CONSELHO LITERÁRIO
Depois que recebeu as cartas de Rilke, o jovem poeta Franz Xaver Kappus não escreveu mais nada.
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PSEUDO HAI KAI
Em breve estaremos
Nas varandas da Lua
Contemplando a Terra
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POEMA DE AMOR
Um amigo-leitor me pergunta se o Poema (de Amor), que publiquei aqui no blog em 04.02.2011, era um poema concreto. Não diria; o concretismo tinha por programa acabar com o discurso tradicional, abolir as frases completas, o sentido coerente; esperava que as palavras isoladas conseguissem dar ao leitor uma sugestão do que seria – digamos — o “sentido” do verso. Já no caso do meu poema de amor o que houve foi uma utilização de recursos espaciais em voga durante aquele movimento, além de lançar mão, principalmente, de uma estrutura – também digamos — bifronte, que permitisse ao poema dizer duas coisas distintas ao mesmo tempo, mas unidas por um eixo significante comum: ou seja uma espécie de poema-xifópago. Isto foi obtido com a utilização de palavras semelhantes de dois campos diversos: palavras referentes a órgãos do corpo humano (peito, aorta, cava, crossa, termos todos estes correlatos ao coração) justapostas a palavras relativas a casa, habitação (pátio, porta, cave, fossa). A duplicidade é logo introduzida pela flexão verbal “late”, que tanto pertence ao verbo later (pulsar) como ao verbo latir (ladrar), prosseguindo com um cruzamento de ações dos dois campos, atribuíveis ao cão e ao homem, para concluir numa alternância de extremos (matar/morrer) que se amalgamam numa ação única.
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O FUTURO DA CRÔNICA
Discutiu-se ultimamente o futuro da crônica. Que formato terá daqui a alguns anos essa categoria ambígua que escapa a definições precisas e invade atualmente um espaço cada vez mais amplo dos jornais? Alguns estrelados medalhões deitaram fala, expuseram teorias quase antagônicas e chegaram mesmo a esquematizar modelos aplicáveis à maioria dos profissionais do gênero.
Um deles seria o do cronista-padrão, esse que consegue se incluir em todas as regras, vestir todas as camisas, adotar como bíblia o manual do politicamente correto, para agrado total de seus leitores. Ele votou no governo, mas para acompanhar o rumo atual da mídia, vez por outra aplica uma cotovelada no baço presidencial, nada no entanto que lhe possa comprometer a esperança de reeleição. É de esquerda, é claro, daquela esquerda que ganha, mora e come bem; opõe-se em passeata ostensiva às potências opressoras (os EUA, é claro), e sonha com Aspen e a Disneylândia. Mesmo sem propósito, arranja sempre uma oportunidade para falar no reacionarismo ou na pedofilia da Igreja e condenar o atual Papa como ex-participante das milícias nazistas. Seu posicionamento ético vai ao cuidado de evitar os adjetivos, de nunca incidir no elitismo de um advérbio de modo, e, se acaso emprega, sem querer, uma palavra proparoxítona, não deixa de fazê-la seguir-se de um (opa!) (hein!) (urgh!) para que o leitor saiba que ele abomina a erudição e ser tratado de culto seria para ele o mesmo que saber-se aidético.
Outro filão abrigaria os cronistas-biográficos. Mesmo tendo lido Drummond (“Não recomponhas /tua sepultada e merencória infância”), eles estão certos de que os leitores se amarram em suas conquistas amorosas (falsas ou não), que se tornarão sonhadores com suas histórias familiares ou lendo as descrições do tempo em que soltavam pipa ou batiam uma – bola – no quintal. O papagaio do vizinho, o porteiro do 301, a moça que passa de bicicleta para a praia assumem no seu teclado a condição de heróis, o fascínio das lendas. Quando alertados, dizem sempre que Drummond, em prosa e verso, se socorreu com frequência (com mestria, digo eu) de suas recordações infantis, seus casos de família, a cobertura do cotidiano, mas se esquecem de que a um Drummond se perdoam todas as contradições ante a força de um estilo irretocável.
Um terceiro nicho seria habitado pelos cronistas-truculentos: nas duas primeiras frases já mostram as bordunas com que vão baixar o cacete (agora diz-se pegar pesado) em quem quer que seja o bode (agora diz-se a bola) da vez. Seus leitores (em geral frustrados) se divertem com suas grosserias, seu desrespeito generalizado, suas atitudes contra-culturais. Ele interpreta a voz enrustida dos que não sabem reclamar, dos que têm medo de falar alto, dos que vivem pagando mico sem pedir sequer abatimento. Numa sub-seção se acoitam os pornógrafos e os escatológicos (pois há quem goste).
Finalmente, há muitos outros que vivem à sombra dos faits divers. Em geral escrevem diariamente e nada mais cômodo que embarcar na notícia quente: mortes trágicas, sismos, inundações, chacinas (eles adoram chacina até como palavra) são os estímulos que os levam às 3500 batidas com espaço ou sem. Soltam-se nos sueltos. Quando o tema das notícias se repete à náusea, por ex. ilustres mortes sucessivas (de figurões e artistas de cinema, sem contar com a de policiais ou de pessoas inocentes assassinadas por policiais) – recorrem logo à direção oposta: maternidades, jardins-de-infância, inseminação artificial, gravidez tubária, dia das Mães. Ou ainda: telefonam aos zoológicos para saber se não veio à luz algum cacarequinho capaz de disputar (e ganhar) as próximas eleições.
Como resultado dessas parlendas, tivemos a proclamação de que esses cronistas do cotidiano serão forçados, no futuro, a mudar de divisão com a crescente concorrência das próprias notícias dos jornais, das revistas e da televisão, veículos mais empenhados ainda em baixar o nível para subir no Ibope da audiência. Depois de analisarem essas categorias, os novos apóstolos das mesas-redondas acabaram profetizando a volta da crônica literária, de reflexão ou filosófica, ou seja, de textos no estilo de um Ruben Braga, um Carlos Drummond, uma Clarice Lipector. Com a carência atual de valores desse nível, talvez quisessem assinalar com isso a futura desaparição da crônica.
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CARREIRA PROFISSIONAL
Meu pai queria ver os filhos encaminhados para as grandes profissões liberais ou, melhor ainda, para a carreira das armas (Exército, Marinha e Aeronáutica). Eu, a contra-gosto, andei namorando as três, mas a essa altura já estava de beiço caído pela Dama Branca da Literatura.
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OUTRO PSEUDO HAIKAI
Já não tenho auroras
Vivo em crepúsculos
A meia-luz é o meu amanhecer
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EXTREMA UNÇÃO
No artigo sobre Alphonsus de Guimaens, publicado aqui na semana passada, aludimos à observação de Dom Marcos Barbosa a respeito da expressão “olhos bentos”, que o poeta empregou no soneto VI da Segunda Dor de seu livro “Setenário das Dores de Nossa Senhora”. A ressalva de Dom Marcos (“óleos bentos”) é de todo pertinente e não sabemos por que as edições posteriores não emendaram o que teria sido um erro de revisão da primeira. Sabe-se que a extrema unção, sacramento ministrado aos enfermos in articulo mortis, em que o moribundo é ungido (untado) pelo sacerdote por seis vezes (nos olhos, narinas, ouvidos, boca, e nas mãos e nos pés), é feita mediante a umidificação dos dedos do celebrante numa espécie de plaqueta branca embebida de azeite puro de oliva. Este azeite, chamado óleo dos enfermos, é consagrado pelos Bispos na Quinta-feira Santa, na Missa Crismal, e é denominado comumente de santos óleos ou óleos bentos. Fica evidente que o poeta quis dizer que as mãos de Maria eram feitas da mesma essência pura desses óleos e não compará-las a improváveis olhos astrais e bentos, que seriam algo fantasmagóricos.





















