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CONSELHO LITERÁRIO

Depois que recebeu as cartas de Rilke, o jovem poeta Franz Xaver Kappus não escreveu mais nada.

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PSEUDO HAI KAI

Em breve estaremos

Nas varandas da Lua

Contemplando a Terra

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POEMA DE AMOR

Um amigo-leitor me pergunta se o Poema (de Amor), que publiquei aqui no blog em 04.02.2011, era um poema concreto. Não diria; o concretismo tinha por programa acabar com o discurso tradicional,  abolir as frases completas, o sentido coerente; esperava que as palavras isoladas conseguissem dar ao leitor uma sugestão do que seria – digamos — o “sentido” do verso. Já no caso do meu poema de amor o que houve foi uma utilização de recursos espaciais em voga durante aquele movimento, além de lançar mão, principalmente, de uma estrutura – também digamos —  bifronte, que permitisse ao poema dizer duas coisas distintas ao mesmo tempo, mas unidas por um eixo significante comum: ou seja uma espécie de poema-xifópago. Isto foi obtido com a utilização de palavras semelhantes de dois campos diversos: palavras referentes a órgãos do corpo humano (peito, aorta, cava, crossa, termos todos estes correlatos ao coração) justapostas a palavras relativas a casa, habitação (pátio, porta, cave, fossa). A duplicidade é logo introduzida pela flexão verbal “late”, que tanto pertence ao verbo later (pulsar) como ao verbo latir (ladrar), prosseguindo com um cruzamento de ações dos dois campos, atribuíveis ao cão e ao homem, para concluir numa alternância de extremos (matar/morrer) que se amalgamam numa ação única.

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O FUTURO DA CRÔNICA

Discutiu-se ultimamente o futuro da crônica. Que formato terá daqui a alguns anos essa categoria ambígua que escapa a definições precisas e invade atualmente um espaço cada vez mais amplo dos jornais? Alguns estrelados medalhões deitaram fala, expuseram teorias quase antagônicas e chegaram mesmo a esquematizar modelos aplicáveis à maioria dos profissionais do gênero.

Um deles seria o do cronista-padrão, esse que consegue se incluir em todas as regras, vestir todas as camisas, adotar como bíblia o manual do politicamente correto, para agrado total de seus leitores. Ele votou no governo, mas para acompanhar o rumo atual da mídia, vez por outra aplica uma cotovelada no baço presidencial, nada no entanto que lhe possa comprometer a esperança de reeleição. É de esquerda, é claro, daquela esquerda que ganha, mora e come bem; opõe-se em passeata ostensiva às potências opressoras (os EUA, é claro), e sonha com Aspen e a Disneylândia. Mesmo sem propósito, arranja sempre  uma oportunidade para falar no reacionarismo ou na pedofilia da Igreja e condenar o atual Papa como ex-participante das milícias nazistas. Seu posicionamento ético vai ao cuidado de evitar os adjetivos, de nunca incidir no elitismo de um advérbio de modo, e, se acaso emprega, sem querer, uma palavra proparoxítona, não deixa de fazê-la seguir-se de um (opa!) (hein!) (urgh!) para que o leitor saiba que ele abomina a erudição e ser tratado de culto seria para ele o mesmo que saber-se aidético.

Outro filão abrigaria os cronistas-biográficos. Mesmo tendo lido Drummond (“Não recomponhas /tua sepultada e merencória infância”), eles estão certos de que os leitores se amarram em suas conquistas amorosas (falsas ou não), que se tornarão sonhadores com suas histórias familiares ou lendo as descrições do tempo em que soltavam pipa ou batiam uma – bola – no quintal. O papagaio do vizinho, o porteiro do 301, a moça que passa de bicicleta para a praia assumem no seu teclado a condição de heróis, o fascínio das lendas.   Quando alertados, dizem sempre que Drummond, em prosa e verso, se socorreu com frequência (com mestria, digo eu) de suas recordações infantis, seus casos de família, a cobertura do cotidiano, mas se esquecem de que a um Drummond se perdoam todas as contradições ante a força de um estilo irretocável.

Um terceiro nicho seria habitado pelos cronistas-truculentos: nas duas primeiras frases já mostram as bordunas com que vão baixar o cacete (agora diz-se pegar pesado) em quem quer que seja o bode (agora diz-se a bola) da vez. Seus leitores (em geral frustrados) se divertem com suas grosserias, seu desrespeito generalizado, suas atitudes contra-culturais. Ele interpreta a voz enrustida dos que não sabem reclamar, dos que têm medo de falar alto, dos que vivem pagando mico sem pedir sequer abatimento. Numa sub-seção se acoitam os pornógrafos e os escatológicos (pois há quem goste).

Finalmente, há muitos outros que vivem à sombra dos faits divers. Em geral escrevem diariamente e nada mais cômodo que embarcar na notícia quente: mortes trágicas, sismos, inundações, chacinas (eles adoram chacina até como palavra) são os estímulos que os levam às 3500 batidas com espaço ou sem. Soltam-se nos sueltos. Quando o tema das notícias se repete à náusea, por ex. ilustres mortes sucessivas (de figurões e artistas de cinema, sem contar com a de policiais ou de pessoas inocentes assassinadas por policiais) – recorrem logo à direção oposta: maternidades, jardins-de-infância, inseminação artificial, gravidez tubária, dia das Mães. Ou ainda: telefonam aos zoológicos para saber se não veio à luz algum cacarequinho capaz de disputar (e ganhar) as próximas eleições.

Como resultado dessas parlendas, tivemos a proclamação de que esses cronistas do cotidiano serão forçados, no futuro, a mudar de divisão com a crescente concorrência das próprias notícias dos jornais, das revistas e da televisão, veículos mais empenhados ainda em baixar o nível para subir no Ibope da audiência. Depois de analisarem essas categorias, os novos apóstolos das mesas-redondas acabaram profetizando a volta da crônica literária, de reflexão ou filosófica, ou seja, de textos no estilo de um  Ruben Braga, um  Carlos Drummond, uma Clarice Lipector. Com a carência atual de valores desse nível, talvez quisessem assinalar com isso a futura desaparição da crônica.

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CARREIRA PROFISSIONAL

Meu pai queria ver os filhos encaminhados para as grandes profissões liberais ou, melhor ainda, para a carreira das armas (Exército, Marinha e Aeronáutica). Eu, a contra-gosto, andei namorando as três, mas a essa altura já estava de beiço caído pela Dama Branca da Literatura.

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OUTRO PSEUDO HAIKAI

Já não tenho auroras

Vivo em crepúsculos

A meia-luz é o meu amanhecer

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EXTREMA UNÇÃO

No artigo sobre Alphonsus de Guimaens, publicado aqui na semana passada, aludimos à observação de Dom Marcos Barbosa a respeito da expressão “olhos bentos”, que o poeta empregou no soneto VI da Segunda Dor de seu livro “Setenário das Dores de Nossa Senhora”. A ressalva de Dom Marcos (“óleos bentos”) é de todo pertinente e não sabemos por que as edições posteriores não emendaram o que teria sido um erro de revisão da primeira. Sabe-se que a extrema unção, sacramento ministrado aos enfermos in articulo mortis, em que o moribundo é ungido (untado) pelo sacerdote por seis vezes (nos olhos, narinas, ouvidos, boca, e nas mãos e nos pés), é feita mediante a umidificação dos dedos do celebrante numa espécie de plaqueta branca embebida de azeite puro de oliva. Este azeite, chamado óleo dos enfermos, é consagrado pelos Bispos na Quinta-feira Santa, na Missa Crismal, e é denominado comumente de santos óleos ou óleos bentos. Fica evidente que o poeta quis dizer que as mãos de Maria eram feitas da mesma essência pura desses óleos e não compará-las a improváveis olhos astrais e bentos, que seriam algo fantasmagóricos.

Depois da  quase lendária edição de 1938, dirigida e revista por Manuel Bandeira, com notícia biográfica e notas de João Alphonsus, numa publicação que dignificava o Ministério da Educação e Cultura da época, coube agora [2001] à Editora Nova Aguilar, em co-edição com  a Biblioteca Nacional, trazer-nos de volta a poesia completa de Alphonsus de Guimaraens, num ato de justiça literária para com um poeta de altíssima expressão, que não teve em vida o reconhecimento popular que merecia, numa clarividência editorial para com o leitor de hoje, carente e desejoso de uma poesia que tenha tal altura e qualidade. Digo — de volta — porque a antiga Aguilar, em 1960, já nos dera a edição de sua “Obra Completa”, na qual se incluíam a prosa e a poesia humorística do chamado “místico de Mariana”; mas ao revê-la criteriosamente e  reestruturá-la agora, seus organizadores, filho e neto do poeta, acolitados pela acurácia editorial de Alexei Bueno,  parecem ter encontrado a medida exata para a tornar definitiva, ao dela expurgarem aquelas partes que, conquanto curiosas do ponto de vista histórico, nada acrescentavam ao Alphonsus que ficará, para nós e os vindouros, como um dos três grandes simbolistas, ao lado de Cruz e Souza e Augusto dos Anjos.

Houve acréscimos na edição atual, como o soneto XXXVI da “Escada de Jacó”, a tradução do soneto de Arvers e outros; mas o enriquecimento principal desta edição — a par da compactação poética a que nos referimos — deve ser creditado às notas  e variantes e à seletiva fortuna crítica que precede os poemas, na qual, em flashes cinematicamente expressivos,  alguns dos nossos melhores poetas e críticos literários se manifestam sobre o autor. Entre esses depoimentos se destaca – pela sua atualidade, embora escrito em 1942 — a palavra de Carlos Drummond de Andrade, que já (e ainda) àquela época fazia um “convite aos críticos  para viajarem na poesia de Alphonsus”. Essa viagem continua à espera de adesões, pois são poucos os que de fato estudaram a poesia do solitário poeta provinciano. Com exceção de Bandeira e Henriqueta Lisboa, que fizeram sensíveis observações sobre a técnica poética de Alphonsus — ainda assim em opúsculos ou artigos de jornal — os que escreveram sobre ele se mantiveram no umbral das reminiscências ou das alusões insubstanciais; o único ensaio que esclarece ou aprofunda “o   universo poético de Alphonsus de Guimaraens” continua sendo este que Eduardo Portella escreveu há mais de quarenta anos para a edição das “Obras Completas”, merecidamente reproduzido como prefácio da edição atual.  Pode o leitor no entanto ter idéia de algumas “homenagens” prestadas ao poeta, não só graças à recolha dessa bem selecionada mostra “Alphonsus de Guimaraens e alguns de seus exegetas”, mas igualmente com a leitura dos vários poemas que lhe foram dedicados, o mais importante dos quais o de Murilo Mendes, um excerto dos 442 versos que ele próprio considerava “a cousa mais importante que escrevi até hoje”, e o mais belo e “alfonsino” de todos, a “Elegia para Alphonsus”, do poeta bissexto Augusto Meyer. À parte isso, coube ao filho do poeta, Alphonsus de Guimaraens Filho, dar-nos um retrato de corpo inteiro da obra/vida de seu pai em “Alphonsus de Guimaraens no seu ambiente”, editado pelo Departamento Nacional do Livro em 1995, texto de singularíssima estrutura, em que se relata ao biografado a sua própria biografia.  Nele se discutem também  problemas relativos à técnica do verso, a variantes e correções, inclusive o famoso caso dos “olhos bentos” do soneto VI da Segunda Dor do “Setenário das Dores de Nossa Senhora”, que o poeta-monge Dom Marcos Barbosa, com base na terminologia litúrgica, admitia ler como “óleos bentos”, em paralelo com os “santos óleos” da extrema-unção — parecer que se nos afigura dos mais procedentes, já que a palavra chave desse verso, “essência”, é mais consentânea com óleos que com olhos.

Alphonsus de Guimaraens possuía domínio absoluto das formas métricas do Simbolismo e das escolas anteriores, e até mesmo influenciou as práticas libertárias do Modernismo subsequente. Aquele alexandrino de Verlaine que chamou a atenção de Rimbaud — Et la tigresse épouvantable d´Hyrcanie — a ponto de nele ver “forte licence” por lhe faltar a cesura na 6ª sílaba, com os acentos deslocados para a 4ª e 8ª, foi pioneiramente empregado por Alphonsus no Brasil, conforme ele próprio afirma numa carta a um poeta novo. Veja-se, por exemplo, o Electa ut Sol, de “Dona Mística”, onde abundam exemplos como: Ah que eu não seja um padre velho, um pobre cura!//Sonhei contigo… Eras tão boa, eras tão pura!//A lua vem. Vamos rezar. O paraíso,/Anjos e santos ao redor do teu sorriso, etc. Também nos versos ímpares, de 5 e 9 sílabas, tão gratos aos simbolistas franceses, Alphonsus foi um mestre, bastando ler os poemas de abertura de “Kiriale” e de “Dona Mística”. Mas é no decassílabo em que se revela toda a sua criatividade e saber fazer: o uso extensivo do enjambement e da suspensão, alguns de espantoso arrojo,  permitiu-lhe criar uma variedade de ritmos que tornam sua linguagem pessoal e inequívoca. É sua marca de fábrica, de uma fábrica na qual os instrumentos e aparelhos permanecem ocultos pela espontaneidade e melodia dos versos que dela jorram. Versos que se guardam para sempre na memória, que fazem parte de nosso território poético, assim como amigos que reconhecemos à distância. Dotados de tamanha musicalidade — não aquela habitualmente cultivada pelos simbolistas, com seus efeitos sinestésicos e sensualizantes, mas essa música atemporal, de sonoridades seráficas, de luminosidades sidéreas — que fazem de cada verso uma “joy forever”.

O leitor de hoje pode perguntar: mas para que tais estudos de métrica, rimas, musicalidade, etc. se a poesia de agora não depende dessas conjunturas? Elas fazem parte da formação de todo grande poeta e só pelo seu conhecimento sedimentado é que ele as pode dispensar ou libertar-se delas. Nas multidões de poetas livres que passeiam pelas nossas letras atuais há poucos, muito poucos que deixarão um verso na memória do leitor. Nenhum talvez conseguirá vencer as muralhas do tempo produzindo um “Mãos que os lírios invejam, mãos eleitas” ou “Rosas que já vos fostes, desfolhadas” ou “Quando Ismália enlouqueceu/ Na torre pôs-se a sonhar”. Aproveite pois o leitor para esse contato de primeiro grau com a poesia que fica, a de altura e qualidade, tão diversa dos modismos mediáticos ou das catarses  irresolutas em que se transformou boa parte da lírica nacional. Alguns sonetos de Alphonsus deviam ser tombados como outros monumentos de sua histórica Mariana.

Em 1895, Alphonsus, antes de mergulhar em sua província mineira, vem de S. Paulo ao Rio para estar pessoalmente com Cruz e Sousa, a quem muito admirava. Em 10 de julho de 1919, já é Mário de Andrade, o futuro  corifeu do modernismo, quem vai a Mariana saudar o “principe dos cantores de sua terra”. A reação de Alphonsus, do fundo da vida modesta que levava, foi: “Príncipe? Pobre príncipe! Pobre Alphonsus”. Esse encontro inspirou a Drummond o poema “A visita”, que tem  um momento simplesmente mágico: é quando os versos do velho poeta, recitados pelo jovem visitante, ganham corpo e forma, ficam patentes no ar como elfos espiralantes. Bela imagem para caracterizar a poesia etérea de Alphonsus. Uma poesia na qual tudo parece fácil, natural, espontâneo, brotado da mina do quintal. Nada se vê da espantosa estrutura técnica que permite esse evolar da poesia, como na  música de Mozart, extremamente complexa em sua aparência de facilidade. Rico Alphonsus!

DOIS POEMAS DE ALPHONSUS DE GUIMARAENS

Ismália


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…

Mãos que os lírios invejam…


Mãos que os lírios invejam, mãos eleitas
Para aliviar de Cristo os sofrimentos,
Cujas veias azuis parecem feitas
Da mesma essência astral dos olhos bentos;

Mãos de sonho e de crença, mãos afeitas
A guiar do moribundo os passos lentos,
E em séculos de fé, rosas desfeitas
Em hinos sobre as torres dos conventos.

Mãos a bordar o santo Escapulário,
Que revelastes para quem padece
O inefável consolo do Rosário;

Mãos ungidas no sangue da Coroa,
Deixai tombar sobre a minha Alma em prece
A bênção que redime e que perdoa !

UM POEMA DE IVO BARROSO DEDICADO A ALPHONSUS DE GUIMARAENS


ROSAS

A Alphonsus de Guimaraens

Rosas de róseos seios perfumosos,

Cristais de carne transbordando aromas,

A ávidos ventos entregais as pomas,

Vosso perfume suspirando em gozos…

 

E vós, ó brancas rosas, entre as ramas

Ao cilício entregai-vos silenciosas,

E no silêncio recolheis, ó rosas,

As vossas carnes das crestantes chamas…

 

Ó rosas rubras como as ânsias loucas,

Sois como corpos de ondulosas ancas

E purpurinas como as rubras bocas…

 

E vós, ó brancas rosas de alabastros,

São como as almas vossas carnes brancas,

Vosso perfume como a luz dos astros!…

O recesso meditativo propiciou proustianas recorrências ao tempo perdido da infância. Voltei disposto a reevocá-las, a deixar aqui consignadas algumas passagens que marcaram de certa forma a criança que eu fui. Mas, como sempre acontece, vem o contraponto cartesiano de perguntar: a quem interessariam tais histórias além de a ti mesmo? Fiquei em dúvida, o pior dos meios-termos. Mas já que tenho um blog, que eu próprio defini como ‘caixa de lixo espacial’, acabei escrevendo estas lembranças. Fique, pois,  o leitor prevenido para não perder aqui seu tempo; vá em frente: no blog há coisas interessantes sobre autores de verdade, livros excepcionais, feitos de tradutores consagrados. Basta mudar de canal. Zapear, como andei fazendo…

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MINHAS INCURSÕES LITERÁRIAS – II (DOIS PANFLETOS)

Um dia destes, zapeando pelo blog, notei que a matéria sobre o meu primeiro livro, “Alma de Creança” (14.09.10), acabava com a promessa (Continua), e não continuou. Talvez porque não valesse a pena falar mais nada sobre aquele “livro”, que necessariamente ficou inédito, para o bem dos leitores e mais ainda do seu “autorzinho”. Mas a ele seguiram-se outras tentativas igualmente frustradas e definitivamente esquecidas: dois opúsculos minguadíssimos, datilografados, ambos de 1948: Carta Aberta a Ervália (um descarado plágio do estilo de André Gide, cujo “Retour de l´Enfant Prodigue” eu estava tentando traduzir à época) e Angústia e Transfiguração (!), o relato de um   grande medo que me assaltou quando menino.

Naquele ano de 1948, passei umas longas férias em minha cidade natal, cujo vigário fazia violentas prédicas contra os bailes carnavalescos e ameaçava com o Inferno as moças (leia-se: minhas namoradas) que se atrevessem a frequentá-los. Escrevi, então, uma espécie de carta à minha terra, que na verdade era um diálogo com o padre local, em que incitava meus conterrâneos a se libertarem de sua tirania religiosa. Dizia o introito: ‘Como um filho pródigo, eu me prostrei aos vossos pés, a face de lágrimas coberta. Pensava estar diante dos meus pais, compreensivos e amorosos, mas reconheci em vós, apenas o irmão primogênito, invejoso e autoritário. Nossa palestra, então, foi cheia de orgulho e de palavras duras. Um desmascaramento de falsos valores. Na minha voz, porém, estava o eco das vozes de muitos de meus irmãos. Hoje, bem o sabeis, reconheço a inutilidade daquele discurso, — já que possuís a lei que vos garante autoridade. E se o rememoro e o transcrevo aqui, é que guardarei, contudo, um supremo reconhecimento se as minhas palavras servirem para elevar um pouco o ânimo de meus irmãos, que vós, despoticamente, vindes porfiando em reprimir’. Não vale a pena prosseguir: era tudo um pastiche gideano, vergonhoso, embora aqui e ali aparecesse uma ou outra frase de efeito. Lembro-me que o dei a ler a algumas pessoas amigas, que manifestaram diferentes reações, e é possível que, à época, eu me tenha vangloriado de incentivar a presença feminina  naqueles bailes de carnaval.

 

O segundo “opúsculo” trata da história real de quando os meninos do catecismo me prenderam no sótão da igreja de Ervália, onde havia – sem que eu soubesse – o féretro do Senhor Morto, só exposto ao público durante as celebrações da Semana Santa. O sótão era escuro, a porta foi trancada por fora e de repente, ao abaixar-me para apanhar o catecismo que me caíra das mãos com aquele baque surdo da porta e a surpresa imediata da  escuridão, dei de cara com a imagem mortuária estendida no sepulcro. Naturalmente tive um choque e senti medo; devo ter chorado e batido insistentemente na porta, até que me abriram – mas foi tudo. O tratamento que dei ao episódio, no entanto,  é que são elas. A descrição inicial até que é sofrível: ‘Eu devia ter no máximo uns seis anos. Por esse tempo já frequentava  assiduamente a igreja, assistia às aulas de catecismo, e a minha alma ia captando os mistérios e os dogmas da minha religião como a cera virgem grava os sons altos e baixos de uma sinfonia fantástica. Auxiliado pelo poder de transfiguração do catolicismo, eu procurava ascender ao mundo ideal das criaturas sobrenaturais. Era a amplidão, a féerie católica, que deslumbra a alma do infante. E como é angustioso para a criança, que ainda não viu o mundo das coisas palpáveis, conceber um mundo invisível! O meu mundo superior era composto principalmente de anjos. O anjo era o meu ideal. O Anjo era a criatura que não agride, não zanga, protege e dá presentes às crianças. Claro está que eu me sentia à vontade com eles. Muito embora nunca os houvesse visto [na verdade, antes dos anjos eu vi mesmo  foi o demônio! Um dia eu conto] sabia que um deles protegia o meu sono e andava comigo pelas ruas, de um modo sutil que eu ainda não conseguira penetrar. Se visse um anjo, nem teria medo [Só li Rilke umas três décadas depois]. E tive o desejo de ver anjos. O lugar mais apropriado para essa entrevista seria naturalmente a igreja.  Em breve, alguns meninos, mais crescidos que eu, entraram em posse do meu segredo e resolveram me proporcionar a tão esperada entrevista. Uma tarde, depois do catecismo, chegaram-se a mim na igreja vazia:

– Você já foi ao altar de São Vicente? É aquele  em cima da sacristia. É lá que ficam os anjos. Você não quer ir lá? — Relutei a princípio. Não acreditava que os anjos morassem ali, tão perto da gente. — Quem vai comigo? — Ninguém. Você tem que ir sozinho, senão eles fogem todos.

Eu era um menino franzino, frágil, dois olhos grandes e humílimos, as pernas muito finas, e usava constantemente um macacão azul, com as minhas iniciais em vermelho, roupa esta a que lá em casa davam o estranho nome de alverol (sic) [O certo seria escrever overol, do inglês over all]. Meus pés calçados galgaram os degraus que levavam ao altar de São Vicente. Foi quando os meus olhos repousaram sobre uma estranha figura: Era um homem bastante magro, os ossos salientes,  a carne rosada, o torso desnudo, os olhos fechados, uma coroa de espinhos maltratando-lhe a fronte, gotas de sangue pisado tingindo-lhe a face, encarcerado num caixão de vidro. Era o Senhor Morto. Invadiu-me uma vertigem; a angústia aliara-se à tristeza, à mortificação, e os meus olhos se encheram de lágrimas’.

Mas já  o livrinho, na verdade um caderno, além de contar a história, se mete a fazer suposições pseudo-filosóficas comparando a minha cena com a transfiguração do Senhor no monte Tabor. Ou seja, digo ali que me senti morto e estendido no caixão de Jesus, com a cabeça coroada de espinhos; em suma, que me transfigurei no Cristo. Esse pecado de jactância poderia perdoar-se pela alegação de infantilidade, não fosse o “poderoso” arsenal “filosófico” que acompanha a narrativa. Há menções a Hegel, Turgueneff (sic), Marx, Kant, J. Von Muller (?), Schelling ‘e os modernos Maritain, Mauriac, Claudel e Chesterton’, tudo assim de cambulhada. Lembro-me agora que eu estava  lendo, em espanhol, “El concepto de la Angustia”, de Sören Kierkgaard, e  me considerava por isto filósofo. Daí certas  tiradas como esta: ‘A angústia cria a imobilidade. Os meus olhos não conseguiam se desviar da face neutra.  O mundo era o caos que antecedera o Fiat. Eu era o ser que se concentrava em sua angústia, na angústia total que precede uma ‘criação total’. Estava absorvido no espírito-uno de Deus. Era o próprio Deus, na minha insignificância planetária. Tinha passado pela morte. Sim, a morte devia ser aquilo: a identificação com o Ser. Já não via os bancos da igreja, as cadeiras; não havia eleitos, nem superiores. A Morte era o NÍVEL esperado na terra e prometido nos céus! As almas, de fato, eram iguais e a morte era  a liberdade absoluta para a integração no Espírito Uno de Deus’. Indefensável, ilegível, impublicável, fantasioso, farsesco, embromador, canastrão! não sei porque arranquei agora esta baboseira de seu merecido esquecimento. Mas houve um que eu consegui imprimir. Depois eu conto  (Continua)

ANJO OU DEMÔNIO (adendo)

Falei acima em ter visto o demônio e que um dia talvez contasse como foi. Pois conto agora: O quintal da farmácia de meu pai se comunicava com a rua por um beco bastante largo por onde podia passar até mesmo um carro de bois; havia um portão para isolar o beco, mas quase sempre estava aberto, pois dava passagem para um depósito de cal do negociante vizinho. Meu irmão e eu brincávamos o dia todo nesse terreiro onde havia um morrote, na verdade um barranco, que nós escavávamos criando pontes e viadutos para a passagem de nossos caminhõezinhos de brinquedo. Uma trilha estreita, ladeando o alto muro que nos dividia do plano superior da rua, levava à parte superior do morrote, onde havia uma laranjeira não muito frondosa. Mas embaixo, no início desse caminho, uma abastada touceira de banananeiras nos causava certa impressão por ser muito densa, formando quase um esconderijo. A estradinha – que fantasiávamos com pontilhões e atoleiros difíceis de cruzar – conduzia à imaginária fazenda de “seu” Marandão (uma possível corruptela de Mário Andrade,  poderoso cliente da farmácia, cujo chapéu de aba  e  vozeirão autoritário nos assustavam). Percorríamos todo o caminho que ia acabar na touceira – a suposta fazenda de “seu” Marandão, mas nosso medo infantil nos impedia sempre de chegar até lá.  Um dia, quando eu brincava sozinho, vi, de repente, saindo da bananeira um preto semi-nu que me arreganhou duas fileiras alvíssimas de dentes. Dei um grito de pavor e fiquei insistindo com as pessoas que me socorreram (empregados da farmácia, depois meus pais) que eu tinha visto o capeta. Meu pai, chegado ao positivismo de Augusto Comte,  concluiu mais tarde que se tratava de um passante que, premido por necessidades fisiológicas, tivesse visto, da rua, a bananeira – e resolveu seu problema ali mesmo, sem a menor cerimônia… Fiquei muito tempo sem voltar ao quintal e só o fiz depois que papai mandou cortar a touceira. Muitos anos depois, cheguei a compor um soneto em que evocava a “visão”:

“SEU” MARANDÃO

“Seu” Marandão era um senhor já velho,

Rabugento e, no fundo, um bom amigo;

Morava em meio ao bananal – abrigo

Da moura-torta e do saci vermelho.

Nasceu da minha ideia, andou comigo,

E era eu mesmo me dando algum conselho;

Fora a imagem de alguém, talvez o espelho

De meu avô, de bigodão antigo.

Um dia, atrás da bananeira, preta

E asquerosa, surgiu-me a cara à-toa

De um negro que supus fosse o capeta.

Chorei convulso, em salto o coração…

Por isso, a moita, um dia alguém cortou-a.

– Nesse dia morreu “seu” Marandão.

FILOSOFIA (poema de ASCENSO FERREIRA)

Hora de comer — comer!
Hora de dormir — dormir!
Hora de vadiar — vadiar!

Hora de trabalhar?
— Pernas pro ar que ninguém é de ferro!

***

Ascenso Ferreira (1895-1965) foi um grande poeta pernambucano de cunho popular; seus principais poemas estão reunidos no livro “Catimbó  e outros poemas”, da Editora José Olympio, 1995. Grandes admiradores de suas meditações filosóficas, estaremos, durante todo o período carnavalesco, recolhidos e enclausurados na Sociedade Patafísica Anti-stress – SPA – do “Templo Filosófico Ascenso Ferreira”, em Portobello (Mangaratiba), entregues a profundos exercícios de meditação tran-sedentária.  Os posts voltarão a partir de 14 de março, mas há artigos aí que não perderam a validade. Aproveitem os saldos da ausência.


Em 1937, três anos após a publicação de Festas galantes, de Verlaine [vide post de 23.08.2010], Onestaldo de Pennafort recebeu do então ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema, grande incentivador das artes, a incumbência de traduzir a peça Romeu e Julieta, de William Shakespeare, para o fim especial de sua montagem na temporada oficial de teatro daquele ano. Foi a oportunidade de Onestaldo demonstrar sua qualidade de tradutor: trabalhando em outra língua produziu o mesmo feito que havia antes conseguido com o poeta francês. O Romeu e Julieta de Onestaldo é igualmente um clássico da literatura brasileira, que superou as traduções anteriores e jamais foi superado por aquelas que, vindas depois, tentaram, em vão, atingir os patamares de excelência em que ele o colocou. Quem se der ao trabalho, ou antes, ao prazer de cotejar a tradução de Onestaldo com o original shakespeariano verá com que souplesse, com que propriedade, com que afinação, o nosso poeta soube reproduzir as sutilezas e nuances do bardo inglês. Romeu e Julieta, obra da juventude de Shakespeare, cronologicamente sua primeira tragédia, é uma exuberância de amor juvenil, de impulso adolescente, de paixão arrebatadora, entremeadas às vezes por um linguajar cru e popularesco, ora faceto ora grosseiro, como se fossem modulações a que se entregasse o poeta para melhor provar sua capacidade de atuar em várias claves e registros diferentes. Tais modulações exigem do tradutor um antenamento perfeito, uma captação de sintonias finas, para que possa reproduzir em sua língua esses efeitos sem lhes alterar o colorido e a ressonância. O grande escritor italiano Italo Calvino, na série de conferências que fez na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, reunidas em livro sob o título Seis propostas para o próximo milênio, toma A Leveza como a primeira das  qualidades de um escritor e, para isto, lança mão precisamente de uma fala shakespeariana contida no Romeu e Julieta. Logo no início da peça, na cena IV do primeiro ato, Mercúcio, amigo de Romeu, falando a propósito dos sonhos em que este último vive imerso, invoca a figura da rainha Mab (uma fada do folclore celta) e descreve-a, de maneira brincalhona, mas ao mesmo tempo sutilissima, em versos que chegam, pela sua leveza, a ter a transparência das teias. A tradução desse texto é de grande dificuldade pela sutileza das imagens e a riqueza vocabular. Onestaldo traduziu-o assim:

Pelo que vejo, foste visitado

pela rainha Mab. Ela é a parteira

entre as fadas. E é tão pequenininha

como a ágata do anel que os conselheiros

usam no indicador. Puxada por parelhas

de minúsculos átomos passeia

por cima do nariz dos dorminhocos.

Feitos de pernas longas de tarântulas

são os raios das rodas de seu carro;

de asas de gafanhotos, a coberta;

as rédeas são da teia de uma aranha;

de úmidos raios de luar, o arreio;

de osso de grilo, o cabo do chicote

e o rebenque de um fio de cabelo.

 

O seu cocheiro, de libré cinzenta,

é um mosquitozinho duas vezes

menor do que o bichinho redondinho

tirado com uma agulha do dedinho

das criadas preguiçosas; a carruagem

é uma metade de avelã vazia

e toda trabalhada, obra de entalhe

devida ao mestre-entalhador esquilo,

ou talvez seja mesmo do caruncho,

velho segeiro imemorial das fadas.

Nessa equipagem é que ela galopa

todas as noites através do cérebro

dos amantes, que então sonham com o amor.

Recentemente apareceu uma tradução de Romeu e Julieta, devida a pessoa versada em assuntos shakespearianos, que inclusive declarou a uma revista que achava a tradução de Onestaldo “açucarada”. Ora, comparando-se a tradução deste com a da pessoa citada, poderíamos dizer que só pode achar “açucarada” a de Onestaldo quem fez do texto uma tradução pedregosa e apoética. Tornando-se dispensável fazer-se um cotejo completo de ambas, ou mesmo apenas da fala de Mercúcio antes citada, seja-nos suficiente dizer que os maravilhosos versos de Onestaldo

Feitos de pernas longas de tarântulas

são os raios das rodas de seu carro

onde as belas aliterações em “r” (raios das rodas do carro) dão, por si sós, o andamento levíssimo dessa carruagem feita de uma casca de noz, foram vertidos pela nova tradutora como

As varas são perninhas de uma aranha,

asas de gafanhoto sua coberta

em que tudo é prosa de qualidade inferior, a distâncias quilométricas da sublime beleza existente em Shakespeare e alcançada na poesia de Onestaldo.

***

O êxito nunca ofuscado da tradução de Romeu e Julieta por Onestaldo de Pennafort encontrou seu eco em 1955 quando ele traduziu especialmente para a Companhia Teatral Tônia-Celi-Autran a tragédia Otelo, também de Shakespeare. Ênio Silveira, que a editou em livro em 1940, assim se refere ao evento: “Foi numa admirável montagem, custosa, sem nenhum auxílio ou bafejo oficial, em bases e condições estritamente comerciais, com um escolhido elenco, a cuja gente figuravam dois astros que dispensam qualquer adjetivação — que a aludida Companhia encenou a tragédia nesta versão no Teatro Dulcina, desta cidade, de 6 de março a 24 de julho de 1956 (e depois em São Paulo e outras cidades do centro e do sul do país) em duzentos e tantos espetáculos — número que à época se disse jamais ter sido logrado por encenações de Shakespeare, numa só temporada, em qualquer parte do mundo, a não ser em palcos de língua inglesa. Por outro lado, a freqüência rigorosamente registrada, de 63 mil e tantos espectadores, resultou num êxito de bilheteria sem precedentes em representações do gênero”. Sem precedentes foi igualmente a cobertura jornalística dispensada à peça, seja nas referências a seu diretor, a seus intérpretes e a seu tradutor. Onestaldo conheceu seu momento de glória vendo seu nome citado centenas e centenas de vezes nos jornais e revistas de todo o país. O espetáculo, belíssimo, com Tônia Carrero no esplendor apicial de sua beleza foi fotografada com cabelos loiros e longos resvalando do leito em que a trágica máscara negra de Paulo Autran se lhe aproxima para dar-lhe a morte naquele último beijo, gesto acentuado pelas palavras magistrais recriadas por Onestaldo:

Dei-te um beijo ao matar-te e ora desejo

ao me matar, morrer dando-te um beijo.

(ELIZABETH BARRETT BROWNING, LOUISE LABÉ E GASPARA STAMPA)

Nos “Cadernos de Malte Laurids Brigge”, Rainer Maria Rilke demonstra seu fascínio pelas mulhe­res que se exauriram de amor e “cujos queixumes chegaram até nós”. Uma delas, Gaspara Stam­pa, volta a ser mencionada na “Primeira Elegia de Duíno”, onde o poeta pergunta: “Não é tempo daqueles que amam libertarem-se do objeto amado, e superá-lo?” (Ist es nicht Zeit, dass wir lie­bend/uns vom Geliebten befrein und es bebend bestehn). Esse fer­vor pela paixão de mulheres de­sesperadas levou Rilke a traduzir a obra de pelo menos duas delas: as cartas de amor da portuguesa Sóror Mariana Alcoforado e os apaixonados sonetos da lionesa Louise Labé. No caso de Labé, es­sa paixão poética foi mais fundo: em vez de simplesmente traduzir, ele como que incorporou o sofri­mento da poetisa e o transubs­tanciou em sonetos rilkeanos, nos quais seu estilo elegíaco-me­tafísico se sobrepõe ao simples desespero do amor feminino não correspondido. Não sem razão, Rilke, antecedendo-se à escola camp­ista, chama ao seu trabalho não Übersetzungen (tradução), mas Übertragungen (mais ou menos “transcriação”, para ficarmos no jargão da escola).

Essas divagações vêm a propó­sito do belo livro que a Companhia das Letras publicou em 1999 com o título “Três mulheres apaixonadas”, no qual 20 sonetos de Gaspa­ra Stampa, 14 dos 24 sonetos de Louise Labé e também 14 de Elizabethh Barrett Browning são apresentados ao leitor em traduções de grande e fluente beleza assinadas por Sérgio Duarte.

Traduzir Stampa, Labé e Elizabeth não é passeio para iniciantes: requer poetas em tempo integral. Daí recorrermos à editora para conhecer a “ficha técnica” de Sérgio Duarte, já que – imperdoavelmente – nenhum dado sobre ele consta da apresentação do livro, embora seja mais ou menos pacífico que o tradutor de poesia responde no mínimo pela co-autoria da obra. Sérgio Duarte, ao que consta, é diplomata e já traduziu  traduziu alguns livros em prosa para a mesma editora. Mas esse nome campainhava algo na me­mória e nos lembramos da exce­lente tradução que fez do longo poema de Nabokov, parte inte­grante do romance “Fogo pálido” (Guanabara, 1985), traduzido por Jório Dauster, outro grande tra­dutor-diplomata da estirpe de Fe­lipe Fortuna, Geraldo Holanda Ca­valcanti, Geraldo Silos e Mendes Cadaxa, seguidores da trilha inau­gurada por Antônio Houaiss.

Gaspara Stampa (15241554) escreveu cerca de 200 sonetos, a maioria dos quais dedicados ao conde Collaltino di Collalto, que não correspondia ao seu amor nem estava à altura de seu talento, ven­do alguns historiadores nesse últi­mo motivo a razão do primeiro. Tentando superar o desprezo do amado, alimentou outra paixão, ao que parece também não correspon­dida, por Bartolomeo Zen, a. quem dedicou 14 sonetos. A partir dos 30 anos, passou a cultivar uma poesia filosófica e religiosa. Dela quase na­da conhecemos traduzido, a não ser o famoso soneto em que des­creve Collaltino (“Se quereis conhe­cer o meu senhor,/ Suponde alguém de vago e doce aspecto,/ Jovem na idade e velho no intelecto,/ A ima­gem do triunfo e do valor”).

Já Louise Labé (1526-1566) teve mais sorte na vida real e em português. Casada com um comer­ciante de cordas de Lyon, era mulher de grande beleza e espírito, rodeada de admiradores que lhe frequentavam o salão. Um de seus sonetos, o de número XVIII, chega a ser licencioso, pelo me­nos para a época. Sua obra foi in­teiramente traduzida pelo também diplomata Felipe Fortuna (Si­ciliano,1995) que, além dos 24 so­netos, também verteu as três ele­gias e o “Debate da loucura e do amor”, em prosa, considerado por muitos sua obra-prima. Além disso, For­tuna manteve-se fiel à métrica do original, usando o decassílabo sá­fico, ou seja, com acentuação nas 4as., 8as. e 10as. sílabas.

O mais sério confronto que Sérgio Duarte necessariamente sofre com estas traduções é sem dúvida o fato de que  Manuel Bandeira, um dos maiores tradutores de poesia do país, já tinha desde muito iconizado em língua portuguesa quatro dos mais famosos sonetos de Elizabeth Barrett Browning (1806-1861). Dotada de requintada sensibilidade, Elizabeth viveu muitos anos reclusa como inválida, tiranizada por um pai despótico e incestuoso. Conheceu, por corresondência, o poeta Robert Browning, e, apaixonados, conseguiram fugir para Florença, onde viveram felizes até o dia de sua morte nos braços do marido. Ao traduzi-la, Bandeira optou pela “recomposição” rilkeana ou, ainda, pela pa­ráfrase, como já fizera com o cé­lebre soneto de Ronsard, de mo­do que é um tanto difícil de se acompa­nhar os passos do original na tradução. Está fora de dúvida que são dos mais belos sonetos de nossa língua, mas são inegavel­mente sonetos de Manuel Bandei­ra com temas de Elizabeth Bar­rett Browning.

Sérgio Duarte não se furtou ao confronto e nos apresenta, entre outros sonetos, suas versões da­queles quatro, nos quais utiliza uma ou outra solução incontor­nável, acrisolada por Bandeira (“Amo-te quanto em largo, alto e profundo”[XLIII]; “Ama-me pelo amor do amor somente” [XIV]). Cumpre aqui lembrar as palavras do minucioso crítico francês Etiemble a propósito de tradu­ções de Rimbaud: “Seria tolice admitir que, sempre que um tra­dutor judicioso conseguir tradu­zir bem uma passagem, seus su­cessores, para não serem acusa­dos de plagiários, estariam condenados a traduzir mal a passa­gem em questão”.

Elizabeth chamou a seu livro “Sonnets from the Portuguese”, simulando com isso tratar-se de uma tradução e evitando assumir sentimentos arrebatados passí­veis de causar reações adversas no julgamento puritano de sua época, 0 que lhe permitiu ainda fugir ao esquema tradicional do soneto inglês (três quadras e um dístico), trocando-o pelo modelo petrarqueano em voga na litera­tura portuguesa de sua admira­ção. Além disso, o uso frequente de violentos enjambements e as paradas súbitas seguidas de fra­ses quase telegráficas inovavam a literatura inglesa vitoriana, dan­do aos sonetos uma leveza que encanta os leitores e desespera os tradutores. Sérgio Duarte este­ve sempre atento a essas peculia­ridades de estilo e pôde reprodu­zir bom número delas. Não lhe te­rá passado despercebido que os sonetos V e VI são do tipo chama­do “gêmeos”, ou seja, a palavra fi­nal do antecedente constitui a ini­cial do subsequente (no caso “Go./ Go from me”). Mas é claro que não se pode salvar tudo: tra­duzir é um ato sempre insatisfa­tório, como ele próprio admite na apresentação do livro.

Resulta daí que o livro é uma co­letânea de belos e harmoniosos so­netos, expressos em versos de leitura sempre agradável, principal­mente por serem sensíveis e bem feitos, diversos da maioria das com­posições “poéticas” que ora vice­jam em nosso mercado editorial. Feita com amor, sem a psicótica en­carnação de Rilke, sem pretender as culminâncias criativas de Bandeira, a tradução de Sérgio Duarte procu­ra acompanhar o original em seus torneios de estilo e recursos poéti­cos sempre com elegância, demons­trando seu domínio da arte de ver­sejar. Transmite-nos as angustiosas desventuras de Gaspara Stampa, os desafios ousados de Louise Labé e os férvidos arrebatamentos de Eli­zabeth Barrett Browing em registros correspondentes, sem querer se so­brepor a eles nem lhes emprestar seu próprio estilo. Que mais se po­de querer de uma obra em versos traduzida?

(Fonte: Três mulheres extenuadas de tanto amar – O Globo 13.03.1999)

***

UM SONETO DE GASPARA STAMPA (traduzido por Ivo Barroso)

SONETTO D´AMORE

Chi vuol conoscer, donne, il mio signore,

Miri un signor di vago e dolce aspetto,

Giovane d’anni e vecchio d’intelletto,

Imagin della gloria e del valore.

Di pelo biodo, e di vivo colore,

Di persona alta e spazioso petto,

E finalmente in ogni opra perfetto,

Fuor ch ‘un poco (oimè lassa!) empio in amore.

E chi vuol poi conoscer me, rimiri

Una donna in effetti ed in sembiante

Imagin de la morte e de’ martìri,

Un albergo di fé salda e costante,

Una, che, perché pianga, arda e sospiri,

Non fa pietoso il suo crudel amante.

-

SONETO DE AMOR

Se quereis conhecer o meu senhor,

Suponde alguém de vago e doce aspecto,

Jovem na idade e velho no intelecto,

A imagem do triunfo e do valor;

Claro o cabelo e a tez de viva cor,

De boa altura e de garboso peito,

Em tudo quanto faz um ser perfeito,

Só que um pouco (ai de mim!) cruel no amor.

E se quiserdes conhecer meu porte,

Vede alguém que nos gestos e semblante

É a imagem dos martírios e da morte;

Fortaleza da fé, pura e constante,

Alguém que embora sofra, arda e suporte,

Não faz piedoso ao seu cruel amante.

Em 1957, quando uma buliçosa agitação se apoderava de nossos meios literários (principalmente nos redutos poéticos), Mário Faustino, o crítico de maior lucidez e influência entre os jovens escritores de então, publicou, no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, um longo ensaio sobre Stéphane Mallarmé, que permanece até hoje o texto, ao mesmo tempo mais “seletivo” e mais abrangente, que se escreveu entre nós sobre o grande simbolista francês do século XIX. Mallarmé – dizia Faustino a certa altura – “é uma torre absoluta e solitária, um animal sagrado e estéril, sem descendência mas indispensável” — fórmula admiravelmente sintética para dizer que a personalidade poética de Mallarmé era irreproduzível, que havia criado um estilo que cabia exclusivamente a si próprio e cujas imitações seriam portanto inúteis e/ou despropositadas. Um leitor, amigo das conclusões apressadas, poderia assumir que Mallarmé é uma pedra (ou antes um monumento) incontornável no meio do caminho da literatura.

Descrito por um de seus contemporâneos (Catulle Mendès) como criatura frágil, enfermiça, de expressão ao mesmo tempo severa e dolorosa, escondido atrás de volumosos bigodes, esse modesto e eruditíssimo professor de inglês, que viveu boa parte de seu tempo na província, conseguiu cativar a amizade e a admiração dos escritores mais representativos de seu tempo, encantados com sua conversação transcendente e suas concepções peculiares, em especial a respeito de poesia. Vivendo em plena difusão do ensino secundário, quando o conhecimento das artes começava a permear as classes não intelectualizadas, Mallarmé professava que a poesia era um ato de sacrifício, de entrega absoluta em busca do inexprimível e que a função do poeta era integrar-se no Nada. Tal arte seria, pois, destinada aos membros eleitos da “tribo”, não podendo ser compreendida pela mediocridade dominante. Daí seu objetivo de criar uma linguagem poética, em que as palavras comuns fossem substituídas por vocábulos eruditos, a construção da frase obedecesse a reminiscências latinas e o sentido do verso se revestisse de dificuldades, empecilhos ou “máscaras” que o tornassem impenetrável à primeira leitura.

No entanto, diversamente da maioria dos poetas de hoje, dos quais não se consegue guardar um verso que seja, Mallarmé foi criador de alguns dos mais emblemáticos momentos da literatura francesa (“La chair est triste, hélas!, et j´ai lu tous les livres”, “Aboli bibelot d´inanité sonore”, “Solitude, récif, étoile”, “Je suis hanté. L´azur! l´Azur! l´Azur! l´Azur!”, “Le vierge, le vivace et le bel aujourd´hui”, “Tel qu´en Lui-même enfin l´éternité le change”, “Donner un sens plus pur aux mots de la tribu”, “Ces nymphes, je les veux perpetuer”, “Un coup de dés jamais n´abolira le hazard”, etc.), tornando-se um recordista do fragmentário, da pedra-de-toque, da gema preciosa, do ônix, do ptyx. Todos lhe reconheceram o valor e a alta aspiração poética, a começar por Verlaine, quem primeiro divulgou seus trabalhos no opúsculo Les Poètes maudits (1884), ao lado de Rimbaud e Tristan Corbière. Mas nenhum outro poeta, francês ou não, conseguiu emulá-lo: seu único discípulo confesso, Paul Valéry, nunca chegou a ser mais que faiscador da pureza verbal preconizada pelo mestre.

O conjunto da obra nada volumosa de Stéphane Mallarmé permaneceu um reduto fechado, propiciando as mais abstrusas interpretações, como se, para lê-lo, fosse necessário desbravar hieróglifos poéticos ou manuscritos cabalísticos. Das inumeráveis tentativas de “decodificação” desses versos resultava não raro a conclusão de que o “sentido” de um poema estava muito aquém do arsenal estilístico utilizado para ocultá-lo. A mania de “interpretar” essa carpintaria poética em busca de um “significado”, mediante a análise rigorosa de cada uma de suas palavras, a fim de chegar ao ur-vocábulo que o vate poderia ter em mente, fez imprimir vastidões de páginas não só na França e países culturalmente subsidiários, mas, em certa época, igualmente na América. Os professores universitários Wallace Fowlie e Graham Robb, especialistas em literatura francesa do Simbolismo, escreveram tratados em que procuraram unlock (revelar, decriptar) cada um dos poemas de Mallarmé. O leitor masoquista se rejubilará com as artimanhas e prestidigitações que ambos empregam à procura dos significados de “ptyx”, “Paphos”, etc. O curioso é que ambos concluem que o pretenso “sentido” de cada poema permanece muito aquém de sua forma poética, donde ser desnecessário compreender o que “se quis dizer”, sendo preferível desfrutar simplesmente “aquilo  que foi dito”.

Sem chegar a constituir um “culto” entre nós, Mallarmé vem sendo no entanto traduzido desde o Simbolismo (Alphonsus de Guimaraens, Batista Cepelos), passando, entre outros, por Luís Martins, Dante Milano e José Lino Grünewald. A meio caminho, Guilherme de Almeida deixou duas exemplares traduções de “Aparição” e “Brisa Marinha”. Mas foi em 1975 que Mallarmé adquiriu definitiva cidadania poética entre nós com o lançamento do livro homônimo em que nos são apresentados 24 poemas (depois ampliados para 36), insuperavelmente traduzidos por Augusto de Campos, e mais uma tradução tríplice (de Décio Pignatari) do L´Après Midi d´un Faune, finalizando com O Lance de Dados na versão de Haroldo. O livro traz um estudo introdutório e notas esclarecedoras que mapeiam definitivamente a importância literária de Mallarmé.

Embora não sejam frequentes em português estudos sobre a poesia de Mallarmé (Otto Maria Carpeaux escreveu em 1942 um definitivo ensaio sobre a “Situação de Mallarmé”, por ocasião do centenário de nascimento do poeta), vez por outra surgem entre nós referências laudatórias meramente circunstanciais. Mas, recentemente, dois tributos literários, à maneira de “Le tombeau de…”, estão se impondo à leitura pela seriedade e competência de seus autores: “Os Anos de Exílio do Jovem Mallarmé”, do prof. Joaquim Brasil Fontes, e “Brinde Fúnebre e outros poemas”, do poeta e tradutor Júlio Castañon Guimarães. O primeiro nos apresenta muito mais do que uma “visita guiada”, o mergulho na angustiosa preparação do poeta para o grande livro do Nada, através da análise da correspondência com seus íntimos nos anos em que vegetou como professor de inglês na no interior da França. Há incursões reiteradas pelo terreno das interpretações, com base em estudos consagrados, mas principalmente valendo-se da espontaneidade ou do oportunismo dessas cartas de/para os amigos do poeta. O trabalho revela um verdadeiro culto da poesia mallarmeana e quase insiste na necessidade do conhecimento de todos esses detalhes de bastidores para a sua melhor apreciação. Seus comentários são amparados em frequentes citações de versos, que aparecem traduzidos em “prosa poética”. Para inteira satisfação do leitor, há um adendo com 13 poemas traduzidos (entre os quais, Les Fleurs e La chevelure vol d´une flamme à l´extrême, não antes compendiados). O conhecimento do autor não se limita ao “anedotário”, aliás volumoso, do poeta; a análise se estende a aspectos de sua sensibilidade ímpar, suas angústias íntimas, seus amores e mesmo às suas atividades esportivas. Trabalho de especialista (da “tribo”), é leitura imprescindível principalmente para os que se iniciam no rito mallarmaico.

“Brinde Fúnebre e outros poemas”, de Júlio Castañon Guimarães, é uma seleta de sete poemas em novas traduções, algumas das quais não anteriormente antologiadas (SoupirHommage à Puvis de Chavannes e Épouser la notion). O autor, conhecido por sua competência intelectual, complementa suas traduções poéticas com uma série de Anotações em que afirma não ser seu intuito “decifrar” os poemas e sim apresentar “apenas elementos informativos mínimos” que lhe permitam justificar as escolhas  vocabulares ou de sentido que determinaram sua tradução. Seu Virgílio, (sua, no caso), foi Émilie Noulet, uma das maiores exegetas francesas da obra de Mallarmé. Mas Castañon a confronta com outras fontes e, em determinado momento, chega mesmo a contestar certas hipóteses de H. G. Cohn. Tendo sido sua a primeira tradução brasileira de “Prose”, o singular (até no título) poema de Mallarmé, considerado seu momento culminante na busca do hermetismo, Castañon não hesita em confrontá-la com duas outras, posteriores, analisando as opções de cada uma. No final desse texto desnorteante aparecem dois personagens, Anastásio e Pulquéria, para os quais o tradutor encontrou as designações precisas ao relacioná-los com duas entidades bizantinas. O livro é uma espécie de visita à oficina do ourives, em que o tradutor põe à mostra o seu instrumental de trabalho. Lição para os tradutores conscientes.

Com os já citados e mais esses dois importantes trabalhos, parece que a obra de Mallarmé pode dispensar novas traduções em português, mesmo porque, segundo Alain-Fournier, “Mallarmé é intraduzível até em francês”.

(Fonte: Cultura – O Estado de São Paulo – 20.01.2008 – Mallarmé, a eternidade em si mesmo)

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GUILHERME/MALLARMÉ

Guilherme de Almeida, entrou para a Academia Brasileira de Letras em 1930 e elegeu-se Príncipe dos Poetas Brasileiros em 1958, mas, apesar disso (ou além disso) foi poeta estimadíssimo em seu tempo e um dos nossos grandes tradutores de poesia até hoje.  De repertório eclético, traduziu desde as frivolidades amorosas de Paul Géraldy (Toi et moi = Eu e você), passando pelas contrafações helênicas de Pierre Louÿs (As canções de Bilitis) até poetas de maior extensão lírica tais como Baudelaire e Mallarmé. Por seu livro Poetas de França — publicado em 1936 e com uma 2ª edição belíssima da Companhia Editora Nacional em 1944 – [vale a pena garimpar nos sebos! e, a propósito, por quê a Casa Guilherme de Almeida não providencia esta oportuna reedição?] — desfilam desde bardos do séc. XV com François Villon até um semi-desconhecido poeta-cientista Luc Durtain, que visitou o Brasil nos anos ´30 e escreveu um poema laudatório sobre a cidade de São Paulo. Mas entre um extremo e outro, temos alguns achados preciosos: Baudelaire, Mallarmé, Verlaine — este último comparecendo com dez poemas, entre os quais La lune blanche (O luar grisalho), em que Guilherme utiliza, com perícia e requinte, a rima quebrada:

O luar grisalho                                   La lune blanche

Brilha no bosque;                              Luit dans les bois;

De cada galho                                   De chaque branche

Parte uma voz que                           Part une voix

Roça a ramada…                               Sous la ramée…

Ó bem amada.                                  O bien-aimée…

Mas onde podemos realmente avaliar  seus dotes de tradutor é nos vinte e um poemas que recolheu sob o título de Flores das ‘Flores do mal’ de Baudelaire, que mereceram o elogio de Manuel Bandeira, o mestre dos mestres do gênero. Embora alguns críticos censurem nessas transposições o vezo romântico do poeta paulista e apontem certas mudanças de tom decorrentes de uma inadequada escolha de termos que não se ajustam à linguagem baudelairiana – as “flores” de Guilherme são das mais legíveis traduções de Baudelaire, consagradas  pelos leitores brasileiros. De Mallarmé, constam do livro dois poemas, Brisa Marinha e Aparição, com que, ao transcrevê-los aqui, desejo brindar-lhes a título de ilustração deste artigo:

BRISA MARINHA

A carne é triste, e eu li todos os livros, todos.

Fugir! Eu sei que há pássaros já doudos

Por se ver entre os céus e a espuma do alto-mar!

Nada, nem os jardins refletidos no olhar,

Retêm o meu olhar que já no mar se aninha,

Nem, ó noite, a luz da lâmpada sozinha

Sobre o papel vazio, intangível de brilho,

E nem a mulher moça amamentando o filho.

Hei de partir! Vapor de mastros oscilantes

Ergue a âncora para regiões extravagantes!

Um Tédio desolado, entre anseios intensos,

Ainda acredita no supremo adeus dos lenços!

E esses mastros, talvez, cheios de maus presságios,

São dos que um vento faz vergar sobre os naufrágios

Sem ilhas férteis e sem mastros de veleiros…

Mas, ó minha alma, ouve a canção dos marinheiros!

APARIÇÃO

A lua estava triste. Arcanjos sonhadores

Em pranto, o arco nas mãos, no sossego das flores

Aéreas, vinham tirar de evanescentes violas

Alvos ais resvalando entre o azul das corolas.

– Era o dia feliz de teu primeiro beijo.

Para me torturar, meu sonho, meu desejo

Embriagavam-se bem do perfume de queixa

Que mesmo sem remorso e sem motivo deixa,

No coração que o colhe, a colheita de um sonho.

Eu ia à toa, o olhar no chão velho e tristonho,

Quando trazendo nos cabelos um sol lindo,

Na alameda e na tarde apareceste rindo.

E eu julguei ver, com seu chapéu de luz, a fada

Que nos meus sonhos bons de criança mimada

Sempre deixou nevar dentre as mãos mal fechadas

Punhados celestiais de estrelas perfumadas.


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