Feeds:
Posts
Comentários

A GAVETA DO IVO VOLTA A ABRIR-SE NO DIA 25.11

UM POEMA DE  JOSÉ ASSUNCIÓN SILVA (1865-18960),

COLOMBIANO, VERTIDO PARA O INGLÊS POR IVO BARROSO

 

LÁZARO / LAZARUS

 

Vem, Lázaro! – gritóle

el Salvador. Y del sepulcro negro
el cadáver alzóse entre el sudario,
ensayó caminar, a pasos trémulos,
olió, palpó, miró, sintió, dio um grito
y lloró de contento.
Cuatro lunas más tarde, entre las sombras
del crepúsculo escuro, en el silencio
del lugar y la hora, entre las tumbas
del antiguo cementerio,
Lázaro estaba sollozando a solas
Y envidiando a los muertos.

“Come, Lazarus, come with me”,
said the Master. And the dead body
arouse up and began to walk
with shaking steps.
Looked, touched, smelt, felt,
and cried for happiness.
Four moons later, in the shadows
of the night, in the silence
of the old cemetery,
among the graves,
Lazarus was alone, sobbing,
fully envious of the dead.

Convite

                     CONVITE –  DIA  22 DE NOVEMBRO –   18h30

                     NA  BIBLIOTECA  DO  CCBB-RIO –  5º ANDAR

                     PALESTRA SOBRE OS LIVROS DE RIMBAUD

Este blog está completando dois anos hoje, Durante esse período tivemos algumas paradas a que chamei ironicamente de recessos: sinais de que certo desânimo se abatia sobre o autor. Os assuntos aqui tratados me pareciam muito pessoais, e as postagens passavam a ser apenas um meio virtual de arquivá-los. Mas uma quantidade expressiva de visitas, e mesmo de alguns comentários que uns poucos amigos e dois ou três leitores anônimos aqui deixaram, me davam a falsa impressão de que podia haver algo de interesse nestas notas. Procurei quanto possível variá-las. Ainda que meus poemas e artigos passassem sem leitura, um texto sobre a história do champanhe foi consultado por centenas de visitantes, que a ele ainda retornam vez por outra. Se essa constatação me inclina a pensar que meus assuntos literários têm menos sabor que os etílicos, por outro lado uma resenha que fiz sobre Alphonsus de Guimarães, o grande poeta simbolista mineiro, continua imbatível no cômputo das consultas diárias, não se verificando ultimamente nenhum dia em que não seja visitada pelo menos por seis vezes. É bom fazermos, pois, mais uma parada (recesso?) para decidir sobre o futuro deste blog. Um trabalho extenso me aguarda, respeitante a Italo Svevo, autor de quem fui o introdutor no Brasil. Voltaremos talvez, depois dessa nova refrega, certos de que o leitor nos perdoará os constantes vaivéns. Tenho ainda uns casos para contar, prometidos aos leitores. Sei que não lhes farão falta, mas tenho por princípio cumprir minhas promessas. Guardo ressaibos, sim, de achar que alguns assuntos, para mim tão cruciais, passaram brancamente pelas nuvens, sem uma palavra mínima que me desse a sensação de estar me comunicando. E desculpem se algum relato lhes pareceu um stunt and trade of charms, no dizer de Dylan Thomas. Foram momentos milagrosos que passaram. Hoje, como já disse num poema, contemplo a chuva da janela e espero a chegada do correio…

_________________________________________________

 

      

       A dramaturgia de Bertolt Brecht é a bem dizer familiar ao público brasileiro. As obras-primas de seu “teatro épico”, a começar por A Alma Boa de Set-suan, foram quase todas encenadas entre nós: Mãe Coragem e seus filhos, Os Fuzis da Sra. Carrar, O Sr. Puntilla e seu criado Matti, O Círculo de Giz Caucasiano, além de termos tido uma nova montagem de A vida de Galileu. No entanto, a maioria de seus biógrafos e críticos (viz. John Willet, Martin Esslin, Frederic Ewen e Max Spalter) consideram-no antes de tudo um poeta que procurou expressar-se através do teatro na convicção de que esse meio era mais eficiente que o livro para despertar nos espectadores uma reação perdurável, capaz de os levar a “agir no dia seguinte”. No que respeita à sua obra poética, o público brasileiro também não está de todo carente de traduções, embora um ensaísta por dentro como Otto Maria Carpeaux considere a poesia de Brecht “intraduzível” até mesmo para “qualquer dos estilos da poesia alemã”, já que seus versos “não são barrocos, nem clássicos, nem românticos, nem ‘modernos’, parecendo-se com as baladas populares que se vendem nas feiras, com nursery-rhymes, canções roucas em igrejas rurais, ‘cantigas de desafio’ de gente do povo: em metros irregulares, às vezes duramente rimados”. Ao que nos consta foi Geir Campos, também tradutor da peça A Alma Boa de Set-suan, o primeiro a apresentar uma antologia poética de Brecht entre nós (Poemas e canções, Civilização, 1966). Além dele, Arnaldo Saraiva (em Portugal) e Edmundo Muniz organizaram coletâneas posteriores e há traduções de poemas avulsos devidas a Manuel Bandeira, Joaquim Cardozo, R. Magalhães Jr., Haroldo de Campos, Leandro Konder, Roberto Schwartz, Fernando Peixoto, Lya Luft, Gilda Oswaldo Cruz e outros. Mas ninguém excedeu em número e dedicação a Paulo César de Souza que, desde 1986 , vem nos apresentando um exaustivo panorama da poesia brechtiana, agora refundido sob o selo da Editora 34. A refusão, no caso, consistiu na supressão de dez poemas da juvenília brechtiana e, pelo visto, o livro ficará mais expressivo se, em próximas edições, o tradutor proceder a cortes ainda mais incisivos.

       Na verdade, Brecht que deixou cerca de 2.250 poemas, alongados em três dos 20 volumes de sua Gesammelte Werke (Obras reunidas), na edição da Suhrkamp de Frankfurt, publicou em vida apenas três livros de versos: Die Hauspostille (qualquer coisa como Breviário Doméstico, aqui traduzido por Manual de Devoção) em 1927, Lesebuch für Städtebewohner (Manual para os habitantes das cidades) em 1929 e Svendborg Gedichte (Os poemas de Svedeborg, nome da cidade dinamarquesa em que esteve exilado de 1933-41) em 1939. Os seus inumeráveis outros poemas apareceram em publicações avulsas, surgiram como canções e trechos entranhados em suas peças teatrais ou foram publicados postumamente. Uma coletânea de poemas ditos eróticos, exuberantemente exaltados por Walter Benjamin, mas de todo inócuos para o leitor moderno, só foram reunidos como um todo em 1997 (e traduzidos em Portugal, no ano seguinte, por Aires Graça, Editorial Bizâncio, Lisboa).

       Diante dessa vastidão poética, andou bem o organizador e tradutor destes Poemas 1913-1956 em selecionar apenas 260, que representam apenas algo acima de 10% do conjunto, mais que suficientes no entanto para dar ao leitor uma idéia da complexidade psicológica do pensamento dialético de Brecht. Sem deixar de registrar os arroubos iniciais em que as influências literárias estão patentes, a coletânea preserva com acerto os momentos estelares da poesia brechtiana, de consumada originalidade pelo seu tom ríspido e pelo desprezo aos convencionalismos do fazer lírico. Acerta em priorizar os poemas curtos, impactantes, de acerba ironia, beirando o poema-piada pelo seu humor contundente. Mas era fatal que boa parte do volume registrasse o que se poderia chamar (em terminologia brechtiana) Lehrstücke (“textos educativos”), como em suas peças, de registro um tanto discursivo, veiculados numa linguagem que hoje nos pareceria pouco aliciante face aos acontecimentos políticos que marcaram este fim de século. Se temos na “Canção Vespertina do Senhor” aquele gigantische Darmgeräusch que não passa de um grotesco (intencional ou não) arremedo do dernier couac de Rimbaud; se as nuvens dos Pequenos poemas em prosa de Baudelaire sofrem uma trucagem teatral na Recordação de Marie A., também nos deparamos com os momentos de genuína individualidade poética (por ex. Verwisch die Spuren! Apague as Pegadas), que conferem a Brecht um inquestionável lugar no topo de linha da poesia alemã. Quanto ao excesso de poemas “edificantes” e “doutrinários”, louve-se a rara probidade do tradutor quando diz em nota final do livro: “Um número considerável de poemas formalmente perfeitos dificilmente resistiriam à passagem para a nossa língua, ao menos pelas mãos deste tradutor. Daí que a tendência, nas edições estrangeiras, é fazer ressaltar mais ainda a poesia política, em detrimento das outras. A tradução buscou preservar a concisão e a simplicidade brechtianas, a concretude dos objetos, a nitidez de contornos. Como descendente de camponeses, para ele pau era pau, e pedra, pedra”. O tradutor a quem o público deve esta antologia, Paulo César Lima de Souza, cujos antecedentes poéticos desconhecemos, mas cuja dedicação a Brecht se patenteia com esta e outras traduções em prosa, dele e de Nietzsche, certamente conseguiu atingir o nível a que se propôs. Embora, às vezes, fiquemos na dúvida se Brecht, por mais terra-a-terra que desejasse fazer sua linguagem, chegasse a escrever lhe denunciar e lhe entregar (estrofe final do poema Apague as Pegadas) num evidente atentado à regência verbal.

***

Um dos mais famosos poemas de Brecht traduzido por Joaquim Cardozo

O VOSSO TANQUE, GENERAL, É UM CARRO FORTE

Derruba uma floresta, esmaga cem

Homens.

Mas tem um defeito

– Precisa de um motorista,

O vosso bombardeiro, general, é poderoso:

Voa mais depressa do que a tempestade

E transporta mais carga do que um

Elefante.

Mas tem um defeito

– Precisa de um piloto.

O homem, meu general, é muito útil: Sabe voar, e sabe matar. Mas tem um defeito

– Sabe pensar.

                                                                         Trad. Joaquim Cardoso

Um dos mais famosos poemas de Rimbaud, Os poetas de sete anos, é apresentado aqui em três momentos: o original francês, a tradução que dele fiz e consta do primeiro volume de suas obras completas editadas pela Topbooks, e um poema-paráfrase-paródia de minha autoria, contando os delírios e aflições de um tradutor de Rimbaud. Nesse poema procurei observar a mesma estrutura do poema traduzido, quase mantendo as mesmas rimas e preservando os audaciosos enjambements que caracterizam o texto original.

LES POÉTES DE SEPT ANS
À M. Paul Demeny

Et la Mère, fermant le livre du devoir,
S’en allait satisfaite et très fière, sans voir,
Dans les yeux bleus et sous le front plein d’éminences,
L’âme de son enfant livrée aux répugnances.

Tout le jour il suait d’obéissance; très
Intelligent; pourtant des tics noirs, quelques traits
Semblaient prouver en lui d’âcres hypocrisies.
Dans l’ombre des couloirs aux tentures moisies,
En passant il tirait la langue, les deux poings
À l’aine, et dans ses yeux fermés voyait des points.
Une porte s’ouvrait sur le soir: à la lampe
On le voyait, là-haut, qui râlait sur la rampe,
Sous un golfe de jour pendant du toit. L’été
Surtout, vaincu, stupide, il était entêté
À se renfermer dans la fraîcheur des latrines:
Il pensait là, tranquille et livrant ses narines.

Quand, lavé des odeurs du jour, le jardinet
Derrière la maison, en hiver, s’illunait,
Gisant au pied d’un mur, enterré dans la marne
Et pour des visions écrasant son oeil darne,
Il écoutait grouiller les galeux espaliers.
Pitié! Ces enfants seuls étaient ses familiers
Qui, chétifs, fronts nus, oeil déteignant sur la joue,
Cachant de maigres doigts jaunes et noirs de boue
Sous des habits puant la foire et tout vieillots,
Conversaient avec la douceur des idiots!
Et si, l’ayant surpris à des pitiés immondes,
Sa mère s’effrayait; les tendresses, profondes,
De l’enfant se jetaient sur cet étonnement.
C’etait bon. Elle avait le bleu regard, — qui ment!

À sept ans, il faisait des romans, sur la vie
Du grand désert, où luit la Liberté ravie,
Forêts, soleils, rives, savanes! – Il s’aidait
De journaux illustrés où, rouge, il regardait
Des Espagnoles rire et des Italiennes.
Quand venait, l’oeil brun, folle, en robes d’indiennes,
-Huit ans, – la fille des ouvriers d’à côté,
La petite brutale, et qu’elle avait sauté,
Dans un coin, sur son dos, en secouant ses tresses,
Et qu’il était sous elle, il lui mordait les fesses,
Car elle ne portait jamais de pantalons;
-Et, par elle meurtri des poings et des talons,
Remportait les saveurs de sa peau dans sa chambre.

Il craignait les blafards dimanches de décembre,
Où, pommadé, sur un guéridon d’acajou,
Il lisait une Bible à la tranche vert-chou;
Des rêves l’oppressaient chaque nuit dans l’alcôve.
Il n’aimait pas Dieu; mais les hommes, qu’au soir fauve,
Noirs, en blouse, il voyait rentrer dans le faubourg
Où les crieurs, en trois roulements de tambour,
Font autour des édits rire et gronder les foules.
-Il rêvait la prairie amoureuse, où des houles
Lumineuses, parfums sains, pubescences d’or,
Font leur remuement calme et prennent leur essor!

Et comme il savourait surtout les sombres choses
Quand, dans la chambre nue aux persiennes closes,
Haute et bleue, âcrement prise d’humidité,
Il lisait son roman sans cesse médité,
Plein de lourds ciels ocreux et de forêts noyées,
De fleurs de chair aux bois sidérais déployées,
Vertige, écroulements, déroutes et pitié!
Tandis que se faisait la rumeur du quartier,
En bas, – seul, et couché sur des pièces de toile
Écrue, et pressentant violemment la voile!

26 mai 1871

OS POETAS DE SETE ANOS

Ao Sr. Paul Demeny

E então a Mãe, fechando o livro de dever,
Lá se ia satisfeita e orgulhosa, sem ver
Em seus olhos azuis, sob as protuberâncias
Da face, a alma do filho entregue a repugnâncias.

O dia inteiro ele suou de obediência; que
Inteligente ! e entanto, uns tiques maus, um quê
Já demonstravam nele acres hipocrisias.
No escuro corredor, junto às tapeçarias
Mofadas, estirava a língua, os punhos fundos
Nos bolsos e, fechando os olhos, via mundos.
Sobre a noite uma porta abria-se: na rampa da
Escada, a resmungar, o viam, sob a lâmpada,
Como um golfo de luz a pender do teto. E no
Verão, abatido, ar estúpido, o menino
Teimava em se trancar no frescor das latrinas
Para pensar em paz, arejando as narinas.

Quando o jardim de trás da casa se lavava
Dos odores do dia e, no inverno, aluarava,
Jazendo ao pé do muro, enterrado na argila,
Para atrair visões esfregava a pupila
E ouvia o esturricar das plantas nas treliças.
Pobre ! para brincar só crianças enfermiças
De fronte nua, olhar vazio que lhes erra
Pela face, escondendo as mãos sujas de terra
Nas roupas a cheirar a fezes, todas rotas,
Falando com essa voz melosa dos idiotas !
E quando o surpreendia em práticas imundas,
A mãe se horrorizava; o menino, profundas
Carícias lhe fazia, a apaziguar-lhe a mente.
Era bom. Ela tinha o olhar azul, — que mente !

Aos sete anos compunha histórias sobre a vida
No deserto, onde esplende a Liberdade haurida,
Florestas, rios, sóis, savanas ! Recorria
A revistas nas quais, encabulado, via
Italianas a rir e espanholas bonitas.
Quando vinha, olhos maus, louca, em saias de chitas,
A filha — oito anos já ! — do operário do lado,
A pirralha infernal, que após lhe haver pulado
Às costas, de algum canto, a sacudir as roupas,
Ele por baixo então lhe mordiscava as popas,
Porquanto ela jamais andava de calçinha.
— Cheio de pontapés e socos, ele vinha
Trazendo esse sabor de carne para o quarto.

Da viuvez invernal dos domingos já farto,
Junto à mesa de mogno, empomadado, a ter de
Recitar a Bíblia encadernada em verde
E a sofrer a opressão dos sonhos maus em que arde,
Já não amava Deus; mas os homens, que à tarde,
Via, sujos, chegando em suas casas baixas,
Quando vinha o pregoeiro, entre ruflar de caixas,
A ler seus editais entre risos e pragas.
— Sonhava as vastidões de prados onde as vagas
De luz, perfumes bons, douradas lactescências
Se movem calmamente e evolam como essências !

E como saboreava antes de tudo arcanas
Coisas, se punha, após baixar as persianas,
A ler no quarto azul, que cheirava a mofado,
Seu romance sem cessa em sonhos meditado,
Cheio de plúmbeos céus, florestas, pantanais,
Flores de carne viva em bosques siderais,
Vertigens, comoções, derrotas, falcatruas !
— Enquanto progredia a agitação das ruas
Embaixo, — só, deitado entre peças de tela
De lona, a pressentir intensamente a vela !

26 de maio de 1871.

OS POETAS DE SETENTA ANOS

Ao Sr. A. Rimbaud

E o Velho, então, fechando o livro do dever,
Exausto e satisfeito ia dormir, sem ver
Que à força de se impor prorrogações horárias
De trabalho, arriscava as frágeis coronárias.

O dia inteiro esteve a traduzir-te; faz-se
Incansável; no entanto, a azulidez da face
Deixa ver claramente acres hipocondrias!
Em meio ao corredor, seguro às esquadrias
Da porta, já sentiu tonteiras, quase a perda
Do equilíbrio, e essa mosca em sua vista esquerda.
A noite no escritório é sempre igual: um foco
De luz dicróica sobre o micro, o mouse, um bloco
De anotações e a tela acesa a piscar… Tarde,
Extenuado, a zumbir o ouvido, a vista que arde,
Antes de se deitar, contudo se demora
No banheiro, onde fica a ler por mais uma hora.

Quando, em plena manhã, na varanda que esplende
Ao sol, por um momento em seu sofá se estende
Olhando para a verde aba das altas palmas,
Tentando refrescar a mente das incalmas
Preocupações da noite, o drama recomeça.

Coitado! Ergue-se e vai correndo a toda pressa
Para o computador, achando que encontrara
A rima que buscou o dia inteiro, a rara,
E se acaso, afinal, a solução lhe brota,
Põe-se a falar sozinho e a rir como um idiota!
Já ninguém o visita: os amigos só pelo
Telefone, receando acaso interrompê-lo,
Chamam pela mulher; perguntam pelo “ausente”;
Ela diz que vai bem, que está dormindo — e mente!

Aos setenta sonhava imprimir em off set
Os versos que escreveste em teu caderno, aos sete,
Cheios de rios, sóis, savanas! — Recorria
A todas edições anotadas que havia
Bem como a traduções inglesas, italianas.
Quando, avançada a noite, exausta das poltronas
— Às duas da manhã — a mulher reclamava
Que assim era demais, ele ainda teimava
Em ficar mais um pouco olhando para a tela
Do micro, a salvar tudo e a sair, enquanto ela
Cansada de esperar, apaga a luz do quarto.
— E o pobre, sem saber que escapara do enfarto,
Dormia com teu livro aberto sobre o peito.

Temia essas manhãs de domingo, o suspeito
Passeio pela praia, o olhar discricionário,
Enquanto abandonava o Livro e o dicionário,
Embora em sua mente, ao caminhar, os visse.
Já não amava o mar, achava uma tolice
A exposição ao sol, aqueles corpos nus
Banhando-se na densa e xaroposa luz
De um êxtase vital que já não compreendia.
— Amava a noite que trocara pelo dia,
As vigílias sem fim, os encontros furtivos
De palavras que não se encontram nos arquivos!

E como preferisse as coisas mais herméticas
Buscando penetrar as alquimias poéticas
Dos versos em que os sons têm cores de aquarelas,
Metia-se no quarto e fechava as janelas
E assim, nesse escafandro em fundas culminâncias,
Via os peixes azuis das rimas e assonâncias,
Das métricas sem par, dos ritmos em conflito!
De volta do mergulho, entre alumbrado e aflito,
Um momento se punha a descansar na cama
De lona, a pressentir longinquamente a fama.

26 de maio de 1994.

Apresentação escrita por Ivo Barroso para a peça Medida por Medida, de William Shakespere, traduzida por Beatriz Viégas-Faria e editada pela L&PM em 2012.

ESTA OBRA, cuja classificação já de início nos leva à categoria das chamadas “peças problemáticas” de Shakespeare, foi inicialmente escrita e editada como sendo uma comédia (como está no First Folio de 1623), mas com boas razões os críticos e comentaristas posteriores se inclinaram a arrolá-la entre as tragédias do Bardo.

A peça gira toda em torno dos conceitos de justiça e corrupção, equidade e abuso do poder, castidade e volúpia, ou seja, de sentimentos conflitantes que não raro ocorrem num mesmo personagem. A busca de uma justiça equânime leva a uma série de equívocos, sentenças e condenações capitais, embora amparados em lei, mas que, não obstante, poderiam ser circunstancialmente revogados ou que são desfeitos diante de ocorrências tão condenáveis quanto as que deram lugar às próprias condenações. Daí parecer estranho que um tema tão crucial como o da administração da justiça, assombreado ainda pelas cogitações da inexorabilidade da morte, tenha levado Shakespeare a introduzir na peça algumas cenas cômicas ou mesmo burlescas que destoam grandemente da seriedade do tema.

Embora o argumento não tenha as características do tom dramático de suas outras peças do gênero, parece visível que os trechos supostamente cômicos nela inseridos constam apenas para amenizar a ação central, em que argumentações de ordem jurídica e debates sobre a consciência ética então intimamente relacionados com os sentimentos de orgulho e de humildade. Assim como está concebida, tudo indicaria que Shakespeare tinha em mente dois públicos distintos: um altamente sofisticado, ocupando os lugares superiores do teatro, e composto de representantes da aristocracia para os quais suas elaborações no campo jurídico teriam amplo significado; e outro, para a plateia “diferenciada”, representada por  aqueles que ocupavam a arena ao rés do chão, fronteira ao palco, em geral composto de palafreneiros e criados, que esperavam seus mestres,  e se divertiam com os momentos cômicos da peça, aliás vazados numa linguagem como que feita a propósito para satisfazê-los. Essa ambiguidade, essa duplicidade vai permear toda a peça, fazendo com que também os personagens se apresentem ora sob uma faceta ora sob outra que lhes pode ser até contraditória.

Shakespeare inspirou-se  na “História de Epitia”, que figura no Hecatommithi, de Cinthio, uma coletânea de narrativas respigadas de várias fontes, inclusive das Mil e Uma Noites. Este Cinthio (cujo nome aparece escrito também como Cintio e Cinzio) era o pseudônimo de Giovanni Battista Giraldi (1504-1573), professor de filosofia universitário, autor de 9 peças de teatro, entre as quais a tragicomédia Orbecche, apresentada em Ferrara em 1541 e que alguns críticos consideram a primeira manifestação teatral de características modernas e bem assim modelo de todas as tragédias subsequentes. Suas histórias, vazadas num estilo que lembra vagamente Boccaccio e Matteo Bardello, tiveram uma tradução francesa em 1583, e presume-se que tenha sido esta a fonte em que se inspirou o Bardo para a composição de Medida por Medida. Nessa  obra do dramaturgo e contista italiano, também conhecida como “Ecatomiti”, foi que  Shakespeare encontraria igualmente as linhas mestras do argumento de Otelo, que escreverá por essa mesma época. Mas há discordância quanto àquela origem: outros críticos tendem a indicar como fonte inspiradora não esse núcleo original, mas um drama de George Whetstone, de 1578, Promos and Cassandra, que, por sua vez, estaria baseado na história de Cinthio, em que o autor só acrescentou os elementos cômicos e o quiproquós que envolvem alguns dos personagens – recurso este utilizado à larga no teatro da época com intenções de divertimento.

Outra discrepância interessante: a ação da peça transcorre em Viena, mas todos os personagens têm nomes italianos: Vicentio, Isabella, Claudio, Angelo, etc. Os estudiosos Gary Taylor e John Jowett, em seu livro Shakespeare Reshaped, de 1993, argumentam que parte do texto de Medida por medida, tal com o conhecemos hoje, não corresponde ao original shakesperiano, sendo produto de uma revisão póstuma executada por Thomas Middleton, que teria mudado o cenário original (Itália) para Viena, talvez por motivos de ordem política ou por considerar a capital austríaca na época mais adequada ao clima de concupiscência em que se desenrola a ação. Também seria devido a Middleton o encaixe das cenas humorísticas (e quase imorais), responsáveis pela falsa classificação da peça na categoria de comédia. Essas alterações foram processadas tanto no próprio tempo de Shakespeare, seguindo as conveniências das várias companhias que as encenaram, quanto em épocas posteriores, e em tal quantidade que, em 1699, o produtor teatral Charles Gildon, ao adaptá-la com o nome de Beauty the Best Advocate [A beleza é o melhor advogado], não só remove os personagens espúrios, como elimina ainda a sexualidade pseudoilícita, apresentando os pares Angelo/Mariana e Claudio/Julieta como sendo casadosem segredo. Jácônscio de tantas alterações infligidas ao texto do Bardo, esse mesmo Gildon ousou ainda introduzir na peça um epílogo em que o fantasma de Shakespeare surge em cena e reclama das constantes revisões a que seu trabalho estava sendo submetido.

Quanto ao título, porém, nenhuma controvérsia: o próprio autor consigna sua fonte numa fala do personagem principal, o duque Vicentio, quase ao fim do quinto ato: Haste still pays haste, and leisure answers leisure. / Like doth quit,  and MEASURE still FOR MEASURE (A pressa sempre redunda em pressa, e a morosidade corresponde à morosidade. Só as igualdades se equivalem, e a medida é sempre de acordo com a medida), expressão que corresponde aos versículos bíblicos “Não julgueis para que não sejais julgados, pois, conforme o juízo com que julgardes, sereis julgados; e a medida com que tiverdes medido vos hão de  medir a vós.” [Mateus, 7: 1-2], que, como se sabe, é uma versão cristã light do velho brocardo talmúdico do “Olho por olho, dente por dente”.

O enredo da peça é algo desconcertante: a tentativa de promover a justiça perfeita acaba num happy-end a bem dizer injusto. Não se tem uma idéia precisa das intenções de Shakespeare: se está favorecendo a norma estabelecida ou apontando a sua inaplicabilidade. Vicentio, por exemplo, o duque governante dessa suposta Viena, é sábio e justo, mas tem dúvidas quanto ao seu exercício da justiça, pois devia condenar os abusos sexuais, vetados por lei, que seus súditos vêm praticando há muito, mas sobre os quais tem feito vista grossa. Em sua tentativa de reparar o mal passado e estabelecer a observância irrestrita da lei no presente, confia o poder a Angelo, o supremo magistrado, conhecido por sua intransigência em relação à imoralidade sexual. Angelo é inflexível na atribuição e cumprimento da lei, e descrito como “um homem que tem neve derretida nas veias, que não sente nem as ardências do desejo carnal nem os movimentos prementes dos cinco sentidos”, mas ao se ver na posse do poder revela sua verdadeira personalidade freudiana, ao barganhar uma sentença de morte pela virgindade da irmã do réu. A tentativa de Isabella de salvar a vida do irmão, obtendo a clemência de Angelo, enseja a Shakespeare um dos momentos altos da peça: é uma troca de argumentos pró e contra, num duelo de dialética em que se embatem as noções de dever e crueldade e de culpa e clemência.

Muitos comentaristas apreciam a maneira com que Shakespeare estaria mostrando aos fidalgos que iam assistir às suas peças o quanto ele era versado nas intrincâncias do discurso jurídico, o que, aliás, já fizera à saciedadeem Júlio César, na falaem que Marco Antônioconsegue subverter a opinião pública contra a ideia, propalada por Brutus e os outros assassinos, de que César era um político ambicioso. Outra mudança extremada de posição ocorre relativamente ao condenado à morte, que admite a princípio o seu erro e considera a sentença justa, diante da defesa da ars moriend – um dos altos momentos da peça – em que há a famosa sequência: “Argumente assim com a vida: se eu te perder, perco uma coisa que só os tolos querem preservar”. Pouco mais tarde, porém, diante da real perspectiva da execução da sentença, insurge-se contra a ideia da morte e contra a sua própria inevitabilidade, em palavras que se tornaram antológicas na obra shakesperiana: “Sim, mas morrer e ir para não se sabe onde (…) é pavoroso demais! A vida mais cansativa e odiosa deste mundo, que a velhice, as dores, a penúria e a prisão /podem impor à natureza — é um paraíso /em face ao que tememos da morte”. Durante todo o transcorrer da peça, Isabella, a irmã do condenado, parece ser o único personagem coerente, capaz de manter sua integridade mesmo diante de situações conflitantes e constrangedoras. O enigmático Shakespeare não nos deixa saber, no fim do drama, se ela aquiesce ou não à proposta do duque, o que, em caso positivo, poderia ser interpretado também como desvio de comportamento. O drama alcança tons de absoluta modernidade quando o juiz dito incorruptível se corrompe vencido pelo sexo e invoca a sua imunidade quando ameaçado de denúncia. Que importaria a denúncia contra alguém todo poderoso, se ninguém iria acreditar na palavra do denunciante? Ele é o dono da lei, e se acredita acima dela,  considerando-se portanto inatacável e  impune. (Até parece que Shakespeare estava se inspirando em alguns exemplos surgidos ultimamente!).

Que mensagem Shakespeare estaria nos transmitindo com sua peça, se é que havia outra intenção além de criar um texto para ser representado e lhe proporcionar algum pecúlio? Onde estaria a justeza do título? Se alguns personagens são julgados com extrema severidade, até mesmo com pena de morte, por um desvio comportamental inteiramente passível de ser corrigido de maneira prática e espontânea pelo  próprio delinquente, outros – como e principalmente Angelo – contra os quais há abundância de provas de sua iniquidade e prepotência, o juízo e as penas finais aparecem brandas e inócuas, dando a impressão de que a ausência do duque Vicenzio com o intuito de observar os desmandos de sua corte de nada teria servido para uma administração mais correta da justiça, já que, após seu julgamento coletivo, as coisas em Viena (?) voltam ao seu statu quo ante. Estaria Shakespeare zombando da justiça dos nobres e poderosos, expondo-lhes a fraqueza de julgamento diante de seu poder de condenação? Será que estaria retratando a sua época? Será que desde o seu tempo já era usual “blindar-se” o poderoso negligenciando as acusações dos humildes caseiros? A leitura desta peça – a menos que a encaremos como não mais que  um mero divertimento, e portanto como uma comédia banal – deixa os leitores do Bardo curiosos por saber qual o sentido moralista que o título (bíblico) prefigurava.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 90 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: