A Caixinha, apesar da instância de publicação devida à bondade de meu padrinho, acabou ficando na gaveta. Eram versos infantis que, embora tivessem sido remanejados e posteriormente metrificados, já se distanciavam dos arroubos amorosos que me vieram em seguida. Terminando o primário em minha cidade natal, fui em 1942 para o internato da Academia de Comércio de Juiz de Fora, onde fiz o admissão ao ginásio, curso que durou um ano. Lá comecei a escrever um “romance”, Alma de Criança, de que me envergonho até hoje, e versos apaixonados para amadas inexistentes ou freqüentadoras da minha imaginação. Era uma nova caixinha de música, para a qual escrevi, mais tarde, este prefácio:
Num dos pontos mais altos da montanhosa Juiz de Fora, ergue-se a construção que foi, em seu tempo, a Academia de Comércio, secular educandário dirigido pelos Irmãos do Verbo Divino, congregação fundada em 1875 pelo Padre Arnaldo Janssen na Holanda e difundida pelo mundo inteiro.
Foi lá, cursando o admissão ao ginasial, nos idos de 1942, que formei o meu temperamento, cerceado pelas influências do ambiente e dos moldes educacionais. Quase sempre sozinho, arredio dos colegas, meus recreios eram verdadeiras meditações. Essas, a princípio, não passavam de angustiosas saudades de casa, dos amigos e da terra natal. Em meio àquele mundo de meninos, considerava-me um estranho, sem habilidade para os esportes, sem alegria suficiente para acatar de bom grado suas brincadeiras de mau gosto.
Depois que me acostumei às saudades, as divagações se complicaram; acresceram-se de um fundo religioso, influenciadas pelas leituras de Kempis e Toth. Meu maior desejo, nessa época, seria fazer parte do coro dos irmãos, que enchiam com suas vozes de barítonos as paredes côncavas da capela onde eu passara afazer minhas divagações. Uma tarde, encontrando a capela vazia, as luzes veladas, abandonei a impossível leitura e me dirigi a uma das portas laterais. Não nos era permitido, aos alunos, passear por aqueles recantos: a porta conduzia a um pátio, único lugar (exceto as escadarias, que também nos eram vedadas) de onde se descortinava a cidade. Durante toda a semana, perdíamos a noção exata, no espaço, de onde nos achávamos em relação a ela; dizíamos “lá”, mas esse “lá” era vago e monométrico, sem profundidade nem delineamento. Tudo nos levava a crer que habitávamos um lugar à parte, sem relação direta nem correspondência lógica com a cidade. Pois, dali do pátio, naquela noite, longamente sondei-lhe as sinuosidades, arrastando meu pensamento pelos seus planos, emborcando minha alma sobre suas anfractuosidades, abrindo uns braços elásticos e imaginários para abarcar-lhe os polos, inflando-me conjecturalmente para alcançar-lhe a extremidade oposta, convergindo-me todo num abraço ancho, inseguro, hipotético.
Depois, fui-me embora e, no dormitório, antes que as luzes se apagassem, tomei o meu Kempis (livro I, 13) e li uma passagem que já conhecia e anotara: “Ignoramos o que podemos, mas a tentação manifesta o que somos. Primeiro ocorre à mente um simples pensamento, e dele nasce a importuna imaginação, depois o deleite e o movimento”. Sim, não passava de um simples pensamento, mas que se agigantava, luminoso, com seus braços de ruas e os seios de praças… Era preciso resistir ao pensamento do amor!
Havia também um pequeno horto, privativo dos padres, situado em direção oposta à capela, nos fins do terreno do colégio. Uma vez por semana, entrávamos por ele em direção da piscina natural; mas aquele contido desejo, há sete dias, de mergulhar profundamente nas águas que dormiam à sombra fina dos bambus, não permitia que admirássemos com atenção as árvores, e também dele tínhamos uma idéia imprecisa e fragmentária, como se fosse uma cidade mágica, agreste e liliputiana, imersa na sombra e no silêncio. Ali também eu penetrava, sub-repticiamente, esgueirando e atento, até o quiosque, ou mais, à aleia de plátanos, onde havia um banco talhado no tronco de uma árvore caída. Ficava oculto ali durante todo o recreio, ora simplesmente gozando a quietude e o silêncio, outras vezes lendo o meu Kempis (“ Ignoramos o que
somos…”) Sim, nunca poderia julgar que fosse capaz de transgredir, de insurgir-me deliberadamente. Portanto, eu era assim e ignorava; podia, e, no entanto, me fazia reprimir. E podia somente àquele ponto, ou havia novas e imprevistas descobertas?
Uma vez conhecida a minha vontade de poder, exercitá-la foi uma aventura timorata e estranhamente deliciosa… E daí nasceu a “importuna imaginação”.
***
Entre os pinheiros transplantados da Alemanha, no horto seminatural, onde os bambus se mesclavam com os plátanos europeus, brotaste em mim, ó primeiro longínquo verso, floração tímida e débil, em meio a uma natureza sóbria e vetusta! Foste o supino companheiro das minhas divagações, dos meus passeios proibidos e das noites insones no vasto dormitório; foste, naquelas tardes frias e tristes, de uma tristeza branda e silenciosa de claustro, a pequenina chama que me atiçava o desejo de uma aventura maior, de passar além dos corredores sombrios, além das portas enormes e dormidas, de descer correndo a escadaria imensa e de abraçar, lá embaixo, as luzes da cidade que esplendia como um lago imenso e vário, à luz da lua estacionária e fresca…
Estas são as últimas folhas dos plátanos de minha imaginação: algumas surgiram quando eu era um simples caule sem bifurcações nem ramos entrelaçados — foram as primeiras a cair. Tombaram outras depois, nas sazões do outono, mais tristes e mais pesadas. E agora, no solo confundidas, irão se apodrecer ao pé do tronco para surgirem depois, transmutadas em novas e verdes, até que a árvore caia e seja feito dela um banco e nele se sente um jovem que ensaia um tímido pensamento, que engendrará uma importuna imaginação, que por sua vez será um deleite, um movimento, uma necessidade imperiosa, apesar de vã e fugaz, de enganadora e triste…
Ivo Barroso
1948
Este prefácio foi composto para um livro que datilografei e em seguida mandei encadernar em percalina cor de vinho, com o titulo POESIAS ESCOLHIDAS, para dedicar ao meu grande amigo Albertus da Costa Marques. Lá estavam os versinhos da Caixinha de Música, seguidos das novas produções que já me pareciam publicáveis. Mas também este ficou no exemplar único, na estante dos inéditos… Em 1981, eu já havia publicado em Portugal essas poesias escolhidas (sem a Caixinha) com o nome de Nau dos Náufragos, reunindo poemas do período 1950-1980, e, numa vinda ao Brasil, em 1998, encontrei o editor Paulo Rzezinski, da Atheneu, que se protificou a editá-los. Acabei desistindo da ideia, pois já achava os versos superados e queria estrear aqui com um livro que refletisse de fato as minhas possibilidades. Mas aquiesci ao pedido do editor de publicar um livrinho cujos direitos autorais reverteriam ao Lar de Frei Luiz, entidade filantrópica e assistencial, situada no Rio. O livrinho saiu naquele mesmo ano pela Editora Atheneu , e espero que tenha rendido algum auxílio àquela associação beneficente. Foi assim que a Caixinha de Música finalmente veio à lume (como dizia meu bom Edgard), embora nunca tenha entrado oficialmente na minha bibliografia, pois a capa é de um mau gosto transcendente.


Ivo,
maravilhosa a iniciativa de você se comunicar também através do Blog.
Por trás das suas linhas traduzidas, do pensamento do poeta e do prosador ao qual se dedica, nos interessa descobrir o tradutor, conhecer os processos íntimos de quem recria um texto sendo-lhe fiel, aquele que lida com a paradoxal e delicada liberdade que o ato de traduzir impõe e a tradição que o autor original respira e exige, seja na escolha das palavra, sintaxes, métricas…
Haverá processo criativo tão “limitado” e ao mesmo tempo tão “infinito”?
Ocorrerá tentações em se melhorar essa ou aquela oração, ou ainda precisar melhor um adjetivo, tarefa que tenha escapado ao autor primeiro?
As possibilidades em lidar com a palavra, tanto em sua significância vasta, quanto nos barulhos estranhos de seus fonemas, que somente o lidar minucioso percebe, não faz com que o tradutor acabe, de tanto explorá-la, esquecer o sentido mais banal e cotidiano que dela emerge?
E se isso ocorre, a palavra não fica esvaziada, morta?
Como é lutar com a força emocional de uma palavra falada em nossa lingua há 700 anos e repleta de cargas emocionais que advém de longinquo tempo e região, como Roma, Atenas e Meca?
Quais são as tentações e transcendências desse delicado artesanato de tradutor?
Com este blog podemos escutá-lo em entrevistas, também através das traduções as mais diversas. Em seus francos depoimentos, nós sondamos um pouco a silenciosa profissão do tradutor e, de alguma maneira, vislumbramos as questões habituais que lhe acompanham, há anos.
É um enriquecimento para nós!
André Marinho
Caro Ivo
como sou um felizardo que tem A Caixa de Música, acostumei-me à capa, que nao desmerece em nada o seu livro, apenas não tem o mesmo trabalho gráfico das outras editoras. Gostei do que li, que é diferente da Nau dos Naufragos. Dois livros em contextos diferentes.
com um abraço
Eric
Que delícia! Isso é que é juventude! O senhor “abriu” um blog. Já está nos meus favoritos. Tenho aqui A caça virtual, onde há o verso “O ser é ser porque já não se explica.”, e que resume muito o que procuro: ontologia e moral. Sei, talvez, o autor não tenha pensado na moral, mas… Volto sempre à Papel & Chão, Hommage, sonata-forma, no IV centenário da morte de Camões. Esse poema é de uma ousadia lírico-narrativa notável, e sua fatura final é excelente. Beijos, Lúcia.
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