Traduzi dois livros de Jane Austen: Emma e Sense and Sensibility, e neste último, que aliás foi o meu primeiro, tive um pequeno problema de tradução… com o título. Ele exprime uma perfeita dicotomia com o agravante de encerrar uma aliteração. A hipótese imediata para os preguiçosos seria Senso e Sensibilidade, preservando assim o paragramatismo. Mas “senso” em português não é o mesmo que “sense” em inglês, e a alternativa bom senso deita por terra a aliteração. Por outro lado, “sensibility” não tinha para Jane Austen o sentido moderno de sensibilidade, equivalente a suscetibilidade, refinamento dos sentidos.Ela o emprega mais na acepção de sensível, de pessoa desprendida, que demonstra bons sentimentos. Eu me havia decidido por “sentimento” para o “sensibility”, mas faltava resolver o “sense”. De repente, afastei a obrigatoriedade da aliteração ao me lembrar que Pride and Prejudice também obedecia ao esquema(dicotomia+aliteração), e fora traduzido brilhantemente em português por Orgulho e Preconceito, mantendo a dicotomia mas ignorando a aliteração, tudo em proveito daquela forte oposição vocabular. Foi assim que cheguei ao Razão e Sentimento. Mas, e você, como faria?
Aproveito, já que estamos falando em Jane Austen, para dizer a quem quiser saber algo ou tudo sobre essa autora que procure o site “Jane Austen em português”, de Raquel Sallaberry, uma dedicação e um carinho que todo autor gostaria de receber. E para os filmes baseados em suas obras, o site de Márcia Caetano Langfeldt.
Adendo: Jane Austen violada: meshup = mixórdia
Confesso que não li e não gostei de “Orgulho e Preconceito e os Zumbis”. E não vejam nisto um preconceito contra as inovações, pois sou dos primeiros a apoiá-las. É que neste caso não se trata de um make it new e sim de uma apropriação indébita, um ato de violação de direitos autorais. Além de me parecer desonesto que um senhor Seth Graham-Smith passe a faturar milhões (em várias partes do mundo) em cima da obra da tiazinha de Steventon, que pouco lucrou com suas criações fabulosas, este senhor (recuso-me a usar a palavra autor) lança mão (transcreve) o texto do romance clássico de Austen e introduz na narrativa (segundo as notas publicitárias) uma invasão de zumbis e outros tipos avampirados que lutam contra e dialogam (!) com os personagens originais da novela. Em vez de ser resenhado e indicado aos leitores jovens, o livro devia ser processado, pois usa o próprio teor da obra, ou seja, dá como seu um texto que não lhe pertence e que pode ser facilmente reconhecível como sendo de outrem. Como as novidades estrangeiras são acolhidas aqui com o maior entusiasmo, temo que amanhã apareça na praça um “Dom Casmurro e a mula-sem-cabeça” ou que a enigmática e sonsa Capitu surja traindo Bentinho com Macunaíma ou com o Saci Pererê.


Caro Ivo
seguindo às acepções dadas acima, segue esse com cara de tese proceneta: Percepção x Delicadeza. Um título nada comercial.
com apreço
Eric
Sr. Ivo
que maravilha ler sobre as razões da tradução e agradeço, lisonjeada, a referência ao meu Jane Austen em Português.
Ah! as mixórdias… ainda pretendo escrever a respeito.
O site da Márcia é muito bom e na próxima semana publicarei alguns textos dela.
um abraço
bom enrosco e bela saída! pessoalmente devo confessar o pecadilho de gostar também de sensibilidade e bom senso…
quanto ao meshup, sem dúvida é um meshup mesmo. mas fazer o quê? esta é nossa sensibilidade de massas, e acho simpático e instrutivo conhecer essa autorreflexão do zumbinismo contemporâneo.
Ivo:
algo que sempre me intrigou e é muito, mais muito mais uma pergunta do que qualquer pretensão a sugestão: por que Razão e não Sensatez?
Quanto a zumbis e outras apropriações, só posso concordar com sua postura e comentários. Nem rir do assunto consigo.
Abraço,
Celina
Ivo, só alguém com sua experiência (e “sensibilidade” linguística e bom humor) poderia nos brindar com uma reflexão tão legal.
Seu livro sobre as traduções de “O Corvo” é uma das leituras obrigatórias em meu curso na graduação e na pós.
Obrigada por partilhar conosco um “naco” de sua preciosa experiência e senso crítico.
Um grande abraço,
Fátima Abbate
Prezado Ivo,
sou presidente da Jane Austen Sociedade do Brasil e gostaria de pedir sua autorização para publicar seu post acima. Estamos justamente discutindo o livro Sense and Sensibility e até tocamos no assunto das traduções dos títulos.
Obrigada,
Adriana Zardini
http://www.jasbra.com.br
Sr. Ivo,
esqueci de dizer que sempre fiquei na dúvida sobre o título, ora achava uma boa idéia razão, ora bom senso.
E por fim adotei “Razão e sentimento”, inclusive como categoria nos meus blogs quando me refiro ao livro.
Mas “sensatez”, mencionada por Celina, também me parece muito boa!
[...] mas nada como saber as razões do tradutor! Cliquem na imagem para ler o restante do post no blog Gaveta do Ivo que trata da escolha do título Razão e sentimento para Sense and [...]
Caro Ivo,
Cheguei ao seu site por meio do blog da Raquel que o senhor cita em seu post. Ainda não tive oportunidade de ler “Sense and Sensibility”, apesar de estar no momento deslumbrada com o trabalho de Jane Austen e já ter encomendado uma leva de livros dela no original em inglês e pretender em seguida ver trabalhos de tradução como o seu. Mesmo estando alheia ao conteúdo do romance, pelas suas justificativas me parece que o título escolhido pelo senhor é adequado. Manter a sonoridade em traduções deve ser uma tarefa no mínimo complicada…
A respeito de “Orgulho e Preconceito e Zumbis”, confesso que tenho vontade de ler, não sei, me chamou a atenção, como deve ter acontecido com muitos jovens. Vou arriscar, quem sabe se não é uma boa sátira? Se o conteúdo for de todo ruim, já se pode notar pelos primeiros capítulos… Só queria acrescentar que os textos da Jane Austen já caíram no domínio público, pelo menos é o que está advertido no site da wikipédia em inglês, que inclusive disponibiliza o texto na íntegra (se bem que as leis de direitos autorais no Brasil e em vários outros países onde o livro foi publicado são diferentes), isso livra o autor de qualquer processo por apropriação de material alheio.
Mas enfim, interessante o seu post, procurarei acompanhar seu blog!
Caro Ivo,
Não sabia até a pouco que o senhor possuia(possui) um blog…fico feliz em saber e dividir a sua posição em relação a sense and sensibility e também pela indicação do site da Raquel que é uma das pessoas que mais entende hoje de Jane Austen no Brasil.
O que me intrigou até o momento foi o seu seguinte: “temo que amanhã apareça na praça um “Dom Casmurro e a mula-sem-cabeça” ou que a enigmática e sonsa Capitu surja traindo Bentinho com Macunaíma ou com o Saci Pererê.”Capitu é Enigmática ao extremo, mas o senhor realmente acredita que ela também é sonsa?
Bruna,
sempre achei que a Capitu, além de enigmática, era um tantinho sonsa, no sentido mineiro de dissimulada,de alguém que não deixa transparecer todo o seu interior. Pode ser mera impressão minha, de leitor, mas, em se tratando de Machado, tudo é possível. Na próxima semana, estarei postando outro artigo sobre Jane Austen.
Obrigado pela visita e volte sempre (como dizem no comércio).
[...] O senhor já nos presenteou com “A Razão de Jane Austen” e a cartinha para Paulo Francis, sobre a escolha do título em português. Houve mais algum [...]