução, que então teria sido concluída por antônio josé fernandes dos reis.

O HUGO-OCEANO VOLTA À TONA

A vida de Victor Hugo vale um de seus livros: é uma apoteose de esplendor e miséria, de atos sublimes e atitudes mesquinhas, de momentos de glória e instantes de ignomínia — enfim dos altos e baixos de que se compõe a existência dos gênios e heróis que surgem de tempos em tempos neste mundo insípido de cidadãos comuns. Porque ele, como escritor, soube utilizar-se da carregada paleta do Romantismo para criar em seus romances figuras que incarnavam a diversidade dos arquétipos humanos, fazendo de seus personagens exemplos icônicos que sobreviveriam para sempre no mundo da literatura. Seus livros foram comparados a catedrais góticas pelo compósito de seus elementos, nos quais o autor exibe exuberantes conhecimentos de arquitetura, pintura, história, filosofia, ciências, tudo versado num estilo grandiloquente que se sustenta à custa do maior vocabulário da literatura francesa desde Moliere. Mas o escritor não era apenas um romancista, era também o maior poeta da França, um político que mudou a história de seu país, um dramaturgo que estabeleceu cânones no teatro de seu tempo, um amante insaciável cuja concupiscência jamais decresceu com o avançar da idade — enfim, um desses monstros sagrados que parecem encerrar múltiplas vidas e conflitantes personalidades, um homem-oceano, como ele se referiu a Shakespeare, embora pensando em si mesmo.

É natural que este grande afresco sócio-cultural do século XIX despertasse o interesse dos biógrafos, a começar por sua própria esposa (a quem traía descaradamente com atrizes e criadas, e era traído por ela com seu melhor amigo, o crítico Sainte-Beuve), e se tornasse um baú sem fundo para os pesquisadores literários e os bisbilhoteiros das fraquezas humanas. Inúmeras são as biografias de Hugo em francês e outras línguas, destacando-se, entre as primeiras, uma vida romanceada escrita por André Maurois (Olympio, 1954) e o grandioso panorama de Alain Decaux, estabelecido 30 anos depois, em dois volumes, que sempre consideramos imbatível pela intimidade siamesa com a obra, a exaustão das pesquisas, o percorrer minucioso dos lugares todos em que o drama Hugo se desenrolou, a leitura paciente dos milhares de cartas que Juliette Drouet (a amante oficial de Hugo) escreveu ao poeta, o que somavam anos a fio na elaboração de um texto que procurou ser isento e apresentar o homem Hugo no lugar do busto convencional de Victor Hugo. Alain Decaux afirma em certa passagem de seu livro: “Sabemos tudo sobre Hugo. O que ele não nos disse sobre si mesmo, outros se encarregaram de fazê-lo. Sabemos de detalhes mesmo de suas noites de amor. A começar pela primeira, a de 12 para 13 de outubro de 1822. Estreitando contra o seu pela primeira vez o corpo da bem-amada, ele provou-lhe nove vezes seu desejo”. Não se veja naquele sabemos nenhuma jactância do autor; o que ele quer dizer é que a pletora de documentação sobre a vida de Hugo transcende os grandes momentos e os dados oficiais e pode ser rastreada até a intimidade das alcovas, os olhares furtivos e as aventuras picantes, graças aos diários secretos mantidos por ele, por sua amante Juliette e por sua esposa Adèle.

Mas eis que surge agora um novo Victor Hugo, tijolaço de seiscentas e cinquenta páginas, como convém à moda atual das biografias, assinado por um inglês, professor universitário e autor de outras biografias que já estiveram ou ainda estão nas listas de best-sellers lá fora. Graham Robb, o autor, leciona francês na Universidade de Oxford e consta, de sua própria e extremamente recatada biografia, que é casado com uma bibliotecária daquela universidade, o que talvez seja sintomático para explicar a seriedade e extensão que concede às bibliografias de seus livros: as 140 páginas finais deste volume são inteiramente dedicadas a permitir ao leitor universitário a localização da fonte de que ele se valeu para dizer ou supor algo, por mais insignificante que seja, em praticamente todos os parágrafos do livro. Não há dúvida de que Robb conhece bem seu ofício e o território da literatura francesa é seu jardin potager. Já publicou uma biografia de Balzac, um ensaio em francês Baudelaire lecteur de Balzac, traduziu a extensa biografia de Baudelaire, de Claude Pichois, escreveu um Unlocking (decifrando) Mallarmé e, mais recentemente, a biografia de Rimbaud que obteve o cobiçado título de O Livro do Ano na apreciação do New York Times. Mas não queremos manter nem mais um instante o leitor em suspense: o livro de Graham Robb sobre Victor Hugo é excelente, revelando um grande escritor capaz de analisar fatos e contar episódios da vida alheia com refinada elegância, entremeando-os com o requinte do humor, sem nunca perder a objetividade da narrativa. Seu livro é mais moderno, mais bem documentado pelos estudos e achados recentes, que o de seu antecessor francês. Fala ao leitor de hoje mais de perto, quase com a mão no ombro, mas sem querer cativá-lo de outra forma senão pelo brilho de seu talento e profundidade de sua análise. Se num trecho ou noutro ainda nos mostremos saudosos da encantadora prosa do francês, é impossível negar a probidade do inglês que, como a justificar a escolha de uma figura já exaustivamente biografada, afirma ter caminhado pela terra de ninguém entre os hugólatras fervorosos e os iconoclastas empenhados em derrubar o ídolo de pés de barro. No caso de Hugo, tal meio-termo é quase impossível de ser obtido com imparcialidade, e leva em geral um autor à tentação de, sempre que mencionar uma qualidade notável de seu biografado, contrapor-lhe uma segunda intenção menos nobre, com o que o retrato sempre sairá mais para Dorian Gray do que para o radioso Olympio. Tal técnica de uma-no-cravo-outra-na-ferradura não se aplica à análise de Robb, que é sempre equitativo, mormente no julgamento dos atos políticos de Hugo, em geral mostrados como oportunistas pelos seus detratores. O grande mérito deste biógrafo, diante de uma vida tão rica e exaustivamente documentada como a de Hugo, está em saber o que deixar de fora, por excedente, sem nunca sacrificar o detalhe, quando esclarecedor. Graham Robb usa a dosagem certa e se o livro atingiu o volume a que chegou é porque tinha material suficiente para escrever dez outros. Ele passou três anos mergulhado na obra de Hugo; leu tudo, romances, peças de teatro, artigos de jornal, noticiário da época, ensaios, todos os poemas, a infinidade de cartas… sem falar nas mais de quinhentas obras que consultou para escrever o livro. Fazê-lo foi para ele, segundo afirma, a justificativa do tempo que levou entregue a essas pesquisas e leituras. Mas nada disso bastaria para alcançar o resultado obtido se não fosse ele o grande escritor que aqui se mostra. Aquinhoado em 1997 com o prêmio Whitbread, Robb certamente não perdeu seu tempo e saíram ganhando igualmente os leitores que poderão conhecer agora, de corpo inteiro, uma das figuras mais representativas do século XIX.

Mas, poderão perguntar os leitores: para que conhecer Victor Hugo? Quem está a fim de o ler hoje em dia? Nos Estados Unidos já corre a piada do casalzinho que vendo o volume na vitrine de uma livraria, ele pergunta a ela: Isn´t that the guy who wrote Les Miz? (Não é esse o cara que escreveu Os Miseráveis?). E o mais sintomático é que não estava se referindo ao livro e sim ao musical, hoje tido como o de maior sucesso na Broadway, já há dez anos em cartaz somente nos Estados Unidos. Outra mostra do ostracismo de Hugo em nosso tempo seria a referência a O Corcunda de Notre Dame, mas na versão Disney, com seu Quasi simpático e bonachão. Com boa vontade e quase beirando o cult, algum jovem ainda se arriscaria a citar Adèle H., não propriamente a filha alienada de Hugo que morreu em 1915 numa luxuosa clínica de repouso em Suresnes, mas aquela misteriosa personagem que a beleza de Isabelle Adjani viveu no filme de Truffaut. O Hugo romancista e poeta não mais existe para o público da França e muito menos o daqui. Mas os leitores não sabem o que estão perdendo. Seus romances são muito mais que histórias digestivas, e não ter lido O último dia de um condenado, O corcunda de Notre Dame, Os miseráveis, O homem que ri e Os trabalhadores do mar é ter passado de olhos vendados pela juventude. Uma oportunidade de penetrar o grandioso em nosso tempo de mesquinharias. Quanto aos poemas, estes foram marcos inovadores, faróis determinantes das novas tendências da época e representaram o momento mais alto da Poesia de seu tempo. Mas é difícil admitir que algum colegial, mesmo francês, saiba hoje algum deles de cor. Sua importância no entanto foi tão grande , mesmo muito tempo depois, que imitadores ou discípulos surgiram em todas as partes do mundo. Em Portugal, houve Guerra Junqueiro, que era tão parecido com o mestre que chegou a escrever uma Arte de ser avô, cujo título copia servilmente L´Art d´être grand-père do poeta francês. No Brasil, a voz de Castro Alves teve ressonâncias hugoanas e suas apóstrofes e metáforas condoreiras se ombreiam com os vôos olímpicos do vate.

Quando André Gide, ao dar uma entrevista sobre a antologia poética que preparava para a Gallimard, perguntado sobre quem era o maior poeta francês de todos os tempos, respondeu: Victor Hugo, hélas! — essa lamentação ficou tristemente famosa a ponto de se tornar hoje em dia um dos poucos pontos de referência do leitor em relação a Gide. O desprezo ou insensibilidade pela poesia de Hugo prosperaram à solta até que os surrealistas resolveram restaurá-lo e Breton o incluiu entre os profetas do surrealismo. Em 1963, Georges-Emmanuel Clancier em seu Panorama Crítico da Poesia Francesa – de Chénier a Baudelaire, com que tornou famosas as antologias publicadas por Seghers, refutava a boutade de Gide: “Como se ousa denegrir ou ignorar este imenso, este maravilhoso, este poeta único? Como se pôde tratar de estúpido a esse gênio? Como André Gide achou que devia acrescentar um hélas, que acabou célebre, à sua resposta que dava Victor Hugo como o maior poeta francês? Mas é claro, o maior, sim, e não hélas mas hurra! mas bravo, mas bendito o céu! o céu que não é mais vasto nem mais diverso do que o gigante criador da Legenda dos Séculos, do Fim de Satã ou dos Miseráveis!” Palavras evidentemente de um torcedor vestindo a camisa, mas o inquestionável e marfínico Valéry também assim se exprimiu: ” Que versos prodigiosos, aos quais nenhum outro verso se compara em extensão, organização interna, em ressonância, plenitude, ele escreveu no último período de sua vida!” Aconselho aos leitores que nunca leram nenhum verso de Hugo que tentem pelo menos o Booz endormi, para se restaurarem no grande clima da poesia do Romantismo.

No ano que vem, 2002(*), teremos o bicentenário de nascimento de Hugo e certamente seus livros serão reeditados como aconteceu agora com Os Maias. Talvez então os leitores estejam a fim e não percam a oportunidade. Mas enquanto não chegamos lá, aqui está à mão esta biografia definitiva de Graham Robb que lhe contará a vida de Hugo, desde o momento de sua concepção (sabe-se perfeitamente o lugar onde foi gerado); a infância de menino genialmente precoce; a desagregação familiar dos pais; o romance com a vizinha Adèle, disputada com o irmão Eugène que acaba louco; a viagem à Espanha onde o pai, general, servia e que lhe ficará gravada no subconsciente a ponto de na velhice fazer anotações em seu diário secreto num espanhol paellônico, hoje devidamente decriptado; seu casamento, a esposa, as amantes, os filhos, a perda de Léopoldine, a dileta, que morreu afogada; seu sucesso de escritor a partir do primeiro livro; a extraordinária ascensão como poeta, pelo domínio do verso e a profusão de imagens faiscantes; a entrada para a Academia Francesa aos 39 anos; a atuação política, com a guinada de monarquista e fervoroso defensor de Napoleão, le grand a republicano e inimigo frontal de Napoleão, le petit; seu teatro de conotações político-sociais cujas estréias constituíam verdadeiras batalhas; o exílio de 18 anos nas ilhas de Guernsey e Jersey; a volta triunfal a Paris; os anos de glória na avenue du son nom; as aventuras amorosas da velhice, inclusive seu bisio (decriptado como cópula) em Mme. Baa, a senhora barbadiana que lhe trouxe de volta a fujona Adèle, já então em estado de afasia, e sobre a qual anota em seu diário secreto: A primeira negra de minha vida, o que além de demonstrar que os franceses são de fato chegados ainda atesta que são também otimistas. Finalmente a morte e o funeral, o maior que já se registrou na história da França. Mas não é só a novela Hugo que assistimos em G. Robb; ele também conta, analisa e interpreta os livros (em prosa e verso) instigando o leitor a melhor conhecê-los. Se não tivesse todos os outros méritos, seria este suficiente para recomendar o livro. Bom proveito.

(* Este artigo foi escrito para o Prosa & Verso em 2001, quando saiu a biografia de Graham Robb).

OS MISERÁVEIS E A TENTAÇÃO DO IMPOSSÍVEL

Nos dois suculentos volumes de sua “clássica” biografia de François Victor Hugo, o historiador Alain Decaux nos afirma: “Sabemos tudo sobre ele” e, para provar sua asserção, chega a ponto de nos revelar detalhes íntimos do grande gênio, como por exemplo seu trato erótico-senil com as criadas de Guernesey, às quais gratificava com miseráveis quantias para lhe mostrarem o pé, um trecho da perna ou (o mais caro) a curva de um seio. O intuito – louvável – de Decaux foi o de apresentar um Hugo humano, de carne e osso, com todas as virtudes e defeitos de um indivíduo comum, não obstante a auréola de supergênio, de Homem-Oceano, que oficialmente o acompanha. Mas, se investigações dessa natureza são apreciadas pelos fã-clubes de vária natureza, paira uma dúvida quanto à necessidade (e, mais ainda, quanto à utilidade) desse tipo de levantamento, desse escrutínio minidetalhista em relação a um autor cuja obra em si já lhe garante a perenidade sonhada pelos gênios. Não resta dúvida que o conhecimento de um escorço biográfico, de certos enfoques sobre o ambiente familiar e os componentes da formação de um escritor possam concorrer para a melhor apreciação de sua obra, mas, em nosso entendimento, seria bastante preferível que os analistas se debruçassem sobre as peculiaridades da obra, perscrutando-lhe o estilo e as intenções, a se deterem em aspectos mundanos e circunstanciais do cidadão-autor que em nada contribuem para o entendimento dela. A ênfase exagerada sobre os aspectos episódicos da vida de grandes autores não raro leva ao distanciamento ou ao desinteresse pela obra, e tenho disso experiência própria: muitos jovens que não leram sequer a Saison en Enfer, não se acanhavam em me perguntar se Rimbaud tinha sido traficante de armas…

Creio que nunca estaremos livres desses aspectos secundários que podem ser encontrados em biografias detalhistas nas quais um autor é tratado como verdadeiro popstar e em que são expostos todos os escaninhos de sua privacidade, a ponto de lhe descreverem os chinelos e abotoaduras. Recentemente, e contrariando a norma de a biografia de Hugo ser apanágio de acadêmicos em fim de carreira, o universitário Jean-Marc Hovasse, de 35 anos, vem de lançar o 2º volume (dos quatro previstos) de seu até agora imbatível trabalho, com 1300 páginas, 350 das quais só de notas; seu escopo é mais sério e os temas literários se sobrepõem às questiúnculas mundanas, a essa trívia que faz o deleite dos leitores de resumos. Mas…

Eis que, como um presente inusitado, por ser muito mais que uma biografia e englobar a vida e a obra de Hugo, chega-nos agora este ensaio que Vargas Llosa desenvolveu a partir de um curso de literatura europeia comparada, ministrado na Universidade de Oxford em 2004, e ao qual deu o título lamartiniano de “A tentação do impossível”. Nele, Vargas Llosa limitou-se a analisar em profundidade um único livro de Hugo, Os Miseráveis, mas, ao fazê-lo, é como se declarasse desde logo que tal livro representa o corpus de todo o pensamento do autor, o sentido de todas as suas ações, o alcance de todos os seus ideais. Chamando-o de “o divino estenógrafo”, Llosa mostra como o autor buscou criar uma “realidade” (que Hugo chama de dramática) mais abrangente do que a “realidade real”. Diz Llosa: “Os fatos que nos conta não são a verdade, a vida, a história; são ‘a verdade’, ‘a vida’, ‘a história’ do romance: [ou seja] de uma mentira” [...] “Uma recriação da vida tão infiel quanto persuasiva, não uma reprodução do real, mas uma transgressão da realidade que por seu poder de convicção nos é imposta como verdadeira” [...] A mentira radical que é a verdade da literatura”. E aqui ficaríamos citando indefinidamente todas as lúcidas frases deste ensaio, não fosse nosso intuito o de induzir o leitor a conhecê-lo em sua integralidade, a desfrutar da análise deste livro que chega a penetrar os recônditos das próprias intenções do autor. Llosa mostra como Hugo se faz onisciente e todo-poderoso, mas que se autocrítica a si próprio em seus arroubos, volta atrás, refaz o que lhe parece impróprio, arrepende-se às vezes do que fez, volta a fazê-lo como um deus atormentado em seu processo criativo. Hugo afirma na abertura do volume que seu livro é “uma passagem do mal ao bem, do injusto ao justo, do falso ao verdadeiro, da noite ao dia, do apetite à consciência, da podridão à vida, da bestialidade ao dever, do inferno ao céu, do nada a Deus. Ponto de partida: a matéria; ponto de chegada, a alma. A hidra no princípio e o anjo no final”. E Llosa esmiúça cada uma dessas “intenções”, dessas dicotomias maniqueístas, descobrindo-lhes as falhas, os exageros, as manipuladas coincidências, e também as suas grandiosas conclusões. Analisa o comportamento de cada um dos personagens – arquétipos do bem e do mal, da consciência e do dever, da pureza e da devassidão, etc. – desvendando-lhes o que têm de verossímil, de humano ou de meramente ficcional, sem deixar de concluir que Hugo, nesta obra, criou alguns dos tipos mais consistentes de toda a literatura mundial. Um dos momentos apiciais do livro – a batalha de Waterloo – cuja vitória Hugo atribui à providência divina (e não aos ingleses) encontra, nos comentários de Llosa, uma substancial digressão sobre “a prodigiosa habilidade do acaso”. Mas o ensaio não deixa de comentar igualmente as críticas desfavoráveis sofridas pelo livro logo após sua publicação, principalmente as de Alphonse de Lamartine, que, na base do politicamente correto, escreveu uma resenha acusatória que acabou se tornando o opúsculo A tentação do impossível, título de que Vargas Llosa se apropriou para designar este seu ensaio, no qual avalia, igualmente, os argumentos um tanto convencionais de Lamartine, que acreditava ser possível a um grande romance “subverter a ordem social”. Vargas Llosa consegue com este livro ser o maior resenhista que Victor Hugo poderia desejar para o seu livro. Confira. E, a propósito, você já leu Os Miseráveis? [A melhor tradução que conheço é a de Frederico Ozanam Pessoa de Barros, editada pela Cosac & Naify em 2002, correta e completa]

(Publicado em Prosa & Verso, em 21.01.2012, como o título “Victor Hugo por inteiro”)

Bom proveito.

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